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The Big Short – A Grande Aposta

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Existe uma regra quase infalível no mercado: sempre que alguém perde, há outro alguém que ganha. The Big Short conta a história de homens que lucraram, e muito, com a quebradeira causada por bancos mal-intencionados e agências de risco comprometidas em 2008. Mas mais que contar a história deles, este filme reflete sobre a ignorância forçada em que boa parte da sociedade vive. Como é citado no filme, a verdade é como a poesia, e poucas pessoas gostam de poesia. Equilibrando comédia com drama, este filme é uma crítica ácida para o que há de pior no capitalismo.

A HISTÓRIA: Começa nos dizendo que o filme é baseado em fatos reais. Em seguida, surge uma citação de Mark Twain que diz que não é o que sabemos agora que nos coloca em apuros, mas sim aquilo que nós achamos que temos certeza. De fundo, a imagem de uma criança brincando com o seu pai. Corta. A história começa no final dos anos 1970, com o narrador nos dizendo que naquela época ninguém procurava um banco para ganhar dinheiro. Os bancos, ele conta, eram cheios de perdedores, vendedores de seguro ou contadores.

Naquele cenário, a venda de títulos não interessava para ninguém. Uma regra do mercado até então que foi alterada por Lewis Renieri (Rudy Eisenzopf), o homem que criou os títulos garantidos em hipotecas. Esses recursos mudariam os Estados Unidos, até que eles deixassem de ser tão seguros. Esta história é sobre como a crise de 2008 aconteceu e sobre as pessoas que viram o problema se formar e apostaram contra ele a tempo de ganhar dinheiro com isso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Big Short): A primeira impressão errada sobre este filme é a de que ele seria uma comédia. Impressão essa dada pela indicação de The Big Short ao Globo de Ouro 2016 nesta categoria. Claro que esta produção tem humor, mas não é aquele clássico, engraçado. É um humor ácido, crítico, irônico, quase azedo pelo tema que o filme trata.

A segunda impressão errada sobre este filme pode ser dada pelo cartaz dele, com algumas das estrelas que fazem parte do elenco. The Big Short é muito mais complexo do que o cartaz poderia dar a entender. O roteiro vai fundo nos bastidores que levaram à quebradeira dos bancos em 2008 e que, por consequência, criou uma crise financeira global. Muitos dos conceitos tratados na produção são complexos para qualquer mortal que não seja economista ou que não esteja mergulhado no sistema bancário ou na bolsa de valores.

Então esqueça que este filme é fácil. Não é. Em todos os sentidos. O diretor Adam McKay utiliza diversas estratégias para contar essa história. Da introdução em uma época, para apresentar uma ideia, passando depois mais de 20 anos no tempo para nos contar como aquele embrião criado por Lewis Ranieri cresceu e virou um monstro, até a mescla de narrativa do “tempo presente” com a inserção de fotos, notícias e videoclipes para contar a passagem do tempo e os elementos culturais que fizeram parte da sociedade retratada no período. Além disso, há aquele velho recurso de alguns atores falando diretamente para a câmera (ou seja, com o espectador).

No meio de tudo isso, algumas vezes quase esquecemos que este filme tem um narrador: Jared Vennett (Ryan Gosling), bancário do Deutsche Bank. Esse esquecimento é explicável porque a produção é rápida no ritmo e na mudança do estilo de narração. Uma das maiores qualidades do filme, além da direção rápida e criativa de McKay é, sem dúvida, o roteiro complexo e cheio de tempero que McKay escreveu junto com Charles Randolph e que é inspirado no livro The Big Short (que recebeu o título de A Jogada do Século no Brasil) de Michael Lewis.

The Big Short pega o assunto complexo do colapso econômico de 2008 e nos mostra como chegamos ali. O bacana é que depois que Jared Vennett explica a realidade sobre o mercado imobiliário dos Estados Unidos, com toda a corrupção e ganância dos bancos contaminando também as agências de risco, ou seja, todo o sistema, para o investidor Mark Baum (Steve Carrell) e equipe, nos colocamos exatamente no lugar daquele grupo.

Ficamos surpresos com o que Vennett explica. É difícil de acreditar que os bancos e as agências de risco chegaram naquele ponto de descontrole. E qual é o passo seguinte de Baum e seu grupo? Eles resolvem verificar in loco o que está acontecendo. Eles saem para investigar a denúncia de Vennett. Enquanto isso, há outras duas linhas narrativas complementares se desenrolando. A origem de todo esse grupo que acabou investindo contra o mercado imobiliário e ganhando muito dinheiro com isso teve a ver com o trabalho de Michael Burry (Christian Bale).

Aliás, não comentei antes, mas após aquela introdução sobre a origem dos títulos imobiliários nos anos 1970, o primeiro personagem contemporâneo e que descobriu que o mercado iria colapsar foi Michael Burry. Ele era o gestor de um fundo de investimento e analisando milhares de números e dados do mercado imobiliário, foi o primeiro a perceber que era uma questão de tempo para a bomba estourar. Por sua conta e risco Burry foi aos bancos e criou o swap de incumprimento de títulos hipotecários – ou seja, ele criou um produto que era, na essência, uma aposta de que o mercado imobiliário iria colapsar.

Como era um produto novo e ele queria ter certeza que iria receber o dinheiro quando o que ele estava prevendo acontecesse, os bancos exigiram que ele pagasse os juros sobre o capital investido mensalmente. Caso os títulos hipotecários colapsassem, ele teria garantia de receber o correspondente ao que ele tinha “apostado” (feito “short” contra o mercado). Mas se os títulos hipotecários subissem, ele teria que pagar por isso.

No início, todos acharam ele louco. Os investidores do fundo que ele administrava quiseram tirar o dinheiro, mas ele percebeu que existia uma fraude no mercado e bloqueou as retiradas. Aliás, este é um dos pontos mais interessantes de The Big Short. Mostrar como os bancos e as agências de risco fraudaram o sistema e chegaram a fazer os títulos hipotecários podres serem valorizados antes que a verdade começasse a aparecer.

Com a sua teoria Burry procurou diversos bancos, começando pelo Goldman Sachs, seguindo para o Deutsche Bank e o Bank of America para criar o “short” contra os títulos hipotecários. Todos aceitaram a sua proposta porque, como fica claro em cada lugar que ele procura, os banqueiros acharam que estavam ganhando um dinheiro fácil. No total, ele investiu US$ 1,3 bilhão em swaps de incumprimento de hipotecas.

O problema para Burry é que a previsão que ele tinha feito para o colapso do sistema não levou em conta que bancos e agências de risco estavam comprometidos até o pescoço e que, além de tudo, eles iriam mentir, fraudar e adiar a crise um pouco mais de tempo. O fundo de Burry acabou perdendo dinheiro neste período e Bale nos faz acreditar em sua angústia com aquele cenário.

Enquanto isso, o investidor Mark Baum vai verificar diretamente no mercado imobiliário como os negócios são feitos. Ele fala com corretores e com pessoas de bancos e descobre que ninguém parece saber fazer contas. Ou estão tão preocupados com os seus ganhos que não percebem que não há como aquele sistema de enganação se manter por muito tempo. Carell está ótimo com as suas expressões e caretas. Afinal, ele nos representa. Baum ficou sabendo da teoria de Burry através de Jared Vennett que, por sua vez, soube da criação das swaps de incumprimento de hipotecas conversando com colegas dos bancos em um bar.

Outra fonte de informações nesta narrativa é puxada pela dupla Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock). Eles são investidores de pequeno porte que conseguiram fazer o patrimônio multiplicar em pouco tempo investindo em títulos baratos. Depois de conseguir multiplicar o dinheiro inicial, eles querem jogar como adultos e procuram um banco para isso. Eles nem são considerados para entrar no grupo dos grandes, porque não tem dinheiro para isso, mas no lobby do banco eles descobrem um documento que propõe swaps de incumprimento de hipotecas.

Intrigados com aquele documento, eles também resolvem investigar o mercado imobiliário. Rápidos no gatilho, mas sem capital para entrar com as swaps, eles recorrem a um grande investidor que saiu do mercado, Ben Rickert (Brad Pitt). Ex-vizinho de Shipley, ele resolve ajudar os dois jovens porque, afinal, ele pode fazer isso. No fundo, todos acreditam que o sistema está falido e querem demonstrar isso – ganhando muito dinheiro com isso, se possível.

Um dos aspectos mais interessantes do filme, para mim, não foi apenas contar como tudo nos levou para aquela crise do mercado imobiliário e financeiro dos Estados Unidos e que depois contaminaria o mundo, mas especialmente a reflexão do roteiro sobre a ignorância da coletividade. Geniais as imagens que mostram os fatos que aconteceram de importante e de desimportante – como clipes musicais, artistas em alta e em baixa e tantas cenas de pessoas comuns dos Estados Unidos – enquanto aquele grupo de pessoas enxergava o caos que estava para vir.

É a velha história de que a ignorância é uma benção. Não, não é. Mas infelizmente, e isso está comprovado, a maioria das pessoas vive na ignorância. Consome notícias esparsas e não consegue entender a fundo nada de importante que está ocorrendo à sua volta, seja na sua comunidade, país ou no mundo. Todos estão preocupados demais com as suas pequenas misérias ou momentos breves de felicidade e ninguém (ou quase ninguém) consegue ver o quadro inteiro.

The Big Short é fascinante por isso. Pela reflexão que ele faz sobre a sociedade dos anos que antecederam 2008 e que continua sendo válida até agora. Quanto tempo as pessoas que você conhece perdem com futilidades, consumindo informações sem importância sobre a vida pessoal dos artistas, por exemplo? Quantas entendem as razões da atual crise no Brasil ou em outras partes do mundo? Enfim, The Big Short é um bom soco no estômago da sociedade atual.

Por esta questão, é um filme que merece a nota abaixo. Também é preciso aplaudir a narrativa de McKay. Por outro lado, acho que esta produção poderia ter simplificado um pouco a história e não ter forçado a barra, até aonde eu vejo, tentando mostrar os personagens principais como “heróis”. No final das contas eles foram apenas pessoas que quiseram ganhar dinheiro com o colapso de um mercado.

Claro, eles também queriam provar uma teoria, demonstrar que o sistema estava corrompido mas, acima de tudo, eles queriam ganhar dinheiro. No fim, eles são tão diferentes assim das pessoas que, sedentas por dinheiro, fizeram o sistema chegar naquele ponto? O filme falha um pouco ao torná-los quase heróis da história. Não os vejo assim.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Citei apenas parte do elenco de The Big Short. Christian Bale, Ryan Gosling, Brad Pitt, Steve Carell, John Magaro e Finn Wittrock lideram o elenco com os personagens centrais da trama. Mas completam o elenco estelar, ainda, os competentes Marisa Tomei (como a esposa de Mark Baum), Hamish Linklater (como Porter Collins), Jeremy Strong (como Vinnie Daniel) e Rafe Spall (como Danny Moses), esses três últimos a equipe de Mark Baum e que o acompanha quase todo o tempo na investigação sobre o mercado imobiliário e financeiro.

Há um recurso no roteiro que eu não comentei antes e que achei muito interessante como forma de reforçar a proposta dos roteiristas de que a nossa sociedade capitalista vive de aparências – ao ponto de acreditar em celebridades mais do que na própria análise, muitas vezes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Diversos conceitos complicados do filme são explicados com pausas para que algumas celebridades discorram sobre o assunto. A técnica começa com a atriz Margot Robbie, que fez cenas provocantes em The Wolf of Wall Street – por isso a alusão à banheira nesta produção; prossegue com o chef Anthony Bourdain e termina com o economista Richard Thaler e a cantora Selena Gomez. Uma das boas sacadas do filme.

Cada um dos atores principais deste filme é motivado por uma questão diferente. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Michael Burry quer, essencialmente, comprovar uma teoria. Quer comprovar como ele viu que tudo estava desmoronando enquanto mais ninguém via isso. Mark Baum, descrente do sistema, queria comprovar que os sistemas político e financeiro estavam corrompidos e que iriam sucumbir. Era um destes sujeitos de “teoria da conspiração” que acaba acertando no alvo com a ajuda de terceiros. E a dupla Charlie Geller e Jamie Shipley queria multiplicar a pequena fortuna que eles tinham feito até então. Mas independente da motivação de cada um, todos queriam ganhar dinheiro com a crise que eles perceberam sozinhos.

Falando em ganhar dinheiro, as tais swaps criadas por Burry podiam dar retornos de 20:1, ou seja, para cada US$ 1 investido, retorno de US$ 20. Geller e Shipley procuraram investir em swaps contra títulos classificados como AAA, ou seja, os que deveriam ser os mais seguros do mercado. Neste caso, eles poderiam ganhar até 200:1.

Da parte técnica do filme vale destacar, em primeiro lugar, a excelente direção de Adam McKay. Ele consegue não apenas dar ritmo para a história, mas também valorizar os diversos elementos importantes em cena. Algumas vezes ele destaca o trabalho dos atores. Em outros momentos, valoriza as cidades e o comportamento das pessoas, assim como a dinâmica de valores e as notícias que estiveram em evidência naquele período. Sem dúvida, um grande trabalho. O roteiro também merece aplausos, assim como a edição excepcional de Hank Corwin.

Como eu gosto de rock, devo dizer que adorei o estilo musical do personagem de Michael Burry. Através dele, temos uma boa parte da trilha sonora de Nicholas Britell focada em um rock vigoroso. Bacana. A trilha sonora dele não se resume a esse estilo, claro. Britell faz uma trilha bem ponderada e atenta para cada momento da produção. Um belo trabalho.

O roteiro de McKay de de Charles Randolph é um dos principais trunfos da produção. E também um de seus principais problemas em um ou dois momentos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ele acerta nos diferentes elementos narrativos que agrega na produção, assim como no tom crítico, irônico e ácido com que analisa a sociedade e o contexto da crise. Mas, francamente, achei forçadas algumas cenas de “consciência” dos personagens.

Por exemplo, coube a Brad Pitt dar um “esporro” em Geller e Shipley quando eles estavam comemorando o investimento que tinham feito. Ah, convenhamos, o personagem de Pitt havia ganho muito dinheiro com aquele mercado e agora ajudava os dois amigos a fazer o mesmo. Sério que nunca antes ele tinha pensado o quanto especuladores e pessoas que jogam com o dinheiro fazem mal para a sociedade?

O mesmo podemos falar sobre algumas das cenas com Mark Baum. Ele parece não se conformar com o desenrolar dos fatos após a quebradeira dos primeiros bancos, mas também não foge da raia em tirar lucro da situação. Se eles tivessem outra motivação que não a de encher os bolsos, porque eles não avisaram mais pessoas do que estava prestes a acontecer? As “crises” de consciência que aparecem no filme tem um propósito claro de fazer o espectador pensar, mas não me convenceram. De qualquer forma, bem perto do final, Baum estava certo ao comentar que, no fim das contas, os pobres e imigrantes iriam ser apontados como os culpados de tudo. Isso de fato aconteceu e, parece, sempre vai se repetir. Infelizmente.

The Big Short estreou no Festival da AFI em novembro de 2015. No mês seguinte o filme participou do Festival Internacional de Cinema de Dubai. Até o momento a produção acumula 13 prêmios e foi indicada a outros 73. Entre os que recebeu, destaque para seis prêmios dados por círculos de críticos de cinema como Melhor Roteiro Adaptado.

Apesar de ter um elenco estrelado, esta produção custou relativamente pouco: US$ 28 milhões. Apenas nos cinemas dos Estados Unidos a produção fez pouco mais de US$ 44,6 milhões até ontem, dia 13 de janeiro. Nos outros países em que o filme já estreou ele fez outros US$ 10 milhões. Provavelmente ele vai conseguir se pagar.

The Big Short foi rodado, essencialmente, nos Estados Unidos, em cidades como New Orleans, Las Vegas e Malibu. Mas as cenas externas do pub inglês que aparece no filme foram rodadas no The Black Horse, pub tradicional da cidade inglesa de Fulmer.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Os personagens do filme são baseados em pessoas reais. Por exemplo: Mark Baum é inspirado no gerente de investimentos Steve Eisman; Jared Vennett é inspirado no negociador Greg Lippmann; Ben Rickert é baseado em Ben Hockett; e Charlie Geller e Jamie Shipley são baseados em Charlie Ledley e Jamie Mai.

Este é o primeiro filme em que Ryan Gosling aparece desde que ele decidiu dar uma “pausa” na carreira em 2013.

The Big Short é o segundo filme baseado em um livro de Michael Lewis em que Brad Pitt investe como produtor e no qual ele também atua. O filme anterior foi Moneyball (comentado aqui).

Não sei vocês, mas para mim foi impossível assistir a The Big Short e não lembrar de The Woll of Wall Street. Além dos dois filmes tratarem das loucuras do mercado financeiro e de seus especuladores, ambos tem em comum um tom crítico, ácido e um roteiro cheio de palavrões. Ainda que, evidentemente, The Wolf of Wall Street (comentado aqui) ganhe na loucura e na interpretação de catarse e digna de aplausos de Leonardo DiCaprio.

Agora, uma pequena curiosidade sobre a participação especial de algumas celebridades nesta produção. Inicialmente, no lugar de Margot Robbie, estava planejada a participação de Scarlett Johansson; e no lugar de Selena Gomez estava prevista Beyonce e Jay Z – inclusive com ele tirando sarro da questão da aposta, item de uma de suas canções de sucesso.

Entre os atores, vejo que todos se saíram bem. Mas lideram como destaques Christian Bale, Ryan Gosling e Steve Carell. Para mim, nesta ordem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção. Uma avaliação muito boa levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 170 críticas positivas e 24 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média de 7,9. Sem dúvida alguma um desempenho abaixo de diversos outros concorrentes desta produção no Oscar.

CONCLUSÃO: Um filme complexo em um certo nível mas simples de entender em outro. A complexidade está em absorver conceitos complicados como subprime, swap e CDO (obrigações de dívida colateralizada). Nestes momentos o filme entra em exemplos cômicos para “mastigar” os temas complexos. Por outro lado, The Big Short vai direto na veia e não tem papas na língua para chamar de fraude e de especulação todo o movimento que nos levou à quebradeira de 2008.

Com um roteiro bem construído, especialmente ao resumir parte da ganância das sociedades “desenvolvidas” como a dos Estados Unidos, este filme conta também com um elenco de estrelas. Sarcástico na medida certa, ele também faz pensar. Funciona, ainda que tenha algumas pequenas ressalvas no caminho.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Hoje saiu a lista dos indicados ao prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. The Big Short está concorrendo em cinco categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Edição e Melhor Roteiro Adaptado.

Foram justas todas as indicações, sem dúvida. Mas não vejo o filme tendo muitas chances na maioria destas categorias. Talvez ele possa concorrer com maior vigor em Melhor Ator Coadjuvante. Ainda assim, ele teria que ganhar do mais novo-velho queridinho dos críticos, Sylvester Stallone em Creed. Claro que eu sempre vou achar Christian Bale mais ator que Stallone – estou falando aqui de interpretação, não de ícone do cinema de ação -, mas é fato que temos um grande “risco” da Academia querer dar uma estatueta para Stallone enquanto há tempo.

A edição deste filme é fantástica, mas ele tem, pela frente, Mad Max: Fury Road e The Revenant para vencer. Parada dura. Mas The Big Short tem alguma chance aqui. Honestamente, se eu pudesse, votaria por ele. Não vejo o mesmo em Melhor Diretor (o favoritismo é de Iñarritu, seguido de George Miller e Tom McCarthy) ou Melhor Filme (claramente tendo The Revenant e Spotlight correndo na frente).

Finalmente, em Melhor Roteiro Adaptado, acho que The Big Short tem alguma chance, ainda que me parece levar uma certa vantagem nesta categoria os roteiros de Room e Carol. Para resumir, não seria uma total zebra The Big Short sair de mãos abanando do Oscar. Se isso não acontecer, ele poderá levar uma ou duas estatuetas para casa, apenas.

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Life of Pi – As Aventuras de Pi

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Se você assistiu a Life of Pi, certamente nunca mais vai esquecer de Richard Parker. Este nome vai ficar ressoando na sua lembrança por muito tempo. A história sobre ele é grande, mas demorei para assisti-la porque estava com preguiça. Admito que não foi por acaso que deixei este filme como o último para assistir da lista dos melhores indicados para o Oscar 2013. Eu sabia que Life of Pi trazia a história de um garoto e um certo tigre. E me deu preguiça. Porque achei que seria uma daquelas histórias de amizade entre “pessoas e bichinhos selvagens”. Ledo engano. E uma grande e boa surpresa.

A HISTÓRIA: Em um belo jardim, uma girafa come algumas folhas em uma árvore. Na sequência, um desfile de belos e diferentes bichos aparecem na tela. Quando os créditos e a música terminam, Pi Patel (Irrfan Khan) começa a contar a sua história para o escritor (Rafe Spall) que vai visitá-lo por indicação de um grande amigo do pai (Adil Hussain) de Pi, Mamaji (Elie Alouf). Ele conta que nasceu em Pondicherry, uma parte francesa da Índia, e que foi criado em um zoológico mantido por sua família. Procurando uma boa história para contar, o escritor comenta que Mamaji disse que Pi poderia lhe inspirar com o que havia acontecido em sua vida, e que comprovaria que Deus existe. Mergulhamos nesta história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Life of Pi): O início deste filme me fez acreditar, por alguns minutos, que a minha resistência à ele poderia ser justificada. Por uns 200 segundos, assistimos a um desfile de diferentes animais na telona. Enquanto eles iam se sucedendo, apesar das belas imagens, eu pensava: “será mesmo que teremos um filme gracinha sobre bichos?”. Ainda bem que não.

Logo entra em cena o fantástico personagem de Pi Patel, interpretado, quando adulto, pelo carismático Irrfan Khan. A escolha do ator foi perfeita. Ele passa legitimidade como contador de história. E mesmo que apareça muito menos que o jovem Suraj Sharma, que vive Pi na juventude, Khan é fundamental para esta história. Ele nos fascina como narrador da mesma forma com que impressiona ao escritor estrangeiro interpretado por Rafe Spall.

Aliás, não sei quanto o roteiro de David Magee é fiel ao livro de Yann Martel. Mas posso dizer que é uma grande sacada da história o personagem do escritor gringo. Porque ele, no fundo, somos todos nós, “ignorantes” na cultura e nas peculiaridades dos indianos. Olhamos para aquela realidade, a exemplo de Slumdog Millionaire, com admiração e fascínio. Afinal, é uma cultura muito diferente da nossa e, ao mesmo tempo, ela guarda certas semelhanças com a diversidade e os contrastes do Brasil.

Enquanto o grande Slumdog explora mais a música, o ritmo acelerado da narrativa e os contrastes da Índia, Life of Pi mergulha mais na tradição e nos costumes daquele “sempre exótico país”. Então a minha primeira impressão positiva foi a escolha acertada dos atores e da “posição” dos personagens: o escritor gringo, que representa o espectador que vê tudo aquilo com surpresa, e o personagem principal, com uma história engraçada, curiosa e fascinante.

O segundo ponto que me fascinou na história foi a sua ideia de diálogo religioso. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não demora muito para Pi nos ensinar que todas as religiões são válidas porque todas, a sua maneira, tratam de devoção, respeito a uma (ou mais de uma) divindade(s) e de amor. Mas ao invés de igualar todas as religiões, o protagonista deste filme mostra as diferenças entre elas, e como cada uma pode tornar o homem melhor de uma maneira diferente. Assim, Pi segue o hinduísmo, como qualquer indiano, encarando os seus diversos deuses como super-heróis; fica fascinado com o cristianismo, admirando a história de doação de Jesus; e também conhece Deus através do islamismo, quando percebe como a religião pode ser sentida fisicamente e dar paz de espírito. Nas palavras de Pi, ele conheceu a fé pelo hinduísmo, o amor de Deus pelo cristianismo e a serenidade e a irmandade pelo islamismo.

Belo exemplo. De como a curiosidade pacífica pode levar uma pessoa a conhecer o melhor das diferentes religiões e, desta forma, entender melhor os seus irmãos. O curioso é que, em casa, Pi tinha um pai ateu e uma mãe que não era muito religiosa, mas apegada ao hinduísmo como um último elo de ligação com as suas origens. Com isso, nosso personagem mostrava caráter e independência na forma de pensar. Algo que lhe acompanharia para o resto da vida. Essa reflexão, jogada tão cedo na telona, me fascinou. E para fechar, Pi ensina que há muitas dúvidas para quem acredita, mas que isso é importante quando a fé é vista como algo algo vivo. E aí vem outro ponto interessante da história.

Pi aprende, com Mamaji, que o medo paralisante ou desesperador poderiam ser os seus principais inimigos. Assim, ele não aprende apenas a lidar com a água, mas também a ter um grande fascínio pelos animais. Especialmente por Richard Parker, um tigre de bengala que faz parte do zoológico da família. Ele respeita o tigre e tem uma grande admiração por ele. Mas aprende, com o pai, que deve temê-lo, e encará-lo como um animal cruel. Qualquer ligação afetiva que Pi possa acreditar que existe, ao olhar no olho do tigre, ensina Santosh Patel, deve ser vista pelo filho como um reflexo de suas próprias expectativas.

Esta é uma forma de olhar para um tigre e para a Natureza. Mas há outras. E grande parte de Life of Pi vai tratar desta segunda maneira de encarar a Natureza. Ela é fascinante, e podemos aprender muito com as características de cada animal. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Assim, quando Pi está sozinho com quatro tipos de bichos em um bote após o naufrágio do navio que está levando ele e a família para o Canadá, ele observa as características essenciais de cada um deles. Aprende a entendê-los, respeitá-los e temê-los. Mas depois, quando fica sozinho com Richard Parker, percebe o quanto o “diálogo” entre eles é o que garantirá a sua própria sobrevivência.

Até perto do final, fiquei apenas fascinada com as belas imagens conquistadas pelo excelente diretor Ang Lee e pelo excepcional trabalho do diretor de fotografia chileno Claudio Miranda. Life of Pi é de encher os olhos. O visual é fantástico, e a trilha sonora de Mychael Danna ajuda a embalar a história e torná-la ainda mais emotiva e dinâmica. O aprendizado de Pi com Richard Parker e vice-versa é pura fantasia e, para pessoas que não se importam com histórias assim, um verdadeiro deleite.

Mas aí que o filme nos dá uma rasteira e revela, perto do fim, toda a sua grandiosidade. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a esta produção). Afinal, ser apenas uma história difícil de acreditar, mas fascinante, da sobrevivência de um jovem de um naufrágio junto a um tigre, não tornaria Life of Pi grande. Seria, apenas, interessante, bem feito, bonito. Mas quando descobrimos, como o escritor que escuta este conto, que esta história é uma grande parábola para o protagonista lidar com a própria dor e com aquela situação traumatizante, percebemos o quanto Yann Martel realmente escreveu uma grande história. Ao pensar em tudo que acontece após o naufrágio com pessoas específicas no lugar dos animais, Life of Pi ganha outra dimensão.

As pessoas são, muitas vezes, muito mais cruéis que qualquer “animal selvagem”. Somos capazes das maiores brutalidades, das ações mais inacreditáveis – para o bem e para o mal. Life of Pi trata um pouco sobre isso. Nos aproxima das nossas origens, animais, mas revela, também, como podemos superar estas origens para darmos exemplos de grandeza. De valentia, coragem, generosidade e amor. Os japoneses, que sabem como poucos lidar de forma lírica com a dor e a perda, conhecem bem a força de uma parábola. De uma história fantástica para tratar de sentimentos importantes. Não por acaso, são japoneses que escutam Pi e fazem um relatório final que ajuda a consolidar a sua história.

Bem pensado, e muito relevante, a pergunta que Pi faz para o escritor – que somos nós – no final. Qual história nós preferimos, levando em conta que nenhuma delas explica o naufrágio e nem elimina a dor e as perdas que ele sofreu? Fica a critério de cada espectador fazer a sua escolha. Mas evidente que esta é uma alegoria, uma forma poética de encarar uma realidade que foi muito mais cruel. Belo ensinamento, em todos os sentidos. Muito bem administrado desde o princípio, este filme ganha uma outra dimensão no final. Para a nossa sorte.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Life of Pi é um filme lindo. Muito bem acabado, visualmente. Para isso acontecer, pelos ambientes em que a produção se passa, é fundamental não apenas o ótimo trabalho do diretor Ang Lee e do diretor de fotografia Claudio Miranda, mas também o trabalho competente de David Gropman no design de produção; a direção de arte de Al Hobbs, Ravi Srivastava, James F. Truesdale e Dan Webster; o departamento de arte comandado por Wylie Griffin; os efeitos especiais da equipe de Zong-Se Wei e Shang-Mong Wu; e, principalmente, pelos efeitos visuais da equipe que parece não ter fim (vide a lista gigante no site IMDb) coordenada por Oscar Velasquez e que teve a liderança de Manasi Ashish, Ronn Brown, John Kent Jr. e Masahito Yoshioka. Todo este coletivo é responsável pelo apelo visual da produção. E, sem dúvida, grande parte da verba do filme foi gasta com os efeitos visuais.

Outro nome importante para Life of Pi funcionar é o do editor Tim Squyres. Ele teve trabalho, com Life of Pi. Para que tudo esteja no lugar certo, em um filme que consegue ter bastante ritmo, apesar de grande parte dele se passar ao redor de um barco salva-vidas à deriva no mar.

Do elenco, merecem um aplauso especial a dupla que encarna o protagonista. Tanto Suraj Sharma quanto Irrfan Khan dão um show. Ambos são carismáticos e ambos dominam a cena de forma impressionante. Convencem, e com naturalidade.

Além deles, que roubam a cena, e dos atores já listados, vale citar a atriz Tabu como Gita Patel, a mãe tranquila e amorosa de Pi; Gautam Belur como o garoto Pi aos cinco anos de idade; Ayush Tandon como Pi quando ele tinha 11 e 12 anos – aliás, este garoto rouba a cena quando aparece; Ayan Khan em uma ponta como o irmão de Pi, Ravi Patel, quando ele tinha sete anos de idade; Mohd Abbas Khaleeli como Ravi dos 13 para os 14 anos, também como ponta; Vibish Sivakumar como Ravi entre os 18 e os 19 anos; Gérard Depardieu em uma superponta como o cozinheiro grosseiro do navio que leva a família Patel; James Saito e Jun Naito como a dupla de investigadores japoneses que procura saber como o navio naufragou; Andrea Di Stefano como o padre que ensina sobre Cristo para Pi; e Shravanthi Sainath como a primeira paixão de Pi, a jovem indiana aluna de dança Anandi.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: até um certo ponto, M. Night Shyamalan tinha sido cotado para dirigir e escrever o roteiro deste filme. Sem dúvida, teríamos sido apresentados a uma forma muito diferente de narrar a história se isso tivesse acontecido.

De fato existe uma Piscine Molitor na França. Segundo esta história, o protagonista recebeu o nome de Piscine Molitor Patel por causa de uma piscina francesa. A piscina existe perto do Parque Bois de Boulogne, entre o estádio de Roland Garros e o Parc des Princes. Em 1990 ela foi considerada um patrimônio histórico, após ter caído em desuso e ter sido fechada em 1989.

Só depois de assistir a Life of Pi é que fiquei sabendo sobre a “polêmica” (bem entre aspas mesmo) envolvendo a obra de Yann Martel e o livro de Moacyr Scliar. Sou franca em dizer que não li a nenhuma das duas obras. Mas pelo que eu entendi, o livro de Scliar conta a história de um garoto que cruza o Oceano Atlântico em um bote junto com um jaguar. Quem assistiu a Life of Pi – e imagino que o filme seja bem fiel à obra de Martel – sabe que o “espírito” da obra deste autor é muito diferente do conceito de Scliar. Não vejo, de fato, um plágio aí. Mas admito que só poderei opinar com toda a propriedade recomendada após ler aos dois livros.

Em nenhum momento o ator Suraj Sharma contracenou com um tigre de verdade no barco. Apenas algumas cenas em que o animal nada na água, durante a história, foram feitas com um tigre de verdade. Para ser mais precisa, 86% das cenas em que o tigre aparece, ele não passa de efeitos especiais. Em apenas 23 cenas, ou 14% do tempo em que o animal aparece, se trata de um tigre de bengala real.

O estreante Suraj Sharma não tinha feito planos para estrelar este filme. Na verdade, ele foi descoberto ao acompanhar o irmão para uma audição. Sem pretender, ele superou 3 mil candidatos para o papel. E se saiu muito, muito bem.

Life of Pi custou impressionantes US$ 120 milhões. Mas ao assistir ao filme, entendemos como este dinheiro foi gasto. Principalmente com efeitos especiais e visuais. A parte técnica, sem dúvida, consumiu grande parte dos recursos, especialmente porque esta é uma produção sem atores muito conhecidos.

Até o dia 17 de fevereiro, Life of Pi tinha arrecadado quase US$ 111,4 milhões apenas nos Estados Unidos. Juntando a bilheteria no resto do mundo, certamente ele não dará prejuízo.

Esta produção estreou em setembro no Festival de Cinema de Nova York. Depois, ele passaria por outros três festivais, nenhum de grande peso. Até o momento, Life of Pi ganhou 26 prêmios e foi indicado a outros 56, além de ter recebido 11 indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Filme do Ano na AFI Awards; Melhor Direção de Fotografia e Melhores Efeitos Visuais no BAFTA Awards; Melhor Roteiro Adaptado no Satellite Awards; e Melhor Trilha Sonora Original no Globo de Ouro.

Para quem gosta de saber o local em que os filmes foram rodados, Life of Pi foi filmado em Taiwan, na Índia e no Canadá. Sem dúvida estas locações também ajudaram a elevar o custo da produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta a média do site. Os críticos que tem o seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 190 textos positivos e 25 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média 8.

Life of Pi é uma produção dos Estados Unidos e de Taiwan.

Há tempos eu não tinha dificuldade em escolher o cartaz do filme que eu estava comentando aqui no blog. Mas com Life of Pi, fiquei muito na dúvida… os três cartazes que eu escolhi eram muito bonitos. Mas acabei decidindo por este, possivelmente o mais clássico deles.

CONCLUSÃO: Nada como ser surpreendida positivamente, não é mesmo? Eu não gosto de filmes que forçam a barra para tornar a relação entre animais e pessoas ultra sentimentais. Afinal, nossas relações com os bichos são suficientemente passionais. Não preciso de histórias que levem esta relação ao extremo. Para minha surpresa, Life of Pi não chega nem perto desta vertente de filme. Eis aqui uma história interessante e diferenciada, rara no cinema atual. Um filme que fala como as parábolas fazem sentido. Como é belo pensar em uma forma diferente de encarar a dor, e de enfrentar situações que não deveriam ter acontecido. A perda e a dor podem ser embaladas de uma forma diferente para conseguirem ser levadas adiante. Lindo visualmente, Life of Pi é ainda mais bonito na mensagem. Vença o seu preconceito, como eu venci o meu, para surpreender-se também. Sem dúvida, um dos grandes filmes desta safra recente que chegou até o Oscar.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Life of Pi foi um dos filmes que mais recebeu indicações no Oscar deste ano. Foram 11, no total, a maioria em categorias técnicas. O que é justo, evidentemente, porque esta é uma produção bem acabada, com uma produção impecável e que segue a linha da fantasia, do surreal.

Entre as indicações em categorias técnicas, estão as de Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção Original, Melhor Design de Produção, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som e Melhores Efeitos Visuais.

Não assisti a todos os concorrentes destas categorias, mas posso dizer que Life of Pi tem ótimas chances de ganhar as estatuetas de Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora, Melhor Design de Produção e Melhores Efeitos Visuais. Em Melhor Edição de Som, ele tem fortes concorrentes, como 007 Skyfall, que não assisti, mas que sei que tem um trabalho ótimo em edição de som e, principalmente, Zero Dark Thirty. Igualmente, podem vencer Argo ou, até mesmo, correndo por fora, Django Unchained. Categoria bem equilibrada e difícil de acertar. Meu voto estaria entre Life of PI e Zero Dark Thirty. E em Melhor Mixagem de Som a disputa é boa também. Acho que os grandes concorrentes voltam a ser 007 Skyfall, Argo e Les Misérables. Meu voto estaria entre Les Misérables e Life of Pi.

Além das categorias técnicas, Life of Pi está concorrendo em três categorias principais: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado. Em todas estas categorias a disputa é acirrada, com grandes produções concorrendo a cada estatueta. E com alguns favoritos já anunciados pelos prêmios que antecedem ao Oscar.

Os grandes concorrentes de Life of Pi em Melhor Roteiro Adaptado são Argo e Lincoln. Como Melhor Diretor, a queda de braço está forte, com algumas surpresas nas indicações, como o novato Benh Zeitlin, de Beasts of the Southern Wild, e veteranos que há tempos estão cotados para receber uma nova estatueta, como Steven Spielberg e Michael Haneke. Francamente, acho que Ang Lee tem poucas chances, e que a Academia deve reconhecer Spielberg. Mas surpresas podem acontecer.

Analisando o trabalho de diretor, deixando para lá a verve de roteirista, meu voto iria para Ang Lee, Benh Zeitlin ou Michael Haneke. Finalmente, a categoria de Melhor Filme… tudo indica que Life of Pi não terá chances frente a Argo e Lincoln. No fim das contas, o filme de Ang Lee deve levar algumas estatuetas em categorias técnicas. Tem potencial para umas quatro ou cinco estatuetas. Seria merecido.

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Anonymous – Anônimo

E se William Shakespeare, o autor teatral mais conhecido e encenado de todos os tempos, não fosse, exatamente, William Shakespeare? Ou melhor, se o autor de todas aquelas peças e sonetos escritos em inglês e que ganharam o mundo com o nome de William Shakespeare fosse outra pessoa? Anonymous trata sobre esta teoria de que o homem por trás de Hamlet, Romeu e Julieta e todas as demais peças conhecidas era outro, na verdade Eduardo de Vero, conde de Oxford. Voltamos no tempo, na Londres do final do século 16 e início do século 17. Uma viagem fascinante, com bastidores de traição, disputa pelo poder e teatro, muito teatro.

A HISTÓRIA: Trânsito congestinado, sirenes de ambulâncias. Um táxi freia abruptamente na frente de um teatro que tem Anonymous em cartaz. O homem que desce do táxi entra apressado. Ele está atrasado. Uma mulher pede para ele se apressar, e ele chega à tempo para apresentar a história para o público. O veterano Derek Jacobi começa relembrando os fatos conhecidos sobre a “alma do século”, como foi chamado William Shakespeare. E afirma que apresentará uma história diferente sobre ele e suas obras. Esta história, segundo o ator, é feita de “penas e espadas, de poder e traição, de um palco conquistado e um trono perdido”. A partir daí, o filme acompanha Ben Jonson (Sebastian Armesto), dramaturgo contemporâneo de Shakespeare que seria uma peça fundamental na farsa por trás de suas obras.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Anonymous): O filme começa muito bem. Não consigo imaginar uma introdução mais interessante que aquela, magistralmente interpretada pelo veterano Derek Jacobi. Afinal, se vamos mergulhar na obra e no tempo do maior dramaturgo de todos os tempos, a melhor porta de entrada deve ser a de um palco teatral. Interessante a passagem deste ambiente para a do cinema. Acertos do roteiro de John Orloff e da direção de Roland Emmerich.

O momento seguinte, que mostra a primeira de muitas perseguições sofridas por Ben Jonson também é interessante. Afinal, ela imprime logo uma levada de suspense e intriga para a história. E serve como uma introdução para o que virá à seguir, ambientado cinco anos antes daquelas cenas de tortura. Só achei que a forma com que o filme é narrado torna a tarefa do espectador reconhecer personagens e suas ligações um pouco complicada demais. Demoramos muito tempo para fazer estas ligações e ligar os nomes às pessoas, o que pode provocar desinteresse na hsitória em algumas pessoas.

Mas quem insistir vai encontrar um ambiente interessante. A Londres do final do século 16 e início do 17, quando o teatro popular estava em plena efervescência. Momento em que começaram a surgir as primeiras peças de William Shakespeare. Ou, pelo menos, atribuídas a ele. Porque o filme abraça a teoria de uma corrente de estudiosos e historiadores que afirma que o homem nascido e criado em Stratford-upon-Avon que, aos 18 anos, mudou-se para Londres para dedicar-se à carreira de ator, não poderia ter escrito todas aquelas obras-primas do teatro.

Há muitas teorias sobre quem poderia ter sido o verdadeiro autor das obras atribuídas à Shakespeare. Mais abaixo falarei sobre isso. Anonymous segue a teoria lançada por John Thomas Looney, em 1922, de que o verdadeiro autor dos clássicos do teatro era Eduardo de Vero, o 17º Conde de Oxford. De acordo com este texto da Wikipédia, até 1975 a Enciclopédia Britânica apontava Oxford como o mais provável autor das peças. Outros nomes que apoiaram esta teoria são bastante conhecidos: Sigmund Freud, Orson Welles, Charlie Chaplin, Ralph Waldo Emerson e muitos outros intelectuais do século 20.

Anonymous explica os bastidores desta farsa possível. Contextualiza a Londres daquele tempo, mostrando como uma pessoa da aristocracia não tinha espaço para ser irônico, crítico ou mesmo artístico. Ele deveria preocupar-se com outros temas, muito mais “sérios”. Isso explicaria porque uma pessoa como Oxford, com uma formação exemplar, teria que “esconder-se” atrás de um outro autor.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Fascinado pela arte e pelo teatro, em especial, Eduardo de Vero (o ótimo Rhys Ifans) foi levado pelo lorde de Southampton (Xavier Samuel) a conhecer o teatro The Globe. O filme mostra como ele ficou fascinado, em sua primeira visita ao teatro, com a reação do público, a cenografia, a dinâmica das cenas – muito diferente do que era visto na côrte naquela época – e com o trabalho de Jonson. Mais tarde, Oxford teria libertado o dramaturgo em troca de um grande favor: que ele levasse um de seus textos para ser encenado pelo grupo teatral Lord Chamberlain’s Men.

A partir daí, nos deliciamos com os bastidores do teatro e o surgimento das peças de “Shakespeare” no teatro. Um acerto do filme é citar alguns trechos e reproduzir encenações “da época” das obras encenadas pelo grupo teatral dos clássicos da dramaturgia. Uma imersão interessante e inédita. Bacana. O roteiro só se mostra um pouco confuso porque demoramos para entender quem é Oxford, Southampton e o lorde de Essex (Sam Reid). A relação entre eles fica um pouco confusa, e será explicada apenas perto do filme – ainda que algumas questões não sejam respondidas até o final, como a alta fidelidade de Southampton por Essex.

De qualquer forma, mesmo que o roteiro não ajude muito o espectador na tarefa de entender estas relações, ele acerta ao introduzir logo os bastidores do poder. As relações entre a rainha Elizabeth I (a sempre ótima Vanessa Redgrave) e os Cecil, por exemplo – o pai William (David Thewlis) e o filho Robert (Edward Hogg), seus conselheiros de primeira linha. Depois, pouco a pouco, vamos conhecendo outras histórias de bastidores, como a relação da rainha com Oxford e outras figuras importantes da história.

Um acerto do filme é equilibrar sempre os bastidores do teatro com os da côrte. Há disputa, talento e intrigas nestas duas frentes. Traições, disputas, inveja, cobiça, elementos presentes na obra de “Shakespeare” estão espalhadas também pelo recorte feito daquela Londres efervescente. Algo muito bacana da produção também é a sua convicção em defender a ideia de que palavras podem provocar revoluções e mudar realidades.

Ainda que, na prática, todo o intento de Oxford não tenha conseguido mudar aquela realidade retratada. Mas ela acabou, depois, vencendo o tempo e influenciando todas as gerações posteriores. Sim, palavras tem um poder fantástico, quando são bem utilizadas.

Mas nem tudo são flores… Anonymous infelizmente apresenta um desempenho muito variável de seus atores. Os protagonistas, que interpretam Oxford e a rainha Elizabeth I, estão ótimos. Parecem acreditar em suas falas e tentam repassar as diferentes nuances de seus personagens. Gostei também de Joely Richardson, que interpreta a rainha em uma fase mais jovem. Mas a mesma qualidade não vi em Jamie Campbell Bower, que interpreta o jovem nobre de Oxford. Achei o desempenho dele, na maior parte do tempo, bastante forçada.

O mesmo se pode falar dos outros atores. O trabalho de Edward Hogg, Xavier Samuel e Sam Reid também pareceram um tanto fora do tom. Por outro lado, outro ator importante para a história, Sebastian Armesto, faz um bom trabalho. Na conta final, o elenco teve um desempenho razoável. A sorte do espectador é que três dos atores que mais aparecem em cena estão bem. O restante… apenas razoáveis.

O roteiro também tem muitos altos e baixos. Ainda que o filme inteiro desperte interesse, principalmente pela reconstituição de época e pelo equilíbrio entre os dois bastidores comentados anteriormente, ele não facilita muito a vida do espectador para entender as relações entre os personagens. E também exagera em alguns pontos, como no retrato feito de William Shakespeare (Rafe Spall, em um desempenho bem forçado também).

Achei ele muito estereotipado. Aparece apenas como um ator fanfarrão que gosta de beber, farrear com prostitutas e que sabe aproveitar a deixa para tornar-se famoso por algo que não fez. Em momento algum o filme mostra o “outro lado”, historicamente incontestável, de que ele foi casado e teve três filhos.

Mesmo que tenha sido um boêmio, como Anonymous insiste em retratar, havia uma outra parte de sua vida privada que acabou sendo totalmente ignorado pelo filme. Em contrapartida, Jonson também é retratado de uma forma bastante estereotipada, como um ótimo dramaturgo que sofreu com a genialidade de “Shakespeare”. Novamente, ainda que isso tenha sido real, certamente não foi toda a história de Jonson. Estas simplificações de personagens fundamentais não ajudam o filme.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pelas características deste filme, é de se tirar o chapéu para alguns elementos técnicos da produção. Para começar, para a direção de fotografia de Anna Foerster, fundamental para retratar a Londres elisabetana. Muitas cenas parecem ter sido tiradas de quadros de mestres que pintaram aquela época. Impressionante. Depois, excelente o design de produção de Sebastian T. Krawinkel, a direção de arte comandada por Stephan O. Gessler e composta por outros cinco profissionais; a decoração de set de Simon-Julien Boucherie; e os figurinos de Lisy Christl.

A trilha sonora de Thomas Wanker e Harald Kloser é boa, dá ritmo para o filme, mas fica em segundo plano e perde importância se comparado com os outros elementos técnicos citados.

Competente também o trabalho do editor Peter R. Adam.

O alemão Roland Emmerich, mais conhecido por “filmes-catástrofe”, me surpreendeu com este Anonymous. Com este filme ele mostra que pode fazer um cinema muito mais sério e “profundo”. Bem diferente de 2012, The Day After Tomorrow, Godzilla e Independence Day, entre outros.

Anonymous é um exemplo interessante de como o cinema é uma grande máquina de contar histórias. Mesmo que retrate um local muito específico, como pode ser Londres, em uma época determinada, esta produção não foi rodada na capital do Reino Unido. Não, meus bons leitores. Anonymous foi filmado inteiramente no Estúdio Babelsberg, na cidade de Potsdam, na Alemanha. Interessante, não? E esta informação me faz lembrar que é preciso tirar o chapéu também para o departamento de arte da produção, formada por nada menos que 50 pessoas, muitas delas sem crédito nos letreiros finais, mas citadas no site IMDb. Os efeitos especiais, feitos por uma equipe de nove profissionais, e os efeitos visuais, por outra equipe de 42 pessoas, também acabam sendo fundamentais para Anonymous.

Não por acaso, pelas características anteriores, esta produção não custou barato. Anonymous teria custado aproximadamente US$ 30 milhões. E não foi muito bem nas bilheterias. Nos Estados Unidos, o filme arrecadou quase US$ 4,5 milhões até o dia 11 de dezembro. No resto do mundo, ele teria arrecadado quase US$ 11 milhões. Pouco, diante dos custos do filme. E uma pena, porque este talvez seja um dos melhores trabalhos de Emmerich. Mas sem nenhum ator muito popular no elenco, com um tema denso e polêmico e pouca adesão da crítica, Anonymous ficou com um caminho difícil para ser trilhado.

Este filme estreou no dia 11 de setembro de 2011 no Festival de Toronto. Depois, ele participou de apenas um outro festival, o desconhecido Yubari International Fantastic Film Festival. Nesta sua trajetória, ele foi indicado a seis prêmios, mais uma indicação ao Oscar de Melhor Figurino, mas não levou nenhum deles para casa.

Anonymous toca em um tema polêmico e interessante, e está ambientado em uma época igualmente rica em informações curiosas. Fiquei mega interessada em saber mais a respeito. E encontrei alguns textos que podem servir de ponto de partida para quem também ficou curioso para saber um pouco mais.

Neste texto da Wikipédia é possível encontrar um compêndio de informações sobre as duas correntes desta polêmica sobre a obra de Shakespeare: aquela que defende que os trabalhos atribuídos a ele foram de fato de sua autoria, e aquela que aponta outros possíveis autores. A verdade é que os argumentos de quem aposta que aquela obra, por ser tão sui generis, deveria ter sido originada da mente de um nobre e/ou de um intelectual como Francis Bacon, são bastante interessantes. Fazem sentido.

Lendo os textos sobre a era elisabetana, Oxford e Shakespeare, me chamou a atenção que a Rainha Elizabeth I morreu em 1603 e que Eduardo de Vero faleceu um ano depois. Interessante – especialmente pela relação e história que eles tiveram.

Existem muitos textos sobre Shakespeare, sua vida e obra – se é que ele foi autor dela, realmente. Alguns textos que podem servir de ponto de partida: este, da Wikipédia, com infirmações básicas do “bardo inglês”, e este outro, que tem como diferencial trazer várias frases atribuídas à Shakespeare.

Para os que ficaram curiosos para saber mais sobre a era elisabetana, recomendo este texto da Wikipédia sobre os costumes e características daquela época, e este outro focado exclusivamente na história de Elizabeth I. Baita história, aliás. Fiquei com vontade de assistir – e relembrar dos que eu já vi – aos filmes já feitos sobre ela. Ainda que nenhum deva entrar tão fundo em sua biografia quanto um bom e extenso livro. Agora, irônico ela ter sido conhecida como A Rainha Virgem, não é mesmo? Especialmente por tudo aquilo que Anonymous sugere que ela tenha feito. Curioso que no texto que eu citei, eles não citam o lorde de Oxford, e sim o de Essex como sendo o amor não realizado da rainha. Curioso…

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para o filme. Não está mal, para os padrões do site. Já os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais rígidos em suas análises: eles dedicaram 86 críticas negativas e 76 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 47% – e uma nota média de 5,5.

Anonymous é uma co-produção do Reino Unido com a Alemanha.

CONCLUSÃO: A ótima reconstrução de época de Anonymous é um dos pontos fortes do filme. Assim como a seriedade com que o roteiro assume e defende a teoria de que William Shakespeare não era o verdadeiro autor de todas aquelas peças e sonetos clássicos que ficaram conhecidos com o seu nome. Na média, os atores convocados para a produção fazem um bom trabalho, mas alguns não parecem encarar com tanta seriedade os seus papéis quanto outros. O desempenho desigual deles e do próprio roteiro, que perde um pouco de força em alguns momentos, não deixa o filme ser melhor. A caricatura de alguns personagens e momentos também prejudicam a produção. Mas apesar destes deslizes, o diretor Roland Emmerich consegue apresentar um trabalho interessante e cheio de convicção. Os adeptos da teoria de que as obras atribuídas a William Shakespeare não seriam dele, devem gostar do filme. Para os demais, reles mortais, eis um filme curioso, que resgata alguns trechos de obras famosas atribuídas a Shakespeare e que nos transporta para o auge do teatro inglês. Vale a viagem.