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Truth – Conspiração e Poder

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A busca da verdade é uma premissa fundamental do jornalismo. Mas afinal, o que é a verdade? Essa questão filosófica já rendeu muitas teorias e obras. Há quem diga que não existe a verdade, apenas versões da verdade. Alguns contra-argumentam que afirmar isto é uma forma de relativizar tudo. Independente da tua própria verdade, caro leitor, Truth nos apresenta mais um roteiro baseado em uma história real sobre uma investigação jornalística em busca da verdade. Desta vez, um grupo de jornalistas experientes tenta comprovar que o presidente dos Estados Unidos mentiu. Um bom filme, com grande elenco, mas ele poderia ser melhor.

A HISTÓRIA: Começa com a narrativa de jornalistas sobre a perspectiva para a reeleição de George W. Bush. A população estava bem dividida na fase da campanha. Corta. Em Washington, em outubro de 2004, a jornalista Mary Mapes (Cate Blanchett) está tricotando na sala de espera do advogado Dick Hibey (Andrew McFarlane). Quando eles começam a conversar, existe tensão no ar e Mapes fala sobre os seus 20 anos trabalhando como jornalista, atuação que lhe rendeu dois Emmy, a denúncia dos abusos em Abu Ghraib e uma prisão por proteger as suas fontes. Mas em breve ela terá que contar com a ajuda de Hibey para se defender de um outro caso, desta vez uma denúncia feita pela equipe dela envolvendo o presidente candidato à reeleição George W. Bush.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Truth): Gosto de filmes com técnica e grande elenco. Como não gostar? Esta produção com roteiro e direção de James Vanderbilt baseada no livro de Mary Mapes apresenta logo no início estas duas qualidades. Recentemente assistimos ao premiado como Melhor Filme no Oscar 2016 Spotlight, outra história sobre uma investigação jornalística. E ainda que os dois filmes tratem dos bastidores da profissão, eles tem abordagens, qualidade e defeitos muito diferentes um do outro.

Como já falei de Spotlight neste texto, vamos nos concentrar em Truth. Como eu disse, logo nos primeiros minutos do filme somos apresentados a duas de suas principais qualidades: um grande elenco, com ótimos atores, e muita técnica. Para tornar a história sobre jornalismo e bastidores da política interessante, Vanderbilt utiliza algumas técnicas conhecidas no cinema.

Para começar, ele parte de um ponto quase perto do final da história como introdução para fisgar a atenção do espectador, colocando drama e suspense na trama, para então voltar seis meses no tempo em um longo flashback narrativo que será o núcleo deste filme. Começamos com a protagonista Mary Mapes claramente pressionada, mas ainda não sabemos de que forma. Só presumimos que ela está com um bom problema já que está procurando um ótimo advogado. Depois de demonstrar que é uma mulher forte e com opinião, ela diz que apenas fez o seu trabalho. Hibey pede para ela explicar melhor o seu trabalho como jornalista, e é assim que voltamos seis meses no tempo.

Mary Mapes é a produtora do conhecido programa 60 Minutes, um dos mais premiados e importantes programas da TV americana de todos os tempos. Ela trabalha com Dan Rather (Robert Redford), um dos nomes mais conhecidos e respeitados do jornalismo dos Estados Unidos. Quando a história volta no tempo, ela retrocede o suficiente para mostrar Mapes liderando um dos grandes furos do jornalismo dos anos 2000: a denúncia de abusos e torturas praticados por militares americanos em Abu Ghraib.

Depois deste golaço, Mary Mapes volta a focar em uma história que ela não tinha conseguido aprofundar quatro anos antes, no ano 2000. Vale ponderar, contudo, que estamos falando de abril de 2004, quando o então presidente George W. Bush estava tentando a reeleição – e as pesquisas mostravam uma disputa apertada. No ano 2000 a jornalista tinha recebido a dica de ligações entre os Bush e a família Bin Laden.

Assim como a sugestão de que Bush teria servido a Guarda Aérea Nacional do Texas por influência política e sem, de fato, servir do jeito que deveria – apenas para fugir da Guerra do Vietnã e para, claro, participar do “grupinho” de poderosos daquele tempo. No ano 2000 Mary não conseguiu comprovar estes fatos mas agora, em 2004, em plena campanha de reeleição de Bush, ela resolve voltar ao assunto.

Daí entra em cena outra técnica importante do cinema e bem utilizada por Vanderbilt: imprimir um tom de suspense e aventura na trama. Mary Mapes lista um grupo de pessoas que ela quer “convocar” para a missão de apurar este caso. Eles são apontados como se fossem agentes especiais de um filme de ação. A boa edição e a trilha sonora de Truth ajudam nesta tarefa de dar ritmo e suspense para a trama. Vanderbilt, sem dúvida, entende bem do seu ofício.

Desta forma que entram em cena outros atores importantes deste filme: Topher Grace como Mike Smith, jornalista “underground” e que claramente é contra as políticas “contaminadas” do sistema; e Elisabeth Moss como Lucy Scott, jornalista que ajuda a equipe a ir atrás das fontes que podem comprovar a história. Além deles, a esta altura, já tinham aparecidos outros dois nomes fundamentais do filme – além da protagonista, é claro: o sempre fantástico Robert Redford, um dos grandes atores de seu tempo, e Dennis Quaid como o tenente-coronel Roger Charles, um consultor para assuntos militares com grande experiência em investigações jornalísticas.

Aí está o grande elenco. As técnicas citadas, especialmente a boa edição e trilha sonora que reforçam o roteiro preocupado em uma história com ritmo, continuam até o final. Mas e a história propriamente dita? Neste ponto Truth se torna um filme interessante e também apresenta o seu principal problema. Enquanto Spotlight trata de uma longa investigação que será publicada no meio impresso, Truth aborda uma investigação bem feita, mas apressada, e que será vinculada pela TV. Essa diferença fundamental entre os meios define parte dos problemas que serão enfrentados por Mary Mapes e sua equipe.

Perguntar, perguntar e não parar de fazer perguntas é uma das premissas mais importantes do jornalismo. Mary Mapes e sua equipe acertam ao fazer as perguntas, mas erram em querer apressar as respostas. Com uma janela para divulgação da reportagem sobre as mentiras que teriam garantido a carreira militar do presidente dos Estados Unidos – um tema importante para qualquer país, mas ainda mais para os Estados Unidos, uma das nações mais poderosas do mundo e sempre envolvida nos principais conflitos mundiais – curta, Mapes e sua equipe aceitam as poucas respostas que eles conseguem como suficientes para comprovar o que eles tem certeza que é verdade.

Mas eis que surge um ponto fundamental para o jornalismo dar certo: a apuração tem que ser bem feita, bem cercada, sem furos ou fios soltos. Fazer bom jornalismo investigativo dá trabalho, e muito. Envolve tempo, energia, gente talentosa. Em Truth não faltaram energia e gente talentosa, mas faltou tempo. E por mais que Truth, importante ressaltar que inspirado no livro de Mary Mapes – ou seja, com um ponto de vista bem definido e claro -, tente mostrar o heroísmo dos jornalistas envolvidos naquela reportagem de 60 Minutes sobre a fraude de Bush, não dá para ignorar que eles colocaram no ar uma matéria sem amarrar bem as pontas.

Conforme o filme vai se desenvolvendo, percebemos a fragilidade das “provas” que os jornalistas tinham para comprovar que o presidente dos Estados Unidos tinha mentido sobre o seu heroísmo militar. Mary Mapes quer mostrar as relações de poder e de que forma os poderosos e ricos se protegem, inclusive interferindo nas Forças Armadas, mas ela não consegue fazer isso correndo. Boa parte da reportagem é baseada em documentos que são questionados pela tipografia – blogueiros dizem que os documentos que seriam dos anos 1970 tinham sido feitos bem depois e utilizando o Word – e não tem os testemunhos ou outras provas para corroborar estes documentos.

Essa é a fragilidade do trabalho que acaba derrubando Mary e toda a equipe. E ainda que a origem dos documentos acaba não sendo totalmente desmentida, há dúvida suficiente no ar para colocar o trabalho dos jornalistas sob suspeita. Um trabalho jornalístico bem feito deve ser à prova de contradições e de refutações. Esse não é o caso da história mostrada em Truth. Quando a equipe é ainda mais pressionada para achar a origem dos documentos e pressionam a fonte do tenente-coronel Bill Burkett (o competente Stacy Keach), a história que ele conta, meio que sem pé e nem cabeça, torna tudo ainda pior.

A verdade é que faltou mais tempo para a equipe de jornalistas que apurou o assunto. O ideal é que eles tivessem seguido no caso e não tivessem colocado no ar uma reportagem sem ela estar bem amarrada. Mas a pressão por dar o assunto antes, não apenas da concorrência, mas das eleições, fizeram eles se apressarem sem o devido cuidado na apuração de um assunto tão delicado. E depois que o assunto foi ao ar, a internet e a concorrência da CBS cuidou de desmontar a apuração deles.

Uma empresa de comunicação séria teria esperado mais tempo para colocar o assunto no ar, para começar. E depois que tivesse transmitido a informação, antes de fazer uma “caça às bruxas” da própria equipe para não perder verba do governo e publicitária, essa mesma empresa teria apoiado os seus jornalistas atrás da verdade. Ora, aqui entra em cena o grande problema deste filme: mais que mostrar o que aconteceu em 2004 antes, durante e depois daquela reportagem ser colocada no ar, revelando os bastidores de interesse do jornalismo, Truth deveria, de fato, buscar a verdade. Avançar na apuração do assunto.

Quem garantiu que Mary Mapes, Dan Rather, Mike Smith e Lucy Scott não seguissem investigando o assunto? Por que ninguém mais deu a oportunidade para eles apuraram de fato o que se escondia na história de George W. Bush. Aliás, nem foi a pior história sobre ele que colocaram em cena com aquela reportagem – no trabalho encabeçado por Mapes foi explorado apenas como Bush teria sido favorecido pelos poderosos do Texas e reconhecido na Força Aérea sem ter merecido. E, aparentemente, manipulou a situação para fugir do Vietnã. Mas a possível relação dele e de sua família com a família Bin Laden nem veio à tona.

Por que nenhum outro jornalista conseguiu comprovar aquelas questões envolvendo Bush e o favorecimento dele na Força Aérea? Ninguém realmente foi atrás do tema ou simplesmente aquela história não era verdadeira? Para mim esta é uma questão fundamental de Truth e acaba não sendo respondida pelo filme. Ele se limita a apenas contar o que aconteceu naquela investigação jornalística que acabou com a carreira de dois dos grandes nomes da imprensa americana e a explorar o ponto de vista de Mary Mapes e não avança na questão.

Se o que eles contaram sobre Bush era verdade, o trabalho jornalístico deles foi eclipsado pelos interesses comerciais da CBS e os interesses políticos de Bush e companhia. Se o que eles contaram era mentira, Truth é um grande filme sobre a falta de cuidado na apuração de um assunto de relevância para a sociedade.

Neste segundo caso, poderíamos falar de arrogância por parte de Mary Mapes e Dan Rather que, depois de serem reconhecidos por diferentes trabalhos, descuidaram de seguir fazendo bem o seu trabalho ao imaginar que eles estavam “sempre certos” – importante recordar que eles tinham acabado de marcar um golaço com Abu Ghraib. Também poderíamos tratar da pressão por resultados da TV e da pressão pelo tempo deste meio cada vez mais preocupado em “furar” a concorrência.

Agora, se seguirmos a premissa de Mapes de que eles estavam falando a verdade, este filme estraçalha os interesses envolvendo uma grande corporação de mídia. O presidente da CBS News Andrew Heyward (o competente Bruce Greenwood) encarna, nesta produção, tudo o que o jornalista investigativo odeia. Ele está interessado no negócio da TV, ou seja, em seus anunciantes e, neste caso específico, na verba que vem direta ou indiretamente do governo.

Quantas empresas de mídia todos os dias e enquanto você lê este texto não decidem o que elas publicam ou veiculam levando em conta, em primeiro lugar, os seus interesses comerciais e não o interesse público? Não por acaso muitas pessoas, especialistas na área ou não, questionam a capacidade da mídia em seguir relevante para os seus públicos. Acho que não preciso desenhar para explicar melhor que os interesses públicos colocados em segundo plano, atrás dos interesses comerciais, nunca vão garantir um jornalismo melhor e mais relevante, não é mesmo?

Por outro lado, e os executivos das empresas jornalísticas podem argumentar isso, o bom jornalismo não é feito sem recursos. E por isso a área comercial tem a sua relevância e continuará tendo. Verdade, o negócio da empresa jornalística precisa ser sustentado – e apenas o público consumidor não faz isso. Mas existem limites para a relação dos interesses comerciais e da informação. Quem está à frente de um negócio como este esse não deve nunca esquecer o papel social da mídia. Truth levanta este e outros temas e, apenas por isso, ele já merece ser visto. E, a exemplo de Spotlight, levado para as salas de aula de jornalismo para ser debatido.

Finalmente, este filme levanta, perto do final, outra questão fundamental: como a inclinação política de um jornalista pode influenciar o seu trabalho. Francamente, depois de quase 20 anos de jornalismo, sou da opinião que todo jornalista é influenciado por suas crenças – sejam religiosas, políticas ou do que for. Isso não quer dizer que a apuração dele seja “falsificada” ou “deturpada” por estas crenças, mas sem dúvida alguma a escolha de alguns temas e não de outros – quando o jornalista pode fazer a reportagem que acha importante – é influenciada pelo que ele acha importante retratar no mundo.

Mais do que o que a imprensa fala, é importante observar o que ela ignora. Neste sentido, um jornalista vai sempre buscar assuntos relevantes para a sociedade que ele próprio acredita – como, então, ter um jornalismo totalmente imparcial? A apuração da verdade será sempre criteriosa – ou deveria ser -, mas as escolhas dos temas é sim influenciada pelo que o jornalista acredita. Truth também aborda este tema de forma bem interessante.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como jornalista, acho interessante e importante que o cinema de Hollywood tenha voltado o seu olhar para a profissão. Até para que mais pessoas que não são da minha área possam voltar a refletir sobre a importância do trabalho dos bons jornalistas. Vocês já pensaram o quanto sabemos hoje da Operação Lava-Jato, por exemplo, que jamais saberíamos se não fosse a imprensa? Aliás, será que essa e outras operações existiriam e não seriam “enterradas” o mais rapidamente possível se não fosse o trabalho da imprensa em divulgá-las?

Sem contar as investigações jornalísticas que trouxeram tantos temas relevantes à tona e contra interesses poderosos. O jornalismo é fundamental para a sociedade e, por mais que uns acreditem que ele não é “tão necessário” na época da internet, me arrisco a dizer que ele continua e sempre continuará sendo importante para as sociedades em que ele é exercido de forma livre e independente.

Truth tem alguns momentos muito bons. Gostei, em especial, de três. Esses momentos podem – e deveriam – render muitas horas de debate nas faculdades de jornalismo. O primeiro deles é quando a CBS pressiona Dan Rather a praticamente “acabar” com o tenente-coronel Bill Burkett em uma entrevista que, claramente, está para culpar Burkett e isentar o canal de TV da responsabilidade pelos documentos envolvendo Bush. O segundo é quando o mesmo Rather é obrigado pela CBS a se desculpar em rede nacional. E o terceiro e último é quando o mesmo Rather se despede como apresentador âncora da emissora. O discurso dele é de arrepiar. Momentos fortes.

Cate Blanchett e Robert Redford estão ótimos nesta produção. Não é por acaso que eles são dois dos melhores atores de suas respectivas gerações. Redford mesmo… ele não precisa dizer quase nada para fazer um grande trabalho. Muito expressivo, ele é um dos atores que mais passa credibilidade quando está em cena. Uma escolha perfeita para outro nome que é sinônimo de credibilidade, Dan Rather.

O diretor James Vanderbilt faz um grande trabalho com Truth. Ele sabe usar todos os recursos do cinema moderno para prender a atenção do espectador e dar ritmo para a história. Seus enquadramentos são precisos, com um olhar diferenciado para diversos momentos da produção. Seu trabalho ponderado e preciso também sempre evidencia o bom trabalho dos atores – afinal, como não fazer isso com um elenco tão bom? Seria um desperdício. O roteiro dele também tem diversas qualidades, mas ele erra ao não avançar além do livro de Mary Mapes. Apenas por isso a produção não é perfeita.

Da parte técnica do filme, há muitos elementos que funcionam muito bem e que ajudam Vanderbilt em seu trabalho. Para começar, ótima a edição de Richard Francis-Bruce. Muito boas também a trilha sonora de Brian Tyler, apesar dela exagerar um pouco no tom “heróico”; a direção de fotografia de Mandy Walker e os figurinos de Amanda Neale. Também ajudam a compor a época e os ambientes desta história o design de produção de Fiona Crombie; a direção de arte de Fiona Donovan; e a decoração de set de Glen W. Johnson.

Todos do elenco citados até agora fazem um belo trabalho. Estão centrados e coerentes com os seus respectivos papéis. Além deles, vale citar o trabalho de John Benjamin Hickey como Mark Wrolstad, marido de Mary Mapes; David Lyons como Josh Howard, diretor da TV que logo questiona toda a equipe; Dermot Mulroney como Lawrence Lanpher, um dos líderes da comissão contratada para investigar a reportagem liderada por Mapes; Rachael Blake como Betsy West, diretora da TV que também logo rói a corda e sugere que Mapes deixe de frequentar o local; Noni Hazlehurst como Nicki Burkett, mulher do tenente-coronel Bill Burkett e que tem uma das melhores sequências de diálogo do filme; e Philip Quast como Ben Barnes, uma peça importante da denúncia de Mapes.

Pequeno comentário antes de seguir com as últimas considerações sobre este filme: mais uma vez a tradução de um título de filme feito fora do Brasil é infeliz. Truth é um nome perfeito para esta história. Alguém deve ter achado que o título original ou apenas a tradução literal para Verdade não atrairia o grande público – tenho dúvidas sobre isso, especialmente porque o elenco desta produção é estelar. Mas Conspiração e Poder é para acabar, ou não? Poder ainda vá lá, porque o filme trata disso. Mas Conspiração? Não era para tanto. Questionaram a reportagem feita por Mapes e equipe, mas daí a considerarem eles conspiradores… ou a conspiração seria de outra parte? Juro que não entendi e achei infeliz a escolha.

Truth estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme passou ainda por outros seis festivais mundo afora. Nesta trajetória o filme conquistou um prêmio e foi indicado a outros três. O único que recebeu, até agora, foi o prêmio para Cate Blanchett dado pelo Festival Internacional de Cinema de Palm Springs que reconheceu a atriz não apenas por este filme, mas também por Carol.

Não há informações sobre os custos de Truth, mas sim sobre a bilheteria do filme nos Estados Unidos até o dia 22 de fevereiro deste ano, quando o filme saiu de cartaz em seu país de origem. Entre o dia 16 de outubro de 2015 e o dia 22 de fevereiro de 2016 esta produção conseguiu pouco mais de US$ 2,5 milhões. Pouco, especialmente envolvendo o elenco estelar de Truth. Mas isso só comprova como histórias relevantes e interessantes nem sempre são vistas – geralmente não são – por um grande público. Uma pena.

Apesar da história ser totalmente ambientada nos Estados Unidos, Truth é uma coprodução dos Estados Unidos com a Austrália e teve diversas cenas rodadas em território australiano – incluindo cidades como Sydney e Penrith. Várias cenas foram rodadas também em Nova York e Los Angeles.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 86 textos positivos e 53 negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 62% e uma nota média de 6,2. Acho que apesar dos problemas deste filme, ele merecia uma avaliação melhor.

Procurando saber um pouco mais sobre Truth lendo as notas de produção do filme, descobri o porquê de parte do filme ter sido rodada na Austrália: isso foi feito para atender a um pedido de Cate Blanchett. A atriz queria ficar mais próxima da família durante as filmagens desta produção. Faz sentido, até pela proximidade de sua personagem com a família.

Esta é a estreia na direção de James Vanderbilt. Antes deste filme, ele havia feito o roteiro de outras oito produções, começando por Darkness Falls, de 2003, e passando por produções interessantes como Zodiac e por blockbusters como The Amazing Spider-Man e The Amazing Spider-Man 2.

Claro que Truth não poderia ter sido feito sem ter rendido posterior polêmica. A rede de TV CBS se recusou a passar os comerciais do filme porque argumentou que esta produção é um “desserviço” à verdade, ao público e aos jornalistas. Certo. Por sua vez, Dan Rather afirmou que Truth é uma representação muito fiel ao que aconteceu naquela época e envolvendo os fatos contados pela produção.

Ah sim, e eu já ia esquecendo de compartilhar um texto interessante na Wikipédia sobre este caso. Deram o nome de “controvérsia dos documentos Killian” – lembrando que Killian era o nome do tenente-coronel que teria questionado a colocação de Bush nos anos 1970. Vale dar uma conferida neste texto da Wikipédia e, claro, procurar mais fontes que abordem o assunto. Afinal, a verdade propriamente dita não encontramos neste Truth. 😉

CONCLUSÃO: Um filme interessante sobre uma grande reportagem que acabou mal – pelo menos para as pessoas que se envolveram no trabalho de contar aquela história. Bem narrado e, principalmente, com grandes atores, Truth nos faz refletir sobre o jornalismo e os jogos de poderes envolvendo empresas jornalísticas e o poder – leia-se políticos e principalmente o Estado. Evidentemente há muitos elementos que fazem o espectador pensar neste filme, e isso é positivo, mas Truth poderia ser ainda melhor se tivesse ido além da narrativa daqueles fatos.

Por que não avançar e tentar, de fato, comprovar se aquela teoria mostrada pelos protagonista da história era verdadeira? Faltou essa ousadia para a produção – algo que poderia ter sido feito já que se passaram alguns anos dos fatos. Apesar de desperdiçar a chance de avançar na história, este é um bom filme. Especialmente para levantar debates.

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All Is Lost – Até o Fim

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Em condições normais, o ser humano é feito de um material que lhe exige buscar a sobrevivência a todo custo. Quanto mais adversa a situação, mais o indivíduo se desdobra em sobreviver. E algumas vezes, ao invés de gestos desesperados, a sobrevivência significa pequenas atitudes, singelos gestos de inteligência.

All Is Lost é um filme diferente, que exige muita paciência do espectador, mas que trata, exatamente, deste infindável desejo de viver que todos nós temos. Agora, se você ainda não assistiu ao filme, saiba que esta é a história de um homem só, trabalho de um único ator, e que há poucas palavras em jogo. Por isso mesmo, recomendo que você assista ao filme bem desperto(a), preferencialmente na primeira parte do dia – e não no final, quando o sono já pode começar a bater.

A HISTÓRIA: Barulho de água. Seguido da informação de que a história começa a 1.700 milhas náuticas do estreito de Sumatra. No horizonte, apenas mar, até que surge a ponta de contêiner. Uma voz diz que a data é 13 de julho, e a hora, 16h50min. Em seguida, prossegue pedindo desculpas, mas explicando que havia tentado de tudo. Ele fala de seus princípios e tentativas, mas acaba concluindo que não estava certo.

Afirma que tudo estava perdido ali, exceto por seu corpo e alma, e por comida suficiente para metade de um dia. Também afirma que lutou até o fim, ainda que não saiba se valeu a pena. E conclui que sempre esperou mais para todos, e que sentirá falta das pessoas. Daí o filme volta oito dias no tempo, antes daquela declaração, para sabermos o que levou aquele homem (Robert Redford) a escrever aquelas palavras.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a All Is Lost): Este não é um filme fácil, não há dúvidas. Comecei a assisti-lo em um dia, cansada, e depois de 15 minutos eu tive quase certeza que não conseguiria vê-lo até o fim. De fato, não consegui. Deixei os 30 minutos finais para o dia seguinte. E valeu muito a pena ter feito isso.

O melhor de All Is Lost está neta reta final. Mas para você concluir isso, como acontece muitas vezes na nossa própria vida, é preciso ter vivenciado todo o resto. Impressionante pensar que conseguiram um grande astro e o investimento necessário em dinheiro para realizar All Is Lost em Hollywood. Porque este filme é tudo, menos hollywoodiano. Se ele tivesse sido feito por europeus ou russos, seria mais “natural”. O que apenas valoriza ainda mais o trabalho do diretor e roteirista J.C. Chandor.

Talvez o paralelo possa surpreender vocês, mas acho All Is Lost um irmão gêmeo de Gravity (comentado aqui no blog), só que ambientado em outro “universo” (no lugar do espaço sideral, este filme se passa em outra imensidão, a do mar), e a antítese de The Wolf of Wall Street (com crítica neste link). Isso apenas para ficar na comparação de filmes que foram lembrados no Oscar deste ano.

Vejamos melhor estas comparações… All Is Lost trata do desejo infindável da sobrevivência da mesma forma que Gravity. A diferença é a quantidade de ação, de diálogos e de recursos entre uma proposta e a outra. Gravity teve um orçamento aproximado de US$ 100 milhões e investe pesado em inovação tecnológica e efeitos especiais. All Is Lost teria custado cerca de US$ 9 milhões e aposta em recursos espartanos, sem muita inovação – apesar de exigir vários efeitos especiais, ainda que em escala radicalmente menor que Gravity.

No fim das contas, tanto Gravity quanto All Is Lost são estrelados por atores solitários. Tudo bem que Sandra Bullock não fica só o tempo todo – conta com a “companhia” de George Clooney por uma parte considerável do tempo. Ainda assim, o fundamental da história de Gravity se passa na parte solitária da protagonista. All Is Lost é um filme de um único ator, literalmente. Tanto Robert Redford quanto Sandra Bullock se sacrificaram pelos seus papéis e embarcaram em suas respectivas interpretações.

Além disso, os protagonistas dos dois filmes devem enfrentar muitos desafios para tentar sobreviver. Passam, inclusive, por alguns momentos de esperança seguidos de frustração. São testados mais de uma vez. Mas não esmorecem. Em certo momento, parece que vão desistir, mas daí surge uma última chance de viver e eles a abraçam com toda a força que resta. Nos dois casos a história é edificante e carregada de esperança. Apesar de tantas semelhanças, para o meu gosto All Is Lost foi mais emocionante que Gravity – especialmente pelo final de Gravity, um tanto previsível demais enquanto All Is Lost é pura beleza e poesia.

Agora, vejamos a comparação dos extremos: All Is Lost e The Wolf of Wall Street. No caso do primeiro, dá para contar nos dedos as palavras proferidas. Existe quase uma ausência de falas – por pouco All Is Lost não é um filme mudo. The Wolf of Wall Street, por outro lado, apresenta uma verborragia incessante, quase ensurdecedora. Há excesso de diálogos, de palavras. É como se All Is Lost negasse The Wolf e vice-versa.

Sem contar as diferenças de ambiente e de essência. Enquanto em The Wolf sobram recursos, dinheiro e luxúria, em All Is Lost nada disso tem importância. No filme que estamos tratando aqui, a sobrevivência depende de muito pouco. Voltamos para o essencial. Descobrimos, mais uma vez, que precisamos de muito pouco para viver. E mesmo que não tenhamos quase comida ou água, como o que acontece com o personagem de Robert Redford, nos sobra vontade de viver, lembranças para revisitar, esperança para seguir lutando e imaginação para sonhar.

Como bem escreveu o protagonista naquelas linhas iniciais, ainda que quase tudo tivesse terminado, ele ainda tinha o próprio corpo e a alma. Mesmo enfraquecidos, eles estavam ali. Que grande filosofia! E esta é a essência de All Is Lost. Claro que para chegar naquele ponto e no final derradeiro, J.C. Chandor teve que fazer o exercício básico de nos contar como o protagonista chegou naquela carta.

Daí que existem vários momentos de ação, do personagem de Redford lutando contra o acidente que inicia esta história, até o ápice de enfrentar uma grande tempestade. Antes e depois destas cenas, predominam imagens de “vida real” no mar. Descobrimos, quase na prática, como se desenvolve o cotidiano de quem navega sozinho, quais são os recursos que esta pessoa tem disponível e que alternativas ela possui no caso de emergências.

Como eu disse lá no início, esta é uma produção de um único ator. Redford se entregou para o papel, como Sandra Bullock fez em Gravity. Mas em All Is Lost ele está sozinho. A imagem do ator naquela imensidão, revelando toda a sua fraqueza, mortalidade e solidão, é um paralelo interessante sobre a condição humana.

Afinal, não importa onde estejamos ou o que estejamos fazendo, no fundo somos exatamente isso. Seres frágeis, mortais e que passam grande parte da vida sem uma companhia no que isso tem de mais pleno (ou seja, sem a compreensão do outro que seja plena). Quando nos damos conta disso, talvez nos sintamos mais realistas ou, quem sabe, conformados.

Por isso tudo vale vencer o sono que All Is Lost pode nos provocar – especialmente se você tentou assisti-lo no final do dia. Esta é uma produção que trata de alguns dos temas, medos e fortalezas mais caros do ser humano. E não deixa de ser um desafio aprender com um roteiro como este de Chandor.

Digo isso porque, normalmente, queremos ter um contexto para acalmar a nossa curiosidade de saber mais sobre o outro. E no caso do protagonista de All Is Lost, não apenas desconhecemos o passado dele como, depois de acompanhá-lo naquela experiência extenuante, ficamos sem saber o que irá acontecer com ele a partir dali.

A carta que ele escreve e lança no mar sugere que ele tem família, pessoas que ama e que ele teria decepcionado de alguma forma. Mas existe também espaço para interpretar aquela carta como uma mensagem para a humanidade em geral – especialmente porque ele não cita nome algum no texto. Aí a interpretação vai depender do gosto do freguês – ou, neste caso, do espectador. Eis mais uma escolha brilhante de Chandor.

Interessante a coragem dos realizadores de fazer um filme praticamente mudo. Em pouquíssimas ocasiões Robert Redford abre a boca. O que acaba valorizando, ainda mais, quando este gesto é feito. Mais um ponto de reflexão para todos nós que, normalmente, deveríamos nos calar mais e escutar os sons ao redor. O silêncio pode ser mágico e fonte de grande aprendizado. Pena que ele esteja cada vez menos presente no nosso cotidiano.

All Is Lost sabe valorizar aquele silêncio ainda que, no fundo, ele praticamente nunca exista na prática. O filme é recheado por “sons ambientes” (muitas vezes criados para valorizar o que seria o som original) e por uma trilha sonora marcante e fundamental. Mas nada que tire o espaço fundamental dos sons da Natureza que, propositalmente, acaba “falando” alto e dando dinâmica para as cenas.

Apesar de ter tantas qualidades, não dou uma nota maior para All Is Lost porque acho que o filme gasta tempo demais com o passo-a-passo da vida no mar. Para o meu gosto, ele demora tempo demais para embalar. Como eu não tenho um gosto especial por navegação, acho que várias cenas que mostram os aparatos de um iate e as soluções que eles podem trazer poderiam ter sido suprimidas. Talvez sem elas o filme se tornaria mais “digerível” para o grande público, muito acostumado com sequências mais editadas e dinâmicas. Ainda assim, respeito a proposta de Chandor que, evidentemente, era aquela que vemos no filme mesmo.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Há muito tempo eu não via ao ator Robert Redford tão bem. Entregue ao papel e ao projeto, ele dá um banho – sem alusão a trocadilhos. 🙂 Não é nada fácil segurar um filme com pouco mais de uma hora e meia de duração sozinho e convencendo a quem assiste. E com um detalhe importante: sem a “muleta” de diálogos espertos ou de um texto bem escrito. Aqui, Redford tem basicamente a ação de pequenos gestos como recurso cênico. Convencer o público desta forma, só sendo um grande ator. Pena ele não ter sido indicado ao Oscar.

Uma das qualidades marcantes desta produção é a direção de fotografia. Em muitas cenas, especialmente no final, são as belas imagens que embalam os pensamentos do público – que não tem nos diálogos uma válvula de escape. A dupla Frank G. DeMarco e Peter Zuccarini fizeram um belo trabalho em All Is Lost.

Como All Is Lost praticamente não tem diálogos, acaba sendo fundamental o trabalho de “preencher o vazio” feito pelos técnicos de som. Seja na captação de som ambiente ou seja na edição de som posterior, o trabalho destes profissionais acaba sendo vital para a produção. O Departamento de Som do filme contou com 24 profissionais liderados por Steve Boeddeker e Richard Hymns. Um trabalho exemplar. Destaque também para a trilha sonora de Alex Ebert que casa e dialoga perfeitamente com os sons do filme.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: o roteiro inteiro de All Is Lost tem 32 páginas. O que deve ser um recorde de economia no cinema. 🙂 E por falar em recordes, All Is Lost é o primeiro filme que se tem notícia estrelado por um único ator, dirigido e escritor por um único profissional, mas que tem 11 produtores executivos e seis outros produtores.

All Is Lost estreou em maio de 2013 no Festival de Cannes. Depois, o filme participaria de outros 15 festivais. O próximo da lista será o Festival de Cinema de Belgrado que começa amanhã. Nesta trajetória, a produção conquistou três prêmios e foi indicada a outros 21, incluindo a indicação a um Oscar. Entre os prêmios que recebeu está o de Melhor Roteiro Original no Globo de Ouro; Melhor Ator para Robert Redford (e quem mais seria? hehehehe) entregue pelo Prêmio do Círculo de Críticos de Cinema de Nova York; e o terceiro lugar como Melhor Ator para Robert Redford no prêmio da Sociedade Nacional de Críticos de Cinema dos Estados Unidos.

Esta produção teria custado cerca de US$ 9 milhões e arrecadado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 6,3 milhões nas bilheterias. Ainda falta contabilizar o resultado do filme nos outros mercados em que estreou, mas parece que ele terá um pouco de dificuldade para conseguir um grande lucro.

Para quem gosta de saber sobre os locais de gravação dos filmes, All Is Lost foi rodado em diferentes locais de Los Angeles, na Califórnia; nas Bahamas e na Baixa Califórnia, no México.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para All Is Lost. Os críticos que tiveram os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 188 textos positivos e apenas 14 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,9.

Figura interessante este J.C. Chandor. Antes de All Is Lost, ele havia dirigido apenas a um filme: Margin Call. A estreia dele como diretor foi com o curta Despacito. Mesmo com um número tão reduzido de trabalhos, ele já tem sete prêmios no currículo e foi indicado a um Oscar – pelo roteiro de Margin Call. Agora, ele está rodando A Most Violent Year, estrelado por Jessica Chastain e com estreia prevista para 2015. Vale acompanhá-lo.

Este é um filme com produção 100% dos Estados Unidos. Por esta razão, ele engrossa a lista de produções daquele país comentada aqui no blog e que atende a uma votação feita por vocês.

Fazia tempo que eu não encontrava tantos cartazes bons de um mesmo filme. Tive um pouco de dificuldade de escolher qual colocar aqui no blog. Mas acho que fiz uma escolha acertada. De qualquer forma, vale dar uma olhada nas outras opções que existem na rede.

CONCLUSÃO: Inicialmente este filme é recomendado apenas para quem gosta muito de mar e de histórias de busca pela sobrevivência. Ou, pelo menos, para quem não se importa com um desenrolar lento da história, na qual a falta de diálogos predomina. Aqui o que importa é a relação do homem com a Natureza e com o seu próprio significado no mundo. Não sabemos nada sobre a vida do protagonista antes de vê-lo sozinho navegando pelo mundo.

Aqui a contextualização pouco importa. Um filme lento, com grande interpretação de Robert Redford, e que testa a paciência do espectador para levá-lo a outro nível. Um estágio em que os diálogos são supérfluos e em que a contemplação e a reflexão é o que importa. Lindo e exigente, All Is Lost exige que o espectador vença o seu sono – especialmente se você tentar assisti-lo no fim de um dia de trabalho -, mas no fim das contas ele se revela muito válido e interessante pelo diferencial que nos apresenta.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Antes da lista de indicados ser divulgada, alguns apostavam que Robert Redford conseguiria uma indicação como Melhor Ator. Mas ele ficou fora da lista – apesar de merecer. O mesmo aconteceu com Tom Hanks. É que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, este ano, resolveu encher a bola de American Hustle – e, consequentemente, de seus atores, incluindo Christian Bale, que foi indicado como Melhor Ator.

Para All Is Lost sobrou uma indicação na categoria Melhor Edição de Som. De fato, em um filme praticamente sem falas, a trilha sonora e o som ambiente e criado em estúdio são os elementos fundamentais em cena. Mesmo que você não perceba com exatidão durante o desenrolar da história, mas o trabalho impecável da equipe liderada por Steve Boeddeker e Richard Hymns é essencial para te transportar para o meio da história e provocar o que é um dos objetivos desta produção: a empatia do espectador com o protagonista solitário desta história.

Sem dúvida Boeddeker e Hymns merecem a estatueta. Mas eles tem pela frente uma tarefa inglória: desbancar o trabalho  fantástico que Glenn Freemantle fez com a edição de som de Gravity. Sem dúvida alguma Freemantle é o favorito. Ainda que a concorrência na categoria esteja pesada – a edição de som em Captain Phillips também é ótima, e mesmo sem ter assistido aos demais concorrentes (a saber: Lone Survivor e The Hobbit: The Desolation of Smaug), imagino que o trabalho de todos seja de primeiríssima linha. All Is Lost, desta forma, pode sair de mãos vazias do Oscar. Não seria uma surpresa.

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The Conspirator – Conspiração Americana

Uma nação forte pode ser consolidada sobre uma mentira? A justiça pode ser massacrada em momentos de conflito com a justificativa de que isso será feito para um “bem maior”? Robert Redford segue a sua jornada em busca de uma visão crítica dos Estados Unidos ao retomar uma história pouco conhecida de seu país neste The Conspirator. O filme mistura crime, drama, política e conflitos de tribunal. É uma história interessante, curiosa, e que ajuda a fazer uma revisão histórica das origens dos EUA.

A HISTÓRIA: Soldados mortos, caídos no chão. Um sobrevivente daquele campo de batalhas conta para um outro sobre a história de dois homens que chegaram às portas do Paraíso. O capitão Frederick Aiken (James McAvoy) está ferido, mas tenta distrair o amigo Nicholas Baker (Justin Long), que está tendo convulsões. Quando o socorro chega, Frederick ordena que Nicholas seja levado primeiro. Dois anos depois, no dia 14 de abril de 1865, os amigos estão juntos para comemorar a vitória dos estados do Norte dos Estados Unidos na Guerra Civil Americana. William Hamilton (James Badge Dale) questiona se o grupo não está comemorando antes do tempo, mas Nicholas afirma que o general Lee rendeu-se ao general Grant, e que isso deveria ser comemorado. Naquela noite, no Teatro Ford, o presidente Abraham Lincoln (Gerald Bestrom) sofreria um atentado. Mais tarde, Frederick, que é advogado, seria chamado pelo senador Johnson (Tom Wilkinson) a defender uma das acusadas pela conspiração contra o presidente, a dona de um albergue Mary Surratt (Robin Wright).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Conspirator): Robert Redford é conhecido pelo olhar crítico. Ele não apenas fez alguns filmes com esta levada, como também criou um festival – o Sundance – para fomentar olhares múltiplos sobre a realidade dos Estados Unidos e de outros países. Tentando fugir um pouco das “cartas marcadas” de Hollywood.

Em The Conspirator o diretor narra, junto com os roteiristas, um episódio pouco conhecido da história dos Estados Unidos. Ele mostra como as leis, constituições e valores defendidos por um país podem ser modificados e deturpados dependendo da interpretação de quem está no comando.

Situações de guerra e conflito são diferentes daquelas vividas em um ambiente de paz, é verdade. Mas The Conspirator sugere – e c0m razão – que estes argumentos não são suficientes para legitimar injustiças. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A mensagem mais bacana do filme, além de uma revisão histórica rara, é de que o caso de uma mulher, apenas, pode ser suficiente para que mudanças importantes aconteçam. Algumas vezes alguns justos precisam ser sacrificados para que paradigmas equivocados que foram estabelecidos sejam modificados.

The Conspirator acerta no início, ao ir direto ao que interessava. Mas não deixa de ser um pouco curioso o corte seco que Redford faz do campo de batalha para a noite do atentado ao presidente dos EUA. (SPOILER – não leia… bem você já sabe). Parece que ele não quer perder tempo com o conflito. Talvez para não dar pano pra manga. Para que não haja espaço para justificar o absurdo que vamos assistir, que é o julgamento forjado de uma mulher que, efetivamente, não contribuiu para o assassinato do presidente.

Normalmente, Redford é mais cuidado no contexto histórico. Isso é algo em que The Conspirator falha. O roteiro de James D. Solomon, inspirado em uma história escrita por ele e por Gregory Bernstein, ignora o clima tenso e de divisão entre o Norte e o Sul dos Estados Unidos. Sabemos que há um conflito, que o Norte está ganhando e que há insatisfeitos no Sul, mas a insatisfação ou o apoio das ruas para Lincoln, por exemplo, não é mostrado neste filme.

A história gasta mais tempo no desinteressante relacionamento do protagonista com Sarah Weston (Alexis Bledel) do que mostrando o ambiente que cercava aquela decisão judicial. Ok, entendo que os roteiristas queriam mostrar todas as “pressões” e oportunidades que Frederick poderia perder ao insistir em defender Mary Surratt, mas a escolha deste foco não ajuda o filme. Pelo contrário, acaba tornando ele mais raso do que ele poderia ser.

O espectador também fica um pouco confuso sobre o atentado ao presidente e tem dificuldade de identificar os seus culpados. Eles aparecem apenas no momento da ação e, depois, não tem as suas histórias contextualizadas. O “vilão” principal, por exemplo, o ator responsável por atirar em Lincoln, John Wilkes Booth (Toby Kebbell) aparece poucas vezes e, normalmente, de forma tão obscura que até fica difícil identificá-lo depois, quando ele está sendo perseguido.

O mesmo acontece com os outros acusados pela conspiração, David Herold (Marcus Hester), Lewis Payne (Norman Reedus), George Atzerodt (John Michael Weatherly), Michael O’Laughlen, Edman Spangler (James Kirk Sparks), Samuel Mudd e Samuel Arnold (Jeremy Tuttle). Não percebemos qual foi a participação deles nos crimes porque tudo acontece muito rápido, e sem explicar a origem do plano ou o desenvolvimento dele. Algo que não ajuda o filme.

Claro que um bom embate de tribunal é sempre interessante. O duelo entre Frederick, que acaba assumindo o caso quando o senador percebe que será pior se ele continuar defendendo a dona da pensão, e o promotor Joseph Holt (Danny Huston) tem alguns bons momentos, mas o melhor deles – e que realmente vale todo aquele jogo de cena – só acontece na argumentação final. Até lá, o filme parece um pouco arrastado.

A ideia de resgatar um episódio importante para os Estados Unidos e pouco conhecido tem o seu mérito. Assim como os cuidados com a reprodução daquela época, tanto nos figurinos como na direção de arte e tudo o mais. Mas o problema de The Conspirator é que ele fica mais no discurso morno do que na ação ou no drama que provoquem o espectador, que façam ele reagir à história que está assistindo.

O resultado é que ficamos perplexos em saber que os Estados Unidos, que orgulha-se tanto de sua Constituição e da preservação dos direitos dos cidadãos, começou a sua história como nação unida contradizendo tudo isso. Mas isso é tudo. E essa perplexidade ganha força na parte final do filme. Antes, há confusão, um repasse rápido da conspiração que não ajuda a contar a história, e muitas sequências de tribunal – e seus bastidores.

Um elemento que deveria ajudar na tensão do filme é a de Frederick estar “dividido”. Afinal, ele é um herói de guerra, que defendia, justamente, aquela ideia de nação perfeita, mas também um advogado que é chamado a honrar o juramento que fez. Aos poucos, e ao defender Mary Surratt, ele percebe o que todos nós aprendemos com o passar dos anos: que a vida não é tão preto & branco como imaginávamos quando éramos crianças, ou adolescentes.

Ele percebe, isso sim, que há muitos nuances de cinza. E que há graus decisórios que estão além do nosso alcance. Ainda assim, não devemos desistir. E mesmo que tudo mostre que a derrota é inevitável, é preciso continuar defendendo os valores que nos ensinaram e que são justos, corretos.

Por isso, e pelo resgate histórico de um episódio pouco conhecido, é que dedico a nota abaixo. Como filme, The Conspirator mereceria uma avaliação mais baixa. Mas pelas intenções dele… sejamos um pouco “generosos”. Sempre vale assistir a um diretor e seu trabalho feitos para provocar reflexão nas pessoas. Este é um caso destes.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os atores estão bem, mas nenhum deles merece uma reverência. Algumas vezes, James McAvoy parece um pouco deslocado, assim como Justin Long. Kevin Kline, figura importante no filme e para a história, porque ele interpreta ao secretário de guerra Edwin Stanton, aparece pouco, e parece sempre estar desconfortável. Desempenho abaixo do desejável, para resumir. Robin Wright tem uma interpretação linear, conseguindo destacar-se da média geral apenas algumas vezes. Outros que estão bem são Evan Rachel Wood, que interpreta a Anna Surratt, filha de Mary; Tom Wilkinson, acima da média; e o veterano John Cullum como o juiz Wylie, em uma superponta.

A produção de The Conspirator é uma das maiores qualidades do filme. Um ótimo trabalho de pesquisa de figurinos de Louise Frogley, da direção de arte de Mark Garner e do design de produção de Kalina Ivanov. Ajuda a “climatizar” a história a direção de fotografia “terral” que dá a impressão de “envelhecida” de Newton Thomas Sigel. Um estilo previsível, é verdade, mas, ainda assim, eficaz.

O veterano Mark Isham faz mais um bom trabalho na trilha sonora, que segue uma linha clássica, reforçando o drama e alguns momentos de “suspense”. Mas o melhor do filme, em termos de música, está reservado para os créditos finais: Empty, canção de Ray Lamontagne. Bela escolha. E, para mim, uma bela descoberta. O refrão dela resume bastante do que Redford quer expressar com este filme: “Will I always feel this way/ so empty, so estranged”. Aqui, um vídeo com a canção.

Segundo este texto, a Guerra da Secessão, como ficou conhecida a guerra civil entre “nortistas e sulistas” nos Estados Unidos entre 1861 e 1865, teria provocado pelo menos 600 mil mortes. Um número impressionante – especialmente para um conflito civil do século 19. Ainda de acordo com o texto, esta teria sido a primeira guerra moderna da história, na qual foram utilizados fuzis de repetição e trincheiras, recursos que marcariam, depois, a Primeira Guerra Mundial.

Quem tem interesse de saber mais sobre o episódio contra Lincoln, este é um texto interessante para começar a pesquisa. Curto, direto e com algumas curiosidades. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Lincoln foi o primeiro presidente dos EUA morto enquanto exercia a sua função como maior mandatário do país. Depois dele, seriam assassinados os presidentes James Garfield (por Charles Guiteau, em 1881), William McKinley (por Leon Czolgosz, em 1901) e John Kennedy (por Lee Harvey Oswald, em 1963).

Vale dar uma conferida nesta página da Veja com informações e fotos históricas da Guerra Civil Americana. E neste link, um resumo sobre alguns personagens importantes daquele momento histórico.

The Conspirator estreou em setembro de 2010 no Festival de Toronto. Depois, o filme passou por outros cinco festivais. Nesta trajetória, foi indicado a dois prêmios, mas não levou nenhum deles para casa.

O filme foi mal nas bilheterias. Para uma produção que custou cerca de US$ 25 milhões, faturar pouco mais de US$ 11,5 milhões nos Estados Unidos é muito pouco. Redford fracassou, desta vez, apesar das boas intenções.

E uma curiosidade sobre esta produção: ela é a primeira da The American Film Company. A produtora foi criada com o objetivo de viabilizar filmes que façam um resgate crítico do passado dos Estados Unidos. Agora, outro detalhe histórico (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme): Mary Suratt foi a primeira mulher da história a ser executada pelo governo dos EUA.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para The Conspirator. Uma boa avaliação, levando em conta o histórico do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes não gostaram tanto da produção. Eles dedicaram 92 críticas positivas e 73 negativas para The Conspirator, o que lhe garante uma aprovação de 56% e uma nota média de 6,1.

CONCLUSÃO: Algo que o cinema dos Estados Unidos tem, como qualidade, é a coragem de focar episódios polêmicos de sua história sem puritanismo. O diretor Robert Redford contribui para a saudável revisão histórica do cinemão de seu país com este The Conspirator. Faz um filme bem dirigido e narrado, mas The Conspirator perde um pouco de força conforme avança porque as dúvidas sobre a protagonista não duram muito tempo. Logo o público sabe o que está acontecendo, e a tensão resume-se apenas à disputa de tribunal. E daí surge o segundo problema: fica evidente, e muito cedo, qual será o resultado daquela queda de braços com cartas marcadas. O resgate histórico crítico é bacana, mas faltou alimentar um pouco mais de dúvidas e tensão durante a história. Um bom filme, ainda que pouco vigoroso. Mas que vai agradar aos que gostam de saber um pouco mais sobre episódios históricos pouco conhecidos.