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Lovelace

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A história de uma mulher que marcou o debate público dos Estados durante uma década, aproximadamente, entre o início dos anos 1970 e dos anos 1980. E ela não fez isso de forma planejada. Mas quando se viu frente aos holofotes, resolveu tomar uma atitude e mudar a rota previsível. Usando literalmente a garganta, seja para ganhar dinheiro ou para denunciar, Linda Lovelace chocou a opinião pública norte-americana, dividiu opiniões, criou furor no setor da pornografia e, agora, rendeu a cinebiografia que leva o seu nome artístico. Lovelace conta a história desta mulher, trazendo uma Amanda Seyfried um pouco mais ousada do que o seu público está acostumado a presenciar.

A HISTÓRIA: Sonzeira e um retroprojetor de um cinema qualquer. Na frente dos espectadores, o início do filme Deep Throat, de 1972. Após aplausos, uma voz apresenta a protagonista do filme: Linda Lovelace (Amanda Seyfried). Corta. Ela aparece fumando em uma banheira, pensativa. Junto com a música alta, um trecho de uma entrevista de Linda, quando lhe perguntam qual é a história dela antes de tornar-se uma estrela de filme pornô e a garota-propaganda da revolução sexual nos Estados Unidos. Corta. Na televisão, o apresentador constata que Deep Throat tornou-se um dos filmes de maior êxito do cinema e que um tribunal de Manhattan havia considerado a produção obscena e exigido que ela saísse de cartaz dos cinemas de Nova York. A pergunta sobre quem é a real Linda Lovelace conta a história da mulher na banheira, protagonista de um dos filmes pornô mais polêmico de todos os tempos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Lovelace): Eu perdi o filme Deep Throat, mas tinha ouvido falar dele. Francamente, os filmes pornô nunca foram o meu forte. 🙂 Sempre preferi outras opções nas videolocadoras, quando elas eram a minha alternativa mais frequente para assistir a filmes diferentes – antes da proliferação dos cinemas e de outras formas de conseguir produções de todos os tipos. Mas interessada pela história do cinema mundial, impossível não ter ouvido falar da conhecida Garganta Profunda.

Ainda assim, até Lovelace, eu não sabia nada sobre a história da protagonista do conhecido filme do cinema pornô. Não sabia, por exemplo, que ela tinha virado uma inusitada ídola de parte do movimento feminista. Algo difícil de acreditar se pensarmos em uma estrela do cinema pornô – já que este tipo de filme, originalmente, guardada as devidas exceções, plasma um tipo de degradação da mulher difícil de ser aceita por quem defende a valorização do “sexo frágil”.

Pois bem, tudo em Lovelace foi novidade para mim. E admito, me fez mergulhar na história da mulher “homenageada” com a produção depois que o filme terminou. E foi aí, vendo a vídeos originais dela, que eu percebi com toda a clareza o que tinha apenas desconfiado antes: Lovelace fica muito aquém do que poderia ter sido se os realizadores tivessem sido um pouco mais ousados.

O primeiro elemento que chama a atenção nesta cinebiografia sobre a estrela de Deep Throat é a trilha sonora. Excelente, por sinal. Em seguida, ganha destaque a direção de fotografia e a ambientação de Lovelace nos anos 1970. Não por acaso, esta produção me lembrou demais a Boogie Nights. E, guardada a devida proporção, Amanda Seyfried me lembrou bastante a Julianne Moore no filme de 1997 que tem a mesma “identidade” deste novo filme. Menos puritano e simplista que Lovelace, Boogie Nights, contudo, é melhor.

Aliás, Amanda Seyfried caminha para o aprimoramento da própria carreira. Ela claramente está selecionando papéis de gêneros muito diversos e, como fez antes a própria Julianne Moore, incluiu nesta diversificação papéis mais “ousados” na mescla entre violência e sexo. Para os fãs da atriz, o importante é que ela se sai bem em Lovelace e passa no teste. Ela e o experiente e normalmente acima da média ator Peter Sarsgaard são o melhor deste filme dirigido pela dupla Rob Epstein e Jeffrey Friedman.

A direção deles também vai bem. Eles focam as atenções no trabalho dos atores e confiam em uma equipe técnica que sabe o que está fazendo. Mas o problema de Lovelace é realmente o roteiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Andy Bellin procurou a via do exagero no drama, especialmente no “resgate familiar” que Linda procura no final da produção. Mas ao valorizar as lágrimas de crocodilo dos pais da protagonista, a roteirista deixou de fora uma contextualização sobre a protagonista que faz falta para o filme. Teria sido muito mais interessante, por exemplo, explicar melhor porque Linda Lovelace foi tão importante para o debate da pornografia nos Estados Unidos. Uma forma de fazer isso seria reencenar debates na televisão com ela, assim como a exposição de Chuck (Peter Sarsgaard) na imprensa.

Mas não. A roteirista prefere o caminho do sentimentalismo barato e previsível. Com isso, o filme perde em informações e também no impacto. Fica mais superficial do que poderia, e torna a história de Linda Lovelace menos interessante. Para solucionar este problema, só mesmo partindo para uma pesquisa por sua própria conta. Há alguns vídeos no YouTube com a personagem principal desta trama e com o marido bandido dela que valem ser vistos.

Sobre a narrativa de Lovelace, gostei do roteiro ter começado nas vésperas da mudança definitiva na vida da protagonista, mais precisamente em 1970, quando Linda tinha 21 anos. O filme foca a casa em que ela residia com os pais, Dorothy (Sharon Stone) e John Boreman (Robert Patrick) e, na sequência, apresenta a melhor amiga de Linda, Patsy (Juno Temple), e o primeiro encontro delas com Chuck. Até aí tudo muito bem, com algumas ressalvas – sobre as quais falarei em seguida.

Um acerto do roteiro de Bellin foi contar a história de Linda sob a ótica “otimista”, que é a que o grande público conheceu e predominou em um primeiro momento, para depois retornar no tempo histórico para contar os outros matizes do que havia acontecido – e em tons muito mais obscuros. Esta foi uma escolha interessante e que dá fôlego para a produção chegar até o final despertando interesse. Ainda assim, o desfecho de Lovelace carece de impacto. No lugar do melodrama, sem dúvida, teria sido mais interessante refilmar os debates televisionados, como eu comentei antes.

Agora, as ressalvas que faço do início do filme e de alguns trechos posteriores. Para começar, vamos combinar que é beeeem exagerada a versão de que Linda era quase uma puritana, não é mesmo? Logo no início do filme, ela fica um tanto “escandalizada” com a amiga Patsy falando de boquete e querendo, no quintal da casa de Linda, liberar o laço do biquíni para que elas não ficassem com o bronzeado perfeito comprometido. Daí, depois, ela abraça todas as fantasias sexuais de Chuck e vira uma especialista no boquete? Difícil de acreditar, não é mesmo?

Essas cinebiografias que procuram “santificar” o homenageado me cansam. Um filme do gênero fica realmente interessante se tenta abarcar todas as facetas de quem é retratado. Além de falhar neste quesito no início da produção, tornando Linda puritana demais, Lovelace exagera nos tons dos pais da protagonista, displicentes até quase o exagero, assim como na exigência de “redenção” deles no final. Certo que ela se reaproximasse dos pais, mas daquela forma tão “perfeitinha”? Outros pontos da história real de Linda também ficam de fora, como a relação forçada que ela acaba desenvolvendo com Sammy Davis Jr. (interpretado por Ron Pritchard em uma ponta).

Além disso, o filme apenas cita a guerra entre o lado mais puritanista e o “safado” da cultura e da política norte-americana. Nixon até aparece em algum vídeo, aqui e ali, mas o filme nem esboça uma contextualização sobre a importância que Deep Throat teve na derrocada do presidente norte-americana. Não foi por acaso que Walter Mark Felt, informante-chave dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein no Caso Watergate recebeu o apelido de Deep Throat. O filme era sensação na época.

Mesmo com estas falhas e desperdícios do roteiro, Lovelace retoma uma história interessante. E que me fez lembrar outro tipo de comparação extremista. Afinal, como o Capitão Nascimento de Tropa de Elite um dia criticou as pessoas que compram drogas por alimentar a violência e os mais diferentes crimes, quem gasta dinheiro com pornografia está, da mesma forma, promovendo a degradação humana nas mais diferentes formas. Muitos podem argumentar que esta é uma visão exagerada e que a base de comparação não é a mesma.

Bueno… cada um pensa de uma forma e encaminha a vida de uma maneira. Da minha parte, acho estes argumentos extremistas válidos. No caso das drogas, acho muito mais válido quem planta o seu próprio pé de maconha para consumo do que quem paga para ter o produto para um traficante – que sim, está envolvido nos mais diferentes tipos de crime. Da mesma forma, vejo como legítimo o estilo “galinha” de ser, dos eternos insatisfeitos pelo prazer e que pulam de galho em galho atrás de sexo. Melhor do que aqueles que pagam por sexo ou que consomem pornografia porque há muitas pessoas por trás destas práticas que vivem de violência dos mais diferentes tipos.

Não compartilho, pessoalmente, de nenhuma destas práticas, mas entendo quem faça algumas delas – exceto as da pornografia e do patrocínio dos traficantes. Alguém pode dizer que há mulheres que gostam de sexo ao ponto de que elas se prostituem ou fazem filmes pornô (existe, realmente, diferença entre uma coisa e outra? não vejo…) para ter o número de parceiros desejados e/ou ainda ganhar um bom dinheiro com o que curtem fazer. Até pode ser. Mas para quantas mulheres como estas existem aquelas que são exploradas, seja por não terem outra alternativa de renda (realmente?) ou pela coerção ou violência de parceiros ou outras pessoas com as quais se envolveram?

Da minha parte, acho a pornografia, seja ela qual for, uma grande fonte de degradação humana. Por que se as pessoas gostam de se expor desta forma, para que precisariam ganhar dinheiro por isso? Fariam de graça, não é mesmo? Fariam apenas porque gostam, e não porque precisam de dinheiro, ou porque acham que estas práticas são a única forma que elas tem de seguirem vivas. Linda Lovelace chamou a atenção para isso. E ainda que eu não ache que ela fosse tão puritana quanto o filme sugere, ou que ela mesma tenha dito, acredito sim que ela foi explorada e que, de forma muito corajosa, decidiu dar um basta para aquela vida e chamar a atenção do mundo para esta situação.

Não por acaso ela foi apoiada por muitas feministas. Pessoas que acham que nenhuma mulher deveria ser explorada. Neste sentido, estou com elas. Acho que toda mulher deve ter a liberdade de fazer o que quiser. Inclusive filmes pornô, fotografias com elas nuas, ou sexo com várias pessoas diferentes todos os dias. Desde que elas não sejam forçadas a estes atos, ou que precisem ganhar dinheiro por eles para sobreviver. Do contrário, estamos apenas falando de degradação.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo que Lovelace me despertou foi a curiosidade. Para saber mais sobre a personagem desta cinebiografia e, também, sobre o filme clássico do cinema pornô que ela estrelou. Procurando mais informações sobre ambos, fiquei sabendo de alguns pontos interessantes.

Deep Throat, lançado em 1972, foi dirigido por Gerard Damiano, que teve 51 títulos no currículo de diretor. O filme, que teria custado US$ 20 mil e faturado, apenas nos EUA, US$ 45 milhões. De acordo com Lovelace, a produção acumulou US$ 600 milhões – acredito que este valor é corrigido e contempla o faturamento global da produção. Até porque a diferença é muito grande do resultado bruto nos EUA e essa outra projeção.

No currículo da Linda Lovelace original aparecem dois curtas, anteriores a Deep Throat: Sex for Sale, de 1971, e The Foot, de 1972. Depois do sucesso retumbante de Deep Throat, ela faria Deep Throat Part II, lançado em 1974. Não encontrei informações sobre a bilheteria, mas não tenho dúvidas de que ele faturou muito mais do que custou. Porque está é uma característica dos filmes do gênero: ter um orçamento baixíssimo e conseguir um bom lucro sempre – ou quase sempre.

Em 1978, como bem explica Lovelace, Linda lança Ordeal, livro que questiona o que contaram sobre ela até aquele momento. A obra contou com a ajuda do jornalista Mike McGrady. A partir daí, ela é entrevistada por Bob Langley no Saturday Night at the Mill; aparece nos programas Today, NBC Tonight, entre outros; além de ser foco, em 2001, do documentário para a TV The Real Linda Lovelace.

Assisti a boa parte de The Real Linda Lovelace no YouTube após conferir Lovelace. De acordo com o documentário, quando estreou em 1972, Deep Throat atraiu casais, profissionais dos mais diferentes ramos da economia, assim como muitas celebridades. Entre os defensores do filme, que começou a ser questionado pela Justiça, estavam o apresentador Johnny Carson, o ator Jack Nicholson e o escritor Truman Capote.

No ano seguinte, em 1973, Deep Throat estreou nos cinemas de outros países e virou fenômeno de mídia. Linda Lovelace apareceu em reportagens de jornais e revistas, incluindo a capa da Esquire e um ensaio fotográfico para a Playboy de Hugh Hefner. Johnny Carson a entrevistou em rede nacional, nos EUA. Depois de lançar o livro que contaria o “lado B” do sucesso de Deep Throat, Linda é entrevistada, em 1979, no NBC Tonight. O mesmo programa focaria a ex-atriz pornô em 1981. Trechos destes programas estão no YouTube.

Assistindo a The Real Linda Lovelace, algo achei estranho na comparação com o filme Lovelace. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Segundo o documentário feito para a TV, baseado nos livros de Linda, Chuck teria feito ela transar com cinco homens em um quarto de um motel barato em 1971. No filme Lovelace, contudo, este fato teria ocorrido após o sucesso de Deep Throat. Uma falha estranha no roteiro. E dispensável.

Em uma participação de Linda no Sin on Saturdany Night da BBC, em 1981, um homem da plateia pergunta como ela pode dizer que foi obrigada a fazer Deep Throat e tudo o mais por Chuck já que ela sempre aparecia sorrindo. Linda, com certa tranquilidade, responde que ela tinha uma escolha: ou fazia sorrindo, ou morria. E ela escolheu viver. Esse tipo de pergunta e resposta é que seria interessante ver em Lovelace.

Falando em vídeos sobre Linda e Chuck no YouTube, vale dar uma conferida nesta entrevista dada por Chuck em 1976; neste outro vídeo que aborda a polêmica que Deep Throat levantou; e este que reproduz The Real Linda Lovelace.

Agora, voltando a falar de Lovelace. A parte técnica do filme funciona muito bem. Vale destacar a direção de fotografia que lembra o tipo de imagens dos filmes dos anos 1970 e as imagens vinculadas na TV no início dos anos 1980 feita por Eric Alan Edwards; a trilha sonora com um ótimo resgate pop da época feita por Stephen Trask; os figurinos de Karyn Wagner; e o conjunto que dá a “contextualização ambiental” de época do design de produção de William Arnold, direção de arte de Gary Myers e decoração de set de David Smith.

Esta produção conseguiu reunir alguns nomes de primeira linha em papéis secundários – sim, porque Lovelace é bastante centrado na interpretação de Amanda Seyfried e Peter Sarsgaard. Sharon Stone e Robert Patrick estão apenas medianos. Além dos protagonistas, destaque para o trabalho de Adam Brody como Harry Reems, estrela de Deep Throat ao lado de Linda e um “astro” do cinema pornô daquela época. Além deles, merecem menção por um trabalho “centrado” os atores Juno Temple; Chris Noth, que interpreta a Anthony Romano, um dos produtores de Deep Throat; Bobby Cannavale, que interpreta a Butchie Peraino, outro produtor do filme de 1972; Hank Azaria como Gerry Damiano, roteirista e diretor de Deep Throat; James Franco como Hugh Hefner e Wes Bentley como o fotógrafo Thomas. Além deles, há superpontas de Chloë Sevigny como uma jornalista feminista e de Eric Roberts como Nat Laurendi, que faz um exame de polígrafo antes de Linda lançar o livro de 1978.

Lovelace teria custado US$ 10 milhões. Para mim, uma verdadeira fortuna para uma produção com este perfil. A produção, que estreou em alguns cinemas dos Estados Unidos no dia 9 de agosto, faturou, até agora, quase US$ 356,6 mil. Ou seja: risco gigantesco deste filme ser um fracasso nas bilheterias. Muito diferente de Deep Throat.

O filme sobre Linda Lovelace estreou em janeiro deste ano no Festival de Sundance. Depois, ele passaria por outros seis festivais, incluindo o de Berlim. Em nenhum deles ele foi premiado.

E agora, algumas curiosidades sobre Lovelace: Kate Hudson e Olivia Wilde foram cogitadas para interpretar a protagonista, mas acabaram pulando fora do projeto. James Franco também foi cogitado para interpreta a Chuck Traynor.

Sobre a bilheteria que Deep Throat deve ter feito, uma explicação sobre aquele inflacionado US$ 600 milhões: de acordo com Roger Ebert, como a máfia tinha a maioria dos cinemas pornôs da época, durante o período de exibição do filme ela inflacionava o caixa dos cinemas com dinheiro vindo da venda de drogas e da prostituição. Uma forma de “lavar” o rendimento do crime organizado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para Lovelace. Uma boa avaliação, levando em consideração os padrões do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos. Eles dedicaram 55 textos positivos e 50 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 52% e uma nota média de 5,6.

Adiciono este filme na lista de produções dos Estados Unidos que eu estou comentando após uma votação de vocês, meus caros leitores, aqui no blog.

Lovelace rendeu alguns cartazes muito bacanas. Fiquei muito em dúvida entre dois deles, para colocar aqui no blog. Mas bati martelo no que abre este texto porque achei ele mais estiloso. 🙂

CONCLUSÃO: Linda Lovelace fez parte da vida de muitos homens e mulheres que se renderam a Deep Throat em algum momento de suas vidas. Não foi o meu caso. Ainda assim, sem ter esta “memória afetiva” sobre a protagonista do filme pornô, achei interessante o que eu vi em Lovelace. Mas este é um filme menor e mais “careta” do que poderia ter sido. Achei o trabalho do roteirista e dos diretores um tanto preguiçoso demais. Afinal, estamos falando da figura controversa que mexeu com a libido e com diversos conceitos da sociedade norte-americana há três ou quatro décadas atrás. Essa produção, por esta fraqueza na entrega, acaba sendo interessante por resgatar uma história interessante, mas não mexe tanto com o espectador do que poderia se tivesse sido melhor acabada. De qualquer forma, sempre vale retomar uma história como essa, nem que for para reabrir um debate sobre a pornografia em uma mesa de bar.

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Fail Safe – Código de Ataque (2000)

 

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Um projeto verdadeiramente interessante. Inicialmente, ele me lembrou uma peça de teatro. Mas depois, com o recurso de closes, especialmente, e de vários cenários sendo intercalados em sequência – o que possibilita os tradicionais cortes das produções cinematográficas -, Fail Safe se mostrou realmente um belo exemplar de cinema. Grande indicação do Giancarlo, leitor deste blog, há muito e muito tempo atrás. Este é o típico filme que, sem uma indicação, dificilmente o veria. E valeu muito a pena tê-lo assistido. Acho que um belo exemplar para eu começar a minha sequência de colocar as dicas dos leitores deste espaço em dia. 

A HISTÓRIA: O General Warren Black (Harvey Keitel) acorda cedo para um dia que ele sabe que será pesado, afinal, terá que enfrentar “grandes tubarões” em uma reunião no Pentágono. Paralela a essa reunião, o General Bogan (Brian Dennehy) apresenta para o congressista Raskob (Sam Elliot) como funciona a segurança aérea dos Estados Unidos diretamente na fronteira com o inimigo, a União Soviética. Tudo segue a normalidade até que uma falha no sistema aciona o código de ataque nuclear que leva a equipe liderada pelo Coronel Jack Grady (George Clooney) a se lançar contra Moscou. Entra em ação o presidente dos Estados Unidos (Richard Dreyfuss) que tenta de tudo para impedir uma guerra nulclear desastrosa para a Humanidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Fail Safe): Como eu dizia inicialmente, o começo de Fail Safe – a versão do ano 2000 e não a de 1964, atenção! – me lembrou uma peça de teatro. Harvey Keitel seguia os trejeitos de um ator que encena em tempo real e sem cortes para uma platéia. A justificativa é óbvia: Fail Safe é um filme e, ao mesmo tempo, quase uma peça teatral. Isso porque, como bem confirma Walter Cronkite no início do filme, se trata de um projeto ousado da rede de televisão CBS que transmitiu, ao vivo, a “encenação” deste filme – experiência única na história da emissora em 39 anos de existência.

A idéia não era exatamente original. Pelo menos na questão de filmagem. Alfred Hitchcock já havia ousado desta maneira antes com o filme Rope, que foi rodado em um único cenário e praticamente de forma contínua – praticamente porque, na verdade, o filme foi feito em tomadas de 10 minutos que, depois editadas, deram a impressão de serem uma única tomada sequencial. Mas a exibição de Fail Safe foi algo realmente inédito na TV. Até então, nunca se havia feito um “filme” de forma contínua e que fosse exibido ao vivo – algo comum e diferente eram os “teleteatros”, ou seja, encenações dramáticas exibidos ao vivo. Então, claro que se justifica aquela sensação de “estou vendo uma peça teatral?” que volta e meia sentimos com Fail Safe. Só que o interessante é que a direção competente de Stephen Frears consegue dar ritmo para o filme e nos fazer esquecer, volta e meia, que estamos vendo uma sequencia de filmagens sem interrupção. Um dos grandes trabalhos do diretor, sem dúvida.

Mas para mim o grande nome deste filme é o de Richard Dreyfuss. Há tempos eu não assistia a uma interpretação tão impactante deste ator. Ele e Harvey Keitel mostram que dominam a interpretação como poucos no ramo. Os demais atores, em geral, também estão bem – de George Clooney a Brian Dennehy, passando por Noah Wyle e Sam Elliott -, mas ninguém se destaca mais que Dreyfuss. Sua interpretação é digna de aplausos. 

Um filme interessante por sua dinâmica e pela história, é claro. Uma crítica feroz aos avanços da tecnologia como armas para a guerra. (SPOILER – não leia se não assistiu ao filme ainda). A decisão do presidente em explodir Nova York como maneira de “apaziguar” os ânimos do presidente russo para evitar uma guerra nuclear que praticamente dizimaria a Humanidade é de matar. Necessária, mas impactante. A verdade é que quando fica evidente que nenhuma manobra será capaz de impedir o desastre, o filme ganha em força e em crítica. A que ponto quase chegamos? É a pergunta que fica no ar. E como bem denuncia a produção no final, o risco de absurdos ainda existe – afinal, atualmente, nove países tem controle de bombas nucleares. 

Dispositivos de segurança são suscetíveis a defeitos e problemas, como denuncia a obra de Eugene Burdick e Harvey Wheeler. E vivemos cada vez mais afundados em uma era tecnológica – pouco questionada, diga-se. Então quanto tempo vai demorar para que um problema “técnico” nos coloque em um verdadeiro caos? Esta é uma resposta que ninguém parece ter, mas que não custa indagar. A verdade é que hoje, mais do que em 1964 ou no ano 2000, os questionamentos de Fail Safe são importantes. Ok, não estamos mais em uma Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética não ficam mais medindo quem tem o porrete maior. Mas onde existe dinheiro existe busca por poder, e onde existe esse tipo de busca há também perigo.

A qualidade de Fail Safe em sua época foi questionar o que era inquestionável: a corrida armamentista e a confiança de Estados Unidos e União Soviética na alta tecnologia para “mediar” decisões vitais para a Humanidade. Hoje esta obra serve como um alerta para a segunda questão, o uso massificado e poderoso da tecnologia no mundo moderno. 

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O projeto filmado para a TV e transmitido ao vivo no ano 2000 é uma refilmagem do material que originou o elogiado filme homônimo dirigido por Sidney Lumet em 1964. No original, fazia parte do elenco Henry Fonda (como o Presidente), Walter Matthau (como o professor Groeteschele), Dan O’Herlihy (como o General Warren A. Black) e Frank Overton (como o General Bogan), entre outros. Filmado também em preto-e-branco, Fail Safe de 1964 tinha roteiro de Walter Bernstein, inspirado no livro dos escritores Eugene Burdick e Harvey Wheeler. Em sua época, o filme concorreu a três prêmios, um no BAFTA e dois no extinto Laurel Awards.

Além dos atores já citados, Fail Safe (2000) conta com a participação de Noah Wyle como Buck, o tradutor que acompanha as negociações entre os presidentes dos Estados Unidos e da União Soviética; James Cromwell como Gordon Knapp, o “tecnólogo” que explica como uma máquina pode ter causado todo aquele caos; John Diehl como o Coronel Cascio, que reluta em atender as ordens superiores para matar compatriotas seus; Hank Azaria como o Professor Groeteschele, um maluco que tenta vender a idéia no Pentágono de extermínio dos russos – depois de dizer que eles se “entregariam” por saber que os ianques eram superiores; Norman Lloyd como o Secretário de Defesa Swenson, que tenta ser o “equilibrado” na questão; Bill Smitrovich como o General Stark; Don Cheadle como Jimmy Pierce, o homem que “cavalga” para a morte junto com Grady, entre outros.

A versão de 2000 de Fail Safe conseguiu a nota 7,1 pelos usuários do site IMDb. Por seu lado, o site Rotten Tomatoes abriga apenas cinco críticas sobre o filme – todas positivas. Ou seja: Fail Safe, versão ano 2000, tem 100% de aprovação dos críticos. Para David Cornelius, do DVDTalk.com, este é um dos “projetos para a televisão mais notáveis” que ele tem registrado em sua “memória recente”.

Fail Safe, na versão para a televisão, ganhou três prêmios e foi indicado a outros seis – incluindo um Globo de Ouro. Entre os prêmios que ganhou estão dois Emmy’s para a equipe técnica e um Saturn Award pela Academia de Ficção Científica, Fantasia e Horror.

Fail Safe, dirigido por Stephen Frears, foi exibido ao vivo pela CBS no dia 9 de abril de 2000.

CONCLUSÃO: Um filme rodado ao vivo para a televisão que trata de um texto muito bem produzido sobre os absurdos que a disputa pelo poder entre nações podem provocar – assim como do tema da tecnologia como algo que pode causar danos irreversíveis. Bem dirigido e com atuações muito boas – e uma excepcional, a de Richard Dreyfuss -, é um filme que lembra um pouco a dinâmica do teatro mas que, ao mesmo tempo, consegue trabalhar com planos de câmera (especialmente o uso de closes) que caracterizam o cinema. Um belo exemplo de um ótimo filme produzido para a TV. Vale ser visto tanto pela experiência inovadora que ele significou no ano 2000 como pelo resultado em si.

SUGESTÃO DE LEITORES: Como eu disse lá no começo, este filme foi sugerido pelo leitor Giancarlo – que, aliás, anda bastante sumido, hein? Por onde andas?? Demorei um bocado para assistí-lo, primeiro porque quase não tinha tempo de ver a filmes, depois porque fazia críticas um pouco “encomendadas” para um site do qual participava como colaborada – por isso alguns filmes eram “datados” graças a lançamentos nas videolocadoras – e, depois, por causa do Oscar. Mas agora que estou “livre, leve e solta”, vou colocando em dia a lista de filmes indicados por vocês, meus bons leitores do blog. Muito obrigada, Giancarlo, porque sem a sua sugestão eu não teria descoberto este filme verdadeiramente interessante.