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Dolor y Gloria – Pain and Glory – Dor e Glória

Não importa o quanto brilhante alguém possa ser. Mais cedo ou mais tarde, ele não vai fugir da sua condição humana. E essa condição prevê muitos aspectos, inclusive a dor. Pedro Almodóvar volta a fazer um cinema bastante autoral, com uma carga de DNA espanhol novamente acentuado. Dolor y Gloria é uma mescla de presente com lembranças e sensações do passado na mesma medida em que é um reencontro de um cineasta com a sua inspiração. Perder-se e encontrar-se parece uma regra da vida, e algo muito presente nesta produção.

A HISTÓRIA: Em uma piscina, está submergido o cineasta Salvador Mallo (Antonio Banderas). Nas costas dele, uma cicatriz que percorre grande parte do seu corpo. Dentro da água, ele se lembra de uma cena antiga, quando a mãe dele, Jacinta (Penélope Cruz), estava com outras mulheres lavando roupa na margem de um rio. Sobre as costas da mãe, o jovem Salvador presta atenção em tudo que as mulheres falam. Em breve, Rosita (Rosalía) e suas companheiras Mari (Marisol Muriel) e Mercedes (Paqui Horcajo) vão soltar a voz cantando. Essa é uma das muitas lembranças do passado que embalam o presente de Salvador, um cineasta que parou de trabalhar por causa de seus problemas de saúde, especialmente das dores que tem na coluna e na cabeça.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte deste texto conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Dolor y Gloria): Possivelmente, se olharmos “à ferro e fogo”, essa produção não merece a nota alta que eu estou dando logo mais. Dolor y Gloria não é o melhor filme de Almodóvar e, possivelmente, lutaria para estar na lista dos 10 melhores do diretor. Mas depois de vê-lo fazendo produções bem “mais ou menos”, admito que gostei de assistir a um filme mais sóbrio e honesto do diretor.

Isso e mais o fato de eu ser neta de espanhóis e, por isso, entender um bocado sobre a essência desta cultura, me fez gostar realmente deste novo filme do diretor. Algo que apreciei em Dolor y Gloria é que Almodóvar parece mais maduro, menos preocupado em impressionar ou em impactar. Este é um de seus filmes mais sóbrios, uma de suas produções mais afetivas – ou, ao menos, assim parece. E eu gostei disso.

Acho que Almodóvar se dá bem em dois tipos de filmes, essencialmente: naqueles em que ele não se preocupa com os padrões e dá vazão para os desejos e para o lado cômico da vida, e naqueles em que ele faz um mergulho emocional, cultural e até filosófico em aspectos relacionados com as suas origens (em suma, com a Espanha). Dolor y Gloria faz parte do segundo tipo de filme, mas sem esquecer um pouco da libido que é quase uma assinatura do diretor.

Algo que me chamou a atenção desde o início desta produção: o excelente trabalho de Antonio Banderas. O ator, um dos preferidos de Almodóvar, captou muito bem a essência de seu papel e o seu desafio como Salvador Mallo. O seu trabalho, atencioso a cada detalhe, é um dos pontos altos do filme.

Assim como o roteiro de Almodóvar que, apesar de navegar por recursos já bem conhecidos – até batidos -, como pode ser o ir-e-vir da história em dois tempos (presente e passado), consegue manter um bom ritmo e o interesse dos espectadores em uma história que mistura aspectos culturais fortes da Espanha com questões universais – como a morte, o amor, a gratidão e a dor.

A história em si, em uma primeira análise, parece já conhecida também. Um diretor de cinema que parou de trabalhar porque já viveu o auge da sua carreira e que acaba, meio que sem querer, revisitando o próprio passado/êxito. As semelhanças com outras histórias terminam aí, me parece, porque não lembro de outro filme que trate de uma pessoa de sucesso, uma das referências do cinema de um país, que enfrente tanto o aspecto da dor.

Interessante – e muito válido – como Almodóvar não trata apenas das dores físicas, mas das dores psicológicas e “da alma”. Sabemos que somos feitos de diversos elementos e de muitos aspectos, e que o desequilíbrio de uma parte pode afetar todas – ou quase todas – as demais, provocando uma cadeia de problemas e, como bem explora esta produção, de dores. Então algo que eu achei interessante e muito marcante nesta produção é essa reflexão sobre finitude e humanidade que o roteiro de Almodóvar nos traz.

Como comentei lá no início, não importa o quanto uma pessoa pode ser grande na sua arte, o quanto ela pode ser respeitada e admirada dentro e fora do seu país. Como todas as demais, inclusive as anônimas, ela também passará por dificuldades, por dores, fraquezas, pela perda e pela solidão. Terá limitações físicas, deixará de fazer o que ama por um período, irá se perder e, se tiver sorte, conseguirá se encontrar apesar de tudo.

Isso é o que vemos em Dolor y Gloria. Mas não apenas isso. Além das limitações e das dores que, inevitavelmente, serão conhecidas por todos em algum momento das suas vidas, temos também tudo aquilo que nos faz seguir adiante e o que faz todo o restante – inclusive a dor – valer a pena. Nessa caixinha apresentada por Almodóvar estão as lembranças afetivas, o amor que nos une e que alimentamos, e o bem que podemos ter feito no caminho.

O protagonista desta produção sai de um estado de isolamento e de desânimo para fazer as pazes com diversas pessoas do seu passado – algumas vivas, outras mortas (sendo a principal delas, a sua mãe) ou de paredeiro desconhecido. Ao sair do casulo e se aproximar dos demais, ele faz a própria história avançar e evoluir.

Um exemplo disso acontece quando ele procura o ator Alberto Crespo (Asier Etxeandia), que estrelou o seu primeiro grande sucesso e com quem ele não falava há 32 anos. Como o filme que eles fizeram junto será homenageado e eles foram convidados para falarem da produção após a sua exibição, o protagonista se sente motivado a procurar Alberto. Isso após assistir ao próprio filme novamente e vê-lo com um olhar menos duro e crítico.

Como Zulema (Cecilia Roth em uma pequena ponta) diz para ele, o filme continua sendo o mesmo, o olhar de Salvador é que mudou. E isso acontece com a gente mesmo. O tempo passa e o nosso olhar para as obras, as nossas e as dos outros, muda. Isso acontece porque a gente também mudou no caminho. Bem, ao fazer o gesto de procurar Alberto, Salvador acaba desencadeando diversos acontecimentos que vão acabar mudando a sua vida.

Para começar, quem diria, ele se joga em um vício que ele sempre condenou. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No passado, ele evitou de cair no vício da heroína (chamada de “caballo” ou “dama branca” na Espanha). Agora, quando os remédios já não fazem o efeito que ele gostaria para que a sua dor passe, ele acaba mergulhando neste vício junto com Alberto.

O ator, que teve muito menos sucesso e dinheiro que o diretor, está desesperado por um novo trabalho. Ao ler um texto de Salvador, Alberto sabe que pode fazer sucesso com aquele material. Ao concordar em ceder o texto para o ator, o protagonista acaba tendo um encontro emocionante com o seu grande amor do passado. Isso lhe dá uma motivação que há muito tempo ele não tinha. Ao procurar ajuda, bem na reta final da produção, ele também se depara com o seu primeiro desejo – e a lembrança da descoberta da sua sexualidade.

Mas, mais do que isso, ao encontrar o trabalho de Eduardo (César Vicente), o protagonista se depara com uma das partes mais importantes da sua vida. Neste momento, Dolor y Gloria mostra a sua potência ao nos fazer refletir que não importa toda a dificuldade que o protagonista passou ou esteja passando. Não importa o resultado de sua cirurgia, se ele continuará sentindo pouca ou muita dor, se ele sairá da depressão ou continuará a trabalhar.

O que realmente importa é quantas pessoas ele inspirou com o seu trabalho e talento e, no caso de Eduardo, o bem que ele deixou pelo caminho. No fundo, Salvador nunca saberá o quanto ele mudou a vida de Eduardo, uma pessoa simples que ele conheceu no “pueblo” em que ele foi morar com os pais quando era criança. Mas, certamente, ele fez muita diferença ao ensiná-lo a ler e a escrever. Depois, ele ainda deixaria uma obra que influenciaria e inspiraria muita gente. Isso, e mais o amor que ele viveu aqui e ali, é o que fica e o que importa no final.

Tratar de tudo isso sem forçar a barra, mas ligando o presente do protagonista com o seu passado e com as suas lembranças, é o que de melhor Almodóvar poderia nos apresentar. Gostei do resultado sóbrio desta produção. Um filme que, além de tudo que eu comentei, ainda nos apresenta uma Espanha com raízes firmes na cultura de “pueblo”, de pessoas simples e que tinham no apoio da Igreja uma forma de educar os seus filhos. Uma cultura na qual o papel da mulher e da mãe é extremamente forte e marcante. Tudo isso muito bem tratado nesta produção.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eita que era para eu começar a escrever menos sobre os filmes, não é mesmo? Ao menos foi isso que eu comentei há algum tempo por aqui. Mas falar de um filme de Almodóvar escrevendo pouco é algo difícil. Especialmente quando é um filme tão carregado de mensagens, reflexões e de reminiscências como este Dolor y Gloria. Então me perdoem, mas tive que romper o meu desejo de escrever pouco ao falar deste filme. 😉

Sou franca em dizer que eu não estava esperando muito desta produção. Primeiro porque há tempos eu não via a algo bom vindo de Antonio Banderas e, sou franca em dizer, tenho um pouco de preguiça com Penélope Cruz. Mas gostei de me enganar com ambos. Para mim, sob a direção de Almodóvar, que deve conhecer a dupla de atores como poucos, ambos fizeram um trabalho muito bom. Me arrisco a dizer que entregaram dois desempenhos como há muito não se via na carreira deles. A meu ver, tanto Banderas quanto Penélope amadureceram. E isso é positivo.

Gostei também da produção focar tanto em Madrid, cidade que tanto Almodóvar quanto eu somos apaixonados, quanto nos lugares do interior em que o protagonista morou quando era criança. Sem dúvida esses lugares lhe marcaram e ajudaram a lhe formar como pessoa. As suas lembranças daquela fase de pobreza, mas também de admiração com as coisas simples e com a presença forte da mãe, foram determinantes para a sua obra e a sua vida. Tudo isso é muito bem retratado pelo diretor que, claramente, faz uma homenagem à sua própria história.

Apesar do recurso batido usado pelo diretor de intercalar o tempo presente do protagonista com as suas lembranças do passado – o que, em outro contexto, poderia parecer forçado e repetitivo mas, neste caso, funciona pela fase de vida na qual Salvador Mallo está passando -, gostei do ritmo que ele dá para o filme. Dolor y Gloria tem um bom desenvolvimento, sem nunca acelerar o passo. Parece até que ouvimos a história da produção em uma conversa em uma longa caminhada. Ou na mesa de um bar. Tudo contado de forma espaçada, em um ritmo cadenciado e constante. Não há momentos de aceleração e nem de tédio. Achei isso positivo.

A direção de Almodóvar busca valorizar o trabalho dos atores, em primeiro plano, mas sem esquecer do ambiente em que eles estão inseridos. O contexto, aliás, sempre foi algo importante para o diretor. Então os cenários, os locais pelos quais os personagens passam e onde eles se movimentam também é importante. Mas, como sempre, o diretor se destaca pelo trabalho com os atores. E o elenco dele, mais uma vez, foi escolhido a dedo. Muito boa cada escolha, inclusive dos grandes atores que aparecem em pontas.

Falando em elenco, sem dúvida alguma os grandes destaques são Antonio Banderas, como Salvador Mallo; Penélope Cruz como a mãe do protagonista quando ele era criança; e Asier Flores, como o Salvador quando menino. Eles roubam a cena sempre que aparecem. Mas, além deles, outros atores se destacam em papéis secundários, como Asier Etxeandia como Alberto Crespo – especialmente quando ele interpreta o monólogo de Salvador; Leonardo Sbaraglia rouba a cena como Federico Delgado; Nora Navas está muito bem como a amiga do protagonista, Mercedes; Julieta Serrano faz um trabalho tocante como Jacinta na velhice; César Vicente como Eduardo e Sara Sierra como a empregada Conchita.

Além deles, vale citar alguns trabalhos pequenos, mas de nomes expressivos, como Cecilia Roth como Zulema, velha conhecida de Salvador e que acaba dando o contato de Alberto para ele; Susi Sánchez como a beata que ajuda Jacinta a dar educação para o filho através da Igreja; Raúl Arévalo como Venancio Mallo, pai de Salvador; Pedro Casablanc como Dr. Galindo; Eva Martín como a radióloga que diagnostica o protagonista; as atrizes que fazem as lavadeiras e que já foram citadas; e, por curiosidade, Agustín Almodóvar como o padre que estimula o protagonista a ser solista do coral. Agustín é irmão de Pedro Almodóvar e, além de ator, produtor – inclusive deste filme.

Entre os aspectos técnicos desta produção, destaque para a direção de fotografia de José Luis Alcaine; para a trilha sonora de Alberto Iglesia, grande parceiro de Almodóvar; para a edição de Teresa Font; para o design de produção de Antxón Gómez; para a direção de arte de María Clara Notari; para os figurinos de Paola Torres; e para o trabalho dos 10 profissionais envolvidos com o Departamento de Arte.

Dolor y Gloria estreou em première em Madrid no dia 13 de março. Depois, em maio, o filme participou do Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participou, ainda, de outros oito festivais de cinema, como os de Toronto, Munique e Sydney. Em sua trajetória, até o momento, o filme ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros sete. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Ator para Antonio Banderas e de Melhor Compositor para Alberto Iglesias no Festival de Cinema de Cannes; e os de Melhor Ator e Prêmio do Júri dados pelo International Cinephile Society Awards.

Vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Essa é a primeira colaboração de Julieta Serrano com Almodóvar depois de quase 30 anos deles terem trabalhado juntos em várias produções. Ela participou, entre outros filmes, de filmes que fizeram o início da carreira do diretor, nos anos 1980, como Pepi, Luci, Bom y otras Chicas del Montón (1980); Entre Tinieblas (1983); Matador (1986); !Átame! (1989); e Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios (1988).

Esse é o oitavo filme de Almodóvar com Antonio Banderas e o sexto dele com Penélope Cruz. Juntos, antes deste filme, os dois atores estrelaram outra produção de Almodóvar, Los Amantes Pasajeros (comentado aqui e, francamente, um dos piores – se não o pior – filme do diretor).

Julieta Serrano e Antonio Banderas viveram mãe e filho em outros dois filmes de Almodóvar: Matador e Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios.

Sempre que possível, acho interessante ler a opinião do realizador sobre a sua própria obra. Procurando saber o que Almodóvar disse sobre Dolor y Gloria, encontrei esse texto interessante escrito por ele para El Mundo. Segundo Almodóvar, sem ter pensado nisso, Dolor y Gloria é a terceira parte de uma trilogia que demorou 32 anos para ser completada – as outras partes seriam, segundo o diretor, La Ley del Deseo e La Mala Educación.

Os pilares dessas histórias seriam o desejo e a ficção cinematográfica, segundo Almodóvar. “Ficção e vida fazem parte da mesma moeda, e a vida sempre inclui dor e desejo”, escreveu o diretor. Ele também comenta como esta, igual que as suas duas anteriores obras, é uma produção com homens como protagonistas. E sim, o filme também é uma homenagem ao cinema – algo que não comentei antes, mas que é evidente para quem o assiste.

Também vale citar este outro artigo escrito por Almodóvar e publicado em El País. O texto dele começa assim: “Dolor y Gloria é um filme baseado na minha vida? Não e sim, absolutamente. Todos os meus filmes me representam. É verdade que este (filme) me representa mais, mas sempre que eu começo a escrever sobre uma base conhecida – que tem origem na realidade, de algo que eu li no jornal, que tenham me contado, do que eu testemunhei ou simplesmente um episódio da minha própria vivência – a história começa a encontrar o seu verdadeiro caminho (cinematográfico, neste caso) para ser convertida em ficção”.

O restante do texto dele é bastante ilustrativo e explica bastante do filme, mas vou citar apenas uma outra parte que achei importante: “Dolor y Gloria não é auto-ficção, mas é verdade que o filme parte de mim mesmo. Não existiria roteiro se eu não tivesse sido operado das costas e vivido um longo pós-operatório e a imobilidade que veio depois, assim como a mudança radical que experimentam os músculos para compensar a ‘fixação’ da metade lombar”. Segundo o diretor, o personagem passou por situações piores que as dele.

Almodóvar também comenta que partiu de “sentimentos próprios reais” para escrever sobre a relação do protagonista com as pessoas, mas que isso serviu para a primeira linha e que o restante foi movido pela “força da ficção”. O diretor ainda afirma: “Tudo no meu cinema é representação, sempre fugi do naturalismo, não pretendo que os meus filmes pareçam reais. Mas sim pretendo que o espectador se reconheça neles”. Vale ler o texto todo.

Para quem se interessa pelas locações dos filmes, vale citar em que lugares Dolor y Gloria foi filmado. Além de Madrid, que é o local do “tempo presente” do protagonista, foi local de gravações a cidade de Paterna, em Valência, onde é filmado o “pueblo” em que a família de Salvador vai morar. Achei interessante eles irem morar em uma “casa cueva”, algo que realmente existe em diversas partes da Espanha até hoje – mas, geralmente, nas montanhas.

Como Dolor y Gloria mistura e/ou se inspira em realidade e em ficção e, claramente, faz uma homenagem ao cinema e ao seu papel na vida do protagonista, impossível não lembrar de 8 1/2, do Federico Fellini. Sem dúvidas Almodóvar se inspirou nele.

Assisti aos filmes antigos de Almodóvar, mas o blog não existia – e eu nem escrevia sobre filmes ainda. Mas é possível encontrar filmes mais recentes do diretor aqui no blog. Vocês podem acessar, por aqui, crítica dos seguintes filmes do diretor: Julieta; La Piel que Habito e Los Abrazos Rotos – além de Los Amantes Pasajeros, já citado antes.

Esse filme é uma produção 100% da Espanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 45 críticas positivas e quatro negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,83. No site Metacritic o filme registra o “metascore” 81, fruto de 11 críticas positivas e três críticas medianas. Segundo o site Box Office Mojo, o filme fez US$ 21 milhões nas bilheterias fora dos Estados Unidos – não há dados sobre o resultado em solo americano.

ADENDO (31/12): Dolor y Gloria foi indicado em duas categorias do Globo de Ouro 2020: Melhor Filme – Língua Estrangeira e Melhor Ator – Drama para Antonio Banderas. Achei muito bacana terem indicado Banderas. Afinal, o trabalho dele neste filme está incrível, muito rico e maduro. Além disso, acho esse ator pouco valorizado pelo cinema. Então fico feliz por ele ter recebido uma indicação – mas não deve levar.

CONCLUSÃO: Um filme que fala sobre diversos aspectos fundamentais da vida, especialmente para quem já passou do “auge da juventude”. Dolor y Gloria nos traz um Almodóvar amadurecido e que parece ter aprendido bastante com os dois aspectos que ele escolheu para intitular a sua nova produção. Um filme que apresenta um bom ritmo, interpretações interessantes e mais um mergulho muito bem feito na Espanha profunda.

O recurso de “reminiscências” e de intercalar presente com passado já é conhecido, e até batido, mas funciona bem nesta produção por causa do talento dos atores. O melhor do filme, a meu ver, é a reflexão que ele faz sobre os limites do ser apesar da eternidade do talento. Mais um bom filme com a marca do grande Almodóvar.

PALPITES PARA O OSCAR 2020: Dolor y Gloria avançou na disputa do Oscar na rebatizada categoria Melhor Filme Internacional (antes, até 2019, chamada Melhor Filme em Língua Estrangeira). Além dele, até o momento, assisti apenas a Parasite (com crítica neste link). Preciso ver aos outros indicados (a saber, The Painted Bird, Truth and Justice, Les Misérables, Those Who Remained, Honeyland, Corpus Christi, Beanpole e Atlantics).

Mas me parece, neste momento, que os favoritos para chegar na lista dos cinco finalistas nesta categoria são Parasite, Dolor y Gloria, Corpus Christi, Atlantics e Les Misérables. Ainda a confirmar esta lista. Dito isso, acho sim que Dolor y Gloria chega na disputa final com muitos méritos – e também pela força da interpretação de Banderas e pelo nome de Almodòvar. Ganhar o prêmio, me parece, é uma tarefa muito mais difícil. Até o momento, eu apostaria em Parasite para isso.

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Nieve Negra – Black Snow – Neve Negra

Um filme que parece ser de outra latitude e que requenta uma história que já assistimos antes. Nieve Negra chama a atenção por ser estrelado por Ricardo Darín, um dos grandes atores da história do cinema argentino, mas deixa a desejar. A produção tem uma narrativa bastante previsível e, quando resolve “surpreender”, revela muitas incongruências e situações um bocado sem sentido.

A HISTÓRIA: Neblina e neve em um local com muito gelo. Um menino caminha entre as árvores e sobre a neve com uma arma até que se vira ao escutar o próprio nome. Corta. Em um avião, Marcos (Leonardo Sbaraglia) acaricia o cabelo da esposa, Laura (Laia Costa). Eles estão viajando da Europa para a Argentina, terra natal dele, para resolver as pendências após a morte do pai de Marcos. Logo que chegam em casa, Marcos atende o telefone e fala com Sepia (Federico Luppi). Marcos pergunta porque a casa está toda desarrumada, e Sepia diz que foi o irmão dele, Salvador (Ricardo Darín). Sepia diz que Marcos deve pegar uma carta que o pai dele deixou e que deveria falar com o irmão sobre a oferta dos canadenses. Marcos tenta escapar, mas acaba indo para a propriedade da família e encontrando Salvador.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Nieve Negra): Os primeiros minutos desta produção são um bom cartão de visitas da proposta do diretor Martin Hodara, que escreveu o roteiro de Nieve Negra junto com Leonel D’Agostino. Aquela sequência inicial de Juan (Iván Luengo) caminhando com uma arma entre algumas árvores de um bosque e sobre a neve se parece com tantas outras de filmes europeus. Digo que é um bom cartão de visitas porque o restante da história também caminha por semelhanças como esta.

Os europeus são mestres em contar histórias de dramas familiares com boas doses de suspense e de tensão. Também não são raras as histórias de adultério ou de outro tipo de relação amorosa que acaba “estragando tudo”. Nieve Negra caminha por essa seara, contando um drama familiar com uma tragédia no meio e alguns “temperos” que vamos descobrir apenas no final.

Francamente, por mais que Hodara e D’Agostino se “esforcem” para surpreender o espectador, eu não achei as “sacadas” do filme realmente surpreendentes. (SPOILER – não leia se você não viu o filme ainda). Não sei vocês, mas não demorou muito tempo para que eu desconfiasse de Marcos como o verdadeiro “assassino” de Juan. Talvez por causa das reações de Salvador, que parecia ser um sujeito que carregava uma culpa há muito tempo que não lhe pertencia – algo que se confirma no final.

Mas nem precisei chegar na derradeira “cena revelação” do crime para matar a charada. Estava na cara que Salvador não era o culpado… e se não era ele, sobrava apenas o outro irmão, Marcos. A justificativa para o crime me pareceu bastante forçada. Mas mais forçada que esta justificativa foi mesmo a reta final da produção. Vejamos algumas incongruências que realmente me incomodaram.

(SPOILER – realmente não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, vamos falar sobre a essência da história. Marcos matou Juan, de forma proposital e covarde, pelas costas. Muito tempo depois, ele volta para a cidade natal e para a propriedade onde o crime aconteceu e faz de conta que não teve nada a ver com aquilo. Ele repete a história “oficial” de que quem atirou em Juan foi Salvador. Ora, se ele matou o irmão mais novo e tanto tempo depois ele ainda coloca a culpa em Salvador, de duas uma: ou ele “perdeu a memória” e realmente não lembra do que aconteceu (bem difícil de acreditar, não?) ou ele é um grande cínico que lembra de tudo e que atua como um grande “ator” enganando a todos.

Honestamente, acho muito difícil ele ter feito uma lavagem cerebral tão grande que não lembra de como Juan realmente foi morto e da relação que ele tinha com a própria irmã. E se, como parece mais lógico, ele está apenas fingindo e mentindo e, no fundo, sabe exatamente o que aconteceu no passado, que maluquice é aquela que Laura faz no final? Se ele lembra do que aconteceu, claro que ele vai reconhecer o bilhete que ele próprio escreveu e vai saber que Laura cortou um pedaço dele e que ela descobriu a verdade. O que explicaria ela se arriscar desta forma? Não faz o mínimo sentido.

Outra forma de encarar aquele final é pensar que Laura, desconfiando que o marido estava mentindo e “fazendo de conta”, resolveu mostrar para ele que ela sabia a verdade, mas que ia fingir como ele para que os dois ficassem juntos. Ainda que esta seja a alternativa que faça mais sentido, acho a saída para a encruzilhada da trama muito estranha. Primeiro que uma mulher com o mínimo de crítica pensaria que deveria fugir de uma relação com um sujeito que tem tanto sangue frio quanto Marcos – que matou o irmão pelas costas e que tinha uma relação amorosa com a própria irmã. Que tipo de sujeito é esse? E uma mulher em sã consciência vai querer se relacionar com um cara assim? Difícil de acreditar.

Mas as incongruências não param para aí. O que realmente me incomodou foi a sequência sem sentido no final. Primeiro, Marcos, sabendo que a mulher estava grávida, realmente cogitar deles ficarem dentro de um carro em uma tempestade de neve. Sem sentido. Por mais que o irmão tinha ameaçado ele, um sujeito com o mínimo de bom senso jamais ia buscar como saída aquela falta de solução que era ficar dentro do carro com aquela neve toda. Depois, muito difícil de acreditar que Laura acertaria Salvador atirando de dentro do rancho para fora – justamente ela que não tinha tanta experiência assim em lidar com uma arma.

Só que o roteiro de Hodara e D’Agostino consegue derrapar ainda mais. Depois que Marcos é levado para a delegacia, não faz sentido nenhum para a história que Laura fique naquela casa no meio do nada e sozinha em meio a uma temporada de tempestades de neve, não é mesmo? Não faz sentido algum. Faria muito mais sentido ela ir com Sepia para a cidade e ficar esperando Marcos na casa do pai dele ou mesmo ficar uma noite na casa de Sepia. A última alternativa seria ela ficar lá na propriedade em lugar ermo. Claro que eles optaram por esta alternativa nada lógica para que Laura descobrisse a verdade. Mas me pareceu uma forçada de barra grande demais para ser engolida.

Em resumo, os roteiristas poderiam ter trabalhado melhor a história e deixado ela sem tantos furos e derrapadas. Me incomoda quando um roteiro é desleixado, e isso me pareceu acontecer em Nieve Negra. A qualidade do filme é que escolheram um bom elenco para dividir a cena, com evidente destaque para o trio Leonardo Sbaraglia, Ricardo Darín e Laia Costa. Os outros atores em cena fazem papéis menores. Eles estão bem, mas o roteiro realmente não os ajuda muito. Sem dúvida alguma há filmes argentinos muito melhores no mercado. Procure que vale a pena.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: As intenções de Martin Hodara em fazer este filme, tenho certeza, eram boas. Mas o diretor e roteirista precisa melhorar bastante a forma de contar histórias e, principalmente, buscar um pouco mais de características dentro da Argentina em lugar de “copiar” tanto o estilo europeu. Certamente vai lhe fazer bem. E o público também agradece. Afinal, se for para ver a um filme estilo europeu, melhor mesmo é assistirmos a uma produção destas legítima e direto da fonte.

Este é apenas o segundo filme dirigido por Martin Hodara. Antes ele dirigiu a dois curtas, em 1987 e 1991, em em 2007, La Señal. A maior experiência de Hodara é na função de assistente de direção ou segundo diretor – ele tem 12 trabalhos neste rol. Ou seja, ainda que tenha um bocado de experiência no cinema, parece que ele precisa aprimorar melhor o seu trabalho antes de apresentar algo realmente bom.

Nieve Negra estreou na Argentina no dia 19 de janeiro deste ano. Depois o filme estreou no Uruguai e, em março, participou do Festival de Cinema de Málaga, na Espanha. No Brasil ele estreou nesta semana, no dia 8 de junho.

Algumas cenas da produção foram rodadas em Andorra, onde havia a neve que os produtores não encontraram na Patagônia.

Este filme é uma coprodução da Argentina com a Espanha.

Da parte técnica do filme, vale destacar a boa direção de fotografia de Arnau Valls Colomer; a edição de Alejandro Carrillo Penovi; o design de produção um tanto óbvio de Marcela Bazzano e Josep Rosell; e a trilha sonora de Zacarías M. de la Riva.

Como eu comentei antes, os nomes fortes desta produção são, na ordem de importância, Leonardo Sbaraglia, Ricardo Darín e Laia Costa. Além deles, vale comentar o bom – e alguns momentos razoável – trabalho de Dolores Fonzi como Sabrina, irmã de Marcos e Salvador; Andrés Herrera como o pai dos três; Mikel Iglesias como Salvador na juventude; Iván Luengo como Juan; Federico Luppi como Sepia, advogado interessado nas vendas da propriedade, amigo do pai dos garotos e quem acaba ajudando Marcos; Biel Montoro como o Marcos adolescente; e Liah O’Prey como a Sabrina jovem. O elenco realmente é bastante restrito e diminuto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram três críticas positivas e duas negativas para a produção, o que garante para Nieve Negra uma aprovação de 60% e uma nota média 6. Francamente, estou com eles. Facilmente este filme poderia ter levado um 6 ou pouco mais que isso.

CONCLUSÃO: O bom e velho drama familiar com uma “tragédia” no meio e uma ou duas tentativas de surpreender o espectador. Nieve Negra tem bons atores, mas sofre com um roteiro fraco e com uma busca um tanto forçada por um estilo de filme tradicional na Europa mas que não parece combinar muito com a latitude latino-americana. Assista apenas se você não dispensa um filme estrelado pelo Ricardo Darín. Porque enquanto obra de cinema, existem muitas outras produções melhores no mercado.

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Una Pistola en Cada Mano – O Que os Homens Falam

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As pessoas são uma coisa e normalmente falam sobre si mesmas de outra maneira. Esta é uma das reflexões deste Una Pistola en Cada Mano, um filme recheado de diálogos, descobertas e um bocado de conflito. Quando me refiro ao choque, não se trata apenas de desentendimentos entre pessoas, mas também sobre as ideias de umas fazem das outras – e, algumas vezes, de si mesmas. Um filme diferente e interessante, e que provavelmente fará você pensar sobre que imagem passa para os outros e a respeito do que os outros escondem de você.

A HISTÓRIA: Chove forte. Protegido por um jornal, E. (Eduard Fernández) chega devagar em um prédio. Olha as caixas de correspondência, larga o jornal e aperta o botão chamando o elevador. Quando o elevador chega, E. vê pelo espelho J. (Leonardo Sbaraglia) chorando. Os dois se cumprimentam, e E. pergunta se ele mudou tanto assim. Só então J. o reconhece. Eles foram colegas no colégio e estão se encontrando 10 anos depois da última vez em que esbarraram. A conversa sem muita graça começa a se tornar mais profunda, até que os dois desabafam sobre as próprias vidas. Conversas francas assim vão surgir em diferentes relações entre os personagens desta história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Una Pistola en Cada Mano): Filmes como este são cada vez mais difíceis de encontrar. Os arrasa-quarteirões (blockbusters) que forram os estúdios e seus realizadores de dinheiro seguem a mesma fórmula: muitos efeitos especiais, atores de renome interpretando personagens rasos e uma história recheada de ação e/ou suspense. Una Pistola en Cada Mano é a antítese de tudo isso. Os atores são conhecidos em seus países de origem, mas não podem ser considerados astros mundiais. Os outros dois quesitos nem fazem parte do enredo.

Como vários outros filmes, esta produção dirigida e com roteiro de Cesc Gay (que escreveu a história junto com Tomàs Aragay) junta vários personagens com histórias que parecem isoladas em uma colcha de retalhos – exemplos de filmes assim remontam a Short Cuts, Magnolia e Babel, apenas para citar alguns. Mesmo que parte dos personagens que vemos em duetos que parecem isolados se conheçam, cada história particular pode ser vista isoladamente, o que dá um caráter de confessionário para o filme.

Aliás, este caráter dos personagens contarem um para os outros o que eles não tem coragem de verbalizar para mais (ou quase) ninguém é o que chamar a atenção desde o encontro dos primeiros a entrar em cena, os atores Eduard Fernández e Leonardo Sbaraglia. A conversação entre eles lembra a de tantos outros encontros de “bons” ou “grandes” amigos que por diversas contingências da vida ficam muito tempo sem se falar e que, quando se esbarram, vivem aquele misto de estranheza, culpa e vontade de tirar o atrasado.

Os diálogos são ótimos. E os trocados por E. e J. vão do constrangedor até o legitimamente confessional. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que a sensação que ficamos – pelo menos eu fiquei – do início ao fim da cena é que E. parecia estar enrolando J.. Ou ele poderia apenas estar se desfazendo para que o amigo se sinta melhor. Ainda que o final ajude a ampliar a leitura sobre E., não fica totalmente claro o quanto do que foi trocado por ele e J. era, de fato, 100% legítimo.

De qualquer forma, a esbarrada dos dois começa a introduzir um dos temas do filme, que é o de como encontros “casuais” podem despertar conversas de profunda intimidade – ao ponto de algumas delas flutuarem sempre entre o constrangedor e o surpreendente. Consequentemente, nos faz refletir sobre as razões que fazem algumas pessoas terem tanta dificuldade de serem honestas consigo mesmas e com as pessoas com quem elas convivem diariamente ao mesmo tempo em que são capazes de destilar honestidade com pessoas que não são próximas.

Para mim, essa dificuldade em ser honesto com quem está mais próximo é uma forma de defesa. Afinal, abrir-se com um quase desconhecido faz as vezes de uma confissão ao mesmo tempo que afasta o risco de ser cobrado ou julgado por alguém que estará presente no cotidiano e que poderá “cobrar um preço” pela honestidade. Esta também é a vantagem da confissão dos pecados, porque o padre não vai lembrar do que foi dito e nem poderá contar para ninguém sobre a confissão. Mas a sensação de ter sido honesto e de ter se revelado, além de conseguir o perdão, será importante para quem buscou este consolo.

Outra reflexão que a conversa inicial nos faz desenvolver é como a leitura de que “tudo está mal” depende da perspectiva. Para J. ele tem vários motivos para envergonhar-se, até que E. confessa que a vida dele toda está mal. Os “níveis” são diferentes, segundo E., mas ambos tem problemas. E quem não os tem? Mas o quanto estes problemas devem ser valorizados, servindo inclusive como agentes paralisantes, ou quanto eles devem ser superados, esquecidos, sublimados? Esta é a escolha que cada um deve fazer sozinho.

A introdução do filme é potente. Até porque percebemos como é fácil ajudar alguém. Basta querer. Ainda que uma ajuda mais profunda depende de uma abertura mútua, de quem está sofrendo também querer mudar a própria realidade. E isso sim, é mais difícil. Mas vale a pena o contato quando abrimos a guarda. Depois, cada um dos personagens vai para o seu lado e J., de forma bem simbólica, se encaminha para atravessar a “passagem da paz”. Ele saiu do encontro mais reconfortado, de fato.

Aliás, muito bom rever Barcelona pelas lentes de Gay. Em seguida, S. (Javier Cámara) aparece com o filho em um dos bares tradicionais da cidade, o Pintin Bar, que fica bem próximo ao Parc de la Ciutadella. Em seguida, S. também vai passar por uma “humilhação” ao declarar-se para a ex-mulher Elena (Clara Segura).

Evidente, logo no encontro deles na porta, que as intenções de S. eram muito diferentes da de Elena. Mesmo sem sabermos sobre a história deles – e vamos ser apresentados a ela em seguido -, dá para presumir que Elena não quer mais nada com ele. Mas S. não lê os sinais e abre o coração, apenas para ser rechaçado e ver que a vida da ex-mulher avançou para a frente, sem possibilidade de volta.

E isso acontece muito entre homens e mulheres, não é mesmo? Eles tendem a levar as relações de forma muito mais “frugal”, sem tanto apego e preocupação. Enquanto isso as mulheres se apegam, se entregam. O resultado? Muitas vezes o que percebemos em diversas histórias contadas em Una Pistola en Cada Mano: homens vendo as vidas que eles fizeram dar errado, sentindo-se miseráveis, quando eles são os atores da própria tragédia ao terem se entregado a relações sem sentido que apenas lhe fizeram perder o que gostariam de preservar.

A troca de Cámara e Segura é uma das mais hilárias do filme. Junto com as confissões de “cornudo” de G. (Ricardo Darín), sem dúvida as respostas dela para as investidas do ex-marido são a parte cômica da produção. Outras trocas são mais dramáticas, como a que abre o filme e a última, na qual as mulheres de A. e M. expõe de forma cruzada os segredos do matrimônio. De perto, já dizia o sábio, ninguém é muito normal – ou todo mundo, algumas vezes, é normal demais.

Ainda que seja engraçada a troca entre S. e Elena, não dá para evitar uma certa irritação com a cara-de-pau dele ao “filosofar” que a vida é feita de casualidades… e que se não tivesse chovido, e ele não tivesse por isso entrado em um bar, não teria traído ela apesar de uma história de 10 anos juntos. Ah, vamos! Os homens realmente arranjam desculpa para tudo, quando querem.

Ao mesmo tempo, a reflexão dele tem um certo grau de verdade. A vida é frágil, e são os pequenos desvios, as pequenas e grandes escolhas que fazemos diariamente que nos conduzem para uma direção ou para outra. Claro que a desculpa da chuva não convence. Ele poderia ter entrado no bar e não ter traído a mulher. Mas é o acúmulo de decisões e circunstâncias que definem as nossas vidas. Una Pistola en Cada Mano trata disso e, como deu para vocês perceberem até agora, das relações humanas e dos sentimentos pessoais que algumas vezes demoram para aflorar.

Depois de tentar se justificar, S. de fato confessa que fez besteira e que gostaria de voltar atrás. Mas como os personagens anteriores já esboçaram em dizer, não existe uma borracha para apagar os atos que cometemos. Por isso é tão importante pensar no que fazemos e falamos. Uma palavra dita e um ato desencadeado não podem ser apagados – na melhor das hipóteses, perdoados. Mas nem sempre o perdão quer dizer que tudo pode voltar para o ponto anterior – como em uma recuperação feita no Windows.

Em seguida somos apresentados à história de G., que descobre que está sendo traído pela mulher e que resolve segui-la. Bonita essa parte da história. Diferente dos demais, é G. que não quer se separar. Ele ama a mulher e quer reconquistá-la. Quem dera que mais pessoas acreditassem no amor desta forma. E que bom que o texto de Gay e Aragay resolveu fugir da maioria dos perfis masculinos, que é de cafajestes – ou de figuras que tem a moral bem “flexível”, para dizer o mínimo – para mostrar que existe exceções.

Mesmo que o que G. diz é bonito e sentimental – ele só podia ser argentino, não? – de fato é possível perdoar e reconquistar uma pessoa quando a relação está muito desgastada? Como comenta L. (Luis Tosar), um ótimo parceiro de cena para Darín, é fácil dizer que é preciso perdoar e valorizar a pessoa que sucumbiu à traição, mas o difícil é colocar essa ideia em prática. Acredito que há relações em que isso vale a pena, já em outras… o melhor mesmo é cada um seguir a sua vida.

A surpresa do duelo entre G. e L. demora para aparecer não apenas pelo bom texto dos roteiristas, mas também pelo trabalho competente dos atores. O que apenas reforça estas que são as duas qualidades principais da produção. Chegamos então até o encontro de P. (Eduardo Noriega) e Mamen (Candela Peña). Ele, um cafajeste clássico, que tenta trair a mulher com uma colega do trabalho com quem ele nunca tinha agido direito. Mas o importante é a transa, não é mesmo? Para figuras como ele, com certeza.

Para fechar a produção, outro ponto alto: a troca de confissões entre A. (Alberto San Juan) e María (Leonor Watling) quando ela dá carona para o amigo do marido já que eles vão para o mesmo lugar e, em um encontro casual, uma troca similar entre M. (Jordi Mollà) e Sara (Cayetana Guillén Cuervo) casados com os personagens anteriores.

Por mais que os homens se achem muito amigos e próximos, na conversa com suas respectivas mulheres que as “máscaras caem” e eles ficam sabendo de pormenores que jamais desconfiariam. Daí que surge aquela que é a grande reflexão do filme, para mim, dita por María: “Todos somos uma coisa e parecemos outra, não?”. E a expressão final dos amigos A. e M. quando eles ficam sozinhos diz tudo… quantos de nós olharíamos do mesmo jeito para os nossos amigos e para as demais pessoas que amamos se soubéssemos de todos os seus pecados e do que eles fazem entre as quatro paredes?

O que chama a atenção no filme, além do ótimo texto da dupla Gay e Aragay, são as interpretações dos atores. Só há feras no elenco. Eu conhecia a maioria deles, mas mesmo as “novidades” foram de tirar o chapéu. Todos envolvidos com os seus personagens e convencendo em falar cada linha do roteiro.

Um excelente trabalho do elenco, uma direção voltada para estas interpretações e para mostrar, entre uma história e outra, um pouco de Madrid. Dá para pedir mais? Definitivamente o filme agrada e faz pensar. Talvez lhe tenha faltado apenas um “arremate” melhor no final. Por isso a produção não ganha a nota máxima, mas fica perto dela. Ainda que há um sentido para as conversas entre os homens terem voltado a ser vazias: todos estão muito bem escondendo-se uns dos outros. Ou isso eles pensam.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei antes, todos os atores estão ótimos. Mas para mim Javier Cámara consegue superar os demais em uma interpretação muito verdadeira e tocante. Grande ator espanhol. Merece sempre ser acompanhado. E mesmo que os outros estejam todos os ótimos, tanto atores quanto atrizes, gostei muito de rever Eduardo Noriega em cena. Desta vez no papel de crápula da história. Interessante vê-lo nesta posição diferente.

Ainda que as histórias girem em torno, principalmente, do comportamento masculino, as atrizes que contracenam com os protagonistas de Una Pistola en Cada Mano dão o tom exato para o filme funcionar. Teria sido muito chato se todas as pequenas histórias fossem narradas apenas por homens. A interação deles com elas, em especial, enriquece o filme. Todas estão muito bem, mas gostei, em especial, das atuações de Clara Segura e Candela Peña. E foi ótimo rever a diva Leonor Watling.

Una Pistola en Cada Mano estreou em novembro de 2012 no Festival Internacional de Cinema de Roma. Depois, o filme participaria ainda de quatro festivais. Nesta trajetória, ele ganhou sete prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Atriz Coadjuvante para Candela Peña no Prêmio Goya 2013; para o de Melhor Performance para o elenco inteiro no Festival de Cinema de Miami; e os de Melhor Filme sem ser falado em catalão, Melhor Roteiro, Melhor Atriz Coadjuvante para Candela Peña e Melhor Ator Coadjuvante para Eduard Fernández no Prêmio Gaudí.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: o ator Leonardo Sbaraglia substituiu o ator Javier Bardem, que inicialmente foi escalado para viver J.; Ricardo Darín procurou o diretor de Una Pistola en Cada Mano consultando ele sobre o papel de G. depois que ele leu o roteiro; e o diretor e roteirista escreveu a personagem de Mamen especialmente para Candela Peña.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Andreu Rebés, bem eficaz; da trilha sonora pontual de Jordi Prats e da edição precisa de Frank Gutiérrez. Além deles, ótimo trabalho do produtor de elenco José Manuel Gómez.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para Una Pistola en Cada Mano. Achei baixa, mas bem coerente com o tipo de público que tem lotado as salas de cinema mundo afora e que não curtem uma produção neste estilo. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram duas críticas positivas para o filme – ele praticamente não recebeu críticas até o momento.

Fiquei interessada pelo trabalho de Cesc Gay. Natural de Barcelona, Gay tem 47 anos e 10 filmes na carreira como diretor – e 11 como roteirista. Nesta trajetória, ganhou 26 prêmios e foi indicado a outros 17. Ele estreou na direção em 1998 com o filme Hotel Room e ficou mais conhecido pelas produções Krámpack (de 2000) e En La Ciudad (de 2003). O próximo filme dele, previsto para ser lançado no ano que vem, é Truman, que tem Ricardo Darín e Javier Cámara no elenco. Vale acompanhá-lo.

Esse é mais um exemplar do que há de melhor no cinema espanhol. Lembrando que a produção foi toda rodada em Barcelona, terra natal do diretor.

Una Pistola en Cada Mano é um filme de 2012… mas chegou apenas agora, em maio de 2014, no mercado brasileiro. Eis o típico exemplo de “antes tarde do que nunca”.

CONCLUSÃO: Sempre que alguém se sente muito surpreso com a descoberta de uma “faceta” nova de outra pessoa, inevitavelmente reflito sobre o quanto as pessoas conseguem ser honestas consigo mesmas e com as demais. Para mim, cada notícia de pessoas “acima de qualquer suspeita” que cometem alguma barbaridade reforça a teoria que as pessoas são uma coisa na rua e outra muito diferente entre quatro paredes. Alguns filmes já trataram deste tema, mas poucos da forma direta, honesta e interessante como este Una Pistola en Cada Mano. O roteiro e a reunião de atores de primeira linha são as principais qualidades do filme, que reúne diversas histórias de pessoas que se comunicam melhor com desconhecidos do que com pessoas próximas. Cinema de qualidade baseado em duetos de interpretação e muitos diálogos. Fuja se o que lhe interessa são cenas de ação.