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Holy Spider


Um filme que é um soco no estômago ou um tapa na cara – dependendo da zona mais sensível para cada um – em muitos sentidos. Por diversos temas que aborda e pela forma direta com que mostra uma realidade difícil de assistir, em muitos momentos, Holy Spider é um filme um tanto perturbador. Pelo que mostra, pelo que deixa subentendido em algumas camadas e pelas reflexões que propicia. Uma produção potente, dura em muitas direções, mas com uma temática super atual não apenas em seu local de origem, mas em muitos outros lugares – inclusive no Brasil.

A HISTÓRIA

Começa com a frase “Todo homem deve conhecer o que deseja evitar”, que faz parte do sermão 149 do Imã Ali e que faz parte da obra Nahj Al-Balagha. Em seguida, vemos uma mulher, Somayeh (Alice Rahimi), fumando e vendo sua própria imagem, ainda com os cabelos molhados, em frente ao espelho. Em suas costas, alguns hematomas. Somayeh termina de se vestir e, antes de sair de casa, despede-se da filha, que já está deitada na cama. Ela diz que voltará antes da menina acordar.

Enquanto caminha pelas ruas, Somayeh desperta o olhar insistente de vários homens. Em um banheiro, ela reforça a maquiagem e coloca um calçado com salto. Somayeh está indo trabalhar. Rejeita alguns clientes, até que aceita um. Ela terá uma noite longa pela frente, e não vai cumprir a promessa que fez antes de sair de casa.

VOLTANDO À CRÍTICA

(SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Holy Spider): A construção narrativa desse filme é certeira. O roteiro escrito pelo diretor Ali Abbasi, em parceria com Afshin Kamran Bahrami e com supervisão da história por Jonas Wagner, nos conduz de forma eficiente desde o primeiro até o último minuto.

Me parece ser muito acertada a escolha que Abbasi faz de quem deve estar na parte central da narrativa. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que tenhamos sempre duas dinâmicas sendo desenvolvidas em paralelo, para mim fica evidente que o diretor e roteirista coloca as mulheres como protagonistas. Isso vale para a protagonista mais óbvia da história, a jornalista que faz o papel de investigadora dos casos que a polícia não faz tanta questão de fazer, Rahimi (Zar Amir-Ebrahimi), quanto para as outras “protagonistas” da produção, que são as mulheres mortas pelo serial killer atuante na “cidade sagrada” de Mashhad.

Desde o início da produção, todas essas mulheres ganham protagonismo na história. E apesar de Holy Spider apresentar, sim, uma história policial que envolve a caça de um serial killer iraniano, esta produção torna-se uma peça muito, mas muito acima da média por tratar de vários outros assuntos potentes, atuais e relevantes. Esta é uma produção cheia de camadas e de tópicos que valeriam um belo debate. Mas antes de entrar nestes assuntos, vou abordar um pouco as escolhas narrativas feitas por Abbasi.

Para começar, achei muito acertada a escolha do diretor e roteirista por uma narrativa realista e um bocado humanista. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O início do filme já nos fisga quando uma mãe se despede da filha, que está dormindo, dizendo que voltará antes da menina acordar, mas não é isso que acontece. O direito daquela mãe rever a filha e da filha crescer tendo a mãe por perto é retirado por um homem que se acha justiceiro mas que, no fundo, é frustrado por ser um sujeito irrelevante. Como acontece com muitos outros homens perversos – sendo eles serial killers ou não.

Aquele “até logo” da mãe para a filha é o primeiro de diversos elementos que nos prendem na narrativa e que humanizam a história. A primeira vítima de Saeed (Mehdi Bajestani) que vemos em cena é muito representativa de todas suas vítimas: uma mulher que paga as contas e ajuda a sustentar a casa através da prostituição. Maltratada por todos, que a desprezam, esta mulher ostenta diversas marcas de agressão no corpo, fruto, certamente, de seus clientes.

Além de ser agredida fisicamente por muitos homens, que pagam pelo sexo que ela pode oferecer, ela também é desprezada ou ignorada por homens e mulheres que culpam a mulher pela prostituição, mas que não entendem que ela é a parte frágil deste “negócio”. Afinal, quem realmente manda naquele cenário? Certamente os homens que fazem pose de “gente correta”, o que muitos chamam de “gente de bem”, mas que pagam por estes serviços.

Importante dizer que em raros casos alguma mulher pode dizer que “vive esta vida porque quer”. Sim, temos algumas histórias aqui e ali que defendem o direito da mulher de escolher por esta forma de ganhar dinheiro. Mas, de fato, a maior parte das mulheres tem escolha? Elas tiveram oportunidade de estudar, de buscar a carreira que desejavam, receberam alternativas na vida e ainda assim optaram por “servir” homens que pagam por prazer e que tratam muitas delas como eles querem?

A realidade que vemos em Holy Spider não tem nada de glamour. As mulheres não ganham muito dinheiro e são levadas para suítes luxuosas de hotéis para atenderem a clientes ricos. Muito pelo contrário. Elas ganham uma miséria e são levadas para qualquer lugar – inclusive para fazer sexo oral em um veículo e quase serem afogadas para o contratante se livrar da polícia.

As mulheres que acabam sendo vítimas do serial killer nessa história são umas ferradas, na maior acepção da palavra. Elas ganham pouco para fazer o que os homens querem, muitas vezes são agredidas ou maltratadas, sempre desprezadas, porque não tem muita alternativa na vida. Certamente elas não tem emprego, outra opção de renda. Além disso, para aguentar aquela vida à margem da “sociedade de gente de bem”, apesar de ser exploradas justamente pelo patriarcado que é quem manda naquela realidade, elas acabam caindo em diversos vícios – inclusive as drogas.

E aí, nem preciso dizer, é só ladeira abaixo. Essa realidade de gente sofrida e marginalizada é que acaba sendo o centro da narrativa porque as vítimas do serial killer apelidado de “Spider Killer” são essas mulheres. Pessoas que já sofrem na vida de exploração, sem que os homens sejam responsabilizados por isso, e que ainda devem conviver com o medo de serem mortas sem que ninguém, aparentemente, esteja se importando.

Neste cenário de desigualdade social e de exploração, por si só já duro de assistir, ainda temos uma narrativa pesada que envolve religião e misoginia. Mais do que uma sociedade machista, extremamente machista, vemos pela frente muitos comportamentos misóginos mesmo. Não tem outra palavra para o que vemos. O próprio protagonista desta história parece ter um ódio profundo das mulheres – da que ele tem em casa, mesmo procurando conter esse ódio, e de todas as outras que ele mata.

Como acontece com muitos serial killers, Saeed parece querer eliminar aquilo que ele odeia desejar. Ou seja, no fundo, ele despreza e sente muito desejo pelas mulheres. Especialmente as que não procuram a “santidade”. Mas em diversas cenas do filme o que vemos é uma certa inclinação dele por elas. Ele odeia sentir o que sente – ter desejo por mulheres que ele apenas deveria desprezar ou odiar. Enfim, psicólogos, psiquiatras e demais especialistas na mente humana podem explicar isso melhor do que eu.

Saeed não tornou-se um mártir, apesar de ter participado da guerra, e sente certo desprezo pela vida que ele leva atualmente. Acreditando-se muito importante – como todos os homens cretinos, infames e sórdidos que caminham por aí -, ele procura uma outra alternativa para sentir-se realmente “relevante” para a sociedade na qual ele está inserido.

Assim, aparentemente sendo um “homem de fé”, que reza todas as vezes no dia que a religião dele determina, além de frequentar o templo de forma recorrente, Saeed decide empreender sua própria “cruzada” contra as pecadoras da cidade. Interessante que ele não mata os homens que “pecam” e que são responsáveis pela prostituição… ou seja, a religião é apenas utilizada para ele resolver outros problemas que ele tem e que talvez a Psicologia também pudesse ajudar a resolver…

Mas pela crença deturpada de Saeed, esta história entra em um terreno de areias movediças. Temos aqui um tema super atual: a religião sendo utilizada como desculpa para crimes, para assassinatos, para a morte de pessoas. Nenhuma religião, ao menos os textos mais atuais de todas as crenças principais mundo afora, defendem crimes desta natureza. Mas, como acontece de tempos em tempos, volta e meia algum extremista resolve usar a religião como desculpa para sua vontade de matar.

O problema que Holy Spider revela através da jornalista que protagoniza esta história é que Saeed não está sozinho nesta visão deturpada do islamismo. Como ele vive uma “cidade sagrada” e, aparentemente, os poderosos da cidade também não acham bacana o “pecado” da prostituição fazer-se presente naquela cidade, as autoridades locais não tem um grande interesse de realmente investigar as mortes das prostitutas.

Rahimi logo percebe essa realidade e, claro, fica indignada com um aparente “apoio institucional” aos crimes. Afinal, as lideranças religiosas, políticas e até a polícia estão fechando os olhos para as mortes daquelas mulheres? Em parte sim. A polícia, de fato, demonstra pouco interesse ou pura incompetência em investigar os crimes. Afinal, as mulheres mortas eram “descartáveis” aos olhos daquela cultura machista.

Líderes religiosos e políticos rechaçam, ao menos na fala, os crimes, assim como a desconfiança de que eles estariam apoiando o serial killer. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois que Rahimi faz o trabalho da polícia e chega até o criminoso, de fato, ele acaba sendo “abandonado” pelos líderes religiosos e políticos locais. Claro, também por pressão “da mídia” e pela repercussão que o assunto toma, para muito além das fronteiras de Mashhad (ou Meshed). Eles não conseguem mais “acobertar” ou “ignorar” o criminoso que foi descoberto pela jornalista.

O problema é a mensagem que Saeed passa e o efeito que ela provoca. Não é apenas a mulher dele, Fatima (Forouzan Jamshidnejad), que defende o marido e quer justificar os seus crimes alegando que ele está ajudando a “limpar a cidade santa” – matando mulheres, vejam o nível do absurdo!

O filho do casal, Ali (Mesbah Taleb) concorda com a mãe e pega o pai como um ídolo. E ele não segue esse caminho apenas pela visão deturpada dos pais, mas porque muitos comerciantes e outras pessoas apoiam o que Saeed fez. Sim, temos uma parte da sociedade tão míope quanto o serial killer. Espantoso, para dizer o mínimo.

Mas isso nos faz – ou deveria nos fazer – refletir. Em que sociedade estamos vivendo? Que ideias e atos as pessoas andam apoiando? Pessoas que dizem ser religiosas podem, de fato, defender assassinatos? Religiões, ao menos nas interpretações modernas de textos milenares, defendem que alguns merecem morrer e que são “inferiores” a outros? Em pleno século XXI? Ou será que as religiões realmente não defendem isso, mas que alguns utilizam as religiões e seus textos sagrados para cometer crimes?

Para além das religiões, há espaço em sociedades modernas, onde as leis deveriam ser respeitadas, e a partir de uma visão ética da vida, para a defesa da morte de outras pessoas porque elas não fazem o que consideramos como correto ou “certo”? No lugar de morte e extermínio, as pessoas que se dizem religiosas, não importa de que religião estamos falando, não deveriam defender a paz, a conciliação, o perdão e o amor?

Enfim, Holy Spider acaba sendo um filme duro por tudo isso que ele nos revela, pouco a pouco, camada a camada. É pesado e duro ver as cenas dos crimes, cada vez mais explícitas, conforme a narrativa avança. Tão pesado e duro é vermos a reação da família do protagonista, especialmente de Ali, nos momentos finais da produção. Ou seja, Holy Spider começa mostrando uma relação de mãe e filha e termina revelando uma relação de filho com pai, mas algo totalmente invertido entre um ponto e outro.

Infelizmente, por todo o contexto que vemos nesta produção, não seria de admirar que este serial killer tivesses alguns “copycat” que tentariam emular seus crimes na mesma cidade ou país. E o pior é eles justificarem esses crimes com argumentos totalmente falhos, como a religião ou o moralismo. Covardes, não querem admitir as reais razões de estarem exterminando mulheres que já são exploradas no dia-a-dia de suas vidas miseráveis. É o extremo da crueldade.

Por tudo que comentei antes, achei Holy Spider um filme incrível. Pela narrativa envolvente e com um desenrolar de “desvelo” do que acontece crescente, assim como pelas diversas camadas de assuntos importantes que a produção trata. Para finalizar, como jornalista, claro que achei interessante ver nesta produção uma jornalista como protagonista. Só acho que, justamente nesta parte, o filme falha um pouco.

Jornalistas não são heróis ou heroínas. Eles nunca devem se envolver tanto em uma história, em contar uma realidade, ao ponto de fazerem o papel de outros profissionais. Ou seja, por mais que eu entenda a aflição de Rahimi, que tem empatia com aquelas mulheres que estão sendo mortas sem ninguém – fora suas famílias – se importarem com isso, eu nunca posso considerar como correta a atitude dela de fazer o trabalho da polícia.

Além de se colocar em risco, de quase ter morrido no processo, Rahimi dá um péssimo exemplo para outras profissionais da área. E se tivermos outras jornalistas imitando o que ela fez e alguma destas outras não ter a sorte que ela teve? Fora que jornalista tem uma função muito clara, objetiva, estudam para fazer seu trabalho sobre princípios éticos e técnicos, e não devem confundir-se com investigadores, policiais ou justiceiros.

Enfim, entendo que o filme é baseado em uma história real e que a realidade a gente não muda porque não concorda com ela… assim como entendo que as atitudes de Rahimi são interessantes para a narrativa do filme. Mas não posso achar bacana o exemplo que sua personagem pode dar para outras jornalistas jovens.

Também me incomodou um pouco o filme não deixar claro quantas mulheres foram mortas por Saeed. Afinal, antes de Rahimi chegar na cidade, ele já tinha feito algumas vítimas, sempre buscando autopromoção ligando para o jornalista local, Sharifi (Arash Ashtiani), que acaba sendo uma figura importante para Rahimi se ambientar na cidade. Acho que Holy Spider poderia ter deixado mais claro o número de vítimas total do serial killer. Apenas por estes detalhes, não vou dar a nota máxima para esta produção. Mas ela chegou perto.

NOTA

9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA

Holy Spider tem diversas qualidades. Como destaquei anteriormente, um ponto fundamental desta produção é o roteiro escrito pelo diretor Ali Abbasi junto com Afshin Kamran Bahrami e com supervisão da história feita por Jonas Wagner. A forma como o roteiro foi construído, como a narrativa é desenvolvida partindo do particular de uma vítima até o particular da família do assassino, passando por uma leitura interessante do contexto social e da realidade que cercava aquelas pessoas e os demais personagens da história, faz toda a diferença. Achei um trabalho quase irretocável. Quase pelos detalhes que citei no final da crítica.

Além do ótimo roteiro que ajudou a escrever, o diretor Ali Abbasi faz um belo trabalho na direção. Ele valoriza cada pequeno detalhe da narrativa, cuida de colocar a câmera sempre próxima dos personagens, valorizando a ótica de cada um deles, mas sem perder o contexto da cidade e das grandes diferenças sociais que marcam essa história. A ambientação da cidade de Mashhad (Meshed), que praticamente é uma personagem na história, também é importante para a narrativa e muito bem feita pelo diretor.

Um outro acerto de Holy Spider é que o filme foca em poucos personagens. Isso acaba permitindo que conheçamos um pouco mais dos personagens centrais e dá espaço para os atores fazerem bem seus trabalhos. Todo o elenco faz um bom trabalho, mas é preciso destacar os protagonistas, que dão um show a parte. Achei irretocável o trabalho de Zar Amir-Ebrahimi como a jornalista Rahimi, que consegue colocar-se na pele das vítimas, mulheres como ela, marginalizadas por uma sociedade muito desigual e machista, e de Mehdi Bajestani como Saeed, também fruto daquela sociedade, um homem infeliz, com mania de grandeza, que utiliza diversos preceitos de sua realidade para reforçar sua ideia egoísta de buscar prazer e satisfação a qualquer custo, sem o mínimo de empatia e com diversos elementos de um possível psicopata.

Além dos atores citados, vale comentar o bom trabalho de outras pessoas do elenco. Para começar, destaco o trabalho de duas pessoas do “núcleo do serial killer”: Forouzan Jamshidnejad como Fatima, esposa de Saeed e uma mulher que, apesar de ter uma opinião sobre os fatos bem formada, ela revela-se uma mulher que está bem confortável em sua posição de “submissa” e que acaba demonstrando também uma falta de empatia com as vítimas que chega a assustar – mas que fala muito sobre a sociedade em que ela e o marido estão inseridos; e Mesbah Taleb como Ali, filho mais velho de Saeed e Fatima e “herdeiro”, “novo homem da casa”, uma cria assustadora do serial killer e da esposa igualmente sem empatia.

Infelizmente, através do site IMDb, eu não consegui identificar todos os nomes dos atores que tem certa relevância na produção. Não consegui, por exemplo, o nome da atriz que faz a filha mais nova de Saeed e Fatima. Por lá também não figuram os nomes de todas as vítimas de Saeed que vemos em cena em Holy Spider. Mas consegui identificar duas de duas principais vítimas: Alice Rahimi faz um trabalho sensível e marcante como Somayeh, a mulher que vemos no início da produção despedindo-se da filha que está dormindo; e Sara Fazilat interpreta Zinab, a mulher forte que mais resiste à violência de Saeed e que tem uma das sequências mais difíceis de assistir nesta produção. As duas estão excelentes.

As mulheres são as protagonistas desta produção, juntamente com o criminoso que provoca toda a dor, medo e terror que vemos em Holy Spider. Mas, além delas e de Saeed, temos alguns outros personagens homens que tem relevância na história. Através do site IMDb, consegui identificar dois atores que fazem papéis relevantes – e que estão bem nestes papéis: Arash Ashtiani como Sharifi, jornalista que acaba sendo o principal parceiro e apoio de Rahimi na cidade; e Sina Parvaneh como Rostami, o policial que está à frente das “investigações” dos casos e que revela-se um grande cretino, para dizer o mínimo. Mas ambos fazem bem seu papel, apesar de despertarem alguns momentos de raiva para espectadores que não estão acostumados com aquela realidade.

Entre os aspectos técnicos da produção, vale citar todos os que ajudam o diretor a nos ambientar naquela história e a dar ritmo para a trama. Vale citar a edição de Olivia Neergaard-Holm e Hayedeh Safiyari; a direção de fotografia de Nadim Carlsen; a trilha sonora de Martin Dirkov; o design de produção de Lina Nordqvist; a direção de arte de Anas Balawi; os figurinos de Hanadi Khurma; a maquiagem feita por sete profissionais, a saber: Fareh Jadaane, Hamza Kachkache, Noureddine Meqbel, Jeries Al Nahas, Mohammad Rasheed, Siwar Saub e Aseel Yasin.

Holy Spider estreou em maio de 2022 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, até janeiro deste ano, o filme participou – ou vai participar ainda – de 37 festivais em diversos países. Entre outros eventos, Holy Spider se fez presente nos festivais de cinema de Melbourne, Toronto, Helsinki, Hamburgo, Vancouver, Londres, Rio de Janeiro, Oslo e Estocolmo.

Em sua trajetória até aqui, Holy Spider ganhou sete prêmios e foi indicado a outros 22. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Atriz para Zar Amir-Ebrahimi no Festival de Cinema de Cannes; para o de Melhor Ator para Mehdi Bajestani e de Melhor Filme no Festival de Cinema de Estocolmo.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre o filme – recomendo que você só leia este e os próximos parágrafos no caso de já ter assistido Holy Spider. O filme é baseado na história real do serial killer iraniano Saeed Hanaei, que ficou conhecido como “Spider Killer”. Ele matou 16 prostitutas na cidade de Mashhad, no Irã, entre os anos de 2000 e 2001. Ele era um veterano da Guerra Irã-Iraque – chegam a citar esse fato no filme, mas sem deixar claro de que guerra eles estão falando. Segundo as notas de produção do filme, Saeed teria começado a matar prostitutas depois que uma pessoa teria confundido a mulher dele com uma prostituta. Estranho, não?

Vejam que interessante a história da fantástica Zar Amir-Ebrahimi, que interpreta a protagonista desta história. Inicialmente, ela iria trabalhar apenas como diretora de elenco do filme. Até que uma atriz que iria interpretar Rahimi desistiu do papel porque ficou com medo de atuar sem hijab. Para substituir a atriz, a produção fez teste com cerca de 50 outras atrizes. Inicialmente, Abbasi queria alguém jovem, que fosse forte mas que pudesse interpretar uma jornalista um tanto inexperiente e sedenta para provar a si mesma e mostrar seu valor. Mas quando o diretor viu Zar Amir-Ebrahimi com outro tipo de interpretação, mostrando uma profissional mais madura, mas desesperada por uma situação complicada, ele decidiu que ela deveria fazer Rahimi. Que escolha acertada! Ela está perfeita e dá muita profundidade para o papel.

Holy Spider começou a ser desenvolvido em 2016. A ideia inicial era fazer o filme no Irã, mas os produtores e o diretor abandonaram essa ideia em 2019. Desde o início de 2020, o plano passou a ser de fazer o filme na Jordânia, mas o início das gravações foi adiado várias vezes por causa da pandemia de Covid-19. No final de 2020, eles decidiram fazer o filme na Turquia, onde as restrições por causa da pandemia eram menores. Mas a ideia não deu certo porque as autoridades turcas paralisaram as gravações. Segundo Abbasi, isso aconteceu por causa de uma interferência das autoridades iranianas. A produção acabou voltando para a Jordânia, onde as filmagens começaram em maio de 2021.

Poucos dias depois da atriz Zar Amir-Ebrahimi ganhar o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Cannes, ela e o diretor Abbasi foram acusados de “blasfêmia” pelas autoridades iranianas. Alguns chegaram a ir ainda mais longe, pedindo pela execução do diretor e da atriz. Olha o nível do absurdo, da visão extremista e ainda institucional daquele país! Uma vergonha, para dizer o mínimo. Que triste quando uma religião é usada para um fim tão absurdo!

Segundo o site IMDb, a Organização Iraniana de Assuntos Cinematográficos e Audiovisuais, que opera sob o comando do Ministério da Cultura e Orientação Islâmica, divulgou um comunicado em que chamou Holy Spider de “obscenidade descarada” e afirmando que ele era “produto da mente distorcida de um iraniano-dinamarquês” – referindo-se ao diretor Abbasi. Além disso, o comunicado condenou o Festival de Cinema de Cannes por premiar Zar Amir-Ebrahimi afirmando que esse ato configurou “um movimento insultuoso e politicamente motivado”. A atriz disse para a CNN que recebeu cerca de 200 ameaças após a cerimônia de premiação de Cannes. Abbasi e outros nomes envolvidos com a produção também receberam ameaças. Olha o nível desses extremistas!

Zar Amir-Ebrahimi tornou-se a primeira atriz iraniana a ganhar o prêmio de Melhor Atriz em Cannes. E foi merecido, merecidíssimo!

Vou trazer algumas curiosidades aqui sobre a produção que incorporam SPOILERs, por isso não leia se você não assistiu ao filme. Abbasi decidiu fazer algumas mudanças na história do filme na comparação com a história real do serial killer apelidado de Spider Killer. Ele mudou o sobrenome de Saeed no filme e ficcionou algumas partes da história da jornalista que realmente acompanhou o caso. Uma das principais mudanças no filme foi colocar Rahimi passando-se por prostituta – na realidade, a jornalista não fez isso. Abbasi também disse que o objetivo dele com o filme não foi contar a história de um serial killer e sim fazer um filme em que o foco fosse “uma sociedade de assassinos em série”. Potente!

Um grupo de mulheres interrompeu o tapete vermelho do filme em Cannes para protestar contra os feminicídios cometidos na França. Quem protestou na ocasião apresentou uma faixa com 129 nomes de mulheres que foram mortas desde julho de 2021 e até aquela data – ou seja, desde que a edição anterior do Festival de Cinema de Cannes tinha sido realizado. Ou seja, o que vemos no filme, em que mulheres podem ser mortas porque “não valem nada”, guardada as diferenças culturais, políticas e religiosas entre os países, são uma desgraça mundial, vista em vários países. E deveria ser mais seriamente combatida.

Vale comentar, finalizando essa lista de curiosidades sobre o filme, uma última comparação entre Holy Spider e o que ocorreu na vida real. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na vida real, como vemos no filme, Rahimi acompanhou o julgamento de Saeed. A parte em que ela se disfarça como prostituta não aconteceu na vida real, como comentei antes, mas o que vemos no filme reproduz o que aconteceu com uma vítima de Saeed que conseguiu fugir dele. Foi ela quem ajudou a polícia a desvendar o caso. A decisão de Abbasi de mudar alguns fatos no filme, especialmente este envolvendo a jornalista, foi para tentar distanciar um pouco a produção do que realmente aconteceu, tentando proteger a jornalista da vida real, e para dar mais evidência para o tema misoginia.

Como comentado anteriormente, Holy Spider foi filmado na Jordânia, especialmente na cidade de Amman, que acabou fazendo as vezes de Mashhad.

Se antes eu já tinha algumas reticências com o Irã, depois de saber sobre os fatos acima, tenho ainda mais desprezo por aquele país. Melhor dizendo, não pelo país, mas pelas lideranças e pela parte da população que apoiam essa cultura de misoginia, machismo, intolerância e violência.

Fiquei muito interessada pelo trabalho do diretor Ali Abbasi. Ele nasceu em 1981 em Teerã, no Irã, e estrou na direção em 2008 com o curta Officer Relaxing After Duty. Depois de dirigir outros dois curtas, ele estreou com um longa em 2016, com o filme Shelley. Antes de Holy Spider, ele dirigiu Border – comentado aqui no blog. Este ano, ele ampliou ainda mais sua importância ao dirigir dois episódios da série de TV The Last of Us, baseada no game de sucesso – e que é genial, o jogo, devo dizer. Abbasi é um nome que, sem dúvida, merece ser acompanhado.

A maravilhosa Zar Amir-Ebrahimi nasceu em 1981 também em Teerã, no Irã. Ela estrou como atriz em 2001 em Entezar. Antes de Holy Spider, ela tinha sido indicada e tinha vencido um prêmio por seu papel em Bride Price vs. Democracy, lançado em 2016 e dirigido por Reza Rahimi. Fiquei com vontade de ver outros trabalhos dela, porque ela tem uma presença muito marcante em cena.

O site IMDb apresenta a nota 7,3 para Holy Spider, enquanto que os críticos que tem os seus textos lincados no Rotten Tomatoes dedicaram 89 críticas positivas e 18 negativas para a produção, o que garante a aprovação de 83% para o filme e a nota 7,4 para Holy Spider. O site Metacritic, por sua vez, apresenta o “metascore” 68 para a produção, fruto de 18 críticas positivas, seis medianas e duas negativas.

Segundo o site Box Office Mojo, Holy Spider faturou cerca de US$ 1,16 milhão nos cinemas em que estreou mundo afora. Nos Estados Unidos o filme fez cerca de US$ 273,7 mil. Pouco visto, portanto, e pouco “badalado” entre os críticos também para tornar-se forte candidato ao Oscar. Parece que falta-lhe fôlego (ou seria lobby?).

Holy Spider é uma coprodução da Dinamarca com a Alemanha, a Suécia e a França. Apesar de envolver recursos destes países, a produção principal é da Dinamarca. O filme foi selecionado pelo país para representá-lo no Oscar deste ano. O idioma que vemos em cena é o persa.

CONCLUSÃO

Um filme surpreendente, por nos trazer uma visão do “mundo islâmico” pouco conhecida. Apesar de estar ambientado naquele cenário, este filme trata de temáticas que são praticamente universais. Holy Spider tem uma narrativa interessante, envolvente, e diversas cenas muito duras de assistir. Não apenas pela violência e pela crueldade que estas cenas revelam, mas pelo que elas desvelam de uma sociedade muito desigual e excludente. Especialmente para mulheres. Com bom ritmo e uma narrativa que segue uma linha dramática crescente, esta produção cumpre seu papel como filme policial e drama, mas fica acima da média pelas diversas temáticas que aborda de maneira franca e direta.

PALPITES PARA O OSCAR 2023

Quem me acompanha aqui no blog, sabe que Holy Spider é apenas o segundo filme que tem chances de emplacar em uma das vagas da categoria Melhor Filme Internacional no próximo Oscar que eu assisti. Antes, comentei por aqui Argentina, 1985. Gostei dos dois filmes e acho que ambos podem avançar na busca por uma estatueta dourada.

Me parece que Argentina, 1985 saiu fortalecido na disputa por ter ganho o Globo de Ouro como Melhor Filme em Língua Não-Inglesa. Mas, se eu fosse opinar apenas pelo meu gosto, apesar de achar Argentina, 1985 um filme bom e, sobretudo, muito necessário, gostei mais de Holy Spider. Para mim, o representante da Dinamarca é um filme mais marcante, que inflige um maior impacto em quem assiste e apresenta uma coragem maior em abordar assuntos espinhosos.

Particularmente, acredito que tanto Holy Spider quanto Argentina, 1985 tem boas chances de avançar na disputa e de emplacaram suas indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Acho que ambos tem qualidade para isso e merecem chegar lá. Mas sei também que preciso avançar na lista dos 15 filmes da “short list” de produções que avançaram na busca por uma vaga no Oscar para poder bater o martelo sobre esta disputa.

Olhando apenas pelo lado das bolsas de apostas, Holy Spider está correndo por fora, aparecendo apenas na posição 9 dos apostadores. Argentina, 1985 sim deve entrar, segundo esses apostadores, na quarta posição – juntamente com All Quiet on the Western Front, Decision to Leave, Close e EO. Precisamos ver essas outras produções e aguardar mais algumas semanas para ver, de fato, quem será indicado.

Por Alessandra

Jornalista com doutorado pelo curso de Comunicación, Cambio Social y Desarrollo da Universidad Complutense de Madrid, sou uma apaixonada pelo cinema e "série maníaca". Em outras palavras, uma cinéfila inveterada e uma consumidora de séries voraz - quando o tempo me permite, é claro.

Também tenho Twitter, conta no Facebook, Polldaddy, YouTube, entre outros sites e recursos online. Tenho mais de 20 anos de experiência como jornalista. Trabalhei também com inbound marketing e, atualmente, atuo como professora do curso de Jornalismo da FURB (Universidade Regional de Blumenau).

Uma resposta em “Holy Spider”

Acompanho seu maravilhoso trabalho. É a melhor crítica de cinema que temos no país.
Mas hoje , por vc não ter dado um 10 ao filme , tomei coragem , e venho pedir um favor . Vc poderia listar todos os filmes que resenhou e deu um 10 ?
Eu correrei para assistí-los.
Muito obrigada por nos presentear com seu conhecimento e sensibilidade. .

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