Ocean’s Eight – Ocean’s 8 – Oito Mulheres e um Segredo

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Sim, você já viu essa história antes. Não há novidade por aqui. Mas algo que não é tão comum de se ver é um elenco estelar e talentoso de atrizes desse naipe reunido em uma mesma produção. Assim, Ocean’s Eight se garante pelo seu elenco. Sem dúvida o ponto alto da produção. Mas não o único, como manda a cartilha da “grife” iniciada com Ocean’s Eleven – no já distante ano de 2001. Os figurinos, a edição ágil, a direção de fotografia e a direção também são pontos de destaque. O roteiro… bem, é mais do mesmo do gênero – e com menos criatividade que outros que o precederam.

A HISTÓRIA: Em um presídio, Debbie Ocean (Sandra Bullock) é entrevistada antes de ter direito a sair em condicional. Ela admite que teve um irmão criminoso e que parte da sua família também aderiu à vida de crimes. Mas ela garante que não é assim, que apenas errou ao se apaixonar pela pessoa errada. Ela parece se emocionar, e diz que saindo da prisão, tudo que ela quer é uma vida normal. Mas essa “vida normal” para ela não é nada comum. Durante o tempo que ficou presa, tudo que ela fez foi planejar um roubo ousado. Para colocar ele em pé, ela procura grandes parceiras, começando por Lou (Cate Blanchett).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes desse filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ocean’s Eight): Ufa amigos e amigas! Finalmente coloco, com esta crítica, os meus comentários atrasados em dia! Assisti a Ocean’s Eight ainda em junho, mas como saí de férias por 15 dias e tive uns dias de correria pré e pós férias, estou conseguindo falar dele só agora. Depois desta crítica, bóra lá voltar ao cinema e retomar algumas pesquisas aqui para o blog. Bóra correr atrás porque já começamos o segundo semestre do ano!

Então, como eu disse antes, Ocean’s Eight é um filme divertido, com um grande elenco e bom ritmo. É puro entretenimento. Você se diverte, especialmente, com a entrega das atrizes e com as “embaixadinhas” e a troca de passes que elas fazem. Todas sabem dominar a bola muito bem, e entregam o que a audiência espera – viram que aproveite o último dia da Copa 2018 para usar umas “tiradas” futebolísticas, não é mesmo?

Mas a história em si, é bastante previsível. O roteiro de Gary Ross e Olivia Milch, que trabalharam sobre uma história de Ross e com base nos personagens criados por George Clayton Johnson e Jack Golden Russell, segue totalmente a cartilha dos outros filmes da grife. Ou seja, temos a uma protagonista – mulher, desta vez – que planeja um roubo incrível e que, para conseguir executá-lo, conta com vários outros especialistas – todas mulheres, nesse caso.

Então o início, o meio e o fim de Ocean’s Eight não fogem da cartilha e do que é previsto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mesmo a “surpresinha” no final, o roubo dentro do roubo, não é exatamente uma graaande surpresa. Isso já foi utilizado antes. O que surpreende sempre, nestes filmes com “crimes perfeitos”, é como a segurança de eventos/locais que deveriam ser quase impossíveis de serem ultrapassados podem falhar tanto.

No caso deste filme especificamente, parece um tanto difícil de engolir a trapalhada dos seguranças que acompanham Daphne Kluger (Anne Hathaway) e tudo que se segue após o sumiço e o “encontro” da joia mega valiosa. Ok, a edição ajuda, assim como o carisma das atrizes, mas é um tanto difícil de engolir todo aquele desenrolar envolvendo esse colar especificamente. Mas ok, ninguém quer ser muito exigente em um filme assim – até porque sabemos qual é a sua “pegada”.

Também achei um tanto “forçada” a aparição de Daphne no KG das mulheres e como todas aceitaram com tanta facilidade dividir a fortuna incluindo ela também. A pequena vingança particular de Debbie Ocean contra o ex, Claude Becker (Richard Armitage) também pareceu uma saída um tanto preguiçosa – afinal, praticamente elemento nenhum corroborava aquela teoria. Mas beleza, vamos acreditar que Debbie e Cia. são realmente geniais e conseguiram enganar a todo mundo.

Como este é um filme de puro entretenimento, o importante é nos focarmos menos na história – que, de fato, é fraquinha por ser previsível e com uns “exageros” para que tudo se encaixe e dê certo apesar de parte da história ser bastante improvável – e mais nos outros elementos que compõem uma produção do gênero. Assim, o elenco faz um ótimo trabalho; temos uma ótima e envolvente direção e edição; uma bela direção de fotografia e trilha sonora. Tudo isso junto nos entrega um filme tecnicamente bem acabado e que passa “rápido”.

Um outro ponto interessante e que não pode ser ignorado é que vivemos uma era de valorização crescente do talento feminino. Nesse cenário, Ocean’s Eight coloca em primeiro plano papéis que há tempos atrás eram masculinos. Hoje, mulheres estão cada vez mais filmes de ação como líderes da narrativa. E isso é muito bacana e interessante. Afinal, muitas vezes, elas tem um traquejo e uma sensualidade que não vemos nos homens.

Com isso, não defendo que todos os filmes de ação devam ser protagonizados por mulheres. Não, não! Mas quem sabe pode ser interessante termos mais um tipo de equilíbrio entre filmes estrelados por homens e mulheres nesse gênero? Isso pode ser bastante enriquecedor para o cinema – e fazer sentido para o público, cada vez mais preocupado com a questão da igualdade entre os gêneros.

O que podemos ver, com esse Ocean’s Eight, é que ótimas atrizes sim podem dedicar o seu talento para filmes mais descompromissados e que tem um propósito bastante específico. Filmes de ação, policiais e cheios de trama sempre são bem-vindos para “refrescar” o cinema – e dar uma pausa nas produções mais sérias e filosóficas.

Essa produção tem várias qualidades que fazem a experiência valer a pena. Só talvez poderia ter tido um roteiro um pouco mais inovador – as referências à grife foram bacanas, mas a história poderia ter tido alguns temperos e/ou surpresas mais interessantes ou convincentes.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei antes, assisti a esse filme há cerca de um mês. Por isso me perdoem por não lembrar de todos os detalhes, mas apenas do essencial. Desconfio que o roteiro de Ocean’s Eight teve outros pontos frágeis que eu não lembrei agora, mas tentei passar o que me marcou mais desta produção. A partir de agora, prometo, pretendo escrever as próximas críticas mais próximas da minha experiência de ter visto aos filmes. 😉

Como disse antes e repito, o elenco desta filme é o seu ponto forte. Mulheres poderosas, talentosas, carismáticas e que todos tem interesse de ver na telona. O grande destaque vai para Sandra Bullock, Cate Blanchett e Sarah Paulson. Para mim, elas estão acima da média nesse filme – e as suas personagens, melhor exploradas pelos roteiristas, ajudam nisso. Sem contar os talentos das três, que realmente brilham em cena. Depois, em papéis ligeiramente menores, estão muito bem também Helena Bonham Carter, Rihanna, Mindy Kaling e Awkwafina. Destas quatro, gostei especialmente de Mindy Kaling e de Awkwafina. Para mim, elas tem personagens mais interessantes (e engraçadas).

A lista citada acima é apenas o “núcleo duro” da produção. A equipe formada pela personagem de Sandra Bullock para viabilizar o seu plano do grande roubo. Mas, além destas atrizes, vale ainda comentar o trabalho de Anne Hathaway, outra atriz com destaque na trama, assim como o papel um pouco mais relevante de Richard Armitage, e as quase “pontas” de outros nomes, como Elliott Gould, Dakota Fanning, Damian Young e Dana Ivey. Vários outros famosos aparecem apenas de relance, no tal baile de gala, mas sem nenhuma fala, nem considero interessante citá-los aqui.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale comentar a boa direção de Gary Ross. Ele segue a cartilha de Steven Soderbergh, mas não apresenta nada inovador. Ainda assim, faz um bom trabalho orquestrando todos os talentos em volta do filme. Também vale destacar a competente direção de fotografia de Eigil Bryld; a trilha sonora de Daniel Pemberton; a ótima edição de Juliette Welfling; os figurinos superinteressantes de Sarah Edwards; o design de produção de Alex DiGerlando; a decoração de set de Rena DeAngelo; e a direção de arte de Henry Dunn, Kim Jennings e Chris Shriver.

Ocean’s Eight foi exibido no dia 5 de junho em uma première em Nova York. Dois dias depois, o filme estreou em oito países – incluindo o Brasil. Até o momento, esta produção participou de apenas um festival, o Biografilm Festival, na Itália. Apesar de ter participado apenas deste festival, o filme ganhou dois prêmios e foi indicado a um terceiro no Golden Trailer Awards. Os prêmios que ele recebeu são o de Melhor Spot de Comédia para a TV e Melhor Teaser Poster.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Ocean’s Eight começa da mesma forma que Ocean’s Eleven, o filme que inaugurou a grife de produções dirigidas por Steven Soderbergh e estreladas, entre outros, por George Clooney. A exemplo do filme de 2001, no filme estrelado por mulheres uma Ocean – a personagem de Sandra Bullock é a irmã do personagem de Clooney – é questionada sobre o que ela fará após sair da prisão. O mesmo é feito com o Ocean interpretado por Clooney no filme de 2001.

Existe uma outra referência escancarada para a produção de 2001. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na cena final de Ocean’s Eight, a personagem de Sandra Bullock aparece na frente do túmulo do irmão vestindo um smoking preto e uma gravata borboleta aberta – a mesma roupa usada pelo irmão dela, Danny, na saída da prisão em Ocean’s Eleven.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas positivas e 84 negativas para esta produção – o que lhe garante uma aprovação de 67%.

Ocean’s Eight teria custado cerca de US$ 70 milhões, segundo o site Box Office Mojo, e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 132,2 milhões. Nos outros países em que o filme estreou, ele faturou outros US$ 119,2 milhões. Ou seja, no total, faturou cerca de US$ 251,4 milhões – conseguiu, pelo visto, pagar os custos e ainda dar algum lucro para os produtores.

Este filme é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso o filme entra para a lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Elas são poderosas e são talentosas. E desfilam os seus carismas e talentos na nossa frente. Ocean’s Eight tem no “girl power” de um elenco escolhido à dedo o seu melhor trunfo. Esse filme, evidentemente, é puro entretenimento. Não dá para esperar muito dele e nem levar a história muito a sério. Comentado isso, é preciso dizer que Ocean’s Eight tem também uma ótima edição, trilha sonora e figurinos. Aqui e ali, ele também tem boas tiradas e algumas risadas. Para um dia qualquer no cinema, ele é diversão garantida. Sem você exigir muito da história, é claro.

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The Leisure Seeker- Ella e John

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Muitas vezes os filhos pensam que sabem o que é melhor para os pais. Mas não, eles não sabem. Casais que estão há muitas décadas juntos compartilham uma história que ninguém sequer é capaz de imaginar. O belo The Leisure Seeker trata de um desses casais. Dois idosos que já estão enfrentando uma série de problemas de saúde e que decidem ignorar o que os filhos acham que é bom para eles. Um filme sensível, engraçado em vários momentos e que faz o espectador refletir sobre o quanto estamos – ou não – preparados para os problemas que podem surgir com a idade avançada.

A HISTÓRIA: Começa no dia 29 de agosto de 2016 em uma cidade do Estado americano de Massachusetts. Em uma rua qualquer, ouvimos um carro de som reverberando a propaganda eleitoral de Donald Trump, na qual ele promete que a “América será grande outra vez”. Acompanhamos uma caminhonete Ford, muito americana, por um bairro também muito americano. Will Spencer (Christian McKay) chega na casa dos pais, chama pela mãe e diz que fez um bolo para o pai. Ele procura em tudo, vai até a garagem, e percebe que os pais saíram. Ella (Helen Mirren) e John (Donald Sutherland) foram viajar e tem outros planos diferentes ao dos filhos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Leisure Seeker): Poucos filmes tratam sobre o processo de envelhecimento de forma realista. Por isso é um verdadeiro deleite quando vemos a uma produção como The Leisure Seeker. Esse filme pode ser encarado sob diversas óticas, mas eu vou começar por duas delas.

Para começar, The Leisure Seeker é uma bela história de amor e também um road movie diferenciado. Não temos como protagonistas um jovem casal, mas duas pessoas que estão juntas “a vida inteira”. Eles já viveram o suficiente e compartilharam tantos momentos que Ella e John não tem mais papas na língua. Não. Eles falam o que pensam. Além disso, através das lentes do diretor italiano Paolo Virzi, passamos a ser testemunhas do que há de mais sincero, bonito e algumas vezes cruel na convivência de um casal.

Achei bacana o roteiro de Stephen Amidon, Francesca Archibugi, Francesco Piccolo e Paolo Virzi, que escreveram essa história baseados no livro de Michael Zadoorian, explorar de forma tão franca a relação de um casal com tanta bagagem e com diversos pontos em comum e diferentes. Como o filme é, essencialmente, focado em Ella e John, conseguimos conhecer muito bem esses dois personagens – os outros atores em cena são coadjuvantes, orbitando ao redor dos grandes Helen Mirren e Donald Sutherland.

Acompanhando a viagem dos protagonistas, percebemos como Ella é uma mulher simples, que busca sempre o diálogo e conhecer as pessoas. Ela ama viajar, gosta de uma boa conversa – e de falar bastante – e de apreciar a natureza. John, por sua parte, é um sujeito mais do estilo intelectual. Ele foi professor, por muito tempo, e gostava de viajar para “ampliar os horizontes intelectuais” – seja isso o que for, comenta Ella em um de tantos momentos engraçados do filme.

The Leisure Seeker acerta a mão ao nos apresentar, logo nos primeiros minutos do filme, um belo resumo do que veremos em seguida. Essa produção mergulha na “América profunda”, no jeito de ser, de fazer e de pensar americano. Quando vemos o casal Ella e John em seu Leisure Seeker – veículo no qual eles viajam e que é uma espécie de “caça-lazer” -, com ela comentando para ele que ele está muito elegante, mas que exagerou na colônia, quando ele também pergunta se ela peidou e ela fica indignada com esse questionamento, identificamos o estilo da produção.

Até o final do filme, teremos muitos momentos de conversa franca entre os dois. Mas não apenas nisso. Além de acompanhar o bonito e o “feio” que toda aquela intimidade proporciona, também mergulhamos em fatos nem sempre explorados pelo cinema sobre o envelhecimento. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Por um lado, Ella está em um processo de câncer avançado, sentindo muita dor – e tendo que tomar medicação forte o tempo inteiro para amenizar um pouco o sofrimento – e tendo que segurar “a onda” da melhor forma que ela consegue. Por outro lado, temos John em um processo relativamente avançado de Alzheimer.

Assim, vamos descobrindo aos poucos que a viagem planejada por Ella é uma “road trip da despedida”. Ela quer fazer uma última viagem com o seu grande amor, para que eles fiquem juntos uma última vez. Nesse caminho, ela quer fazer várias coisas que os dois desejam – como comer hambúrguer e passar por locais conhecidos dela – e, a cada noite, revisitar a vida que os dois tiveram juntos exibindo slides nas paradas do Leisure Seeker.

Muito bonito o amor que um tem pelo outro e o cuidado e respeito que ambos nutrem em décadas de convivência. E o bacana de The Leisure Seeker é que o filme não explora apenas isso, mas também o humor e uma certa dose até de “crueldade” que um casal que está há muito tempo junto acaba adquirindo. Isso é inevitável com a longa convivência.

Um tema recorrente no filme é o “esquecimento” que John passa a ter com cada vez mais frequência. Na maioria das vezes, Ella lida bem com a situação, mas tem vezes, como na vida real de quem convive com alguém que está 100%, ela também se cansa e perde a paciência. E quem não passa por isso? Somos humanos, falhos, capazes de grandes gestos de generosidade e de compreensão na mesma medida que somos capazes de atos de egoísmo e de falta de paciência. Isso é normal e um ponto bem mostrado nessa produção.

A intimidade, o companheirismo e o amor vivenciado pelo casal de protagonistas é o que há de mais valoroso nessa produção. Assim como a reflexão que o filme incentiva sobre o envelhecimento, quando é mais comum surgir diferentes tipos de doenças e de fragilidades. Enquanto o casal de filhos de Ella e de John, Will e Jane (Janel Moloney), acreditam que o melhor para os pais seria Ella passar por um tratamento no hospital e John ser cuidado por um dos filhos – possivelmente com o apoio de um profissional -, Ella tem outros planos para o “grand finale” dos dois.

The Leisure Seeker nos faz refletir que os pais, não importa que problemas eles tenham – físicos ou mentais -, sempre sabem o que é melhor para eles. Os filhos podem se preocupar, podem querer “defender” e “proteger” os pais, mas, no fim das contas, apenas eles sabem por tudo que ele passaram na vida e o que faz mais sentido para eles.

O difícil, muitas vezes, é aceitar determinadas escolhas que eles podem fazer – como a que Ella faz no final dessa produção. Mas por mais difícil que seja a despedida, devemos saber que é inevitável que um dia ela aconteça e que devemos, acima de tudo, respeitar e amar os nossos pais. Independente das escolhas que eles façam. Nesse sentido, The Leisure Seeker nos dá belas lições e uma importante reflexão sobre como a “melhor idade” nem sempre surge com a melhor das condições para quem envelhece – e isso faz parte da vida, não é culpa de ninguém.

Apesar de ter tantas qualidade, The Leisure Seeker também dá algumas derrapadas. Os atores que fazem os personagens principais, Helen Mirren e Donald Sutherland, estão divinos. Excelentes. Mas os personagens que eles estão interpretando passam por algumas situações com tintas um tanto exageradas.

Em especial, achei um pouco forçada – e meio “melodramática” – a reação de Ella para a descoberta do envolvimento de John com Lilian (Dana Ivey) quando eles eram jovens. Sim, é verdade que a protagonista já estava, naquele momento, em uma fase com muitas dores e pouca paciência, mas me pareceu exagerada a reação dela e o que ela fez com John naquele momento.

Também me pareceu um tanto difícil de acreditar o final, com aquela reação tão “tranquila” de Will, Jane e os demais sobre o ato final de Ella e John. Tudo bem que eles aceitassem a escolha feita por Ella, mas daí a todos reagirem tão bem e de forma tão “tranquila” a respeito daquilo. De um dia para o outro os filhos deixaram de ter os pais presentes. Me parece que a reação deles mais coerente – conforme o perfil dos personagens – seria um bocado mais sentimental e que mostrasse o impacto da notícia, não?

Enfim, no geral, o filme é muito bom. Sensível, com belas mensagens e sentimentos. Mas existe um certo exagero no roteiro aqui e ali, revelando pontos que não fazem muito sentido no contexto geral do filme. Descontados esses momentos, essa é uma produção com ótimas atuações dos protagonistas e um equilíbrio quase exato entre romance, drama e comédia.

O roteiro inteligente tem muitos momentos engraçados – destaco, entre todos, o do “apedrejamento” de John quando Ella torce o pé e ele, após tentar ajudá-la, cai no chão e acaba dormindo. Enfim, para resumir, eis um filme bacana, bem equilibrado e com um grande trabalho dos grandes, gigantes Helen Mirren e Donald Sutherland. Sem dúvida alguma, merece ser visto. Não porque vai mudar a sua vida, mas porque pode fazer você olhar para a velhice e os seus pais de uma outra forma. Com muito mais respeito e carinho, o que sempre nos faz falta.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem diversos momentos deliciosos. Além da narrativa central, o filme tem a inteligência de tocar em outros pontos muito atuais. Por exemplo, The Leisure Seeker trata da “América profunda”, do “american way of life” e do que isso representou no caso da campanha de Donald Trump.

Enquanto temos uma pessoa como Ella, que se interessa por todas as pessoas que ela encontra, inclusive um casal de imigrantes que atende no posto de gasolina onde eles sempre passavam, temos um bando de gente fazendo parte da campanha de Trump – na qual John se “infiltra” sem se dar conta do que estava fazendo – e pedindo para os imigrantes irem embora. Esse é o momento em que vivemos, com as pessoas cada vez mais divididas em duas fronteiras: a da generosidade e a da intolerância. Essa é a América, mas é outros países também.

Também achei muito interessante como o filme trata sobre o “jeito de viver” das pessoas. O que faz sentido para um, pode não fazer o mínimo sentido para outro. E tudo bem. Nem todos precisam gostar de amarelo. Apesar disso, achei especialmente interessante a fina ironia com que os realizadores tratam essa “bagunça” e “espetacularização” da vida, ou seja, que tudo tem que ser (ou parecer, muitas vezes) uma festa.

O exemplo disso no filme foi a visita tão desejada e sonhada à casa do escritor Ernest Hemingway. A maioria das pessoas que estavam lá, seja participando da festa de casamento, seja visitando o local, certamente não sabia muito sobre a vida e a obra do escritor. Ella e John eram a exceção no local, e isso deixou a protagonista perplexa. Mas basta viajar por aí para vermos a mesma coisa em todas as partes. As pessoas estão muito mais preocupadas em fazer centenas, até milhares de fotos – incluindo muitas selfies – em locais famosos do que em realmente vivenciar a magia de cada local e de mergulhar em sua história. Novamente, um retrato cheio de ironia sobre o momento atual.

Os grandes nomes dessa produção são dos atores Helen Mirren e Donald Sutherland. Eles estão divinos e perfeitos nos papéis de Ella e John. Muito convincentes, nos entregam interpretações sensíveis e belas, muito belas. Além deles, vale comentar o sensível trabalho de Janel Moloney. O ator Christian McKay está bem, mas o personagem dele, um tanto exagerado sempre, é que lhe atrapalha um pouco. A veterana Dana Ivey está bem, mas em uma super ponta. Além deles, vale citar a ponta também de Dick Gregory como Dan Coleman, namorado da juventude de Ella.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale destacar a competente e firme direção de Paolo Virzi e o bom roteiro escrito por ele, por Stephen Amidon, por Francesca Archibugi e por Francesco Piccolo. Para ficar melhor, eles apenas poderiam ter reduzido um pouco as tintas e o tom um tanto “melodramático” de algumas sequências. Afinal, o filme vinha tão bem em seu tom “sem filtro” e realista, que esse tom poderia ter sido preservado sempre.

Além deles, vale destacar a trilha sonora de Carlo Virzi; a direção de fotografia de Luca Bigazzi; a edição de Jacopo Quadri; o design de produção de Richard A. Wright; a direção de arte de Justin O’Neal Miller; a decoração de set de Eve Cauley; e os figurinos de Massimo Cantini Parrini.

The Leisure Seeker estreou em setembro de 2017 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participou de outros 15 festivais em diversos países pelo mundo. Nessa trajetória, recebeu dois prêmios e foi indicado a outros quatro – incluindo a indicação de Melhor Atriz – Comédia ou Musical para Helen Mirren no Globo de Ouro. Venceu como Melhor Elenco no Festival Capri e como Melhor Filme segundo a escolha da audiência no Festival Internacional de Cinema de Sofia.

Esse é o primeiro filme do diretor italiano Paolo Virzi feito na língua inglesa. Ou seja, marca a estreia dele em Hollywood. Aqui no blog, do diretor, vocês podem conferir – se já não conferiram, claro – a crítica de Il Capitale Umano. Um filme muito, muito interessante, e que eu recomendo. Tudo indica que Virzi é um sujeito que merece ter a sua obra melhor conhecida – e que vale ser acompanhado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 58 críticas negativas e 31 positivas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de apenas 35% e uma nota média de 5,2. Normalmente eu não vejo a um filme que tenha uma nota baixa no Rotten Tomatoes, eu admito. Mas optei por The Leisure Seeker porque este filme estava em cartaz no cinema da minha cidade e porque eu gosto muito dos atores e do diretor. Então, apesar da crítica ter sido negativa para a produção, gostei de ter optado por assisti-la.

The Leisure Seeker registra o metascore 45 no site Metacritic. Essa avaliação pondera 2 críticas positivas, 17 medianas e 4 negativas que o filme recebeu. Parece que o público, pela nota no IMDb e nos outros sites, gostou mais desta produção do que a crítica.

Não encontrei informações sobre o custo de The Leisure Seeker, mas o filme tem o perfil de ser uma produção independente e relativamente “barata” – comparada aos blockbusters, ao menos. De bilheteria, segundo o site Box Office Mojo, o filme conseguiu um resultado pequeno, pouco menos de US$ 3 milhões nos Estados Unidos.

The Leisure Seeker é uma coprodução da Itália com a França.

CONCLUSÃO: O final da vida nunca é fácil. Pela própria natureza desse momento. Mas como cada um vai encarar a velhice e como cada um chegará até lá depende vários fatores mas, no final das contas, de uma mistura de casualidade com escolhas próprias. The Leisure Seeker é um belo filme que trata, ao mesmo tempo, de uma linda história de amor, de uma road trip e de uma leitura bastante carinhosa e amorosa sobre o processo do envelhecimento. O filme me surpreendeu. Tem muitos bons momentos e poucos “tropeços”. Além de contar com dois protagonistas geniais. Vale ser visto, sem dúvidas.