Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Movie

The Conspirator – Conspiração Americana

Uma nação forte pode ser consolidada sobre uma mentira? A justiça pode ser massacrada em momentos de conflito com a justificativa de que isso será feito para um “bem maior”? Robert Redford segue a sua jornada em busca de uma visão crítica dos Estados Unidos ao retomar uma história pouco conhecida de seu país neste The Conspirator. O filme mistura crime, drama, política e conflitos de tribunal. É uma história interessante, curiosa, e que ajuda a fazer uma revisão histórica das origens dos EUA.

A HISTÓRIA: Soldados mortos, caídos no chão. Um sobrevivente daquele campo de batalhas conta para um outro sobre a história de dois homens que chegaram às portas do Paraíso. O capitão Frederick Aiken (James McAvoy) está ferido, mas tenta distrair o amigo Nicholas Baker (Justin Long), que está tendo convulsões. Quando o socorro chega, Frederick ordena que Nicholas seja levado primeiro. Dois anos depois, no dia 14 de abril de 1865, os amigos estão juntos para comemorar a vitória dos estados do Norte dos Estados Unidos na Guerra Civil Americana. William Hamilton (James Badge Dale) questiona se o grupo não está comemorando antes do tempo, mas Nicholas afirma que o general Lee rendeu-se ao general Grant, e que isso deveria ser comemorado. Naquela noite, no Teatro Ford, o presidente Abraham Lincoln (Gerald Bestrom) sofreria um atentado. Mais tarde, Frederick, que é advogado, seria chamado pelo senador Johnson (Tom Wilkinson) a defender uma das acusadas pela conspiração contra o presidente, a dona de um albergue Mary Surratt (Robin Wright).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Conspirator): Robert Redford é conhecido pelo olhar crítico. Ele não apenas fez alguns filmes com esta levada, como também criou um festival – o Sundance – para fomentar olhares múltiplos sobre a realidade dos Estados Unidos e de outros países. Tentando fugir um pouco das “cartas marcadas” de Hollywood.

Em The Conspirator o diretor narra, junto com os roteiristas, um episódio pouco conhecido da história dos Estados Unidos. Ele mostra como as leis, constituições e valores defendidos por um país podem ser modificados e deturpados dependendo da interpretação de quem está no comando.

Situações de guerra e conflito são diferentes daquelas vividas em um ambiente de paz, é verdade. Mas The Conspirator sugere – e c0m razão – que estes argumentos não são suficientes para legitimar injustiças. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A mensagem mais bacana do filme, além de uma revisão histórica rara, é de que o caso de uma mulher, apenas, pode ser suficiente para que mudanças importantes aconteçam. Algumas vezes alguns justos precisam ser sacrificados para que paradigmas equivocados que foram estabelecidos sejam modificados.

The Conspirator acerta no início, ao ir direto ao que interessava. Mas não deixa de ser um pouco curioso o corte seco que Redford faz do campo de batalha para a noite do atentado ao presidente dos EUA. (SPOILER – não leia… bem você já sabe). Parece que ele não quer perder tempo com o conflito. Talvez para não dar pano pra manga. Para que não haja espaço para justificar o absurdo que vamos assistir, que é o julgamento forjado de uma mulher que, efetivamente, não contribuiu para o assassinato do presidente.

Normalmente, Redford é mais cuidado no contexto histórico. Isso é algo em que The Conspirator falha. O roteiro de James D. Solomon, inspirado em uma história escrita por ele e por Gregory Bernstein, ignora o clima tenso e de divisão entre o Norte e o Sul dos Estados Unidos. Sabemos que há um conflito, que o Norte está ganhando e que há insatisfeitos no Sul, mas a insatisfação ou o apoio das ruas para Lincoln, por exemplo, não é mostrado neste filme.

A história gasta mais tempo no desinteressante relacionamento do protagonista com Sarah Weston (Alexis Bledel) do que mostrando o ambiente que cercava aquela decisão judicial. Ok, entendo que os roteiristas queriam mostrar todas as “pressões” e oportunidades que Frederick poderia perder ao insistir em defender Mary Surratt, mas a escolha deste foco não ajuda o filme. Pelo contrário, acaba tornando ele mais raso do que ele poderia ser.

O espectador também fica um pouco confuso sobre o atentado ao presidente e tem dificuldade de identificar os seus culpados. Eles aparecem apenas no momento da ação e, depois, não tem as suas histórias contextualizadas. O “vilão” principal, por exemplo, o ator responsável por atirar em Lincoln, John Wilkes Booth (Toby Kebbell) aparece poucas vezes e, normalmente, de forma tão obscura que até fica difícil identificá-lo depois, quando ele está sendo perseguido.

O mesmo acontece com os outros acusados pela conspiração, David Herold (Marcus Hester), Lewis Payne (Norman Reedus), George Atzerodt (John Michael Weatherly), Michael O’Laughlen, Edman Spangler (James Kirk Sparks), Samuel Mudd e Samuel Arnold (Jeremy Tuttle). Não percebemos qual foi a participação deles nos crimes porque tudo acontece muito rápido, e sem explicar a origem do plano ou o desenvolvimento dele. Algo que não ajuda o filme.

Claro que um bom embate de tribunal é sempre interessante. O duelo entre Frederick, que acaba assumindo o caso quando o senador percebe que será pior se ele continuar defendendo a dona da pensão, e o promotor Joseph Holt (Danny Huston) tem alguns bons momentos, mas o melhor deles – e que realmente vale todo aquele jogo de cena – só acontece na argumentação final. Até lá, o filme parece um pouco arrastado.

A ideia de resgatar um episódio importante para os Estados Unidos e pouco conhecido tem o seu mérito. Assim como os cuidados com a reprodução daquela época, tanto nos figurinos como na direção de arte e tudo o mais. Mas o problema de The Conspirator é que ele fica mais no discurso morno do que na ação ou no drama que provoquem o espectador, que façam ele reagir à história que está assistindo.

O resultado é que ficamos perplexos em saber que os Estados Unidos, que orgulha-se tanto de sua Constituição e da preservação dos direitos dos cidadãos, começou a sua história como nação unida contradizendo tudo isso. Mas isso é tudo. E essa perplexidade ganha força na parte final do filme. Antes, há confusão, um repasse rápido da conspiração que não ajuda a contar a história, e muitas sequências de tribunal – e seus bastidores.

Um elemento que deveria ajudar na tensão do filme é a de Frederick estar “dividido”. Afinal, ele é um herói de guerra, que defendia, justamente, aquela ideia de nação perfeita, mas também um advogado que é chamado a honrar o juramento que fez. Aos poucos, e ao defender Mary Surratt, ele percebe o que todos nós aprendemos com o passar dos anos: que a vida não é tão preto & branco como imaginávamos quando éramos crianças, ou adolescentes.

Ele percebe, isso sim, que há muitos nuances de cinza. E que há graus decisórios que estão além do nosso alcance. Ainda assim, não devemos desistir. E mesmo que tudo mostre que a derrota é inevitável, é preciso continuar defendendo os valores que nos ensinaram e que são justos, corretos.

Por isso, e pelo resgate histórico de um episódio pouco conhecido, é que dedico a nota abaixo. Como filme, The Conspirator mereceria uma avaliação mais baixa. Mas pelas intenções dele… sejamos um pouco “generosos”. Sempre vale assistir a um diretor e seu trabalho feitos para provocar reflexão nas pessoas. Este é um caso destes.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os atores estão bem, mas nenhum deles merece uma reverência. Algumas vezes, James McAvoy parece um pouco deslocado, assim como Justin Long. Kevin Kline, figura importante no filme e para a história, porque ele interpreta ao secretário de guerra Edwin Stanton, aparece pouco, e parece sempre estar desconfortável. Desempenho abaixo do desejável, para resumir. Robin Wright tem uma interpretação linear, conseguindo destacar-se da média geral apenas algumas vezes. Outros que estão bem são Evan Rachel Wood, que interpreta a Anna Surratt, filha de Mary; Tom Wilkinson, acima da média; e o veterano John Cullum como o juiz Wylie, em uma superponta.

A produção de The Conspirator é uma das maiores qualidades do filme. Um ótimo trabalho de pesquisa de figurinos de Louise Frogley, da direção de arte de Mark Garner e do design de produção de Kalina Ivanov. Ajuda a “climatizar” a história a direção de fotografia “terral” que dá a impressão de “envelhecida” de Newton Thomas Sigel. Um estilo previsível, é verdade, mas, ainda assim, eficaz.

O veterano Mark Isham faz mais um bom trabalho na trilha sonora, que segue uma linha clássica, reforçando o drama e alguns momentos de “suspense”. Mas o melhor do filme, em termos de música, está reservado para os créditos finais: Empty, canção de Ray Lamontagne. Bela escolha. E, para mim, uma bela descoberta. O refrão dela resume bastante do que Redford quer expressar com este filme: “Will I always feel this way/ so empty, so estranged”. Aqui, um vídeo com a canção.

Segundo este texto, a Guerra da Secessão, como ficou conhecida a guerra civil entre “nortistas e sulistas” nos Estados Unidos entre 1861 e 1865, teria provocado pelo menos 600 mil mortes. Um número impressionante – especialmente para um conflito civil do século 19. Ainda de acordo com o texto, esta teria sido a primeira guerra moderna da história, na qual foram utilizados fuzis de repetição e trincheiras, recursos que marcariam, depois, a Primeira Guerra Mundial.

Quem tem interesse de saber mais sobre o episódio contra Lincoln, este é um texto interessante para começar a pesquisa. Curto, direto e com algumas curiosidades. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Lincoln foi o primeiro presidente dos EUA morto enquanto exercia a sua função como maior mandatário do país. Depois dele, seriam assassinados os presidentes James Garfield (por Charles Guiteau, em 1881), William McKinley (por Leon Czolgosz, em 1901) e John Kennedy (por Lee Harvey Oswald, em 1963).

Vale dar uma conferida nesta página da Veja com informações e fotos históricas da Guerra Civil Americana. E neste link, um resumo sobre alguns personagens importantes daquele momento histórico.

The Conspirator estreou em setembro de 2010 no Festival de Toronto. Depois, o filme passou por outros cinco festivais. Nesta trajetória, foi indicado a dois prêmios, mas não levou nenhum deles para casa.

O filme foi mal nas bilheterias. Para uma produção que custou cerca de US$ 25 milhões, faturar pouco mais de US$ 11,5 milhões nos Estados Unidos é muito pouco. Redford fracassou, desta vez, apesar das boas intenções.

E uma curiosidade sobre esta produção: ela é a primeira da The American Film Company. A produtora foi criada com o objetivo de viabilizar filmes que façam um resgate crítico do passado dos Estados Unidos. Agora, outro detalhe histórico (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme): Mary Suratt foi a primeira mulher da história a ser executada pelo governo dos EUA.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para The Conspirator. Uma boa avaliação, levando em conta o histórico do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes não gostaram tanto da produção. Eles dedicaram 92 críticas positivas e 73 negativas para The Conspirator, o que lhe garante uma aprovação de 56% e uma nota média de 6,1.

CONCLUSÃO: Algo que o cinema dos Estados Unidos tem, como qualidade, é a coragem de focar episódios polêmicos de sua história sem puritanismo. O diretor Robert Redford contribui para a saudável revisão histórica do cinemão de seu país com este The Conspirator. Faz um filme bem dirigido e narrado, mas The Conspirator perde um pouco de força conforme avança porque as dúvidas sobre a protagonista não duram muito tempo. Logo o público sabe o que está acontecendo, e a tensão resume-se apenas à disputa de tribunal. E daí surge o segundo problema: fica evidente, e muito cedo, qual será o resultado daquela queda de braços com cartas marcadas. O resgate histórico crítico é bacana, mas faltou alimentar um pouco mais de dúvidas e tensão durante a história. Um bom filme, ainda que pouco vigoroso. Mas que vai agradar aos que gostam de saber um pouco mais sobre episódios históricos pouco conhecidos.

Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Movie Oscar 2010

Drag Me To Hell – Arraste-me para o Inferno

dragmetohell2

Muito falaram sobre “a volta às origens” do diretor Sam Raimi com este Drag Me To Hell. Juro que fiquei curiosa para conferir isso, afinal, o diretor criou um verdadeiro clássico do gênero “terror bem-humorado” com The Evil Dead, de 1981 – seu primeiro longa-metragem depois de três curtas. Em partes, realmente, Raimi voltou a estas tais origens. Drag Me To Hell é um filme de “terror” com uma grande dose de comédia e que lembra muito às produções de Filme B (leia-se de baixo orçamento e que primam pela criatividade). O problema é que, para o meu gosto, faltaram sustos, surpresas, o terror propriamente dito. Não deixa de ser um filme curioso. Dei muitas risadas com ele. Mas se você busca uma produção aterradadora, esqueça. Drag Me To Hell resgata e recria vários estereótipos do terror e faz rir, mas não surpreende – na verdade, seu roteiro é bastante previsível.

A HISTÓRIA: Cidade de Pasadena, na Califórnia, 1969. Um casal de imigrantes bate à porta da Sra. Shaun San Dena (Flor de Maria Chahua), conhecida por seu grande poder mediúnico e por ajudar as pessoas a se livrarem do Mal. Eles buscam desesperados ajuda para seu filho, Juan, que passou a ser perseguido por vozes assustadoras depois de ter furtado um colar de prata de um grupo de ciganos. Mas eles chegam tarde demais e Shaun San Dena não consegue salvar o garoto. Quarenta anos depois, Christine Brown (Alison Lohman), uma das encarregadas do setor de préstamos do banco WilshirePacific, em Los Angeles, cai no mesmo erro de afrontar o povo cigano. Na disputa por conseguir uma promoção para o posto de vice-gerente do banco, Christine nega a prorroga de um crédito imobiliário para a velha cigana Sylvia Ganush (Lorna Raver). Sentindo-se humilhada, Sylvia persegue e amaldiçoa Christine, que começa a ser martirizada por figuras demoníacas. Acompanhada do namorado Clay Dalton (Justin Long), ela tenta buscar ajuda com o médium/conselheiro espiritual Rham Jas (Dileep Rao). Ele reconhece a maldição de Sylvia Ganush e identifica que Christine está em perigo graças ao espírito maligno de Lamia (com a voz de Art Kimbro).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Drag Me To Hell): O diretor Sam Raimi tem talento. Isso não se discute. Ele sabe manejar muito bem, com o auxílio do diretor de fotografia Peter Deming, as câmeras em Drag Me To Hell para nos colocar em posições privilegiadas em cada momento da ação. Desde a introdução sobre os poderes malignos de Lamia em 1969 até todas as sequências que nos mostram como a vida de Christine virou um inferno com a aparição da cigana Sylvia Ganush, cada ângulo de câmera e corte da narrativa foi cuidadosamente planejado. Drag Me To Hell tem um ritmo correto, normalmente acelerado e cheio de pancadarias. A atriz Alison Lohman sofreu o diabo para viver a sua personagem – me desculpem a ironia. Mas, ainda assim, senti falta de passar por sustos. Não fiquei apreensiva em momento algum do filme. Pelo contrário. Dei risadas e achei ele divertido do início ao fim. Nada mais. Pouco para um filme que se autointitula como de terror.

A verdade é que a caracterização da personagem Sylvia Ganush é o que o filme tem de melhor. Aquela velha cigana é nojenta, no sentido mais amplo da palavra. As cenas dela no banco, em especial, são ótimas. Aliás, este filme é indicado apenas para as pessoas que não se importam com cenas escatológicas e nojentas. Porque há várias delas – que incluem vômitos diversos, bizarrices com dentaduras, grampos na testa e insetos “invasores de corpos”. Mas susto que é bom… nadica de nada. Acho que venho de assistir recentemente filmes angustiantes e inovadores, como [rec], Lat Den Rätte Komma In e o clássico Don’t Look Now e, por isso, Drag Me To Hell me parece apenas uma tentativa fraquinha de Raimi voltar aos bons tempos de The Evil Dead – e, claro, o original é muito melhor.

Mas voltando ao que eu dizia sobre a Sra. Ganush. Ela é, sem dúvida, o melhor do filme. A sequência dela no banco e, principalmente, quando ela parte para a pancadaria com a protagonista são os trechos mais bacanas da história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Bem, eu incluiria no balaio dos “melhores momentos” a sequência em que Shaun San Dena (agora interpretada por Adriana Barraza) chama o espírito de Lamia para uma verdadeira “hora da verdade”. Bem feita a sequência, especialmente quando o espírito do Mal brincalhão utiliza Milos (Kevin Foster) como uma marionete – uma cena que me lembrou o ótimo Beetle Juice. Também são interessantes as tentativas da protagonista em tentar se ver livre do objeto que a mantêm amaldiçoada.

Um dos principais problemas do filme, para mim, é a previsibilidade do roteiro escrito por Sam Raimi e por seu irmão mais velho, Ivan Raimi. Vejamos: Drag Me To Hell começa com uma introdução sobre o poder dos ciganos em jogar maldições mortíferas nas pessoas. Depois, nos apresenta a protagonista e suas motivações para que ela agisse como agiu – aliás, não são poucos os filmes (e alguns muito bons) que trazem essa tônica moral para o roteiro, como aqueles que contam a história de homens ambiciosos que “vendem sua alma ao Diabo” em troca de riqueza e poder (e que sempre se dão mal, é claro). Christine é uma “moça do interior” que quer provar para “todo mundo” sua inteligência e determinação. Pressionada pela disputa com o novato Stu Rubin (Reggie Lee) por uma vaga importante no banco em que trabalha e, no plano pessoal, pela família rica do namorado, tudo que ela quer é ascender socialmente. Depois de sabermos disso, o roteiro nos mostra, passo a passo, como a maldição de Lamia vai se desenvolvendo. Até o “grand finale”.

Claro que Drag Me To Hell é cheio de efeitos especiais de primeiríssima qualidade – afinal, por mais que esta produção tente ter cara de Filme B, ela certamente custou muito mais do que os produtores gostariam de revelar (aliás, eles não revelam a quantia que foi gasta com o filme). É conveniente que fique colada nele a imagem de Filme B. 😉 Gostei também da edição feita por Bob Murawski e do apego da equipe com os detalhes das locações, sets e do trabalho dos atores. Especialmente de Alison Lohman e de Lorna Raver. Porque Justin Long, coitado, está no filme como coadjuvante, aparecendo apenas para apoiar a namorada e para soltar alguma ironia aqui e ali. No geral, o filme é divertido e merece ser visto por isso, para que o espectador dê umas risadas e tire sarro de alguns conceitos clássicos de filmes de terror.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não citei ele antes, mas o ator David Paymer faz um papel importante no filme. Ele interpreta a Jim Jacks, o chefe de Christine e Stu que vive colocando fogo na disputa entre seus dois empregados. Algumas vezes Jacks parece apenas “pateta” e indeciso. Outras vezes, ele lembra uma raposa esperta que sabe que a disputa é o melhor caminho de um gerente para conseguir os melhores resultados de seus subordinados. (SPOILER – não leia se você não viu ao filme). Para quem queria que ele se desse mal em algum momento, esta hora chega quando ele leva uma bela espirrada de sangue saído do nariz de Christine – mais uma de tantas cenas “nojentas” e engraçadas do filme.

Gostei da pequena participação da atriz Bojana Novakovic como Ilenka Ganush, neta da vilã Sylvia. A atriz consegue uma interpretação na medida, ao mesmo tempo provocante, sensual e irônica. De origem sérvia – com esse nominho, só podia ser algo do gênero -, Bojana Novakovic logo poderá ser vista no filme Sisanje, dirigido por Stevan Filipovic (oh yeah, também sérvio!) e, em 2010, em um papel secundário no filme Edge of Darkness, estrelado por Mel Gibson.

Como um bom filme de terror – ou algo do gênero -, Drag Me To Hell necessita de uma trilha sonora competente. Christopher Young destilou uma trilha que algumas vezes beira o clássico e, outras vezes, o fúnebre – em algumas sequências eu juro que me lembrei da Família Addams. 😉

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas até o final eu achei BEM, mas bem previsível. Afinal, depois de passar por tantas, Christine não poderia se ver livre dessa assim, tão facilmente. Agora, Drag Me To Hell terá continuações? Francamente, estou achando que sim.

Sam Raimi está se aventurando em terrenos perigosos… exceto pela quarta parte de Homem-Aranha, que este filme é lucro garantido, ele está envolvido em um novo The Evil Dead (seria uma continuação da história ou, pelo que tudo aparenta, uma refilmagem do original?) e, quem diria, na adaptação para os cinemas do clássico dos jogos para computador Warcraft. Pois sim, meus amigos! Agora sim, fiquei com medo. 😉 Sam Raimi será capaz de fazer algo digno de admiração para os fãs de Warcraft? Sei não…

Drag Me To Hell foi relativamente bem nas bilheterias dos Estados Unidos: até o dia 2 de agosto a produção tinha arrecadado pouco mais de US$ 42 milhões. Mas melhor que desempenho financeiro, o filme tem conseguido uma ótima recepção entre os críticos. Os profissionais que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 179 críticas positivas e apenas 15 negativas para Drag Me To Hell, o que lhe garante uma aprovação impressionante de 92%. Os usuários do site IMDb foram um pouco menos generosos com a produção dirigida por Raimi: lhe dedicaram a nota 7,8.

Mas antes de terminar meus comentários, queria ressaltar algo curioso desta história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Depois de ter várias tentativas de se livrar da maldição frustradas, nossa protagonista fica sabendo que basta dar o botão de seu casaco, objeto que “carrega” a maldição, para outra pessoa. O novo proprietário é quem será levado para o Inferno. E daí vem a principal questão do filme: “Quem merece ir mais para o Inferno do que Christine?”. Nesta hora, a nossa heróina demonstra escrúpulos e evita mandar pessoas “inocentes” para a fogueira eterna. Interessante. Outra pessoa, em seu lugar, talvez tivesse entregue aquele botão praticamente para o primeiro/a que aparecesse.

Segundo as notas de produção do filme, a idéia original de Drag Me To Hell surgiu para os irmãos Raimi há uma década. A principal motivação deles era a de contar uma história que envolvesse uma maldição. “Sempre gostamos do tema das maldições”, comentou Ivan Raimi. Seu irmão, Sam, complementa dizendo que o filme “é um conto moral”.

“Queríamos que Christine fosse um personagem moralmente complexo. Ela se esforça em seu trabalho para subir mais um degrau, como qualquer um. Ela é uma pessoa normal, mas sua moral não está totalmente definida, existem áreas cinzas, nem tudo é branco e preto. Essa é a parte que mais me interessa. Ela deve enfrentar um castigo que não corresponde ao erro que ela cometeu, e eu gosto de ver como ela enfrenta esta situação”, comenta Ivan.

Achei interessante que os roteiristas desenharam a história para que Christine participasse de todas as cenas, como se ela fosse a única narradora do filme. Procurando um ser sobrenatural adequado para a sua história, os irmãos Raimi escolheram a mítica e demoníaca figura da Lamia, conhecida em diferentes culturas. “Cada lenda deixa claro que a Lamia enfurecida é um demônio que arrastra a suas vítimas para o inferno uivando. Essa é a terrível característica que todas (as lendas) tem em comum”, explica Ivan.

Mesmo não sendo fã de filmes de terror, a atriz Alison Lohman disse que gostou de ter participado de Drag Me To Hell. “Eu gosto que minha personagem tenha emoções e com o fato de que ela sofre mudanças durante o filme. Ela vai se fazendo mais compassiva, mais generosa. E reconheço que aproveitei bastante toda a parte física, ainda que eu tenha acabado com alguns machucados”, declarou a atriz. Justin Long, por sua vez, disse que lembrou muito do pai quando interpretou Clay. “Meu pai é professor de filosofia. Ele é muito racional e lógico. (…) Eu sou o contrário, estou disposto a creer em tudo, no monstro do lago Ness, no terrível homem das neves, em fantasmas, em qualquer coisa sobrenatural”, ironizou Long.

E uma curiosidade da produção: a atriz Lorna Raver, conhecida mais por atuar no teatro de Nova York, trabalhou com uma professora de húngaro e, com sua ajuda, memorizou alguns diálogos no idioma que, depois, foram salpicados durante o filme. Ela também chegou a ser classificada como uma “lutadora  nata” pelo diretor Sam Raimi graças ao seu desempenho nas cenas de luta que teve no carro de Christine.

Outra curiosidade é que o carro utilizado para a cena da luta entre a heróina e sua algoz era totalmente desmontável. Em certo momento, a equipe técnica tirava as portas, em outro, a parte traseira, ou a da frente, assim como o teto.

Até o momento, Drag Me To Hell foi indicado a apenas um prêmio: o de melhor filme de terror/thriller na escolha do público do Teen Choice Awards. Celebrado no dia 10 de agosto, há poucos dias, o prêmio desta categoria acabou parando nas mãos dos produtores de Friday The 13th.

ATUALIZAÇÃO (15/08): Notei que muitas pessoas estão buscando textos sobre a mitologia da Lamia. Como deixei subentendido antes, esta personagem aparece em várias culturas e de diferentes maneiras. Mas, segundo este texto da Wikipedia (em espanhol), sua origem remontaria à mitologia e ao folclore de gregos e latinos, aparecendo como personagem para assustar crianças ou como uma sedutora terrível (que antecederia à figura da vampira moderna).

Segundo o historiador Duris de Samos, na mitologia grecoromana a personagem de Lamia era a de uma rainha de Libia que teve um romance com Zeus. Hera, com ciúmes de Lamia, a teria transformado em um monstro e matado seus filhos. Ela teria sido ainda condenada a não poder fechar nunca seus olhos, fazendo com que ela estivesse sempre obcecada pela imagem de seus filhos sendo mortos. Para “suavizar” sua pena, Zeus teria outorgado para Lamia o poder de que ela pudesse tirar seus olhos, para descansar, e depois colocá-los novamente (sinistro!!!). Com inveja das outras mulheres que eram mães, Lamia atacava e devorava seus filhos. Na Antiguidade, as mães gregas e romanas costumavam ameaçar os seus filhos peraltas com a figura de Lamia – ela seria, em outras palavras, a “mãe” dos bicho-papões.

Com o tempo, a figura de Lamia foi sendo adaptadas às diferentes culturas e crenças. Elas aparecem, por exemplo, frequentemente nos bestiários como exemplos de monstro selvagem e que não tem piedade. Segundo o texto que mencionei da Wikipedia, na catedral italiana de Pésaro se conserva um mosaico do século 6 no qual dois Lamias aparecem representadas como pássaros com cabeça humana. Não encontrei, contudo, em parte alguma, uma relação entre os ciganos e a figura maldita da Lamia. Isso, provavelmente, foi criação dos irmãos Raimi – agora, é fato que os ciganos são conhecidos (e temidos, inclusive rechaçados) em muitos países, especialmente na Espanha, por essa lenda de que eles são capazes de lançar maldições nos seus desafetos.

Eu morei na Espanha um tempo e, por lá, realmente, as pessoas tem o pé atrás com os ciganos. O que leva ao preconceito contra este coletivo e, muitas vezes, a exclusão destas pessoas. Segundo este texto da Wikipedia (em espanhol, novamente), os ciganos na Espanha causaram pavor, por muito tempo, porque lhes era atribuído um poder especial em lançar maldições.

CONCLUSÃO: Um filme essencialmente divertido. Mais que terror, ele deveria ser classificado como “comédia terrorífica” – se é que isso existe. 😉 O diretor Sam Raimi volta a brincar com o gênero, agora dedicando seu talento para narrar uma história envolvendo maldições jogadas por ciganos. Se você busca um filme assustador, esqueça. Cheio de efeitos especiais e de uma maquiagem de primeira linha, Drag Me To Hell foi feito para divertir, provocar risadas, e deve agradar especialmente às pessoas que tem algum “background” em filmes do gênero. Afinal, talvez não seja todo mundo que entenda as piadas do filme sem ter assistido a muitos outros títulos como este antes. Com várias cenas escatológicas e “nojentas” salpicadas aqui e ali, Drag Me To Hell conta uma história de fundo moral. E para os que gostam de alguma pancadaria, ele também presenteia os espectadores com algumas das melhores cenas de luta entre “mocinha” e “velha má” dos últimos tempos. Um exercício curioso de direção, com tudo que um filme do gênero pede, mas sem grandes surpresas, sustos ou criatividade – na verdade, quase nada destes dois últimos.

OSCAR 2010: Ainda é cedo para fazer alguma projeção para o próximo Oscar, mas acredito que Drag Me To Hell tem boas chances de competir nas categorias técnicas. Entre elas, a de melhor maquiagem, melhores efeitos especiais, melhor mixagem de som e melhor edição de som. Ainda não sei quem poderiam ser seus concorrentes, para assim poder falar sobre as chances que o filme teria, mas acredito que ele será indicado em uma ou mais destas categorias.