Juliet, Naked – Juliet, Nua e Crua

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Geralmente a gente leva aquela vidinha mais ou menos. E nos acostumamos com esse “mais ou menos”. Mas o que nos desagrada na nossa vidinha “assim, assim” nos tira a paz. Isso pode durar muito tempo. A vida inteira, muitas vezes. Ou pode chegar um dia em que um fato inesperado nos faz querer mudar. Juliet, Naked segue a onda da obra do escritor Nick Hornby na sua busca da relação das pessoas com a música e vice-versa mas avança alguns passos em direção à maturidade. Um filme com doses certas de humor, romance, drama e cinismo. Uma bela pedida.

A HISTÓRIA: Em um vídeo gravado para o seu site, Duncan Thomson (Chris O’Dowd) fala um pouco mais sobre a aura e as “lendas” que envolvem o seu ídolo máximo, o sumido “astro” do rock alternativo Tucker Crowe (Ethan Hawke). Nesse vídeo, feito em casa, Duncan relembra as linhas gerais da trajetória de Tucker e comenta como ele fez uma “obra-prima” em 1993 antes de “desaparecer”. Muitos anos depois, em 2014, teriam feito uma foto dele em uma fazenda, mas ninguém comprovou se a imagem seria do artista. Corta.

Em uma pequena cidade do litoral do Reino Unido, Annie Platt (Rose Byrne) mantém o legado do pai no museu da cidade. Agora, ela está com o desafio de organizar uma mostra que vai lembrar um Verão dos anos 1960 na cidade. Ela passa os dias entre o trabalho no museu, a rotina de um relacionamento morno com Duncan e desempenhando o papel de confidente da irmã mais nova, Katie (Alex Clatworthy).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu Juliet, Naked): Como manda o meu figurino, eu não sabia praticamente nada sobre Juliet, Naked antes de entrar no cinema e começar a assistir ao filme. Mas, conforme ele foi se desenvolvendo, me pareceu que aquele estilo e aquela assinatura da produção, especialmente do roteiro, me pareciam familiares.

Então não foi surpresa nenhuma, pelo contrário, fez muito sentido, depois, saber que o roteiro de Evgenia Peretz, Jim Taylor e Tamara Jenkins foi escrito tendo uma obra de Nick Hornby como fonte. Juliet, Naked tem o estilo de Hornby do primeiro ao último minuto. Assim, para entender bem este Juliet, Naked, o ideal seria antes visitar (ou revisitar) o filme High Fidelity – que eu assisti antes de criar este blog, por isso esse o texto sobre ele não poderá ser encontrado por aqui.

High Fidelity foi o filme que fez Hornby ser conhecido do grande público. Depois, dá para entender um bocado da “pegada” do autor com a produção About a Boy – que eu assisti também antes de criar o blog. O que estes filmes, baseados em livros de Hornby, têm em comum e que é importante conhecer e/ou entender antes de assistir a Juliet, Naked? Nas duas produções que “lançaram” Hornby para o grande público nós temos protagonistas em busca de sua própria maturidade.

Já foi comprovado, cientificamente, que os homens amadurecem, em geral, mais tarde que as mulheres. Esse amadurecimento mais tardio é sempre confrontado pelas responsabilidades da vida adulta versus os gostos ainda juvenis que muitos homens preservam pelo máximo de tempo possível. Assim, você pode ganhar muita responsabilidade conforme os anos passam, mas nem sempre você consegue lidar bem com toda essa responsabilidade e “cobrança”.

Mais uma vez, em Juliet, Naked, vemos a dois homens relevantes para a história que tem dificuldade de lidar com alguns aspectos mais “adultos” das suas vidas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Professor, Duncan alimenta uma verdadeira “paixão” pela música de Tucker Crowe. Ele é o típico “fanático” pelo artista, aquele cara que acredita que sabe tudo sobre o seu ídolo e o defende com unhas e dentes – mesmo não sendo muito racional (ou nada racional?) nesta defesa.

Ao mesmo tempo que dedica apenas o tempo necessário para a sua profissão de professor e igualmente apenas a atenção mínima para a namorada que vive com ele, Duncan dedica grande parte da sua paixão para a música de Tucker e para o site que criou sobre o artista. Cheio de razão sobre o que acredita saber sobre Tucker, Duncan fantasia o ídolo e a vida que ele possa ter seguido após ter optado pelo “anonimato”.

Nessa parte, tanto Hornby quanto os roteiristas de Juliet, Naked fazem uma ponderação interessante sobre as nossas paixões e como elas nos cegam. Duncan coloca tanta energia no seu “amor” pelo ídolo que, no dia em que ele o encontra com a ex-namorada na praia, ele é incapaz de identificar o objeto da sua paixão. Depois, no jantar cheio de constrangimento que os três e mais o filho de Tucker tem na casa de Annie, fica evidente o descolamento das impressões de Duncan sobre o ídolo e a realidade.

Nesse sentido, Juliet, Naked se revela um filme muito interessante. Nos faz pensar sobre o quanto o nosso amor, paixão ou admiração mesmo para outra pessoa (ou obra) nos torna cegos ou, no mínimo, míopes para a realidade sobre aquela pessoa (ou obra). De fato isso acontece, e com maior frequência do que gostaríamos de admitir. É preciso racionalizar e usar a nossa inteligência para eliminar a névoa e a vista nublada, para enxergar além da “cortina de fumaça”.

Mas para isso acontecer, é preciso ter contato com a realidade, nua e crua, e querer enxergar. Há quem prefira a vista nublada e a paixão cega, mesmo sabendo o que elas representam. Sempre é uma questão de escolha individual – e intransferível, portanto. Duncan, está claro conforme a produção avança, é um sujeito afeito e apreciador de miopia. Ele se deixa levar pelas emoções – ainda que seja tão ruim em administrá-las na prática. Lhe falta, evidentemente, uma maior maturidade emocional.

Isso é comprovado com o final de Juliet, Naked. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Depois de perder definitivamente a ex-namorada para o ex-ídolo, ele não disfarça a dor de cotovelo que passou a sentir utilizando a internet para “atacar” o novo trabalho de Tucker. Quantas decisões erradas tomamos por que nos sentimos traídos ou decepcionados? Esses sentimentos nunca são bons conselheiros.

Enquanto Duncan procura, mas parece não achar muito a maturidade emocional, temos outra figura em uma busca por maturidade nesta produção: Tucker. Depois de fazer um relativo sucesso como cantor e compositor, ele se afasta da música e da exposição pública e pula de relacionamento em relacionamento, colecionando não apenas ex-mulheres ou ex-parceiras, mas também diversos filhos.

Quando Duncan recebe a primeira gravação do disco de Tucker que ele ama e publica uma crônica a respeito no seu site, a pouco valorizada – e não tão míope – Annie resolve publicar um comentário dando um contraponto para toda aquela “rasgação de seda”. Ao ver um comentário mais ácido, Tucker entra em contato com a usuária que o postou. E assim ele começa a se corresponder com Annie.

Nesse sentido, Juliet, Naked explora muito bem as possibilidades de contato e de interação cheios de significado que a tecnologia da internet nos trouxe. Como é o caso deste blog mesmo, onde tanta gente boa fala sobre cinema e acaba trocando impressões sobre os filmes. Sempre é possível, nestes locais, encontrar pessoas com grande afinidade com a gente – mais até do que algumas pessoas próximas, muitas vezes.

Justamente esse potencial da internet que acaba sendo um elemento determinante para a história de Annie e de Tucker. Para surpresa dela, que não “endeusa” o artista como o namorado, Tucker acaba se revelando um sujeito realmente interessante. E atento, que lhe dá ouvidos e atenção, algo que ela não recebe em casa.

Juliet, Naked também entra, de forma bastante discreta, em outro tema bastante presente nos nossos dias: o que é, afinal, traição? Annie esconde de Duncan que ela está se correspondendo com o ídolo-mor dele. Não apenas trocando e-mails e mensagens, mas confidências – como a declaração de que ela “desperdiçou” os seus últimos 15 anos de vida. Annie não se sente orgulhosa de esconder isso do namorado, mas também não vê como falar a verdade para ele.

Como a vida tem as suas ironias, Duncan “mete a pata” e faz besteira traindo Annie com uma nova colega de colégio, Gina (Denise Gough). O “motivador” dele em relação à ela é porque Gina parece compartilhar da mesma emoção que ele sente ao escutar à primeira gravação do disco de Tucker.

Como acontece com muitos homens imaturos, Duncan “se deixa levar” e tem uma noite de sexo que não significa “nada” com Gina. Mas isso é suficiente para Annie ter a desculpa perfeita para terminar com aquele relacionamento morno e mais ou menos – sobre o qual ela já estava farta há algum tempo.

Depois, o que é um clássico também, Duncan se arrepende e tenta voltar com Annie. Sem sucesso, é claro, porque Annie já está cansada da “vidinha mais ou menos” que vinha levando e resolve correr atrás de algo que lhe faça mais sentido. Ufa! Ainda bem! Tantas mulheres abrem mão de suas próprias vontades, desejos e do que lhes traz mais sentido por causa de comodismo… ainda bem que esse não foi o caso da protagonista de Juliet, Naked.

Assim, de forma bem natural, esse filme nos faz refletir de que a vida está cheia de surpresas e de oportunidades. Por causa de um comentário franco que fez no site do namorado, Annie acabou se aproximando de um ex-ídolo rockeiro sobre o qual ela não tinha nenhuma atração em particular. A vida está cheia destas surpresas e oportunidades. O que fazemos com elas é o que realmente interessa, no final. Quantas vezes você teve uma ótima oportunidade pela frente mas a deixou passar?

Tucker estava “confortável” morando na garagem nos fundos da propriedade da sua última namorada e cuidando do filho Jackson (Azhy Robertson). Depois de errar tanto com suas ex-mulheres/namoradas e de não realmente buscar ser um bom pai, ele quer fazer diferente agora – assim, esse filme mostra um homem com dificuldade para amadurecer realmente procurando por esta mudança na sua vida.

Seus planos iam muito bem, até que Annie apareceu na sua vida. Apesar de estar em uma situação “confortável”, Tucker é quem toma a iniciativa de uma aproximação. Quando eles realmente se aproximam, Annie vê que a vida do novo pretendente é um verdadeiro caos. Ela poderia ter recuado, agradecido a oportunidade e seguido em outra direção. Mas ambos já tinham se modificado, um ao outro, e resolveram não fechar os olhos para isso.

Mudanças maravilhosas podem acontecer com as pessoas – e com as sociedades, enquanto coletivo de pessoas – quando as pessoas estão dispostas para que isso aconteça. Mas é preciso disposição, sem dúvida. É preciso sair da zona de conforto, da “vidinha mais ou menos” e da segurança do que já conhecemos. É preciso se arriscar, sabendo que há chances de dar certo ou de dar errado. E tudo bem.

Pensando no que pode ter atraído tanto Annie em Tucker, acho que foi a grande e incurável honestidade dele. Em nenhum momento Tucker quis disfarçar os seus defeitos ou parecer algo que ele não era. Essa franqueza, tão difícil de encontrar por aí, assim como o olhar cuidadoso e realmente interessado de Tucker, foram “fatais” para Annie. Realmente é como achar uma agulha em um palheiro.

Para uma pessoa que vive um bocado na zona de conforto mas que não está cega para as mudanças e para as possibilidades que a vida sempre nos apresenta, Juliet, Naked é uma brisa de ânimo e de esperança. Um filme sobre a busca da felicidade, de fazer melhor na próxima vez e de maior maturidade. Uma brisa animadora frente a tanto caos e cegueira. Um filme sobre música e o amor baseado em princípios que realmente valem a pena. Um belo filme.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gosto de produções com muitos diálogos e com bastante conteúdo. Esse é o caso deste Juliet, Naked. Algo bastante típico também do escritor Nick Hornby. O autor, assim como os roteiristas desta produção, exploram muito bem a construção dos personagens. Não apenas nos diálogos deles com outros personagens mas, sobretudo, no diálogo deles “interno”. Vemos isso coloado em Juliet, Naked de forma natural, sem forçar a barra e em momentos pontuais.

O roteiro de Juliet, Naked, vocês podem imaginar, é um dos pontos fortes do filme. Evgenia Peretz, Jim Taylor e Tamara Jenkins respeitam o estilo de Nick Hornby e conseguem construir um roteiro envolvente e que mergulha com cuidado e verdadeira “admiração” nos personagens centrais da história. Há diálogos deliciosos e engraçados espalhados aqui e ali, assim como momentos para o drama e o romance. Uma crônica sobre pessoas comuns e os nossos tempos de comunicação intermediada por computadores e tudo que isso significa de filtros e de possibilidades.

Além do roteiro acima da média, Juliet, Naked apresenta uma direção de Jesse Peretz bastante coerente com a história. O diretor, com muitos trabalhos na direção de curtas e de séries de TV e relativamente poucos trabalhos na direção de longas, valoriza bem o trabalho dos atores e os locais em que eles vivem e/ou transitam. Essencialmente, o trabalho de Peretz não tem nenhum grande “achado” de ângulo ou ritmo de câmera, mas ele faz um trabalho competente de valorização das interpretações dos atores.

Falando em atores, esse é um outro ponto forte de Juliet, Naked. Rose Byrne e Ethan Hawke estão simplesmente incríveis em seus papéis. Especialmente Hawke, que parece se encaixar perfeitamente no papel de um “ex-ídolo” jovem, belo e admirado que acaba se afastando de tudo e de todos e passa a ter quase uma “ojeriza” à fama. Hawke envelheceu e não é mais aquele garoto jovem e belo como antes. Então ele se encaixa perfeitamente no papel. Hawke e Byrne são simpáticos e “iluminam” a tela, além de fazerem uma bela parceria em cena. Gostei muito do trabalho deles e da construção de seus personagens.

Para mim, Hawke e Byrne roubam as cenas sempre que aparecem. Apesar disso, há outros nomes competentes e que fazem um belo trabalho em Juliet, Naked. Vale citar, em especial, o bom trabalho de Chris O’Dowd como Duncan, um cara de meia idade com algumas paixões e com pouca capacidade de desenvolver relações reais; Alex Clatworthy muito bem com a irmã mais nova, lésbica e “pegadora” da protagonista, Katie, um contraponto interessante para Annie; Denise Gough bem em um papel menor e de coadjuvante, realmente, como Gina, a professora que dá em cima do colega Duncan; Azhy Robertson muito bem como Jackson, o filho mais novo de Tucker e a sua esperança de ser “um bom pai”; e Ayoola Smart como Lizzie, uma das filhas de Tucker que procura o pai quando está grávida.

Além destes nomes, que tem um destaque maior na trama, vale citar o trabalho dos coadjuvantes Lily Newmark como Carly, uma das namoradas de Katie; Phil Davis como o caricatural e um bocado “sem noção” prefeito de cidade pequena Terry Barton; Eleanor Matsuura como Cat, a última ex-namorada de Tucker – e dona da propriedade onde ele mora nos fundos da residência; Florence Keith-Roach como Caroline e Megan Dodds como outras ex-mulheres de Tucker – elas são mães, respectivamente, de Lizzi e dos gêmeos Zak (Thomas Gray) e Jesse (Brodie Petrie), todos filhos de Tucker.

Entre os aspectos do filme, além do saboroso e interessante roteiro do trio Peretz, Taylor e Jenkins e da direção firme e coerente de Peretz, vale destacar a direção de fotografia de Remi Adefarasin; a edição de Sabine Hoffman e de Robert Nassau; a trilha sonora de Nathan Larson; o design de produção de Sarah Finlay; a direção de arte de Caroline Barclay; a decoração de set de Ellie Pash e os figurinos de Lindsay Pugh.

Ainda que os filmes mais significativos baseados na obra de Nick Hornby não tenham sido comentados aqui no blog – porque eles são anteriores à criação deste espaço -, tenho publicados no site duas críticas de filmes que contaram com o roteiro de Hornby. Vocês podem conferir por aqui a crítica de An Education e, neste link, a crítica de Brooklyn. Não são os melhores trabalhos dele, mas os dois filmes são interessantes.

Juliet, Naked estreou em janeiro de 2018 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participaria, ainda, dos festivais de Sydney, de Zurique e do American Film Festival. Nessa trajetória de festivais, ele foi indicado em uma categoria mas não ganhou prêmio algum.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. A atriz Rose Byrne estava grávida de seis meses quando Juliet, Naked foi filmado. Para esconder essa gravidez, o diretor optou por planos de câmera inteligentes, como takes de médio e grande plano, e pela colocação de bolsas e notebooks na frente da barriga da atriz para que a gravidez não aparecesse na tela.

O escritor Nick Hornby faz uma ponta no filme. Ele aparece ao lado da atriz Rose Byrne na sequência no museu na qual Tucker Crowe canta a música “Waterloo Sunset”.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 96 textos positivos e 21 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 82% e uma nota média de 6,9. No site Metacritic, Juliet, Naked recebeu o “metascore” 67, fruto de 20 críticas positivas e 12 medianas.

De acordo com o site Box Office Mojo, Juliet, Naked fez pouco mais de US$ 3,4 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos.

Juliet, Naked é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem à uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: A energia que nós dedicamos a alguns aspectos da nossa vida nem sempre é proporcional ao quanto aquilo vale a pena realmente. Muitas vezes, não nos dedicamos o quanto deveríamos para a pessoa que está ao nosso lado, gastando aquela energia com nossos gostos pessoais. Juliet, Naked segue a linha de Nick Hornby de falar de encantamento, de paixão, de amor e de música, mas com alguns toques maiores de autocrítica, cinismo e compaixão com seus personagens. Mais um filme interessante e divertido com a marca de Hornby e com ótimos atores em cena. Porque vale falar de música, de amor e da vida de gente comum. Boa pedida para quem gosta do gênero.

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Brooklyn

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Morar fora de seu habitat natural nunca é algo simples. Mas retornar para “casa” também não é. Até porque, depois de algum tempo, você descobre que a noção de “casa” é muito relativa. Brooklyn nos conta a história de uma imigrante irlandesa que adota os Estados Unidos como a sua nova morada. A trajetória dela resume a de tantos outros imigrantes que fizeram não apenas os Estados Unidos, mas tantos outros países mundo afora.

A HISTÓRIA: Eilis (Saoirse Ronan) sai de casa quando ainda está escuro. Ao lado de Miss Kelly (Brid Brennan) e de Mary (Maeve McGrath) ela participa da missa antes de ir trabalhar no armazém de Miss Kelly. Chegando no local, Eilis pede para falar com a empregadora, mas ela comenta que aquele não é um bom momento. Depois da missa das 9h, o armazém fica cheio. Miss Kelly tem um jeito bem diferenciado de tratar os clientes, o que visivelmente incomoda Eilis.

Quando o estabelecimento fecha, Eilis comunica que está se mudando para a América. Quem arranjou tudo foi o padre Flood (Jim Broadbent), que atendeu a um pedido da irmã mais velha de Eilis, Rose (Fiona Glascott). Acompanhamos a jornada da jovem irlandesa nos Estados Unidos, com ela indo morar e trabalhar no Brooklyn, bairro com grande população vinda da Irlanda.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Brooklyn): O Oscar 2016 está com uma seleção interessante. Ao mesmo tempo que temos filmes ousados na direção e no roteiro, como The Revenant, Room e Mad Max: Fury Road, temos produções muito sensíveis e delicadas, como Carol e esta Brooklyn.

Antes de assistir a este filme, como mandam as minhas regras próprias, eu não sabia nada de Brooklyn. Apenas, claro, que ele tinha uma elogiada atuação de Saoirse Ronan. De fato a atriz é um dos pontos fortes do filme, assim como Cate Blanchett e Rooney Mara são a fortaleza de Carol (com crítica aqui no blog).

A diferença é que a interpretação de Ronan é muito mais “entregue” e destemida do que as interpretações de Blanchett e Mara, destacadas pela expressão dos sentimentos, em muitos momentos, apenas pelos olhares. Ronan não. Ela demonstra uma certa obstinação desde o início, mas com a diferença que faz você sair de um local aonde conhece a todos, está cercada de família e de amigas, para outro local aonde está praticamente sozinha. Quando se muda desta forma de cenário, é inevitável que a pessoa também mude por dentro.

Assim como Carol, Brooklyn é um interessante retrato de uma época e de um local. Nos dois filmes o contexto histórico e social jogam um papel importante. No caso de Brooklyn, é especialmente interessante observar as diferenças entre o local de origem da protagonista, uma Irlanda provinciana aonde as pessoas prezam tanto a ida regular na Igreja quanto a vigilância sobre os vizinhos e conhecidos, e os Estados Unidos que começa a ser cosmopolita e aonde há excesso de gente, de ilusões e de sonhos, com cada pessoa lutando para sobreviver e crescer da melhor forma possível.

Diferente de Carol, Brooklyn mergulha de forma mais franca no romance clássico e sem amarras como o caso proibido do outro filme. De forma muito coerente, Ronan demonstra toda a tristeza de Eilis na primeira fase dela nos Estados Unidos, quando ela ainda tenta se adaptar ao jeito mais franco e mais exigente da sociedade norte-americana. Neste contexto e tentando fugir da nova inquilina da pensão aonde ela mora, a esquisita Dolores (Jenn Murray), Eilis conhece em um baile da colônia irlandesa o italiano Tony (Emory Cohen).

A partir daí o filme mergulha no romance entre os dois. Cohen parece um Al Pacino jovem. Ele tem talento, carisma e uma bela sintonia com Ronan. O casal convence. E aí vem um dos grandes acertos do roteiro de Nick Hornby inspirado no romance de Colm Tóibín: quebrar toda a sequência óbvia de eventos com um fato trágico na história. Além de dar uma nova dinâmica para o filme, esse fato também reproduz o que acontece na vida real. Não estamos no controle das nossas vidas e, quando menos esperamos, fatos marcantes acabam mudando tudo o que esperávamos que aconteceria depois.

Muito antes do que o esperado Eilis se vê obrigada a voltar para a Irlanda. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E para surpresa dela, e do espectador também, ela acaba encontrando a realidade em casa diferente. Tudo parece conspirar para que ela fique lá cuidando da mãe, Mary Lacey (Jane Brennan) e ganhando dinheiro em um bom emprego, que antes era da irmã. Para completar o cenário, ela fica encantada com Jim Farrell (Domhall Gleeson), amigo de sua melhor amiga, Nancy (Eileen O’Higgins), que está prestes a se casar.

O que pareceria ser uma nova e feliz vida nos Estados Unidos acaba ficando em segundo plano. Ela está em casa, se sente bem e feliz. De uma forma que não era antes no mesmo lugar. Mas será que o lugar mudou ou foi ela? Em breve ela terá a resposta para isso. A verdade é que sempre mudamos quando nos desafiamos para isso. Eilis não é mais a mesma e, ao mudar, ela também moveu a roda das oportunidades ao seu redor. A casa que ela conhecia não é a mesma – por um lado, mais triste e vazia, por outro, mais promissora e interessante.

A vida é cheia de possibilidades e cada vez que fazemos uma escolha abrimos certos caminhos e damos costas para outros. Mas se Eilis está em dúvida sobre que caminho seguir – ou pelo menos é isso que o roteiro de Brooklyn sugere -, em breve uma coincidência destas de “mundo menor que uma noz” vai fazer ela lembrar de escolhas que fez e que devem moldar os seus passos.

Interessante como Eilis, assim como nós mesmos, é surpreendida pelos fatos. Ela tinha certeza que iria visitar a mãe na Irlanda e que logo voltaria para a sua nova vida nos Estados Unidos. O que ela não esperava é que a sua casa antiga estivesse tão diferente e com novas possibilidades.

Se não fosse a intromissão de Miss Kelly será que Eilis poderia ter escolhido outro destino? Pode ser que sim, pode ser que não. Nunca saberemos. Ela estava dividida entre obrigações – com a mãe, com Tony – e entre futuros possíveis na Irlanda ou nos Estados Unidos. Mas como não podemos abraçar o mundo, mais cedo ou mais tarde ela teria que tomar uma decisão. A intrometida Miss Kelly apenas apressou uma solução para o problema. Ainda que Eilis já parecia estar propensa a esta decisão.

Desta forma Brooklyn se revela um filme interessante não apenas por tratar de imigração ou por ser uma história de romance clássico. Ele chama a atenção por tratar dos sentimentos de pertencimento a um lugar que todos nós vivenciamos e sobre as escolhas que fazemos na nossa vida e o que elas podem acarretar para o nosso futuro.

Quando saímos de um lugar e caminhamos para a frente, nunca mais podemos olhar a paisagem da mesma forma. A ótica do lugar novo é diferente, para o bem e para o mal. Neste contexto, devemos nos contentar em sentir sempre saudade de algo, mas ter coragem para abraçar as escolhas que fizemos e, assim, vivenciar a felicidade. Sabendo que nunca mais pertenceremos a um lugar totalmente, e que são as pessoas que fazem os lugares e cada um de nós nos sentir em casa ou não. Brooklyn é um filme sobre o desabrochar de uma mulher e sobre a descoberta de uma sociedade mais livre. Vale o ingresso

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este filme tem uma escolha interessante de atores. Apesar de estar centrado no trabalho de Saoirse Ronan, sem dúvida alguma a protagonista feita para brilhar nesta produção, Brooklyn tem um elenco de apoio de peso. Entre os nomes interessantes estão os do já citados Jim Broadbent como o padre Flood; Jane Brennan como Mary Lacey; Fiona Glascott como Rose; Eileen O’Higgins como Nancy; Emory Cohen como Tony e Domhall Gleeson (que parece estar em todas) como Jim Farrell.

Mas além deles, que já foram citados, vale comentar o bom trabalho de Eva Birthistle em uma super ponta como Georgina, a mulher que divide a cabine no navio com Eilis na viagem de ida para os Estados Unidos; Peter Campion como George Sheridan, que se casa com Nancy; Julie Walters quase irreconhecível como Mrs. Keogh, dona da pensão aonde Eilis fica hospedada; Emily Bett Rickards como a deslumbrada Patty, que faz dupla junto com a atriz Nora-Jane Noone, que interpreta Sheila, como as fofoqueiras e engraçadinhas da pensão; e Jessica Paré, que me faz sempre lembrar de Mad Men, como Miss Fortiri, a chefe direta de Eilis na loja de departamento em que ela trabalha no Brooklyn.

Como esta produção se passa nos anos 1950, acaba sendo fundamental para a história diversos aspectos técnicos que ajudam Brooklyn a ser um filme de época. Neste sentido destaco, em especial, o design de produção de François Séguin; a direção de arte de Irene O’Brien e Robert Parle; a decoração de set de Suzanne Cloutier, Jenny Oman e Louise Tremblay; e os figurinos acertados de Odile Dicks-Mireaux.

Algo admirável neste filme é como o diretor John Crowley conduz a narrativa. Ele está sempre atento às expressões da protagonista e dos demais atores em cena. Além disso, claro, ele não ignora os belos cenários e a contextualização das duas sociedades retratadas. Neste sentido, merece ser mencionado também o trabalho do competente diretor de fotografia Yves Bélanger. Outro item importante para o filme é a trilha sonora de Michael Brook, bastante emotiva na maior parte do tempo.

Brooklyn teve uma história longa até chegar ao Oscar. O filme estreou em janeiro de 2015 no Festival de Cinema de Sundance. Depois ele passaria por outros 21 festivais mundo afora. Nesta trajetória a produção colecionou 21 prêmios e foi indicada a outros 105, incluindo três indicações ao Oscar 2016. Entre os prêmios que recebeu, destaque para sete prêmios como Melhor Atriz para Saoirse Ronan; para quatro prêmios conferidos pelo público como Melhor Filme; para um prêmio como Melhor Roteiro Adaptado; e para dois prêmios como Melhor Design de Produção.

Esta produção teve cenas rodadas em Enniscorthy, na Irlanda; em Montreal, no Canadá; e em Coney Island e no Brooklyn, nos Estados Unidos.

Brooklyn teve uma bilheteria bastante singela, até agora, nos Estados Unidos. O filme conseguiu fazer, até ontem, dia 18 de janeiro, pouco mais de US$ 25,1 milhões. Não encontrei informações sobre o custo da produção.

Este filme, aliás, é uma coprodução da Irlanda, do Reino Unido e do Canadá. Uma exceção entre os filmes que estão concorrendo ao Oscar de Melhor Filme – o único que não tem os Estados Unidos como produtor ou coprodutor.

Agora, algumas curiosidades sobre Brooklyn. O diretor John Crowley dividiu o filme em três movimentos visuais diferentes. O primeiro é aquele que acompanha a protagonista antes dela sair da Irlanda e viajar pela primeira vez para os Estados Unidos e se caracteriza por enquadramentos apertados e cheios de tons de verde. O segundo movimento começa quando Eilis chega no Brooklyn e as imagens passam a ser mais amplas e abertas, com cores mais vivas e alegres para marcar a América de 1952 que vivia o auge da cultura pop. O terceiro movimento está na segunda viagem dela para os Estados Unidos, quando as imagens ficam mais brilhantes, com mais glamour e “sutilmente mais colorido” do que no primeiro movimento. O objetivo do diretor era mostrar a mudança pela qual Eilis passou e, no final, ressaltar como ela estava mais sonhadora do que no início. Interessante.

A atriz Saoirse Ronan nasceu no Bronx, em Nova York, mas foi criada na Irlanda por seus pais, que eram irlandeses. Por isso mesmo ela considera Brooklyn como um de seus filmes mais pessoais. Além disso, essa é a primeira vez que ela utiliza o seu sotaque irlandês em uma produção.

Saoirse Ronan estava em uma manicure em Dublin quando recebeu uma ligação dizendo que ela estava concorrendo ao Globo de Ouro pelo seu papel como Eilis. Ela ficou tão contente que mandou comprar champanhe para todos que estavam no salão. Gracioso! 😉

O vestido amarelo que Eilis utilizada em uma cena é o preferido da figurinista Odile Dicks-Mireaux. Ele foi comprado em uma loja em Montreal.

A ideia para o romance do escritor irlandês Colm Tóibín surgiu de uma memória de infância dele. O autor lembrou de uma mulher que havia comentado sobre a viagem de sua filha de Enniscorthy, na Irlanda, para o Brooklyn. No ano 2000 Tóibín escreveu uma história curta a partir desta lembrança, mas decidiu ampliá-la depois que ele mesmo morou nos Estados Unidos por algum tempo. O autor também revelou que foi inspirado pela obra de Jane Austen – faz todo o sentido pelo “espírito” que este filme tem.

O Brooklyn que aparece no filme foi ambientado na canadense Montreal por uma questão orçamentária. Sairia muito caro mudar o Brooklyn do tempo atual para o estilo que o bairro tinha nos anos 1950.

Outra curiosidade técnica importante do filme: nas cenas de close-up da atriz Saoirse Ronan o diretor de fotografia Yves Bélanger utilizou lanternas individuais para os olhos da atriz com o objetivo de adicionar mais brilho para as suas expressões. Bélanger também utilizou uma câmera de mão Alexa e uma combinação de luzes de estúdio e de iluminação natural para capturar uma representação mais real e pessoal dos anos 1950.

Michael Brook decidiu usar o violino como o instrumento da personagem de Eilis. Quem executa o violino nas cenas com a atriz é a mulher de Brook, Julie Rogers.

Entre os filmes irlandeses, Brooklyn foi o que teve a melhor estreia em 19 anos. Naquele país o filme teve a maior presença em cinemas da história, superando o filme Michael Collins, de 1996.

Brooklyn foi aplaudido de pé quando estreou no Festival de Cinema de Sundance.

Não li o livro de Tóibín, mas segundo as notas de produção de Brooklyn, o filme tem um final diferente do livro. Quem tiver lido a obra original, por favor, pode comentar aqui qual é a grande diferença do final? Desde já eu agradeço. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, uma boa avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 182 críticas positivas e quatro negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média de 8,6. Bela avaliação, aliás.

CONCLUSÃO: Diferentes paixões movem quem sai de seu lugar de origem e passa a viver em outra parte. Brooklyn conta a história de uma garota que empreende esta jornada sozinha, a exemplo de tantas outras pessoas. Bem conduzido e com uma interpretação muito sensível de Saoirse Ronan, Brooklyn reforça a boa safra do cinema nesta temporada do Oscar.

Além de enfocar um assunto tão em voga quanto a imigração, ele trata de outros temas importantes na formação da Irlanda e dos Estados Unidos, como a religião, os costumes e a busca por autonomia das mulheres. Com roteiro bem construído, Brooklyn dá espaço para Saoirse Ronan brilhar. Além da imigração e da contextualização de época, este filme é um grande romance. Bem ao gosto dos ingleses, coprodutores do filme. Vale especialmente pelo contexto histórico, pelo conjunto da obra e por Ronan.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Brooklyn foi indicado em três categorias da premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Além de concorrer a Melhor Filme e Melhor Atriz (Saioirse Ronan), a produção concorre também como Melhor Roteiro Adaptado. Francamente, vejo poucas chances dele ganhar qualquer um destes prêmios.

Melhor Filme está fora de cogitação. Melhor Atriz parece estar definido para Brie Larson, de Room (comentado aqui no blog). Outro páreo duro para Ronan, caso Larson perca, seria Cate Blanchett por Carol (com crítica neste link), outro filme de época. Fechando a lista de possibilidades, Brooklyn concorre com The Big Short, Carol, The Martian e Room como Melhor Roteiro Adaptado.

The Big Short parece levar uma certa vantagem, ainda que a minha torcida vá para Room. The Martian e Carol também são grandes adaptações. Não vejo muitas chances para Brooklyn. Ou seja, no fim das contas, o filme deve sair de mãos abanando no Oscar. Não porque não tenha qualidades, mas porque os concorrentes são melhores.