Victoria and Abdul – Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha

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Algumas posições que certas pessoas ocuparam – ou ocupam ainda hoje – na História são verdadeiramente impraticáveis. Muito poder e tudo o que vem junto com ele para um único indivíduo. A carga disso tudo, o nível de bajulação, de covardia, de interesses e de traição que certas “posições” despertaram (e despertam) não deveria ser carregada por ninguém. Victoria and Abdul nos conta uma história interessante sobre este nível de peso e sobre como as pessoas até podem ser consideradas diferentes por suas “posições” e sociedades, mas que, no fundo, todos nós queremos o mesmo. Quase sempre, ao menos. Filme interessantíssimo. Mais um bom achado na temporada “pré-Oscar”.

A HISTÓRIA: Começa afirmando que o filme é baseado em fatos reais… ou, pelo menos, grande parte dele. A narrativa inicia na cidade de Agra, na Índia, em 1887. Como a introdução explica, a Grã-Bretanha governou a Índia por 29 anos. Naquela cidade, Abdul (Ali Fazal) tem um dia comum, como qualquer outro. Ele faz as orações, logo que acorda, e depois segue apressado pelas ruas apinhadas de gente e de mercadorias. Ele passa por alguns guardas e chega no posto de trabalho, onde registra os dados das pessoas que estão sendo presas. É ali que ele acaba sendo chamado pelo governador.

Abdul Karim foi a pessoa que ajudou a escolher os tapetes que foram enviados para a Rainha Victoria. Como eles gostaram muito dos tapetes, agora a Índia vai oferecer para a rainha um mohur – uma espécie de moeda mongol comemorativa. Por ser o indiano mais alto que o governador conhece, Abdul foi escolhido para entregar o mohur pessoalmente para a rainha em uma cerimônia. E é assim que este indiano comum e sem grandes perspectiva acaba viajando para Londres e conhecendo a rainha e a corte real no Palácio de Buckingham. Esta viagem dele mudará a vida de muitas pessoas de forma inesperada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto a seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Victoria and Abdul): Antes de mais nada, quero dizer que demorei demais para escrever sobre esta produção. Assisti ela há uma semana e só hoje estou terminando de escrever este texto. Terminando é a palavra exata porque, afinal, eu sempre tenho o mesmo “modus operandi”: escrevo o primeiro parágrafo, a conclusão e, muitas vezes, como fiz com esta crítica, a parte sobre “a história” e os “palpites para o Oscar” para, só depois, escrever este miolo.

E é justamente o miolo que eu demorei sete dias para terminar. Admito que isso aconteceu porque, esta semana, tudo que eu queria era ter um dia de folga ao menos de escrever. Como no meu trabalho eu escrevo todos os dias, e muito, nos horários livres que eu tive esta semana eu quis fazer outras coisas que não escrever. E por pouco hoje eu não deixei este texto para lá outra vez. Só não fiz isso por causa de vocês, meus caros leitores. Afinal, ao menos um texto por semana eu tenho que me “obrigar” a escrever, não é mesmo? Então é por vocês que eu escrevo isso aqui hoje.

Bem, como eu disse, há uma semana eu fui no cinema para assistir a Victoria and Abdul. O meu interesse maior pelo filme, é claro, foi o fato dele ser um “leve” concorrente ao Oscar. Algumas bolsas de apostas colocam ele como possível candidato em algumas categorias. Mas, já vou deixando claro, ele corre sempre “por fora”. Ou seja, até tem alguma chance de emplacar, mas não está entre os favoritos. Esta foi uma boa motivação, assim como o elenco e o diretor – gosto muito de Judi Dench e respeito o trabalho de Stephen Frears.

E aí que este filme é mais uma grande produção de época do perfeccionista Stephen Frears. É impressionante e muito marcante a forma com que o diretor e a sua equipe de colaboradores nos transporta para a Agra e para a Londres do final do século 19. A história que vemos em cena tem nada menos que 140 anos, quando inicia, e chama muito a atenção como os realizadores conseguem reproduzir as condições da época com perfeição.

Então o visual deste filme é o seu primeiro grande acerto. O segundo, claro, é a escolha do elenco. Judi Dench rouba a cena sempre que aparece. Mas, ao lado dela, temos um ator com um sorriso cativante e uma simpatia difícil de ignorar. Ali Fazal não se intimida com o personagem e nem com a grande atriz Judi Dench. Muito pelo contrário. Ele faz uma dupla perfeita com a atriz veterana que, muitas vezes, não precisa dizer nem uma palavra para transparecer tudo que a sua personagem está pensando ou sentindo. Ela é divina!

Junto com eles, o elenco de coadjuvantes também faz um grande trabalho. Vou falar deles mais para a frente. Apesar de todos estarem bem, sem dúvidas o grande mérito desta produção, como a história mesmo exige, é dos atores Judi Dench e Ali Fazal. Isso porque, ainda que alguns coadjuvantes tenham relevância na história, em muitos momentos importantes da produção Dench e Fazal estão sozinhos em cena. E se eles não estivessem perfeitos em seus respectivos papéis, eles não nos convenceriam com a intensidade com que fazem neste filme.

E a história? Vocês sabem que, para mim, o roteiro é um elemento mais que fundamental. Ele consagra ou destrói um filme na minha avaliação. Então o roteiro de Lee Hall, baseado no livro de Shrabani Basu, tem muitos acertos. Mais acertos do que erros, sem dúvida alguma. Mas, nem por isso, ele é realmente surpreendente ou perfeito. Vamos falar dos acertos primeiro.

O texto de Hall tem alguns diálogos preciosos e uma dinâmica “clássica”, com narrativa linear e construído de uma forma que é para fazer o público ir se encantando aos poucos até que nos emocionemos no final. Como pedem os bons roteiros, Victoria and Abdul se centra em poucos personagens e tenta se aprofundar neles. Como o título do filme sugere, este mergulho é feito nos últimos anos de vida da rainha Victoria e do seu inusitado “munshi” (professor de uma língua nativa) que vira, o que é ainda mais inusitado, uma espécie de “confidente” da rainha.

Além da reconstituição de época, o que eu achei marcante nesta produção e um grande acerto do roteiro foi nos desvelar, em todos os detalhes, o tipo de “súditos” que uma rainha como Victoria tinha ao seu redor. Impressionante como absolutamente tudo que ela fazia era “facilitado” e/ou acompanhado pelos outros. Do levantar da cama em determinado horário e com a assistência de diversas criadas até todos os quase infindáveis compromissos que a rainha tinha durante o dia. A agenda dela era de arrepiar qualquer mortal.

Acima de tudo isso, Victoria – e tantas outras rainhas e reis – tinha um poder “soberano” que era assustador. O que ela dizia era seguido – pelo menos até que começassem a surgir traições ao seu redor. Mas ela sabia como ser temida, e provavelmente qualquer outra rainha e rei que a precedeu ou que a seguiu também sabiam o poder de alguém ser temido. Então, por trás daquela vida cheia de compromissos, de criados e de bajulação, restava tudo, menos qualquer sombra de liberdade.

Alguém muito “poderoso”, no fim das contas, não é livre. Esta foi uma das maiores constatações que eu tive ao assistir a este filme. Então eu acho que ninguém, por mais brilhante ou capacitado que seja, deveria ter tanto poder e tanta limitação ao mesmo tempo. Chama muito a atenção, neste filme, a corte de interesseiros, puxa-sacos e bajuladores que cerca a rainha. No fim das contas, ninguém está ali porque gosta de Victoria, mas sim porque gosta do “status” de seus cargos e de disputar quem pode ter a maior migalha de atenção e de benesses dadas pela rainha.

É esta corja que não aceita que um estrangeiro, mestiço, que veio da Índia apenas para entregar uma moeda comemorativa, ganhe mais atenção e carinho da rainha do que eles que estão ao lado dela “este tempo todo”. Ah, bem sabemos que estar ao lado por muito tempo não quer dizer nada. Quantas famílias vivem juntas por uma vida inteira e não tem afeto, compreensão e amor suficientes? Ou mesmo que se comparem quando existe um verdadeiro “encontro de almas” em uma relação que até pode durar pouco, no tempo, mas que transcende as limitações desta vida?

Victoria e Abdul nos conta sobre um destes encontros. Quando uma rainha, já idosa e cheia de limitações causadas por sua idade em uma época em que a Medicina não era tão avançada, encontra finalmente alguém que tem a coragem de olhar para dentro dos olhos dela. Abdul é um sujeito que não está afeito à regras ou que realmente se preocupa com a própria vida. Ele quer conhecer tudo e todos que o cercam e tem muito respeito pela vida e por todos os encontros que ela nos permite. Assim, ele olha realmente para a rainha Victoria, com uma admiração e um interesse que há muito ela desconhecia.

Isto é o que justifica as “loucuras” da rainha Victoria ao tornar um indiano desconhecido como alguém tão próximo dela. No fundo, tudo o que a rainha queria – e quem de nós não quer ou precisa? – era ter “alguém com quem conversar, alguém que depois” não usasse o que ela poderia dizer contra ela (para citar uma letra da Legião Urbana). Ela queria ter alguém para falar o que ela realmente pensava e sentia, o mais profundo e verdadeiro que ela poderia dizer, sem que esta pessoa a julgasse ou depois pudesse usar as suas “fraquezas” de forma estratégica e vil contra ela.

Típicos atos que poderíamos esperar do filho dela, o príncipe Bertie (Eddie Izzard) ou de quase toda a corja que a cercava – exceto, talvez, o seu secretário mais próximo, Sir Henry Ponsonby (Tim Pigott-Smith), talvez a pessoa mais fiel à rainha, apesar de seus preconceitos e de sua dificuldade em aceitar Abdul próximo da monarca. Os desabafos da rainha e as falas de Abdul, especialmente quando ele fala sobre o próprio entendimento dele para o “sentido da vida” – que é o de servir – são alguns dos pontos altos do roteiro. Falas realmente interessantes, diretas e bem escritas.

Por outro lado, Victoria e Abdul não é um filme perfeito porque ela acaba sendo um bocado repetitivo e tem parte da sua narrativa um tanto “exagerada” para fazer o público se chocar e/ou emocionar. Depois que Victoria pede para Abdul a acompanhar pela primeira vez no momento das suas deliberações e despacho, boa parte do enredo acaba circulando, ao menos em relação ao elenco de apoio, sobre “maneiras de despachar o indiano insolente”.

Desta forma, o filme acaba sendo um tanto repetitivo sobre a aproximação de Victoria de Abdul e sobre os movimentos da Côrte em fazer Abdul voltar para a Índia. Senti falta, por exemplo, já que a história transcorre por vários anos, de saber sobre algumas decisões tomadas pela rainha naquele período. Afinal, a vida dela não se resumiu às conversas com Abdul, à uma série de jantares para cumprir agenda, à aproximação da monarca aos costumes indianos e nada mais. Certamente ela tomou decisões importantes, e nada disso aparece em cena.

Também senti falta, por exemplo, de saber mais sobre a família de Victoria. Em certo momento, ela mesma comenta que teve nove filhos… mas em cena, nos aparece apenas o pusilânime Bertie. E os outros? Senti falta de conhecer um pouco mais, realmente, sobre a vida de Victoria, quem lhe era próximo, sobre sua família, etc. Também achei um tanto “forçado” a rainha rapidamente começar a aprender um dos idiomas falados na Índia. Certo que ela estava fascinada por Abdul, encantada por ele – a quem achava bonito e interessante.

Mas daí a uma rainha como Victoria começar a dedicar tanto tempo para aprender um idioma… faria sentido se o filme mostrasse como ela era poliglota, que ela falava X idiomas e que era uma ávida “devoradora” de informações de outras nações. Isso não fica claro no filme – falarei sobre este assunto mais abaixo. Então eu senti falta destes pontos na produção e no trabalho de Hall. Ainda assim, Victoria and Abdul é uma produção importante pois nos apresenta uma história que, certamente, muitas pessoas tiveram grande interesse de ocultar ou mesmo de apagar para sempre.

Pensar que a proximidade de Abdul com a rainha Victoria demorou mais de 100 anos para vir à tona. Certamente a parte da realeza britânica não queria que a lembrança de Abdul e o seu ponto de vista aparecesse. Mas passado tanto tempo, pudemos saber um pouco mais sobre os bastidores dos anos finais da rainha Victoria. Um filme fascinante pela sua reconstrução de época, pelo trabalho dos atores e por algumas linhas de roteiro realmente preciosas.

Destaco, em especial, a forma com que o filme desnudou a Côrte e a intimidade de uma rainha tão importante como Victoria, além de nos dar alguns ensinamentos preciosos sobre os muçulmanos e as suas crenças. Hoje, por causa de movimentos terroristas, muitas vezes pensamos que o que está por trás destes absurdos é o Islã e a fé muçulmana. Mas houve uma boa parte da História também em que a Bíblia foi usada para diversas pessoas cometerem absurdos. E, hoje, muitos usam o Alcorão da mesma forma. Infelizmente.

Algo bacana que Victoria and Abdul nos mostra é que esta não é a essência nem do Alcorão e nem da Bíblia. No fundo – e isso alguns tem dificuldade de entender -, todas as religiões pregam a paz, a harmonia entre as pessoas e os povos, o respeito entre as pessoas e, como bem diz Abdul, a compreensão de que todos estamos aqui para servir uns aos outros. Deveria ser assim, ao menos. Quando as pessoas não entendem errado as suas próprias religiões e utilizam os livros sagrados de suas religiões apenas para benefício próprio, de forma totalmente equivocada.

Então Victoria and Abdul, de maneira inesperada, nos faz pensar que todos somos muito mais parecidos do que muitas vezes nos damos conta. Todos precisamos de alguém que nos veja como realmente somos, sem preconceitos, sem julgamentos e sem diversos interesses próprios colocados sobre a capacidade de entendimento do outro. Quando duas pessoas realmente resolvem dialogar, se conhecer e se respeitar, todas as barreiras caem por terra – sejam sociais, sejam de origem ou o que mais pensarmos. Um belo filme por nos fazer pensar em tudo isso.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei antes, uma das características marcantes desta produção é a reconstituição de época. Mérito do design de produção de Alan MacDonald; da direção de arte de Sarah Finlay e de Adam Squires; dos ótimos figurinos de Consolata Boyle; do Departamento de Maquiagem com 22 profissionais; do trabalho dos 29 profissionais do Departamento de Arte; e do trabalho dos 23 profissionais responsáveis pelos Efeitos Visuais.

Além destes profissionais, que nos ajudaram a nos transportar no tempo e no espaço, vale comentar o ótimo trabalho do veterano Thomas Newman na trilha desta produção, assim como a direção de fotografia impecável de Danny Cohen e a edição de Melanie Oliver.

A atriz Judi Dench, mais uma vez, está divina. Impecável. Como eu disse, ela convence em cada gesto, em cada olhar e na mudança grande que ela consegue dar para a personagem conforme as expressões, a “leveza” ou o “peso” de seus humores. Consequentemente, parece que vemos a rainha Victoria interpretada por ela sofrendo com a idade, rejuvenescendo e, na reta final, voltando a envelhecer após algumas decepções e traições. Impressionante como a atriz consegue nos passar tudo isso com o seu talento e interpretação – e a ajuda de maquiagem e da fotografia, claro. Além dela, o grande nome do filme é o de Ali Fazal. Ele faz um belo trabalho, é carismático, mas claro que não tem as nuances de interpretação de Dench.

Alguns atores se destacam nos papéis de coadjuvante – até porque os papéis deles tem relevância para a história. Neste sentido, vale destacar o belo trabalho de Tim Pigott-Smith como Sir Henry Ponsonby, braço direito da rainha; Adeel Akhtar ótimo como Mohammed, o outro indiano que viaja para presentear a rainha Victoria e que é um bom contraponto em relação a Abdul – afinal, não é todo indiano que olhava para a rainha com admiração – alguns, a exemplo de Mohammed, vinham naquela pessoa e no seu cortejo o sinônimo de exploração, algo bem representado por este personagem e bem interpretado pelo ator; Paul Higgins bem como o covarde e um tanto odioso médico Dr. Reid; Michael Gambon em quase uma ponta como Lord Salisbury, primeiro-ministro na época; Olivia Williams como Lady Churchill, uma das pessoas mais próxima da rainha; Fenella Woolgar como Miss Phipps, também próxima da rainha e usada como “bala de canhão” pelos outros covardes que a cercavam; e Eddie Izzard como o odioso e interesseiro Bertie, Príncipe de Wales e herdeiro do trono. Todos estão muito bem.

Victoria and Abdul estreou em setembro no Festival de Cinema de Veneza. Poucos dias depois, o filme participou do Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, até o final de outubro, a produção participou ainda de outros cinco festivais. Nesta trajetória, o filme conquistou dois prêmios: o Truly Moving Picture Award no Heartland Film e o de Compositor do Ano para Thomas Newman conferido pelo Hollywood Film Awards. Teremos uma ideia melhor do potencial desta produção no Oscar quando saírem os indicados ao Globo de Ouro. Pode ser que ele consiga emplacar uma ou mais indicações ou pode ser que ele seja categoricamente esquecido. Veremos.

Esta produção fez, apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 21,9 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou, ele fez outros US$ 40,9 milhões. Não são números desprezíveis, mas tenho minhas dúvidas se ele vai conseguir lucrar.

Victoria and Abdul foi rodada em três países: Inglaterra, Escócia e Índia. O filme teve cenas rodadas em Delhi e Agra, na Índia; em Cairngorms, na Escócia; e na Ilha de Wight, no Castelo de Belvoir, na Universidade de Greenwich, na Ham House, no Museu Nacional Railway, no West Wycombe House, no Castelo de Windsor, entre outros locais nas cidades de Londres, West Wycombe, York, Knebworth, Richmond, Greenwich e Belvoir.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Quando as filmagens de Victoria and Abdul começaram, em setembro de 2016, Judi Dench era um mês mais velha que a rainha Victoria quando ela morreu. Interessante esta semelhança e como hoje conseguimos envelhecer com muito mais qualidade de vida, não é mesmo? Viva aos avanços científicos, pois!

A atriz Judi Dench já havia interpretado a rainha Victoria antes, no filme Her Majesty Mrs Brown, de 1997, dirigido por John Madden. Filme esse que foi indicado a dois Oscar em 1998: Melhor Atriz para Judi Dench e Melhor Maquiagem.

Aliás, senti falta de Victoria and Abdul nos apresentar ao menos um pouco de tudo que Victoria significou para o Reino Unido. Como sempre, me interessei por buscar mais informações sobre os personagens dos filmes. Acho que vale começar por textos como este, do site Brasil Escola, que dão uma resumida simplificada sobre a rainha que, antes da atual rainha da Inglaterra, Elizabeth II, era a monarca que mais tempo ficou no poder. E em uma era muito expansionista para o Reino Unido, como o texto bem explica.

Neste texto é que eu fiquei sabendo, afinal, sobre um dos personagens citados pela rainha de Judi Dench no filme: Albert. Ela se referia ao seu primo, o príncipe Albert, com quem a rainha Victoria se casou em 1840 e com quem teve nove filhos. Neste texto, também descobri que ela era uma “amante das letras” e que falava francês e alemão, além da língua materna.

O marido, Albert, morreu em 1861, ou seja, 40 anos da rainha. Vale também conferir outros dois textos sobre a rainha: este da BBC e este outro do blog da Cultura Inglesa. E o outro personagem citado pela Rainha Victoria neste filme, John Brown? Quis saber mais sobre ele e achei esta interessante matéria do site da Revista Piauí. Vale conferir. Lendo sobre Brown, neste texto, me lembrei de Abdul. Me parece que a rainha realmente precisava de aliados, de pessoas francas e sinceras do seu lado, e encontrou em Albert, em Brown e em Abdul estas pessoas. Interessante.

Esta é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 102 críticas positivas e 54 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 65% e uma nota média de 6.2.

CONCLUSÃO: Faz toda a diferença quando alguém olha para os teus olhos de verdade. Tudo o que as pessoas desejam é que elas sejam notadas e respeitadas pelo que elas são e não pelo “poder” ou pela “posição” que elas possam ter na sociedade. Vitoria and Abdul nos fala de uma forma muito clara sobre isso. Assim como trata também de posições “impossíveis”, como pode ser a de uma rainha que domina 1/4 do mundo, por exemplo. Esta produção, com um roteiro muito bem escrito e atores impecáveis, nos transporta para uma outra época e local.

Mas, infelizmente, boa parte daquela desigualdade e do que vemos em tela segue válido hoje em dia, mais de um século depois. Quem dera que aprendêssemos, em algum momento, que todos somos iguais e que não faz sentido – ou mesmo seja algo justo – tanta desigualdade por todas as partes. Um belo filme. Que nos faz pensar sobre temas importantes, além de ter uma história envolvente. Merece ser visto, sem dúvidas.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Eis um filme interessante para a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Com um roteiro bem escrito, um diretor veterano e admirado no comando e uma atriz que dispensa apresentações, Victoria and Abdul pode chegar longe com o lobby certo. Ou pode nem chegar, dependendo dos humores dos votantes. Predicados este filme tem para emplacar – além dos já comentados, a temática da produção, sobre inclusão e respeito, temas tão em voga em uma Hollywood que está cuidando de seus próprios “pecados”.

Nas bolsas de apostas que começam a pipocar nos Estados Unidos, entre especialistas e literalmente apostadores, Victoria and Abdul têm aparecido com chances em algumas categorias. Mas nunca liderando as principais listas. Da minha parte, como o Oscar contempla até 10 produções na categoria Melhor Filme, eu não ficaria surpresa se o veterano Stephen Frears conseguisse emplacar esta produção na categoria principal do Oscar 2018. Mas, igualmente, não seria surpresa se o filme ficasse fora da lista.

Digo isso porque Victoria and Abdul não é um filme óbvio na disputa. Ou seja, ele pode chegar lá, mas não tem chances de levar o Oscar principal. Mas, pode sim ser indicado em várias categorias – o que, muitas vezes, é o suficiente para os produtores e distribuidores. Acho que esta produção tem chances de ser indicada ainda como Melhor Atriz, em mais uma indicação para a excelente Judi Dench; como Melhor Figurino e como Melhor Direção de Arte. Stephen Frears também poderia ser lembrado na categoria Melhor Diretor, assim como o roteiro como Melhor Roteiro Adaptado.

Mas para o filme receber tantas indicações, realmente parece ser fundamental uma grande campanha dos produtores e da Universal Pictures. Da minha parte, acho que o filme não receberá muitas indicações – talvez mesmo apenas como Melhor Atriz e Melhor Figurino – e, pelo andar da carruagem e das bolsas de apostas, mesmo que ele consiga emplacar alguma indicação, sairá da noite do Oscar de mãos vazias. Mas, como vocês sabem, isso não denota contra o filme. Afinal, poucos saem ganhando, mas muitos chegam – e poderiam chegar lá – cheio de méritos. Ou seja, vale assistir a esta produção. Mesmo que ela não tenha chances de emplacar as suas estatuetas no Oscar.

ATUALIZAÇÃO (11/12): Hoje, dia 11 de dezembro, saiu a lista de indicados para o Globo de Ouro 2018. Victoria & Abdul foi lembrado em uma categoria, a de Melhor Atriz – Musical ou Comédia para Judi Dench. Para muitas pessoas, como eu disse acima, ela pode chegar até a uma indicação ao Oscar. Este ano, a disputa está acirrada nesta categoria – mais do que na de ator. Veremos o que vai acontecer, mas acho que Judi Dench deve se contentar já se for indicada.

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Philomena

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Não existe paralelo ao amor de mãe. Pelo menos este é o caso de quem nasceu para isso, para dar uma nova vida. Philomena trata deste amor materno, e da busca incansável de uma mulher por encontrar o filho que foi retirado dela quando ele era muito criança. Mesmo com uma atuação de qualidade de Judi Dench, este filme é o mais fraco entre os concorrentes ao próximo Oscar. Assista apenas se gostar muito do tema ou se já tiver visto a todos os demais.

A HISTÓRIA: Logo no início avisa que o que veremos é baseado em fatos reais. Em seguida, vemos a Martin Sixsmith (Steve Coogan) ouvindo de seu médico, Dr. Robert (Nicholas Jones), de que todos os exames que ele fez estão ok. Mas no final o médico comenta que a mulher de Martin, Kate (Simone Lahbib) comentou que ele estaria levemente deprimido.

Martin diz que ele tem razões para isso, já que foi demitido e está desempregado, mesmo tendo sido acusado injustamente por dizer algo que não havia dito. O médico recomenda que ele comece a correr, e pergunta no que ele está trabalhando agora. Martin afirma que está querendo escrever um livro sobre a história da Rússia. Mas para a surpresa de Martin, em breve ele vai começar a trabalhar na história de Philomena (Judi Dench).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Philomena): A primeira ideia que passou pela minha cabeça quando comecei a assistir a Philomena: mais um filme baseado em fatos reais? Sério? Este ano, nada menos que seis das 10 produções indicadas na categoria Melhor Filme no Oscar estão inspiradas em fatos que realmente aconteceram.

Passada esta “perplexidade” por este gênero estar predominando na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, me joguei na história de Philomena. E apesar de dois detalhes interessantes e complementários, é justamente o roteiro do filme, escrito pelo ator e produtor Steve Coogan e por Jeff Pope, que trabalharam tendo o livro The Lost Child of Philomena Lee de Martin Sixsmith como base, que enfraquece a produção.

Respeito muito o trabalho do diretor Stephen Frears. Mas em Philomena ele apenas segue o básico do cinema. Tanto o diretor quanto os roteiristas apostam na fórmula básica para a plateia acompanhar a história. Mas o filme carece de profundidade, seja na dinâmica da produção (lhe falta uma boa reviravolta, por exemplo), seja na narrativa (não existe, verdadeiramente, nenhum momento de “fisgada” do espectador, para que ele possa se sentir identificado com os personagens ou realmente emocionado com a história).

Para começar, o protagonista desta produção, o jornalista envolvido com política Martin Sixsmith, não é exatamente um sujeito “adorável”. Esta qualidade, necessária para que a plateia torça por algum personagem, não está presente no trabalho do ator, roteirista e produtor Steve Coogan. Ele é sarcástico, desconfiado, sem fé, como “manda” o estereótipo de qualquer jornalista.

O personagem “adorável” fica com a outra protagonista da história, interpretada por Judi Dench. Mas daí que o filme sofre um pouco com esta protagonista. Primeiro, porque a atriz é fantástica, mas a personagem não ajuda com uma conduta fácil de conseguir aprovação. Vejamos.

Para começar, Philomena não pode ser considerada, exatamente, uma mulher corajosa. Por 50 anos ela escondeu o fato de que teve um filho na adolescência e que ele foi separado dela com a ajuda das freiras do local em que ela vivia. Se ela fosse uma “brava mulher”, não teria ido atrás do filho antes? Depois que ela viveu uma situação que muitas mulheres (e homens também?) podem considerar absurda.

Afinal, ela engravidou de um sujeito que conheceu em uma feira, com quem ela aparentemente nem chegou a namorar, e se submeteu às regras duras da Igreja após ter sido abandonada pela família mesmo sabendo que provavelmente perderia o primeiro filho. Há inúmeras histórias de mulheres que acharam uma alternativa para situações como esta, sem que elas tivessem que se “engolir” a perda de um filho que elas gostariam de criar. Outra situação, evidentemente, é daquelas mulheres que não gostariam de ficar com o primogênito.

Evidentemente que há que se dar um “desconto” para Philomena porque ela era muito jovem quando tudo aconteceu. Não quero, com os comentários até aqui, julgá-la. Afinal, ela foi uma vítima. Mas o que eu quero argumentar é que ela não é uma protagonista que facilmente sensibilize o espectador. E o mesmo acontece com Martin.

O roteiro de Coogan e Pope decidiu apresentar, primeiro, o personagem de Martin. Ex-assessor de imprensa do ministro de Transportes Stephen Byers, ele surge para o espectador em um momento delicado. Aparentemente, ele foi demitido após ser acusado por ter dito o que não disse. Mas o motivo de Martin aparecer logo e da forma com que é apresentado na história é mostrar como ele é um homem sem fé. Como ele mesmo diz, ele não acredita em Deus, e desconfia que Ele sabe disso.

Em seguida, somos apresentados à Philomena. Apesar dela ter bons motivos para “odiar” a Igreja, ela segue acendendo velas, rezando e com a sua fé inabalável. Em pouco tempo, o homem “descrente” e a mulher com fé inquebrantável vão começar a conviver. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Agora, esqueça o mundo de um alterando o do outro. Mesmo com as novas informações que vão surgindo, e que tornam o papel das freiras ainda pior, Philomena segue com fé e seguindo os ensinamentos cristãos, enquanto Martin permanece “indignado” e sem conseguir perdoar aqueles que cometeram os crimes focados nesta produção.

Como jornalista, achei curiosa a ironia de Martin sobre as “histórias de interesse humano”. Para ele, este tipo de história, que tratam da vida de pessoas que passaram por dificuldades e que podem ter esta vivência identificada por outros indivíduos são histórias sobre “pessoas de cabeça fraca, vulneráveis e ignorantes” escritas para serem lidas por pessoas com o mesmo perfil.

Evidentemente que eu não concordo com esta avaliação dele. Histórias de interesse humano são as melhores, aquelas que normalmente valem ser contadas. O restante é o “factual”, como chamamos, ou seja, notícias que registram fatos de relevância momentânea – ou até de interesse histórico, mas que será visto assim com o passar do tempo. Ainda que o “factual” também possa render histórias com uma pegada humanizada… Inicialmente, Martin olha para Philomena com superioridade. E ainda que ele não perca aquela postura, o protagonista acaba aprendendo um bocado com a simplicidade daquela mulher que segue atrás do filho 50 anos depois dele ter nascido.

Fora esta ironia, o filme parece uma história como outra qualquer que você já viu. A Igreja católica teve, aqui e ali, várias ações absurdas? Certamente. E não precisamos voltar para a Idade Média para saber disso. Claro que há gente pouco católica entre freiras e padres – afinal, como uma freira como Hildegarde (Barbara Jefford) pode achar justificável o que ela e suas contemporâneas fizeram?

Um dos ensinamentos básicos de Jesus é o amor e o perdão, então como julgar uma jovem que engravidou sem pensar na responsabilidade deste ato e puni-la daquela forma? Certamente aquelas ações não seguiram o exemplo de Jesus. Mas a Igreja, como todas as outras instituições que já foram criadas pela Humanidade, é feita de pessoas. E elas são falhas. Assim de simples.

Uma religião e uma instituição como a Igreja não pode ser julgada pelas falhas de alguns de seus participantes, por mais que estes erros sejam absurdos e que joguem contra os ensinamentos essenciais que ela prega. Isso é algo que Philomena é capaz de compreender, mas Martin, tão inteligente, sagaz e “respeitável”, não. Uma pena.

De qualquer forma, e para quem ninguém tenha dúvida, a freira Hildegarde deixa claro a sua motivação em ser cruel com aquelas jovens décadas passadas. Se ela se manteve virgem, sacrificando “os prazeres da carne”, por que as demais não foram capazes do mesmo sacrifício?

Esta “inveja” disfarçada de rigidez de princípios resume não apenas os atos daquela freira, mas de tantas outras que repassam as próprias frustrações para frente castigando diferentes perfis de pessoas – de estudantes em colégios de freiras até jovens que buscam pela santidade e convivem com elas.

Para mim, a melhor parte do filme é justamente aquela que mostra a diferença essencial entre os personagens. Enquanto Martin se indigna com Hildegarde – e a indignação é algo importante -, Philomena diz para a freira que a perdoa. E dá uma lição de sabedoria para Martin. Afinal de contas, nós sempre podemos escolher o que fazer com a injustiça e o mal que praticaram contra nós. Podemos alimentar o ódio e o rancor ou optar pelo perdão e pela compaixão. Cada um é responsável por esta escolha. Esta reflexão do filme justifica a nota abaixo.

Assim como a escolha corajosa de Philomena em revelar a própria história – para que outras mulheres, como ela, se sentissem mais acolhidas, e para que outras mulheres passassem a valorizar os próprios filhos e a não abrirem mão deles por nada, nem mesmo por uma forte cobrança de culpa cristã. Agora, querendo ou não, fica nesta história a mensagem de que engravidar e ter um filho deveria ser uma escolha responsável, feita tendo o amor como base, mas levando em conta também as condições dos pais para darem uma vida de oportunidades para o seu herdeiro.

E o que falar do restante da produção? O roteiro segue a linha de ir e vir do presente para o passado de Philomena, incluindo a ótica do filho Anthony/Michael (Sean Mahon) para quebrar a linha tradicional de passagem do tempo. Apesar de algumas belas imagens, mérito do diretor de fotografia Robbie Ryan, Philomena carece de um texto melhor. E fora Judi Dench, que normalmente apresenta um desempenho acima da média, os demais atores apenas cumprem o seu papel, sem nenhum destaque em especial. Um filme fraco, comparado com os outros desta safra de indicados ao Oscar.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Philomena é um filme de dois atores. Judi Dench brilha em uma interpretação coerente com o perfil da protagonista. Mesmo afirmando isso, devo dizer que já vi a atriz em desempenhos melhores do que este. O outro nome forte da produção é o de Steve Coogan. Ele está bem, mas não chega a se destacar.

Além destes atores, vale citar o bom trabalho de Anna Maxwell Martin como Jane, a filha de Philomena que oferece a história da mãe para Martin; e o de Sophie Kennedy Clark como a protagonista quando adolescente. Outros atores tem papéis menores. Vale citar Peter Hermann como Pete Olsson, companheiro de Michael; Charlie Murphy como Kathleen, a melhor amiga de Philomena no período em que ela viveu com as freiras; Mare Winningham como Mary, menina que foi adotada junto com o filho de Philomena; e Michelle Fairley como Sally Mitchell, a editora que acompanha a investigação jornalística de Martin.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma a trilha sonora é o que se destaca. Um ótimo trabalho de Alexandre Desplat – mais um, aliás, para a longa lista de excelentes trabalhos deste compositor. O roteiro ganha alguns pontos com certos diálogos, mas a dinâmica da produção deixa a desejar. Muito eficiente o trabalho da equipe liderada por Jay Price e Rachael Tate na edição de som – há sequências que ganham outro ritmo com o ótimo trabalho feito por eles. O editor Valerio Bonelli também cumpre bem o seu papel.

Funciona muito bem, também, a reconstituição de época (Irlanda nos anos 1950) e a caracterização do “tempo atual”, uma diferenciação necessária para a história e bem realizada pelo design de produção de Alan MacDonald; pela direção de arte de Leslie McDonald, Rod McLean e Sarah Stuart; pela decoração de set de Barbara Herman-Skelding e pelos figurinos de Consolata Boyle.

O diretor Stephen Frears, que entende bem do seu ofício, conseguiu capturar bem os diferentes estilos de imagens necessários para contar esta história. Fica clara a diferença de granulação quando vemos a um filme caseiro de Anthony/Michael ou quando somos transportados para os anos 1950 na Irlanda. O diretor também valoriza o trabalho dos atores, focando nas expressões deles quando há silêncio e “descobertas” do roteiro. Mais um bom trabalho, ainda que ele não seja fora da média.

Indiretamente, Philomena aborda diversos temas “cabeludos”: a diáspora irlandesa (leia-se a forçada imigração de irlandeses para os Estados Unidos e a Grã-Bretanha a partir do século 19, o que causou a resistência de extensas camadas das populações que receberam estas pessoas), a rejeição de gays nas equipes dos republicados nos Estados Unidos; as mortes causadas pela AIDS; a venda de crianças de jovens que não tinham sido orientadas a prevenirem a gravidez pela Igreja; e o empurra-empurra das instituições que “fecharam os olhos” para o comércio ilegal de crianças para apenas citar os temas principais.

Não tenho dúvidas que muitos dos assuntos tratados no parágrafo acima devem cair fundo na memória de algumas pessoas. Especialmente porque não foram poucas as mulheres que foram separadas do seus filhos à revelia. E, infelizmente, parece que este comércio ilegal de pessoas segue acontecendo.

Sobre a diáspora irlandesa, recomendo este texto da História Viva bem didático sobre o assunto.

Philomena estreou no Festival de Veneza em agosto de 2013. Depois de participar daquele evento, o filme passaria por outros 14 festivais. O próximo a figurar na lista será o Festival de Cinema de Belgrado, que começa no próximo dia 8 de março. Nesta trajetória, o filme recebeu 18 prêmios e foi indicado a outros 37, além de aparecer na lista do Oscar em quatro categorias.

Entre os prêmios abocanhados por Philomena, destaque para nove prêmios (!!) no Festival de Veneza, incluindo o de Melhor Roteiro; o de Atriz Britânica do Ano para Judi Dench entregue pelo Prêmio do Círculo de Críticos de Cinema de Londres; e o de Melhor Narrativa pela escolha popular no Festival de Cinema de Virgínia. Daqueles prêmios em Veneza, oito foram para Stephen Frears em eventos paralelos ao festival. Ou seja, até o momento, esta produção não recebeu nenhum dos principais prêmios do cinema.

Não há informações sobre o custo de Philomena, mas o filme conseguiu, até a última sexta-feira, dia 14, quase US$ 29,5 milhões apenas nos Estados Unidos. Nos outros mercados em que a produção já estreou o resultado está em cerca de US$ 46,7 milhões. Boas cifras para um filme que deve ter custado pouco.

Para quem gosta de saber sobre as locações, Philomena teve cenas rodadas em Rostrevor e Killyleagh, na Irlanda do Norte; em Potomac, Poolesville e em Washington, nos Estados Unidos; e em Londres, Oxfordshire e Harefield (cenas do convento), na Inglaterra. Dá até para fazer um roteiro de visitas para os interessados nas culturas inglesas e irlandesa. 🙂

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para a produção. Enquanto isso, os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 155 textos positivos e 13 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média 7,9. Desta vez, e isso é um pouco raro, a minha avaliação foi pior do que a média destes dois sites. De fato, esta produção não me envolveu e nem me tocou. E como cinema é interpretação e sentimento, deu no que deu. Que me perdoem os fãs desta história. 🙂

Philomena é uma coprodução do Reino Unidos, dos Estados Unidos e da França.

Com esta crítica, consigo um feito inédito aqui no blog: assistir a todos os indicados na categoria de Melhor Filme no Oscar antes da festa de premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Levei sorte, assim como todos os brasileiros, por ter todos estes filmes em cartaz ou nas videolocadoras antes do dia 2 de março. E agora, meus bons leitores, vou atacar a lista de documentários. E os convido para acompanhar a cobertura da premiação do Oscar aqui no blog no dia 2.

CONCLUSÃO: Este filme apresenta pelo menos duas histórias. A primeira, a busca da protagonista pelo filho depois de várias décadas de separação. Depois, as diferenças entre dois mundos: daqueles que acreditam em Deus e vivem a vida dentro desta fé e aqueles que não. Existe apenas um momento que faz o filme valer o tempo gasto. Mas cá entre nós, isso é muito pouco. Perto dos outros indicados deste ano ao Oscar, Philomena parece um filme menor.

Ele não surpreende e nem emociona como poderia e/ou gostaríamos. Se não houvesse expectativa a respeito dele, talvez eu tivesse achado ele um pouco melhor. Não é o caso, já que a produção foi indicada a quatro estatuetas. Algumas vezes aparecer no Oscar pode ser prejudicial para uma produção – ainda mais se ela é fraca, como é o caso de Philomena.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Não deixa de ser surpreendente Philomena ter chegado a quatro indicações no Oscar. Outros filmes poderiam ter ocupado, tranquilamente, o lugar desta produção. Para ficar em um exemplo apenas, e digo isso sem ter assistido ao filme ainda, este seria o caso de Inside Llewyn Davis – afirmo isso levando em conta a filmografia dos diretores, os irmãos Ethan e Joel Coen.

Mas ok, aparentemente a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood gosta do produtor, roteirista e ator Steve Coogan. Talvez isso justificaria as quatro indicações de seu filme ao Oscar. Philomena concorre em Melhor Trilha Sonora, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz (Judi Dench) e Melhor Filme.

Não vejo muitas chances de Philomena ganhar qualquer uma destas estatuetas. Vale lembrar que o filme foi indicado em três categorias do Globo de Ouro e não levou nada. Mas vamos tratar de cada uma das quatro categorias em disputa no Oscar.

Em Melhor Trilha Sonora, ele tem fortes concorrentes pela frente. Gostei muito da trilha de Her (comentado aqui) e do trabalho feito em Gravity (com crítica neste link). Não sei como estão as bolsas de apostas, mas acho que Gravity deve levar uma certa vantagem, até porque a trilha do filme é excepcional e fundamental para a história… ainda que eu não tenha conferido os elogiados trabalhos das trilhas de The Book Thief e, com alguma distância de diferença nas preferências, de Saving Mr. Banks. Agora, sem dúvida, a indicação de Philomena nesta categoria me parece a mais justa entre as quatro.

Depois, vejamos Melhor Roteiro Adaptado. Sem dúvida The Wolf of Wall Street (com crítica aqui) e 12 Years a Slave (com comentários neste link) são roteiros mais elaborados, ousados e bem escritos que Philomena. Mesmo Captain Phillips (comentado aqui) eu acho melhor – e ainda há Before Midnight, que muitos elogiaram, mas que eu ainda não assisti.

Na categoria Melhor Atriz, a excelente Judi Dench também corre por fora. Cate Blanchett, segundo as bolsas de apostas, é a franca favorita. Da minha parte, acho que tanto ela quanto Sandra Bullock poderiam, facilmente, ganhar a estatueta. Agora, se a Academia quiser consagrar Amy Adams, não seria totalmente uma surpresa – especialmente se o filme dela, American Hustle (comentado aqui) for abocanhando muitas estatuetas conforme os prêmios são entregues. Meryl Streep, apesar de hors concours, infelizmente concorre tão por fora quanto Dench.

E o que dizer da categoria Melhor Filme? Cada um com o seu gosto, devo ressaltar isso, mas francamente eu achei Philomena o último da lista para ser votado nesta categoria neste ano. Até American Hustle, do qual eu gostei menos que os demais, acho que tem mais detalhes técnicos e mereceria mais a estatueta pelo “conjunto da obra” do que Philomena.

Mas, sem dúvida, prefiro Her, The Wolf of Wall Street, 12 Years a Slave e até Gravity antes que Philomena – se fosse escolher um vencedor. Minhas preferências estão na ordem, com um certo empate técnico entre The Wolf of Wall Street e 12 Years a Slave na segunda posição. Entre os que correm por fora, acho Dallas Buyers Club (com crítica neste link), Nebraska (comentado aqui) e Captain Phillips também melhores. Além do meu gosto, acho impossível a Academia premiar Philomena – seja pela qualidade do filme, seja pelos outros concorrentes e a força maior de lobby deles. Se algo diferente acontecer, será a zebra do ano.