Ant-Man and the Wasp – Homem-Formiga e a Vespa

 

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O filme mais família do Universo Marvel. Pelo menos, analisando as produções deste universo que eu já vi. Ant-Man and the Wasp é um filme divertidinho, com belas cenas de ação e efeitos especiais e uma narrativa que valoriza a família. Do início ao fim. Alguma surpresa? Se você já assistiu a pelo menos um filme do gênero, nenhuma. O roteiro é um bocado previsível e tem alguns “repetecos” narrativos, mas também apresenta alguns bons momentos. O mais fraco entre os filmes recentes da Marvel, mas se você é fã dos personagens ou desse gêmero, isso pouco vai importar.

A HISTÓRIA: Começa com uma narrativa feita pelo Dr. Hank Pym (Michael Douglas). Ele comenta que, às vezes, pensa na noite em que ele e a esposa, Janet Van Dyne (Michelle Pfeiffer) tiveram que deixar a filha. Hope Van Dyne (Evangeline Lilly) era uma criança, e viu os pais saírem mais uma vez para uma “viagem de negócios inesperada”. Hank e Janet tem pena de deixar a filha, mas eles tem uma missão a cumprir como Ant-Man e Wasp. Desta vez, eles agem para desarmar um míssil que pode ser mortífero para centenas de pessoas.

O problema é que o casal, mesmo em tamanho diminuto, não consegue chegar no local correto para desarmar o míssil. A única saída é que um deles utilize o regulador para diminuir até o nível subatômico e, desta forma, acessar o núcleo do míssil. Janet é mais rápida que Hank e entra no “mundo subatômico”, de onde ela não conseguirá sair mais. Mas quando Scott Lang (Paul Rudd) conseguiu ir e voltar desse mundo subatômico, Dr. Hank Pym volta a acreditar que pode ser possível resgatar a mulher desse local. Para isso, ele vai construir um túnel subquântico que atrairá o interesse de muitas outras pessoas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ant-Man and the Wasp): Eis um filme sobre o qual eu não tenho muito o que falar. Ou, melhor dizendo, eis um filme sobre o qual não precisamos falar muito. Lembro bem de ler as HQs dos Vingadores e dos Heróis Marvel. Em meio a tantos heróis interessantes, o Homem-Formiga e a Vespa apareciam sempre como uma espécie de “personagens de apoio”.

Eles nunca me chamaram muito a atenção, para ser franca. E, novamente, nesse filme dedicado a eles, eu tive a mesma impressão. Ok, eles são graciosos, bonitinhos e tem uma história de fundo focada na família e no valor dos laços familiares bacaninha, mas é só isso. Em um ano em que vimos Black Panther, fica difícil a comparação. Claro, o personagem do Pantera Negra, especialmente pela forma com que ele foi desenvolvido no cinema, se apresenta muito mais completo em termos de temas subjacentes do que Ant-Man and the Wasp.

Importante observar isso antes de assistir a essa produção. Porque Black Panther – e, antes, Logan – elevaram tanto o nível dos roteiros dos filmes da Marvel, que é preciso reajustar as expectativas para assistir a esse Ant-Man and the Wasp. Admito que eu fui para o cinema assistir a esse filme sem grandes expectativas. Fui “desarmada” e para receber bem o que viesse. Achei, assim, o filme bacaninha, com um roteiro previsível e com algumas sequências interessantes. Os atores estão bem, mas a história em si é bastante fraquinha.

Vejamos. Tudo se resume à busca do Dr. Hank e de sua filha, Hope, pela figura materna desaparecida décadas antes. Contra essa busca deles estão os interesses de um mercenário, Sonny Burch (Walton Goggins), e do FBI e da polícia – que tem o Dr. Hank e Hope como foragidos. Para ajudar pai e filha a encontrarem a esposa/mãe desaparecida, entra em cena Scott Lang/Homem-Formiga. Antigo “discípulo” do Dr. Hank, Scott se sente em dívida com eles.

Esse é o filme. Junto com essa narrativa, com dinâmica previsível, temos o lado “fofinho” da história que é a relação de Scott com a filha Cassie (Abby Ryder Fortson). A relação entre pai e filha, no núcleo do Homem-Formiga, e de pais e filha, no núcleo da Vespa, fazem desta produção algo tão família. Ah sim, e outra ameaça importante para os “heróis” vem de uma menina que sofre justamente com o que? Com a falta da família! Estou me referindo a Ava (chamada também de Ghost/Fantasma), interpretada por Hannah John-Kamen.

O roteiro de Chris McKenna, Erik Sommers, Paul Rudd, Andrew Barrer e Gabriel Ferrari busca, desta forma, equilibrar os elementos conhecidos das HQs para agradar a todas as faixas etárias de público. Mas vejo Ant-Man and the Wasp agradando, em especial, aos mais jovens, já que este filme abre mão das cenas mais violentas e da “complexidade” dos personagens e narrativa de Black Panther e Logan para centrar-se mais na parte “divertida” e familiar dos personagens.

O roteiro feito a 10 mãos segue uma narrativa linear e com um contínuo “rouba” e “recupera” do laboratório do Dr. Hank e da peça que faltava para o invento dele e de Hope funcionar. No fim das contas, como previsto, eles conseguem terminar com o experimento e a história tem um final feliz.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Todos conseguem se sair bem, até Scott em sua incansável quebra-de-braços com o FBI e a polícia. Mas é importante assistir ao filme até depois dos créditos, para assistir a uma cena final que nos remete a Avengers: Infinity War. A família Van Dyne desaparece após a vitória de Thanos, e aí fica a pergunta de quem irá resgatar Ant-Man do “mundo subatômico”.

Entre as qualidades de Ant-Man and the Wasp está o bom trabalho dos atores principais, os efeitos especiais e algumas sequências realmente engraçadas – ainda que estas últimas possam ser contatas nos dedos. Por incrível que pareça, a melhor sequência do filme não conta nem com Paul Rudd e nem com Evangeline Lilly em cena. Para mim, o grande momento de Ant-Man and the Wasp é quando o amigo de Scott, Luis (Michael Peña) é obrigado a toma uma injeção da verdade e acaba contando a história da amizade dele com Scott.

Luis não para de falar e volta para o momento em que os dois se conheceram. Ele conta tudo rápido até chegar ao “esconderijo” atual do amigo. Achei essa sequência genial e o ponto forte da produção. Apesar de todos do elenco estarem bem, achei que faltou um pouco de “química” entre Rudd e Lilly. Não vi neles toda aquela sintonia que esperamos de personagens que vão trabalhar como casal.

A grande surpresa da produção foi mesmo ver nomes do quilate de Michael Douglas e Michelle Pfeiffer em um filme baseado em HQ. Uma grata surpresa. No mais, nada de novo. Você verá tudo que já viu – e algumas vezes melhor – em outras produções do gênero. Mas vale assistir, é claro. Assim como valia assistir a muitos filmes da Sessão da Tarde. 😉

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ant-Man and the Wasp é um filme “divertidinho” da Marvel. Ele não tem o humor ácido de Deadpool e nem a profundidade dos personagens de Logan, Black Panther e alguns filmes do X-Men, mas ele tem a pegada de humor e de ação que marcam os filmes da grife. Como eu disse, nada que você já não tenha visto antes. Mas até por isso vale conferi-lo.

Afinal, quem é fã das HQs e de seus personagens, sabe que nem sempre todos os personagens são relevantes. Alguns nasceram para ser protagonista, como Homem de Ferro e Wolverine, enquanto outros nasceram para ser coadjuvantes – a exemplo do Homem-Formiga e da Vespa. Mas todos, mesmo os coadjuvantes, merecem ter as suas histórias contadas, e é isso que esse Ant-Man and the Wasp nos demonstra.

Essa produção é uma bela deixa para vermos ótimos atores em cena. Tiro o meu chapéu, em especial, para Michael Douglas e Michelle Pfeiffer – ainda que ela faça quase uma ponta nesta produção. Douglas rouba a cena cada vez que aparece. Paul Rudd manda bem. Ele tem carisma e humaniza muito bem o personagem. Evangeline Lilly… tenho um problema ao vê-la em cena porque sempre me lembro de Lost – quando a atriz viveu a sua grande fase. Ela está bem em Ant-Man and the Wasp, mas acho, sinceramente, que ela não tem toda aquela química desejada com Rudd. Mas faz parte. De qualquer forma, foi bom vê-la novamente em cena.

Além desses atores, que sempre valem serem acompanhados, um coadjuvante que rouba a cena é Michael Peña. Para mim, ele tem algumas da principais cenas e falas da produção – como disse antes, o momento alto do filme é quando ele está em cena, e sem contracenar com nenhum dos protagonistas. Ele está muito bem.

Entre os coadjuvantes, vale citar também o bom trabalho de Walton Goggins como Sonny Burch, um dos “vilões” da produção; de Bobby Cannavale como Paxton, novo marido da ex-mulher de Scott; Judy Greer como Maggie, a ex-mulher de Scott, mulher interessante que não perde a oportunidade para marcar posição; T.I. como Dave, um dos funcionários de Luis e Scott; David Dastmalchian como Kurt, outro funcionário da dupla; Hannah John-Kamen como Ava/Ghost, a garota que busca desesperadamente para uma solução para a sua morte iminente; Abby Ryder Fortson ótima como Cassie, filha de Scott; Divian Ladwa como Uzman, o homem do “soro da verdade” e funcionário de Sonny; Laurence Fishburne como Dr. Bill Foster, ex-colega de Dr. Hank Pym e protetor de Ava; e Randall Park como Jimmy Woo, o sujeito do FBI que tenta flagrar Scott em suas “estripulias”, mas que nunca consegue pegá-lo no flagra.

Como sempre, um detalhe muito interessante é vermos Stan Lee em uma das cenas da produção – no melhor estilo das aparições Alfred Hitchcock. Desta vez, ele aparece como um motorista que acaba tendo o seu carro miniaturizado. A fala dele é divertida, brincando com os “velhos tempos”. Eu babo e tiro o meu chapéu para Stan Lee. Grande sujeito!

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma o destaque vai para os efeitos especiais e visuais da produção, assim como a maquiagem. Essa é a velha magia dos filmes da Marvel – e volta a funcionar em Ant-Man and the Wasp. Além disso, vale citar a direção de fotografia de Dante Spinotti e a edição de Dan Lebental e Craig Wood; assim como a trilha sonora de Christophe Beck; o design de produção de Shepherd Frankel; a direção de arte de Rachel Block, Michael E. Goldman, Kiel Gookin, Calla Klessig, Jay Pelissier, Domenic Silvestri e Clint Wallace; a decoração de set de Gene Serdena e Christopher J. Wood; e os figurinos de Louise Frogley.

Ant-Man and the Wasp estreou no dia 25 de junho de 2018 em uma première em Los Angeles. Depois, no dia 4 de julho, o filme estreou em 12 países, incluindo Dinamarca e Espanha. No Brasil o filme estreou no dia seguinte, dia 5 de julho.

Esse é nada menos que o vigésimo filme da Marvel dentro do “Marvel Cinematic Universe”. Uau! Para uma fã antiga de quadrinhos, eu jamais poderia imaginar que a Marvel chegaria tão longe. Acho bacana, especialmente pelo incentivo que isso dá para as HQs continuarem em evidência. Leiam quadrinhos! Garanto que é algo maravilhoso! 😉

E pensando aqui, que já são 20 filmes “made in” Marvel, certamente tenho que concluir que uma boa parte deles eu não assisti. Então não posso me considerar uma “especialista” da grife – ao menos nos cinemas. Um dos filmes que eu percebi agora que eu perdi foi o Ant-Man que lançou os personagens no cinema. Puff!!

Agora, uma curiosidade sobre essa produção. Nos quadrinhos, Ghost nunca lutou contra Ant-Man. Ou seja, eis uma “licença poética” desta produção.

Esse filme é dirigido por Peyton Reed. Nem lembrei de citar o nome dele antes porque, francamente, acho que ele faz um trabalho mediano e dentro do esperado – nada além disso.

Para quem é super fã do universo Marvel e tem certinho na mente a evolução dos personagens, vale citar: Ant-Man and the Wasp é ambientado no “capítulo oito da fase três do Universo Cinematográfico Marvel”.

Esse é o segundo filme da grife Marvel que estreia em 2018 tendo o ator protagonista como um dos roteiristas. O anterior foi Deadpool 2, onde Ryan Reynolds aparece nesses créditos – como Paul Rudd em Ant-Man and the Wasp.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para Ant-Man and the Wasp, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 224 críticas positivas e 34 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 6,9. Por sua vez, o site Metacritic apresenta um “metascore” 70 para o filme, fruto de 38 avaliações positivas e 13 medianas. Ou seja, o filme caiu no gosto de público e de crítica.

De acordo com o site IMDB, Ant-Man and the Wasp teria custado cerca de US$ 162 milhões – uma pequena fortuna, não? E conforme o site Box Office Mojo, o filme faturou US$ 164,6 milhões apenas nos Estados Unidos e outros US$ 188,9 milhões nos outros mercados em que o filme já estreou. Ou seja, no total, até o dia 22 de julho, o filme teria faturado cerca de US$ 353,5 milhões. Está no caminho de começar a dar lucro. E deve seguir nessa levada.

Ant-Man and the Wasp é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme bem “Sessão da Tarde”. Ant-Man and the Wasp nos entrega o básico do que é previsto para um filme de super-heróis. Ou seja, equilíbrio entre ação, drama, romance e comédia, diversas sequências ótimas de conflito e efeitos especiais, um bom grupo de atores e nada mais. A diferença desta produção para outras recentes da Marvel é que este filme foca na família e nas amizades, deixando para lá outros assuntos mais complexos – tratados em filmes como Black Panther e Avengers: Infinity War. Se você assiste a todos os filmes da Marvel, esse será apenas mais um no seu currículo. Se você está começando a ver a esse tipo de filmes, comece com algum outro – como Black Panther. Há filmes melhores do gênero. Mas para completar uma figurinha do álbum, esse filme é ok.

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I, Tonya – Eu, Tonya

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O sonho americano não é permitido para todos. Sim, os Estados Unidos são terra de grandes oportunidades, de empreendedorismo, de trabalho e para alguém desenvolver os seus talentos. Mas I, Tonya demonstra que isso não é igualmente válido para todas as pessoas e os seus sonhos. Da minha parte, como uma aficionada por Olimpíadas, esse filme me tocou especialmente. Estamos acostumados a ver aos atletas de elite dando o seu melhor para conquistar uma medalha e um pódio, mas nem sonhamos pelo que eles passaram antes de chegar ali. Um filme interessante sob vários pontos de vista e com pelo menos duas interpretações dignas de uma indicação no Oscar.

A HISTÓRIA: Começa afirmando que o filme é baseado “em entrevistas livres de ironia, extremamente contraditórias e totalmente verídicas com Tonya Harding e Jeff Gillooly”. A primeira a aparecer em cena é Tonya (Margot Robbie), ex-patinadora olímpica que aparece fumando em sua cozinha. Depois, vemos a Jeff (Sebastian Stan), ex-marido de Tonya, em outro ambiente e se queixando que o microfone estava muito próximo.

A terceira figura importante em cena é Lavona Harding (Allison Janney), mãe de Tonya, que fala com um pássaro em seu ombro na sala de casa e comum tubo de oxigênio ao lado. Ela brinca que o pássaro é o seu sexto marido – e o melhor de todos. Esses e outros personagens vão contar a história de Tonya Harding, a primeira atleta americana a fazer o Triple Axel em uma pista de patinação no gelo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a I, Tonya): Todos os anos, desde que eu era criança, eu tenho a tradição de assistir à premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ou seja, ao Oscar. Em alguns anos eu também assisti ao Globo de Ouro, mas sem tanta frequência. Esse ano, assisti a premiação dada pela associação dos jornalistas estrangeiros de Hollywood. E entre os filmes que eu vi serem apresentados, o que eu tive mais interesse de assistir logo foi esse I, Tonya.

Eu gostei da “pegada” da produção. Me pareceu um filme bastante direto e cheio de nuances, e foi exatamente isso que eu encontrei ao assistir a essa produção. Que filme interessante! Guardada as devidas proporções, ele me fez lembrar de Blue Velvet e de American Beauty, outros filmes que trataram com um bocado de ironia e um certo tom cínico o tão conclamado e “vendável” conceito de “sonho americano” ou de sociedade com “oportunidades para todos.

Voltar a falar sobre isso não é algo simples, especialmente na segunda década dos anos 2000, quando, aparentemente, cada vez mais pessoas se preocupam com as suas próprias vidas ou com dizer como os outros deveriam ser e menos com garantir que todos possam ser o que realmente desejam. I, Tonya é um filme muito interessante porque ele vai fundo na loucura dessa filosofia dos Estados Unidos. A busca constante por ser “a melhor”, a alta competitividade, a falta de justiça nas avaliações em algumas esferas da sociedade dependendo da sua classe social e uma série de abusos que uma mulher passava – e continua passando – na sociedade estão nessa produção.

Ou seja, antes de mais nada, I, Tonya é um filme corajoso. Ele trata de uma série de questões muito atuais e que merecem ser debatidas. Como fã extrema dos Jogos Olímpicos, esse filme me atraiu simplesmente pelo fato de contar a história de uma patinadora artística que chegou a competir duas vezes nas Olimpíadas de Inverno.

Como eu acompanho mais as Olimpíadas tradicionais e não as de Inverno, sou sincera em dizer que o nome de Tonya Harding não me trouxe lembranças imediatas. Mas quando, no final do filme, mostram algumas cenas da Tonya Harding original patinando quando ainda era jovem, tive uma leve lembrança sobre assistir, possivelmente nos anos 1990, algumas imagens da atleta quando saíram as notícias do envolvimento (ou não) dela no ataque à colega e rival de competições Nancy Kerrigan (interpretada por Caitlin Carver no filme).

Dito isso, imagino como esse filme significará algo diferente do que para mim para quem realmente conheceu a história de Tonya Harding e acompanhou a sua carreira nos anos 1980 e 1990. Como eu não era uma profunda conhecedora desta história quando ela aconteceu, me darei o direito de avaliar apenas o filme, tudo bem? Achei as escolhas do roteirista Steven Rogers e do diretor Craig Gillespie muito interessantes.

Para começar, esse filme faz uma junção interessante dos aspectos de um documentário com um filme biográfico. Assim, temos os atores interpretando as pessoas retratadas inclusive na reprodução dos depoimentos que elas deram para equipes de filmagens diversos anos antes. Interessante o trabalho de Gillespie ao mesclar esses “depoimentos” dados pelos personagens com sequências em que ele buscou reproduzir fatos que aconteceram com eles – e o mais interessante, segundo as diferentes óticas dos retratados.

Assim, esse filme, apesar de ter uma narrativa linear, não tem uma interpretação única. Os personagens e as suas histórias são bastante controversos e também contraditórios. Especialmente as óticas de Tonya e de Jeff divergem um bocado. A maioria das vezes, sobre as agressões que ela sofreu e sobre a violência vivida no casamento. Também existe um bocado de divergência entre as visões de Tonya e da mãe, Lavona. Claramente a relação entre elas era de abuso da mãe contra filha, mas sob a ótica de Lavona, ela apenas fez o que era necessário para tornar a sua filha uma “estrela”.

A história, por si só, é cheia de controvérsia. Ponto esse muito bem explorado pelo roteiro de Rogers. Como fã das Olimpíadas, esse filme me fez refletir ainda mais sobre como aqueles grandes atletas despertam uma imensa admiração ao mesmo tempo em que as pessoas que os admiram não sabem, na verdade, nada sobre eles. Sim, sabemos que eles se sacrificaram, e muito, para chegarem até lá. Para serem considerados atletas de elite. Mas não temos uma verdadeira ideia de todos os sacrifícios e da realidade pela qual eles passaram até uma medalha, um quarto ou oitavo lugar – estas dois últimas foram as posições em que Tonya ficou nas Olimpíadas de Inverno nas quais ela competiu.

I, Tonya revela de forma muito interessante como a vida foi dura para a protagonista. No início, ela amava patinar. Depois, ela seguiu fazendo isso por pressão da mãe e porque a patinação acabou sendo a única coisa que ela sabia fazer – e claro, ela ainda gostava disso, apesar dos pesares. Depois da introdução inicial da história que eu comentei acima, o filme retorna 40 anos no tempo e mostra o início da trajetória de Tonya, então com quatro anos de idade, na patinação.

A partir daí, vemos a garota “crescendo” sob os nossos olhos. Mas o tempo passa rápido entre a fase da infância, pré-adolescência e adolescência. Os anos que realmente interessam para a história foram aqueles em que Tonya começou a se destacar nas competições nacionais e a época que antecedeu o seu grande feito, que foi realizar o dificílimo Triple Axel no Campeonato Nacional dos EUA em 1991. Ou seja, a parte da história protagonizada pela excelente Margot Robbie – para mim, esta é a sua melhor interpretação até agora – começa nos anos 1980 e avança até a década de 1990.

Nos anos 1990, além de se tornar um destaque nacional e mundial por ter feito um Triple Axel, Tonya Harding se tornou uma figura conhecida por estar envolvida em um gesto extremo e absurdo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O então ex-marido/marido dela – a relação deles era de “ficar junto e separar” a cada estação, praticamente – e um amigo com toda a pinta de maluco, chamado Shawn (Paul Walter Hauser) estiveram por trás de um ataque contra outra competidora forte dos Estados Unidos, Nancy Kerrigan.

Após o ataque, claro que as suspeitas recaíram sobre Tonya. Afinal, o quanto ela sabia sobre o plano maluco do ataque à Nancy? Ela teria planejado aquilo junto com Jeff e Shawn? Qual foi o papel de cada um deles nessa trama desastrada e desastrosa? I, Tonya não responde a todas essas perguntas, apenas expõe as diferentes versões dos personagens sobre o mesmo fato. Verdade que isso nos deixa um pouco frustrados. Afinal, quem está falando a verdade e quem está apenas tentando salvar o próprio rabo?

Ao mesmo tempo que a falta de uma resposta conclusiva pode deixara o espectador um pouco frustrado, essa falta de resposta também mostra algo que é fato na vida: a verdade é feita de muitos pontos de vista. Fatos são fatos, mas a versão dos fatos são múltiplas. Quanto antes percebermos e aceitarmos isso, melhor para a nossa visão crítica e sanidade mental. 😉 Então esse filme tem a coragem de não nos dar respostas simples ou mesmo fechar a questão, mas apenas nos apresentar diversas óticas sobre o tal “incidente” que foi decisivo na vida de Tonya e dos demais – mas, principalmente, na vida dela.

Existem duas formas de encarar o que aconteceu: assumindo que Tonya era totalmente inocente e que realmente tudo o que ela topou fazer foi escrever ameaças para a rival das pistas de patinação; ou aceitar que ela estava de acordo com (ou mesmo ajudou a idealizar) o ataque. Não importa em qual “verdade” você acredite. Em qualquer uma destas versões Tonya concordou em usar uma estratégia equivocada e que extrapolou em muito o espírito esportivo de uma competição justa em condições similares para os competidores.

Fazer terrorismo psicológico ou promover um ataque físico contra a rival nas pistas de patinação só mostra em que nível Tonya levou a sua ânsia competitiva. E aí está a parte brilhante desse filme. Verdade que Tonya foi produto de uma realidade de abusos físicos e psicológicos praticados contra a mãe e o preconceito que ela sofreu dos juízes do esporte para o qual se dedicou a vida inteira, mas esses aspectos são, no fim das contas, fruto de que tipo de cultura? Esse é o ponto central dos questionamentos de I, Tonya.

Uma cultura em que é vendida a ideia de que o “o sol é para todos” desde que você se esforce ao máximo para isso mas que, na prática, não coloca essa filosofia na prática para todos – vide os negros, muitas mulheres e pessoas de classe média baixa dos Estados Unidos -, abre espaço para insatisfeitos e para extremistas que resolvem adotar práticas equivocadas para chegar aonde querem. Muitas pessoas vão seguir a linha do “fim justificam os meios”, e vão fazer de tudo para atingir o tal sucesso valorizado pela cultura da sua sociedade.

Isso é o que vemos em I, Tonya. Em certo momento, a protagonista comenta como ela está sendo amada – após o feito do Triple Axel. Depois, ela admite que com a mesma facilidade com que começou a ser amada, ela começou a ser odiada pelas pessoas. E é essa a sociedade daquele anos 1990 e, principalmente, destes anos 2017, 2018 e afins. As redes sociais potencializam essa “modernidade líquida” (vide Zygmunt Bauman) em que muitas pessoas flutuam, rapidamente, entre um extremo e outro.

Efeito das sociedades individualistas em que as pessoas pensam sempre em si mesmas antes de desenvolverem a capacidade de olhar para o outro de forma mais generosa e compreensiva. E é isso que vemos em I, Tonya. Além disso, observamos uma cultura de opressão e de violência doméstica. Tonya, que foi educada por uma mãe castradora e que abusava da filha através de violência física e emocional, acaba procurando no primeiro idiota que aparece pela frente a fuga daquela realidade.

E o que aconteceu? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O que acontece com muitas e muitas histórias reais nos Estados Unidos, no Brasil e em tantos outros países. Tonya procurou fugir dos abusos da mãe de forma tão desesperada que encontrou um abusador igual ou pior do que ela. Tonya seguiu apanhando e sendo mal tratada de todas as formas possíveis pelo marido do qual ela parecia ter uma grande dificuldade de se livrar. E por que ela tinha toda essa dificuldade? Em certo momento a própria Tonya afirma que tudo que ela queria era ser amada.

Certamente. Especialmente vindo de um lar desfeito e cheio de abusos por parte da mãe, tudo o que ela queria era ser amada. E qualquer migalha de amor lhe fazia justificar ficar perto de um espancador e abusador como Jeff. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Depois de perder tudo que era importante para ela, ou seja, a carreira na patinação artística, Tonya finalmente conseguiu se livrar realmente do marido e partiu para reiniciar a própria vida de uma outra forma.

Existe um momento no filme, mais no início da produção, em que Tonya afirma que ela acredita que as pessoas vem nela uma pessoa normal. Vinda de uma realidade difícil, cheia de problemas e de controvérsias, como acontece com tantas e tantas pessoas. Esse filme encanta por isso. Por trazer a história de uma pessoa real que foi do Céu ao Inferno em pouco tempo e que ajuda a explicar um bocado da cultura dos Estados Unidos – e de outras latitudes mundo afora.

Um filme realmente interessante, e que só não ganha uma nota maior do que a que eu vou dar abaixo porque eu estou naquela onda de ser “mais exigente” com as minhas avaliações. Mas saibam que esse patamar de nota já coloca o filme na categoria de “muito, muito bom” e próximo de “excelente” – depois desses níveis ainda vem as categorias “excepcional” e “imperdível”. 😉

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Olha, eu vou dizer para vocês. A minha expectativa de que eu veria interpretações excepcionais de Margot Robbie e de Allison Janney realmente se realizaram. Para mim, as duas atrizes estão excelentes. A exemplo do Globo de Ouro, eu vejo ambas sendo indicadas ao Oscar. Sei que elas terão pela frente o super badalado e “queridinho” dos críticos Lady Bird (comentado por aqui), com Saoirse Ronan e Laurie Metcalf liderando as respectivas bolsas de apostas. Mas, para o meu gosto, achei as interpretações de Robbie e de Janney mais potentes e dignas de prêmio do que os belos trabalhos de Ronan e Metcalf.

De fato, a disputa é difícil. Mas acho que mais até na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante do que na categoria de Melhor Atriz. Gosto de Saoirse Ronan, antes que alguém me questione que tenho alguma “bronca” pessoal contra ela. Mas comparando as interpretações de Ronan em Lady Bird e de Margot Robbie em I, Tonya, sem dúvida alguma o meu voto iria para Robbie. Agora, entre Allison Janney e Laurie Metcalf, acho que existe praticamente um empate técnico. Vejo como sendo uma escolha justa tanto uma quanto a outra ganhar a estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

As duas atrizes se destacam por suas interpretações em I, Tonya. Para mim, elas roubam a cena toda vez em que aparecem. Mas, além delas, vale citar o bom trabalho dos seguintes atores: Sebastian Stan como o marido agressor da protagonista, Jeff Gillooly; Julianne Nicholson muito bem como Diane Rawlinson, primeira treinadora de Tonya; Paul Walter Hauser como Shawn, amigo de Jeff e que se considerava o “guarda-costas” de Tonya; Bobby Cannavale como Martin Maddox, jornalista que acompanhou a carreira de Tonya e as polêmicas envolvendo ela; Bojana Novakovic como Dody Teachman, treinadora de Tonya quando ela fez o primeiro Triple Axel; Caitlin Carver como Nancy Kerrigan; a encantadora Maizie Smith como Tonya aos quatro anos de idade; Mckenna Grace como Tonya entre os oito e os 12 anos de idade; Ricky Russert como Shane Stant, o agressor de Nancy; e Anthony Reynolds como Derrick Smith, o motorista do atentado contra Nancy.

Como acontece com muitos filmes que são baseados em histórias reais e/ou com períodos que realmente aconteceram na História, logo após assistir I, Tonya, fui atrás de mais informações sobre Tonya Harding. Foi aí que eu encontrei muuuuito material sobre ela na internet. Para os curiosos a respeito, há desde vídeos como esse, publicado no YouTube, que mostra quando ela fez o Triple Axel pela primeira vez, em 1991, no Campeonato Nacional dos EUA; até reportagens como esta da ABC que tratam sobre o que aconteceu com Tonya desde que ela fez o seu grande feito. Enfim, há um grande material sobre ela na internet. Basta pesquisar para você encontrar muuuita coisa e tirar as suas dúvidas.

Vendo aos dois links que eu mencionei, assim como outros materiais, percebi melhor que I, Tonya, apesar de mostrar diferentes depoimentos e pontos de vista, acaba tendo muito o tom da perspectiva de Tonya sobre os fatos. O que é uma escolha bacana também, porque assim o filme acaba defendendo a visão da mulher que passou por um bocado – e que, ainda que tenha sido corrompida pela ideia de sucesso, pagou todo os preços por suas escolhas. As boas e as ruins.

Para quem ficou curioso(a) para saber mais sobre o Triple Axel, encontrei esse artigo na Wikipédia (em inglês) que trata sobre este salto e suas características. Vale a leitura.

Uma curiosidade sobre esta produção. Em certo momento, no início do filme, Jeff Gillooly comenta que, aos 27 anos de idade, ele era a “pessoa mais odiada da América, talvez do mundo”. Interessante como I, Tonya revela esta outra faceta dos americanos. Como eles acreditam que realmente o que eles fazem se tornam algo marcante não apenas nos Estados Unidos, mas no mundo. Realmente eles tem uma perspectiva sobre a realidade muito particular – para dizer o mínimo.

O roteiro e os diálogos de I, Tonya são dois dos pontos altos do filme. O linguajar da maioria dos personagens não é polido, até porque eles vieram de realidades um tanto quanto agrestes. O filme vai direto ao ponto e faz pensar. Um exemplo do diálogo interessante dessa produção está no momento em que Tonya comenta sobre “os juízes frígidos” que buscam a versão antiquada de como uma mulher deveria ser. De fato, se existiu – ou ainda existe – preconceito sobre como deve se comportar uma mulher para ser valorizada em um esporte cheio de regras não ditas como a patinação artística, o problema está nas associações e nos juízes que julgam e não nas atletas que não se “encaixam” em um perfil distante do que se espera do esporte e da meritocracia tão promulgada e tão pouco praticada.

Uma das qualidades mais marcantes desse filme, além das interpretações de Margot Robbie e de Allison Janney, é a excelente trilha sonora de Peter Nashel. Uma verdadeira viagem no tempo, emocional e marcante ao mesmo tempo. Muito boa também a direção de Craig Gillespie, que dá uma aula de escolhas acertadas em cada sequência do filme; o roteiro bem escrito, com narrativa envolvente e cheia de recursos de Steven Rogers; e a expressiva e interessante direção de fotografia de Nicolas Karakatsanis – ele é fundamental para marcar os tempos desta produção.

Sério. Ouçam a trilha sonora. Ela é fantástica! Um verdadeiro deleite para quem viveu os anos 1980 e 1990. 😉

Além desses elementos técnicos, vale comentar o bom trabalho de Jennifer Johnson nos figurinos; de Tatiana S. Riegel na edição; de Jade Healy no design de produção; de Andi Crumbley na direção de arte; de Adam Willis na decoração de set; e dos 13 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem.

O diretor Craig Gillespie tem 10 títulos no currículo. A história dele na direção começou em 2007 com Mr. Woodcock. No mesmo ano, ele dirigiu a Lars and the Real Girl. Ele ganhou prêmios por comerciais que dirigiu e por filmes como Lars and the Real Girl, Millon Dollar Arm e The Finest Hours. Mas I, Tonya, que eu me lembrei, é o primeiro filme dele que eu assisto. Acho que ele pode apresentar coisas interessantes daqui para a frente. A conferir.

I, Tonya estreou em setembro no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou, ainda, de outros 11 festivais em diferentes países. Em sua trajetória até o momento, I, Tonya ganhou 23 prêmios e foi indicado a outros 72. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante em Filme para Allison Janney; para 5 prêmios de Melhor Atriz para Margot Robbie; para 14 prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Allison Janney – sem contar o Globo de Ouro; para o prêmio de Melhor Elenco do Ano no Hollywood Film Awards; e para o prêmio de Melhor Narrativa no Key West Film Festival.

Agora, algumas curiosidades sobre esse filme. A atriz Margot Robbie fez parte de uma liga amadora de patinação quando era mais jovem, mas treinou mais seriamente para fazer o papel de Tonya com a coreógrafa Sarah Kawahara – que treinou, na vida real, Nancy Kerrigan. Ainda assim, claro, a sequência do Triple Axel não foi feita por ela. Para reproduzir esse difícil salto, o diretor utilizou cenas filmadas com Margot e complementada por computação gráfica.

A atriz Margot Robbie é apenas cinco centímetros mais alta que Tonya Harding.

O crítico de cinema, ator, diretor e escritor Caillou Pettis colocou I, Tonya como o terceiro filme, de uma lista de 20, que ele mais gostou de 2017.

Tonya Harding gostou da produção I, Tonya, mas disse que tem dois aspectos que o filme mostra e que ela disse que não são reais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, ela disse que não xinga a cada 10 segundos como a personagem que a retrata na produção. Depois, ela disse que não chegou a confrontar o júri de uma das competições, chegando a xingá-los, como I, Tonya mostra. No mais, ela achou o filme excelente.

De acordo com o site Box Office Mojo, I, Tonya faturou pouco mais de US$ 7,6 milhões nos Estados Unidos. Uma bilheteria ainda pequena. Não encontrei informações sobre os custos da produção, mas me parece que falta arrecadação maior nas bilheterias para ele começar a dar lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 174 textos positivos e 21 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,9. Especialmente o nível das notas dos dois sites está muito bom, acima do padrão das duas páginas.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso I, Tonya passa a figurar em uma lista de filmes que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme sem papas na língua e que procura revelar todos os aspectos da vida de uma atleta americana que se tornou famosa não apenas pelos seus feitos no esporte, mas também por aparecer nas páginas policiais. Misturando ficção com o tom de documentário, I, Tonya apresenta uma história interessante que revela muito sobre as limitações do tão conclamado “sonho americano”. Até hoje existem “esportes de elite” e distinção entre posições na sociedade que alguns insistem em preservar. Este filme também trata sobre os diferentes abusos que uma mulher pode passar durante a vida e como ela pode superá-los. O roteiro é bem escrito e direto, e o filme tem uma direção bem conduzida e ótimas interpretações dos atores principais. Mais uma produção que merece ser vista nesta safra do Oscar 2018.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Sigo aqui no desafio de assistir ao máximo de filmes com chances de ganhar um Oscar nesse ano. Missão divertida essa, eu admito. 😉 I, Tonya pode ser indicado em mais de uma categoria. Mas ainda é difícil de acertar na mosca sobre as chances desse filme ou de qualquer outro. Mas vou falar sobre o que as bolsas de apostas e os especialistas nas premiações dos EUA nos apontam.

As maiores chances de I, Tonya no Oscar 2018 estão nas indicações nas categorias de Melhor Atriz para Margot Robbie e de Melhor Atriz Coadjuvante para Allison Janney. Seria uma surpresa se as duas atrizes não forem indicadas. O filme também pode emplacar indicações nas categorias Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Figurino, Melhor Edição e Melhor Maquiagem e Cabelo.

Mas em quais destas categorias I, Tonya realmente tem chances? Acredito que em Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Maquiagem e Cabelo. Ainda preciso ver a alguns filmes que estão bem cotados no Oscar, mas entre Saoirse Ronan e Margot Robbie, acho que a segunda merece mais a estatueta. Para resumir, vejo esse filme sendo indicado em três ou quatro categorias e ganhando uma ou duas – mas podendo também sair de mãos abanando. Logo mais, nós saberemos. 😉

Blue Jasmine

BlueJasmin OneSheet_Blue Jasmine - One Sheet

Uma mulher que sabe bem o lugar importante que ela deve ocupar no mundo. Não por mérito próprio, mas porque ela há de encontrar e encantar um homem que possa proporcionar-lhe a vida de rainha que ela merece. Blue Jasmine foi feito para uma mulher brilhar, e esta mulher se chama Cate Blanchett. A personagem dela é sobre a qual me refiro no início deste texto.

Como o sol e os demais planetas, é ela que aguarda que o mundo gire ao seu redor. Woody Allen faz, mais uma vez, um filme para que uma atriz de renome brilhe e tenha a carreira marcada por seu desempenho. Demorei para assistir a este filme. Gostei dele, mas não encontrei em Blue Jasmine todas as qualidades que eu esperava.

A HISTÓRIA: Um avião corta os céus dos Estados Unidos. Dentro dele, Jasmine (Cate Blanchett) conta para a passageira ao lado (interpretado por Joy Carlin), que ela nunca conheceu um homem como Hal (Alec Baldwin). Ela fala da vida que teve com ele, e como se sentia especial ao seu lado. Lembra como tocava a música Blue Moon quando eles se conheceram, e a mulher ao lado parece embarcar na história.

Jasmine diz que deixou a faculdade para ficar com Hal, mas que não perdeu nada porque ela não se imaginava como uma antropóloga. Na saída para pegar a bagagem, ela diz que o sexo entre eles sempre foi bom. Ela também conta que os médicos tentaram seis medicamentos com ela, mas que nada funcionou como deveria. Nesta parte, a mulher ao lado dela parece um pouco desconfortável. E é desta maneira, um tanto deslocada, que Jasmine tentará refazer a vida em San Francisco.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Blue Jasmine): Devo adiantar para vocês que vou cometer algumas “heresias” neste texto. Mas há uma justificativa para elas – mesmo que vocês possam discordar dos argumentos.

Como eu disse antes, demorei um bocado para assistir a Blue Jasmine. Uma prova disso é que vi a quase todos os principais concorrentes ao próximo Oscar, incluindo Gravity (comentado aqui no blog), assim que ele estreou nos cinemas, mas perdi o momento de Blue Jasmine. Pouco a pouco, contudo, fui acompanhando como Cate Blanchett foi ganhando todos os prêmios da temporada por causa do desempenho neste filme, e como ela é a virtual favorita para o próximo Oscar, fui obrigada a assistir a este filme.

E francamente? Vi a mais uma produção com a marca do Woody Allen. E aí vai o primeiro sacrilégio deste filme: nunca achei nada demais na filmografia de Allen. Um indicativo disto é que não tenho nenhum de seus filmes como um dos meus preferidos de todos os tempos. Outros diretores, muito menos “badalados”, me “afetam” ou me convencem muito mais em sua forma de contar uma história.

Dito isso, feito este parêntesis, Blue Jasmine é mais um filme bem escrito por Woody Allen. Outra vez, este diretor com marca registrada muito própria, escolheu um tema específico para escrever um roteiro bacana sobre ele. No caso de Blue Jasmine, ele se debruça nas mulheres de escroques que vivem uma vida de primeira a custa dos outros – ou seja, não são ricos por mérito, mas por exploração. E há quem diga que não há rico por mérito… mas esta é outra história.

A personagem principal deste filme, vivida por Blanchett, Jeanette ou Jasmine (o segundo nome por escolha própria), encarna aquele tipo de mulher que acha que a função que tem na vida é encontrar um homem endinheirado pra sustentá-la. Isso porque ela faz uma avaliação de si mesma muito específica: ela merece ter o bom e o melhor. Mas diferente de outras mulheres, Jasmine não acha que conseguirá isso por conta própria – afinal, tudo é muito complicado, especialmente batalhar pela própria sobrevivência e/ou vida boa.

No filme de Allen, encontramos Jasmine após a “tragédia”. Mesmo não tendo me fascinado tanto quanto deveria, o roteiro de Blue Jasmine tem um mérito: ele sabe ir e vir do presente para o passado com suavidade e no momento exato. Assim, pelas lembranças da protagonista, voltamos sempre para a época na qual Hal estava vivo para acompanhar momentos que pudessem ou não sinalizar a inocência ou o conhecimento de Jasmine sobre tudo o que acontecia.

Aliás, esta parece ser a premissa principal do filme. Afinal, o quanto alguém pode ser inocente frente a tanto dinheiro sem uma justificativa plausível para ele existir? As mulheres dos ricaços que ganham verba de forma escusa de fato não sabiam de nada ou fingem não saber? A responsabilidade de Jasmine sobre tudo o que aconteceu e o “preço” que ela paga por ter se feito de cega move a trama, na mesma medida que a tentativa da personagem em se “reerguer”.

Achei especialmente interessante como ela tenta fazer a vida por “conta própria”. No fundo, como fica comprovado, ela apenas tenta fingir que vai tentar um caminho alternativo. Ela é daquela “espécie” de mulher que não quer um grande esforço. O ideal, para este perfil, é que surja pela frente um marido rico e que possa suprir todas as suas demandas.

Não vou julgar uma pessoa que siga esta linha. Até porque há várias mulheres assim. Mas francamente? Não vejo na dependência de outra pessoa, neste caso um “marido-provedor”, a saída para um ser humano. Afinal, cadê a independência, a autonomia? Como eu posso me sentir uma pessoa completa e capaz se não consigo crescer e me manter por conta própria? Acho ótimo e primordial dividir a vida e o que se sabe com os outros – ou com uma pessoa especificamente. Mas a dependência é sempre ruim – porque torna as pessoas superficiais e sem identidade.

Demora, mas lá pelas tantas Jasmine percebe isso. Só que talvez seja tarde demais para ela… Será? Francamente, para quem está disposto a “mudar a chave”, nunca acho que seja tarde demais para nada. Muito menos para tomar as rédeas da própria vida nas mãos. Mas o que faz a protagonista deste filme?

(SPOILER – não leia se você não assistiu a Blue Jasmine). Ela busca o primeiro cara que possa lhe manter na vida boa assim que possível. Assim, naturalmente, ela agarra a oportunidade que uma festa lhe dá e tenta segurar o bom partido Dwight (Peter Sarsgaard). Como tantas pessoas na vida real, fora desta ficção, Jasmine conta apenas parte da própria história. E exagera outras partes. O suficiente para convencer Dwight que ela também é um bom partido. E no fim das contas, quantas relações não surgem e são mantidas através de um cálculo impreciso de troca de benefícios?

Woody Allen sustenta Blue Jasmine com a mesma lógica de tantos outros de seus filmes. Ele tem ótimos acertos em algumas cenas, enquanto na maior parte do tempo procura transportar para a telona o supra-sumo de uma realidade que ele já encontrou na vida. E com a qual nos deparamos também, uma hora ou outra, se formos um pouco atentos.

Como manda a regra de um roteiro de Allen, há algumas sequências verdadeiramente impagáveis. A minha preferida é quando a “tia” Jasmine desabava com os sobrinhos Matthew (Daniel Jenks) e Johnny (Max Rutherford) em uma lanchonete. A cara de constrangidos dos dois, que todos nós já tivemos frente a alguma confissão de um parente “cheio da cachaça”, é impagável. Assim como a interpretação de Blanchett.

Possivelmente, o ponto forte do filme, junto com a “reviravolta” no roteiro perto do final. Para o meu gosto, que vejo Woody Allen um tanto supervalorizado na maior parte do tempo – ainda que devo admitir que ele mantém uma coerência rara para um diretor de Hollywood em sua filmografia -, a nota abaixo se justifica especialmente pela “sacada” do roteiro a partir do reencontro de Jasmine com o enteado Danny (Chalie Tahan quando criança, Alden Ehrenreich quando adulto). Porque, naquele momento, o espectador tem a resposta sobre a “inocência” de Jasmine. Como diz aquela lenda, nada pior do que a vingança de uma mulher traída.

Finalizando, Blue Jasmine é um filme típico de Allen, com algumas sequências muito bem construídas, uma ótima escolha de elenco – Sally Hawkins como Ginger, para mim, é a surpresa positiva da produção -, um roteiro que sabe focar uma parte específica da sociedade com humor e a duração exata. Mais que uma hora e meia de filme seria pedir demais. Mas Blue Jasmine funciona bem em seu tempo de duração, ainda que não seja nenhuma produção verdadeiramente marcante.

NOTA: 8,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Há uma lenda de que Woody Allen sempre faz filmes para as “atrizes da vez” brilharem. Sabendo que tais atrizes são aquelas que ele escolhe a dedo. Francamente, acho que Cate Blanchett está bem neste filme, mas não vejo que ela faça o trabalho da vida dela aqui. Como já vi acontecer recentemente com outras atrizes que passam pelas “mãos” de Woody Allen. Ainda assim, e isso é fato, ele sabe dirigir bem os atores que participam de suas produções.

Neste filme, além de Cate Blanchett, que literalmente vive a personagem que faz os demais orbitarem ao seu redor, gostei muito da entrega de Sally Hawkins. De uma maneira muito discreta, nada espalhafatosa, Hawkins encarna bem o papel da irmã que se sente sempre eclipsada. Além das duas, que se destacam na produção, acho que Alec Baldwin segura bem no papel de Hal, assim como Andrew Dice Clay está bem como Augie – especialmente na sequência em que ele fala algumas verdades para Jasmine quando ela está para comprar o anel de noivado.

Outros que merecem ser mencionados pelo bom trabalho: Bobby Cannavale como Chili, o novo namorado de Ginger que está louco para Jasmine sair da casa para que ele possa viver com a namorada; e Louis C.K. como Al, o homem que Ginger conhece em uma festa e que, francamente, está na cara que é casado. Também está bem, ainda que apareça pouco, o trabalho de Max Casella como Eddie, o amigo de Chili que é “escalado” para um encontro com Jasmine, e o “eterno esquisitão” Michael Stuhlbarg como o Dr. Flicker, o dentista com quem a protagonista vai trabalhar.

A marca de Woody Allen se manifesta logo nos primeiros minutos do filme. Aquela crônica de uma conversa desconcertante no avião é típica do diretor. Quem nunca teve que “aguentar” uma pessoa que gosta de falar a vida inteira para um desconhecido? Algo constrangedor, mas bastante realista. Ainda mais nos tempos atuais, em que a tecnologia ajuda as pessoas a “desabafarem”. Para mim, um sintoma importante da falta de contato, de afeto e de intimidade que as pessoas tem umas com as outras em muitos momentos – e daí, como “válvula de escape”, fica mais “fácil” (bem entre aspas) falar com desconhecidos sobre coisas muito pessoais. O que é quase o mesmo que falar sozinho – como Blue Jasmine bem argumenta.

Grande apreciador de jazz, Woody Allen nos entrega, mais uma vez, uma trilha sonora embalada pelo gênero. Algo que sempre funciona, assim como os créditos iniciais e finais de seus filmes. Eles resgatam os créditos dos anos 1950 e 1960, principalmente.

Agora, um adendo aos comentários anteriores sobre o filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Blue Jasmine). Ainda que Jasmine faça o perfil de mulher “interesseira”, ou seja, daquela mulher que prefere se anular para não passar trabalho de correr atrás do próprio dinheiro e ser mantida por um homem, chega a incomodar o machismo que a circula. Não apenas em comentários maldosos de Chili, que não alivia em momento algum em “jogar verdades” na cara de Jasmine, mas também na forma com que homens como o Dr. Flicker a trata. Até parece que todos no filme esperam que o futuro inevitável da mulher – e não apenas de Jasmine – seja se entregar e depender de um homem. Triste e limitante cenário.

Da parte técnica do filme, sem dúvida destaco a trilha sonora, a edição de Alisa Lepselter e os figurinos de Suzy Benzinger. Outros nomes que podem interessar: Javier Aguirresarobe como diretor de fotografia; Santo Loquasto assinando o design da produção; Michael E. Goldman e Doug Huszti na direção de arte; Kris Boxell e Regina Graves na decoração de set; e a maquiagem da equipe comandada por Karen Bradley e Linda Kaufman.

Blue Jasmine estreou em Los Angeles e em Nova York no dia 26 de julho de 2013. Depois, o filme participaria do Traverse City Film Festival no dia 30 de julho. A produção passou ainda por outros seis festivais e recebeu, até o momento, 21 prêmios e foi indicado a outros 36, incluindo três Oscar’s. Entre os que recebeu, destaque para o Golden Globe de Melhor Atriz – Drama para Cate Blanchett, para o Screen Actors Guild de Melhor Atriz também para Blanchett e para outros 18 prêmios que a atriz recebeu pelo papel como Jasmine.

Esta última produção de Woody Allen teria custado US$ 18 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 33,2 milhões. No restante dos mercados aonde o filme já estreou, ele faturou cerca de US$ 61,6 milhões. Um bom desempenho, e que garante mais um sucesso para a filmografia de Allen.

Blue Jasmine foi rodado em Nova York, em San Francisco e em diferentes cidades da Califórnia.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: a figurinista Suzy Benzinger tinha um orçamento de apenas US$ 35 mil. Apenas a bolsa Hermès que Jasmine carrega valia mais do que isso. Desta forma, Benzinger precisou conseguir emprestada não apenas a bolsa, mas a maioria das roupas de grife que aparece na produção.

As atrizes Cate Blanchett e Sally Hawkins foram as únicas do elenco a terem o script completo durante as filmagens. Os demais atores tiveram que improvisar bastante.

Inicialmente, o ator Bradley Cooper tinha sido sondado para fazer um papel no filme, mas por conflitos de agenda ele acabou ficando de fora do projeto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para Blue Jasmine. Uma boa avaliação, mas abaixo de vários concorrentes do filme no Oscar. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 176 críticas positivas e apenas 17 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 8.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme entra na lista de produções que atende a uma votação feita aqui no blog.

CONCLUSÃO: A mulher elegante que fala sozinha e que conta, para quem quiser ouvir, detalhes da própria vida, ganhou um filme em sua homenagem. Blue Jasmine persegue os passos desta mulher quando ela não tem mais o que tinha. Um filme bem contado, com a duração exata, e com algumas cenas impagáveis. Bem ao estilo de Woody Allen. E ainda que a consagrada Cate Blanchett brilhe em seu papel, fica complicada a comparação. Digo isso não apenas porque ela concorre com nomes incríveis no próximo Oscar, mas também porque as entregas das atrizes que estão disputando o prêmio mais vistoso de Hollywood são muito diferentes. Mas falarei sobre isso logo mais, no tópico abaixo.

Sobre o filme… é uma história interessante, que foca uma parte menos “visível” da mentirosa classe alta e que vive de golpes. A mulher frágil não é idiota, ainda que seja feita de muita complexidade. Allen, como em outros filmes, vai esmiuçando a alma da protagonista e, através desta lente apurada, percebemos as suas relações, conhecemos os seus desejos e limites. Mais um filme humano, demasiado humano, e que trata dos efeitos irreversíveis que uma vida de escolhas equivocadas pode provocar. O inferno não são os outros, segundo Blue Jasmine. Bem escrito, envolvente, só não tem a potência para ser inesquecível. Há filmes melhores de Blanchett e Allen – separados – no mercado.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Impressionante como Cate Blanchett “papou tudo” por causa de seu desempenho em Blue Jasmine. A atriz, uma das melhores de seu geração, para o meu gosto, ganhou os principais prêmios da temporada por seu trabalho como Jasmine. Ela merece toda esta badalação? Sem dúvida, Blanchett está perfeita neste filme. E também merece qualquer prêmio pelo conjunto da obra. Mas e as outras concorrentes no Oscar?

Antes de falarmos delas, vamos relembrar para quais estatuetas Blue Jasmine foi indicado: Melhor Roteiro Original, Melhor Atriz para Cate Blanchett e Melhor Atriz Coadjuvante para Sally Hawkins. Destas indicações, a única que pode dar um Oscar para o filme é mesmo a indicação de Blanchett. Acompanhei as últimas premiações e reparei em como ela ganhou todos os prêmios – do Globo de Ouro até o Screen Actors Guild, os dois principais na corrida pré-Oscar.

Talvez por saber disto e por acompanhar a carreira de Blanchett, eu esperava mais dela em Blue Jasmine. Certo, alguém pode dizer que eu estou cometendo uma heresia. Mas não me entendam mal. Não quero dizer que ela não esteja muito bem no papel. O filme é dela – e foi feito desta forma, como tantos outros filmes de Allen que são planejados para a atriz protagonista brilhar (e as demais atrizes da produção também).

Mas é que com tantos prêmios recebidos, eu estava esperando uma interpretação acima de qualquer dúvida, de qualquer suspeita. E não foi isso que eu vi. Ainda preciso assistir ao trabalho de outras duas feras para concluir definitivamente sobre a categoria Melhor Atriz: Meryl Streep e Judi Dench. Mas apenas comparando o trabalho de Blanchett, de Amy Adams (American Hustle, comentado aqui no blog) e de Sandra Bullock (Gravity), acho que a Academia deveria premiar a… Bullock.

Sim, nem eu acredito que escrevi isso. Em qualquer situação eu acho Blanchett melhor que a Bullock. Mas desta vez, mesmo achando o roteiro de Gravity fraco, vejo uma entrega muito maior de Bullock que de Blanchett em seus respectivos filmes. Blue Jasmine não é o papel da vida de Blanchett. Mas talvez seja o filme em que Bullock mais se esforçou. De qualquer forma, acho que seria uma zebra Blanchett perder esta. E não será injusto, por tudo que ela já fez no cinema – e, até agora, ela nunca recebeu um Oscar como Melhor Atriz, apenas como Melhor Atriz Coadjuvante. Está na hora dela ganhar, é claro.

Dito isso, não estarei torcendo por ela na noite do Oscar. Mas também não acharei nada injusto se a Academia lhe fizer justiça. Nas outras categorias em que o filme está concorrendo, não vejo chances em Melhor Atriz Coadjuvante – onde a estatueta está sendo disputada a tapas por Lupita Nyong’o (de 12 Years a Slave, que eu comentei neste texto) e por Jennifer Lawrence (de American Hustle) – e nem em Melhor Roteiro Original.

Neste último, francamente, acho que o prêmio deveria ir para Her (comentado por aqui) ou para Dallas Buyers Club (para o qual você encontra uma crítica aqui). Ainda que American Hustle – que jamais seria o meu voto – possa surpreender. Mas Blue Jasmine… ainda que tenha um texto muito bom, corre por fora. No dia 2 de março nossas dúvidas serão respondidas.

Lovelace

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A história de uma mulher que marcou o debate público dos Estados durante uma década, aproximadamente, entre o início dos anos 1970 e dos anos 1980. E ela não fez isso de forma planejada. Mas quando se viu frente aos holofotes, resolveu tomar uma atitude e mudar a rota previsível. Usando literalmente a garganta, seja para ganhar dinheiro ou para denunciar, Linda Lovelace chocou a opinião pública norte-americana, dividiu opiniões, criou furor no setor da pornografia e, agora, rendeu a cinebiografia que leva o seu nome artístico. Lovelace conta a história desta mulher, trazendo uma Amanda Seyfried um pouco mais ousada do que o seu público está acostumado a presenciar.

A HISTÓRIA: Sonzeira e um retroprojetor de um cinema qualquer. Na frente dos espectadores, o início do filme Deep Throat, de 1972. Após aplausos, uma voz apresenta a protagonista do filme: Linda Lovelace (Amanda Seyfried). Corta. Ela aparece fumando em uma banheira, pensativa. Junto com a música alta, um trecho de uma entrevista de Linda, quando lhe perguntam qual é a história dela antes de tornar-se uma estrela de filme pornô e a garota-propaganda da revolução sexual nos Estados Unidos. Corta. Na televisão, o apresentador constata que Deep Throat tornou-se um dos filmes de maior êxito do cinema e que um tribunal de Manhattan havia considerado a produção obscena e exigido que ela saísse de cartaz dos cinemas de Nova York. A pergunta sobre quem é a real Linda Lovelace conta a história da mulher na banheira, protagonista de um dos filmes pornô mais polêmico de todos os tempos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Lovelace): Eu perdi o filme Deep Throat, mas tinha ouvido falar dele. Francamente, os filmes pornô nunca foram o meu forte. 🙂 Sempre preferi outras opções nas videolocadoras, quando elas eram a minha alternativa mais frequente para assistir a filmes diferentes – antes da proliferação dos cinemas e de outras formas de conseguir produções de todos os tipos. Mas interessada pela história do cinema mundial, impossível não ter ouvido falar da conhecida Garganta Profunda.

Ainda assim, até Lovelace, eu não sabia nada sobre a história da protagonista do conhecido filme do cinema pornô. Não sabia, por exemplo, que ela tinha virado uma inusitada ídola de parte do movimento feminista. Algo difícil de acreditar se pensarmos em uma estrela do cinema pornô – já que este tipo de filme, originalmente, guardada as devidas exceções, plasma um tipo de degradação da mulher difícil de ser aceita por quem defende a valorização do “sexo frágil”.

Pois bem, tudo em Lovelace foi novidade para mim. E admito, me fez mergulhar na história da mulher “homenageada” com a produção depois que o filme terminou. E foi aí, vendo a vídeos originais dela, que eu percebi com toda a clareza o que tinha apenas desconfiado antes: Lovelace fica muito aquém do que poderia ter sido se os realizadores tivessem sido um pouco mais ousados.

O primeiro elemento que chama a atenção nesta cinebiografia sobre a estrela de Deep Throat é a trilha sonora. Excelente, por sinal. Em seguida, ganha destaque a direção de fotografia e a ambientação de Lovelace nos anos 1970. Não por acaso, esta produção me lembrou demais a Boogie Nights. E, guardada a devida proporção, Amanda Seyfried me lembrou bastante a Julianne Moore no filme de 1997 que tem a mesma “identidade” deste novo filme. Menos puritano e simplista que Lovelace, Boogie Nights, contudo, é melhor.

Aliás, Amanda Seyfried caminha para o aprimoramento da própria carreira. Ela claramente está selecionando papéis de gêneros muito diversos e, como fez antes a própria Julianne Moore, incluiu nesta diversificação papéis mais “ousados” na mescla entre violência e sexo. Para os fãs da atriz, o importante é que ela se sai bem em Lovelace e passa no teste. Ela e o experiente e normalmente acima da média ator Peter Sarsgaard são o melhor deste filme dirigido pela dupla Rob Epstein e Jeffrey Friedman.

A direção deles também vai bem. Eles focam as atenções no trabalho dos atores e confiam em uma equipe técnica que sabe o que está fazendo. Mas o problema de Lovelace é realmente o roteiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Andy Bellin procurou a via do exagero no drama, especialmente no “resgate familiar” que Linda procura no final da produção. Mas ao valorizar as lágrimas de crocodilo dos pais da protagonista, a roteirista deixou de fora uma contextualização sobre a protagonista que faz falta para o filme. Teria sido muito mais interessante, por exemplo, explicar melhor porque Linda Lovelace foi tão importante para o debate da pornografia nos Estados Unidos. Uma forma de fazer isso seria reencenar debates na televisão com ela, assim como a exposição de Chuck (Peter Sarsgaard) na imprensa.

Mas não. A roteirista prefere o caminho do sentimentalismo barato e previsível. Com isso, o filme perde em informações e também no impacto. Fica mais superficial do que poderia, e torna a história de Linda Lovelace menos interessante. Para solucionar este problema, só mesmo partindo para uma pesquisa por sua própria conta. Há alguns vídeos no YouTube com a personagem principal desta trama e com o marido bandido dela que valem ser vistos.

Sobre a narrativa de Lovelace, gostei do roteiro ter começado nas vésperas da mudança definitiva na vida da protagonista, mais precisamente em 1970, quando Linda tinha 21 anos. O filme foca a casa em que ela residia com os pais, Dorothy (Sharon Stone) e John Boreman (Robert Patrick) e, na sequência, apresenta a melhor amiga de Linda, Patsy (Juno Temple), e o primeiro encontro delas com Chuck. Até aí tudo muito bem, com algumas ressalvas – sobre as quais falarei em seguida.

Um acerto do roteiro de Bellin foi contar a história de Linda sob a ótica “otimista”, que é a que o grande público conheceu e predominou em um primeiro momento, para depois retornar no tempo histórico para contar os outros matizes do que havia acontecido – e em tons muito mais obscuros. Esta foi uma escolha interessante e que dá fôlego para a produção chegar até o final despertando interesse. Ainda assim, o desfecho de Lovelace carece de impacto. No lugar do melodrama, sem dúvida, teria sido mais interessante refilmar os debates televisionados, como eu comentei antes.

Agora, as ressalvas que faço do início do filme e de alguns trechos posteriores. Para começar, vamos combinar que é beeeem exagerada a versão de que Linda era quase uma puritana, não é mesmo? Logo no início do filme, ela fica um tanto “escandalizada” com a amiga Patsy falando de boquete e querendo, no quintal da casa de Linda, liberar o laço do biquíni para que elas não ficassem com o bronzeado perfeito comprometido. Daí, depois, ela abraça todas as fantasias sexuais de Chuck e vira uma especialista no boquete? Difícil de acreditar, não é mesmo?

Essas cinebiografias que procuram “santificar” o homenageado me cansam. Um filme do gênero fica realmente interessante se tenta abarcar todas as facetas de quem é retratado. Além de falhar neste quesito no início da produção, tornando Linda puritana demais, Lovelace exagera nos tons dos pais da protagonista, displicentes até quase o exagero, assim como na exigência de “redenção” deles no final. Certo que ela se reaproximasse dos pais, mas daquela forma tão “perfeitinha”? Outros pontos da história real de Linda também ficam de fora, como a relação forçada que ela acaba desenvolvendo com Sammy Davis Jr. (interpretado por Ron Pritchard em uma ponta).

Além disso, o filme apenas cita a guerra entre o lado mais puritanista e o “safado” da cultura e da política norte-americana. Nixon até aparece em algum vídeo, aqui e ali, mas o filme nem esboça uma contextualização sobre a importância que Deep Throat teve na derrocada do presidente norte-americana. Não foi por acaso que Walter Mark Felt, informante-chave dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein no Caso Watergate recebeu o apelido de Deep Throat. O filme era sensação na época.

Mesmo com estas falhas e desperdícios do roteiro, Lovelace retoma uma história interessante. E que me fez lembrar outro tipo de comparação extremista. Afinal, como o Capitão Nascimento de Tropa de Elite um dia criticou as pessoas que compram drogas por alimentar a violência e os mais diferentes crimes, quem gasta dinheiro com pornografia está, da mesma forma, promovendo a degradação humana nas mais diferentes formas. Muitos podem argumentar que esta é uma visão exagerada e que a base de comparação não é a mesma.

Bueno… cada um pensa de uma forma e encaminha a vida de uma maneira. Da minha parte, acho estes argumentos extremistas válidos. No caso das drogas, acho muito mais válido quem planta o seu próprio pé de maconha para consumo do que quem paga para ter o produto para um traficante – que sim, está envolvido nos mais diferentes tipos de crime. Da mesma forma, vejo como legítimo o estilo “galinha” de ser, dos eternos insatisfeitos pelo prazer e que pulam de galho em galho atrás de sexo. Melhor do que aqueles que pagam por sexo ou que consomem pornografia porque há muitas pessoas por trás destas práticas que vivem de violência dos mais diferentes tipos.

Não compartilho, pessoalmente, de nenhuma destas práticas, mas entendo quem faça algumas delas – exceto as da pornografia e do patrocínio dos traficantes. Alguém pode dizer que há mulheres que gostam de sexo ao ponto de que elas se prostituem ou fazem filmes pornô (existe, realmente, diferença entre uma coisa e outra? não vejo…) para ter o número de parceiros desejados e/ou ainda ganhar um bom dinheiro com o que curtem fazer. Até pode ser. Mas para quantas mulheres como estas existem aquelas que são exploradas, seja por não terem outra alternativa de renda (realmente?) ou pela coerção ou violência de parceiros ou outras pessoas com as quais se envolveram?

Da minha parte, acho a pornografia, seja ela qual for, uma grande fonte de degradação humana. Por que se as pessoas gostam de se expor desta forma, para que precisariam ganhar dinheiro por isso? Fariam de graça, não é mesmo? Fariam apenas porque gostam, e não porque precisam de dinheiro, ou porque acham que estas práticas são a única forma que elas tem de seguirem vivas. Linda Lovelace chamou a atenção para isso. E ainda que eu não ache que ela fosse tão puritana quanto o filme sugere, ou que ela mesma tenha dito, acredito sim que ela foi explorada e que, de forma muito corajosa, decidiu dar um basta para aquela vida e chamar a atenção do mundo para esta situação.

Não por acaso ela foi apoiada por muitas feministas. Pessoas que acham que nenhuma mulher deveria ser explorada. Neste sentido, estou com elas. Acho que toda mulher deve ter a liberdade de fazer o que quiser. Inclusive filmes pornô, fotografias com elas nuas, ou sexo com várias pessoas diferentes todos os dias. Desde que elas não sejam forçadas a estes atos, ou que precisem ganhar dinheiro por eles para sobreviver. Do contrário, estamos apenas falando de degradação.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo que Lovelace me despertou foi a curiosidade. Para saber mais sobre a personagem desta cinebiografia e, também, sobre o filme clássico do cinema pornô que ela estrelou. Procurando mais informações sobre ambos, fiquei sabendo de alguns pontos interessantes.

Deep Throat, lançado em 1972, foi dirigido por Gerard Damiano, que teve 51 títulos no currículo de diretor. O filme, que teria custado US$ 20 mil e faturado, apenas nos EUA, US$ 45 milhões. De acordo com Lovelace, a produção acumulou US$ 600 milhões – acredito que este valor é corrigido e contempla o faturamento global da produção. Até porque a diferença é muito grande do resultado bruto nos EUA e essa outra projeção.

No currículo da Linda Lovelace original aparecem dois curtas, anteriores a Deep Throat: Sex for Sale, de 1971, e The Foot, de 1972. Depois do sucesso retumbante de Deep Throat, ela faria Deep Throat Part II, lançado em 1974. Não encontrei informações sobre a bilheteria, mas não tenho dúvidas de que ele faturou muito mais do que custou. Porque está é uma característica dos filmes do gênero: ter um orçamento baixíssimo e conseguir um bom lucro sempre – ou quase sempre.

Em 1978, como bem explica Lovelace, Linda lança Ordeal, livro que questiona o que contaram sobre ela até aquele momento. A obra contou com a ajuda do jornalista Mike McGrady. A partir daí, ela é entrevistada por Bob Langley no Saturday Night at the Mill; aparece nos programas Today, NBC Tonight, entre outros; além de ser foco, em 2001, do documentário para a TV The Real Linda Lovelace.

Assisti a boa parte de The Real Linda Lovelace no YouTube após conferir Lovelace. De acordo com o documentário, quando estreou em 1972, Deep Throat atraiu casais, profissionais dos mais diferentes ramos da economia, assim como muitas celebridades. Entre os defensores do filme, que começou a ser questionado pela Justiça, estavam o apresentador Johnny Carson, o ator Jack Nicholson e o escritor Truman Capote.

No ano seguinte, em 1973, Deep Throat estreou nos cinemas de outros países e virou fenômeno de mídia. Linda Lovelace apareceu em reportagens de jornais e revistas, incluindo a capa da Esquire e um ensaio fotográfico para a Playboy de Hugh Hefner. Johnny Carson a entrevistou em rede nacional, nos EUA. Depois de lançar o livro que contaria o “lado B” do sucesso de Deep Throat, Linda é entrevistada, em 1979, no NBC Tonight. O mesmo programa focaria a ex-atriz pornô em 1981. Trechos destes programas estão no YouTube.

Assistindo a The Real Linda Lovelace, algo achei estranho na comparação com o filme Lovelace. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Segundo o documentário feito para a TV, baseado nos livros de Linda, Chuck teria feito ela transar com cinco homens em um quarto de um motel barato em 1971. No filme Lovelace, contudo, este fato teria ocorrido após o sucesso de Deep Throat. Uma falha estranha no roteiro. E dispensável.

Em uma participação de Linda no Sin on Saturdany Night da BBC, em 1981, um homem da plateia pergunta como ela pode dizer que foi obrigada a fazer Deep Throat e tudo o mais por Chuck já que ela sempre aparecia sorrindo. Linda, com certa tranquilidade, responde que ela tinha uma escolha: ou fazia sorrindo, ou morria. E ela escolheu viver. Esse tipo de pergunta e resposta é que seria interessante ver em Lovelace.

Falando em vídeos sobre Linda e Chuck no YouTube, vale dar uma conferida nesta entrevista dada por Chuck em 1976; neste outro vídeo que aborda a polêmica que Deep Throat levantou; e este que reproduz The Real Linda Lovelace.

Agora, voltando a falar de Lovelace. A parte técnica do filme funciona muito bem. Vale destacar a direção de fotografia que lembra o tipo de imagens dos filmes dos anos 1970 e as imagens vinculadas na TV no início dos anos 1980 feita por Eric Alan Edwards; a trilha sonora com um ótimo resgate pop da época feita por Stephen Trask; os figurinos de Karyn Wagner; e o conjunto que dá a “contextualização ambiental” de época do design de produção de William Arnold, direção de arte de Gary Myers e decoração de set de David Smith.

Esta produção conseguiu reunir alguns nomes de primeira linha em papéis secundários – sim, porque Lovelace é bastante centrado na interpretação de Amanda Seyfried e Peter Sarsgaard. Sharon Stone e Robert Patrick estão apenas medianos. Além dos protagonistas, destaque para o trabalho de Adam Brody como Harry Reems, estrela de Deep Throat ao lado de Linda e um “astro” do cinema pornô daquela época. Além deles, merecem menção por um trabalho “centrado” os atores Juno Temple; Chris Noth, que interpreta a Anthony Romano, um dos produtores de Deep Throat; Bobby Cannavale, que interpreta a Butchie Peraino, outro produtor do filme de 1972; Hank Azaria como Gerry Damiano, roteirista e diretor de Deep Throat; James Franco como Hugh Hefner e Wes Bentley como o fotógrafo Thomas. Além deles, há superpontas de Chloë Sevigny como uma jornalista feminista e de Eric Roberts como Nat Laurendi, que faz um exame de polígrafo antes de Linda lançar o livro de 1978.

Lovelace teria custado US$ 10 milhões. Para mim, uma verdadeira fortuna para uma produção com este perfil. A produção, que estreou em alguns cinemas dos Estados Unidos no dia 9 de agosto, faturou, até agora, quase US$ 356,6 mil. Ou seja: risco gigantesco deste filme ser um fracasso nas bilheterias. Muito diferente de Deep Throat.

O filme sobre Linda Lovelace estreou em janeiro deste ano no Festival de Sundance. Depois, ele passaria por outros seis festivais, incluindo o de Berlim. Em nenhum deles ele foi premiado.

E agora, algumas curiosidades sobre Lovelace: Kate Hudson e Olivia Wilde foram cogitadas para interpretar a protagonista, mas acabaram pulando fora do projeto. James Franco também foi cogitado para interpreta a Chuck Traynor.

Sobre a bilheteria que Deep Throat deve ter feito, uma explicação sobre aquele inflacionado US$ 600 milhões: de acordo com Roger Ebert, como a máfia tinha a maioria dos cinemas pornôs da época, durante o período de exibição do filme ela inflacionava o caixa dos cinemas com dinheiro vindo da venda de drogas e da prostituição. Uma forma de “lavar” o rendimento do crime organizado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para Lovelace. Uma boa avaliação, levando em consideração os padrões do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos. Eles dedicaram 55 textos positivos e 50 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 52% e uma nota média de 5,6.

Adiciono este filme na lista de produções dos Estados Unidos que eu estou comentando após uma votação de vocês, meus caros leitores, aqui no blog.

Lovelace rendeu alguns cartazes muito bacanas. Fiquei muito em dúvida entre dois deles, para colocar aqui no blog. Mas bati martelo no que abre este texto porque achei ele mais estiloso. 🙂

CONCLUSÃO: Linda Lovelace fez parte da vida de muitos homens e mulheres que se renderam a Deep Throat em algum momento de suas vidas. Não foi o meu caso. Ainda assim, sem ter esta “memória afetiva” sobre a protagonista do filme pornô, achei interessante o que eu vi em Lovelace. Mas este é um filme menor e mais “careta” do que poderia ter sido. Achei o trabalho do roteirista e dos diretores um tanto preguiçoso demais. Afinal, estamos falando da figura controversa que mexeu com a libido e com diversos conceitos da sociedade norte-americana há três ou quatro décadas atrás. Essa produção, por esta fraqueza na entrega, acaba sendo interessante por resgatar uma história interessante, mas não mexe tanto com o espectador do que poderia se tivesse sido melhor acabada. De qualquer forma, sempre vale retomar uma história como essa, nem que for para reabrir um debate sobre a pornografia em uma mesa de bar.