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Jackie

Jackie revela uma Jacqueline Kennedy, posteriormente Jacqueline Onassis, como você nunca viu. Diferente do que alguns poderiam esperar – e eu me incluo neste grupo -, Jackie não conta a trajetória de uma das primeiras-damas dos Estados Unidos mais conhecidas de todos os tempos. Não. Este filme se debruça sobre os fatos que circundaram o assassinato de JFK. Ou, em outras palavras, Jackie é a história do assassinato de JFK e de parte dos sonhos e da vida do casal sob a ótica de Jackie.

A HISTÓRIA: Jackie (Natalie Portman) caminha por um gramado. A câmera está muito próxima dela e registra uma expressão que parece ser a de choro contido. Corta. Em Hyannis Port, na cidade de Massachusetts, em 1963, Jackie acompanha a chegada de um carro na propriedade. Um jornalista (Billy Crudup) desembarca e se apresenta à porta, dando os pêsames para a ex-primeira dama.

Ela logo pergunta se ele tem lido o que outros jornalistas tem escrito. Ele diz que sim, e Jackie demonstra todo o seu descontentamento com a forma com que estão tratando o seu marido morto, John F. Kennedy. O jornalista pergunta como ela gostaria que JFK fosse lembrado, e Jackie afirma que ela vai editar o que ela quiser da conversa. Ele acaba aceitando a condição, e Jackie começa a contar a sua própria versão dos fatos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Jackie): Na seção que eu fui para assistir a Jackie, a maioria dos espectadores era de pessoas com 60 anos de idade ou mais. Um público que vivenciou os anos de JFK e que, provavelmente, como a maioria da audiência mundo afora, admirava a figura da primeira-dama dos Estados Unidos, Jackie Kennedy.

Para este público não foi fácil assistir a Jackie. Na verdade, para qualquer público eu imagino que não seja uma experiência fácil. Eu, que não vivi aquela época do início dos anos 1960 mas que, como quase todo terráqueo, conhece a história de JFK, de seu assassinato, todas as teorias de conspiração envolvendo o fato e, claro, a figura admirada de Jackie Kennedy, achei este um filme difícil.

Especialmente por uma razão: Jackie quebra toda expectativa do público. Esta produção não mostra um Jacqueline Kennedy dócil, serena, simpática. Muito pelo contrário. O filme destrincha toda a complexidade desta figura histórica ao mostrar fatos de sua vida pré e pós o assassinato do marido, incluindo no pacote cenas do fato propriamente dito.

Boa parte do público deve ter procurado Jackie pensando que este filme mostraria a trajetória de Jacqueline Kennedy, talvez até da Jacqueline Onassis. Eu, ao menos, que não gosto de ler sobre os filmes antes e evito assistir aos trailers das produções, achava que eu teria pela frente um interessante retrato sobre a protagonista.

Isso não deixa de ser verdade. Só que o roteirista Noah Oppenheim e o diretor Pablo Larraín fizeram uma escolha diferente. Ao invés de contar a história de Jackie desde antes do casamento com JFK e até depois de sua morte, quando se casou com Aristóteles Onassis, os realizadores resolveram focar em sua personalidade durante o episódio da morte do presidente americano.

A linha narrativa é toda cadenciada pela entrevista que Jackie dá para um jornalista, interpretado por Billy Crudup. Até a sua morte, em 1994, Jackie deu apenas três entrevistas. A primeira, que inspirou o filme Jackie, foi feita realmente poucos dias após a morte de JFK e foi divulgada pouco depois. Nela, Jackie cria o mito de “Camelot” como sendo a inspiração do marido morto.

A segunda entrevista, que Jackie queria que fosse divulgada apenas 50 anos após a sua morte, foi dada para o amigo e historiador Arthur Schlesinger Jr. em 1964 e divulgada no livro “Jacqueline Kennedy – Historic Conversations on Life with John F. Kennedy” em 2011 sob a autorização da filha do casal presidencial, Caroline. A terceira entrevista, reza a lenda, será divulgada apenas em 2067.

Como eu comentava, Jackie tem como linha narrativa a primeira entrevista divulgada com a ex-primeira-dama. A partir da conversa dela com o jornalista a história retrocede e avança na linha temporal, mostrando cenas de Jackie na Casa Branca antes da morte do marido, todos os detalhes dos fatos ocorridos logo após o assassinato de JFK, toda a preocupação da protagonista com o velório e o funeral do marido e questionamentos que ela fez neste período.

É um filme profundo, que disseca Jacqueline Kennedy de uma forma muito interessante e impactante. Natalie Portman dá um show de interpretação tanto nos momentos em que está sozinha em cena, tendo que lidar com a solidão e o luto, quanto nos momentos em que está lutando por colocar o marido e a família dela definitivamente na história dos Estados Unidos.

Mais que uma pessoa elegante, simpática e encantadora, Jackie se revela uma mulher forte, inteligente, perspicaz, afiada nas respostas para o jornalista – em mais de uma ocasião ela o questiona e o deixa constrangido – e, principalmente, uma grande conhecedora da História dos EUA e obstinada por colocar Kennedy e sua família como um capítulo importante desta mesma História.

Este talvez seja o aspecto mais interessante de Jackie. Como o roteiro de Oppenheim e a direção talentosa de Larraín revelam uma primeira-dama extremamente preocupada com o legado do marido e, consequentemente, dela própria para os Estados Unidos. Ela queria ter o controle sobre tudo, especialmente sobre a imagem dela e de JFK.

Jackie era obcecada por Abraham Lincoln, não apenas por ele ter sido um presidente dos EUA que também foi assassinado, a exemplo do marido, mas especialmente pela força da figura de Lincoln na história americana. O filme deixa claro como ela queria que JFK tivesse uma figura tão marcante para a História como tinha sido Lincoln – tanto que ela pede para examinar o cortejo de Lincoln e tentar emular algo parecido para o marido morto.

Mas mesmo antes da morte de JFK Jacqueline queria que a figura do marido e de sua família fosse marcante para a História. Esta preocupação constante com a imagem e o trabalho de Jackie para utilizar a nova “fábrica” de sonhos, manipuladora de “corações e mentes” chamada televisão a seu favor, é algo fascinante neste filme. Nos faz pensar sobre o uso da comunicação de massas, que apenas mudou de plataforma, tirando um pouco da audiência dos meios tradicionais (rádio, jornais, revistas e TV) para jogá-la nos meios digitais, a favor dos interesses próprios.

Jackie foi muito inteligente nesta forma de explorar a comunicação de massas e o poder da imagem. Neste sentido, o filme também é uma maravilha. O diretor chileno Pablo Larraín cuida para construir um filme em que as imagens jogam um papel narrativo fundamental. Ele coloca a câmera sempre próxima dos atores, permitindo que os espectadores escutem as suas conversas “ao pé do ouvido” e, principalmente, foca em cada detalhe da interpretação de Natalie Portman.

A atriz está impecável especialmente porque ela estudou cada detalhe da forma de falar, caminhar e agir da personagem histórica que ela está retratando. A ajudou neste processo, claro, o rico e variado material de imagens com a primeira-dama, incluindo o filme “A Tour of the White House with Mrs. John F. Kennedy” que está disponível neste link no YouTube e que é muito bem explorado por Larraín no filme.

Identificamos Natalie Portman, é claro, mas ela se transfigura de forma tão intensa em Jacqueline Kennedy que, em alguns momentos, parece que estamos vendo a ex-primeira-dama pela frente. É impressionante. Mais um trabalho soberbo desta atriz que, para mim, é uma das melhores de sua geração.

Como duas das três entrevistas com a ex-primeira-dama dos EUA já mostraram, ela era realmente uma mulher forte e inteligente, muito mais do que aquelas imagens históricas controladas por ela revelam. Procurando mais sobre a personagem, descobri que realmente o filme Jackie faz um retrato bastante interessante e próximo da realidade dela.

Ainda assim, como para o público em geral esta imagem mais complexa de Jacqueline Kennedy Onassis não é a mais frequente, muita gente vai se surpreender com este filme. Tanto porque ele desconstrói a imagem tradicional da protagonista quanto porque ele foca em um capítulo bem complicado da história americana. Ainda que a produção tenha algumas pílulas de história além da tragédia, 95% da produção é sobre o assassinato de JFK e sobre os fatos que o sucedem.

Por tudo isso, Jackie não é um filme fácil. Pelo contrário. Ele é um filme triste, tenso, impactante. Ajuda neste processo a trilha sonora igualmente forte Mica Levi. Ela ajuda na narrativa da produção e muitas vezes leva a tensão para outro nível. Jackie, apesar de um ou outro “defeito”, é uma produção muito interessante sobre os bastidores do poder. Ele nos conta uma história de pessoas que ficaram encantadas com o poder e com a imagem que deixariam de legado. São temas até hoje muito, muito atuais.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: No geral, achei as escolhas do roteirista Noah Oppenheim e do diretor Pablo Larraín muito interessantes. Eles conseguem o que desejam, que é apresentar uma outra visão de uma personagem histórica bastante conhecida e impactar com esta narrativa.

Dificilmente alguém vai pensar em Jacqueline Kennedy da mesma forma depois de assistir a Jackie. Eles conseguem uma desconstrução muito interessante da personagem história e a humanizam. Algo importante e inspirador, sem dúvidas.

Ainda assim, eu admito que eu esperava um filme um pouco mais “amplo”, que mostrasse um pouco mais de Jackie antes e depois do fato que é narrado. Eu queria saber mais sobre a sua fase após a viuvez e sobre a sua vida antes de JFK. Esse é um dos fatores para eu ter dado a nota acima para esta produção. Acho que os realizadores poderiam ter ousado um pouco mais na narrativa, poderiam ter fragmentado ela mais e se aprofundado na leitura da personagem para outras épocas de sua vida.

Um outro fator para a nota de Jackie não ser maior é que, apesar do filme desconstruir um bocado a imagem da ex-primeira-dama, ele também ignora uma série de outros fatos da época e que foram comentados por Jacqueline Kennedy nas cartas para o padre – e, talvez, na entrevista com o jornalista.

Por exemplo, ficam de fora do filme todas as infidelidades conjugais de JFK e, possivelmente, de Jackie. Muitos comentam que Onassis já era uma figura presente na vida de Jackie antes dela se tornar viúva e que ela teve um caso um tanto conhecido com William Holden quando ainda era casada com JFK. Nada disso é explorado no filme, o que achei uma escolha um tanto equivocada dos realizadores.

Antes eu comentei que o principal fio condutor da história é a entrevista real que Jacqueline Kennedy deu para um jornalista poucos dias depois da morte de JFK. Ainda que isso seja verdade, é preciso comentar que outro trecho marcante do filme, de conversas da protagonista com um padre (interpretado por John Hurt) são inspiradas em correspondências que a ex-primeira dama teve com um padre irlandês durante 15 anos e que foram leiloadas em 2014. Nestas cartas, ela fala sobre o que sentiu após a morte do marido – incluindo aí uma certa “bronca” com Deus.

Natalie Portman é realmente o nome deste filme. E não teria como ser diferente, já que ela é uma figura praticamente onipresente na história. O filme, afinal de contas, conta os fatos sob a ótica dela. Ainda assim, em algumas cenas ela não está presente. Nestes momentos outros nomes brilham em cena. Achei impressionante a caracterização de época. As pessoas escolhidas para cada papel foram certeiras.

Além da protagonista, que faz um trabalho impecável, estão muito bem em seus papéis Peter Sarsgaard como Bobby Kennedy; Billy Crudup como o jornalista que entrevista a ex-primeira-dama; John Hurt como o padre que conversa com Jackie após o assassinato de JFK; e Caspar Phillipson com uma semelhança assustadora como JFK – ele aparece pouco, mas está muito bem em cada aparição que faz no filme.

Em papéis menores e secundários, mas igualmente bem, estão os atores Greta Gerwig como Nancy Tuckerman, assessora e braço direito de Jackie no período em que ela foi a primeira-dama; Richard E. Grant como Bill Walton, assessor da Casa Branca; John Carroll Lynch como Lyndon B. Johnson; Beth Grant como a nova primeira-dama dos EUA, Bird Johnson; Max Casella como Jack Valenti, assessor de Johnson; e Georgie Glen como Rose Kennedy, mãe de JFK e Bobby. Todos estão muito bem.

O trabalho do diretor Pablo Larraín neste filme é feito com esmero. Em diversas cenas ele mistura cenas de época, reais, com os atores que fazem parte desta produção. O trabalho é interessante e dá outra força para a narrativa. Todos sabemos que estamos vendo personagens reais tendo as suas vidas contadas nesta produção, mas é diferente quando temos esta história imersa em cenas reais. Há diversas sequências impactantes, mas sem dúvida as que envolvem o assassinato em si e a sequência em que Jackie está limpando o sangue do marido no rosto estão no rol de inesquecíveis.

Além do diretor Pablo Larraín, que se credencia como um dos nomes a ser acompanhados no cinema, merecem aplausos nesta produção o trabalho de Mica Levi na trilha sonora; o de Stéphane Fontaine na direção de fotografia primorosa; o de Sebastián Sepúlveda na edição impecável e muito detalhista; o de Madeline Fontaine com os figurinos; o de Jean Rabasse no design de produção; o de Halina Gebarowicz na direção de arte; o de Véronique Melery na decoração de set; o dos 11 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem; os 22 profissionais do departamento de arte; os 10 profissionais que fazem um ótimo trabalho no departamento de som; e os 12 profissionais dos efeitos visuais e que propiciam aquela “mescla” entre cenas históricas e as feitas pelo diretor.

Jackie estreou no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2016. Depois o filme teve uma trajetória em 18 festivais pelo mundo – o último deles será o de Belgrado a partir de 3 de março deste ano. Até o momento o filme conquistou 32 prêmios e foi indicado a outros 136 – incluindo a indicação para três Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os 15 recebidos por Natalie Portman como Melhor Atriz, para os sete recebidos por Mica Levi por Melhor Trilha Sonora e para os dois recebidos por Madeline Fontaine por Melhor Figurino.

Jackie teria custado US$ 9 milhões – um orçamento baixo para os padrões de Hollywood – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 13 milhões. É uma bilheteria baixa se levarmos em conta a força da figura de Jacqueline Kennedy no país. Chega a ser admirável como o filme não decolou nos EUA.

Talvez o público da época de JFK não tenha gostado da narrativa, um tanto “pesada” para a memória de Jackie, e a história contada pela produção não tenha atraído ao público mais jovem. O que é uma pena, porque é um belo filme, muito bem feito e que com temáticas muito atuais, além de ser uma produção interessante sobre uma época importante dos EUA e do mundo.

Esta produção foi rodada nos Estados Unidos e na França. Entre as locações, destaque para os Studios de Paris, na La Cité du Cinéma; para o Easton Newman Field Airport, em Maryland (cena em que Jackie sai do avião junto com JFK); e em Tred Avon Manor, em Royal Oak, Maryland (casa de Verão da família do presidente); além das cidades de Washington e de Baltimore, nos EUA, e de Paris, na França.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Jackie foi anunciado como um filme que seria dirigido por Darren Aronofsky e tendo Rachel Weisz como protagonista. Os dois acabaram pulando fora da produção, mas Aronofsky seguiu sendo um dos produtores do filme.

O diretor Pablo Larraín estima que pelo menos um terço do que vemos no filme no corte final foram rodados em apenas um take – o que reforça ainda mais o talento da equipe envolvida.

O jornalista interpretado por Billy Crudup é inspirado em Theodore H. White, jornalista da revista Life que fez uma entrevista com a ex-primeira-dama pouco depois da morte de JFK.

As filmagens foram feitas em um prazo curto para os padrões de Hollywood: duraram 23 dias em Paris e mais 10 dias em Washington e Baltimore.

O diretor Pablo Larraín disse que só faria Jackie se Natalie Portman estrelasse a produção. O produtor Darren Aronofsky concordou que ela era a pessoa ideal para viver Jackie.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 218 críticas positivas e 26 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média 8. A nota do IMDb é boa, mas está entre as mais baixas entre os filmes concorrentes ao Oscar. A nota do Rotten Tomatoes, por outro lado, é bastante boa se levarmos em conta o padrão do site.

Este filme é uma coprodução do Chile, da França e dos Estados Unidos. Por ter os EUA como um de seus países, ele entra para a lista de produções que atendem uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

Há diversos textos interessantes sobre as entrevistas dadas por Jacqueline Kennedy e sobre esta personagem conhecida da história americana. Deixo como sugestões por aqui esta matéria em espanhol do jornal El País; esta outra do El País sobre as cartas de Jackie para o padre irlandês Joseph Leonard; esta matéria da Veja sobre a entrevista de Jackie dada em 1963; esta reportagem do português Jornal de Notícias sobre a segunda entrevista de Jackie; esta coluna de Elio Gaspari em que ele fala das três entrevistas da ex-primeira-dama; e, finalmente, esta matéria da Carta Capital sobre a vida sexual diversificada do casal Kennedy.

CONCLUSÃO: Este filme é impactante. Ele incomoda. Não apenas porque ele mergulha em uma realidade duríssima, mas também porque é um mergulho na cabeça de uma mulher que se habituou a ser fotografada a cada passo. Com uma direção interessante de Pablo Larraín, Jackie tem uma interpretação impressionante de Natalie Portman. Mais uma, aliás.

Em Jackie ela e o diretor conseguem desconstruir boa parte da imagem que temos de Jackie Kennedy. O que não é uma tarefa fácil, mas que é cumprida a risca. É um filme angustiante, até certo ponto, e pode ser uma decepção para quem tem apenas uma imagem positiva da protagonista na lembrança. Não acredito que este filme seja interessante para qualquer pessoa, mas ele tem um propósito muito claro e o realiza muito bem.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Era certo que Jackie teria pelo menos duas indicações ao prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: Melhor Atriz para Natalie Portman e Melhor Figurino. Além destas indicações mais que esperadas, o filme ainda emplacou uma terceira, a de Melhor Trilha Sonora.

Para mim, a interpretação de Natalie Portman neste filme, que é todo focado nela, é uma peça irretocável. A forma com que a atriz emula a voz, a forma de falar, o jeito de andar, a postura e todos os demais detalhes da ex-primeira-dama americana é algo impressionante. E não é uma tarefa simples, especialmente porque há muito material de comparação – Jackie Kennedy foi uma figura extremamente filmada e fotografada.

Fiquei arrepiada e perplexa de forma positiva com a forma com que Natalie Portman “encarnou” uma personagem tão conhecida. E fazendo algo ainda mais difícil: além de “emular” Jackie Kennedy, ela ainda imprimiu uma dinâmica para a personagem que não vimos em lugar algum. Digo tudo isso para afirmar que, sem dúvidas, ela merecia ganhar o Oscar 2017 mas que, infelizmente, isso não deve acontecer.

Tudo indica que este será o ano de La La Land. E como já comentei na crítica do filme, La La Land é a produção da vida de Emma Stone. No prêmio máximo dos atores, o Screen Actors Guild Awards, Emma Stone foi a vencedora como Melhor Atriz. Então é muito improvável que um resultado diferente ocorra no Oscar.

O bom é que, diferente de outros anos, Natalie Portman perder para Emma Stone não será exatamente uma grande injustiça, até porque Emma Stone está muito bem em La La Land – para mim, ela é um dos pontos fortes do filme que carece de roteiro. Então, apesar de fazer um trabalho mais complexo, Natalie Portman vai perder para alguém que também está bem.

Sobram as outras duas categorias em que Jackie está concorrendo. O filme tem boas chances em Melhor Figurino, mas ele tem pela frente, novamente, o “queridinho do ano” La La Land. Então sim, ele pode perder novamente nesta mesma queda-de-braço. Em Melhor Trilha Sonora ele tem chances muito, muito remotas. O favoritíssimo, e com razões desta vez, é La La Land, seguido de Moonlight.

Então, se as previsões estiverem certas e este ano for confirmado como o ano de La La Land, Jackie deve sair do Oscar 2017 com as mãos vazias. Não será de todo injusto, porque realmente La La Land é um filme muito bem acabado, ainda que lhe falte conteúdo. Jackie é denso, tem conteúdo e tem uma reconstrução de época impressionante, mas não tem a mensagem de celebração de Hollywood que o rival tem e que a indústria do cinema acha tão importante valorizar neste momento político dos Estados Unidos.

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Blue Jasmine

BlueJasmin OneSheet_Blue Jasmine - One Sheet

Uma mulher que sabe bem o lugar importante que ela deve ocupar no mundo. Não por mérito próprio, mas porque ela há de encontrar e encantar um homem que possa proporcionar-lhe a vida de rainha que ela merece. Blue Jasmine foi feito para uma mulher brilhar, e esta mulher se chama Cate Blanchett. A personagem dela é sobre a qual me refiro no início deste texto.

Como o sol e os demais planetas, é ela que aguarda que o mundo gire ao seu redor. Woody Allen faz, mais uma vez, um filme para que uma atriz de renome brilhe e tenha a carreira marcada por seu desempenho. Demorei para assistir a este filme. Gostei dele, mas não encontrei em Blue Jasmine todas as qualidades que eu esperava.

A HISTÓRIA: Um avião corta os céus dos Estados Unidos. Dentro dele, Jasmine (Cate Blanchett) conta para a passageira ao lado (interpretado por Joy Carlin), que ela nunca conheceu um homem como Hal (Alec Baldwin). Ela fala da vida que teve com ele, e como se sentia especial ao seu lado. Lembra como tocava a música Blue Moon quando eles se conheceram, e a mulher ao lado parece embarcar na história.

Jasmine diz que deixou a faculdade para ficar com Hal, mas que não perdeu nada porque ela não se imaginava como uma antropóloga. Na saída para pegar a bagagem, ela diz que o sexo entre eles sempre foi bom. Ela também conta que os médicos tentaram seis medicamentos com ela, mas que nada funcionou como deveria. Nesta parte, a mulher ao lado dela parece um pouco desconfortável. E é desta maneira, um tanto deslocada, que Jasmine tentará refazer a vida em San Francisco.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Blue Jasmine): Devo adiantar para vocês que vou cometer algumas “heresias” neste texto. Mas há uma justificativa para elas – mesmo que vocês possam discordar dos argumentos.

Como eu disse antes, demorei um bocado para assistir a Blue Jasmine. Uma prova disso é que vi a quase todos os principais concorrentes ao próximo Oscar, incluindo Gravity (comentado aqui no blog), assim que ele estreou nos cinemas, mas perdi o momento de Blue Jasmine. Pouco a pouco, contudo, fui acompanhando como Cate Blanchett foi ganhando todos os prêmios da temporada por causa do desempenho neste filme, e como ela é a virtual favorita para o próximo Oscar, fui obrigada a assistir a este filme.

E francamente? Vi a mais uma produção com a marca do Woody Allen. E aí vai o primeiro sacrilégio deste filme: nunca achei nada demais na filmografia de Allen. Um indicativo disto é que não tenho nenhum de seus filmes como um dos meus preferidos de todos os tempos. Outros diretores, muito menos “badalados”, me “afetam” ou me convencem muito mais em sua forma de contar uma história.

Dito isso, feito este parêntesis, Blue Jasmine é mais um filme bem escrito por Woody Allen. Outra vez, este diretor com marca registrada muito própria, escolheu um tema específico para escrever um roteiro bacana sobre ele. No caso de Blue Jasmine, ele se debruça nas mulheres de escroques que vivem uma vida de primeira a custa dos outros – ou seja, não são ricos por mérito, mas por exploração. E há quem diga que não há rico por mérito… mas esta é outra história.

A personagem principal deste filme, vivida por Blanchett, Jeanette ou Jasmine (o segundo nome por escolha própria), encarna aquele tipo de mulher que acha que a função que tem na vida é encontrar um homem endinheirado pra sustentá-la. Isso porque ela faz uma avaliação de si mesma muito específica: ela merece ter o bom e o melhor. Mas diferente de outras mulheres, Jasmine não acha que conseguirá isso por conta própria – afinal, tudo é muito complicado, especialmente batalhar pela própria sobrevivência e/ou vida boa.

No filme de Allen, encontramos Jasmine após a “tragédia”. Mesmo não tendo me fascinado tanto quanto deveria, o roteiro de Blue Jasmine tem um mérito: ele sabe ir e vir do presente para o passado com suavidade e no momento exato. Assim, pelas lembranças da protagonista, voltamos sempre para a época na qual Hal estava vivo para acompanhar momentos que pudessem ou não sinalizar a inocência ou o conhecimento de Jasmine sobre tudo o que acontecia.

Aliás, esta parece ser a premissa principal do filme. Afinal, o quanto alguém pode ser inocente frente a tanto dinheiro sem uma justificativa plausível para ele existir? As mulheres dos ricaços que ganham verba de forma escusa de fato não sabiam de nada ou fingem não saber? A responsabilidade de Jasmine sobre tudo o que aconteceu e o “preço” que ela paga por ter se feito de cega move a trama, na mesma medida que a tentativa da personagem em se “reerguer”.

Achei especialmente interessante como ela tenta fazer a vida por “conta própria”. No fundo, como fica comprovado, ela apenas tenta fingir que vai tentar um caminho alternativo. Ela é daquela “espécie” de mulher que não quer um grande esforço. O ideal, para este perfil, é que surja pela frente um marido rico e que possa suprir todas as suas demandas.

Não vou julgar uma pessoa que siga esta linha. Até porque há várias mulheres assim. Mas francamente? Não vejo na dependência de outra pessoa, neste caso um “marido-provedor”, a saída para um ser humano. Afinal, cadê a independência, a autonomia? Como eu posso me sentir uma pessoa completa e capaz se não consigo crescer e me manter por conta própria? Acho ótimo e primordial dividir a vida e o que se sabe com os outros – ou com uma pessoa especificamente. Mas a dependência é sempre ruim – porque torna as pessoas superficiais e sem identidade.

Demora, mas lá pelas tantas Jasmine percebe isso. Só que talvez seja tarde demais para ela… Será? Francamente, para quem está disposto a “mudar a chave”, nunca acho que seja tarde demais para nada. Muito menos para tomar as rédeas da própria vida nas mãos. Mas o que faz a protagonista deste filme?

(SPOILER – não leia se você não assistiu a Blue Jasmine). Ela busca o primeiro cara que possa lhe manter na vida boa assim que possível. Assim, naturalmente, ela agarra a oportunidade que uma festa lhe dá e tenta segurar o bom partido Dwight (Peter Sarsgaard). Como tantas pessoas na vida real, fora desta ficção, Jasmine conta apenas parte da própria história. E exagera outras partes. O suficiente para convencer Dwight que ela também é um bom partido. E no fim das contas, quantas relações não surgem e são mantidas através de um cálculo impreciso de troca de benefícios?

Woody Allen sustenta Blue Jasmine com a mesma lógica de tantos outros de seus filmes. Ele tem ótimos acertos em algumas cenas, enquanto na maior parte do tempo procura transportar para a telona o supra-sumo de uma realidade que ele já encontrou na vida. E com a qual nos deparamos também, uma hora ou outra, se formos um pouco atentos.

Como manda a regra de um roteiro de Allen, há algumas sequências verdadeiramente impagáveis. A minha preferida é quando a “tia” Jasmine desabava com os sobrinhos Matthew (Daniel Jenks) e Johnny (Max Rutherford) em uma lanchonete. A cara de constrangidos dos dois, que todos nós já tivemos frente a alguma confissão de um parente “cheio da cachaça”, é impagável. Assim como a interpretação de Blanchett.

Possivelmente, o ponto forte do filme, junto com a “reviravolta” no roteiro perto do final. Para o meu gosto, que vejo Woody Allen um tanto supervalorizado na maior parte do tempo – ainda que devo admitir que ele mantém uma coerência rara para um diretor de Hollywood em sua filmografia -, a nota abaixo se justifica especialmente pela “sacada” do roteiro a partir do reencontro de Jasmine com o enteado Danny (Chalie Tahan quando criança, Alden Ehrenreich quando adulto). Porque, naquele momento, o espectador tem a resposta sobre a “inocência” de Jasmine. Como diz aquela lenda, nada pior do que a vingança de uma mulher traída.

Finalizando, Blue Jasmine é um filme típico de Allen, com algumas sequências muito bem construídas, uma ótima escolha de elenco – Sally Hawkins como Ginger, para mim, é a surpresa positiva da produção -, um roteiro que sabe focar uma parte específica da sociedade com humor e a duração exata. Mais que uma hora e meia de filme seria pedir demais. Mas Blue Jasmine funciona bem em seu tempo de duração, ainda que não seja nenhuma produção verdadeiramente marcante.

NOTA: 8,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Há uma lenda de que Woody Allen sempre faz filmes para as “atrizes da vez” brilharem. Sabendo que tais atrizes são aquelas que ele escolhe a dedo. Francamente, acho que Cate Blanchett está bem neste filme, mas não vejo que ela faça o trabalho da vida dela aqui. Como já vi acontecer recentemente com outras atrizes que passam pelas “mãos” de Woody Allen. Ainda assim, e isso é fato, ele sabe dirigir bem os atores que participam de suas produções.

Neste filme, além de Cate Blanchett, que literalmente vive a personagem que faz os demais orbitarem ao seu redor, gostei muito da entrega de Sally Hawkins. De uma maneira muito discreta, nada espalhafatosa, Hawkins encarna bem o papel da irmã que se sente sempre eclipsada. Além das duas, que se destacam na produção, acho que Alec Baldwin segura bem no papel de Hal, assim como Andrew Dice Clay está bem como Augie – especialmente na sequência em que ele fala algumas verdades para Jasmine quando ela está para comprar o anel de noivado.

Outros que merecem ser mencionados pelo bom trabalho: Bobby Cannavale como Chili, o novo namorado de Ginger que está louco para Jasmine sair da casa para que ele possa viver com a namorada; e Louis C.K. como Al, o homem que Ginger conhece em uma festa e que, francamente, está na cara que é casado. Também está bem, ainda que apareça pouco, o trabalho de Max Casella como Eddie, o amigo de Chili que é “escalado” para um encontro com Jasmine, e o “eterno esquisitão” Michael Stuhlbarg como o Dr. Flicker, o dentista com quem a protagonista vai trabalhar.

A marca de Woody Allen se manifesta logo nos primeiros minutos do filme. Aquela crônica de uma conversa desconcertante no avião é típica do diretor. Quem nunca teve que “aguentar” uma pessoa que gosta de falar a vida inteira para um desconhecido? Algo constrangedor, mas bastante realista. Ainda mais nos tempos atuais, em que a tecnologia ajuda as pessoas a “desabafarem”. Para mim, um sintoma importante da falta de contato, de afeto e de intimidade que as pessoas tem umas com as outras em muitos momentos – e daí, como “válvula de escape”, fica mais “fácil” (bem entre aspas) falar com desconhecidos sobre coisas muito pessoais. O que é quase o mesmo que falar sozinho – como Blue Jasmine bem argumenta.

Grande apreciador de jazz, Woody Allen nos entrega, mais uma vez, uma trilha sonora embalada pelo gênero. Algo que sempre funciona, assim como os créditos iniciais e finais de seus filmes. Eles resgatam os créditos dos anos 1950 e 1960, principalmente.

Agora, um adendo aos comentários anteriores sobre o filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Blue Jasmine). Ainda que Jasmine faça o perfil de mulher “interesseira”, ou seja, daquela mulher que prefere se anular para não passar trabalho de correr atrás do próprio dinheiro e ser mantida por um homem, chega a incomodar o machismo que a circula. Não apenas em comentários maldosos de Chili, que não alivia em momento algum em “jogar verdades” na cara de Jasmine, mas também na forma com que homens como o Dr. Flicker a trata. Até parece que todos no filme esperam que o futuro inevitável da mulher – e não apenas de Jasmine – seja se entregar e depender de um homem. Triste e limitante cenário.

Da parte técnica do filme, sem dúvida destaco a trilha sonora, a edição de Alisa Lepselter e os figurinos de Suzy Benzinger. Outros nomes que podem interessar: Javier Aguirresarobe como diretor de fotografia; Santo Loquasto assinando o design da produção; Michael E. Goldman e Doug Huszti na direção de arte; Kris Boxell e Regina Graves na decoração de set; e a maquiagem da equipe comandada por Karen Bradley e Linda Kaufman.

Blue Jasmine estreou em Los Angeles e em Nova York no dia 26 de julho de 2013. Depois, o filme participaria do Traverse City Film Festival no dia 30 de julho. A produção passou ainda por outros seis festivais e recebeu, até o momento, 21 prêmios e foi indicado a outros 36, incluindo três Oscar’s. Entre os que recebeu, destaque para o Golden Globe de Melhor Atriz – Drama para Cate Blanchett, para o Screen Actors Guild de Melhor Atriz também para Blanchett e para outros 18 prêmios que a atriz recebeu pelo papel como Jasmine.

Esta última produção de Woody Allen teria custado US$ 18 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 33,2 milhões. No restante dos mercados aonde o filme já estreou, ele faturou cerca de US$ 61,6 milhões. Um bom desempenho, e que garante mais um sucesso para a filmografia de Allen.

Blue Jasmine foi rodado em Nova York, em San Francisco e em diferentes cidades da Califórnia.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: a figurinista Suzy Benzinger tinha um orçamento de apenas US$ 35 mil. Apenas a bolsa Hermès que Jasmine carrega valia mais do que isso. Desta forma, Benzinger precisou conseguir emprestada não apenas a bolsa, mas a maioria das roupas de grife que aparece na produção.

As atrizes Cate Blanchett e Sally Hawkins foram as únicas do elenco a terem o script completo durante as filmagens. Os demais atores tiveram que improvisar bastante.

Inicialmente, o ator Bradley Cooper tinha sido sondado para fazer um papel no filme, mas por conflitos de agenda ele acabou ficando de fora do projeto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para Blue Jasmine. Uma boa avaliação, mas abaixo de vários concorrentes do filme no Oscar. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 176 críticas positivas e apenas 17 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 8.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme entra na lista de produções que atende a uma votação feita aqui no blog.

CONCLUSÃO: A mulher elegante que fala sozinha e que conta, para quem quiser ouvir, detalhes da própria vida, ganhou um filme em sua homenagem. Blue Jasmine persegue os passos desta mulher quando ela não tem mais o que tinha. Um filme bem contado, com a duração exata, e com algumas cenas impagáveis. Bem ao estilo de Woody Allen. E ainda que a consagrada Cate Blanchett brilhe em seu papel, fica complicada a comparação. Digo isso não apenas porque ela concorre com nomes incríveis no próximo Oscar, mas também porque as entregas das atrizes que estão disputando o prêmio mais vistoso de Hollywood são muito diferentes. Mas falarei sobre isso logo mais, no tópico abaixo.

Sobre o filme… é uma história interessante, que foca uma parte menos “visível” da mentirosa classe alta e que vive de golpes. A mulher frágil não é idiota, ainda que seja feita de muita complexidade. Allen, como em outros filmes, vai esmiuçando a alma da protagonista e, através desta lente apurada, percebemos as suas relações, conhecemos os seus desejos e limites. Mais um filme humano, demasiado humano, e que trata dos efeitos irreversíveis que uma vida de escolhas equivocadas pode provocar. O inferno não são os outros, segundo Blue Jasmine. Bem escrito, envolvente, só não tem a potência para ser inesquecível. Há filmes melhores de Blanchett e Allen – separados – no mercado.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Impressionante como Cate Blanchett “papou tudo” por causa de seu desempenho em Blue Jasmine. A atriz, uma das melhores de seu geração, para o meu gosto, ganhou os principais prêmios da temporada por seu trabalho como Jasmine. Ela merece toda esta badalação? Sem dúvida, Blanchett está perfeita neste filme. E também merece qualquer prêmio pelo conjunto da obra. Mas e as outras concorrentes no Oscar?

Antes de falarmos delas, vamos relembrar para quais estatuetas Blue Jasmine foi indicado: Melhor Roteiro Original, Melhor Atriz para Cate Blanchett e Melhor Atriz Coadjuvante para Sally Hawkins. Destas indicações, a única que pode dar um Oscar para o filme é mesmo a indicação de Blanchett. Acompanhei as últimas premiações e reparei em como ela ganhou todos os prêmios – do Globo de Ouro até o Screen Actors Guild, os dois principais na corrida pré-Oscar.

Talvez por saber disto e por acompanhar a carreira de Blanchett, eu esperava mais dela em Blue Jasmine. Certo, alguém pode dizer que eu estou cometendo uma heresia. Mas não me entendam mal. Não quero dizer que ela não esteja muito bem no papel. O filme é dela – e foi feito desta forma, como tantos outros filmes de Allen que são planejados para a atriz protagonista brilhar (e as demais atrizes da produção também).

Mas é que com tantos prêmios recebidos, eu estava esperando uma interpretação acima de qualquer dúvida, de qualquer suspeita. E não foi isso que eu vi. Ainda preciso assistir ao trabalho de outras duas feras para concluir definitivamente sobre a categoria Melhor Atriz: Meryl Streep e Judi Dench. Mas apenas comparando o trabalho de Blanchett, de Amy Adams (American Hustle, comentado aqui no blog) e de Sandra Bullock (Gravity), acho que a Academia deveria premiar a… Bullock.

Sim, nem eu acredito que escrevi isso. Em qualquer situação eu acho Blanchett melhor que a Bullock. Mas desta vez, mesmo achando o roteiro de Gravity fraco, vejo uma entrega muito maior de Bullock que de Blanchett em seus respectivos filmes. Blue Jasmine não é o papel da vida de Blanchett. Mas talvez seja o filme em que Bullock mais se esforçou. De qualquer forma, acho que seria uma zebra Blanchett perder esta. E não será injusto, por tudo que ela já fez no cinema – e, até agora, ela nunca recebeu um Oscar como Melhor Atriz, apenas como Melhor Atriz Coadjuvante. Está na hora dela ganhar, é claro.

Dito isso, não estarei torcendo por ela na noite do Oscar. Mas também não acharei nada injusto se a Academia lhe fizer justiça. Nas outras categorias em que o filme está concorrendo, não vejo chances em Melhor Atriz Coadjuvante – onde a estatueta está sendo disputada a tapas por Lupita Nyong’o (de 12 Years a Slave, que eu comentei neste texto) e por Jennifer Lawrence (de American Hustle) – e nem em Melhor Roteiro Original.

Neste último, francamente, acho que o prêmio deveria ir para Her (comentado por aqui) ou para Dallas Buyers Club (para o qual você encontra uma crítica aqui). Ainda que American Hustle – que jamais seria o meu voto – possa surpreender. Mas Blue Jasmine… ainda que tenha um texto muito bom, corre por fora. No dia 2 de março nossas dúvidas serão respondidas.

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Lovelace

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A história de uma mulher que marcou o debate público dos Estados durante uma década, aproximadamente, entre o início dos anos 1970 e dos anos 1980. E ela não fez isso de forma planejada. Mas quando se viu frente aos holofotes, resolveu tomar uma atitude e mudar a rota previsível. Usando literalmente a garganta, seja para ganhar dinheiro ou para denunciar, Linda Lovelace chocou a opinião pública norte-americana, dividiu opiniões, criou furor no setor da pornografia e, agora, rendeu a cinebiografia que leva o seu nome artístico. Lovelace conta a história desta mulher, trazendo uma Amanda Seyfried um pouco mais ousada do que o seu público está acostumado a presenciar.

A HISTÓRIA: Sonzeira e um retroprojetor de um cinema qualquer. Na frente dos espectadores, o início do filme Deep Throat, de 1972. Após aplausos, uma voz apresenta a protagonista do filme: Linda Lovelace (Amanda Seyfried). Corta. Ela aparece fumando em uma banheira, pensativa. Junto com a música alta, um trecho de uma entrevista de Linda, quando lhe perguntam qual é a história dela antes de tornar-se uma estrela de filme pornô e a garota-propaganda da revolução sexual nos Estados Unidos. Corta. Na televisão, o apresentador constata que Deep Throat tornou-se um dos filmes de maior êxito do cinema e que um tribunal de Manhattan havia considerado a produção obscena e exigido que ela saísse de cartaz dos cinemas de Nova York. A pergunta sobre quem é a real Linda Lovelace conta a história da mulher na banheira, protagonista de um dos filmes pornô mais polêmico de todos os tempos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Lovelace): Eu perdi o filme Deep Throat, mas tinha ouvido falar dele. Francamente, os filmes pornô nunca foram o meu forte. 🙂 Sempre preferi outras opções nas videolocadoras, quando elas eram a minha alternativa mais frequente para assistir a filmes diferentes – antes da proliferação dos cinemas e de outras formas de conseguir produções de todos os tipos. Mas interessada pela história do cinema mundial, impossível não ter ouvido falar da conhecida Garganta Profunda.

Ainda assim, até Lovelace, eu não sabia nada sobre a história da protagonista do conhecido filme do cinema pornô. Não sabia, por exemplo, que ela tinha virado uma inusitada ídola de parte do movimento feminista. Algo difícil de acreditar se pensarmos em uma estrela do cinema pornô – já que este tipo de filme, originalmente, guardada as devidas exceções, plasma um tipo de degradação da mulher difícil de ser aceita por quem defende a valorização do “sexo frágil”.

Pois bem, tudo em Lovelace foi novidade para mim. E admito, me fez mergulhar na história da mulher “homenageada” com a produção depois que o filme terminou. E foi aí, vendo a vídeos originais dela, que eu percebi com toda a clareza o que tinha apenas desconfiado antes: Lovelace fica muito aquém do que poderia ter sido se os realizadores tivessem sido um pouco mais ousados.

O primeiro elemento que chama a atenção nesta cinebiografia sobre a estrela de Deep Throat é a trilha sonora. Excelente, por sinal. Em seguida, ganha destaque a direção de fotografia e a ambientação de Lovelace nos anos 1970. Não por acaso, esta produção me lembrou demais a Boogie Nights. E, guardada a devida proporção, Amanda Seyfried me lembrou bastante a Julianne Moore no filme de 1997 que tem a mesma “identidade” deste novo filme. Menos puritano e simplista que Lovelace, Boogie Nights, contudo, é melhor.

Aliás, Amanda Seyfried caminha para o aprimoramento da própria carreira. Ela claramente está selecionando papéis de gêneros muito diversos e, como fez antes a própria Julianne Moore, incluiu nesta diversificação papéis mais “ousados” na mescla entre violência e sexo. Para os fãs da atriz, o importante é que ela se sai bem em Lovelace e passa no teste. Ela e o experiente e normalmente acima da média ator Peter Sarsgaard são o melhor deste filme dirigido pela dupla Rob Epstein e Jeffrey Friedman.

A direção deles também vai bem. Eles focam as atenções no trabalho dos atores e confiam em uma equipe técnica que sabe o que está fazendo. Mas o problema de Lovelace é realmente o roteiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Andy Bellin procurou a via do exagero no drama, especialmente no “resgate familiar” que Linda procura no final da produção. Mas ao valorizar as lágrimas de crocodilo dos pais da protagonista, a roteirista deixou de fora uma contextualização sobre a protagonista que faz falta para o filme. Teria sido muito mais interessante, por exemplo, explicar melhor porque Linda Lovelace foi tão importante para o debate da pornografia nos Estados Unidos. Uma forma de fazer isso seria reencenar debates na televisão com ela, assim como a exposição de Chuck (Peter Sarsgaard) na imprensa.

Mas não. A roteirista prefere o caminho do sentimentalismo barato e previsível. Com isso, o filme perde em informações e também no impacto. Fica mais superficial do que poderia, e torna a história de Linda Lovelace menos interessante. Para solucionar este problema, só mesmo partindo para uma pesquisa por sua própria conta. Há alguns vídeos no YouTube com a personagem principal desta trama e com o marido bandido dela que valem ser vistos.

Sobre a narrativa de Lovelace, gostei do roteiro ter começado nas vésperas da mudança definitiva na vida da protagonista, mais precisamente em 1970, quando Linda tinha 21 anos. O filme foca a casa em que ela residia com os pais, Dorothy (Sharon Stone) e John Boreman (Robert Patrick) e, na sequência, apresenta a melhor amiga de Linda, Patsy (Juno Temple), e o primeiro encontro delas com Chuck. Até aí tudo muito bem, com algumas ressalvas – sobre as quais falarei em seguida.

Um acerto do roteiro de Bellin foi contar a história de Linda sob a ótica “otimista”, que é a que o grande público conheceu e predominou em um primeiro momento, para depois retornar no tempo histórico para contar os outros matizes do que havia acontecido – e em tons muito mais obscuros. Esta foi uma escolha interessante e que dá fôlego para a produção chegar até o final despertando interesse. Ainda assim, o desfecho de Lovelace carece de impacto. No lugar do melodrama, sem dúvida, teria sido mais interessante refilmar os debates televisionados, como eu comentei antes.

Agora, as ressalvas que faço do início do filme e de alguns trechos posteriores. Para começar, vamos combinar que é beeeem exagerada a versão de que Linda era quase uma puritana, não é mesmo? Logo no início do filme, ela fica um tanto “escandalizada” com a amiga Patsy falando de boquete e querendo, no quintal da casa de Linda, liberar o laço do biquíni para que elas não ficassem com o bronzeado perfeito comprometido. Daí, depois, ela abraça todas as fantasias sexuais de Chuck e vira uma especialista no boquete? Difícil de acreditar, não é mesmo?

Essas cinebiografias que procuram “santificar” o homenageado me cansam. Um filme do gênero fica realmente interessante se tenta abarcar todas as facetas de quem é retratado. Além de falhar neste quesito no início da produção, tornando Linda puritana demais, Lovelace exagera nos tons dos pais da protagonista, displicentes até quase o exagero, assim como na exigência de “redenção” deles no final. Certo que ela se reaproximasse dos pais, mas daquela forma tão “perfeitinha”? Outros pontos da história real de Linda também ficam de fora, como a relação forçada que ela acaba desenvolvendo com Sammy Davis Jr. (interpretado por Ron Pritchard em uma ponta).

Além disso, o filme apenas cita a guerra entre o lado mais puritanista e o “safado” da cultura e da política norte-americana. Nixon até aparece em algum vídeo, aqui e ali, mas o filme nem esboça uma contextualização sobre a importância que Deep Throat teve na derrocada do presidente norte-americana. Não foi por acaso que Walter Mark Felt, informante-chave dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein no Caso Watergate recebeu o apelido de Deep Throat. O filme era sensação na época.

Mesmo com estas falhas e desperdícios do roteiro, Lovelace retoma uma história interessante. E que me fez lembrar outro tipo de comparação extremista. Afinal, como o Capitão Nascimento de Tropa de Elite um dia criticou as pessoas que compram drogas por alimentar a violência e os mais diferentes crimes, quem gasta dinheiro com pornografia está, da mesma forma, promovendo a degradação humana nas mais diferentes formas. Muitos podem argumentar que esta é uma visão exagerada e que a base de comparação não é a mesma.

Bueno… cada um pensa de uma forma e encaminha a vida de uma maneira. Da minha parte, acho estes argumentos extremistas válidos. No caso das drogas, acho muito mais válido quem planta o seu próprio pé de maconha para consumo do que quem paga para ter o produto para um traficante – que sim, está envolvido nos mais diferentes tipos de crime. Da mesma forma, vejo como legítimo o estilo “galinha” de ser, dos eternos insatisfeitos pelo prazer e que pulam de galho em galho atrás de sexo. Melhor do que aqueles que pagam por sexo ou que consomem pornografia porque há muitas pessoas por trás destas práticas que vivem de violência dos mais diferentes tipos.

Não compartilho, pessoalmente, de nenhuma destas práticas, mas entendo quem faça algumas delas – exceto as da pornografia e do patrocínio dos traficantes. Alguém pode dizer que há mulheres que gostam de sexo ao ponto de que elas se prostituem ou fazem filmes pornô (existe, realmente, diferença entre uma coisa e outra? não vejo…) para ter o número de parceiros desejados e/ou ainda ganhar um bom dinheiro com o que curtem fazer. Até pode ser. Mas para quantas mulheres como estas existem aquelas que são exploradas, seja por não terem outra alternativa de renda (realmente?) ou pela coerção ou violência de parceiros ou outras pessoas com as quais se envolveram?

Da minha parte, acho a pornografia, seja ela qual for, uma grande fonte de degradação humana. Por que se as pessoas gostam de se expor desta forma, para que precisariam ganhar dinheiro por isso? Fariam de graça, não é mesmo? Fariam apenas porque gostam, e não porque precisam de dinheiro, ou porque acham que estas práticas são a única forma que elas tem de seguirem vivas. Linda Lovelace chamou a atenção para isso. E ainda que eu não ache que ela fosse tão puritana quanto o filme sugere, ou que ela mesma tenha dito, acredito sim que ela foi explorada e que, de forma muito corajosa, decidiu dar um basta para aquela vida e chamar a atenção do mundo para esta situação.

Não por acaso ela foi apoiada por muitas feministas. Pessoas que acham que nenhuma mulher deveria ser explorada. Neste sentido, estou com elas. Acho que toda mulher deve ter a liberdade de fazer o que quiser. Inclusive filmes pornô, fotografias com elas nuas, ou sexo com várias pessoas diferentes todos os dias. Desde que elas não sejam forçadas a estes atos, ou que precisem ganhar dinheiro por eles para sobreviver. Do contrário, estamos apenas falando de degradação.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo que Lovelace me despertou foi a curiosidade. Para saber mais sobre a personagem desta cinebiografia e, também, sobre o filme clássico do cinema pornô que ela estrelou. Procurando mais informações sobre ambos, fiquei sabendo de alguns pontos interessantes.

Deep Throat, lançado em 1972, foi dirigido por Gerard Damiano, que teve 51 títulos no currículo de diretor. O filme, que teria custado US$ 20 mil e faturado, apenas nos EUA, US$ 45 milhões. De acordo com Lovelace, a produção acumulou US$ 600 milhões – acredito que este valor é corrigido e contempla o faturamento global da produção. Até porque a diferença é muito grande do resultado bruto nos EUA e essa outra projeção.

No currículo da Linda Lovelace original aparecem dois curtas, anteriores a Deep Throat: Sex for Sale, de 1971, e The Foot, de 1972. Depois do sucesso retumbante de Deep Throat, ela faria Deep Throat Part II, lançado em 1974. Não encontrei informações sobre a bilheteria, mas não tenho dúvidas de que ele faturou muito mais do que custou. Porque está é uma característica dos filmes do gênero: ter um orçamento baixíssimo e conseguir um bom lucro sempre – ou quase sempre.

Em 1978, como bem explica Lovelace, Linda lança Ordeal, livro que questiona o que contaram sobre ela até aquele momento. A obra contou com a ajuda do jornalista Mike McGrady. A partir daí, ela é entrevistada por Bob Langley no Saturday Night at the Mill; aparece nos programas Today, NBC Tonight, entre outros; além de ser foco, em 2001, do documentário para a TV The Real Linda Lovelace.

Assisti a boa parte de The Real Linda Lovelace no YouTube após conferir Lovelace. De acordo com o documentário, quando estreou em 1972, Deep Throat atraiu casais, profissionais dos mais diferentes ramos da economia, assim como muitas celebridades. Entre os defensores do filme, que começou a ser questionado pela Justiça, estavam o apresentador Johnny Carson, o ator Jack Nicholson e o escritor Truman Capote.

No ano seguinte, em 1973, Deep Throat estreou nos cinemas de outros países e virou fenômeno de mídia. Linda Lovelace apareceu em reportagens de jornais e revistas, incluindo a capa da Esquire e um ensaio fotográfico para a Playboy de Hugh Hefner. Johnny Carson a entrevistou em rede nacional, nos EUA. Depois de lançar o livro que contaria o “lado B” do sucesso de Deep Throat, Linda é entrevistada, em 1979, no NBC Tonight. O mesmo programa focaria a ex-atriz pornô em 1981. Trechos destes programas estão no YouTube.

Assistindo a The Real Linda Lovelace, algo achei estranho na comparação com o filme Lovelace. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Segundo o documentário feito para a TV, baseado nos livros de Linda, Chuck teria feito ela transar com cinco homens em um quarto de um motel barato em 1971. No filme Lovelace, contudo, este fato teria ocorrido após o sucesso de Deep Throat. Uma falha estranha no roteiro. E dispensável.

Em uma participação de Linda no Sin on Saturdany Night da BBC, em 1981, um homem da plateia pergunta como ela pode dizer que foi obrigada a fazer Deep Throat e tudo o mais por Chuck já que ela sempre aparecia sorrindo. Linda, com certa tranquilidade, responde que ela tinha uma escolha: ou fazia sorrindo, ou morria. E ela escolheu viver. Esse tipo de pergunta e resposta é que seria interessante ver em Lovelace.

Falando em vídeos sobre Linda e Chuck no YouTube, vale dar uma conferida nesta entrevista dada por Chuck em 1976; neste outro vídeo que aborda a polêmica que Deep Throat levantou; e este que reproduz The Real Linda Lovelace.

Agora, voltando a falar de Lovelace. A parte técnica do filme funciona muito bem. Vale destacar a direção de fotografia que lembra o tipo de imagens dos filmes dos anos 1970 e as imagens vinculadas na TV no início dos anos 1980 feita por Eric Alan Edwards; a trilha sonora com um ótimo resgate pop da época feita por Stephen Trask; os figurinos de Karyn Wagner; e o conjunto que dá a “contextualização ambiental” de época do design de produção de William Arnold, direção de arte de Gary Myers e decoração de set de David Smith.

Esta produção conseguiu reunir alguns nomes de primeira linha em papéis secundários – sim, porque Lovelace é bastante centrado na interpretação de Amanda Seyfried e Peter Sarsgaard. Sharon Stone e Robert Patrick estão apenas medianos. Além dos protagonistas, destaque para o trabalho de Adam Brody como Harry Reems, estrela de Deep Throat ao lado de Linda e um “astro” do cinema pornô daquela época. Além deles, merecem menção por um trabalho “centrado” os atores Juno Temple; Chris Noth, que interpreta a Anthony Romano, um dos produtores de Deep Throat; Bobby Cannavale, que interpreta a Butchie Peraino, outro produtor do filme de 1972; Hank Azaria como Gerry Damiano, roteirista e diretor de Deep Throat; James Franco como Hugh Hefner e Wes Bentley como o fotógrafo Thomas. Além deles, há superpontas de Chloë Sevigny como uma jornalista feminista e de Eric Roberts como Nat Laurendi, que faz um exame de polígrafo antes de Linda lançar o livro de 1978.

Lovelace teria custado US$ 10 milhões. Para mim, uma verdadeira fortuna para uma produção com este perfil. A produção, que estreou em alguns cinemas dos Estados Unidos no dia 9 de agosto, faturou, até agora, quase US$ 356,6 mil. Ou seja: risco gigantesco deste filme ser um fracasso nas bilheterias. Muito diferente de Deep Throat.

O filme sobre Linda Lovelace estreou em janeiro deste ano no Festival de Sundance. Depois, ele passaria por outros seis festivais, incluindo o de Berlim. Em nenhum deles ele foi premiado.

E agora, algumas curiosidades sobre Lovelace: Kate Hudson e Olivia Wilde foram cogitadas para interpretar a protagonista, mas acabaram pulando fora do projeto. James Franco também foi cogitado para interpreta a Chuck Traynor.

Sobre a bilheteria que Deep Throat deve ter feito, uma explicação sobre aquele inflacionado US$ 600 milhões: de acordo com Roger Ebert, como a máfia tinha a maioria dos cinemas pornôs da época, durante o período de exibição do filme ela inflacionava o caixa dos cinemas com dinheiro vindo da venda de drogas e da prostituição. Uma forma de “lavar” o rendimento do crime organizado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para Lovelace. Uma boa avaliação, levando em consideração os padrões do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos. Eles dedicaram 55 textos positivos e 50 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 52% e uma nota média de 5,6.

Adiciono este filme na lista de produções dos Estados Unidos que eu estou comentando após uma votação de vocês, meus caros leitores, aqui no blog.

Lovelace rendeu alguns cartazes muito bacanas. Fiquei muito em dúvida entre dois deles, para colocar aqui no blog. Mas bati martelo no que abre este texto porque achei ele mais estiloso. 🙂

CONCLUSÃO: Linda Lovelace fez parte da vida de muitos homens e mulheres que se renderam a Deep Throat em algum momento de suas vidas. Não foi o meu caso. Ainda assim, sem ter esta “memória afetiva” sobre a protagonista do filme pornô, achei interessante o que eu vi em Lovelace. Mas este é um filme menor e mais “careta” do que poderia ter sido. Achei o trabalho do roteirista e dos diretores um tanto preguiçoso demais. Afinal, estamos falando da figura controversa que mexeu com a libido e com diversos conceitos da sociedade norte-americana há três ou quatro décadas atrás. Essa produção, por esta fraqueza na entrega, acaba sendo interessante por resgatar uma história interessante, mas não mexe tanto com o espectador do que poderia se tivesse sido melhor acabada. De qualquer forma, sempre vale retomar uma história como essa, nem que for para reabrir um debate sobre a pornografia em uma mesa de bar.

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An Education – Educação

O velho dilema sobre o verdadeiro banco de apredizado ser o de uma escola ou o da própria vida embala o delicioso e inspirado An Education. Mesmo com um grupo de atores talentoso e que trabalha bem, seja em conjunto ou individualmente, este filme da dinamarquesa Lone Scherfig tem uma grande estrela: Carey Mulligan. Não é difícil perceber porque a atriz vem ganhando prêmios como a melhor intérprete de 2009 – e nem complicado perceber porque ela é um dos nomes mais fortes na disputa pelo Globo de Ouro e pelo Oscar. Carey Mulligan é o nome do filme. A atriz incorpora toda a leveza, vontade de viver e complexidade de uma adolescente londrina no início dos anos 1960. E nos ensina que a vida pode ser terrível ou maravilhosa – a escolha sobre isto depende apenas da nossa vontade de dar certo.

A HISTÓRIA: Em uma tradicional escola e família londrina de 1961, Jenny (Carey Mulligan) aprende tudo que é preciso para se tornar uma moça respeitável. Na sala de aula, a garota é a mais aplicada e a mais interessada nos ensinamentos da professora de literatura e língua inglesa Miss Stubbs (Olivia Williams). Em casa, ela tenta convencer o pai, Jack (Alfred Molina) sobre a importância de equilibrar seu interesse pelos estudos e pela música. Mas Jack quer que a filha se aplique totalmente aos estudos para que, logo mais, ela consiga entrar na tão sonhada faculdade de Oxford. Depois de um ensaio na orquestra juvenil, Jenny espera em um ponto de ônibus, com seu violoncelo, até que a chuva torrencial diminua. Nesta ocasião passa por ali David (Peter Sarsgaard), um charmoso homem mais velho que oferece uma carona para a estudante. Jenny ganha com David um atalho para a vida adulta que tanto deseja – e deve, logo mais, decidir sobre que tipo de educação ela quer continuar recebendo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a An Education): Um filme acima da média se percebe nos detalhes. An Education, por exemplo, começa a mostrar a sua qualidade logo nos créditos de abertura. Eles são apresentados de maneira criativa, divertida, com uma trilha sonora deliciosa – que, aliás, permanecerá assim até o final da produção – e com um esquema “artístico” de desenhos que lembram o universo da história: o da escola. Primeiro grande acerto dos produtores e da diretora. Mas é preciso lembrar que estes são apenas os créditos iniciais. Junto com os desenhos, começam a surgir cenas do cotidiano da protagonista, Jenny. E, logo mais, para o deleite de quem gosta de uma grande atriz, ela mesma, Carey Mulligan.

A educação rigorosa e formal inglesa aparece em cenas divertidas, como as que mostram as alunas aprendendo a ter postura e charme no caminhar (treinando com um livro sobre a cabeça), perfeição nos passos de dança e conhecimento da boa cozinha. Afinal, o que mais uma garota poderia querer na Londres do início dos anos 1960? Charme, postura, saber dançar e cozinhar, assim como ter um comportamento discreto e com recato em público. Só que no meio de dezenas de alunas “normais”, despontava Jenny, uma garota acima da média em literatura e língua inglesa e que tinha pressa por conhecer o mundo. Fascinada pela cultura francesa e a “liberdade” simbolizada por Paris, Jenny pensava na universidade como uma forma de trampolim para que ela conseguisse a sua tão desejada autonomia. Até que ela encontrou um atalho chamado David.

O encontro dos dois marca a espinha dorsal do filme. Afinal, quando Jenny finalmente começa a vivenciar os prazeres de quem tem uma certa quantidade de dinheiro no bolso e vive na Europa, é que o espectador começa a se perguntar, junto com ela, onde está realmente a base da educação. Em uma sala de aula, aprendendo parte dos conhecimentos científicos e culturais de uma sociedade até determinado momento, ou aprendendo com os prazeres e desilusões da vida mesma?

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Também é no encontro de Jenny com David que a garota vai ao céu e ao inferno rapidamente. Da promessa de amor eterno, apaixonado e de um casamento ela passa rapidamente para a desilusão de ter sido usada, de ter integrado o aparentemente diversificado grupo de jovens enganadas pelo homem casado e pai de família mentiroso. Algumas pessoas, em seu lugar, talvez tivessem sucumbido, aceitado o “destino” de casar com o primeiro pretendente que aparecesse e aceitado a sina de ser infeliz. Afinal, aparentemente, Jenny não teria mais a oportunidade de terminar seus estudos e seguir para Oxford. Mas daí vem o grande ensinamento desta jovem inglesa. Ao invés de encarar a sua experiência como algo ruim, como a lição de uma garota que não soube se manter “pura” e que agora deve aceitar o fato de que a vida é horrível, Jenny preferiu aprender com tudo que viveu e seguir adiante – acreditando que a vida é maravilhosa.

Esses ensinamentos de Jenny e a forma com que ela vai descobrindo os prazeres dos dois tipos de educação – a forma e a da vida – surgem de maneira muito natural neste filme. Eis um dos grandes acertos do roteiro do sempre ótimo Nick Hornby: a suavidade com que ele narra as mais diferentes histórias. Inspirado nas memórias da jornalista inglesa Lynn Barber, Hornby produziu um texto divertido, realista e ao mesmo tempo charmoso. A história de Jenny, suas amigas, familiares e a de David poderia perfeitamente ser contada no século 21. Ainda existe a “briga”, especialmente entre os jovens, para entender que educação é mais válida. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Também continua sendo atual o envolvimento de homens casados com garotas “inocentes” que, na busca pelos prazeres da “vida adulta”, se jogam em aventuras sob a conivência de pais “interesseiros” (ou inocentes/ignorantes mesmo). Mas então por que é tão interessante ambientar esta história na Londres de 1961?

Primeiro, pelo estilo de vida que as pessoas tinham naquele momento. Seria simplesmente impossível, se An Education fosse ambientado nos nossos dias, visualizar cenas tão encantadoras como a do cotidiano de Jenny na escola, suas idas a clubes noturnos ao lado de David e, principalmente, a magia de uma viagem para Paris como a que eles compartilharam. Por mais que a capital francesa continue charmosa, detalhes como a roupa dos personagens, a câmera de fotografia e a vitrola às margens do Rio Sena que aparecem no filme de época é o que fazem este filme ser tão encantador. Ele cairá, certamente, no gosto do público feminino – e pode agradar aos rapazes, especialmente pelo trabalho excepcional de Carey Mulligan.

A adolescência é uma época única para a descoberta de possibilidades, oportunidades e para que as pessoas passem por experiências novas. Mas, ao mesmo tempo, como pode-se ver pela história de Jenny, é uma época em que existe, ainda, a idéia de que o jovem deve escolher a direção que quer dar para sua vida – e, aparentemente, uma escolha elimina todas as demais. Um ganho da fase adulta é que as pessoas percebem que não é preciso seguir apenas um caminho. E uma das grandes lições de An Education é que é possível ter mais de uma educação e experimentar diversos caminhos dos vários possíveis.

Jenny descobrirá, com o tempo, que ela pode ser muitas coisas – e não apenas “mais uma” intelectual com uma vida enfadonha a qual ela tentava evitar, ao espelhar-se na professora Miss Stubbs ou na diretora da escola (Emma Thompson). Descobrirá também que uma “intelectual” não precisa ter uma vida essencialmente chata. É possível – e apenas o tempo nos ensina isso – equilibrar uma vida “séria”, de estudo e aprimoramento, com o colorido e a diversão da boemia, de festas, viagens e uma salutar vida cultural. Para isto, basta ter boa vontade, atenção às oportunidades e ampliar seus próprios horizontes. Algo que An Education esboça para os espectadores – mas que só se aprende vivendo a sua própria vida.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tudo funciona à perfeição em An Education. A diretora Lone Scherfig sabe escolher o ângulo e a dinâmica correta de cada imagem, de cada cena. Seu olhar cuidadoso para os cenários e os atores fica evidente em cada minuto do filme. Para ajudá-la nesta função, está o trabalho também perfeito do diretor de fotografia parisiense John de Borman. Os dois transformam muitas sequências em verdadeiros quadros, fotografias, peças que tem uma dinâmica e uma luz próprias. A edição precisa de Barney Pilling contribui bastante para o resultado final. E a trilha sonora, ah, a trilha sonora! Simplesmente deliciosa – e uma das melhores do ano. Mérito de Paul Englishby.

Aos 50 anos, a diretora Lone Scherfig tem no currículo 12 filmes – feitos para a TV e para o cinema. An Education é o seu primeiro trabalho fora da Dinamarca – e filmado em língua inglesa. Certamente ela ganhará, com esta produção, uma evidência no cenário internacional que não tinha até então. Até o momento, Scherfig tem na bagagem 24 prêmios e outras 15 indicações por sua trajetória.

Carey Mulligan, não me canso de dizer, está arrebatadora em An Education. Mas para conseguir este desempenho, conta muito a favor da atriz o grande elenco que tem ao seu lado para contracenar. Para começar, ela tem Alfred Molina e Cara Seymour (que interpreta a Marjorie) como seus pais. Depois, ela contracena com Dominic Cooper e Rosamund Pike, respectivamente Danny e Helen, amigos de David. Cooper e Pike conseguem interpretações acima da média que ambos tem apresentado ultimamente – eles estão concentrados, inspirados, afinados e convincentes. Peter Sarsgaard também faz um trabalho excepcional, conseguindo o tom exato de fragilidade, ambição, charme e mistério de seu personagem. Vale a pena citar ainda o trabalho de Matthew Beard como Graham, jovem envergonhado fascinado por Jenny; Amanda Fairbank-Hynes e Ellie Kendrick como as amigas de escola da protagonista que acabam sendo as suas confidentes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Também gostei da interpretação, ainda que em uma ponta minúscula (na verdade ela aparece em uma única cena) de Sally Hawkins como Sarah, a esposa de David que agradece por Jenny não estar grávida – como havia ocorrido com outras jovens enganadas pelo marido anteriormente.

An Education estreou no Festival de Sundance em janeiro de 2009. Depois, ele passou por uma extensa participação em festivais pelo mundo – ao total, marcou presença em outros 17 eventos, incluindo os festivais do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Até o momento, o filme ganhou oito prêmios e foi indicado a outros 21 (a maioria deles ainda não entregues). Dos oito que recebeu, cinco foram para a atriz Carey Mulligan – entre outros, ela ganhou os de melhor atriz no British Independent Film Awards e pela National Board of Review. Os outros foram: prêmo do público para uma produção estrangeira e melhor fotografia na categoria “cinema estrangeiro – drama” no Festival de Sundance; além do prêmio do público para uma produção estrangeira no Festival de Cinema de Mill Valley. Mas a maior expectativa para o filme está nas quatro indicações de An Education no prêmio da Broadcast Film Critics Association e na indicação de Carey Mulligan no Globo de Ouro.

Uma curiosidade: no Brasil, An Education será exibido no circuito comercial com o título de Educação. Mas antes, quando de sua participação no festival do Rio de Janeiro, em setembro de 2009, ele foi apresentado sob o título de Sedução.

Produção inglesa, An Education teria custado aproximadamente 4,5 milhões de libras para ser produzido e finalizado. Até o momento, o filme está tendo um desempenho razoável nas bilheterias. Ele teria acumulado, no Reino Unido, pouco mais de 1,3 milhão de libras nas bilheterias e, nos Estados Unidos, aproximadamente US$ 7,8 milhões. Pode se sair melhor – especialmente se começar a receber boa parte dos prêmios para os quais ele está sendo indicado.

Em 2007, a revista Variety escolheu o roteiro de An Education como um dos melhores ainda não-produzidos.

Durante as filmagens, a diretora Lone Scherfig incentivou os atores a improvisar. Muitos diálogos e ações vistas no filme foram criadas pelos protagonistas durante a rodagem da produção.

No Festival de Sundance de 2009 a atriz Carey Mulligan comentou, em uma entrevista, que alguns dos momentos mais prazerosos das filmagens ocorreram quando ela contracenou com atores com os quais ela se encontrou muito pouco. A protagonista destacou as cenas que dividiu com Sally Hawkins e Emma Thompson – Mulligan classificou o trabalho da última como “fantástico” e seu desempenho no papel como “brilhante”.

O ator Orlando Bloom era o intérprete de Danny até uma semana antes das filmagens de An Education começar. Com a saída de Bloom, Dominic Cooper, que havia feito testes para o papel, acabou assumindo o seu lugar.

An Education caiu no gosto do público e, principalmente, da crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para a produção. Por sua vez, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 152 críticas positivas e apenas nove negativas para An Education – o que lhe garante uma aprovação de 94%.

Para o crítico Liam Lacey, do The Globe and Mail, An Education serve como “lição de como se pode misturar entretenimento com idéias provocativas”. Neste texto, o crítico destaca o trabalho luminoso da diretora Lone Scherfig e o talento da “radiante” e jovem atriz Carey Mulligan. Lacey comenta que o filme narra uma história com uma moral ambígua, adaptada com inspiração por Nick Hornby. O roteirista foi inspirado em um texto autobiográfico da jornalista inglesa Lynn Barber publicado na revista literária Granta no verão de 2003. Para o crítico, a personagem de Jenny é um pacote atraente de contradições e o filme, como o título sugere, fala sobre como Jenny explora seus desejos e limitações sem, contudo, apresentar respostas fáceis para as perguntas propostas. “Não existe um livro que descreva a distinção entre o mal e a injustiça, romance e desilusão, ou entre a tentativa de ser sábio e a capacidade de realmente se chegar até lá”, comenta Lacey.

Neste texto, Lisa Kennedy, do Denver Post, destaca a impressionante sintonia entre a diretora Lone Scherfig e a atriz Carey Mulligan. O que é uma coisa boa, segundo a crítica, porque o filme sobre o envolvimento de uma garota de 16 anos com um homem mais velho requer sutileza. Ela destaca ainda a forma saborosa com que os pais de Jenny são seduzidos pelo personagem de David e como, de maneira acertada, o filme se mostra “gentil” com os seus julgamentos. Kennedy resume bem a “moral” do filme ao comentar que crescer/amadurecer significa se decepcionar, aprender com a vida e, no processo, algumas vezes “se quebrar” ou ter as coisas mais claras. “Os prêmios (deste processo) são bons. Mas os arranhões e os machucados são a educação”.

O geralmente ótimo Peter Howell, do The Star, comenta neste texto que An Education é um filme sobre a descoberta, tanto para a sua protagonista quanto para o espectador. No caso da primeira, ela acontece através do difícil aprendizado da experiência. No caso do espectador, pelo prazer de assistir ao novo talento de Carey Mulligan em uma das melhores interpretações do ano, segundo o crítico. Ele destaca que, ainda que pequenos, os papéis de Olivia Williams e Emma Thompson reforçam o trabalho estelar do elenco – os personagens delas são os únicos que, como o espectador, percebem o perigo na relação entre David e Jenny. Gostei especialmente quando Howell destaca o trabalho da diretora e do roteirista em não transformar o personagem de David em um monstro. “O ponto aqui não é julgar os erros do passado pelos padrões modernos, mas salientar o quão fácil os sonhos podem se tornar realidade. O David de Saarsgaard é mais uma figura de piedade do que ameaçadora, e o trabalho hábil do ator em um papel difícil merece consideração em uma temporada de premiações”, opina Howell.

O respeitado crítico Roger Ebert, do Sun Times, destaca neste texto como An Education é “maravilhosamente romântico e divertido”, mesmo tratando de um tema pesado como a sedução de uma garota de 16 anos por um homem de 35 anos. Ele destaca o trabalho excepcional de Carey Mulligan que, segundo ele, vem sendo comparada – de forma bastante justa – com Audrey Hepburn. De forma bastante acertada, Ebert destaca como An Education é um romance na medida em que mostra a paixão de sua protagonista não por um homem mais velho, mas por todas as possibilidades que ela tem, sobre seu futuro e a alegria de estar viva. Bingo! Também vejo estas questões como as centrais do filme.

Achei o texto de Ebert bastante ponderado quando ele mostra como David e Jenny “usaram” um ao outro e, ao mesmo tempo, se divertiram juntos. Realmente, não existe nesta história apenas “uma garota que foi enganada por um homem mais velho”. Ainda que David seja um canalha, ele e Jenny saíram ganhando e perdendo nesta história – e ela teve sorte de não ter se complicado mais no relacionamento. Como a “verdadeira” Jenny comentou em seu texto, ela tem que agradecer a esse homem mais velho que a seduziu por ter-lhe “curado totalmente a ânsia por sofisticação”. Depois de ter se relacionado com Simon – o nome verdadeiro do homem que virou David no filme -, Lynn Barber pôde começar seus estudos em Oxford verdadeiramente interessada nos amáveis, decentes e simples rapazes de sua idade.

An Education é muito sútil ao tratar duas formas de preconceito: o racismo e antisemitismo. (SPOILER – não leia se você não assistiu o filme). David, que é judeu, ganha a vida explorando a antipatia das pessoas contra negros e, em algumas situações, contra o seu próprio povo – algo absurdo de pensar e/ou admitir após o genocídio ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial. Provocando ingleses que não suportam o convívio com os negros, ele faz dinheiro comprando arte e artigos valiosos por preço de banana. E pela resistência do pai da protagonista (e de outras pessoas) aos judeus, David consegue reverter a situação a seu favor quando necessário. Retratos de uma sociedade do pós-guerra e prestes a conhecer a revolução do rock dos The Beatles e da liberação sexual e feminina.

Nos quesitos técnicos, vale destacar o trabalho perfeito dos figurinos de Odile Dicks-Mireaux, a direção de arte de Ben Smith e a decoração de set de Anna Lynch-Robinson.

Os interessados em saber um pouco mais sobre Lynn Barber, a mulher que escreveu suas memórias sob o título de An Education e que teve seu trabalho adaptado neste filme podem encontrar mais informações em vários textos publicados pelo The Guardian e que podem ser acessados neste portal (em inglês).

CONCLUSÃO: Um filme divertido, encantador, charmoso e que evita os julgamentos fáceis. An Education reflete sobre dois bancos de escola: o das instituições de ensino e o da vida. Rouba a cena neste filme magistralmente conduzido pela diretora dinamarquesa Lone Scherfig a jovem atriz Carey Mulligan. Ela é a alma e o coração desta história. Mas ao seu lado o espectador poderá conferir o trabalho preciso de muitos atores conhecidos, como Peter Sarsgaard, Alfred Molina, Olivia Williams e Emma Thompson (em uma super ponta). Com linhas de roteiro cuidadosamente escritas por Nick Hornby, é destes filmes que vão conquistar o público e, de quebra, fazer pensar um pouquinho. Evitando julgamentos moralistas, An Education é um exemplo de como a vida pode ser maravilhosa ou trágica – tudo depende da escolha que fazemos. Se não nos entregarmos à culpa e ao desespero podemos, como a protagonista deste filme, perdoar nossos erros (e aqueles praticados pelas demais pessoas ao nosso redor) e sair para a frente, sabendo que sempre existem novos caminhos a percorrer. Uma ode à vida, às suas descobertas e prazeres. Perfeito para ser assistido com tempo, sem preocupações, apenas para saborear a realidade do Reino Unido e de Paris no início dos anos 1960 e, de quebra, a fase da vida das grandes descobertas – do amor, dos prazeres da vida e das oportunidades.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Será um verdadeiro crime se o nome de Carey Mulligan não estiver entre os das cinco indicadas ao Oscar de Melhor Atriz deste ano. Bem, esta possibilidade é bastante remota. Especialmente se levarmos em conta que a atriz está indicada na categoria de Melhor Atriz – Drama no Globo de Ouro e que, até o momento, ganhou quatro dos 13 prêmios mais importantes da temporada – considerados, por muitos, um termômetro para o Oscar e o próprio Globo de Ouro. Das atuações que assisti até agora, Carey Mulligan seria a minha aposta para ganhar o Oscar. Acho que ela tem mais méritos, junto com Gabourey Sidibe, de Precious (comentado aqui no blog), para levar esta consagração. Me desculpe Meryl Streep, mas o talento das jovens atrizes superou o dela em seu papel em Julie & Julia (com crítica aqui no blog). De qualquer forma, vocês sabem como o Oscar funciona. Nem sempre a Academia premia a melhor no ano. Então Meryl Streep, há muitos anos sendo apenas indicada – mas não ganhando nada, pode levar uma estatueta dourada para casa. Por mérito, seria Carey Mulligan.

Acho que An Education também tem potencial para chegar entre os 10 finalistas ao prêmio de Melhor Filme do ano. Veremos… O texto de Nick Hornby perfeitamente poderia ser indicado na categoria de Melhor Roteiro Adaptado, mas acho difícil ele conseguir uma vaga neste ano, porque há muitos concorrentes de peso na disputa. Nas categorias técnicas, não seria uma surpresa se An Education conseguisse indicações para Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Figurino e Melhor Trilha Sonora Original. De todas estas, acho que ele tem mais chances em ser indicado (e talvez ganhar) em Direção de Arte – nas demais, mais uma vez, a concorrência está muito forte. De qualquer forma, honestamente, espero que An Education receba algumas indicações para o prêmio mais badalado de Hollywood – ele merece.