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Un Beau Soleil Intérieur – Let the Sunshine In – Deixe a Luz do Sol Entrar

Não é fácil para quem tem 40 anos ou mais continuar em busca do amor. E as razões são variadas. Mas uma das principais é porque após os 40 muita gente boa já está comprometida ou está tão perdida que não vale investir para acabar se perdendo junto. Ainda assim, muitas mulheres – e homens – não desistem nunca de encontrarem o seu “grande amor”, mesmo que isso signifique dor, lágrimas, tristeza e um bocado de situações no estilo “cilada”. Un Beau Soleil Intérieur fala sobre isso e sobre outras questões relacionadas com quem já passou da juventude mas segue dando as suas topadas em diversas pedras pelo caminho.

A HISTÓRIA: Isabelle (Juliette Binoche) está esparramada na cama. Nua, ela parece estar se deliciando com algo. Logo, aparece sobre ela Vincent (Xavier Beauvois). Durante o sexo, Vincent pergunta se ela não vai gozar. Ela diz que ele pode gozar, sem problemas se ela não “chegou lá” ainda. A troca de diálogos na cama parece denotar que aquele casal está na rotina e um tanto cansado um do outro. Eles prometem fazer algo no final de semana, mas ele dá uma certa sumida. Depois, Isabelle vai cobrar isso dele. O desengano dos dois é apenas o começo de uma sequência de tentativas e erros da protagonista.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Un Beau Soleil Intérieur): Francamente, eu não sabia muito o que esperar desse filme. Na verdade, o título me chamou a atenção, assim como a sempre talentosa atriz Juliette Binoche. Entre as produções em cartaz no cinema há duas semanas, também esse me pareceu o filme mais interessante a conferir.

De cara, eu gostei do cartaz da produção. E o que ele me transmitiu? Não sei para vocês, mas para mim ele me passou a ideia de liberdade, de mulher independente, segura de si e/ou que tivesse se libertado de questões importantes após uma certa luta. O título do filme dirigido por Claire Denis e com roteiro de Denis e de Christine Angot, baseado em livro de Roland Barthes, também me passou essa impressão de “liberação” da mulher.

Mas e aí qual foi a minha surpresa ao assistir ao filme propriamente dito? Honestamente, grande parte das minhas expectativas foi frustrada. Primeiro, que essa história foca em uma personagem de meia idade que segue buscando incessantemente o “grande amor”. Até o final ela fica nessa busca cheia de altos e baixos e de uma boa dose de angústia e expectativas. Ou seja, não existe um momento realmente de “completude” como o cartaz e o título podem sugerir para os mais desavisados.

Feito esse comentário e essa ponderação sobre o abismo entre as expectativas e a entrega que esse filme produz, vamos falar sobre a produção propriamente dita. Para não dizer que Un Beau Soleil Intérieur é um grande desperdício, o filme acerta ao focar as atenções para uma personagem que o cinema ignora praticamente por completo: a mulher de meia idade que é divorciada e que vive em busca do amor sem esmorecer jamais – apesar das frustrações das relações sem futuro e com diferentes razões para essa impossibilidade ser algo concreto.

Importante o cinema olhar para esse público e para esse perfil. Porque, de fato, como eu disse no início desse texto, não é fácil para quem tem mais de 40 anos seguir insistindo na busca por um amor. Como Un Beau Soleil Intérieur mostra bem, ou a mulher nessa posição acaba encontrando apenas bons (ou até maus) partidos casados, ou encontra figuras indecisas sobre o que querem da vida ou, ainda, pessoas que não lhe atraem o mínimo possível.

Isso é o que vemos em cena nesse Un Beau Soleil Intérieur. Primeiro, a protagonista está imersa em um caso com Vincent (Xavier Beauvois), um sujeito casado e que faz o estilo boçal – ou, para os mais sensíveis, um sujeito um tanto sem noção e que não respeita muito as mulheres, dando realmente importância apenas para aquilo que ele quer ou pensa. Quando a história começa, Isabelle está na cama justamente com esse cretino.

Logo ela se enche do amante um bocado babaca e começa a investir em um ator (Nicolas Duvauchelle) que também é casado, mas que diz que está passando por uma grande crise no casamento. Não demora muito, ouvindo o papo do ator, para o espectador perceber que ele está perdido. Ou está jogando um “perdido” para a protagonista para conquistá-la e deixá-la em um permanente estado de “espera” enquanto ele, por sua parte, não pretende mudar nada do status atual de sua vida ou relacionamento.

Além desses, orbitam ao redor da protagonista dois ou três homens para os quais ela não dá muita atenção. Assim, esse filme conta algumas histórias de encontros e de desencontros. Mas não vemos grande “suavidade” em cena. Não temos em Un Beau Soleil Intérieur uma história lúdica, um tanto pueril ou bonitinha sobre os “desenganos do amor”. Não, não. O que temos é um certo “amargor” e uma boa dose de frustração na nossa frente.

Toda a busca, experiência e frustração vivida pela protagonista acaba cobrando dela sofrimento, angústia, desesperança, dor. Ela quer ser amada, valorizada, mas encontra uma grande dificuldade nos homens que encontra pelo caminho em conseguir isso. No final, Isabelle procura um vidente, Denis (Gérard Depardieu), em busca de respostas e de “encaminhamentos” para as suas dúvidas e angústias.

Respeitando as crenças diferentes da minha e as opiniões contrárias, que sempre vão existir, devo dizer que eu achei aquela longa sequência de Isabelle com Denis, enquanto os créditos finais do filme já estão rodando, um grande, imenso compêndio de obviedades e lugares-comum. E no fim das contas, o que a maioria dos “videntes” fazem além de um compêndio de lugares-comum que são jogados ao vento e que, em parte, sempre tem pontos que são identificados por cada cliente?

Assim, diferente do que o cartaz ou o nome desse filme podem sugerir, Un Beau Soleil Intérieur não é uma produção bonitinha que fala de empoderamento, liberdade conquistada ou “encontrar-se a si mesma”. Esse filme tem muito menos luz do que poderíamos imaginar, além de apresentar um sabor mais amargo e um tom cínico no final.

Apesar da várias obviedades, o vidente fala duas coisas que, possivelmente, são as mais importantes do filme inteiro: que Isabelle deve olhar mais para si mesma, valorizar-se, ao mesmo tempo que não deve se fechar para os outros e para o que vier de novo.

Assim, é claro que cada um pensa o que quiser, mas me parece que faz muito mais sentido uma mulher, com mais de 40 ou menos que isso, procurar conhecer-se bem e aprimorar-se, amando aos outros o máximo possível, aprendendo de todas as partes, mas tornando-se independente a cada passo e coerente com a própria trajetória, do que uma mulher com 40 ou menos buscando desesperadamente por alguém que “lhe complete”.

Honestamente, eu não acho que ninguém completa ninguém. Não acredito em uma tampa para cada panela, em duas metades da mesma laranja ou lugares-comum do tipo. Cada indivíduo é independente e dono de si mesmo – se tiver capacidade e coragem de desenvolver tudo o que isso significa. Que as pessoas se apaixonem e que escolham viver “várias vidas” dentro de uma juntos, evoluindo e aprendendo de forma permanente, sabendo que o casal que começou a história nunca será o mesmo que vai prosseguir com ela e terminá-la no fim da vida, dá para entender.

Mas, quando isso é feito da forma correta, as pessoas estão juntando as suas perfeições e imperfeições com o objetivo de caminharem juntas. Ninguém está completando ninguém. Ninguém deveria ser “usado” para preencher as carências e atender as necessidades do outro. Esse tipo de lógica nunca dá certo. Porque ninguém vai fazer por você o que só você pode fazer. E isso é tudo.

O final de Un Beau Soleil Intérieur eu achei um tanto cínico justamente por isso. Apesar de estarem frente à frente e de participarem de uma conversa, Isabelle não estava, de verdade, escutando o que Denis dizia. Ela tinha uma escuta seletiva, prestando a atenção e guardando apenas o que lhe era interessante. O restante, ela ignorava solenemente. Assim, apesar de Denis dizer algumas obviedades, ele sinalizou para ela o melhor caminho que ela deveria seguir: de autovalorização e de abertura para o outro sem grandes expectativas.

Mas ela realmente estava em busca do que? De que Denis confirmasse que o ator iria voltar para ela e que eles seriam felizes para sempre. No fundo, ela não queria sair daquele círculo vicioso em que ela estava imersa. Ela não queria passar pelo desafio que era achar respostas para ela seguir aqueles padrões e conseguir, com esforço, romper aquele ciclo e buscar uma nova realidade que lhe fizesse mais sentido e mais feliz.

Assim, por mais que o título e o cartaz são bacanas e cheios de esperança, o que vemos em cena é uma mulher que está afundando e que não sabe identificar que está em meio a um redemoinho – e que há maneiras de sair dele. É a velha história de que para resolver um problema, você primeiro tem que admitir que ele existe.

Un Beau Soleil Intérieur não nos mostra apenas uma mulher de meia idade que não desistiu de buscar o amor apesar de várias frustrações. Esse filme é sincero ao mostrar como essa mulher não vive uma procura feliz. Muito pelo contrário. Ela sofre, se angustia, chega até a roçar um princípio de depressão e/ou de isolamento por causa das histórias malfadadas. Então, no final das contas, será que é realmente bacana a ideia dela seguir “buscando o amor”, de forma incessante e um tanto irracional, já que essa busca lhe causa tanto sofrimento?

Durante a experiência do filme, ele parece um tanto longo e cansativo. E isso acontece por causa da confusão dos personagens – inclusive da protagonista – e da verborragia bem acima da média que vemos em cena. Esse filme é uma produção cheia de diálogos. Mas os pontos positivos é que o filme valoriza uma personagem pouco abordada pelo cinema e com um certo tom de cinismo e de descrença que também não é muito comum.

Por tudo isso, posso dizer com toda a segurança que o filme parece mais interessante e faz mais sentido depois de algum tempo que as luzes do cinema são acesas. Durante a exibição de Un Beau Soleil Intérieur, muitas vezes é difícil manter o interesse na produção – tanto isso é verdade que algumas pessoas saíram da sala de cinema onde eu estava bem antes do filme acabar. Mas, depois, ela acaba fazendo mais sentido e mostrando mais valor. Por isso também a nota abaixo. Poderia ser um filme melhor, mas ele também não é um desastre.

NOTA: 6,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vixe, agora que eu vi que escrevi demais, né? Mais uma vez. 😉 Me desculpem por isso. Quero ver se volto com aquela intenção de escrever menos sobre os filmes. Mesmo não tendo gostado taaaanto assim de Un Beau Soleil Intérieur, a verdade é que ao pensar sobre essa produção eu me senti “compelida” a escrever bastante sobre o filme. Mas prometo tentar ser mais direta, objetiva e “sucinta” a partir da próxima crítica, viu?

Achei esse filme um tanto sonolento demais. Não por ele ter uma narrativa fundamentada em diálogos e em pouca ação, mas porque o roteiro em si de Christine Angot e Claire Denis me pareceu um tanto “pobrinho” e cheio de obviedades. Já ouvimos boa parte daqueles diálogos algumas vezes, e se é para ver no cinema o que vemos em uma conversa comum e banal do dia a dia, nem precisamos ir no cinema, não é mesmo? Sei lá, me pareceu que faltou um pouco de “tempero” e de graça nesse filme.

Ainda que o filme tenha esses “probleminhas”, foi muito bom ver Juliette Binoche mais uma vez sendo perfeita em cena. Apesar da personagem dela ser bastante linear e pouco diversificada, a atriz está muito bem e consegue nos convencer sobre a sua personagem o tempo inteiro. Gosto da atriz, e foi bom revê-la na telona. Também foi interessante “reencontrar” Gérard Depardieu depois de uma longa temporada sem ver nada do ator. Pena que ele aparece quase em uma ponta bem na reta final do filme e em um papel um tanto “bobo”.

Do elenco, além de Juliette Binoche, destaco o belo trabalho de Nicolas Duvauchelle como o ator que fascina a protagonista e Xavier Beauvois como o machista clássico Vincent. Além deles, vale citar o bom trabalho de Philippe Katerine como Mathieu, o sujeito que gosta de Isabelle e vive a convidando para eles passarem um tempo juntos; e Alex Descas como Marc, o affair mais recente de Isabelle.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale citar a trilha sonora de Stuart A. Staples; a direção de fotografia de Agnès Godard; a edição de Guy Lecorne e o design de produção de Arnaud de Moleron.

Un Beau Soleil Intérieur estreou no Directors Fortnight do Festival de Cinema de Cannes no dia 18 de maio de 2017. Depois, a produção passou por outros 34 festivais em diversos países do mundo. Nessa trajetória, o filme ganhou dois prêmios e foi indicado a outros cinco. Os prêmios que ele recebeu foram o SACD Prize para Claire Denis no Festival de Cinema de Cannes e o de Melhor Filme que não foi lançado em 2017 no International Cinephile Society Awards.

A diretora francesa Claire Denis é uma veterana. Ela tem 29 filmes, curtas e séries de TV no currículo como diretora e nove prêmios. Os filmes mais premiados dela são Beau Travail, de 1999, e 35 Rhums, de 2008. Procurando sobre ela aqui no blog, não encontrei nenhum filme da diretora que eu tenha assistido antes. Então não posso comparar essa produção com outras feitas por ela. Mas se alguém acompanha a sua carreira, agradeço se puder contextualizar esse filme em relação aos demais.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 54 críticas positivas e cinco negativas para Un Beau Soleil Intérieur – o que garante para o filme uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,4. O site Metacritic registra um metascore de 78, com 16 críticas positivas e duas medianas.

Un Beau Soleil Intérieur é uma coprodução da França e da Bélgica.

CONCLUSÃO: Um filme com muitos, muitos diálogos. E uma busca incessante – e um pouco angustiante – de uma mulher de meia idade pelo amor que lhe “preencha”. Uma crônica de uma vida comum, mas pouco explorada pelo cinema. Durante a exibição de Un Beau Soleil Intérieur, o filme parece um tanto longo e/ou cansativo demais. Mas, passada a experiência, o filme vai fazendo mais sentido. É interessante, valoriza uma personagem pouco vista nos cinemas, mas está longe de ser um grande filme. Vale conferir se você gosta muito da atriz, da diretora ou de produções que fogem do lugar-comum – apesar de estarem recheadas de obviedades.

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Life of Pi – As Aventuras de Pi

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Se você assistiu a Life of Pi, certamente nunca mais vai esquecer de Richard Parker. Este nome vai ficar ressoando na sua lembrança por muito tempo. A história sobre ele é grande, mas demorei para assisti-la porque estava com preguiça. Admito que não foi por acaso que deixei este filme como o último para assistir da lista dos melhores indicados para o Oscar 2013. Eu sabia que Life of Pi trazia a história de um garoto e um certo tigre. E me deu preguiça. Porque achei que seria uma daquelas histórias de amizade entre “pessoas e bichinhos selvagens”. Ledo engano. E uma grande e boa surpresa.

A HISTÓRIA: Em um belo jardim, uma girafa come algumas folhas em uma árvore. Na sequência, um desfile de belos e diferentes bichos aparecem na tela. Quando os créditos e a música terminam, Pi Patel (Irrfan Khan) começa a contar a sua história para o escritor (Rafe Spall) que vai visitá-lo por indicação de um grande amigo do pai (Adil Hussain) de Pi, Mamaji (Elie Alouf). Ele conta que nasceu em Pondicherry, uma parte francesa da Índia, e que foi criado em um zoológico mantido por sua família. Procurando uma boa história para contar, o escritor comenta que Mamaji disse que Pi poderia lhe inspirar com o que havia acontecido em sua vida, e que comprovaria que Deus existe. Mergulhamos nesta história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Life of Pi): O início deste filme me fez acreditar, por alguns minutos, que a minha resistência à ele poderia ser justificada. Por uns 200 segundos, assistimos a um desfile de diferentes animais na telona. Enquanto eles iam se sucedendo, apesar das belas imagens, eu pensava: “será mesmo que teremos um filme gracinha sobre bichos?”. Ainda bem que não.

Logo entra em cena o fantástico personagem de Pi Patel, interpretado, quando adulto, pelo carismático Irrfan Khan. A escolha do ator foi perfeita. Ele passa legitimidade como contador de história. E mesmo que apareça muito menos que o jovem Suraj Sharma, que vive Pi na juventude, Khan é fundamental para esta história. Ele nos fascina como narrador da mesma forma com que impressiona ao escritor estrangeiro interpretado por Rafe Spall.

Aliás, não sei quanto o roteiro de David Magee é fiel ao livro de Yann Martel. Mas posso dizer que é uma grande sacada da história o personagem do escritor gringo. Porque ele, no fundo, somos todos nós, “ignorantes” na cultura e nas peculiaridades dos indianos. Olhamos para aquela realidade, a exemplo de Slumdog Millionaire, com admiração e fascínio. Afinal, é uma cultura muito diferente da nossa e, ao mesmo tempo, ela guarda certas semelhanças com a diversidade e os contrastes do Brasil.

Enquanto o grande Slumdog explora mais a música, o ritmo acelerado da narrativa e os contrastes da Índia, Life of Pi mergulha mais na tradição e nos costumes daquele “sempre exótico país”. Então a minha primeira impressão positiva foi a escolha acertada dos atores e da “posição” dos personagens: o escritor gringo, que representa o espectador que vê tudo aquilo com surpresa, e o personagem principal, com uma história engraçada, curiosa e fascinante.

O segundo ponto que me fascinou na história foi a sua ideia de diálogo religioso. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não demora muito para Pi nos ensinar que todas as religiões são válidas porque todas, a sua maneira, tratam de devoção, respeito a uma (ou mais de uma) divindade(s) e de amor. Mas ao invés de igualar todas as religiões, o protagonista deste filme mostra as diferenças entre elas, e como cada uma pode tornar o homem melhor de uma maneira diferente. Assim, Pi segue o hinduísmo, como qualquer indiano, encarando os seus diversos deuses como super-heróis; fica fascinado com o cristianismo, admirando a história de doação de Jesus; e também conhece Deus através do islamismo, quando percebe como a religião pode ser sentida fisicamente e dar paz de espírito. Nas palavras de Pi, ele conheceu a fé pelo hinduísmo, o amor de Deus pelo cristianismo e a serenidade e a irmandade pelo islamismo.

Belo exemplo. De como a curiosidade pacífica pode levar uma pessoa a conhecer o melhor das diferentes religiões e, desta forma, entender melhor os seus irmãos. O curioso é que, em casa, Pi tinha um pai ateu e uma mãe que não era muito religiosa, mas apegada ao hinduísmo como um último elo de ligação com as suas origens. Com isso, nosso personagem mostrava caráter e independência na forma de pensar. Algo que lhe acompanharia para o resto da vida. Essa reflexão, jogada tão cedo na telona, me fascinou. E para fechar, Pi ensina que há muitas dúvidas para quem acredita, mas que isso é importante quando a fé é vista como algo algo vivo. E aí vem outro ponto interessante da história.

Pi aprende, com Mamaji, que o medo paralisante ou desesperador poderiam ser os seus principais inimigos. Assim, ele não aprende apenas a lidar com a água, mas também a ter um grande fascínio pelos animais. Especialmente por Richard Parker, um tigre de bengala que faz parte do zoológico da família. Ele respeita o tigre e tem uma grande admiração por ele. Mas aprende, com o pai, que deve temê-lo, e encará-lo como um animal cruel. Qualquer ligação afetiva que Pi possa acreditar que existe, ao olhar no olho do tigre, ensina Santosh Patel, deve ser vista pelo filho como um reflexo de suas próprias expectativas.

Esta é uma forma de olhar para um tigre e para a Natureza. Mas há outras. E grande parte de Life of Pi vai tratar desta segunda maneira de encarar a Natureza. Ela é fascinante, e podemos aprender muito com as características de cada animal. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Assim, quando Pi está sozinho com quatro tipos de bichos em um bote após o naufrágio do navio que está levando ele e a família para o Canadá, ele observa as características essenciais de cada um deles. Aprende a entendê-los, respeitá-los e temê-los. Mas depois, quando fica sozinho com Richard Parker, percebe o quanto o “diálogo” entre eles é o que garantirá a sua própria sobrevivência.

Até perto do final, fiquei apenas fascinada com as belas imagens conquistadas pelo excelente diretor Ang Lee e pelo excepcional trabalho do diretor de fotografia chileno Claudio Miranda. Life of Pi é de encher os olhos. O visual é fantástico, e a trilha sonora de Mychael Danna ajuda a embalar a história e torná-la ainda mais emotiva e dinâmica. O aprendizado de Pi com Richard Parker e vice-versa é pura fantasia e, para pessoas que não se importam com histórias assim, um verdadeiro deleite.

Mas aí que o filme nos dá uma rasteira e revela, perto do fim, toda a sua grandiosidade. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a esta produção). Afinal, ser apenas uma história difícil de acreditar, mas fascinante, da sobrevivência de um jovem de um naufrágio junto a um tigre, não tornaria Life of Pi grande. Seria, apenas, interessante, bem feito, bonito. Mas quando descobrimos, como o escritor que escuta este conto, que esta história é uma grande parábola para o protagonista lidar com a própria dor e com aquela situação traumatizante, percebemos o quanto Yann Martel realmente escreveu uma grande história. Ao pensar em tudo que acontece após o naufrágio com pessoas específicas no lugar dos animais, Life of Pi ganha outra dimensão.

As pessoas são, muitas vezes, muito mais cruéis que qualquer “animal selvagem”. Somos capazes das maiores brutalidades, das ações mais inacreditáveis – para o bem e para o mal. Life of Pi trata um pouco sobre isso. Nos aproxima das nossas origens, animais, mas revela, também, como podemos superar estas origens para darmos exemplos de grandeza. De valentia, coragem, generosidade e amor. Os japoneses, que sabem como poucos lidar de forma lírica com a dor e a perda, conhecem bem a força de uma parábola. De uma história fantástica para tratar de sentimentos importantes. Não por acaso, são japoneses que escutam Pi e fazem um relatório final que ajuda a consolidar a sua história.

Bem pensado, e muito relevante, a pergunta que Pi faz para o escritor – que somos nós – no final. Qual história nós preferimos, levando em conta que nenhuma delas explica o naufrágio e nem elimina a dor e as perdas que ele sofreu? Fica a critério de cada espectador fazer a sua escolha. Mas evidente que esta é uma alegoria, uma forma poética de encarar uma realidade que foi muito mais cruel. Belo ensinamento, em todos os sentidos. Muito bem administrado desde o princípio, este filme ganha uma outra dimensão no final. Para a nossa sorte.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Life of Pi é um filme lindo. Muito bem acabado, visualmente. Para isso acontecer, pelos ambientes em que a produção se passa, é fundamental não apenas o ótimo trabalho do diretor Ang Lee e do diretor de fotografia Claudio Miranda, mas também o trabalho competente de David Gropman no design de produção; a direção de arte de Al Hobbs, Ravi Srivastava, James F. Truesdale e Dan Webster; o departamento de arte comandado por Wylie Griffin; os efeitos especiais da equipe de Zong-Se Wei e Shang-Mong Wu; e, principalmente, pelos efeitos visuais da equipe que parece não ter fim (vide a lista gigante no site IMDb) coordenada por Oscar Velasquez e que teve a liderança de Manasi Ashish, Ronn Brown, John Kent Jr. e Masahito Yoshioka. Todo este coletivo é responsável pelo apelo visual da produção. E, sem dúvida, grande parte da verba do filme foi gasta com os efeitos visuais.

Outro nome importante para Life of Pi funcionar é o do editor Tim Squyres. Ele teve trabalho, com Life of Pi. Para que tudo esteja no lugar certo, em um filme que consegue ter bastante ritmo, apesar de grande parte dele se passar ao redor de um barco salva-vidas à deriva no mar.

Do elenco, merecem um aplauso especial a dupla que encarna o protagonista. Tanto Suraj Sharma quanto Irrfan Khan dão um show. Ambos são carismáticos e ambos dominam a cena de forma impressionante. Convencem, e com naturalidade.

Além deles, que roubam a cena, e dos atores já listados, vale citar a atriz Tabu como Gita Patel, a mãe tranquila e amorosa de Pi; Gautam Belur como o garoto Pi aos cinco anos de idade; Ayush Tandon como Pi quando ele tinha 11 e 12 anos – aliás, este garoto rouba a cena quando aparece; Ayan Khan em uma ponta como o irmão de Pi, Ravi Patel, quando ele tinha sete anos de idade; Mohd Abbas Khaleeli como Ravi dos 13 para os 14 anos, também como ponta; Vibish Sivakumar como Ravi entre os 18 e os 19 anos; Gérard Depardieu em uma superponta como o cozinheiro grosseiro do navio que leva a família Patel; James Saito e Jun Naito como a dupla de investigadores japoneses que procura saber como o navio naufragou; Andrea Di Stefano como o padre que ensina sobre Cristo para Pi; e Shravanthi Sainath como a primeira paixão de Pi, a jovem indiana aluna de dança Anandi.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: até um certo ponto, M. Night Shyamalan tinha sido cotado para dirigir e escrever o roteiro deste filme. Sem dúvida, teríamos sido apresentados a uma forma muito diferente de narrar a história se isso tivesse acontecido.

De fato existe uma Piscine Molitor na França. Segundo esta história, o protagonista recebeu o nome de Piscine Molitor Patel por causa de uma piscina francesa. A piscina existe perto do Parque Bois de Boulogne, entre o estádio de Roland Garros e o Parc des Princes. Em 1990 ela foi considerada um patrimônio histórico, após ter caído em desuso e ter sido fechada em 1989.

Só depois de assistir a Life of Pi é que fiquei sabendo sobre a “polêmica” (bem entre aspas mesmo) envolvendo a obra de Yann Martel e o livro de Moacyr Scliar. Sou franca em dizer que não li a nenhuma das duas obras. Mas pelo que eu entendi, o livro de Scliar conta a história de um garoto que cruza o Oceano Atlântico em um bote junto com um jaguar. Quem assistiu a Life of Pi – e imagino que o filme seja bem fiel à obra de Martel – sabe que o “espírito” da obra deste autor é muito diferente do conceito de Scliar. Não vejo, de fato, um plágio aí. Mas admito que só poderei opinar com toda a propriedade recomendada após ler aos dois livros.

Em nenhum momento o ator Suraj Sharma contracenou com um tigre de verdade no barco. Apenas algumas cenas em que o animal nada na água, durante a história, foram feitas com um tigre de verdade. Para ser mais precisa, 86% das cenas em que o tigre aparece, ele não passa de efeitos especiais. Em apenas 23 cenas, ou 14% do tempo em que o animal aparece, se trata de um tigre de bengala real.

O estreante Suraj Sharma não tinha feito planos para estrelar este filme. Na verdade, ele foi descoberto ao acompanhar o irmão para uma audição. Sem pretender, ele superou 3 mil candidatos para o papel. E se saiu muito, muito bem.

Life of Pi custou impressionantes US$ 120 milhões. Mas ao assistir ao filme, entendemos como este dinheiro foi gasto. Principalmente com efeitos especiais e visuais. A parte técnica, sem dúvida, consumiu grande parte dos recursos, especialmente porque esta é uma produção sem atores muito conhecidos.

Até o dia 17 de fevereiro, Life of Pi tinha arrecadado quase US$ 111,4 milhões apenas nos Estados Unidos. Juntando a bilheteria no resto do mundo, certamente ele não dará prejuízo.

Esta produção estreou em setembro no Festival de Cinema de Nova York. Depois, ele passaria por outros três festivais, nenhum de grande peso. Até o momento, Life of Pi ganhou 26 prêmios e foi indicado a outros 56, além de ter recebido 11 indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Filme do Ano na AFI Awards; Melhor Direção de Fotografia e Melhores Efeitos Visuais no BAFTA Awards; Melhor Roteiro Adaptado no Satellite Awards; e Melhor Trilha Sonora Original no Globo de Ouro.

Para quem gosta de saber o local em que os filmes foram rodados, Life of Pi foi filmado em Taiwan, na Índia e no Canadá. Sem dúvida estas locações também ajudaram a elevar o custo da produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta a média do site. Os críticos que tem o seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 190 textos positivos e 25 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média 8.

Life of Pi é uma produção dos Estados Unidos e de Taiwan.

Há tempos eu não tinha dificuldade em escolher o cartaz do filme que eu estava comentando aqui no blog. Mas com Life of Pi, fiquei muito na dúvida… os três cartazes que eu escolhi eram muito bonitos. Mas acabei decidindo por este, possivelmente o mais clássico deles.

CONCLUSÃO: Nada como ser surpreendida positivamente, não é mesmo? Eu não gosto de filmes que forçam a barra para tornar a relação entre animais e pessoas ultra sentimentais. Afinal, nossas relações com os bichos são suficientemente passionais. Não preciso de histórias que levem esta relação ao extremo. Para minha surpresa, Life of Pi não chega nem perto desta vertente de filme. Eis aqui uma história interessante e diferenciada, rara no cinema atual. Um filme que fala como as parábolas fazem sentido. Como é belo pensar em uma forma diferente de encarar a dor, e de enfrentar situações que não deveriam ter acontecido. A perda e a dor podem ser embaladas de uma forma diferente para conseguirem ser levadas adiante. Lindo visualmente, Life of Pi é ainda mais bonito na mensagem. Vença o seu preconceito, como eu venci o meu, para surpreender-se também. Sem dúvida, um dos grandes filmes desta safra recente que chegou até o Oscar.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Life of Pi foi um dos filmes que mais recebeu indicações no Oscar deste ano. Foram 11, no total, a maioria em categorias técnicas. O que é justo, evidentemente, porque esta é uma produção bem acabada, com uma produção impecável e que segue a linha da fantasia, do surreal.

Entre as indicações em categorias técnicas, estão as de Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção Original, Melhor Design de Produção, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som e Melhores Efeitos Visuais.

Não assisti a todos os concorrentes destas categorias, mas posso dizer que Life of Pi tem ótimas chances de ganhar as estatuetas de Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora, Melhor Design de Produção e Melhores Efeitos Visuais. Em Melhor Edição de Som, ele tem fortes concorrentes, como 007 Skyfall, que não assisti, mas que sei que tem um trabalho ótimo em edição de som e, principalmente, Zero Dark Thirty. Igualmente, podem vencer Argo ou, até mesmo, correndo por fora, Django Unchained. Categoria bem equilibrada e difícil de acertar. Meu voto estaria entre Life of PI e Zero Dark Thirty. E em Melhor Mixagem de Som a disputa é boa também. Acho que os grandes concorrentes voltam a ser 007 Skyfall, Argo e Les Misérables. Meu voto estaria entre Les Misérables e Life of Pi.

Além das categorias técnicas, Life of Pi está concorrendo em três categorias principais: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado. Em todas estas categorias a disputa é acirrada, com grandes produções concorrendo a cada estatueta. E com alguns favoritos já anunciados pelos prêmios que antecedem ao Oscar.

Os grandes concorrentes de Life of Pi em Melhor Roteiro Adaptado são Argo e Lincoln. Como Melhor Diretor, a queda de braço está forte, com algumas surpresas nas indicações, como o novato Benh Zeitlin, de Beasts of the Southern Wild, e veteranos que há tempos estão cotados para receber uma nova estatueta, como Steven Spielberg e Michael Haneke. Francamente, acho que Ang Lee tem poucas chances, e que a Academia deve reconhecer Spielberg. Mas surpresas podem acontecer.

Analisando o trabalho de diretor, deixando para lá a verve de roteirista, meu voto iria para Ang Lee, Benh Zeitlin ou Michael Haneke. Finalmente, a categoria de Melhor Filme… tudo indica que Life of Pi não terá chances frente a Argo e Lincoln. No fim das contas, o filme de Ang Lee deve levar algumas estatuetas em categorias técnicas. Tem potencial para umas quatro ou cinco estatuetas. Seria merecido.