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All The Money in the World – Todo o Dinheiro do Mundo

Quanto mais uma pessoa mesquinha tem, mais ela quer ter. Alguém já disse que para um rico ser rico, ele deve realmente se importar com cada centavo. Não gastar à toa nunca. Sempre pechinchar. Mas essa ânsia por dinheiro e pelo poder derivado dele ganhou um novo significado com o sobrenome dos protagonistas de All The Money in the World. Um filme que mostra como o dinheiro destrói e não significa nenhuma grandeza, muito pelo contrário. Apesar de ser uma produção interessante, All The Money in the World está muito longe de ser um dos melhores filmes do diretor Ridley Scott.

A HISTÓRIA: Inicia afirmando que é inspirada em “acontecimentos reais”. Roma, 1973. Vemos a uma rua movimentada, cheia de carros e de pessoas, em uma sequência em preto e branco. Pouco a pouco, a câmera se aproxima de “Paolo”, que é a maneira como Paul (Charlie Plummer) se apresenta para quem pergunta o seu nome.

A imagem se enche de cores, como se Paul enchesse o ambiente de vida. Ele passa por um restaurante, por uma fonte, e chega até um grupo de prostitutas. Ela mexem com ele, mas ele não fica com nenhuma. Caminhando um pouco mais, Paul é sequestrado. Nesse momento começa o drama do neto do “homem mais rico do mundo”.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a All The Money in the World): A minha motivação principal para ver a esse filme, como estou na temporada do Oscar, foi a indicação do ator Christopher Plummer na categoria Melhor Ator Coadjuvante. Mas essa não foi a única razão.

As minhas outras motivações é que essa produção tinha a direção de Ridley Scott, um diretor que eu admiro e que eu gosto de acompanhar, e também porque ela tinha estreado no cinema em que eu sempre vou – o do Beiramar Shopping, em Florianópolis. Então, quanto tive oportunidade de assistir a essa produção, o que ocorreu apenas nessa semana, eu fui lá conferir All The Money in the World.

O que dizer sobre essa produção? Ela até começa bem, com uma reflexão do protagonista, John Paul Getty III, interpretado por Charlie Plummer, sobre a história do avô, J. Paul Getty (Christopher Plummer). Honestamente? Aquela introdução do filme é a melhor parte da história. Como quando Getty III diz que, apesar da família dele parecer com qualquer um de nós – ou seja, ser feita de carne e osso, mortal como qualquer outro -, eles só pareciam ser como qualquer outra pessoa. Porque eles eram feito de um “outro elemento”.

A questão fundamental nesse filme é que temos um sujeito que conquistou “todo o dinheiro do mundo” mas que não sabe abrir mão de nada do que possui. Ou do que acredita que possui. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Quando sequestram um de seus netos, Getty não pensa em momento algum em pagar o resgate – ao menos na fase inicial do crime. Primeiro, porque ele acredita que se pagar o sequestro desse neto, outros sequestros virão… e a família dele não terá paz nunca mais na vida.

Aparentemente, esse pensamento não é tão absurdo. Mas conforme a “investigação” – se é que ela pode ser chamada assim – sobre o que aconteceu com o neto não avança, Getty passa a ser ainda mais pressionado pela mãe do jovem, Gail Harris (Michelle Williams) e até admite pagar o resgate, desde que ele possa deduzir aquela quantia – muito, mas muito menor do que os US$ 17 milhões que os sequestradores pediram originalmente – do Imposto de Renda.

Ou seja, no fundo, ele não estava “desembolsando” nada para resgatar o neto, apenas dando uma quantia de dinheiro que obrigatoriamente teria outra finalidade – o pagamento de impostos. Conforme o roteiro de David Scarpa, baseado no livro de John Pearson, avança, vemos como Getty lida com o dinheiro. Ele nunca perde um centavo. Muito pelo contrário. Vive gastando em obras de arte caras, mas nunca fecha um negócio sem pechinchar bem antes.

Ele não sabe perder e não sabe ceder. Está acostumado a multiplicar a sua fortuna e tem toda a atenção do mundo para a cotação da bolsa de valores – mas, aparentemente, tempo algum para relações verdadeiras. Vemos Getty em poucas interações com pessoas da família – e, estranhamente, apesar dele ter tido algumas esposas, filhos e netos, não vemos mais ninguém da família dele. Parece que ele vive de forma bastante solitária – ao menos segundo o filme.

É uma pena que a história não seja realmente bem desenvolvida. Temos um “ir e vir” no tempo na parte inicial do filme para explicar um pouco da origem da fortuna dos Getty e também a relação “carinhosa” entre Getty III e o seu avô – assim como a de Getty com o filho e a ex-nora. Acho que All The Money in the World até poderia ser mais interessante se o roteiro tivesse explorado um pouco mais a história dos personagens e as suas relações.

Isso acontece só no começo, e é uma pena. Depois, essa produção abraça a velha premissa do filme de “ação”, com toques de suspense e de filme policial para contar o desenrolar do sequestro de Getty III. Grande parte daquele desenrolar da ação é previsível, incluindo na previsibilidade a corrupção policial, que vivia “nas mãos” da máfia italiana, e a resistência do “homem mais rico do mundo” de perder qualquer dinheiro com o resgate de um de seus 14 netos.

Achei o roteiro bastante fraco e previsível. Como eu disse, Scarpa perdeu uma boa oportunidade de explorar melhor as características de cada personagem e as relações que eles tinham entre si. No final do filme, temos uma questão em que pensar. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quando Getty III é resgatado, simultaneamente, o seu avô morre em casa “devaneando” e abraçado em uma de suas obras de arte. Quem assume a administração da fortuna dele, porque os herdeiros ainda são menores de idade, é Gail Harris.

Naquele momento, Gail descobre que Getty, na verdade, tinha colocado algumas regras na administração dos seus bens. Em teoria, ele não poderia gastar o dinheiro que tinha, só podia aplicá-lo em algo que fizesse aquele dinheiro ser multiplicado. Por isso ele investia tanto em obras de arte.

Mas aí, duas questões acabam não sendo explicadas na produção quando Oswald Hinge (Timothy Hutton) comenta isso com Gail: primeiro, essa regra de “não gastar, apenas multiplicar a fortuna” deveria ter limites, até porque as diversas propriedades de Getty exigiam um custo fixo, e ele próprio tinha as suas necessidades de consumo; depois, Getty acabou enviando mais do que o US$ 1 milhão que poderia deduzir do Imposto de Renda para pagar o resgate do neto.

Ainda que não fosse muito a mais, era mais do que ele poderia deduzir do Imposto de Renda… em teoria, ele estava gastando e não aplicando o dinheiro que tinha. Como ele conseguiu fazer isso se ele tinha que “seguir” aquela regra de não gastar? E afinal, se ele era bilionário, foi ele que colocou essa regra… ele também não poderia derrubá-la? Achei essa questão muito mal explicada no filme – ela tenta justificar os atos de Getty, mas me pareceu um bocado sem sentido.

Enfim, All The Money in the World cai no lugar-comum e um bocado previsível de que o dinheiro não traz felicidade e muito menos a proximidade ou a segurança das pessoas que você ama. Alguém como Getty, que é apegada demais ao seu dinheiro e tem pouco – ou nenhum – interesse nas pessoas, mesmo que elas sejam da família, vive uma vida mesquinha e que, afinal, o levou a que? A uma vida de cobiça, de contar dinheiro, ignorar pessoas e viver sozinho.

Triste existência. Se o dinheiro existe para algo, é para dar boas oportunidades para as pessoas. Simplesmente ser acumulado ou multiplicado não leva a nada de bom. Muito pelo contrário. All The Money in the World fala sobre isso de uma forma um tanto tediosa. Apesar de bem conduzido e de ter boas atuações do elenco, o filme carece de um roteiro melhor e de um sentido de ser menos óbvio e pobre. Como eu disse, está longe de ser um dos melhores trabalhos do diretor Ridley Scott. Espero que ele tenha mais sorte e melhor gosto da próxima vez.

Se pensarmos no desfecho da história, o mérito maior pela sobrevivência e resgate de Getty III não foi da mãe dele, do “pagamento” autorizado pelo avô ou do trabalho do ex-espião Fletcher Chase (Mark Wahlberg). O grande responsável pela sobrevivência do rapaz acabou sendo o único sequestrador que se manteve junto dele até o final, Cinquanta (Romain Duris). Ele se compadeceu do rapaz, provavelmente pensando nele como um filho, e acabou ajudando ele sempre que possível.

Ou seja, alguns bandidos são mais bonzinhos e bacanas do que muitos ricaços. Seria essa a filosofia “subversiva” dos realizadores de All The Money in the World? 😉 Claro, há pessoas boas em todas as partes – e cretinos também. Então não acho impossível um sequestrador italiano nos anos 1970 se mostrar solidário ao rapaz “sensível”, quieto e “comportado” que foi sequestrado. Impossível não é, apenas improvável.

Assim como um “ex-espião” e principal responsável pela segurança de um ricaço como Getty ser tão pouco eficaz como Chase se revela nessa produção, também parece um tanto “forçado”. Mas sim, ele nunca impede que a polícia italiana troque os pés pelas mãos ou consegue, de fato, investigar algo com eficiência para chegar no paradeiro de Paul. A única utilidade de Chase parece ser mesmo apoiar Gail, porque nem ele e nem a polícia italiana consegue chegar no paradeiro do sequestrado antes dos bandidos jogarem todos os seus dados.

Além de não ser muito bem desenvolvido, o roteiro de All The Money in the World mostra essas características um pouco difíceis de acreditar na prática. E vocês sabem, não é porque um filme diz que é “inspirado em acontecimentos reais” que ele traz, realmente, grande fidelidade aos fatos. Tanto isso é verdade que All The Money in the World mostra Getty morrendo na mesma noite em que o neto é resgatado, e isso não aconteceu. Getty foi morrer três anos depois daqueles fatos, ou seja, em 1976. Antes, ele recusou-se a receber uma ligação de agradecimento do neto.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não tenho nada contra filmes que “vão e vem” na linha temporal para contar uma história. Mas achei que as viagens no tempo de All The Money in the World foram feitas de forma muito rápida, um tanto “intempestiva” demais no início do filme.

Saímos de 1973, quando o sequestro de Paul aconteceu, para voltar para 1964, em Nova York, quando os pais de Paul decidem dar uma cartada para se aproximarem do patriarca bilionário e, por um rápido momento, para a década de 1940, quando Getty começa a fazer a sua fortuna ao explorar o petróleo na Arábia Saudita. Esses retorno no tempo, volto a dizer, muito rápidos. Facilmente eles poderiam ter sido explorados melhor e toda a historinha dos sequestro ter sido um bocado resumida – até porque, convenhamos, ela não tem nada demais.

Ridley Scott entende muito bem do seu ofício. Então ele faz um bom trabalho na condução dessa história. Mas ele não faz nada além do esperado. Para mim, o ponto fraco mesmo é o roteiro de David Scarpa. Entre os aspectos técnicos do filme, talvez a direção de fotografia de Dariusz Wolski é o que se destaque positivamente. Achei a trilha sonora de Daniel Pemberton um tanto dramática demais. Outros aspectos que vale citar: a edição de Claire Simpson; o design de produção de Arthur Max; a decoração de set de Letizia Santucci; e os figurinos de Janty Yates.

O personagem de Getty é um clássico da “vida real”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele nasceu para fazer dinheiro e fazer negócios. Para tirar o melhor proveito de cada situação. Ele não nasceu para ter uma família. Ainda assim, como diz o neto dele que foi sequestrado, Getty queria fazer uma “dinastia”. Para isso, claro, ele precisava ter herdeiros. Mas isso também fazia parte do orgulho dele.

Getty queria ser reconhecido por ser o mais rico – ou um dos mais ricos – do mundo e queria que os seus herdeiros seguissem com o sobrenome. Mas ele, de fato, parecia não se importar com ninguém. Qual é o sentido de tudo isso, afinal de contas? Nenhum, é claro. Não faz sentido.

O que falar do elenco de All The Money in the World? Até eles – a maioria, ao menos – parecem não acreditar muito na história do filme. Os destaques positivos são mesmo Christopher Plummer e Michelle Williams. Ambos fazem um trabalho em que você acredita no que eles estão apresentando. Outros nomes já estão um bocado “sem sal” e/ou um tanto robóticos. Esse é o caso de Charlie Plummer e de Mark Wahlberg. Romain Duris está bem como Cinquanta, mas o seu personagem parece um tanto exagerado…

Os demais atores envolvidos no projeto realmente tem uma importância muito menor. Todos estão razoáveis, a meu ver. Vale comentar o trabalho de Timothy Hutton como Oswald Hinge, advogado de Getty; Charlie Shotwell como John Paul Getty III aos sete anos de idade; Andrew Buchan como John Paul Getty II, pai do jovem sequestrado; Marco Leonardi como Mammoliti, o mafioso que “compra” Paul após os sequestradores originais não conseguirem avançar com a missão de receber o resgate; Giuseppe Bonifati como Giovanni Iacovoni, advogado de Gail; Nicolas Vaporidis como Il Tamia “Chipmunk”, um dos sequestradores – o primeiro a morrer; e Andrea Piedimonte Bodini como Corvo, outro participante do sequestro.

All The Money in the World estreou no dia 18 de dezembro de 2017 em première em Los Angeles. O filme não participou de nenhum festival. Estreou no Brasil no dia 1º de fevereiro de 2018.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Como vocês devem saber, Hollywood passa por uma saudável “devassa” das práticas ignóbeis de alguns “figurões” da indústria cinematográfica que usavam o seu poder para abusar/forçar relações com mulheres e homens que fazem parte do cinema – especialmente atrizes e atores. Um dos nomes envolvidos nesses escândalos foi o de Kevin Spacey, que passou a ser “banido” de eventos e produções. Ele tinha feito o papel de Getty, mas acabou sendo cortado do filme e substituído por Plummer.

Admito que no início do filme, especialmente, fiquei imaginando Spacey no papel de Getty. Mas isso foi só no início, porque o belo trabalho de Plummer logo me fez pensar nele e prestar atenção em sua interpretação – a partir daí, esqueci totalmente de Spacey. Na boa? Com todo o respeito ao que ele já fez, mas ele não faz falta não.

As refilmagens das cenas de Getty com Plummer demoraram oito dia para serem feitas e custaram US$ 10 milhões. Esse trabalho significou também o retorno de Michelle Williams e Mark Wahlberg para Roma, para que eles pudessem contracenar com Plummer, no feriado de Ação de Graças de 2017.

A Sony e a equipe de produção do filme decidiram, por unanimidade, substituir Spacey por Plummer quando faltava pouco mais de um mês para a estreia da produção. Ou seja, tiveram que correr para fazer a troca, mas certamente foi a escolha certa a se fazer. Spacey se queimou, aparentemente, para sempre na indústria do cinema.

Plummer disse que estava preparado para fazer Getty depois que Spacey foi retirado do projeto porque ele tinha sido considerado, antes, para o papel e, por isso, conhecia os roteiros. Além disso, Plummer conheceu pessoalmente Getty, frequentando algumas de suas festas promovidas em Londres nos anos 1960.

Angelina Jolie foi a primeira atriz convidada para fazer Gail Harris, mas ela recusou o papel. Depois, Natalie Portman chegou a ser anunciada como a atriz que faria esse papel, mas ela acabou pulando fora do projeto por causa da sua segunda gravidez. Foi aí que entrou em cena Michelle Williams.

Ainda que Christopher e Charlie tenham o mesmo sobrenome, Plummer, eles não são parentes. Bom para Christopher Plummer, porque achei Charlie muito, muito fraquinho.

Além do fato que eu citei sobre a morte de Getty, o filme tem outras “liberdades poéticas” consideráveis. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No filme, o pai de Paul não se envolve nas negociações para resgatar o filho. Mas não foi isso que aconteceu na vida real, onde ele insistiu com o pai para pagar o resgate e participou das negociações – não foi apenas Gail que fez isso. Depois, Paul foi espancado e torturado com bastante frequência no cativeiro – o que o filme não mostra. Após o fim do sequestro, Paul foi encontrado na beira de uma estrada por um motorista de caminhão – ou seja, não houve nenhuma perseguição dos bandidos e da polícia em uma vila italiana. Esses aspectos, assim como a morte de Getty, foram mudados no filme e, para o meu gosto, sem muita razão de ser.

All The Money in the World foi indicado para nove prêmios, mas não ganhou nenhum até agora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 149 textos positivos e 44 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média 7. No fim, sem querer, acabei acompanhando tanto a votação do público quanto da crítica – juro que eu dei a minha nota antes de ver essas outras avaliações.

All The Money in the World faturou US$ 24, 9 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 21,3 milhões nos outros países em que estreou até o dia 15 de fevereiro. Ou seja, no total, fez pouco menos de US$ 46,2 milhões – um valor relativamente baixo, especialmente porque o filme deve ter custado muito mais que isso.

Para quem ficou interessado em saber mais sobre os Getty, acho que vale dar uma olhadela nessa matéria do G1 que tratou da morte de John Paul Getty III em 2011 e esse resumão da trajetória de Getty disponível na Wikipédia.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, ele atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog – quando vocês me pediram para comentar filmes desse país.

CONCLUSÃO: Antigamente, quando eu dava uma nota 7 para um filme, isso queria dizer que eu não tinha gostado muito do que eu tinha visto. Hoje, a nota 7 representa exatamente o que ela quer dizer quando estamos no colégio. Ou seja, sim, o filme tem méritos para “passar de ano”. Mas não, ele não está acima da média ou mesmo apresenta algum grande diferencial. É apenas mediano. Esse é bem o caso de All The Money in the World. Sim, os atores estão bem.

Viajamos um bocado para cá e para lá porque a história exige isso. Temos uma bela reflexão sobre mesquinharia e sobre o quanto uma pessoa abastada pode ser pobre de espírito. Mas isso é tudo. Nada demais no “reino da Inglaterra”. Você já viu a filmes que tratam sobre a falta de noção e de generosidade dos mais ricos. Essa história, apesar de não ser muito interessante ou surpreendente, ganha uns pontos por ser baseada em fatos reais. Mas isso é tudo. Um filme mediano, com bons atores, mas que não vai lhe agregar nada, realmente. Há opções bem melhores no mercado. Mas se você gosta do diretor ou dos atores, não vai sofrer ao assisti-lo.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Honestamente, esse filme não tem chance alguma na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. All The Money in the World está concorrendo apenas na categoria de Melhor Ator Coadjuvante. De fato, Christopher Plummer é um dos elementos de destaque da produção. Mas ele não tem chances contra o favoritíssimo Sam Rockwell, de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (com crítica nesse link).

De fato, para mim, os melhores atores coadjuvantes desse ano, ao menos entre os filmes que estão concorrendo ao Oscar, são Sam Rockwell e Richard Jenkins (de The Shape of Water, comentado por aqui). Mas deve ser o primeiro a ganhar o prêmio – até porque ele tem “papado” tudo nessa temporada, inclusive o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild Awards. Ou seja, favoritíssimo. Plummer corre totalmente por fora e seria um pouco uma zebra se ele levasse.

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Captain Fantastic – Capitão Fantástico

Uma história para dar bastante pano para manga. Na verdade, algumas teses poderiam ser escritas sobre Captain Fantastic. Mas eu vou me eximir desta tarefa e fazer apenas alguns comentários sobre o filme. Com um roteiro corajoso, que leva uma ideia até o extremo em alguns momentos ao mesmo tempo em que nos apresenta uma proposta bastante realista sobre um conceito, este filme é uma aula de cinema. Primeiro, pelo roteiro. Depois, pelo elenco escolhido a dedo e com ótimo desempenho e, finalmente, com algumas mensagens que a produção deixa no ar.

A HISTÓRIA: Uma imensa e linda floresta com belas árvores. Em meio à mata, vemos um cervo. Ele está tranquilo, perto de um riacho. O animal se alimenta de flores. Ele olha para um lado e vemos a uma pessoa camuflada. O cervo não se assusta. Bo (George MacKay) espera ele chegar perto e ataca. Ele corta a garganta do animal. Lentamente os irmãos dele chegam perto, e Ben (Viggo Mortensen) marca o filho mais velho com sangue e lhe dá uma parte do animal para comer. Esse foi o rito de passagem do garoto. Em seguida, a família tira a camuflagem no riacho e leva a caça para casa. Todos sabem o que fazer na sequência. A família vive em meio à floresta e tem o seu próprio modo de vida alternativo à civilização.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Captain Fantastic): Uma característica importante para assistir a este filme é desarmar-se. Deixar em segundo plano as suas opiniões, crenças e valores e acompanhar essa história e seus argumentos sem julgar. Ben e os seus filhos tem uma maneira de encarar a vida e a realidade muito diferente da maioria.

Alguns podem achar a história utópica, ou exagerada. Sem dúvida a forma de pensar de Ben e dos filhos é utópica. Eles acreditam em uma sociedade diferente da que os cerca e daquela que nos rodeia. Captain Fantastic também é um pouco exagerado, sem dúvida. O roteirista e diretor Matt Ross exagera em algumas cores para justamente comprovar os seus argumentos. Um recurso bem conhecido na literatura e nas artes e um tanto em “desuso” no cinema, que anda bastante padronizado.

Não vou mentir que alguns exageros da história me pareceram um tanto desnecessários. A forma com que Ben tenta tocar a vida de forma “normal” após a perda da esposa e mãe de seus filhos me pareceu um tanto exagerada. Certo que ele parecia estar um pouco em choque também e que era um grande defensor do estilo “sobrevivência”, mas me pareceu um pouco forçada a frieza dele tanto na hora de contar para os filhos sobre a morte da mãe deles quanto o episódio seguinte de treinamento na montanha.

Também achei um tanto infantil a sequência da “missão libertar comida”, que nada mais foi do que roubar alimentos de um supermercado. Ora, se a filosofia de Ben e da esposa era criar os filhos tendo como base a verdade acima de tudo, parece um tanto incoerente ensinar para eles a manipulação de um ataque cardíaco fictício para cometer um crime, não? (sem contar a sequência do cemitério, que por mais que fosse cheia de “boas intenções”, novamente se trata de um crime e de um grande desrespeito aos pais da mãe dos garotos). Mas ok, Ross exagera nas tintas para mostrar uma família anti-sistema, alternativa ao extremo.

Entendo as intenções do diretor e roteirista, mas só acho algumas cenas um tanto “pesadas” demais. Ver crianças, algumas inclusive pequenas, agindo em conjunto para cometer crimes não me caiu bem. Descontada esta parte, acho bacana a forma com que Captain Fantastic mostra uma realidade possível de uma família que resolve apostar em uma forma alternativa de viver a vida. A exemplo de Into the Wild (comentado aqui), sempre é bacana ver um filme que questiona a realidade de “piloto-automático” e consumismo em que vivemos.

Mas, ainda que pareça bonita a ideia de procurar uma sociedade alternativa, não acredito que alguém se realize sozinho ou de forma isolada. Então ok, Ben e a esposa Leslie (Trin Miller) tentaram preparar os filhos da melhor forma possível. Conseguiram ensinar para eles não apenas técnica de sobrevivência, de luta, o valor de conhecer a origem do que nos alimenta e a pensar por sua própria conta e de argumentar cada pensamento e teoria, mas não ensinaram para eles a importância de viver em um coletivo. Acredito que a gente só aprenda para valer no contato com o outro, com o estranho e o diferente, e não vivendo em uma bolha e na realidade que nos parece mais conveniente.

De forma crítica o filme mostra a realidade das cidades e o seu consumismo e padrão de vida sem reflexão. As pessoas se alimentam sem nenhum contato com a origem do alimento e estão mais conectadas com os eletrônicos do que com o raciocínio lógico, a argumentação e o conhecimento. Esse é um extremo que não serve. E o extremo da família de Ben, que vê o mundo apenas de uma forma e sem contato com o diferente, também não serve.

O bacana deste filme é que ele vai expondo os seus argumentos de forma linear e crescente, com algumas surpresas no caminho, e termina mostrando que os extremos não deveriam nos servir. Tanto que no final Ben cede um pouco ao estilo de vida que eles vinham levando e percebe a importância de não isolar os filhos na educação que ele acredita ser certa.

Eles precisam ser integrados à sociedade e é isso que acontece. Certamente eles estarão muito bem preparados para enfrentar a vida pensando por conta própria, mas agora mais abertos a aprender também com os outros. Porque não basta apostar em uma forma diferente de enxergar o mundo e ensinar literatura e música de qualidade para os seus filhos. Tão importante quanto é ensiná-los a respeitar os outros, especialmente quem pensa diferente. O equilíbrio sempre é a resposta.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro e a direção de Matt Ross são exemplares. Especialmente o roteiro, que é inteligente e que exagera algumas tintas de forma proposital. Mas, descontados os pontos que eu já tratei antes, achei o trabalho dele exemplar. Soube apresentar essa história com muita competência e, o mais importante, não apenas com ótimas linhas de roteiro, mas valorizando o trabalho de cada ator.

Aliás, o elenco é outro ponto forte da produção. Viggo Mortensen lidera o grupo por ser o intérprete mais experiente em cena na maior parte do tempo, mas todos estão ótimos. Mortensen mereceu a indicação ao Oscar de Melhor Ator, mas acho que George MacKay merecia, também, uma indicação como Melhor Ator Coadjuvante. Ele realmente é um dos destaques desta produção.

Além deles, vale citar os outros atores que compõem a família e que se saem muito bem: Samantha Isler como Kielyr; Annalise Basso como Vespyr; Nicholas Hamilton como Rellian, o filho que se rebela contra o pai; Shree Crooks como a esperta Zaja; e Charlie Shotwell como Nai, uma fofa. A despedida da família de Leslie, bem perto do fim da produção, com as irmãs Kielyr e Vespyr soltando a voz, é um dos momentos mais especiais e bonitos do filme. Todos esses atores que interpretam os filhos de Ben e Leslie estão incríveis.

Completando o elenco, mas em papéis menores, estão Kathryn Hahn como Harper, irmã de Ben; Steve Zahn como Dave, marido de Harper; Elijah Stevenson como Justin, um dos filhos de Harper e Dave; Teddy Van Ee como Jackson, o outro filho do casal; Erin Moriarty como Claire, a primeira garota a beijar Bo; Missi Pyle em uma super ponta como Ellen, mãe de Claire; Frank Langella como Jack, pai de Leslie; e Ann Dowd como Abigail, mãe de Leslie.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Stéphane Fontaine; da trilha sonora bem pontual mas também bem bacana de Alex Somers; da edição cuidadosa de Joseph Krings; dos figurinos de Courtney Hoffman; do design de produção de Russell Barnes; da direção de arte de Erick Donaldson; e da decoração de set Tania Kupczak e Susan Magestro.

Captain Fantastic fez quase US$ 5,9 milhões nos Estados Unidos. É uma bilheteria baixa, mas não é um resultado ruim para um filme tão alternativo. Sem dúvida alguma este é um deste filmes que só vai ter público na propaganda boca-a-boca e, provavelmente, entre as pessoas com cabeça “mais aberta”. Afinal, esta não é uma produção simples. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez quase US$ 3 milhões.

Algo bacana neste filme é que os argumentos para defender a proposta de Ben e de Leslie estão certos, assim como os argumentos que criticam o que os dois fizeram. A reta final da produção demonstrou isso, e a saída equilibrada foi sem dúvida um dos grandes acertos de Matt Ross.

Captain Fantastic é o segundo longa-metragem dirigido por Matt Ross. Mais conhecido por seu trabalho como ator, Ross estreou na direção em 1997 com o curta The Language of Love. Depois, ele voltaria a dirigir um curta apenas em 2009, Human Resources. O primeiro longa viria três anos depois, 28 Hotel Rooms. Acho que ele tem um trabalho bastante promissor. Tem talento para escrever e um feeling importante na direção.

Esta produção, 100% dos Estados Unidos, conquistou 12 prêmios e foi indicada a outros 40, inclusive a indicação de Viggo Mortensen na categoria Melhor Ator do Oscar 2017. Sim, ainda estou na onda do Oscar. 😉 Mas já estou atenta ao que está nos cinemas e estreando nas próximas semanas para acompanhar o que de melhor teremos pela frente neste ano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 152 críticas positivas e 32 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 83% e uma nota média de 7,1.

Como este filme é 100% americano, ele entra na categoria de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Captain Fantastic, para mim, leva um pouco além a ideia de Into the Wild. Esta produção leva um pouco além a ideia de sociedade alternativa, mostrando de maneira bastante cruel, em alguns momentos, como é para uma família viver de forma totalmente independente. O bacana da produção é que, apesar dela exagerar em algumas tintas volta e meia, ela tenta ser franca com os conceitos e com a realidade e, no final das contas, busca o que é o ideal da vida: o equilíbrio. A saída é não ser totalmente alternativos, a ponto de viver isolado da sociedade, e nem seguir o pensamento mediano comum. Bem desenvolvido, é um filme que merece ser visto e discutido, certamente.