The Leisure Seeker- Ella e John

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Muitas vezes os filhos pensam que sabem o que é melhor para os pais. Mas não, eles não sabem. Casais que estão há muitas décadas juntos compartilham uma história que ninguém sequer é capaz de imaginar. O belo The Leisure Seeker trata de um desses casais. Dois idosos que já estão enfrentando uma série de problemas de saúde e que decidem ignorar o que os filhos acham que é bom para eles. Um filme sensível, engraçado em vários momentos e que faz o espectador refletir sobre o quanto estamos – ou não – preparados para os problemas que podem surgir com a idade avançada.

A HISTÓRIA: Começa no dia 29 de agosto de 2016 em uma cidade do Estado americano de Massachusetts. Em uma rua qualquer, ouvimos um carro de som reverberando a propaganda eleitoral de Donald Trump, na qual ele promete que a “América será grande outra vez”. Acompanhamos uma caminhonete Ford, muito americana, por um bairro também muito americano. Will Spencer (Christian McKay) chega na casa dos pais, chama pela mãe e diz que fez um bolo para o pai. Ele procura em tudo, vai até a garagem, e percebe que os pais saíram. Ella (Helen Mirren) e John (Donald Sutherland) foram viajar e tem outros planos diferentes ao dos filhos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Leisure Seeker): Poucos filmes tratam sobre o processo de envelhecimento de forma realista. Por isso é um verdadeiro deleite quando vemos a uma produção como The Leisure Seeker. Esse filme pode ser encarado sob diversas óticas, mas eu vou começar por duas delas.

Para começar, The Leisure Seeker é uma bela história de amor e também um road movie diferenciado. Não temos como protagonistas um jovem casal, mas duas pessoas que estão juntas “a vida inteira”. Eles já viveram o suficiente e compartilharam tantos momentos que Ella e John não tem mais papas na língua. Não. Eles falam o que pensam. Além disso, através das lentes do diretor italiano Paolo Virzi, passamos a ser testemunhas do que há de mais sincero, bonito e algumas vezes cruel na convivência de um casal.

Achei bacana o roteiro de Stephen Amidon, Francesca Archibugi, Francesco Piccolo e Paolo Virzi, que escreveram essa história baseados no livro de Michael Zadoorian, explorar de forma tão franca a relação de um casal com tanta bagagem e com diversos pontos em comum e diferentes. Como o filme é, essencialmente, focado em Ella e John, conseguimos conhecer muito bem esses dois personagens – os outros atores em cena são coadjuvantes, orbitando ao redor dos grandes Helen Mirren e Donald Sutherland.

Acompanhando a viagem dos protagonistas, percebemos como Ella é uma mulher simples, que busca sempre o diálogo e conhecer as pessoas. Ela ama viajar, gosta de uma boa conversa – e de falar bastante – e de apreciar a natureza. John, por sua parte, é um sujeito mais do estilo intelectual. Ele foi professor, por muito tempo, e gostava de viajar para “ampliar os horizontes intelectuais” – seja isso o que for, comenta Ella em um de tantos momentos engraçados do filme.

The Leisure Seeker acerta a mão ao nos apresentar, logo nos primeiros minutos do filme, um belo resumo do que veremos em seguida. Essa produção mergulha na “América profunda”, no jeito de ser, de fazer e de pensar americano. Quando vemos o casal Ella e John em seu Leisure Seeker – veículo no qual eles viajam e que é uma espécie de “caça-lazer” -, com ela comentando para ele que ele está muito elegante, mas que exagerou na colônia, quando ele também pergunta se ela peidou e ela fica indignada com esse questionamento, identificamos o estilo da produção.

Até o final do filme, teremos muitos momentos de conversa franca entre os dois. Mas não apenas nisso. Além de acompanhar o bonito e o “feio” que toda aquela intimidade proporciona, também mergulhamos em fatos nem sempre explorados pelo cinema sobre o envelhecimento. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Por um lado, Ella está em um processo de câncer avançado, sentindo muita dor – e tendo que tomar medicação forte o tempo inteiro para amenizar um pouco o sofrimento – e tendo que segurar “a onda” da melhor forma que ela consegue. Por outro lado, temos John em um processo relativamente avançado de Alzheimer.

Assim, vamos descobrindo aos poucos que a viagem planejada por Ella é uma “road trip da despedida”. Ela quer fazer uma última viagem com o seu grande amor, para que eles fiquem juntos uma última vez. Nesse caminho, ela quer fazer várias coisas que os dois desejam – como comer hambúrguer e passar por locais conhecidos dela – e, a cada noite, revisitar a vida que os dois tiveram juntos exibindo slides nas paradas do Leisure Seeker.

Muito bonito o amor que um tem pelo outro e o cuidado e respeito que ambos nutrem em décadas de convivência. E o bacana de The Leisure Seeker é que o filme não explora apenas isso, mas também o humor e uma certa dose até de “crueldade” que um casal que está há muito tempo junto acaba adquirindo. Isso é inevitável com a longa convivência.

Um tema recorrente no filme é o “esquecimento” que John passa a ter com cada vez mais frequência. Na maioria das vezes, Ella lida bem com a situação, mas tem vezes, como na vida real de quem convive com alguém que está 100%, ela também se cansa e perde a paciência. E quem não passa por isso? Somos humanos, falhos, capazes de grandes gestos de generosidade e de compreensão na mesma medida que somos capazes de atos de egoísmo e de falta de paciência. Isso é normal e um ponto bem mostrado nessa produção.

A intimidade, o companheirismo e o amor vivenciado pelo casal de protagonistas é o que há de mais valoroso nessa produção. Assim como a reflexão que o filme incentiva sobre o envelhecimento, quando é mais comum surgir diferentes tipos de doenças e de fragilidades. Enquanto o casal de filhos de Ella e de John, Will e Jane (Janel Moloney), acreditam que o melhor para os pais seria Ella passar por um tratamento no hospital e John ser cuidado por um dos filhos – possivelmente com o apoio de um profissional -, Ella tem outros planos para o “grand finale” dos dois.

The Leisure Seeker nos faz refletir que os pais, não importa que problemas eles tenham – físicos ou mentais -, sempre sabem o que é melhor para eles. Os filhos podem se preocupar, podem querer “defender” e “proteger” os pais, mas, no fim das contas, apenas eles sabem por tudo que ele passaram na vida e o que faz mais sentido para eles.

O difícil, muitas vezes, é aceitar determinadas escolhas que eles podem fazer – como a que Ella faz no final dessa produção. Mas por mais difícil que seja a despedida, devemos saber que é inevitável que um dia ela aconteça e que devemos, acima de tudo, respeitar e amar os nossos pais. Independente das escolhas que eles façam. Nesse sentido, The Leisure Seeker nos dá belas lições e uma importante reflexão sobre como a “melhor idade” nem sempre surge com a melhor das condições para quem envelhece – e isso faz parte da vida, não é culpa de ninguém.

Apesar de ter tantas qualidade, The Leisure Seeker também dá algumas derrapadas. Os atores que fazem os personagens principais, Helen Mirren e Donald Sutherland, estão divinos. Excelentes. Mas os personagens que eles estão interpretando passam por algumas situações com tintas um tanto exageradas.

Em especial, achei um pouco forçada – e meio “melodramática” – a reação de Ella para a descoberta do envolvimento de John com Lilian (Dana Ivey) quando eles eram jovens. Sim, é verdade que a protagonista já estava, naquele momento, em uma fase com muitas dores e pouca paciência, mas me pareceu exagerada a reação dela e o que ela fez com John naquele momento.

Também me pareceu um tanto difícil de acreditar o final, com aquela reação tão “tranquila” de Will, Jane e os demais sobre o ato final de Ella e John. Tudo bem que eles aceitassem a escolha feita por Ella, mas daí a todos reagirem tão bem e de forma tão “tranquila” a respeito daquilo. De um dia para o outro os filhos deixaram de ter os pais presentes. Me parece que a reação deles mais coerente – conforme o perfil dos personagens – seria um bocado mais sentimental e que mostrasse o impacto da notícia, não?

Enfim, no geral, o filme é muito bom. Sensível, com belas mensagens e sentimentos. Mas existe um certo exagero no roteiro aqui e ali, revelando pontos que não fazem muito sentido no contexto geral do filme. Descontados esses momentos, essa é uma produção com ótimas atuações dos protagonistas e um equilíbrio quase exato entre romance, drama e comédia.

O roteiro inteligente tem muitos momentos engraçados – destaco, entre todos, o do “apedrejamento” de John quando Ella torce o pé e ele, após tentar ajudá-la, cai no chão e acaba dormindo. Enfim, para resumir, eis um filme bacana, bem equilibrado e com um grande trabalho dos grandes, gigantes Helen Mirren e Donald Sutherland. Sem dúvida alguma, merece ser visto. Não porque vai mudar a sua vida, mas porque pode fazer você olhar para a velhice e os seus pais de uma outra forma. Com muito mais respeito e carinho, o que sempre nos faz falta.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem diversos momentos deliciosos. Além da narrativa central, o filme tem a inteligência de tocar em outros pontos muito atuais. Por exemplo, The Leisure Seeker trata da “América profunda”, do “american way of life” e do que isso representou no caso da campanha de Donald Trump.

Enquanto temos uma pessoa como Ella, que se interessa por todas as pessoas que ela encontra, inclusive um casal de imigrantes que atende no posto de gasolina onde eles sempre passavam, temos um bando de gente fazendo parte da campanha de Trump – na qual John se “infiltra” sem se dar conta do que estava fazendo – e pedindo para os imigrantes irem embora. Esse é o momento em que vivemos, com as pessoas cada vez mais divididas em duas fronteiras: a da generosidade e a da intolerância. Essa é a América, mas é outros países também.

Também achei muito interessante como o filme trata sobre o “jeito de viver” das pessoas. O que faz sentido para um, pode não fazer o mínimo sentido para outro. E tudo bem. Nem todos precisam gostar de amarelo. Apesar disso, achei especialmente interessante a fina ironia com que os realizadores tratam essa “bagunça” e “espetacularização” da vida, ou seja, que tudo tem que ser (ou parecer, muitas vezes) uma festa.

O exemplo disso no filme foi a visita tão desejada e sonhada à casa do escritor Ernest Hemingway. A maioria das pessoas que estavam lá, seja participando da festa de casamento, seja visitando o local, certamente não sabia muito sobre a vida e a obra do escritor. Ella e John eram a exceção no local, e isso deixou a protagonista perplexa. Mas basta viajar por aí para vermos a mesma coisa em todas as partes. As pessoas estão muito mais preocupadas em fazer centenas, até milhares de fotos – incluindo muitas selfies – em locais famosos do que em realmente vivenciar a magia de cada local e de mergulhar em sua história. Novamente, um retrato cheio de ironia sobre o momento atual.

Os grandes nomes dessa produção são dos atores Helen Mirren e Donald Sutherland. Eles estão divinos e perfeitos nos papéis de Ella e John. Muito convincentes, nos entregam interpretações sensíveis e belas, muito belas. Além deles, vale comentar o sensível trabalho de Janel Moloney. O ator Christian McKay está bem, mas o personagem dele, um tanto exagerado sempre, é que lhe atrapalha um pouco. A veterana Dana Ivey está bem, mas em uma super ponta. Além deles, vale citar a ponta também de Dick Gregory como Dan Coleman, namorado da juventude de Ella.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale destacar a competente e firme direção de Paolo Virzi e o bom roteiro escrito por ele, por Stephen Amidon, por Francesca Archibugi e por Francesco Piccolo. Para ficar melhor, eles apenas poderiam ter reduzido um pouco as tintas e o tom um tanto “melodramático” de algumas sequências. Afinal, o filme vinha tão bem em seu tom “sem filtro” e realista, que esse tom poderia ter sido preservado sempre.

Além deles, vale destacar a trilha sonora de Carlo Virzi; a direção de fotografia de Luca Bigazzi; a edição de Jacopo Quadri; o design de produção de Richard A. Wright; a direção de arte de Justin O’Neal Miller; a decoração de set de Eve Cauley; e os figurinos de Massimo Cantini Parrini.

The Leisure Seeker estreou em setembro de 2017 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participou de outros 15 festivais em diversos países pelo mundo. Nessa trajetória, recebeu dois prêmios e foi indicado a outros quatro – incluindo a indicação de Melhor Atriz – Comédia ou Musical para Helen Mirren no Globo de Ouro. Venceu como Melhor Elenco no Festival Capri e como Melhor Filme segundo a escolha da audiência no Festival Internacional de Cinema de Sofia.

Esse é o primeiro filme do diretor italiano Paolo Virzi feito na língua inglesa. Ou seja, marca a estreia dele em Hollywood. Aqui no blog, do diretor, vocês podem conferir – se já não conferiram, claro – a crítica de Il Capitale Umano. Um filme muito, muito interessante, e que eu recomendo. Tudo indica que Virzi é um sujeito que merece ter a sua obra melhor conhecida – e que vale ser acompanhado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 58 críticas negativas e 31 positivas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de apenas 35% e uma nota média de 5,2. Normalmente eu não vejo a um filme que tenha uma nota baixa no Rotten Tomatoes, eu admito. Mas optei por The Leisure Seeker porque este filme estava em cartaz no cinema da minha cidade e porque eu gosto muito dos atores e do diretor. Então, apesar da crítica ter sido negativa para a produção, gostei de ter optado por assisti-la.

The Leisure Seeker registra o metascore 45 no site Metacritic. Essa avaliação pondera 2 críticas positivas, 17 medianas e 4 negativas que o filme recebeu. Parece que o público, pela nota no IMDb e nos outros sites, gostou mais desta produção do que a crítica.

Não encontrei informações sobre o custo de The Leisure Seeker, mas o filme tem o perfil de ser uma produção independente e relativamente “barata” – comparada aos blockbusters, ao menos. De bilheteria, segundo o site Box Office Mojo, o filme conseguiu um resultado pequeno, pouco menos de US$ 3 milhões nos Estados Unidos.

The Leisure Seeker é uma coprodução da Itália com a França.

CONCLUSÃO: O final da vida nunca é fácil. Pela própria natureza desse momento. Mas como cada um vai encarar a velhice e como cada um chegará até lá depende vários fatores mas, no final das contas, de uma mistura de casualidade com escolhas próprias. The Leisure Seeker é um belo filme que trata, ao mesmo tempo, de uma linda história de amor, de uma road trip e de uma leitura bastante carinhosa e amorosa sobre o processo do envelhecimento. O filme me surpreendeu. Tem muitos bons momentos e poucos “tropeços”. Além de contar com dois protagonistas geniais. Vale ser visto, sem dúvidas.

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Trumbo – Lista Negra

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Quase todos os países do mundo já viveram épocas tenebrosas em suas histórias. Os Estados Unidos não é diferente. Na verdade, o mundo enquanto conjunto civilizatório já viveu diversas épocas tenebrosas e que valeriam variados filmes críticos. Trumbo trata de uma destas épocas sob uma ótica pouco mostrada pelos filmes de Hollywood: a chamada caça à bruxas dentro dos estúdios de cinema durante a Guerra Fria. Eu já tinha lido um bocado a respeito e sabia sobre a perseguição de vários nomes, mas nunca tinha visto um filme tão direto e focado neste assunto quanto este Trumbo.

A HISTÓRIA: Começa explicando que durante os anos 1930, em resposta à Grande Depressão e ao crescimento do Fascismo, milhares de americanos se filiaram ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Depois que os Estados Unidos se aliaram à União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial, muitos mais se juntaram ao partido. O roteirista Dalton Trumbo, antigo defensor dos direitos trabalhistas, tornou-se membro do partido em 1943. Mas a Guerra Fria lançou uma nova luz de suspeita sobre os comunistas americanos. A história propriamente começa em 1947, na propriedade de Trumbo ao norte de Los Angeles. Vemos o autor trabalhando, o cenário de Hollywood naquela época e o início da caça aos comunistas em Hollywood.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Trumbo): Gosto de filmes que falam de cinema e da relação que esta arte tem com a sociedade e vice-versa. Eles não são muito frequentes, por isso é sempre um deleite quando encontramos uma boa produção que trate desta indústria. Trumbo, para ser ainda melhor, não trata de uma fase qualquer da indústria, e sim quando ela mudou para sempre.

Há diversos acertos e alguns pequenos deslizes neste filme. Primeiro, vou falar de todos os acertos – que, em número, excedem em muito as falhas da produção. Para começar, o roteirista John McNamara, baseado no livro de Bruce Cook, acerta em focar a carreira de Trumbo pouco antes dela começar a ser questionada e desmoronar. Não demora muito, assim, para o filme entrar na questão central, que foi a criação pelo Comitê de Atividades Anti-Americanas, criado em 1938, de um inquérito para investigar a Indústria Cinematográfica de Hollywood em 1947.

Ao mesmo tempo que o roteiro de McNamara acerta em ir direto ao ponto e em se debruçar no que aconteceu durante, imediatamente depois e nos anos seguintes deste processo que ficou conhecido como “caça às bruxas em Hollywood”, o filme perde um pouco de contextualização. Eis um motivo para, apesar de soberbo, brilhante e necessário, este filme não ser perfeito.

Valeria ter gasto alguns minutos a mais para explorar melhor aquelas ameaças de greve que aparecem rapidamente no início de Trumbo. Na verdade, elas foram causadas, mais que por influência dos “comunistas”, como o filme pode ter sugerido, por uma mudança de lógica em Hollywood. Na década de 1940 os grandes estúdios, até então predominantes nas decisões de Hollywood, estavam começando a ruir enquanto catalisadores da indústria. Grandes diretores e atores surgiram com poder criativo e de escolha, ditando regras e não mais repetindo as velhas fórmulas dos estúdios.

Neste cenário, naturalmente diversas categorias começavam a exigir mais. Trumbo mostra os designers de produção fazendo piquetes e greve, mas na história de Hollywood há diversos outros profissionais que fizeram isso. Uma das greves mais conhecidas foi a relativamente recente paralisação dos roteiristas de Hollywood entre o final de 2007 e o início de 2008, em uma paralisação que durou 100 dias e que afetou produções para o cinema e para a televisão – confira aqui uma matéria que fala do final desta greve.

Comentei isso apenas para deixar claro que a greve dos designers de produção e as manifestações de outras categorias na Hollywood da segunda metade dos anos 1940 tinha pouco a ver com os comunistas. Verdade que eles defendiam uma outra organização econômica e social, mas nem todos eram panfletários. E mesmo que fossem, eles não faziam isso através dos filmes e sim em sua vida particular. Trumbo, o filme, mostra isso com propriedade.

Gostei muito do roteiro de McNamara e da direção de Jay Roach. Os dois realmente focam no personagem central, o roteirista Dalton Trumbo, mas nem por isso ignoram o que acontece ao redor dele. Verdade que acho que faltou um pouco mais de contextualização histórica, como eu comentei antes. Afinal, depois da prisão e da soltura de Trumbo, passados alguns anos daquela perseguição descabida, parece um tanto inusitado para quem não acompanhou a história de Hollywood o ator Kirk Douglas (interpretado por Dean O’Gorman) bater à porta do roteirista para pedir que ele refizesse o roteiro de Spartacus.

Afinal, quando Trumbo começa, figuras como Louis B. Mayer (interpretado por Richard Portnow), um dos fundadores do estúdio MGM, é quem dita as regras da indústria. Como, anos depois, Kirk Douglas era o produtor de seu próprio filme e, junto com Stanley Kubrick, foi o grande responsável por Spartacus? Isso tem a ver com o que eu disse antes, com a ascensão de diretores como Alfred Hitchcock e de atores como Huphrey Bogart e Kirk Douglas, que ganharam mais independência, autoridade e autonomia, enquanto os estúdios perderam força.

Essa falta de contextualização atrapalha um pouco Trumbo. Senti falta também de serem citados mais nomes perseguidos naqueles tempos. Afinal, verdade que Trumbo fez parte do “The Hollywood Ten” (Os Dez de Hollywood), primeiro grupo identificado e penalizado por ser comunista e trabalhar em Hollywood, mas em junho de 1950 três ex-agentes de FBI e um produtor de televisão de direita, Vincent Harnett, publicaram o Red Channels.

Esse documento listava nada menos que 151 nomes de roteiristas, diretores e atores que passaram a integrar a lista negra do Comitê de Atividades Anti-Americanas. Conforme as pessoas eram convocadas para falar com o Comitê e preferiam ficar caladas, elas também eram listadas – cerca de 320 pessoas passaram a fazer parte desta lista que as impedia, em teoria, de trabalhar na indústria. Entre os nomes incluídos nesta relação estavam os de Leonard Bernstein, Charlie Chaplin, John Garfield, Dashiell Hammett, Lillian Hellman, Arthur Miller e Orson Welles.

Claro que eu não esperava que Trumbo listasse todos esses nomes, mas poderia ter indicado, aqui e ali, no roteiro de McNamara, alguns destes nomes conhecidos além daqueles 10 iniciais que acabaram presos. Mas esses são os únicos aspectos que me “incomodaram” um pouco neste filme, pensando neles especialmente depois que a produção terminou. Porque enquanto o filme está se desenrolando ele é apenas um grande deleite.

Trumbo acerta ao mostrar os bastidores de Hollywood e, principalmente, em focar os efeitos daquela caça às bruxas na vida dos nomes perseguidos e suas famílias. Para mim, o filme tem dois grandes recortes: o óbvio, sobre a indústria do cinema, e o menos óbvio, dos perigos da histeria coletiva e da política do medo. Especialmente o segundo tema é mais do que atual. Nos Estados Unidos, desde o ataque às Torres Gêmeas, a política do medo vive assombrando a população e a cultura do país, provocando estragos particulares e coletivos dentro e fora do país.

Falemos primeiro do recorte sobre Hollywood que o filme faz. Fiquei impressionada não apenas com a interpretação de Bryan Cranston, que está perfeito, mas também com os atores que interpretam personagens importantes daquela época e daquele círculo como Edward G. Robinson (interpretado por Michael Stuhlbarg), Hedda Hopper (a ótima Helen Mirren), John Wayne (David James Elliott), Arlen Hird (Louis C.K.), Buddy Ross (Roger Bart), Frank King (John Goodman), Hymie King (Stephen Root) e Otto Preminger (Christian Berkel). Ainda ainda o já citado Kirk Douglas e uma ponta de John F. Kennedy (Rick Kelly).

Sempre é um prazer ver tantos personagens importantes da história – especialmente de Hollywood – sendo reinterpretados e trazidos novamente “à vida”. A reconstituição de época e os “bastidores” do cinema que permeiam toda a história são interessantíssimos, especialmente para quem gosta do tema. Interessante ver as relações de poder e o jogo de interesses que permeia os diferentes estúdios e profissionais que atuam naquela área, assim como o governo e formadores de opinião – como a jornalista Hedda Hopper. Na época figuras como ela podiam destruir ou, pelo menos, abalar reputações com bastante facilidade.

Essa narrativa dos bastidores de Hollywood não é muito comum e, por isso mesmo, Trumbo se torna um filme diferenciado. No fim das contas, apesar de toda a pressão e “terrorismo” das pessoas que queriam acabar com os comunistas no país, o talento venceu. Com a ajuda inicial fundamental dos irmãos Frank King e Hymie King, Trumbo conseguiu sobreviver e, pouco a pouco, trabalhar cada vez mais – e até em demasia – para pagar as contas e dar estabilidade para a família.

E daí surge o outro aspecto interessante de Trumbo. Ao focar essencialmente em um personagem importante daquela época, o filme dirigido por Roach se aprofunda na personalidade e no cotidiano do personagem, mostrando não apenas o seu talento, mas também o seu contexto familiar e de amizades. Esta produção acerta, sem dúvida, ao fazer isso, porque daí percebemos os efeitos daninhos de uma perseguição aloprada como aquela da caça às bruxas. Vale lembrar também que aquele tipo de perseguição se espalhou pelo mundo, em diferentes países e realidades – no Brasil ela também existiu e, como diz Trumbo, vitimou não apenas a cultura, mas também tirou vida de várias pessoas.

Bueno, voltando para o filme. Ao se debruçar na história de Trumbo, vemos como aquela paranoia coletiva cobrou um preço alto das famílias, que eram hostilizadas por vizinhos e conhecidos e não podiam admitir o que os perseguidos faziam para viver. As pessoas eram condenadas pelo que elas acreditavam e pensavam e não por seus atos. Como Trumbo afirma na entrevista que o filme reproduz apenas uma parte, o tal Comitê de Atividades Anti-Americanas nunca conseguiu provar nenhuma atividade realmente daninha para o país.

O que aquela perseguição provocou foi a perda de liberdade de centenas de pessoas que, no fim das contas, foram impedidas de trabalhar. E sem trabalho, passaram por diversas agruras – algumas morreram, como diz Trumbo, vítimas dos efeitos desta perseguição. No caso do protagonista deste filme, depois que saiu da prisão Trumbo ficou obcecado por fazer exatamente aquilo que a caça às bruxas queria lhe impedir de fazer: trabalhar.

Obcecado por escrever cada vez mais, mas sem a possibilidade de assinar os próprios roteiros, Trumbo virava as noites, trabalhava praticamente o tempo inteiro e sem ter mais tempo para a família – algo que ele conseguia fazer muito bem antes de ser perseguido. O filme mostra muito bem essa mudança e a forma com que Trumbo acaba envolvendo toda a família naquela nova rotina – até que a esposa dele, Cleo (interpretada pela ótima Diane Lane), resolve dar um basta e chamar a atenção do marido sobre a forma repressora que ele adotou em casa.

Esse filme tem grandes momentos – dois que me tocaram muito foi a conversa de Cleo com o marido e as vezes em que a família dele, em casa, torceram para que ele ganhasse os dois Oscar’s que ele ganhou assinando com outros nomes duas produções premiadas pela Academia.

Todo o contexto cruel que cercou todas aquelas vidas é um verdadeiro absurdo. E é bom falar deste absurdo hoje, em 2016, porque há muitas figuras que querem voltar para aquele tempo de censura e de perseguição. É preciso recordar, lembrar, para impedir que histórias assim se repitam. Trumbo funciona muito bem neste sentido. Grande filme, mais uma das boas descobertas apresentadas pelo Oscar 2016.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vale listar os “The Hollywood Ten”: Herbert Biberman, Lester Cole, Albert Maltz, Adrian Scott, Samuel Ornitz, Dalton Trumbo, Edward Dmytryk, Ring Lardner Jr., John Howard Lawson e Alvah Bessie. Eles foram condenados a períodos que variaram entre seis e doze meses de prisão.

O tema da caça às bruxas feita em Hollywood é fascinante. Vale buscar mais a respeito. Recomendo, para quem quiser iniciar essa pesquisa, este texto bem ilustrativo sobre o Macartismo da Planeta Educação; também este outro texto do blog Ready for My Close Up Now que não apenas traz os nomes e obras dos 10 de Hollywood, mas também os movimentos de solidariedade à eles (algo que Trumbo também ignora); vale dar uma olhada neste texto da revista Época, com outras informações curiosas sobre o período; e, mesmo escapando um pouco do tema, mas complementando ele um bocado, vale a leitura deste texto da História Viva sobre a “colaboração” ou influência direta do Exército americano no cinema até que eles se divorciaram após o Vietnã.

Trumbo não trata do tema, mas o blog Ready for My Close Up Now lembra bem que se existia o MPA (Motion Picture Alliance for the Preservation of American Ideals), que tinha entre um de seus líderes John Wayne, também existia para contrabalancear a balança o Comitê Pela Primeira Emenda que contava com Humphrey Bogart, Lauren Bacall, John Huston, entre outras personalidades que defendiam os 10 de Hollywood. Aliás, falando em MPA, Trumbo não trata disso, mas ela foi fundada por Walt Disney – sim, meus caros! – e tinha como participantes, ainda, Gary Cooper, Barbara Stanwick, Cecil B. DeMille, Ginger Rogers, Ronald Reagan, King Vidor, entre outros.

Uma coisa, e Trumbo aborda bem isso, é alguém “dedurar” um colega para sobreviver, como alegou o ator Edward G. Robinson, interpretado com precisão e brilhantismo por Michael Stuhbarg, outra bem diferente é a delação “por prazer”, praticamente, como aquela feita por Elia Kazan – que era brilhante, mas pisou na bola ao destruir a vida de diversos colegas. Diversos nomes não precisavam ter denunciado os colegas para sobreviver.

O diretor Jay Roach acerta ao apostar no talento de Bryan Cranston e estar sempre próximo do ator, assim como dos outros personagens próximos a ele. Ele faz uma boa e competente direção, mas sem nenhuma grande “invenção”. O que é bom, porque valoriza o trabalho dos atores e o bom roteiro de John McNamara – ainda que ele tenha falhado em alguns pontos que eu já comentei, especialmente na falta de contextualização e da citação de mais nomes daquele contexto histórico.

O elenco de apoio do filme é muito competente – e chama a atenção a quantidade de estrelas. Além de Bryan Cranston, se destacam Helen Mirren, Diane Lane, Michael Stuhlbarg e Louis C.K. Mas além deles e dos outros nomes já citados, vale comentar o bom trabalho dos atores que dão vida para os filhos dos Trumbo: Toby Nichols como Chris Trumbo entre as idades de seis e 10 anos; Madison Wolfe como Niki Trumbo na idade entre oito e 11 anos; Meghan Wolfe como Mitzi Trumbo na idade entre seis e oito anos; Mitchell Zakocs como Chris Trumbo entre os 10 e os 12 anos; Mattie Liptak como Chris Trumbo entre os 13 e os 17 anos; Becca Nicole Preston como Mitzi Trumbo entre os nove e os 12 anos; John Mark Skinner como Chris Trumbo quando ele tem 29 anos; e a sempre competente Elle Fanning como Niki Trumbo na fase universitária/adulta quando ela tem uma troca mais madura com o pai.

Da parte técnica do filme, vale destacar a ótima trilha sonora de Theodore Shapiro; a direção de fotografia de Jim Denault; a edição de Alan Baumgarten; o design de produção de Mark Ricker; a direção de arte de Lisa Marinaccio e Jesse Rosenthal; a decoração de set de Cindy Carr; e os figurinos de Daniel Orlandi. Todos eles, especialmente os últimos, são fundamentais para a ambientação da história.

Achei os irmãos King – que, na verdade, tinham o sobrenome Kozinsky – mais que admiráveis. Eles deram emprego não apenas para Trumbo, mas para vários outros nomes perseguidos pela lista negra. Vale dar uma conferida na história deles neste link da Wikipédia.

Eu nem preciso dizer que Bryan Cranston mais que mereceu a indicação como Melhor Ator no Oscar 2016, né? Grande ator. Espero que ele faça mais filmes excelentes e que logo mais ganhe, por mérito puro, uma estatueta dourada. Este ano não tinha como porque a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood já devia um Oscar há tempos para o Leonardo DiCaprio, mas eu espero, sinceramente, que a hora de Cranston chegue. Agora, falando ainda e Oscar, Helen Mirren bem que podia ter sido indicada como Melhor Atriz Coadjuvante pelo trabalho neste filme, não? Ela está tão bem que não tem como não odiar a personagem que ela está fazendo. 😉

Trumbo estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria, ainda, de outros sete festivais mundo afora. Nesta trajetória, até o momento, o filme recebeu dois prêmios e foi indicado a outros 31. Ele rendeu apenas o terceiro lugar como Melhor Ator para Bryan Cranston no Prêmio dos Críticos de Cinema de Iowa; o Spotlight Award no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs para Bryan Cranston e o prêmio de Melhor Ator para Cranston no Prêmio da Associação de Críticos de Cinema Southeastern.

Algo que este filme aborda e que nunca eu vou entender: por que tantas pessoas tem medo de outras que pensam diferente e preferem combatê-las do que aceitar que elas tem o direito de pensar diferente? Isso já aconteceu muito na história da Humanidade – da Inquisição na Idade Média até a “blacklist” de Hollywood – e volta e meia alguém tenta fazer este tipo de medo e de atitude predominar. Temos que estar alertas e cada vez mais defender que todas as pessoas tenham liberdade de pensar diferente – desde que este pensamento não se materialize em crime e infrinja as leis, evidentemente. Neste segundo caso, a aplicação da lei deve ser feita. E isso é tudo.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme: o diretor Jay Roach disse que muitas cenas de Trumbo em que o protagonista escreve sozinho na mesa ou na banheira foram improvisadas por Bryan Cranston enquanto as câmeras estavam rodando e que ele realmente estava criando frases para os roteiros que o personagem estaria escrevendo.

O ator Steve Martin comentou que quando ele era muito jovem a sua namorada e a família dela lhe apresentaram novas ideias e oportunidades intelectuais – e o pai dela era Dalton Trumbo, de quem Martin nunca tinha ouvido falar até aquele momento.

Gary Oldman foi cogitado para o papel de Trumbo. Francamente, Cranston faz um trabalho tão impressionante como o roteirista que eu não consigo imaginar mais ninguém como protagonista deste filme.

Importante observar duas “incorreções” do filme. Edward G. Robinson, na verdade, nunca delatou nenhum nome para o Comitê, como Trumbo mostra. Ele testemunhou quatro vezes, mas nunca apontou nenhum nome. Outro personagem, Arlen Hird, não existiu com este nome – ele é, na verdade, um amálgama de vários nomes de escritores que fizeram parte da lista negra. Observando a lista dos 10 de Hollywood, da qual ele teria feito parte, realmente já dá para perceber isso. Curioso não terem escolhido um outro personagem real, não é mesmo? Não vi muito a razão para isso. Também não entendi porque colocar Robinson como delator quando ele não foi – e outros sim.

Trumbo fez pouco mais de US$ 7,8 milhões nos Estados Unidos. Somando com o que a produção fez nas outras bilheterias mundo afora, ele chegou a US$ 8,2 milhões. Ainda pouco para o filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 107 críticas positivas e 38 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 74% e uma nota média de 6,7. Fiquei curiosa para ver o documentário sobre Trumbo. Será que é melhor que o filme? Alguém viu e quer comentar? 😉

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Filme extraordinário e que conta um momento muito importante da história não apenas dos Estados Unidos, mas do mundo. Afinal, enquanto artistas eram perseguidos naquele país, tínhamos situação parecida no Brasil quando por aqui tivemos ditadura militar, e em tantos outros países em fases um pouco anteriores ou posteriores. Bem narrado, com um ator de primeiríssima linha como protagonista e um belo elenco de apoio nos outros papéis, Trumbo é um destes filmes inevitáveis para quem gosta de cinema.

Quem dera que mais filmes se debruçassem não apenas nas relações e bastidores da Sétima Arte, mas que também falassem de épocas tenebrosas da nossa história coletiva. O filme acerta no ritmo e na crítica, assim como na imersão na história pessoal e profissional do protagonista. Por pouco ele não é perfeito. Senti falta da produção citar mais nomes importantes de Hollywood que foram perseguidos naquela época, assim como explicar um pouco melhor a mudança do “sistema” da indústria, que deixou naqueles anos de ser dominada por grandes estúdios para passar a ser muito mais autoral.