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The Conspirator – Conspiração Americana

Uma nação forte pode ser consolidada sobre uma mentira? A justiça pode ser massacrada em momentos de conflito com a justificativa de que isso será feito para um “bem maior”? Robert Redford segue a sua jornada em busca de uma visão crítica dos Estados Unidos ao retomar uma história pouco conhecida de seu país neste The Conspirator. O filme mistura crime, drama, política e conflitos de tribunal. É uma história interessante, curiosa, e que ajuda a fazer uma revisão histórica das origens dos EUA.

A HISTÓRIA: Soldados mortos, caídos no chão. Um sobrevivente daquele campo de batalhas conta para um outro sobre a história de dois homens que chegaram às portas do Paraíso. O capitão Frederick Aiken (James McAvoy) está ferido, mas tenta distrair o amigo Nicholas Baker (Justin Long), que está tendo convulsões. Quando o socorro chega, Frederick ordena que Nicholas seja levado primeiro. Dois anos depois, no dia 14 de abril de 1865, os amigos estão juntos para comemorar a vitória dos estados do Norte dos Estados Unidos na Guerra Civil Americana. William Hamilton (James Badge Dale) questiona se o grupo não está comemorando antes do tempo, mas Nicholas afirma que o general Lee rendeu-se ao general Grant, e que isso deveria ser comemorado. Naquela noite, no Teatro Ford, o presidente Abraham Lincoln (Gerald Bestrom) sofreria um atentado. Mais tarde, Frederick, que é advogado, seria chamado pelo senador Johnson (Tom Wilkinson) a defender uma das acusadas pela conspiração contra o presidente, a dona de um albergue Mary Surratt (Robin Wright).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Conspirator): Robert Redford é conhecido pelo olhar crítico. Ele não apenas fez alguns filmes com esta levada, como também criou um festival – o Sundance – para fomentar olhares múltiplos sobre a realidade dos Estados Unidos e de outros países. Tentando fugir um pouco das “cartas marcadas” de Hollywood.

Em The Conspirator o diretor narra, junto com os roteiristas, um episódio pouco conhecido da história dos Estados Unidos. Ele mostra como as leis, constituições e valores defendidos por um país podem ser modificados e deturpados dependendo da interpretação de quem está no comando.

Situações de guerra e conflito são diferentes daquelas vividas em um ambiente de paz, é verdade. Mas The Conspirator sugere – e c0m razão – que estes argumentos não são suficientes para legitimar injustiças. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A mensagem mais bacana do filme, além de uma revisão histórica rara, é de que o caso de uma mulher, apenas, pode ser suficiente para que mudanças importantes aconteçam. Algumas vezes alguns justos precisam ser sacrificados para que paradigmas equivocados que foram estabelecidos sejam modificados.

The Conspirator acerta no início, ao ir direto ao que interessava. Mas não deixa de ser um pouco curioso o corte seco que Redford faz do campo de batalha para a noite do atentado ao presidente dos EUA. (SPOILER – não leia… bem você já sabe). Parece que ele não quer perder tempo com o conflito. Talvez para não dar pano pra manga. Para que não haja espaço para justificar o absurdo que vamos assistir, que é o julgamento forjado de uma mulher que, efetivamente, não contribuiu para o assassinato do presidente.

Normalmente, Redford é mais cuidado no contexto histórico. Isso é algo em que The Conspirator falha. O roteiro de James D. Solomon, inspirado em uma história escrita por ele e por Gregory Bernstein, ignora o clima tenso e de divisão entre o Norte e o Sul dos Estados Unidos. Sabemos que há um conflito, que o Norte está ganhando e que há insatisfeitos no Sul, mas a insatisfação ou o apoio das ruas para Lincoln, por exemplo, não é mostrado neste filme.

A história gasta mais tempo no desinteressante relacionamento do protagonista com Sarah Weston (Alexis Bledel) do que mostrando o ambiente que cercava aquela decisão judicial. Ok, entendo que os roteiristas queriam mostrar todas as “pressões” e oportunidades que Frederick poderia perder ao insistir em defender Mary Surratt, mas a escolha deste foco não ajuda o filme. Pelo contrário, acaba tornando ele mais raso do que ele poderia ser.

O espectador também fica um pouco confuso sobre o atentado ao presidente e tem dificuldade de identificar os seus culpados. Eles aparecem apenas no momento da ação e, depois, não tem as suas histórias contextualizadas. O “vilão” principal, por exemplo, o ator responsável por atirar em Lincoln, John Wilkes Booth (Toby Kebbell) aparece poucas vezes e, normalmente, de forma tão obscura que até fica difícil identificá-lo depois, quando ele está sendo perseguido.

O mesmo acontece com os outros acusados pela conspiração, David Herold (Marcus Hester), Lewis Payne (Norman Reedus), George Atzerodt (John Michael Weatherly), Michael O’Laughlen, Edman Spangler (James Kirk Sparks), Samuel Mudd e Samuel Arnold (Jeremy Tuttle). Não percebemos qual foi a participação deles nos crimes porque tudo acontece muito rápido, e sem explicar a origem do plano ou o desenvolvimento dele. Algo que não ajuda o filme.

Claro que um bom embate de tribunal é sempre interessante. O duelo entre Frederick, que acaba assumindo o caso quando o senador percebe que será pior se ele continuar defendendo a dona da pensão, e o promotor Joseph Holt (Danny Huston) tem alguns bons momentos, mas o melhor deles – e que realmente vale todo aquele jogo de cena – só acontece na argumentação final. Até lá, o filme parece um pouco arrastado.

A ideia de resgatar um episódio importante para os Estados Unidos e pouco conhecido tem o seu mérito. Assim como os cuidados com a reprodução daquela época, tanto nos figurinos como na direção de arte e tudo o mais. Mas o problema de The Conspirator é que ele fica mais no discurso morno do que na ação ou no drama que provoquem o espectador, que façam ele reagir à história que está assistindo.

O resultado é que ficamos perplexos em saber que os Estados Unidos, que orgulha-se tanto de sua Constituição e da preservação dos direitos dos cidadãos, começou a sua história como nação unida contradizendo tudo isso. Mas isso é tudo. E essa perplexidade ganha força na parte final do filme. Antes, há confusão, um repasse rápido da conspiração que não ajuda a contar a história, e muitas sequências de tribunal – e seus bastidores.

Um elemento que deveria ajudar na tensão do filme é a de Frederick estar “dividido”. Afinal, ele é um herói de guerra, que defendia, justamente, aquela ideia de nação perfeita, mas também um advogado que é chamado a honrar o juramento que fez. Aos poucos, e ao defender Mary Surratt, ele percebe o que todos nós aprendemos com o passar dos anos: que a vida não é tão preto & branco como imaginávamos quando éramos crianças, ou adolescentes.

Ele percebe, isso sim, que há muitos nuances de cinza. E que há graus decisórios que estão além do nosso alcance. Ainda assim, não devemos desistir. E mesmo que tudo mostre que a derrota é inevitável, é preciso continuar defendendo os valores que nos ensinaram e que são justos, corretos.

Por isso, e pelo resgate histórico de um episódio pouco conhecido, é que dedico a nota abaixo. Como filme, The Conspirator mereceria uma avaliação mais baixa. Mas pelas intenções dele… sejamos um pouco “generosos”. Sempre vale assistir a um diretor e seu trabalho feitos para provocar reflexão nas pessoas. Este é um caso destes.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os atores estão bem, mas nenhum deles merece uma reverência. Algumas vezes, James McAvoy parece um pouco deslocado, assim como Justin Long. Kevin Kline, figura importante no filme e para a história, porque ele interpreta ao secretário de guerra Edwin Stanton, aparece pouco, e parece sempre estar desconfortável. Desempenho abaixo do desejável, para resumir. Robin Wright tem uma interpretação linear, conseguindo destacar-se da média geral apenas algumas vezes. Outros que estão bem são Evan Rachel Wood, que interpreta a Anna Surratt, filha de Mary; Tom Wilkinson, acima da média; e o veterano John Cullum como o juiz Wylie, em uma superponta.

A produção de The Conspirator é uma das maiores qualidades do filme. Um ótimo trabalho de pesquisa de figurinos de Louise Frogley, da direção de arte de Mark Garner e do design de produção de Kalina Ivanov. Ajuda a “climatizar” a história a direção de fotografia “terral” que dá a impressão de “envelhecida” de Newton Thomas Sigel. Um estilo previsível, é verdade, mas, ainda assim, eficaz.

O veterano Mark Isham faz mais um bom trabalho na trilha sonora, que segue uma linha clássica, reforçando o drama e alguns momentos de “suspense”. Mas o melhor do filme, em termos de música, está reservado para os créditos finais: Empty, canção de Ray Lamontagne. Bela escolha. E, para mim, uma bela descoberta. O refrão dela resume bastante do que Redford quer expressar com este filme: “Will I always feel this way/ so empty, so estranged”. Aqui, um vídeo com a canção.

Segundo este texto, a Guerra da Secessão, como ficou conhecida a guerra civil entre “nortistas e sulistas” nos Estados Unidos entre 1861 e 1865, teria provocado pelo menos 600 mil mortes. Um número impressionante – especialmente para um conflito civil do século 19. Ainda de acordo com o texto, esta teria sido a primeira guerra moderna da história, na qual foram utilizados fuzis de repetição e trincheiras, recursos que marcariam, depois, a Primeira Guerra Mundial.

Quem tem interesse de saber mais sobre o episódio contra Lincoln, este é um texto interessante para começar a pesquisa. Curto, direto e com algumas curiosidades. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Lincoln foi o primeiro presidente dos EUA morto enquanto exercia a sua função como maior mandatário do país. Depois dele, seriam assassinados os presidentes James Garfield (por Charles Guiteau, em 1881), William McKinley (por Leon Czolgosz, em 1901) e John Kennedy (por Lee Harvey Oswald, em 1963).

Vale dar uma conferida nesta página da Veja com informações e fotos históricas da Guerra Civil Americana. E neste link, um resumo sobre alguns personagens importantes daquele momento histórico.

The Conspirator estreou em setembro de 2010 no Festival de Toronto. Depois, o filme passou por outros cinco festivais. Nesta trajetória, foi indicado a dois prêmios, mas não levou nenhum deles para casa.

O filme foi mal nas bilheterias. Para uma produção que custou cerca de US$ 25 milhões, faturar pouco mais de US$ 11,5 milhões nos Estados Unidos é muito pouco. Redford fracassou, desta vez, apesar das boas intenções.

E uma curiosidade sobre esta produção: ela é a primeira da The American Film Company. A produtora foi criada com o objetivo de viabilizar filmes que façam um resgate crítico do passado dos Estados Unidos. Agora, outro detalhe histórico (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme): Mary Suratt foi a primeira mulher da história a ser executada pelo governo dos EUA.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para The Conspirator. Uma boa avaliação, levando em conta o histórico do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes não gostaram tanto da produção. Eles dedicaram 92 críticas positivas e 73 negativas para The Conspirator, o que lhe garante uma aprovação de 56% e uma nota média de 6,1.

CONCLUSÃO: Algo que o cinema dos Estados Unidos tem, como qualidade, é a coragem de focar episódios polêmicos de sua história sem puritanismo. O diretor Robert Redford contribui para a saudável revisão histórica do cinemão de seu país com este The Conspirator. Faz um filme bem dirigido e narrado, mas The Conspirator perde um pouco de força conforme avança porque as dúvidas sobre a protagonista não duram muito tempo. Logo o público sabe o que está acontecendo, e a tensão resume-se apenas à disputa de tribunal. E daí surge o segundo problema: fica evidente, e muito cedo, qual será o resultado daquela queda de braços com cartas marcadas. O resgate histórico crítico é bacana, mas faltou alimentar um pouco mais de dúvidas e tensão durante a história. Um bom filme, ainda que pouco vigoroso. Mas que vai agradar aos que gostam de saber um pouco mais sobre episódios históricos pouco conhecidos.

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Across the Universe

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Na época em que Across the Universe foi lançado, como uma boa mortal que vive neste planeta, eu ouvi falar de todo o burburinho sobre esta “linda história de amor basada na obra dos The Beatles“. Mas, como muitos filmes que vou deixando para depois, ele ficou para trás. Resolvi resgatá-lo para honrar meu desafio de assistir a todos os filmes indicados por leitores deste blog. E gostei do que eu vi. Claro que o melhor do filme, não há dúvida, é a sua trilha sonora. E a sacada do roteiro em “ligar” as várias canções dos The Beatles para contar uma história de amor. No mais, Across the Universe tem alguns momentos dispensáveis e um roteiro um bocado previsível, o que não desmerece o filme, claro. 

A HISTÓRIA: Jude (Jim Sturgess) é um rapaz típico do suburbano de Liverpool. Sem espaço para dedicar-se a sua vocação de artista plástico e designer, ele trabalha, como praticamente todos os homens da região, em uma fábrica naval. Mas ele sonha em viajar para a América em busca de um futuro melhor e do pai que nunca chegou a conhecer. Chegando na Universidade de Princeton, Jude encontra o pai, o professor West Hover (Robert Clohessy) e se torna amigo muito próximo do aloprado Max Carrigan (Joe Anderson). Quando viaja com Max para a casa da família, onde passa o Dia da Ação de Graças, Jude conhece Lucy (Evan Rachel Wood), de quem ele se apaixona – deixando na Inglaterra sua mãe e uma namorada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Across the Universe): O início do filme me fez lembrar demais os clipes de James Blunt, do Coldplay ou de outro alguém do gênero. 😉 Me desculpem os superfãs do filme, mas foi inevitável fazer esse paralelo um tanto satírico. Bem, mas fora o início de Across the Universe, o restante do filme me pareceu menos “clipe” feito para a MTV. Ainda que se trate de um musical, ele não me pareceu uma sequencia de clipes de vídeo – como alguns “musicais” modernos parecem ser. 

Existe inteligência no roteiro. Ainda que, não vou mentir, tudo que você vai assistindo é esperado, em maior ou menor medida. Mas acho que ninguém também estava esperando algo muito surpreendente, não é mesmo? O grande, grande mérito do filme é mesmo a idéia de costurar as músicas dos The Beatles para contar uma história. A idéia partiu da diretora, Julie Taymor, junto dos roteiristas Dick Clement e Ian La Frenais. Eles conseguiram, além de fazer dita costura, resgatar boa parte da “alma” da banda inglesa mais famosa de todos os tempos. Então no filme estão temas como o amor, a luta contra a guerra, a contracultura – pensamento libertário com direito a “liberação” da mente através de alucinógenos, a aposta pela arte e o berço ligado ao “operariado” inglês, e por aí vai.

Gostei muito da direção de Julie Taymor, conhecida antes por seu excelente trabalho em Frida. Depois de Across the Universe, onde ela comprova mais uma vez talento no uso da câmera e de efeitos especiais para dar um toque mais “artístico” ao seu trabalho, devemos esperar para este ano seu novo trabalho: The Tempest (do qual falo mais na sessão seguinte deste post). Acredito que apenas ela e o diretor Baz Luhrmann – de Moulin Rouge! – poderiam conseguir aliar de forma tão precisa o lado “comercial” e artístico de uma produção, garimpando um musical de forma com que ele não se torne chato, garantindo um bom ritmo de narrativa com câmeras ágeis ou belas tomadas de plano que valorizam paisagens, personagens e os ambientes em que eles estão imersos. 

Falando em Baz Luhrmann, outra referência impossível de lembrar ao assistir a Across the Universe é o filme Romeu + Juliet, uma releitura que o diretor australiano fez de uma das obras principais de Shakespeare com Claire Danes e Leonardo DiCaprio como protagonistas. Para mim foi inevitável relembrar do ritmo daquele filme e da “história de amor” vivida pelos dois de uma forma “modernete” ao assistir o casal principal de Across the Universe. Com isso não quero dizer que um seja cópia ou inspirado no outro, afirmo apenas que é impossível não lembrar de outras referências “pop”. Afinal, Across the Universe é muito, muito pop.

Mas algumas coisas no filme eu achei estranhas… certo que a história se passa no final dos anos 60 e início dos 70, quando a contracultura estava em sua maior fase, junto com a liberação feminina, mas então alguém pode me explicar porque a coitada da Prudence (interpretada pela T. V. Carpio) não conseguiu se dar bem no filme? Bem, até que lá pelas tantas ela aparentemente tinha conseguido uma “companheira”, mas não rolou nenhum beijo no filme ou qualquer coisa do gênero. Isso até me lembra as novelas da Globo. hehehehehehehehehe. Mas fora a piada, para um filme que mostra um bocado de “viagens lisérgicas” e do lema “paz & amor” comunitário – explorado pela “comunidade” formada ao redor da cantora Sadie (Dana Fuchs) -, eu acho que podia ter rolado uma liberação para a Prudence. 😉

Fora isso, achei um bocado viagem aquela sequência do espetáculo do Mr. Kite (Eddie Izzard). Certo que os bonecos do circo são bacanas e tal, mas achei uma parte chatinha. Também achei desnecessária a sequencia dos soldados nos leitos da enfermagem – exceto pela seringa com uma “dançarina” dentro que me lembrou as aberturas de James Bond. 😉 Mas sei lá, eu teria cortado fora estas duas sequencias. Para mim, nem uma, nem outra, acrescentou nada para o filme. 

Por outro lado, poderiam ter valorizado mais a parte “artística” do nosso herói – gostei muito das sequências em que ele se tranca no quarto para criar com um bocado de “raiva” depois que Lucy chega em casa, tarde da noite, acompanhada do “vilão” da história, o revolucionário que se mostra bem mais radical em certa parte do filme – como praticamente todos os revolucionários que ainda não aprenderam que não é com violência que se ganha guerra alguma. Ou poderiam ter dedicado mais tempo mostrando a contracultura da época ou a idéia de “faça amor, não faça guerra”. Mas ok, o filme é o que é. E ele não deixa de ser uma bela diversão, disso não há dúvida. 

Por mais que ele seja bem ruinzinho como ator, mas gostei do Bono Vox como Dr. Robert. Esta é a parte mais psicodélica do filme – bem bacana. Um outro trecho do qual gostei muito – e que me fez lembrar Frida – foi aquele em que quatro dos personagens principais de Across the Universe cantam para fazer Prudence sair do banheiro e se animar um pouco. A verdade é que fora os dois momentos que eu citei como desnecessários, todos os outros desta história foram muito bem planejados e executados. Mérito da diretora e, devo citar, um belíssimo trabalho do diretor de fotografia Bruno Delbonnel e da edição de Françoise Bonnot. Estes três nomes, mais a excelente trilha sonora de Elliot Goldenthal merecem aplausos. 

No final das contas, é um filme divertido e um tanto “ousado” para os padrões de romancezinhos-que-ganham-as-telas-em-Hollywood, com direito a posicionamento contra guerras e contracultura – o que não traz exatamente algo de inédito, mas pelo preserva algumas das características dos The Beatles, no qual o filme é inspirado. Mas, sem dúvida alguma, a melhor coisa de Across the Universe é essa “viagem” por parte da trilha sonora dos garotos mais famosos de Liverpool. Vale por isso e pela “química” dos atores principais.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A escolha dos atores do núcleo central do filme foi bastante acertada. Afinal, quem melhor que Dana Fuchs poderia encarnar uma cantora descaradamente inspirada em Janis Joplin que recebe no filme o nome de Sadie? Não vejo ninguém melhor que ela para o papel. Gostei muito também de Martin Luther como Jo-Jo, o guitarrista talentoso que é “deixado” para trás pelo sonho de fama da namorada e que depois vê a garota se dando conta da furada em que se meteu. Merecem ainda menções os atores Dylan Baker como o pai de Lucy; Linda Emond como a mãe da heroína; Bill Irwin em uma superponta como o tio Teddy (que apelido mais infame, mas tudo bem); e James Urbaniak como o empresário que acaba “conquistando” Sadie. Falando neste último, acheu um bocado “simplista” o encanto e o desencanto da cantora com a fama… me pareceu muito artificial. E sobre pontas, devo citar Salma Hayek fazendo uma superponta na sequencia em que Max está delirando em um leito de enfermaria após participar da Guerra do Vietnã.

Na parte técnica do filme, merecem ser mencionados Albert Wolsky, responsável pelo figurino do filme – um trabalho bastante cuidadoso; Peter Rogness pela direção de arte do filme e Ellen Christiansen pela decoração dos sets. Três profissionais que fizeram bem o seu trabalho.

Lembro que na época em que Across the Universe foi lançado, ele conseguiu um bom resultado de crítica e nas bilheterias. Um feito a mais no currículo de Julie Taymor, que além de Frida, foi responsável por diversos musicais da Broadway, incluindo o premiado O Rei Leão

Para quem adorou a trilha sonora, além de Bono Vox, ela tem a participação mais que especial de Joe Cocker na música Como Together (que me fez lembrar de The Doors pelo “clima” das imagens) e, para surpresa de muita gente – inclusive minha -, boa parte das outras canções são mesmo interpretadas pelos atores que aparecem na telona. Impressionante! Os atores até ganharam um conceito melhor depois que eu soube disso. 🙂 E fiquei impressionada também com o fato – isso se é fato… pelo menos é o que os produtores do filme divulgaram – de que 90% das canções foram gravadas no estúdio, sem precisar que os intérpretes fizessem o trabalho depois em estúdio. Incrível, realmente, porque a qualidade da trilha sonora é muito, muito boa.

Para quem gostou da trilha sonora, eis a lista de músicas que fazem parte do filme: Girl (interpretada por Jim Sturgess), Helter Skelter (por Dana Fuchs), Hold Me Tight (por Sturgess, Evan Rachel Wood e Lisa Hogg), All My Loving (por Sturgess), I Want to Hold Your Hand (por T. V. Carpio), With a Little Help from My Friends (Joe Anderson, Sturgess e o grupo Dorm Buddies), It Won’t Be Long (por Wood), I’ve Just Seen a Face (por Sturgess), Let It Be (por Carol Woods e Timmy Mitchum),  Come Together (por Joe Cocker e Martin Luther), Why Don’t We Do It In The Road (por Fuchs), If I Fell (por Wood), I Want You (She’s So Heavy, por Joe Anderson), Dear Prudence (por Fuchs, Sturgess, Wood e Anderson), Flying, Blue Jay Way e I Am The Walrus (as três por Elliot Goldenthal e o grupo The Secret Machines), Being for the Benefit of Mr. Kite (por Eddie Izzard), Because (por Carpio, Wood, Sturgess, Anderson, Fuchs e Luther), Something (por Sturgess), Oh Darling (por Fuchs e Luther), Strawberry Fields Forever e Revolution (ambas por Sturgess),  While My Guitar Gently Weeps (por Luther), Happiness Is a Warm Gun (por Anderson), Blackbird (por Wood), Hey Jude (por Anderson), Don’t Let Me Down (por Fuchs), All You Need Is Love (por Sturgess e Fuchs), Lucy in the Sky with Diamonds (por Bono Vox), A Day in the Life (por Jeff Beck), Across the Universe (por Sturgess) e She Loves You (por Anderson).

Como eu ia comentando antes, para este ano está previsto o lançamento de um novo filme da diretora Julie Taymor. The Tempest, atualmente em fase de pós-produção, conta no elenco com Djimon Hounsou, Helen Mirren, Alan Cumming, Alfred Molina, Chris Cooper, David Strathaim, entre outros. O filme é nada mais, nada menos, que uma releitura da peça de William Shakespeare The Tempest (conhecida em português por A Tempestade/A Comédia dos Erros), uma comédia bastante típica e conceituada do maior ator inglês de todos os tempos. Para as pessoas que gostam de obras fielmente adaptadas, a diretora já começou fazendo uma mudança radical na história original… transformou o personagem central, Próspero, em mulher. Então, em seu filme, temos a Próspera (Helen Mirren, ótima atriz), como a figura muito poderosa que acaba sendo isolada em uma ilha, junto com a filha Miranda (Felicity Jones), após ser vítima de uma traição política. Ariel, figura-chave na história de Shakespeare, é interpretado no filme por Ben Whishaw; enquanto que Djimon Hounsou interpreta a Caliban, um escravo de Próspera que é uma figura forte e “disforme”. Shakespeare sempre merece ser adaptado, mas é esperar para ver o que sairá da cabeça da diretora.

Na avaliação dos usuários do site IMDb, Across the Universe mereceu a nota 7,6. Os críticos, por sua vez, foram mais “duros” com o filme… bem, na verdade, houve quase um equilíbrio nas opiniões das pessoas que tem textos publicados no site Rotten Tomatoes: 78 críticas foram positivas para o filme e 66, negativas. 

Pessoalmente, tenho uma curiosidade sobre o que os fãnáticos dos The Beatles acharam do filme. Se um de vocês ler esta crítica, por favor, fale nos comentários o que acharam de Across the Universe.

Em sua trajetória, este filme ganhou um prêmio apenas e foi indicado a outros oito – incluindo uma indicação para melhor figurino no Oscar do ano passado (ele perdeu para Elizabeth: The Golden Age). O único prêmio que ele recebeu foi para o diretor de fotografia Bruno Delbonnel no Camerimage.

Na questão de bilheteria, o filme foi relativamente bem. Conseguiu pouco mais de US$ 24,3 milhões nos Estados Unidos. Podia ter faturado mais – especialmente porque ele deve ter saído caro -, mas não está mal para uma produção sem “estrelas” no elenco.

Esqueci de falar antes… Evan Rachel Wood estrelou, no mesmo ano que este Across the Universe, ao já comentado neste blog The Life Before Her Eyes (que é bem interessantezinho, diga-se). Depois, ela participou do também comentado The Wrestler, como a filha do personagem principal vivido por Mickey Rourke, e neste ano vai aparecer no novo filme de Woody Allen. Nada mal, hein? Whatever Works, escrito e dirigido por Allen, foi finalizado e tem estréia prevista no Festival de Cinema de Tribeca em abril. No filme, Wood interpreta Melodie. No elenco, ainda estão Patricia Clarkson, Henry Cavill, entre outros. Jim Sturgess, por sua vez, estrelou em 2008 o filme The Other Boleyn Girl – comentado neste blog, onde o ator faz um belo trabalho. Depois, estrelou 21 – que eu ainda não assisti, mas que está minha “listinha” para ser visto – e Fifty Dead Men Walking. Este ano ele poderá ser visto em Crossing Over (com a brasileira Alice Braga e Harrison Ford) e em Heartless

CONCLUSÃO: Um filme no melhor estilo “paz e amor” ou “faça amor, não faça guerra” que retoma uma parte importante das canções da banda inglesa The Beatles para contar uma história de amor e de uma época. Para quem sempre pensou em “falar o que estava sentindo através de músicas que adora”, este é o melhor exemplo de que isso é possível. 😉 Bem feito e com um elenco que surpreende pelo talento dramatúrgico e, especialmente, vocal, este é daqueles filmes para assistir sem culpa – e também sem grandes expectativas. Ninguém vai achar algum grande “sentido” em Across the Universe, e nem algum questionamento importante. O filme é, na melhor concepção possível, um belo entretenimento. 

SUGESTÃO DE LEITORES: Across the Universe foi sugerido, há muito, muito tempo atrás, pelo estimado leitor Zeus. Que, aliás, anda bastante sumido… Pois finalmente, Zeus, assisti a esse filme. Como você e os demais leitores deste blog podem perceber, pouco a pouco vou indo atrás de todos os filmes sugeridos por aqui. Em seguida, me espera outro filme alemão… e vamos que vamos!!!