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Captain Fantastic – Capitão Fantástico

Uma história para dar bastante pano para manga. Na verdade, algumas teses poderiam ser escritas sobre Captain Fantastic. Mas eu vou me eximir desta tarefa e fazer apenas alguns comentários sobre o filme. Com um roteiro corajoso, que leva uma ideia até o extremo em alguns momentos ao mesmo tempo em que nos apresenta uma proposta bastante realista sobre um conceito, este filme é uma aula de cinema. Primeiro, pelo roteiro. Depois, pelo elenco escolhido a dedo e com ótimo desempenho e, finalmente, com algumas mensagens que a produção deixa no ar.

A HISTÓRIA: Uma imensa e linda floresta com belas árvores. Em meio à mata, vemos um cervo. Ele está tranquilo, perto de um riacho. O animal se alimenta de flores. Ele olha para um lado e vemos a uma pessoa camuflada. O cervo não se assusta. Bo (George MacKay) espera ele chegar perto e ataca. Ele corta a garganta do animal. Lentamente os irmãos dele chegam perto, e Ben (Viggo Mortensen) marca o filho mais velho com sangue e lhe dá uma parte do animal para comer. Esse foi o rito de passagem do garoto. Em seguida, a família tira a camuflagem no riacho e leva a caça para casa. Todos sabem o que fazer na sequência. A família vive em meio à floresta e tem o seu próprio modo de vida alternativo à civilização.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Captain Fantastic): Uma característica importante para assistir a este filme é desarmar-se. Deixar em segundo plano as suas opiniões, crenças e valores e acompanhar essa história e seus argumentos sem julgar. Ben e os seus filhos tem uma maneira de encarar a vida e a realidade muito diferente da maioria.

Alguns podem achar a história utópica, ou exagerada. Sem dúvida a forma de pensar de Ben e dos filhos é utópica. Eles acreditam em uma sociedade diferente da que os cerca e daquela que nos rodeia. Captain Fantastic também é um pouco exagerado, sem dúvida. O roteirista e diretor Matt Ross exagera em algumas cores para justamente comprovar os seus argumentos. Um recurso bem conhecido na literatura e nas artes e um tanto em “desuso” no cinema, que anda bastante padronizado.

Não vou mentir que alguns exageros da história me pareceram um tanto desnecessários. A forma com que Ben tenta tocar a vida de forma “normal” após a perda da esposa e mãe de seus filhos me pareceu um tanto exagerada. Certo que ele parecia estar um pouco em choque também e que era um grande defensor do estilo “sobrevivência”, mas me pareceu um pouco forçada a frieza dele tanto na hora de contar para os filhos sobre a morte da mãe deles quanto o episódio seguinte de treinamento na montanha.

Também achei um tanto infantil a sequência da “missão libertar comida”, que nada mais foi do que roubar alimentos de um supermercado. Ora, se a filosofia de Ben e da esposa era criar os filhos tendo como base a verdade acima de tudo, parece um tanto incoerente ensinar para eles a manipulação de um ataque cardíaco fictício para cometer um crime, não? (sem contar a sequência do cemitério, que por mais que fosse cheia de “boas intenções”, novamente se trata de um crime e de um grande desrespeito aos pais da mãe dos garotos). Mas ok, Ross exagera nas tintas para mostrar uma família anti-sistema, alternativa ao extremo.

Entendo as intenções do diretor e roteirista, mas só acho algumas cenas um tanto “pesadas” demais. Ver crianças, algumas inclusive pequenas, agindo em conjunto para cometer crimes não me caiu bem. Descontada esta parte, acho bacana a forma com que Captain Fantastic mostra uma realidade possível de uma família que resolve apostar em uma forma alternativa de viver a vida. A exemplo de Into the Wild (comentado aqui), sempre é bacana ver um filme que questiona a realidade de “piloto-automático” e consumismo em que vivemos.

Mas, ainda que pareça bonita a ideia de procurar uma sociedade alternativa, não acredito que alguém se realize sozinho ou de forma isolada. Então ok, Ben e a esposa Leslie (Trin Miller) tentaram preparar os filhos da melhor forma possível. Conseguiram ensinar para eles não apenas técnica de sobrevivência, de luta, o valor de conhecer a origem do que nos alimenta e a pensar por sua própria conta e de argumentar cada pensamento e teoria, mas não ensinaram para eles a importância de viver em um coletivo. Acredito que a gente só aprenda para valer no contato com o outro, com o estranho e o diferente, e não vivendo em uma bolha e na realidade que nos parece mais conveniente.

De forma crítica o filme mostra a realidade das cidades e o seu consumismo e padrão de vida sem reflexão. As pessoas se alimentam sem nenhum contato com a origem do alimento e estão mais conectadas com os eletrônicos do que com o raciocínio lógico, a argumentação e o conhecimento. Esse é um extremo que não serve. E o extremo da família de Ben, que vê o mundo apenas de uma forma e sem contato com o diferente, também não serve.

O bacana deste filme é que ele vai expondo os seus argumentos de forma linear e crescente, com algumas surpresas no caminho, e termina mostrando que os extremos não deveriam nos servir. Tanto que no final Ben cede um pouco ao estilo de vida que eles vinham levando e percebe a importância de não isolar os filhos na educação que ele acredita ser certa.

Eles precisam ser integrados à sociedade e é isso que acontece. Certamente eles estarão muito bem preparados para enfrentar a vida pensando por conta própria, mas agora mais abertos a aprender também com os outros. Porque não basta apostar em uma forma diferente de enxergar o mundo e ensinar literatura e música de qualidade para os seus filhos. Tão importante quanto é ensiná-los a respeitar os outros, especialmente quem pensa diferente. O equilíbrio sempre é a resposta.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro e a direção de Matt Ross são exemplares. Especialmente o roteiro, que é inteligente e que exagera algumas tintas de forma proposital. Mas, descontados os pontos que eu já tratei antes, achei o trabalho dele exemplar. Soube apresentar essa história com muita competência e, o mais importante, não apenas com ótimas linhas de roteiro, mas valorizando o trabalho de cada ator.

Aliás, o elenco é outro ponto forte da produção. Viggo Mortensen lidera o grupo por ser o intérprete mais experiente em cena na maior parte do tempo, mas todos estão ótimos. Mortensen mereceu a indicação ao Oscar de Melhor Ator, mas acho que George MacKay merecia, também, uma indicação como Melhor Ator Coadjuvante. Ele realmente é um dos destaques desta produção.

Além deles, vale citar os outros atores que compõem a família e que se saem muito bem: Samantha Isler como Kielyr; Annalise Basso como Vespyr; Nicholas Hamilton como Rellian, o filho que se rebela contra o pai; Shree Crooks como a esperta Zaja; e Charlie Shotwell como Nai, uma fofa. A despedida da família de Leslie, bem perto do fim da produção, com as irmãs Kielyr e Vespyr soltando a voz, é um dos momentos mais especiais e bonitos do filme. Todos esses atores que interpretam os filhos de Ben e Leslie estão incríveis.

Completando o elenco, mas em papéis menores, estão Kathryn Hahn como Harper, irmã de Ben; Steve Zahn como Dave, marido de Harper; Elijah Stevenson como Justin, um dos filhos de Harper e Dave; Teddy Van Ee como Jackson, o outro filho do casal; Erin Moriarty como Claire, a primeira garota a beijar Bo; Missi Pyle em uma super ponta como Ellen, mãe de Claire; Frank Langella como Jack, pai de Leslie; e Ann Dowd como Abigail, mãe de Leslie.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Stéphane Fontaine; da trilha sonora bem pontual mas também bem bacana de Alex Somers; da edição cuidadosa de Joseph Krings; dos figurinos de Courtney Hoffman; do design de produção de Russell Barnes; da direção de arte de Erick Donaldson; e da decoração de set Tania Kupczak e Susan Magestro.

Captain Fantastic fez quase US$ 5,9 milhões nos Estados Unidos. É uma bilheteria baixa, mas não é um resultado ruim para um filme tão alternativo. Sem dúvida alguma este é um deste filmes que só vai ter público na propaganda boca-a-boca e, provavelmente, entre as pessoas com cabeça “mais aberta”. Afinal, esta não é uma produção simples. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez quase US$ 3 milhões.

Algo bacana neste filme é que os argumentos para defender a proposta de Ben e de Leslie estão certos, assim como os argumentos que criticam o que os dois fizeram. A reta final da produção demonstrou isso, e a saída equilibrada foi sem dúvida um dos grandes acertos de Matt Ross.

Captain Fantastic é o segundo longa-metragem dirigido por Matt Ross. Mais conhecido por seu trabalho como ator, Ross estreou na direção em 1997 com o curta The Language of Love. Depois, ele voltaria a dirigir um curta apenas em 2009, Human Resources. O primeiro longa viria três anos depois, 28 Hotel Rooms. Acho que ele tem um trabalho bastante promissor. Tem talento para escrever e um feeling importante na direção.

Esta produção, 100% dos Estados Unidos, conquistou 12 prêmios e foi indicada a outros 40, inclusive a indicação de Viggo Mortensen na categoria Melhor Ator do Oscar 2017. Sim, ainda estou na onda do Oscar. 😉 Mas já estou atenta ao que está nos cinemas e estreando nas próximas semanas para acompanhar o que de melhor teremos pela frente neste ano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 152 críticas positivas e 32 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 83% e uma nota média de 7,1.

Como este filme é 100% americano, ele entra na categoria de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Captain Fantastic, para mim, leva um pouco além a ideia de Into the Wild. Esta produção leva um pouco além a ideia de sociedade alternativa, mostrando de maneira bastante cruel, em alguns momentos, como é para uma família viver de forma totalmente independente. O bacana da produção é que, apesar dela exagerar em algumas tintas volta e meia, ela tenta ser franca com os conceitos e com a realidade e, no final das contas, busca o que é o ideal da vida: o equilíbrio. A saída é não ser totalmente alternativos, a ponto de viver isolado da sociedade, e nem seguir o pensamento mediano comum. Bem desenvolvido, é um filme que merece ser visto e discutido, certamente.

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We’re the Millers – Família do Bagulho

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Há tempos eu não assistia a uma comédia. E é bom mudar, volta e meia, o estilo. Talvez por isso eu tenha gostado deste simplório We’re the Millers. A premissa é interessante, o desenvolvimento um tanto previsível, mas este filme tem algumas boas sacadas e atores que claramente se divertiram. Além disso, me surpreendi com Jason Sudeikis, protagonista desta produção. Não lembro de ter assistido a outro trabalho dele, e acho que ele se saiu muito bem.

A HISTÓRIA: Alguns dos vídeos mais assistidos da internet. Todos engraçados e no melhor estilo “pegadinha”. Vários – ou todos – serão reconhecidos pelo público. Enquanto fala com a mãe no telefone, David Clark (Jason Sudeikis) assiste a estes vídeos no computador. Ela pergunta se ele está escutando, e David disfarça e diz que sim. Em seguida, ele começa a receber pedidos. Abre uma caixa, se abastece com diferentes tipos de maconha e com algum dinheiro.

Em seguida, parte para fazer negócios, vendendo para diferentes públicos. Após fazer uma venda em um café, ele esbarra com um antigo colega, Rick Nathanson (Thomas Lennon), que fala de sua família, deixando David com uma visível ponta de inveja. Mais tarde, ele é assaltado e acaba devendo US$ 43 mil para Brad Gurdlinger (Ed Helms), chefe local e para quem ele trabalha. Sem saída, David aceita um trabalho de risco para o qual ele forma uma família de fachada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a We’re the Millers): Tentei não contar muito sobre o filme no resumo acima. Afinal, são as pequenas “surpresas” desta história que fazem ela ser interessante. We’re the Millers tem algumas boas sacadas, que vou comentar na sequência, o que não é suficiente para fazer o filme ser genial. Um problema desta produção é que ela tem uma condução um bocado previsível. Mesmo tendo piadas claramente politicamente incorretas, o enredo não surpreende após a primeira reviravolta. O que não é bom.

Mas vamos ao que interessa. Falar sobre as qualidades desta produção. Para começar, ela tem uma premissa muito boa – apesar de manjada: um sujeito que começa a vender drogas na faculdade segue fazendo isso depois de formado e, após marcar bobeira e ser assaltado, é ameaçado pelo chefe do tráfico. Quantos filmes você já viu em que um bandido se ferra ao dever para outro?

Pois bem, o protagonista de We’re the Millers acaba sem saída após ajudar Kenny Rossmore (Will Poulter) quando ele resolve defender a Casey Mathis (Emma Roberts), uma garota que vive perambulando pelas ruas. Na própria visão um tanto cínica de Clark, ele marcou bobeira. Difícil acreditar que além de perder a mochila, ele ainda abriu a casa para os jovens assaltantes… mas ok, o filme precisava se justificar.

Desta forma, David está ferrado e aceita trazer mercadoria para Gurdlinger desde o México em um motor home gigantesco. Lendo até aqui, o roteiro do quarteto Bob Fisher, Steve Faber, Sean Anders e John Morris, inspirado em uma história dos dois primeiros, não parece muito original, certo? De fato, não é. Assim como não é exatamente inovadora a sequência, quando David e “família” encontram outra família esquisitona e que exemplifica os “norte-americanos médios” pelo caminho. Mas We’re the Millers se mostra interessante nos detalhes.

Para começar, há uma nuance interessante nos personagens de David e de Rose O’Reilly (Jennifer Aniston): mesmo não sabendo a idade exata deles, presumimos que eles passaram dos 30 e que continuam fazendo os “bicos” que tinham agarrado quando eram jovens. É o típico exemplo considerado fracassado de deixar “a vida me levar”. Nos olhares da sociedade, até dá para entender um cara que venda maconha na faculdade, possivelmente para pagar os estudos, e uma mulher que faça strip-tease pela mesma razão. Mas e quando eles seguem fazendo isso após os estudos? “Losers”, certo?

Mesmo dizendo que inveja o “amigo” por ele ser solteiro, não ter que se incomodar com uma família, e por seguir vendendo drogas – o que lhe daria “liberdade” -, Nathanson não esconde o olhar de surpresa com alguma reprovação. Ele representa o americano médio. E convenhamos, vender drogas ou dançar pole dance para ganhar a vida não são, por assim dizer, o sonho de qualquer pai ou mãe para os seus filhos. Nem os próprios personagens que assumem estas “carreiras” no filme estão satisfeitos consigo mesmos.

Este primeiro sutil questionamento sobre pessoas que não sabem que rumo dar para a própria vida é o primeiro ponto interessante de We’re the Millers. O segundo é o trabalho do quarteto de roteiristas em esquecer por alguns momentos o politicamente correto e também em investir em referências “pop” aqui e ali.

Para exemplificar este último ponto, cito o que para mim foi a primeira grande sacada desta produção – e que rendeu a minha primeira risada (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme): quando David é solto pelos capangas de Gurdlinger sobre um enorme plástico no escritório do traficante. A referência a Dexter foi uma tirada inteligente. O filme tem outras destas, mas não são muitas. Como aquela do “insight” de Clark ao ver a reação do policial ao ajudar a uma família de “americanos turistas idiotas”. Neste e em outros momentos o filme não mostrará sutileza alguma.

E este é, sem dúvida, o estilo de humor que o norte-americano adora. Vide o mega sucesso da grife The Hangover (o primeiro filme foi comentado aqui no blog). A ideia é aquela do ambiente universitário dos Estados Unidos, onde uns sacaneiam os outros o tempo todo, se possível. Tirar sarro é o lema destes filmes. We’re the Millers segue esta linha, mas sem ter que recorrer a tantos estereótipos quanto The Hangover. Menos mal.

Algo que prejudica este filme é que a ideia de alguém que precisa de dinheiro mergulhar no ambiente das drogas como alternativa para resolver os seus problemas nunca mais será a mesma após a brilhante série Breaking Bad. Daí que para embarcar em We’re the Millers, se você acompanha a Breaking Bad, será fundamental pensar que este filme é uma comédia. E que não tem a pretensão de reinventar esta roda. Se pensar desta forma, você poderá se divertir.

A terceira boa sacada do filme é a encaretada de David e Casey – porque Kenny já tinha o estilo careta. Impressionante o que um corte de cabelo pode fazer para a imagem de uma pessoa. 🙂 Depois, o filme embarca em uma rotina bonitinha e nada inovadora até a primeira reviravolta do roteiro.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não sei vocês, mas eu estava achando aquela missão dos “Millers” muito tranquila, mesmo com a aparição do policial mexicano (Luis Guzmán) pelo caminho. Então, ao menos para mim, não foi uma grande surpresa a aparição do verdadeiro Pablo Chacón (Tomer Sisley). Ainda que não tenha sido totalmente surpreendente, devo admitir que o estilo da virada funciona muito bem.

E há todas as sequências politicamente incorretas – que, quando bem encaixadas, funcionam bem. Para começar, David exigindo que o quase adolescente Kenny se “sacrificasse pela equipe” com o policial mexicano. Ele poderia ser mais escroto? Como adulto e chefe da operação, David deveria assumir a missão, não é mesmo? Mas no roteiro deste filme o importante é tentar surpreender o espectador. E algumas vezes eles conseguem. Outra sequência claramente neste sentido é aquela da noite no acampamento dos Millers com os Fitzgerald – o pai Don (Nick Offerman), a mãe Edie (Kathryn Hahn) e a filha Melissa (Molly C. Quinn).

Pena que o filme abrace o humor pastelão – vide o atropelamento do capanga One-Eye (Matthew Willig), a queima dos “fogos-de-artifício” pedida por Casey, a sequência da aranha e o confronto com os bandidos. Humor que deve estar bem ao gosto dos norte-americanos, mas que parece um tanto simplório pra gente. Ou não?

Enfim… estas piadinhas, assim como o previsível envolvimento dos Millers – ainda que um tanto difícil de acreditar – acabam sendo os pontos fracos do filme. Porque simplórios e bastante previsíveis. Esse é o lado ruim da balança. Mas há o lado bom, que são as sacadas. E mais.

Acho que o ótimo trabalho do protagonista, Jason Sudeikis, é uma das razões para assistir a esta produção. Além de muito expressivo, ele faz um trabalho na medida, tornando o personagem dele bastante crível. Apesar de David agir como um idiota boa parte do tempo, ele tem carisma e, por isso, provoca empatia. Também gostei do trabalho de Jennifer Aniston, que também faz um trabalho em que dá pra gente acreditar no que vê. E, não tenho dúvidas, ela fará a alegria do público masculino. Afinal, aparece em mais de uma sequência dando um show com seu corpão. 🙂

Para um filme assim funcionar, os atores são fundamentais. Além dos adultos da história, os jovens que fazem parceria com Sudeikis e Aniston também se saem muito bem. Mesmo sem grande invenção no estilo, a direção de Rawson Marshall Thurber vai bem. Há pelo menos uma sequência interessante: aquela da chegada do pai e dos filhos dos “Millers” no aeroporto. Boa sequência, com ajuda da trilha sonora de Ludwig Göransson e Theodore Shapiro e da edição de Michael L. Sale.

E assim, com estes acertos, este filme faz rir em um par de momentos e termina bem, sem se render ao modelo de “família perfeita” – até porque seria forçar muito a barra. Além disso, o filme inteiro ironiza este modelo, assim como as famílias de norte-americanos que saem por aí de férias parecendo uns idiotas. Não é a melhor comédia de todos os tempos, mas funciona em vários momentos.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Todos os personagens principais tem histórias convincentes. Com uma exceção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, a mãe de Kenny saiu para beber com um “amigo” uma semana antes da história do filme começar e nunca mais voltou? Ou o personagem encararia deixar a casa para seguir a proposta que aparece no final do filme assim, facilmente? Ok, até dá para acreditar nesta versão. Mas me pareceu pouco convincente. Exceto se estes desaparecimentos da mãe fossem frequentes e o garoto estivesse louco para sair de casa e viu na oportunidade que surgiu a deixa perfeita. Até pode ser… Mas acho que faltou um pouco de contextualização aí.

Há tempos eu não assistia a um filme com quatro roteiristas. Não é uma prática muito comum em Hollywood.

No final desta produção, há algumas cenas de “erros de gravação”. Elas sempre valem ser vistas. E neste filme, dão a entender que os atores tiveram espaço para improvisar e que fizeram isso em vários momentos. Em alguns, claro, eram simples “pegadinhas” para aparecer nos extras. Em outros momentos, acredito que o diretor escolheu a melhor improvisação para deixar no filme.

Mais uma vez a tradução do nome original do filme para o mercado brasileiro foi lamentável. Convenhamos que Família do Bagulho é horrível, né? Melhor seria algo uma tradução literal como Nós somos os Millers ou Conheça os Millers ou sei lá. Mas Família do Bagulho é terrível.

Os atores importantes desta produção já foram citados. Mas não custa comentar o trabalho secundário de algumas pessoas relativamente conhecidas. Mark L. Young interpreta a Scottie P., o garoto que impressiona Casey no hospital e com quem ela tem um rolinho na sequência; Ken Marino faz uma ponta como Todd, que coordena o clube de strip-tease onde Rose trabalha; e Laura-Leigh interpreta a Kymberly, a novata animada do clube.

Sem dúvida uma das melhores “pegadinhas” do filme, que aparece após o término da história, é aquela com referência a Friends. Bela sacada.

Agora, uma curiosidade sobre We’re the Millers: antes de Jason Sudeikis ser confirmado para o papel principal deste filme, foram cogitados para o papel Jason Bateman, Will Arnett e Steve Buscemi. O último mesmo… achei nada a ver.

Uma outra sacada que achei muito boa foi aquela da música da “comemoração”. David é franco em dizer que nunca gostou da música que está tocando, nem quando ela foi um sucesso. Boa! 🙂 Mas eu estou com o restante dos Millers, acho a música bacaninha. Não lembrava de quem era. E para quem também quer lembrar, informo: trata-se de Waterfalls, de TLC. A trilha é bem diversa, mas vale destacar ainda South of The Border (Down Mexico Way), de Frank Sinatra; Shakey Ground, de Beck; Sweet Emotion, do Aerosmith; e I’ll Be There For You, de The Rembrandts.

We’re the Millers estreou no dia 3 de agosto no desconhecido Traverse City Film Festival. Depois, passou também pelo festival de Locarno. Mas, até o momento, não ganhou nenhum prêmio.

Esta produção foi totalmente rodada nos Estados Unidos, nas cidades de Wilmington, na Carolina do Norte, e Santa Fe, no Novo México. Lembrando que esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

Da parte técnica do filme, acredito que já comentei os pontos principais. O roteiro funciona bem, com algumas boas sacadas, mas poderia ter um pouquinho mais de inovação. Alguma outra reviravolta na história ou uma “moral” menos óbvia seria interessante. Claro que é bonitinho pensar que “nós escolhemos a nossa própria família”, e que ela é importante para qualquer pessoa. Mas a condução da história foi um pouco morna demais. Além do roteiro, a direção é competente, mas sem grandes invenções. A trilha sonora funciona, assim como a edição. E isso é tudo.

Este é apenas o terceiro longa do diretor Rawson Marshall Thurber. A primeira produção com a assinatura dele foi a comédia Dodgeball: A True Underdog Story, de 2004, que tem a nota 6,6 segundo a avaliação dos usuários do IMDb. E a segunda, The Mysteries of Pittsburgh, de 2008, com nota 5,3 no mesmo site.

Bacana ver Ed Helms em ação, mesmo que ele esteja em um papel secundário. Fiquei fã do ator não por ele estar em The Hangover, mas pelo trabalho na excelente série The Office, versão dos EUA.

Este filme, por cair tão bem no gosto do norte-americano, está sendo um grande sucesso no país. We’re the Millers teria custado cerca de US$ 70 milhões e faturado, até hoje, dia 22 de setembro, quase US$ 138,2 milhões apenas nos Estados Unidos, segundo o site Box Office. Nos demais mercados em que já estreou, a produção teria acumulado mais US$ 209,4 milhões. Um baita êxito comercial, pois.

We’re the Millers é destes filmes que faz sucesso entre o público, mas nem tanto entre a crítica. Uma prova disto é que os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para a produção, uma avaliação muito boa pelos padrões do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos. Eles publicaram 75 críticas negativas e 67 positivas para a produção, o que garante para We’re the Millers uma aprovação de 47% e uma nota média de 5,4.

Entre os críticos que não gostaram do filme está Cath Clarke, da Time Out. Ela escreveu (aqui o original): “Talvez Jennifer Aniston queira mostrar ao mundo o que uma dieta e o yoga feitos sete dias por semana podem fazer para uma garota. Não consigo imaginar outra explicação relativamente decente para o strip-tease desesperado do meio para o final de We’re the Millers (que não tem nada a ver com o enredo)”. Ah, vá! Acho que ela não gostou de ver Aniston tão bem… e em uma comédia, quantas coisas são colocadas sem terem todo o sentido do mundo no roteiro? Se formos exigir lógica em todas as comédias, ferrou! 🙂 Agora, concordo com ela sobre a piada sem graça e “clonada” da aranha. Eu teria tirado ela do filme.

Por outro lado, Mick La Salle, do San Francisco Chronicle, gostou do filme. Ele escreveu (aqui o original): “As comédias estão ficando cada vez mais vulgares, o que não é, necessariamente, uma coisa ruim. (… We’re the Millers) passa a comédia e tem algo estranho em seu núcleo – um cinismo profundo sobre a família e, ao mesmo tempo, um desejo de família, os dois ao mesmo tempo. Mas o roteiro é demais uma colcha de retalhos para expressar qualquer coisa profunda ou inconsciente”. Tenho que concordar com ele. De fato, We’re the Millers tem este flerte, mas que não prossegue. Possivelmente o problema para o filme ir além é ter tantos roteiristas.

Esta é mais uma produção dos Estados Unidos que entra na lista dos filmes que eu comento após vocês, meus bons leitores, terem escolhido este país como alvo para uma série de críticas. Inicialmente, coloquei os filmes desta “barca” e as críticas de filmes feitos no Brasil – que também foi escolhido em uma enquete aqui no site – na categoria “Sugestões de Leitores”.

Mas andei refletindo a este respeito e não achei correto. Afinal, essa categoria é para críticas de filmes que vocês indicaram diretamente. Então, para contemplar estes países que vão ganhando as enquetes aqui no blog, criei a categoria “Votações no blog”. Todos os filmes que eu comentar por causa das enquetes vão entrar nesta categoria. Aliás, lembro e estimulo vocês a votar na enquete que está aberta aqui na coluna direta do blog. Bora lá!

CONCLUSÃO: Este filme não vai mudar a sua vida e nem fazer você pensar nela. Mas alguma risada, com certeza, ele vai te dar de presente. O que mais esperar de um filme do gênero? Alguma inovação? Se possível. We’re the Millers não inova na narrativa, não tem ousadia na direção ou interpretações de tirar o fôlego. Ou seja, é uma produção mediana. Com algumas boas tiradas aqui e ali, e uma bela escalação de elenco. Se você não tiver um filme melhor para assistir, pelo menos este não é um desperdício de tempo. Poderia ser um pouco mais cínico, ou picante, mas cumpre o seu papel, com aquele humor que cai como uma luva no gosto do público dos Estados Unidos – e um pouco no nosso.