Nieve Negra – Black Snow – Neve Negra

Um filme que parece ser de outra latitude e que requenta uma história que já assistimos antes. Nieve Negra chama a atenção por ser estrelado por Ricardo Darín, um dos grandes atores da história do cinema argentino, mas deixa a desejar. A produção tem uma narrativa bastante previsível e, quando resolve “surpreender”, revela muitas incongruências e situações um bocado sem sentido.

A HISTÓRIA: Neblina e neve em um local com muito gelo. Um menino caminha entre as árvores e sobre a neve com uma arma até que se vira ao escutar o próprio nome. Corta. Em um avião, Marcos (Leonardo Sbaraglia) acaricia o cabelo da esposa, Laura (Laia Costa). Eles estão viajando da Europa para a Argentina, terra natal dele, para resolver as pendências após a morte do pai de Marcos. Logo que chegam em casa, Marcos atende o telefone e fala com Sepia (Federico Luppi). Marcos pergunta porque a casa está toda desarrumada, e Sepia diz que foi o irmão dele, Salvador (Ricardo Darín). Sepia diz que Marcos deve pegar uma carta que o pai dele deixou e que deveria falar com o irmão sobre a oferta dos canadenses. Marcos tenta escapar, mas acaba indo para a propriedade da família e encontrando Salvador.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Nieve Negra): Os primeiros minutos desta produção são um bom cartão de visitas da proposta do diretor Martin Hodara, que escreveu o roteiro de Nieve Negra junto com Leonel D’Agostino. Aquela sequência inicial de Juan (Iván Luengo) caminhando com uma arma entre algumas árvores de um bosque e sobre a neve se parece com tantas outras de filmes europeus. Digo que é um bom cartão de visitas porque o restante da história também caminha por semelhanças como esta.

Os europeus são mestres em contar histórias de dramas familiares com boas doses de suspense e de tensão. Também não são raras as histórias de adultério ou de outro tipo de relação amorosa que acaba “estragando tudo”. Nieve Negra caminha por essa seara, contando um drama familiar com uma tragédia no meio e alguns “temperos” que vamos descobrir apenas no final.

Francamente, por mais que Hodara e D’Agostino se “esforcem” para surpreender o espectador, eu não achei as “sacadas” do filme realmente surpreendentes. (SPOILER – não leia se você não viu o filme ainda). Não sei vocês, mas não demorou muito tempo para que eu desconfiasse de Marcos como o verdadeiro “assassino” de Juan. Talvez por causa das reações de Salvador, que parecia ser um sujeito que carregava uma culpa há muito tempo que não lhe pertencia – algo que se confirma no final.

Mas nem precisei chegar na derradeira “cena revelação” do crime para matar a charada. Estava na cara que Salvador não era o culpado… e se não era ele, sobrava apenas o outro irmão, Marcos. A justificativa para o crime me pareceu bastante forçada. Mas mais forçada que esta justificativa foi mesmo a reta final da produção. Vejamos algumas incongruências que realmente me incomodaram.

(SPOILER – realmente não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, vamos falar sobre a essência da história. Marcos matou Juan, de forma proposital e covarde, pelas costas. Muito tempo depois, ele volta para a cidade natal e para a propriedade onde o crime aconteceu e faz de conta que não teve nada a ver com aquilo. Ele repete a história “oficial” de que quem atirou em Juan foi Salvador. Ora, se ele matou o irmão mais novo e tanto tempo depois ele ainda coloca a culpa em Salvador, de duas uma: ou ele “perdeu a memória” e realmente não lembra do que aconteceu (bem difícil de acreditar, não?) ou ele é um grande cínico que lembra de tudo e que atua como um grande “ator” enganando a todos.

Honestamente, acho muito difícil ele ter feito uma lavagem cerebral tão grande que não lembra de como Juan realmente foi morto e da relação que ele tinha com a própria irmã. E se, como parece mais lógico, ele está apenas fingindo e mentindo e, no fundo, sabe exatamente o que aconteceu no passado, que maluquice é aquela que Laura faz no final? Se ele lembra do que aconteceu, claro que ele vai reconhecer o bilhete que ele próprio escreveu e vai saber que Laura cortou um pedaço dele e que ela descobriu a verdade. O que explicaria ela se arriscar desta forma? Não faz o mínimo sentido.

Outra forma de encarar aquele final é pensar que Laura, desconfiando que o marido estava mentindo e “fazendo de conta”, resolveu mostrar para ele que ela sabia a verdade, mas que ia fingir como ele para que os dois ficassem juntos. Ainda que esta seja a alternativa que faça mais sentido, acho a saída para a encruzilhada da trama muito estranha. Primeiro que uma mulher com o mínimo de crítica pensaria que deveria fugir de uma relação com um sujeito que tem tanto sangue frio quanto Marcos – que matou o irmão pelas costas e que tinha uma relação amorosa com a própria irmã. Que tipo de sujeito é esse? E uma mulher em sã consciência vai querer se relacionar com um cara assim? Difícil de acreditar.

Mas as incongruências não param para aí. O que realmente me incomodou foi a sequência sem sentido no final. Primeiro, Marcos, sabendo que a mulher estava grávida, realmente cogitar deles ficarem dentro de um carro em uma tempestade de neve. Sem sentido. Por mais que o irmão tinha ameaçado ele, um sujeito com o mínimo de bom senso jamais ia buscar como saída aquela falta de solução que era ficar dentro do carro com aquela neve toda. Depois, muito difícil de acreditar que Laura acertaria Salvador atirando de dentro do rancho para fora – justamente ela que não tinha tanta experiência assim em lidar com uma arma.

Só que o roteiro de Hodara e D’Agostino consegue derrapar ainda mais. Depois que Marcos é levado para a delegacia, não faz sentido nenhum para a história que Laura fique naquela casa no meio do nada e sozinha em meio a uma temporada de tempestades de neve, não é mesmo? Não faz sentido algum. Faria muito mais sentido ela ir com Sepia para a cidade e ficar esperando Marcos na casa do pai dele ou mesmo ficar uma noite na casa de Sepia. A última alternativa seria ela ficar lá na propriedade em lugar ermo. Claro que eles optaram por esta alternativa nada lógica para que Laura descobrisse a verdade. Mas me pareceu uma forçada de barra grande demais para ser engolida.

Em resumo, os roteiristas poderiam ter trabalhado melhor a história e deixado ela sem tantos furos e derrapadas. Me incomoda quando um roteiro é desleixado, e isso me pareceu acontecer em Nieve Negra. A qualidade do filme é que escolheram um bom elenco para dividir a cena, com evidente destaque para o trio Leonardo Sbaraglia, Ricardo Darín e Laia Costa. Os outros atores em cena fazem papéis menores. Eles estão bem, mas o roteiro realmente não os ajuda muito. Sem dúvida alguma há filmes argentinos muito melhores no mercado. Procure que vale a pena.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: As intenções de Martin Hodara em fazer este filme, tenho certeza, eram boas. Mas o diretor e roteirista precisa melhorar bastante a forma de contar histórias e, principalmente, buscar um pouco mais de características dentro da Argentina em lugar de “copiar” tanto o estilo europeu. Certamente vai lhe fazer bem. E o público também agradece. Afinal, se for para ver a um filme estilo europeu, melhor mesmo é assistirmos a uma produção destas legítima e direto da fonte.

Este é apenas o segundo filme dirigido por Martin Hodara. Antes ele dirigiu a dois curtas, em 1987 e 1991, em em 2007, La Señal. A maior experiência de Hodara é na função de assistente de direção ou segundo diretor – ele tem 12 trabalhos neste rol. Ou seja, ainda que tenha um bocado de experiência no cinema, parece que ele precisa aprimorar melhor o seu trabalho antes de apresentar algo realmente bom.

Nieve Negra estreou na Argentina no dia 19 de janeiro deste ano. Depois o filme estreou no Uruguai e, em março, participou do Festival de Cinema de Málaga, na Espanha. No Brasil ele estreou nesta semana, no dia 8 de junho.

Algumas cenas da produção foram rodadas em Andorra, onde havia a neve que os produtores não encontraram na Patagônia.

Este filme é uma coprodução da Argentina com a Espanha.

Da parte técnica do filme, vale destacar a boa direção de fotografia de Arnau Valls Colomer; a edição de Alejandro Carrillo Penovi; o design de produção um tanto óbvio de Marcela Bazzano e Josep Rosell; e a trilha sonora de Zacarías M. de la Riva.

Como eu comentei antes, os nomes fortes desta produção são, na ordem de importância, Leonardo Sbaraglia, Ricardo Darín e Laia Costa. Além deles, vale comentar o bom – e alguns momentos razoável – trabalho de Dolores Fonzi como Sabrina, irmã de Marcos e Salvador; Andrés Herrera como o pai dos três; Mikel Iglesias como Salvador na juventude; Iván Luengo como Juan; Federico Luppi como Sepia, advogado interessado nas vendas da propriedade, amigo do pai dos garotos e quem acaba ajudando Marcos; Biel Montoro como o Marcos adolescente; e Liah O’Prey como a Sabrina jovem. O elenco realmente é bastante restrito e diminuto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram três críticas positivas e duas negativas para a produção, o que garante para Nieve Negra uma aprovação de 60% e uma nota média 6. Francamente, estou com eles. Facilmente este filme poderia ter levado um 6 ou pouco mais que isso.

CONCLUSÃO: O bom e velho drama familiar com uma “tragédia” no meio e uma ou duas tentativas de surpreender o espectador. Nieve Negra tem bons atores, mas sofre com um roteiro fraco e com uma busca um tanto forçada por um estilo de filme tradicional na Europa mas que não parece combinar muito com a latitude latino-americana. Assista apenas se você não dispensa um filme estrelado pelo Ricardo Darín. Porque enquanto obra de cinema, existem muitas outras produções melhores no mercado.

Una Pistola en Cada Mano – O Que os Homens Falam

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As pessoas são uma coisa e normalmente falam sobre si mesmas de outra maneira. Esta é uma das reflexões deste Una Pistola en Cada Mano, um filme recheado de diálogos, descobertas e um bocado de conflito. Quando me refiro ao choque, não se trata apenas de desentendimentos entre pessoas, mas também sobre as ideias de umas fazem das outras – e, algumas vezes, de si mesmas. Um filme diferente e interessante, e que provavelmente fará você pensar sobre que imagem passa para os outros e a respeito do que os outros escondem de você.

A HISTÓRIA: Chove forte. Protegido por um jornal, E. (Eduard Fernández) chega devagar em um prédio. Olha as caixas de correspondência, larga o jornal e aperta o botão chamando o elevador. Quando o elevador chega, E. vê pelo espelho J. (Leonardo Sbaraglia) chorando. Os dois se cumprimentam, e E. pergunta se ele mudou tanto assim. Só então J. o reconhece. Eles foram colegas no colégio e estão se encontrando 10 anos depois da última vez em que esbarraram. A conversa sem muita graça começa a se tornar mais profunda, até que os dois desabafam sobre as próprias vidas. Conversas francas assim vão surgir em diferentes relações entre os personagens desta história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Una Pistola en Cada Mano): Filmes como este são cada vez mais difíceis de encontrar. Os arrasa-quarteirões (blockbusters) que forram os estúdios e seus realizadores de dinheiro seguem a mesma fórmula: muitos efeitos especiais, atores de renome interpretando personagens rasos e uma história recheada de ação e/ou suspense. Una Pistola en Cada Mano é a antítese de tudo isso. Os atores são conhecidos em seus países de origem, mas não podem ser considerados astros mundiais. Os outros dois quesitos nem fazem parte do enredo.

Como vários outros filmes, esta produção dirigida e com roteiro de Cesc Gay (que escreveu a história junto com Tomàs Aragay) junta vários personagens com histórias que parecem isoladas em uma colcha de retalhos – exemplos de filmes assim remontam a Short Cuts, Magnolia e Babel, apenas para citar alguns. Mesmo que parte dos personagens que vemos em duetos que parecem isolados se conheçam, cada história particular pode ser vista isoladamente, o que dá um caráter de confessionário para o filme.

Aliás, este caráter dos personagens contarem um para os outros o que eles não tem coragem de verbalizar para mais (ou quase) ninguém é o que chamar a atenção desde o encontro dos primeiros a entrar em cena, os atores Eduard Fernández e Leonardo Sbaraglia. A conversação entre eles lembra a de tantos outros encontros de “bons” ou “grandes” amigos que por diversas contingências da vida ficam muito tempo sem se falar e que, quando se esbarram, vivem aquele misto de estranheza, culpa e vontade de tirar o atrasado.

Os diálogos são ótimos. E os trocados por E. e J. vão do constrangedor até o legitimamente confessional. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que a sensação que ficamos – pelo menos eu fiquei – do início ao fim da cena é que E. parecia estar enrolando J.. Ou ele poderia apenas estar se desfazendo para que o amigo se sinta melhor. Ainda que o final ajude a ampliar a leitura sobre E., não fica totalmente claro o quanto do que foi trocado por ele e J. era, de fato, 100% legítimo.

De qualquer forma, a esbarrada dos dois começa a introduzir um dos temas do filme, que é o de como encontros “casuais” podem despertar conversas de profunda intimidade – ao ponto de algumas delas flutuarem sempre entre o constrangedor e o surpreendente. Consequentemente, nos faz refletir sobre as razões que fazem algumas pessoas terem tanta dificuldade de serem honestas consigo mesmas e com as pessoas com quem elas convivem diariamente ao mesmo tempo em que são capazes de destilar honestidade com pessoas que não são próximas.

Para mim, essa dificuldade em ser honesto com quem está mais próximo é uma forma de defesa. Afinal, abrir-se com um quase desconhecido faz as vezes de uma confissão ao mesmo tempo que afasta o risco de ser cobrado ou julgado por alguém que estará presente no cotidiano e que poderá “cobrar um preço” pela honestidade. Esta também é a vantagem da confissão dos pecados, porque o padre não vai lembrar do que foi dito e nem poderá contar para ninguém sobre a confissão. Mas a sensação de ter sido honesto e de ter se revelado, além de conseguir o perdão, será importante para quem buscou este consolo.

Outra reflexão que a conversa inicial nos faz desenvolver é como a leitura de que “tudo está mal” depende da perspectiva. Para J. ele tem vários motivos para envergonhar-se, até que E. confessa que a vida dele toda está mal. Os “níveis” são diferentes, segundo E., mas ambos tem problemas. E quem não os tem? Mas o quanto estes problemas devem ser valorizados, servindo inclusive como agentes paralisantes, ou quanto eles devem ser superados, esquecidos, sublimados? Esta é a escolha que cada um deve fazer sozinho.

A introdução do filme é potente. Até porque percebemos como é fácil ajudar alguém. Basta querer. Ainda que uma ajuda mais profunda depende de uma abertura mútua, de quem está sofrendo também querer mudar a própria realidade. E isso sim, é mais difícil. Mas vale a pena o contato quando abrimos a guarda. Depois, cada um dos personagens vai para o seu lado e J., de forma bem simbólica, se encaminha para atravessar a “passagem da paz”. Ele saiu do encontro mais reconfortado, de fato.

Aliás, muito bom rever Barcelona pelas lentes de Gay. Em seguida, S. (Javier Cámara) aparece com o filho em um dos bares tradicionais da cidade, o Pintin Bar, que fica bem próximo ao Parc de la Ciutadella. Em seguida, S. também vai passar por uma “humilhação” ao declarar-se para a ex-mulher Elena (Clara Segura).

Evidente, logo no encontro deles na porta, que as intenções de S. eram muito diferentes da de Elena. Mesmo sem sabermos sobre a história deles – e vamos ser apresentados a ela em seguido -, dá para presumir que Elena não quer mais nada com ele. Mas S. não lê os sinais e abre o coração, apenas para ser rechaçado e ver que a vida da ex-mulher avançou para a frente, sem possibilidade de volta.

E isso acontece muito entre homens e mulheres, não é mesmo? Eles tendem a levar as relações de forma muito mais “frugal”, sem tanto apego e preocupação. Enquanto isso as mulheres se apegam, se entregam. O resultado? Muitas vezes o que percebemos em diversas histórias contadas em Una Pistola en Cada Mano: homens vendo as vidas que eles fizeram dar errado, sentindo-se miseráveis, quando eles são os atores da própria tragédia ao terem se entregado a relações sem sentido que apenas lhe fizeram perder o que gostariam de preservar.

A troca de Cámara e Segura é uma das mais hilárias do filme. Junto com as confissões de “cornudo” de G. (Ricardo Darín), sem dúvida as respostas dela para as investidas do ex-marido são a parte cômica da produção. Outras trocas são mais dramáticas, como a que abre o filme e a última, na qual as mulheres de A. e M. expõe de forma cruzada os segredos do matrimônio. De perto, já dizia o sábio, ninguém é muito normal – ou todo mundo, algumas vezes, é normal demais.

Ainda que seja engraçada a troca entre S. e Elena, não dá para evitar uma certa irritação com a cara-de-pau dele ao “filosofar” que a vida é feita de casualidades… e que se não tivesse chovido, e ele não tivesse por isso entrado em um bar, não teria traído ela apesar de uma história de 10 anos juntos. Ah, vamos! Os homens realmente arranjam desculpa para tudo, quando querem.

Ao mesmo tempo, a reflexão dele tem um certo grau de verdade. A vida é frágil, e são os pequenos desvios, as pequenas e grandes escolhas que fazemos diariamente que nos conduzem para uma direção ou para outra. Claro que a desculpa da chuva não convence. Ele poderia ter entrado no bar e não ter traído a mulher. Mas é o acúmulo de decisões e circunstâncias que definem as nossas vidas. Una Pistola en Cada Mano trata disso e, como deu para vocês perceberem até agora, das relações humanas e dos sentimentos pessoais que algumas vezes demoram para aflorar.

Depois de tentar se justificar, S. de fato confessa que fez besteira e que gostaria de voltar atrás. Mas como os personagens anteriores já esboçaram em dizer, não existe uma borracha para apagar os atos que cometemos. Por isso é tão importante pensar no que fazemos e falamos. Uma palavra dita e um ato desencadeado não podem ser apagados – na melhor das hipóteses, perdoados. Mas nem sempre o perdão quer dizer que tudo pode voltar para o ponto anterior – como em uma recuperação feita no Windows.

Em seguida somos apresentados à história de G., que descobre que está sendo traído pela mulher e que resolve segui-la. Bonita essa parte da história. Diferente dos demais, é G. que não quer se separar. Ele ama a mulher e quer reconquistá-la. Quem dera que mais pessoas acreditassem no amor desta forma. E que bom que o texto de Gay e Aragay resolveu fugir da maioria dos perfis masculinos, que é de cafajestes – ou de figuras que tem a moral bem “flexível”, para dizer o mínimo – para mostrar que existe exceções.

Mesmo que o que G. diz é bonito e sentimental – ele só podia ser argentino, não? – de fato é possível perdoar e reconquistar uma pessoa quando a relação está muito desgastada? Como comenta L. (Luis Tosar), um ótimo parceiro de cena para Darín, é fácil dizer que é preciso perdoar e valorizar a pessoa que sucumbiu à traição, mas o difícil é colocar essa ideia em prática. Acredito que há relações em que isso vale a pena, já em outras… o melhor mesmo é cada um seguir a sua vida.

A surpresa do duelo entre G. e L. demora para aparecer não apenas pelo bom texto dos roteiristas, mas também pelo trabalho competente dos atores. O que apenas reforça estas que são as duas qualidades principais da produção. Chegamos então até o encontro de P. (Eduardo Noriega) e Mamen (Candela Peña). Ele, um cafajeste clássico, que tenta trair a mulher com uma colega do trabalho com quem ele nunca tinha agido direito. Mas o importante é a transa, não é mesmo? Para figuras como ele, com certeza.

Para fechar a produção, outro ponto alto: a troca de confissões entre A. (Alberto San Juan) e María (Leonor Watling) quando ela dá carona para o amigo do marido já que eles vão para o mesmo lugar e, em um encontro casual, uma troca similar entre M. (Jordi Mollà) e Sara (Cayetana Guillén Cuervo) casados com os personagens anteriores.

Por mais que os homens se achem muito amigos e próximos, na conversa com suas respectivas mulheres que as “máscaras caem” e eles ficam sabendo de pormenores que jamais desconfiariam. Daí que surge aquela que é a grande reflexão do filme, para mim, dita por María: “Todos somos uma coisa e parecemos outra, não?”. E a expressão final dos amigos A. e M. quando eles ficam sozinhos diz tudo… quantos de nós olharíamos do mesmo jeito para os nossos amigos e para as demais pessoas que amamos se soubéssemos de todos os seus pecados e do que eles fazem entre as quatro paredes?

O que chama a atenção no filme, além do ótimo texto da dupla Gay e Aragay, são as interpretações dos atores. Só há feras no elenco. Eu conhecia a maioria deles, mas mesmo as “novidades” foram de tirar o chapéu. Todos envolvidos com os seus personagens e convencendo em falar cada linha do roteiro.

Um excelente trabalho do elenco, uma direção voltada para estas interpretações e para mostrar, entre uma história e outra, um pouco de Madrid. Dá para pedir mais? Definitivamente o filme agrada e faz pensar. Talvez lhe tenha faltado apenas um “arremate” melhor no final. Por isso a produção não ganha a nota máxima, mas fica perto dela. Ainda que há um sentido para as conversas entre os homens terem voltado a ser vazias: todos estão muito bem escondendo-se uns dos outros. Ou isso eles pensam.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei antes, todos os atores estão ótimos. Mas para mim Javier Cámara consegue superar os demais em uma interpretação muito verdadeira e tocante. Grande ator espanhol. Merece sempre ser acompanhado. E mesmo que os outros estejam todos os ótimos, tanto atores quanto atrizes, gostei muito de rever Eduardo Noriega em cena. Desta vez no papel de crápula da história. Interessante vê-lo nesta posição diferente.

Ainda que as histórias girem em torno, principalmente, do comportamento masculino, as atrizes que contracenam com os protagonistas de Una Pistola en Cada Mano dão o tom exato para o filme funcionar. Teria sido muito chato se todas as pequenas histórias fossem narradas apenas por homens. A interação deles com elas, em especial, enriquece o filme. Todas estão muito bem, mas gostei, em especial, das atuações de Clara Segura e Candela Peña. E foi ótimo rever a diva Leonor Watling.

Una Pistola en Cada Mano estreou em novembro de 2012 no Festival Internacional de Cinema de Roma. Depois, o filme participaria ainda de quatro festivais. Nesta trajetória, ele ganhou sete prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Atriz Coadjuvante para Candela Peña no Prêmio Goya 2013; para o de Melhor Performance para o elenco inteiro no Festival de Cinema de Miami; e os de Melhor Filme sem ser falado em catalão, Melhor Roteiro, Melhor Atriz Coadjuvante para Candela Peña e Melhor Ator Coadjuvante para Eduard Fernández no Prêmio Gaudí.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: o ator Leonardo Sbaraglia substituiu o ator Javier Bardem, que inicialmente foi escalado para viver J.; Ricardo Darín procurou o diretor de Una Pistola en Cada Mano consultando ele sobre o papel de G. depois que ele leu o roteiro; e o diretor e roteirista escreveu a personagem de Mamen especialmente para Candela Peña.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Andreu Rebés, bem eficaz; da trilha sonora pontual de Jordi Prats e da edição precisa de Frank Gutiérrez. Além deles, ótimo trabalho do produtor de elenco José Manuel Gómez.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para Una Pistola en Cada Mano. Achei baixa, mas bem coerente com o tipo de público que tem lotado as salas de cinema mundo afora e que não curtem uma produção neste estilo. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram duas críticas positivas para o filme – ele praticamente não recebeu críticas até o momento.

Fiquei interessada pelo trabalho de Cesc Gay. Natural de Barcelona, Gay tem 47 anos e 10 filmes na carreira como diretor – e 11 como roteirista. Nesta trajetória, ganhou 26 prêmios e foi indicado a outros 17. Ele estreou na direção em 1998 com o filme Hotel Room e ficou mais conhecido pelas produções Krámpack (de 2000) e En La Ciudad (de 2003). O próximo filme dele, previsto para ser lançado no ano que vem, é Truman, que tem Ricardo Darín e Javier Cámara no elenco. Vale acompanhá-lo.

Esse é mais um exemplar do que há de melhor no cinema espanhol. Lembrando que a produção foi toda rodada em Barcelona, terra natal do diretor.

Una Pistola en Cada Mano é um filme de 2012… mas chegou apenas agora, em maio de 2014, no mercado brasileiro. Eis o típico exemplo de “antes tarde do que nunca”.

CONCLUSÃO: Sempre que alguém se sente muito surpreso com a descoberta de uma “faceta” nova de outra pessoa, inevitavelmente reflito sobre o quanto as pessoas conseguem ser honestas consigo mesmas e com as demais. Para mim, cada notícia de pessoas “acima de qualquer suspeita” que cometem alguma barbaridade reforça a teoria que as pessoas são uma coisa na rua e outra muito diferente entre quatro paredes. Alguns filmes já trataram deste tema, mas poucos da forma direta, honesta e interessante como este Una Pistola en Cada Mano. O roteiro e a reunião de atores de primeira linha são as principais qualidades do filme, que reúne diversas histórias de pessoas que se comunicam melhor com desconhecidos do que com pessoas próximas. Cinema de qualidade baseado em duetos de interpretação e muitos diálogos. Fuja se o que lhe interessa são cenas de ação.