20th Century Women – Mulheres do Século 20


Estar sempre aberta e humilde para aprender, especialmente com as pessoas. Viver cada época da sua vida com atenção e com gratidão. Degustar da vida, seus sabores e dissabores. Ter a coragem de decidir se quer ter filhos ou não. Avançar e evoluir e tentar contribuir da melhor forma possível para que as pessoas ao redor, como você, sejam melhores. Tudo isso faz parte da vida e faz parte deste filme incrível chamado 20th Century Women. Ele concorreu ao Oscar 2017 como Melhor Roteiro Original e eu tinha certa curiosidade de assisti-lo, mas vi que ninguém tinha se empolgado muito com ele. Mas eu sim.

A HISTÓRIA: Ondas do mar. Santa Bárbara, 1979. Vemos a cidade do alto e, depois, um carro em chamas em um estacionamento. As pessoas começam a correr para ver o que está acontecendo. Dorothea (Annette Bening) e Jamie (Lucas Jade Zumann) olham admirados para a destruição. Dorothea diz que aquele era o Ford Galaxy do marido dela, o mesmo carro que eles usaram para trazer o filho deles do hospital para casa.

Jamie conta que a mãe dele tinha 40 anos quando ele nasceu, e que todos diziam que ela era muito velha para ter um filho. Dorothea conta sobre o primeiro contato com o filho, na maternidade, e como ela disse que a vida é grande e desconhecida. Esta é a história desta mãe e deste filho e das pessoas que conviveram com eles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a 20th Century Women): Que bela e grata surpresa este filme! Ele me conquistou, desde o início, pela narrativa criativa e, claro, pelos ótimos personagens, pelo desenvolvimento da história e pelos diálogos. 20th Century Women é um exemplo fantástico de como o roteiro é algo fundamental em uma produção.

Como eu comentei na crítica anterior, de Ghost in the Shell (que você encontra por aqui), o roteiro para mim sempre será o elemento mais importante de qualquer produção. Em 20th Century Women ele é o elemento central e a melhor qualidade da produção, ainda que não seja a única, é claro.

Este filme conta a história fantástica de uma mulher de 55 anos que há vários anos cuida sozinha da criação do filho adolescente. Vivemos o final dos anos 1970, uma época de muitas modificações sociais e, claro, de avanços também na liberação da mulher. 20th Century Women coloca as mulheres em evidência, com certeza, mas o filme não se resume apenas a isso. Muito rico e interessante, ele também trata sobre a relação de mães e filhos e sobre como preparar um homem para o futuro.

Afinal, o que nos faz ser pessoas bacanas, realmente inseridas e participantes da sociedade? Que valores são importantes repassar para a frente, e como fazer isso sem sufocar quem precisamos educar? 20th Century Women trata de educação, mas trata também de amadurecimento e do desenvolvimento humano. E aí você pensa: puxa, mas tratar de todos estes temas em um filme deve ser algo complicado e maçante. Poderia ser, mas o roteirista e diretor Mike Mills faz isso com cuidado e maestria exemplar.

Como acontece com todo filme fantástico, sobre 20th Century Women também seria possível escrever praticamente um livro, ou um tratado. Não farei isso, vocês sabem, primeiro porque este não é o espaço adequado e, depois, porque com o meu manifesto eu já tinha defendido textos mais curtos e objetivos, citando que em casos especiais (e este é um deles) eu poderia escrever um pouco mais.

Gostei de algumas sacadas bacanas de Mills. Destaco duas. A primeira foi contar a história destacando alguns personagens centrais e os anos em que eles nasceram. A protagonista, claro, é Dorothea, que nasceu em 1924 e que tem a sua introdução narrada pelo filho, um rapaz que tenta entender a vida, a sua referência principal (a mãe) e tudo que lhe cerca sob a sua própria ótica pela primeira vez.

Não importa a idade que você tenha. Todos nós já fomos crianças e adolescentes na vida. Quando éramos crianças, nos divertíamos e tínhamos os pais como referência máxima. O respeitávamos, lhes obedecíamos e começávamos a conhecer outras pessoas e outras relações na escola e em outras partes. Na adolescência começamos, pela primeira vez, a pensar pela nossa própria conta. Percebemos mais as influências variadas que nos rodeiam e já não achamos que tudo o que nossos pais nos dizem é certo.

Este filme começa justamente neste momento na vida dos protagonistas, Dorothea e Jamie. Depois de sabermos um pouco mais sobre a Dorothea que nasceu em 1924, ela nos conta um pouco sobre o filho que nasceu em 1964. Sempre que conta cada história, Mills pinça alguns fatos e imagens que ajudam a contextualizar a geração daquela pessoa. Porque somos muito influenciados pelas nossas famílias, nossos pais e antepassados, mas definitivamente somos também produtos culturais e da sociedade em que nascemos e crescemos.

20th Century Women é, assim, um filme sobre desenvolvimento humano. Sobre o processo de crescer e de envelhecer e tudo que nos acontece no caminho. Enquanto Jamie está começando a abrir as suas asas e a pensar por conta própria, Dorothea está aprendendo a envelhecer sem estar casada e no padrão social estabelecido como mais comum para a época. Ela é uma mulher, mas é também mãe e profissional. Tem os seus desejos e as suas fraquezas e, sobretudo, tem muita vontade de aprender e um respeito profundo pelos demais.

Esta é uma das maiores belezas deste filme e da personagem principal da história. Essa abertura para aprender, para olhar para o outro e para si mesmo com sinceridade e atenção. Dorothea é uma personagem incrível, uma mulher incrível. E ela nos lembra tantas e tantas outras mulheres, inclusive as nossas mães. Muitas vezes demoramos para perceber isso, mas nosso pai e nossa mãe são pessoas comuns que decidiram, em algum momento da vida, ter filhos.

Ainda que quando somos crianças achamos que eles são perfeitos e que tudo que eles falam deve ser levado em conta e respeitado, conforme o tempo passa e nós mesmo passamos por diversos desafios na vida, percebemos com ainda mais verdade quem são os nossos pais. Como eles acertam e como eles erram. Como eles tem as suas inseguranças e as suas convicções. E como nós nem sempre precisamos concordar, e que tudo bem se for assim. O importante, e 20th Century Women trata disso muito bem, é conhecermos com profundidade uns aos outros, nos respeitarmos e nos amarmos sempre.

O roteiro de Mills também destaca as outras duas mulheres que fazem parte da vida de Jamie e Dorothea: a jovem estudante Julie (Elle Fanning), amiga de infância de Jamie; e a jovem fotógrafa Abbie (Greta Gerwig). Também conhecemos um pouco mais sobre a única figura masculina mais presente na vida do garoto, o mecânico e “faz-tudo” William (Billy Crudup), que está ajudando Dorothea a reformar a casa onde ela, o filho e Abbie moram.

Observadora inteligente do passar do tempo, Dorothea acaba ficando um pouco “perdida” com as mudanças pelas quais o filho passa na adolescência. Como acontece com todo adolescente, Jamie já não consegue dialogar com a mãe como antes e parece um tanto “revoltado” e/ou “distante”. Dorothea não sabe, porque ele é filho único e ela não teve outras mães para compartilhar sobre isso, mas esses comportamento são normais para a idade. Preocupada com o que está acontecendo, ela pede ajuda para Julie e Abbie, o que deixa Jamie revoltado.

E assim, com muita inteligência e cuidado, Mills avança na evolução de Dorothea e Jamie enquanto mãe e filho e enquanto indivíduos. Também avança nas relações entre os personagens centrais desta história, uma pequena comunidade que desbrava as interessantes e mutáveis relações entre as pessoas. Outra qualidade que achei muito interessante no roteiro de Mills foi a forma com que ele destacou algumas obras durante toda a produção.

Além de fazer uma linda homenagem para o clássico fundamental do cinema Casablanca, 20th Century Women abre espaço para citar diversas obras que acabam embalando o crescimento e o autoconhecimento de Jamie e de Julie. Enquanto a adolescente busca entender o amor e a sexualidade, Jamie mergulha em livros emprestados por Abbie e que tentam apresentar um pouco da complexidade feminina. Todos os temas são tratados com muita franqueza na produção porque os personagens vivem as suas vidas desta forma franca, bem ao sabor do final dos anos 1970 e início dos anos 1980.

Gostei também de como 20th Century Women mostra que não existem fórmulas de mulher (ou de homem) para serem seguidas. Enquanto algumas mulheres podem preferir nunca mais casar e ficarem sozinhas grande parte da vida, outras podem escolher o casamento e ter filhos, ao mesmo tempo que outras mulheres vão casar e não vão querer engravidar.

O século 20 trouxe esta liberdade para as mulheres. Da mesma forma, os homens podem ser mais ou menos sensíveis em relação a entender e conviver com as mulheres. Tudo isso vai depender da educação que eles receberam e das escolhas que fizeram na vida. É possível criar os filhos para eles serem mais sensíveis e inteligentes, isso Dorothea nos mostra bem. Mas, como sempre, esta não é uma decisão apenas de uma mãe ou de um pai, vai depender, essencialmente, da escolha do indivíduo de ele ser mais aberto, humano, sociável e sensível. Seja ele homem, seja ele mulher.

O roteiro é a grande qualidade desta produção. Mas ela também acerta na escolha do elenco, de cada personagem e, principalmente, na entrega de cada atriz e ator ao seus respectivos papéis. Todos estão ótimos, mas Annette Bening faz um trabalho excepcional. Ela está impecável. Finalizando as qualidades da produção, gostei muito da condução de Mike Mills, que é detalhista e perfeccionista. Ele sabe valorizar os cenários e os lugares mas, especialmente, os atores e o texto. Todos os demais aspectos que ajudam o filme a ser ambientado em sua época, inclusive a ótima trilha sonora, também funcionam muito bem. Enfim, um filme completo e de grande, grande qualidade.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gosto quando um filme me surpreende positivamente. Como eu falei lá no início, 20th Century Women entrou no meu radar por causa da indicação que ele recebeu no Oscar. Mas como eu ouvi algumas críticas mornas sobre ele, acabei deixando ele para ser visto mais tarde, sem pressa. Por pouco eu não o perdi, o que seria uma grande besteira. Apesar de ter recebido apenas uma indicação ao Oscar, ele é um grande filme, melhor que outras produções que foram indicadas mais vezes. Gosto de filmes humanistas, e esta é uma destas produções. Bela surpresa.

Fiquei muito interessada em conhecer mais sobre o diretor e roteirista Mike Mills. Este californiano de 51 anos de idade tem apenas 10 títulos no currículo como diretor. Ele estreou em 1999 com o vídeo documentário Air: Eating, Sleeping, Waiting and Playing. Depois ele fez dois curtas antes de fazer o vídeo Moby: Play – The DVD. Daí vieram mais um curta e um vídeo chamado Pulp Anthology em 2002. A estreia dele com um longa nos cinemas foi Thumbsucker, em 2005, filme que teve não apenas a direção dele, mas também o roteiro de Mills. Depois vieram o documentário Does Your Soul Have a Cold? em 2007 e, em 2010, o longa Beginners.

Este é um dos grandes filmes de Annette Bening. Ela tem uma personagem ótima e com um texto excepcional, mas isso não basta. É preciso talento para trazer veracidade para um texto tão bom. Ela é o grande nome do filme, mas os outros atores estão muito bem também. Elle Fanning está ótima e mostra, mais uma vez, como é um dos grandes nomes de sua geração. Greta Gerwig faz um grande trabalho, assim como a revelação Lucas Jade Zumann.

Entre os coadjuvantes, destaque para Billy Crudup sendo Billy Crudup – ele sempre está muito igual, não?; e para as pontas competentes de Alison Elliott, que interpreta a mãe de Julie; para Thea Gill, como mãe de Abbie; para Olivia Hone como a irmã de Julie; para Waleed Zuaiter como Charlie, colega de Dorothea e um de seus “romances” pontuais; e Darrell Britt-Gibson como Julian, um dos homens que Dorothea conhece e que chama para um jantar em casa. Há outros atores que aparecem como colegas de Jamie e Julie, mas ninguém sem grande destaque.

Da parte técnica do filme, Mike Mills manda bem não apenas no ótimo roteiro, mas também na direção cuidados a e detalhista, que valoriza especialmente os atores, mas também os ambientes e o tempo narrativo. Ele conduz muito bem o filme. A trilha sonora de 20th Century Women, com muito rock e punk, também é um ponto a destacar. Fantástico. Vale também elogiar a direção de fotografia de Sean Porter; a edição de Leslie Jones; o design de produção de Chris Jones; os figurinos de Jennifer Johnson; e a decoração de set de Aimee Athnos, de Traci Spadorcia e de Neil Wyzanowski.

20th Century Women teria custado US$ 7 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 5,6 milhões. Ou seja, o filme, mesmo que você incluir o resultado obtido em outros mercados, está mal conseguindo pagar os custos de produção e distribuição. Espero que ele tenha algum sucesso no boca a boca, porque a produção merece ser mais conhecida.

Esta produção foi rodada em várias locações na Califórnia e uma pequena parte em Nova York. Entre os locais na Califórnia, há cenas em East Beach, em Miramar Beach e em Montecito, incluindo em Four Seasons Resort The Baltimore Santa Barbara.

Entre as curiosidades de 20th Century Women está a de que o filme é semi-autobiográfico, segundo Mike Mills. Os personagens do filme são inspirados em pessoas que participaram da juventude do diretor. A personagem de Annette Bening tem traços da mãe de Mills e também da própria atriz.

Durante as gravações, o elenco foi incentivado a sugerir músicas que eles achavam que os seus personagens escutariam. O filme Casablanca era um dos favoritos da mãe de Mills, por isso ele aparece em mais de um momento de 20th Century Women.

20th Century Women ganhou nove prêmios e foi indicado a outros 65. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Actress Defying Age and Ageism para Annette Bening dado pelo Alliance of Women Film Journalists; o de Melhor Atriz para Annette Bening do Atlanta Film Critics Society Awards; Melhor Atriz Coadjuvante para Greta Gerwig dado pela Detroit Film Critics Society; e os de Melhor Atriz para Annette Bening e de Melhor Atriz Coadjuvante para Greta Gerwig conferidos pela Nevada Film Critics Society. Além de uma indicação ao Oscar, o filme também foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme – Comédia ou Musical e ao de Melhor Atriz – Comédia ou Musical para Annette Bening.

Esta produção é 100% dos Estados Unidos, por isso esta crítica atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog na qual vocês pediram filmes daquele país.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para 20th Century Women, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 144 textos positivos e 19 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média de 7,8. Achei interessante como especialmente os críticos gostaram da produção.

CONCLUSÃO: Muito do que somos tem a ver com as nossas origens. Nossos pais, antepassados, o entorno em que nascemos e no qual crescemos. Ainda que tudo isso seja verdade, há um peso muito específico e que merece ser sempre analisado: o das nossas mães. Elas nos influenciam decisivamente. Este filme fala sobre isso e fala sobre a força impressionante que as mulheres tem no mundo. Ainda que o título remeta às mulheres do século 20, ele poderia tratar de mulheres de qualquer época. Nós temos a força, é preciso dizer.

Com muita sensibilidade e um roteiro incrível, 20th Century Women presta uma grande homenagem à todas as mulheres e para todas as mães. Dificilmente alguém não verá ao menos um pouco da sabedoria e da coragem de suas próprias mães na protagonista deste filme. Roteiro primoroso, elenco muito afinado e que faz um grande trabalho, 20th Century Women é delicioso para quem não tem pressa em ver um filme e gosta de se deliciar com grandes história. Para quem curte, volta e meia, pensar na vida e em como caminha a Humanidade. Achei impecável, maravilhoso, inspirador.

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