Lady Bird – Lady Bird: É Hora de Voar

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O final da adolescência é uma fase de autodescobertas e de muitas escolhas. É quando começamos a perceber melhor o que nos faz sentido, o que não faz, porque somos como somos e para onde queremos ir. Lady Bird trata dessa fase, das descobertas, de uma certa revolta e da aceitação pela qual passa uma adolescente. É um bom filme, mas sou franca em dizer que eu esperava mais. Primeiro, porque muitos apontam esse filme como um candidato sério a algumas indicações do Oscar e, inclusive, como possível vencedor em uma ou mais categoria. E, depois, pelas indicações que ele recebeu no Globo de Ouro e por ter sido premiado nesse domingo. A verdade é que a expectativa, que era considerável, não se realizou totalmente.

A HISTÓRIA: Começa com uma frase de Joan Didion: “Qualquer um que fale sobre o hedonismo da Califórnia nunca passou um Natal em Sacramento”. Em uma cama, Marion McPherson (Laurie Metcalf) está deitada ao lado da filha, Christine “Lady Bird” (Saoirse Ronan). Elas estão deixando uma cama de hotel, mas Marion faz questão de fazer a cama. A filha diz que ela não precisa fazer aquilo, mas Marion diz que é sempre bom fazer as coisas bem feitas. A mãe pergunta se a filha está pronta para voltar para casa, e Lady Bird diz que sim. Na volta para casa, de carro, mãe e filha ouvem o final de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. Mas a paz entre mãe e filha logo vai terminar, quando uma simples discussão sobre ligar o rádio termina com um desfecho surpreendente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lady Bird): Algumas pessoas não estão satisfeitas com o lugar de onde elas vieram. E nem com a vida que elas tem. Elas sonham em viver em um lugar distante, onde podem “voltar a ser feliz”. A grande questão é que, geralmente, esta idealização de um local diferente não passa disso mesmo, de uma idealização. Com pouco fundo prático ou ligado à realidade.

Lady Bird nos fala um pouco sobre isso. Sobre a vida que uma pessoa leva, sobre as suas expectativas e desejos, assim como trata da autodescoberta e das relações familiares e com a rede de amigos que nos cerca. Essa produção é bastante honesta e “moderniza” alguns filmes sobre adolescentes que já vimos antes, mas realmente Lady Bird é um filme brilhante?

Eu vi muita gente falando sobre esta produção. Muitos citando ela como uma forte candidata ao Oscar. Como sempre, evitei de ler críticas sobre o filme antes de assisti-lo, mas foi impossível ignorar a ótima aprovação da crítica sobre Lady Bird e como o filme está bem nas “bolsas de apostas” do Oscar. Por isso, devo admitir, assisti ao segundo filme dirigido pela atriz Greta Gerwig com muita expectativa.

Estava esperando uma interpretação irretocável de Saoirse Ronan e um roteiro igualmente inesquecível. E ainda que a atriz esteja muito bem, eu não acho que ela teve um desempenho para ganhar muitos prêmios – especialmente se pensarmos na safra deste ano e em outros desempenhos de atrizes protagonistas. Mas ok, resolveram fazer de Lady Bird o “filme da vez”, e isso acontece de tempos em tempos em Hollywood. Alguns críticos e formadores de opinião resolveram amar esta produção e ela virou um fenômeno.

Sim, Lady Bird tem os seus méritos. Para começar, como eu disse antes, ele ajuda a explicar a juventude do início dos anos 2000 que está na fase de se formar no ensino médio e que tem várias dúvidas sobre o que fazer da vida na faculdade. A busca pela própria identidade, que passa pelas relações familiares, de amigos, os encontros e desencontros da escola e a expectativa da “primeira vez” fazem parte deste contexto e são abordados nesse filme.

Como pano de fundo, vemos a questão social de uma cidade comum americana no início dos anos 2000, quando o pai de uma família perde o emprego e a esposa dele deve dobrar o turno de trabalho para conseguir sustentar a família. Lady Bird tem muitas críticas para fazer contra a mãe, que realmente tem dificuldades de demonstrar carinho e de expressar para a filha o que sente, mas ela também não percebe o quanto a mãe se esforça para manter todos unidos, a casa funcionando e, apesar das dificuldades, ainda ajudar as pessoas.

Desta forma, o roteiro escrito por Gerwig pode fazer muitos adolescentes pensarem de forma um pouco mais ampla – e menos egoísta. Sim, é verdade que Marion muitas vezes é dura demais com Lady Bird. Mas, no fim das contas, o que Marion quer é dar responsabilidade e ensinar valores que ela considera importante para a filha. É verdade que, às vezes, no processo, ela pode fazer mais mal do que bem para Lady Bird – especialmente quando diz para a garota que ela não vai conseguir passar nas faculdades que ela quer ir.

Olhando de forma ligeira para isso, podemos pensar que Marion tem a necessidade de sempre estar “diminuindo” a filha. Como uma forma de compensar as próprias frustrações. Mas uma outra forma de olhar para isso é observar como Marion não quer, no fundo, que a filha vá para longe dela. Apesar de não saber demonstrar os seus sentimentos e de não ser carinhosa, Marion ama a filha da mesma forma com que ama Miguel (Jordan Rodrigues), o filho mais velho.

Algo interessante desse filme é que ele mostra com bastante franqueza a realidade dos jovens americanos de 15 anos atrás. A protagonista, que alimenta o sonho de sair da cidade natal, da qual ela não gosta, para lançar-se em uma cidade maior, passa por experiências marcantes do último ano do ensino médio do qual os americanos gostam tanto de falar.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim, ela acaba se lançando em uma aula de teatro, onde se apaixona pelo jovem Danny O’Neill (Lucas Hedges). Ela vai se frustrar com ele ao descobrir que o garoto é gay. Na sequência, ela se lança na direção de outro jovem, o “artístico” e “descolado” Kyle Scheible (Timothée Chalamet). Como aconteceu antes com Danny, que frustrou as expectativas da jovem, Kyle também a decepciona. E tudo passa – percebemos isso realmente com a passagem do tempo – pelas expectativas que ela nutria sobre uma “primeira vez especial” e sobre romances perfeitos.

Lady Bird mostra, desta forma, os primeiros contatos da protagonista com a frustração e com a realização de um grande desejo – materializado no fato dela conseguir passar em uma universidade que ela queria e, especialmente, sair da cidade natal. Mas quando ela finalmente atinge este “plano ideal”, ela percebe que sair de casa não era realmente o problema. O que ela precisava era começar a olhar para a vida de forma mais franca, sem filtros e distorções. Reconhecer melhor de onde ela vinha e o que formava a sua própria identidade.

Esse é sempre um processo interessante. Lady Bird trata de forma interessante estas questões, ainda que grande parte da história gire em torno das “estripulias” de uma adolescente meio revoltada, meio sonhadora. Sim, os personagens são bem desenvolvidos e há uma ou outra sequência interessante no filme. Mas, no geral, achei ele bastante previsível, um tanto cheio de lugares-comum e de ideias requentadas. Verdade que eu estava esperando um grande filme pela frente, e talvez por causa da minha grande expectativa eu tenha achado ele um tanto frustrante.

Não quero colocar a culpa em outras fontes, mas talvez por ter visto a filmes tão bons nessa safra pré-Oscar – especialmente as produções habilitadas para concorrer na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira -, eu tenha esperado mais de uma produção considerada forte concorrente no ano. Para o meu gosto, produções de outros países que eu citei recentemente aqui no blog, como First They Killed My Father, The Divine Order, Loveless e On Body and Soul tiveram um impacto maior e um frescor de novidade muito maior do que Lady Bird.

Enfim, gosto é gosto. Por isso vou respeitar a todas as pessoas que discordarem de mim. Mas para os meus critérios de avaliação, Lady Bird é um filme com pouca criatividade e inovação. Fora a cena do carro, que está na parte inicial da produção, o restante desse filme não tem realmente um grande impacto ou surpresa. Sim, um filme não precisa ter isso para ser bom. Mas mesmo a parte “filosófica” e que faz pensar em Lady Bird me parece um tanto rasa.

Enfim, por tudo isso, achei esse filme abaixo das minhas expectativas. E só dou a nota abaixo para ele porque eu admito que ele faz um bom trabalho em dialogar com pais e filhos de uma geração mais nova – exatamente essa que nasceu nos anos 2000. Para eles, possivelmente, esse filme terá um efeito maior – até porque a maioria desses pais e filhos não assistiu a tantos filmes até o momento para perceber o quanto Lady Bird repete fórmulas. A contribuição desse filme para essa nova geração, a mensagem positiva da produção para o entendimento entre as pessoas diferentes de uma família, a aceitação de um indivíduo sobre as suas origens e as belas atuações que vemos em Lady Bird é o que me fazem dar a nota abaixo.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Alguém mais observador e que aparece com frequência aqui no blog deve ter notado que eu dei notas mais baixas do que o meu “normal” aqui nas últimas duas críticas. A verdade é que o comentário de um leitor aqui no blog, feito há pouco tempo, me fez repensar nas notas que eu ando conferindo para os filmes. E ainda que cada um tenha o seu critério de avaliação e de “pontuação”, e que esse critério deve ser respeitado, admito que o comentário me fez pensar que eu talvez andasse “muito generosa”.

Comentado isso, afirmo que a partir de agora eu tentarei ser mais “dura” e criteriosa com as notas altas. Realmente darei a nota máxima ou uma nota bastante alta para os filmes que me arrebatarem, que eu achar que são “imperdíveis”. Para os demais, tentarei ser um pouco mais justa na avaliação – especialmente na pontuação.

Sob esta ótica, provavelmente 50% das notas do blog deveriam ser rebaixadas. Mas vou pedir perdão para vocês porque eu não farei isso. Por pura falta de tempo. Se eu não tenho tido tempo nem de responder aos recados de vocês, quanto mais para rever com justiça todas as minhas avaliações aqui no blog. Conto com a generosidade dos leitores para entenderem notas possivelmente mais altas que eu dei anteriormente para filmes que não mereciam avaliação tão boa. A partir de agora, prometo, tentarei ser mais justa e criteriosa. 😉

Voltando a falar sobre Lady Bird, pois. Acho que um dos fatores que me fez não gostar taaanto assim desta produção – ao menos gostei menos do que a maioria dos críticos – foi o fato de que o nome dela me remeteu a outro filme. E, este sim, que eu achei muito mais potente e interessante. Me refiro a Lady Macbeth, produção que eu considero uma das melhores que eu vi em 2017. Enquanto, para o meu gosto, Lady Macbeth se mostra um filme potente e surpreendente, como eu comentei antes por aqui Lady Bird me pareceu um tanto requentado demais, com pouca novidade para mostrar.

Sem dúvida alguma o nome forte desta produção é o de Saoirse Ronan. A atriz soube encarnar muito bem o papel da protagonista. Realmente acreditamos que ela é uma adolescente cheia de questionamentos e com uma certa “crise de identidade”. A atriz não se parece em nada com outros papéis que já desempenhou. Além dela, os destaques desta produção são Laurie Metcalf, que interpreta a mãe da protagonista, Marion; Tracy Letts em uma interpretação sensível como Larry, pai de Lady Bird; Lucas Hedges mais uma vez fazendo um belo trabalho, desta vez como Danny; e Beanie Feldstein como Julie Steffans, melhor amiga da protagonista. Estas são as pessoas que realmente brilham em cena e convencem.

Além deles, outros atores também fazem um bom trabalho, ainda que com menos destaque. Vale citar, neste grupo, Timothée Chalamet como Kyle, segundo “affair” de Lady Bird; Lois Smith como a Irmã Sarah Joan, que é bastante compreensiva com as suas alunas na escola católica; Stephen Henderson como o Padre Leviatch, coordenador do teatro e que sofre com uma certa “crise” na vida; Odeya Rush como Jenna Walton, a garota popular do colégio de quem Lady Bird se aproxima lá pelas tantas; Jordan Rodrigues como Miguel, irmão mais velho da protagonista; Marielle Scott como Shelly Yuhan, namorada de Miguel e que acaba sendo “adotada”/abrigada pelos McPherson; Jake McDorman como Mr. Bruno, um dos professores “gatos” da escola; e Daniel Zovatto como Jonah Ruiz, namorado de Jenna.

Gostei da direção segura de Greta Gerwig. Ela faz um trabalho sempre próximo dos atores e parece, por ser uma atriz bastante experiente, deixá-los bastante à vontade para que eles consigam exprimir tudo que ela deseja para os personagens que criou. O roteiro dela é bom, mas poderia ser melhor. Ela opta por uma narrativa linear, por uma cena na parte inicial de impacto, para “chocar” um pouco o espectador, mas depois acaba se rendendo a uma narrativa um tanto previsível. Desenvolve bem os personagens centrais, ainda que o filme sendo totalmente contado sob a ótica de Lady Bird acaba limitando um pouco a narrativa. Neste sentido, gostei mais, por exemplo, da narrativa fragmenta e com múltiplos olhares de Wonder.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale comentar a direção de fotografia “naturalista” de Sam Levy; a edição precisa de Nick Houy; os figurinos de April Napier; o design de produção de Chris Jones; a decoração de set de Traci Spadorcia; e a trilha sonora praticamente ausente de Jon Brion.

Lady Bird estreou no dia 1º de setembro no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme participou de uma maratona de 17 festivais, um na sequência do outro. Nessa trajetória, o filme ganhou 55 prêmios e foi indicado a outros 126. Realmente são números impressionantes. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Filme – Musical ou Comédia e para Melhor Atriz em Musical e Comédia para Saoirse Ronan.

O filme também apareceu na lista dos 10 melhores filmes do ano segundo o Prêmio AFI; a atriz Laurie Metcalf ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante 20 vezes; a atriz Saoirse Ronan venceu como Melhor Atriz oito vezes – sem contar o Globo de Ouro; Greta Gerwig recebeu três prêmios como Melhor Diretora; o filme ganhou cinco vezes o prêmio de Melhor Roteiro; e a produção foi reconhecida como Melhor Filme em quatro ocasiões  (descontado, novamente, o Globo de Ouro). Uma bela coleção de prêmios, não é mesmo?

Eu gosto muito de Greta Gerwig como atriz. Mas pelo burburinho que ela está provocando com Lady Bird, desconfio que ela vai “se jogar” mais na função de diretora e roteirista. Importante ponderar, contudo, que Lady Bird não é a sua estreia na direção. Ela debutou em 2008 com o filme Nights and Weekends, escrito e estrelado por ela. Mas sim, Lady Bird é apenas o seu segundo filme como realizadora. Agora sim, provocando efeito.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. As atrizes Saoirse Ronan e Greta Gerwig se conheceram no Festival de Cinema de Toronto de 2015, quando Saoirse estava promovendo Brooklyn e Greta estava divulgando Maggie’s Plan. Saoirse leu o roteiro de Lady Bird e imediatamente se sentiu conectada com a protagonista. As duas então discutiram o roteiro no quarto de hotel de Saoirse, quando Greta disse que tinha achado a sua “Lady Bird”.

De acordo com Gerwig, a primeira versão do roteiro desse filme tinha 350 páginas. Se o filme tivesse sido rodado a partir desse original, ele teria seis horas de duração.

Lady Bird quebrou o recorde de críticas positivas de Toy Story 2. A animação registrou 163 comentários positivos no site Rotten Tomatoes antes de registrar a primeira crítica negativa. Lady Bird registrou 196 críticas positivas antes de aparecer o primeiro comentário negativo. Mesmo não tendo mais 100% de críticas positivas, ele registra esse percentual de aprovação entre os “melhores críticos” do site. Algo impressionante e que ajuda a explicar o “burburinho” pro trás desse filme.

Interessante como a diretora e roteirista faz algumas “homenagens” com esse filme. Christine, o nome de batismo de Lady Bird, era o nome da mãe de Greta Gerwig. Além disso, a mãe da protagonista da história, trabalha como enfermeira, mesma profissão da mãe da diretora.

Este foi o último filme feito pela atriz Lois Smith.

A história ocorre entre os anos de 2002 e 2003.

Como a história desse filme sugere, Lady Bird foi realmente rodado nas cidades de Sacramento, na Califórnia; South Pasadena e Los Angeles, no mesmo Estado; e em Nova York – onde a protagonista começa a amadurecer.

De acordo com o site Box Office Mojo, Lady Bird fez US$ 34,1 milhões apenas nas bilheterias dos Estados Unidos. Um resultado muito bom para um filme com “tintas” de independente.

Assistindo a esse filme, não tive como não lembrar da canção clássica da Legião Urbana. “(…) você me diz que seus pais não te entendem/ mas você não entende seus pais/ você culpa seus pais por isso, isso é absurdo/ são crianças como você/ o que você vai ser quando você crescer?”. Sim, mesmo os “revoltados” sempre percebem, mais cedo ou mais tarde, que tudo que eles gostariam eram do amor, do afeto e da “aceitação” dos seus pais. Mas todos nós somos falhos, e cada um tenta dar o melhor de sim. O quanto antes percebemos isso, melhor.

Lady Bird é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 214 críticas positivas e apenas uma negativa para o filme – o que lhe garante a impressionante aprovação de 99% e a nota média tão impressionante quanto, para os padrões do site, de 8,8.

CONCLUSÃO: Um filme sobre o processo de amadurecimento e de autodescoberta sobre o qual todos passam. Lady Bird é focado na protagonista que se autodenominou desta forma. Um filme com uma boa pegada humana, sensível, sobre as origens de uma pessoa e a aceitação dela sobre as suas origens, assim como os seus desejos de mudar. Mas, francamente? Apesar de ter uma boa pegada e belas interpretações, especialmente de Saoirse Ronan, Lady Bird não nos apresenta nenhuma ideia nova.

Quem já assistiu a um bocado de filmes viu, antes, outras produções com essa mesma proposta. Se você for sem expectativa alguma ver a essa produção, talvez ache ela melhor. Como eu esperava algo muito bom, achei Lady Bird apenas mediano. Sim, há bons diálogos e personagens bem desenvolvidas, mas não vi nada assim de tão fantástico nessa produção. Para mim, a experiência foi um tanto frustrante. Mas espero que para você que me lê, sinceramente, ela seja melhor.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Então, minha gente, esse filme realmente caiu no gosto da crítica. Só não sei até que ponto ele caiu no gosto dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Mas, pelo andar da carruagem e avaliando não apenas os prêmios que o filme já recebeu mas as bolsas de apostas para o Oscar 2018, tudo indica que Lady Bird será bem indicado na premiação deste ano.

Não será uma surpresa se essa produção concorrer nas categoria de Melhor Filme, Melhor Diretora (Greta Gerwig), Melhor Atriz (Saoirse Ronan), Melhor Atriz Coadjuvante (Laurie Metcalf) e Melhor Roteiro Original. Ou seja, tudo indica que Lady Bird será indicado a cinco estatueta. Quantas ele deve ganhar? As chances maiores, me parece, são para Laurie Metcalf como Melhor Atriz Coadjuvante. O filme também será páreo duro e tem boas chances em Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz para Saoirse Ronan. Isso, ao menos, avaliando a opinião dos críticos e bolsas de apostas.

Da minha parte, pelo meu gosto pessoal, eu não daria o prêmio de Melhor Roteiro Original. Eu preciso ver a outros filmes que estão forte na disputa pelos prêmios, como The Shape of Water; The Post; Three Billboards Outside Ebbing, Missouri; Call Me By Your Name; The Florida Project; Darkest Hour; All the Money in the World e I, Tonya, mas desde já eu acredito que eu não votaria em Saoirse ou Laurie para ganhar as suas respectivas estatuetas. Mas, como eu não voto no Oscar, 😉 vejamos o que virá por aí.

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20th Century Women – Mulheres do Século 20

Estar sempre aberta e humilde para aprender, especialmente com as pessoas. Viver cada época da sua vida com atenção e com gratidão. Degustar da vida, seus sabores e dissabores. Ter a coragem de decidir se quer ter filhos ou não. Avançar e evoluir e tentar contribuir da melhor forma possível para que as pessoas ao redor, como você, sejam melhores. Tudo isso faz parte da vida e faz parte deste filme incrível chamado 20th Century Women. Ele concorreu ao Oscar 2017 como Melhor Roteiro Original e eu tinha certa curiosidade de assisti-lo, mas vi que ninguém tinha se empolgado muito com ele. Mas eu sim.

A HISTÓRIA: Ondas do mar. Santa Bárbara, 1979. Vemos a cidade do alto e, depois, um carro em chamas em um estacionamento. As pessoas começam a correr para ver o que está acontecendo. Dorothea (Annette Bening) e Jamie (Lucas Jade Zumann) olham admirados para a destruição. Dorothea diz que aquele era o Ford Galaxy do marido dela, o mesmo carro que eles usaram para trazer o filho deles do hospital para casa.

Jamie conta que a mãe dele tinha 40 anos quando ele nasceu, e que todos diziam que ela era muito velha para ter um filho. Dorothea conta sobre o primeiro contato com o filho, na maternidade, e como ela disse que a vida é grande e desconhecida. Esta é a história desta mãe e deste filho e das pessoas que conviveram com eles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a 20th Century Women): Que bela e grata surpresa este filme! Ele me conquistou, desde o início, pela narrativa criativa e, claro, pelos ótimos personagens, pelo desenvolvimento da história e pelos diálogos. 20th Century Women é um exemplo fantástico de como o roteiro é algo fundamental em uma produção.

Como eu comentei na crítica anterior, de Ghost in the Shell (que você encontra por aqui), o roteiro para mim sempre será o elemento mais importante de qualquer produção. Em 20th Century Women ele é o elemento central e a melhor qualidade da produção, ainda que não seja a única, é claro.

Este filme conta a história fantástica de uma mulher de 55 anos que há vários anos cuida sozinha da criação do filho adolescente. Vivemos o final dos anos 1970, uma época de muitas modificações sociais e, claro, de avanços também na liberação da mulher. 20th Century Women coloca as mulheres em evidência, com certeza, mas o filme não se resume apenas a isso. Muito rico e interessante, ele também trata sobre a relação de mães e filhos e sobre como preparar um homem para o futuro.

Afinal, o que nos faz ser pessoas bacanas, realmente inseridas e participantes da sociedade? Que valores são importantes repassar para a frente, e como fazer isso sem sufocar quem precisamos educar? 20th Century Women trata de educação, mas trata também de amadurecimento e do desenvolvimento humano. E aí você pensa: puxa, mas tratar de todos estes temas em um filme deve ser algo complicado e maçante. Poderia ser, mas o roteirista e diretor Mike Mills faz isso com cuidado e maestria exemplar.

Como acontece com todo filme fantástico, sobre 20th Century Women também seria possível escrever praticamente um livro, ou um tratado. Não farei isso, vocês sabem, primeiro porque este não é o espaço adequado e, depois, porque com o meu manifesto eu já tinha defendido textos mais curtos e objetivos, citando que em casos especiais (e este é um deles) eu poderia escrever um pouco mais.

Gostei de algumas sacadas bacanas de Mills. Destaco duas. A primeira foi contar a história destacando alguns personagens centrais e os anos em que eles nasceram. A protagonista, claro, é Dorothea, que nasceu em 1924 e que tem a sua introdução narrada pelo filho, um rapaz que tenta entender a vida, a sua referência principal (a mãe) e tudo que lhe cerca sob a sua própria ótica pela primeira vez.

Não importa a idade que você tenha. Todos nós já fomos crianças e adolescentes na vida. Quando éramos crianças, nos divertíamos e tínhamos os pais como referência máxima. O respeitávamos, lhes obedecíamos e começávamos a conhecer outras pessoas e outras relações na escola e em outras partes. Na adolescência começamos, pela primeira vez, a pensar pela nossa própria conta. Percebemos mais as influências variadas que nos rodeiam e já não achamos que tudo o que nossos pais nos dizem é certo.

Este filme começa justamente neste momento na vida dos protagonistas, Dorothea e Jamie. Depois de sabermos um pouco mais sobre a Dorothea que nasceu em 1924, ela nos conta um pouco sobre o filho que nasceu em 1964. Sempre que conta cada história, Mills pinça alguns fatos e imagens que ajudam a contextualizar a geração daquela pessoa. Porque somos muito influenciados pelas nossas famílias, nossos pais e antepassados, mas definitivamente somos também produtos culturais e da sociedade em que nascemos e crescemos.

20th Century Women é, assim, um filme sobre desenvolvimento humano. Sobre o processo de crescer e de envelhecer e tudo que nos acontece no caminho. Enquanto Jamie está começando a abrir as suas asas e a pensar por conta própria, Dorothea está aprendendo a envelhecer sem estar casada e no padrão social estabelecido como mais comum para a época. Ela é uma mulher, mas é também mãe e profissional. Tem os seus desejos e as suas fraquezas e, sobretudo, tem muita vontade de aprender e um respeito profundo pelos demais.

Esta é uma das maiores belezas deste filme e da personagem principal da história. Essa abertura para aprender, para olhar para o outro e para si mesmo com sinceridade e atenção. Dorothea é uma personagem incrível, uma mulher incrível. E ela nos lembra tantas e tantas outras mulheres, inclusive as nossas mães. Muitas vezes demoramos para perceber isso, mas nosso pai e nossa mãe são pessoas comuns que decidiram, em algum momento da vida, ter filhos.

Ainda que quando somos crianças achamos que eles são perfeitos e que tudo que eles falam deve ser levado em conta e respeitado, conforme o tempo passa e nós mesmo passamos por diversos desafios na vida, percebemos com ainda mais verdade quem são os nossos pais. Como eles acertam e como eles erram. Como eles tem as suas inseguranças e as suas convicções. E como nós nem sempre precisamos concordar, e que tudo bem se for assim. O importante, e 20th Century Women trata disso muito bem, é conhecermos com profundidade uns aos outros, nos respeitarmos e nos amarmos sempre.

O roteiro de Mills também destaca as outras duas mulheres que fazem parte da vida de Jamie e Dorothea: a jovem estudante Julie (Elle Fanning), amiga de infância de Jamie; e a jovem fotógrafa Abbie (Greta Gerwig). Também conhecemos um pouco mais sobre a única figura masculina mais presente na vida do garoto, o mecânico e “faz-tudo” William (Billy Crudup), que está ajudando Dorothea a reformar a casa onde ela, o filho e Abbie moram.

Observadora inteligente do passar do tempo, Dorothea acaba ficando um pouco “perdida” com as mudanças pelas quais o filho passa na adolescência. Como acontece com todo adolescente, Jamie já não consegue dialogar com a mãe como antes e parece um tanto “revoltado” e/ou “distante”. Dorothea não sabe, porque ele é filho único e ela não teve outras mães para compartilhar sobre isso, mas esses comportamento são normais para a idade. Preocupada com o que está acontecendo, ela pede ajuda para Julie e Abbie, o que deixa Jamie revoltado.

E assim, com muita inteligência e cuidado, Mills avança na evolução de Dorothea e Jamie enquanto mãe e filho e enquanto indivíduos. Também avança nas relações entre os personagens centrais desta história, uma pequena comunidade que desbrava as interessantes e mutáveis relações entre as pessoas. Outra qualidade que achei muito interessante no roteiro de Mills foi a forma com que ele destacou algumas obras durante toda a produção.

Além de fazer uma linda homenagem para o clássico fundamental do cinema Casablanca, 20th Century Women abre espaço para citar diversas obras que acabam embalando o crescimento e o autoconhecimento de Jamie e de Julie. Enquanto a adolescente busca entender o amor e a sexualidade, Jamie mergulha em livros emprestados por Abbie e que tentam apresentar um pouco da complexidade feminina. Todos os temas são tratados com muita franqueza na produção porque os personagens vivem as suas vidas desta forma franca, bem ao sabor do final dos anos 1970 e início dos anos 1980.

Gostei também de como 20th Century Women mostra que não existem fórmulas de mulher (ou de homem) para serem seguidas. Enquanto algumas mulheres podem preferir nunca mais casar e ficarem sozinhas grande parte da vida, outras podem escolher o casamento e ter filhos, ao mesmo tempo que outras mulheres vão casar e não vão querer engravidar.

O século 20 trouxe esta liberdade para as mulheres. Da mesma forma, os homens podem ser mais ou menos sensíveis em relação a entender e conviver com as mulheres. Tudo isso vai depender da educação que eles receberam e das escolhas que fizeram na vida. É possível criar os filhos para eles serem mais sensíveis e inteligentes, isso Dorothea nos mostra bem. Mas, como sempre, esta não é uma decisão apenas de uma mãe ou de um pai, vai depender, essencialmente, da escolha do indivíduo de ele ser mais aberto, humano, sociável e sensível. Seja ele homem, seja ele mulher.

O roteiro é a grande qualidade desta produção. Mas ela também acerta na escolha do elenco, de cada personagem e, principalmente, na entrega de cada atriz e ator ao seus respectivos papéis. Todos estão ótimos, mas Annette Bening faz um trabalho excepcional. Ela está impecável. Finalizando as qualidades da produção, gostei muito da condução de Mike Mills, que é detalhista e perfeccionista. Ele sabe valorizar os cenários e os lugares mas, especialmente, os atores e o texto. Todos os demais aspectos que ajudam o filme a ser ambientado em sua época, inclusive a ótima trilha sonora, também funcionam muito bem. Enfim, um filme completo e de grande, grande qualidade.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gosto quando um filme me surpreende positivamente. Como eu falei lá no início, 20th Century Women entrou no meu radar por causa da indicação que ele recebeu no Oscar. Mas como eu ouvi algumas críticas mornas sobre ele, acabei deixando ele para ser visto mais tarde, sem pressa. Por pouco eu não o perdi, o que seria uma grande besteira. Apesar de ter recebido apenas uma indicação ao Oscar, ele é um grande filme, melhor que outras produções que foram indicadas mais vezes. Gosto de filmes humanistas, e esta é uma destas produções. Bela surpresa.

Fiquei muito interessada em conhecer mais sobre o diretor e roteirista Mike Mills. Este californiano de 51 anos de idade tem apenas 10 títulos no currículo como diretor. Ele estreou em 1999 com o vídeo documentário Air: Eating, Sleeping, Waiting and Playing. Depois ele fez dois curtas antes de fazer o vídeo Moby: Play – The DVD. Daí vieram mais um curta e um vídeo chamado Pulp Anthology em 2002. A estreia dele com um longa nos cinemas foi Thumbsucker, em 2005, filme que teve não apenas a direção dele, mas também o roteiro de Mills. Depois vieram o documentário Does Your Soul Have a Cold? em 2007 e, em 2010, o longa Beginners.

Este é um dos grandes filmes de Annette Bening. Ela tem uma personagem ótima e com um texto excepcional, mas isso não basta. É preciso talento para trazer veracidade para um texto tão bom. Ela é o grande nome do filme, mas os outros atores estão muito bem também. Elle Fanning está ótima e mostra, mais uma vez, como é um dos grandes nomes de sua geração. Greta Gerwig faz um grande trabalho, assim como a revelação Lucas Jade Zumann.

Entre os coadjuvantes, destaque para Billy Crudup sendo Billy Crudup – ele sempre está muito igual, não?; e para as pontas competentes de Alison Elliott, que interpreta a mãe de Julie; para Thea Gill, como mãe de Abbie; para Olivia Hone como a irmã de Julie; para Waleed Zuaiter como Charlie, colega de Dorothea e um de seus “romances” pontuais; e Darrell Britt-Gibson como Julian, um dos homens que Dorothea conhece e que chama para um jantar em casa. Há outros atores que aparecem como colegas de Jamie e Julie, mas ninguém sem grande destaque.

Da parte técnica do filme, Mike Mills manda bem não apenas no ótimo roteiro, mas também na direção cuidados a e detalhista, que valoriza especialmente os atores, mas também os ambientes e o tempo narrativo. Ele conduz muito bem o filme. A trilha sonora de 20th Century Women, com muito rock e punk, também é um ponto a destacar. Fantástico. Vale também elogiar a direção de fotografia de Sean Porter; a edição de Leslie Jones; o design de produção de Chris Jones; os figurinos de Jennifer Johnson; e a decoração de set de Aimee Athnos, de Traci Spadorcia e de Neil Wyzanowski.

20th Century Women teria custado US$ 7 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 5,6 milhões. Ou seja, o filme, mesmo que você incluir o resultado obtido em outros mercados, está mal conseguindo pagar os custos de produção e distribuição. Espero que ele tenha algum sucesso no boca a boca, porque a produção merece ser mais conhecida.

Esta produção foi rodada em várias locações na Califórnia e uma pequena parte em Nova York. Entre os locais na Califórnia, há cenas em East Beach, em Miramar Beach e em Montecito, incluindo em Four Seasons Resort The Baltimore Santa Barbara.

Entre as curiosidades de 20th Century Women está a de que o filme é semi-autobiográfico, segundo Mike Mills. Os personagens do filme são inspirados em pessoas que participaram da juventude do diretor. A personagem de Annette Bening tem traços da mãe de Mills e também da própria atriz.

Durante as gravações, o elenco foi incentivado a sugerir músicas que eles achavam que os seus personagens escutariam. O filme Casablanca era um dos favoritos da mãe de Mills, por isso ele aparece em mais de um momento de 20th Century Women.

20th Century Women ganhou nove prêmios e foi indicado a outros 65. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Actress Defying Age and Ageism para Annette Bening dado pelo Alliance of Women Film Journalists; o de Melhor Atriz para Annette Bening do Atlanta Film Critics Society Awards; Melhor Atriz Coadjuvante para Greta Gerwig dado pela Detroit Film Critics Society; e os de Melhor Atriz para Annette Bening e de Melhor Atriz Coadjuvante para Greta Gerwig conferidos pela Nevada Film Critics Society. Além de uma indicação ao Oscar, o filme também foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme – Comédia ou Musical e ao de Melhor Atriz – Comédia ou Musical para Annette Bening.

Esta produção é 100% dos Estados Unidos, por isso esta crítica atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog na qual vocês pediram filmes daquele país.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para 20th Century Women, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 144 textos positivos e 19 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média de 7,8. Achei interessante como especialmente os críticos gostaram da produção.

CONCLUSÃO: Muito do que somos tem a ver com as nossas origens. Nossos pais, antepassados, o entorno em que nascemos e no qual crescemos. Ainda que tudo isso seja verdade, há um peso muito específico e que merece ser sempre analisado: o das nossas mães. Elas nos influenciam decisivamente. Este filme fala sobre isso e fala sobre a força impressionante que as mulheres tem no mundo. Ainda que o título remeta às mulheres do século 20, ele poderia tratar de mulheres de qualquer época. Nós temos a força, é preciso dizer.

Com muita sensibilidade e um roteiro incrível, 20th Century Women presta uma grande homenagem à todas as mulheres e para todas as mães. Dificilmente alguém não verá ao menos um pouco da sabedoria e da coragem de suas próprias mães na protagonista deste filme. Roteiro primoroso, elenco muito afinado e que faz um grande trabalho, 20th Century Women é delicioso para quem não tem pressa em ver um filme e gosta de se deliciar com grandes história. Para quem curte, volta e meia, pensar na vida e em como caminha a Humanidade. Achei impecável, maravilhoso, inspirador.

Jackie

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Jackie revela uma Jacqueline Kennedy, posteriormente Jacqueline Onassis, como você nunca viu. Diferente do que alguns poderiam esperar – e eu me incluo neste grupo -, Jackie não conta a trajetória de uma das primeiras-damas dos Estados Unidos mais conhecidas de todos os tempos. Não. Este filme se debruça sobre os fatos que circundaram o assassinato de JFK. Ou, em outras palavras, Jackie é a história do assassinato de JFK e de parte dos sonhos e da vida do casal sob a ótica de Jackie.

A HISTÓRIA: Jackie (Natalie Portman) caminha por um gramado. A câmera está muito próxima dela e registra uma expressão que parece ser a de choro contido. Corta. Em Hyannis Port, na cidade de Massachusetts, em 1963, Jackie acompanha a chegada de um carro na propriedade. Um jornalista (Billy Crudup) desembarca e se apresenta à porta, dando os pêsames para a ex-primeira dama.

Ela logo pergunta se ele tem lido o que outros jornalistas tem escrito. Ele diz que sim, e Jackie demonstra todo o seu descontentamento com a forma com que estão tratando o seu marido morto, John F. Kennedy. O jornalista pergunta como ela gostaria que JFK fosse lembrado, e Jackie afirma que ela vai editar o que ela quiser da conversa. Ele acaba aceitando a condição, e Jackie começa a contar a sua própria versão dos fatos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Jackie): Na seção que eu fui para assistir a Jackie, a maioria dos espectadores era de pessoas com 60 anos de idade ou mais. Um público que vivenciou os anos de JFK e que, provavelmente, como a maioria da audiência mundo afora, admirava a figura da primeira-dama dos Estados Unidos, Jackie Kennedy.

Para este público não foi fácil assistir a Jackie. Na verdade, para qualquer público eu imagino que não seja uma experiência fácil. Eu, que não vivi aquela época do início dos anos 1960 mas que, como quase todo terráqueo, conhece a história de JFK, de seu assassinato, todas as teorias de conspiração envolvendo o fato e, claro, a figura admirada de Jackie Kennedy, achei este um filme difícil.

Especialmente por uma razão: Jackie quebra toda expectativa do público. Esta produção não mostra um Jacqueline Kennedy dócil, serena, simpática. Muito pelo contrário. O filme destrincha toda a complexidade desta figura histórica ao mostrar fatos de sua vida pré e pós o assassinato do marido, incluindo no pacote cenas do fato propriamente dito.

Boa parte do público deve ter procurado Jackie pensando que este filme mostraria a trajetória de Jacqueline Kennedy, talvez até da Jacqueline Onassis. Eu, ao menos, que não gosto de ler sobre os filmes antes e evito assistir aos trailers das produções, achava que eu teria pela frente um interessante retrato sobre a protagonista.

Isso não deixa de ser verdade. Só que o roteirista Noah Oppenheim e o diretor Pablo Larraín fizeram uma escolha diferente. Ao invés de contar a história de Jackie desde antes do casamento com JFK e até depois de sua morte, quando se casou com Aristóteles Onassis, os realizadores resolveram focar em sua personalidade durante o episódio da morte do presidente americano.

A linha narrativa é toda cadenciada pela entrevista que Jackie dá para um jornalista, interpretado por Billy Crudup. Até a sua morte, em 1994, Jackie deu apenas três entrevistas. A primeira, que inspirou o filme Jackie, foi feita realmente poucos dias após a morte de JFK e foi divulgada pouco depois. Nela, Jackie cria o mito de “Camelot” como sendo a inspiração do marido morto.

A segunda entrevista, que Jackie queria que fosse divulgada apenas 50 anos após a sua morte, foi dada para o amigo e historiador Arthur Schlesinger Jr. em 1964 e divulgada no livro “Jacqueline Kennedy – Historic Conversations on Life with John F. Kennedy” em 2011 sob a autorização da filha do casal presidencial, Caroline. A terceira entrevista, reza a lenda, será divulgada apenas em 2067.

Como eu comentava, Jackie tem como linha narrativa a primeira entrevista divulgada com a ex-primeira-dama. A partir da conversa dela com o jornalista a história retrocede e avança na linha temporal, mostrando cenas de Jackie na Casa Branca antes da morte do marido, todos os detalhes dos fatos ocorridos logo após o assassinato de JFK, toda a preocupação da protagonista com o velório e o funeral do marido e questionamentos que ela fez neste período.

É um filme profundo, que disseca Jacqueline Kennedy de uma forma muito interessante e impactante. Natalie Portman dá um show de interpretação tanto nos momentos em que está sozinha em cena, tendo que lidar com a solidão e o luto, quanto nos momentos em que está lutando por colocar o marido e a família dela definitivamente na história dos Estados Unidos.

Mais que uma pessoa elegante, simpática e encantadora, Jackie se revela uma mulher forte, inteligente, perspicaz, afiada nas respostas para o jornalista – em mais de uma ocasião ela o questiona e o deixa constrangido – e, principalmente, uma grande conhecedora da História dos EUA e obstinada por colocar Kennedy e sua família como um capítulo importante desta mesma História.

Este talvez seja o aspecto mais interessante de Jackie. Como o roteiro de Oppenheim e a direção talentosa de Larraín revelam uma primeira-dama extremamente preocupada com o legado do marido e, consequentemente, dela própria para os Estados Unidos. Ela queria ter o controle sobre tudo, especialmente sobre a imagem dela e de JFK.

Jackie era obcecada por Abraham Lincoln, não apenas por ele ter sido um presidente dos EUA que também foi assassinado, a exemplo do marido, mas especialmente pela força da figura de Lincoln na história americana. O filme deixa claro como ela queria que JFK tivesse uma figura tão marcante para a História como tinha sido Lincoln – tanto que ela pede para examinar o cortejo de Lincoln e tentar emular algo parecido para o marido morto.

Mas mesmo antes da morte de JFK Jacqueline queria que a figura do marido e de sua família fosse marcante para a História. Esta preocupação constante com a imagem e o trabalho de Jackie para utilizar a nova “fábrica” de sonhos, manipuladora de “corações e mentes” chamada televisão a seu favor, é algo fascinante neste filme. Nos faz pensar sobre o uso da comunicação de massas, que apenas mudou de plataforma, tirando um pouco da audiência dos meios tradicionais (rádio, jornais, revistas e TV) para jogá-la nos meios digitais, a favor dos interesses próprios.

Jackie foi muito inteligente nesta forma de explorar a comunicação de massas e o poder da imagem. Neste sentido, o filme também é uma maravilha. O diretor chileno Pablo Larraín cuida para construir um filme em que as imagens jogam um papel narrativo fundamental. Ele coloca a câmera sempre próxima dos atores, permitindo que os espectadores escutem as suas conversas “ao pé do ouvido” e, principalmente, foca em cada detalhe da interpretação de Natalie Portman.

A atriz está impecável especialmente porque ela estudou cada detalhe da forma de falar, caminhar e agir da personagem histórica que ela está retratando. A ajudou neste processo, claro, o rico e variado material de imagens com a primeira-dama, incluindo o filme “A Tour of the White House with Mrs. John F. Kennedy” que está disponível neste link no YouTube e que é muito bem explorado por Larraín no filme.

Identificamos Natalie Portman, é claro, mas ela se transfigura de forma tão intensa em Jacqueline Kennedy que, em alguns momentos, parece que estamos vendo a ex-primeira-dama pela frente. É impressionante. Mais um trabalho soberbo desta atriz que, para mim, é uma das melhores de sua geração.

Como duas das três entrevistas com a ex-primeira-dama dos EUA já mostraram, ela era realmente uma mulher forte e inteligente, muito mais do que aquelas imagens históricas controladas por ela revelam. Procurando mais sobre a personagem, descobri que realmente o filme Jackie faz um retrato bastante interessante e próximo da realidade dela.

Ainda assim, como para o público em geral esta imagem mais complexa de Jacqueline Kennedy Onassis não é a mais frequente, muita gente vai se surpreender com este filme. Tanto porque ele desconstrói a imagem tradicional da protagonista quanto porque ele foca em um capítulo bem complicado da história americana. Ainda que a produção tenha algumas pílulas de história além da tragédia, 95% da produção é sobre o assassinato de JFK e sobre os fatos que o sucedem.

Por tudo isso, Jackie não é um filme fácil. Pelo contrário. Ele é um filme triste, tenso, impactante. Ajuda neste processo a trilha sonora igualmente forte Mica Levi. Ela ajuda na narrativa da produção e muitas vezes leva a tensão para outro nível. Jackie, apesar de um ou outro “defeito”, é uma produção muito interessante sobre os bastidores do poder. Ele nos conta uma história de pessoas que ficaram encantadas com o poder e com a imagem que deixariam de legado. São temas até hoje muito, muito atuais.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: No geral, achei as escolhas do roteirista Noah Oppenheim e do diretor Pablo Larraín muito interessantes. Eles conseguem o que desejam, que é apresentar uma outra visão de uma personagem histórica bastante conhecida e impactar com esta narrativa.

Dificilmente alguém vai pensar em Jacqueline Kennedy da mesma forma depois de assistir a Jackie. Eles conseguem uma desconstrução muito interessante da personagem história e a humanizam. Algo importante e inspirador, sem dúvidas.

Ainda assim, eu admito que eu esperava um filme um pouco mais “amplo”, que mostrasse um pouco mais de Jackie antes e depois do fato que é narrado. Eu queria saber mais sobre a sua fase após a viuvez e sobre a sua vida antes de JFK. Esse é um dos fatores para eu ter dado a nota acima para esta produção. Acho que os realizadores poderiam ter ousado um pouco mais na narrativa, poderiam ter fragmentado ela mais e se aprofundado na leitura da personagem para outras épocas de sua vida.

Um outro fator para a nota de Jackie não ser maior é que, apesar do filme desconstruir um bocado a imagem da ex-primeira-dama, ele também ignora uma série de outros fatos da época e que foram comentados por Jacqueline Kennedy nas cartas para o padre – e, talvez, na entrevista com o jornalista.

Por exemplo, ficam de fora do filme todas as infidelidades conjugais de JFK e, possivelmente, de Jackie. Muitos comentam que Onassis já era uma figura presente na vida de Jackie antes dela se tornar viúva e que ela teve um caso um tanto conhecido com William Holden quando ainda era casada com JFK. Nada disso é explorado no filme, o que achei uma escolha um tanto equivocada dos realizadores.

Antes eu comentei que o principal fio condutor da história é a entrevista real que Jacqueline Kennedy deu para um jornalista poucos dias depois da morte de JFK. Ainda que isso seja verdade, é preciso comentar que outro trecho marcante do filme, de conversas da protagonista com um padre (interpretado por John Hurt) são inspiradas em correspondências que a ex-primeira dama teve com um padre irlandês durante 15 anos e que foram leiloadas em 2014. Nestas cartas, ela fala sobre o que sentiu após a morte do marido – incluindo aí uma certa “bronca” com Deus.

Natalie Portman é realmente o nome deste filme. E não teria como ser diferente, já que ela é uma figura praticamente onipresente na história. O filme, afinal de contas, conta os fatos sob a ótica dela. Ainda assim, em algumas cenas ela não está presente. Nestes momentos outros nomes brilham em cena. Achei impressionante a caracterização de época. As pessoas escolhidas para cada papel foram certeiras.

Além da protagonista, que faz um trabalho impecável, estão muito bem em seus papéis Peter Sarsgaard como Bobby Kennedy; Billy Crudup como o jornalista que entrevista a ex-primeira-dama; John Hurt como o padre que conversa com Jackie após o assassinato de JFK; e Caspar Phillipson com uma semelhança assustadora como JFK – ele aparece pouco, mas está muito bem em cada aparição que faz no filme.

Em papéis menores e secundários, mas igualmente bem, estão os atores Greta Gerwig como Nancy Tuckerman, assessora e braço direito de Jackie no período em que ela foi a primeira-dama; Richard E. Grant como Bill Walton, assessor da Casa Branca; John Carroll Lynch como Lyndon B. Johnson; Beth Grant como a nova primeira-dama dos EUA, Bird Johnson; Max Casella como Jack Valenti, assessor de Johnson; e Georgie Glen como Rose Kennedy, mãe de JFK e Bobby. Todos estão muito bem.

O trabalho do diretor Pablo Larraín neste filme é feito com esmero. Em diversas cenas ele mistura cenas de época, reais, com os atores que fazem parte desta produção. O trabalho é interessante e dá outra força para a narrativa. Todos sabemos que estamos vendo personagens reais tendo as suas vidas contadas nesta produção, mas é diferente quando temos esta história imersa em cenas reais. Há diversas sequências impactantes, mas sem dúvida as que envolvem o assassinato em si e a sequência em que Jackie está limpando o sangue do marido no rosto estão no rol de inesquecíveis.

Além do diretor Pablo Larraín, que se credencia como um dos nomes a ser acompanhados no cinema, merecem aplausos nesta produção o trabalho de Mica Levi na trilha sonora; o de Stéphane Fontaine na direção de fotografia primorosa; o de Sebastián Sepúlveda na edição impecável e muito detalhista; o de Madeline Fontaine com os figurinos; o de Jean Rabasse no design de produção; o de Halina Gebarowicz na direção de arte; o de Véronique Melery na decoração de set; o dos 11 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem; os 22 profissionais do departamento de arte; os 10 profissionais que fazem um ótimo trabalho no departamento de som; e os 12 profissionais dos efeitos visuais e que propiciam aquela “mescla” entre cenas históricas e as feitas pelo diretor.

Jackie estreou no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2016. Depois o filme teve uma trajetória em 18 festivais pelo mundo – o último deles será o de Belgrado a partir de 3 de março deste ano. Até o momento o filme conquistou 32 prêmios e foi indicado a outros 136 – incluindo a indicação para três Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os 15 recebidos por Natalie Portman como Melhor Atriz, para os sete recebidos por Mica Levi por Melhor Trilha Sonora e para os dois recebidos por Madeline Fontaine por Melhor Figurino.

Jackie teria custado US$ 9 milhões – um orçamento baixo para os padrões de Hollywood – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 13 milhões. É uma bilheteria baixa se levarmos em conta a força da figura de Jacqueline Kennedy no país. Chega a ser admirável como o filme não decolou nos EUA.

Talvez o público da época de JFK não tenha gostado da narrativa, um tanto “pesada” para a memória de Jackie, e a história contada pela produção não tenha atraído ao público mais jovem. O que é uma pena, porque é um belo filme, muito bem feito e que com temáticas muito atuais, além de ser uma produção interessante sobre uma época importante dos EUA e do mundo.

Esta produção foi rodada nos Estados Unidos e na França. Entre as locações, destaque para os Studios de Paris, na La Cité du Cinéma; para o Easton Newman Field Airport, em Maryland (cena em que Jackie sai do avião junto com JFK); e em Tred Avon Manor, em Royal Oak, Maryland (casa de Verão da família do presidente); além das cidades de Washington e de Baltimore, nos EUA, e de Paris, na França.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Jackie foi anunciado como um filme que seria dirigido por Darren Aronofsky e tendo Rachel Weisz como protagonista. Os dois acabaram pulando fora da produção, mas Aronofsky seguiu sendo um dos produtores do filme.

O diretor Pablo Larraín estima que pelo menos um terço do que vemos no filme no corte final foram rodados em apenas um take – o que reforça ainda mais o talento da equipe envolvida.

O jornalista interpretado por Billy Crudup é inspirado em Theodore H. White, jornalista da revista Life que fez uma entrevista com a ex-primeira-dama pouco depois da morte de JFK.

As filmagens foram feitas em um prazo curto para os padrões de Hollywood: duraram 23 dias em Paris e mais 10 dias em Washington e Baltimore.

O diretor Pablo Larraín disse que só faria Jackie se Natalie Portman estrelasse a produção. O produtor Darren Aronofsky concordou que ela era a pessoa ideal para viver Jackie.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 218 críticas positivas e 26 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média 8. A nota do IMDb é boa, mas está entre as mais baixas entre os filmes concorrentes ao Oscar. A nota do Rotten Tomatoes, por outro lado, é bastante boa se levarmos em conta o padrão do site.

Este filme é uma coprodução do Chile, da França e dos Estados Unidos. Por ter os EUA como um de seus países, ele entra para a lista de produções que atendem uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

Há diversos textos interessantes sobre as entrevistas dadas por Jacqueline Kennedy e sobre esta personagem conhecida da história americana. Deixo como sugestões por aqui esta matéria em espanhol do jornal El País; esta outra do El País sobre as cartas de Jackie para o padre irlandês Joseph Leonard; esta matéria da Veja sobre a entrevista de Jackie dada em 1963; esta reportagem do português Jornal de Notícias sobre a segunda entrevista de Jackie; esta coluna de Elio Gaspari em que ele fala das três entrevistas da ex-primeira-dama; e, finalmente, esta matéria da Carta Capital sobre a vida sexual diversificada do casal Kennedy.

CONCLUSÃO: Este filme é impactante. Ele incomoda. Não apenas porque ele mergulha em uma realidade duríssima, mas também porque é um mergulho na cabeça de uma mulher que se habituou a ser fotografada a cada passo. Com uma direção interessante de Pablo Larraín, Jackie tem uma interpretação impressionante de Natalie Portman. Mais uma, aliás.

Em Jackie ela e o diretor conseguem desconstruir boa parte da imagem que temos de Jackie Kennedy. O que não é uma tarefa fácil, mas que é cumprida a risca. É um filme angustiante, até certo ponto, e pode ser uma decepção para quem tem apenas uma imagem positiva da protagonista na lembrança. Não acredito que este filme seja interessante para qualquer pessoa, mas ele tem um propósito muito claro e o realiza muito bem.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Era certo que Jackie teria pelo menos duas indicações ao prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: Melhor Atriz para Natalie Portman e Melhor Figurino. Além destas indicações mais que esperadas, o filme ainda emplacou uma terceira, a de Melhor Trilha Sonora.

Para mim, a interpretação de Natalie Portman neste filme, que é todo focado nela, é uma peça irretocável. A forma com que a atriz emula a voz, a forma de falar, o jeito de andar, a postura e todos os demais detalhes da ex-primeira-dama americana é algo impressionante. E não é uma tarefa simples, especialmente porque há muito material de comparação – Jackie Kennedy foi uma figura extremamente filmada e fotografada.

Fiquei arrepiada e perplexa de forma positiva com a forma com que Natalie Portman “encarnou” uma personagem tão conhecida. E fazendo algo ainda mais difícil: além de “emular” Jackie Kennedy, ela ainda imprimiu uma dinâmica para a personagem que não vimos em lugar algum. Digo tudo isso para afirmar que, sem dúvidas, ela merecia ganhar o Oscar 2017 mas que, infelizmente, isso não deve acontecer.

Tudo indica que este será o ano de La La Land. E como já comentei na crítica do filme, La La Land é a produção da vida de Emma Stone. No prêmio máximo dos atores, o Screen Actors Guild Awards, Emma Stone foi a vencedora como Melhor Atriz. Então é muito improvável que um resultado diferente ocorra no Oscar.

O bom é que, diferente de outros anos, Natalie Portman perder para Emma Stone não será exatamente uma grande injustiça, até porque Emma Stone está muito bem em La La Land – para mim, ela é um dos pontos fortes do filme que carece de roteiro. Então, apesar de fazer um trabalho mais complexo, Natalie Portman vai perder para alguém que também está bem.

Sobram as outras duas categorias em que Jackie está concorrendo. O filme tem boas chances em Melhor Figurino, mas ele tem pela frente, novamente, o “queridinho do ano” La La Land. Então sim, ele pode perder novamente nesta mesma queda-de-braço. Em Melhor Trilha Sonora ele tem chances muito, muito remotas. O favoritíssimo, e com razões desta vez, é La La Land, seguido de Moonlight.

Então, se as previsões estiverem certas e este ano for confirmado como o ano de La La Land, Jackie deve sair do Oscar 2017 com as mãos vazias. Não será de todo injusto, porque realmente La La Land é um filme muito bem acabado, ainda que lhe falte conteúdo. Jackie é denso, tem conteúdo e tem uma reconstrução de época impressionante, mas não tem a mensagem de celebração de Hollywood que o rival tem e que a indústria do cinema acha tão importante valorizar neste momento político dos Estados Unidos.