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Molly’s Game – A Grande Jogada

Um roteirista competente e que você gosta, protagonistas idem e uma indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Molly’s Game tinha bons predicados para me atrair para o cinema. Mas, francamente, o filme consegue alimentar mais expectativas do que realmente entregar algo de qualidade. Longo demais, arrastado demais, esse filme só acerta mesmo no seu começo. E olha lá. Eu diria que Molly’s Game acerta na edição ligeira e em algumas linhas interessantes do roteiro no início mas, depois, ele se mostra muito mais vazio, arrastado e forçado do que seria desejado.

A HISTÓRIA: Uma pessoa desce uma colina cheia de neve munida de esquis. A narradora, Molly Bloom (Jessica Chastain) comenta que uma pesquisa feita com 300 atletas perguntou para eles o que de pior pode acontecer nos esportes? As respostas foram variadas, mas uma delas apontava para ficar em 4º lugar nas Olimpíadas. Molly afirma que esta é uma história real, mas que todos os nomes, exceto o dela, foram alterados. Por motivo que logo vamos entender. A própria Molly nos conta a sua história nesse filme, começando no momento em que ela tentou se classificar para as Olimpíadas de Inverno pela equipe americana.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Molly’s Game): Eu gosto dos Jogos Olímpicos. Muito mais dos tradicionais do que das Olimpíadas de Inverno. Mas, na verdade, gosto de todos os Jogos. Por isso, achei interessante aquele começo de Molly’s Game. Até porque aquele começo tem um roteiro ágil e uma edição das cenas muito competente. Mas depois daquele começo, esse filme se revela bastante irregular.

Ok, interessante a história de uma garota que poderia ter sido uma desportista brilhante, ou uma advogada talentosa, mas que acabou cedendo para o dinheiro fácil e que caiu em uma cilada que ela mesma armou para si. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No fim das contas, apesar de tanto ir e vir na história e de uma tentativa clara do roteirista e diretor Aaron Sorkin de fazer um filme acima da média, Molly’s Game nada mais é do que uma produção sobre as escolhas que uma pessoa faz na sua vida e o resultado que estas escolhas tem na sua história.

Além disso, o filme tem algumas outras questões, como a ideia defendida pela sociedade americana de que os Estados Unidos é um país com oportunidade para todos – seja dentro ou fora da lei -; a relação entre pais e filhos e o alto nível de cobrança que os primeiros podem colocar nos segundos e os efeitos disso; assim como a ideia de que até os criminosos tem a sua “ética” e código de conduta.

Ou seja, nenhuma ideia nova sob o sol. Talvez a única parte mais interessante desse filme seja a forma com que Molly’s Game mostra como a Justiça americana – e de qualquer outro país – tenta pressionar e punir alguns criminosos “menores” para conseguir pegar os peixes maiores. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Sim, Molly Bloom cometeu um crime, mas o FBI que a investigou e o governo americano que a processou estavam mais interessados no que ela sabia, nas pessoas que participavam da jogatina, do que realmente no crime que ela cometeu.

Informação é poder. Conhecer pessoas importantes e o que elas falam e sobre o que elas tratam era o real poder de Molly e o que interessava para quem a processou. Mas ela se manteve firme e não entregou ninguém – apenas pessoas que já tinham sido entregues antes por Brad (Brian d’Arcy James). Segundo uma linha do filme, ela estava preservando o próprio nome, a única coisa lhe restou e que lhe importava.

Agora, vamos falar dos pontos que me incomodaram nesse filme. Primeiro, a história se esforçar tanto em tornar uma garota como Molly como “heroína”. Até a linha da “ética” de criminosa dela me pareceu um tanto forçada. Apesar ser levemente interessante, a história dela não é, de fato, realmente surpreendente ou reveladora. Sorkin escreveu o roteiro desse filme baseado no livro escrito por Molly Bloom. Aparentemente, ela soube valorizar muito bem a própria história. E, para o meu gosto, a história dela não é tãooo interessante assim. Há outras histórias melhores por aí.

Depois, me pareceu um bocado mal desenvolvida a questão da real motivação da protagonista para ela ter feito o que fez. Em um dos raros diálogos de Jessica Chastain com Kevin Costner, que faz o pai dela, Charlie Jaffey, ele, como psicólogo, faz a filha “destrinchar” a sua história até achar as respostas para tudo que aconteceu. Possivelmente aquela é a parte mais interessante do filme, mas ela ficou restrita a um diálogo entre pai e filha. Muito pobre, a meu ver. Sorkin podia ter desenvolvido melhor a relação da protagonista do com o pai, já que este era um fator determinante. Mas não.

No lugar disso, ele gastou um grande, grande tempo mostrando as jogatinas entre ricaços e poderosos. Primeiro, em encontros orquestrado pelo chefe de Molly, Dean Keith (Jeremy Strong). Depois, nos encontros orquestrados pela própria Molly. Mesmo na segunda fase, quando ela realmente entra de cabeça no poker e passa a trabalhar com os viciados em jogo 24 horas por dia, ela não desce do salto. Está sempre bem, bonita, mesmo quando ela já está viciada em diferentes drogas. Quem realmente acredita que aquela mulher não ficou um tanto surtada tomando tantas coisas?

Esse é um dos pontos que me incomodaram em Molly’s Game. O filme acaba sendo “perfeitinho” demais. Parece que Sorkin ficou muito preocupado em render uma “homenagem” para a personagem e não quis torná-la vulnerável ou mais “humana” em momento algum. Assim, essa produção me pareceu um tanto longe da “história real” ou da vida como ela é. Outro ponto que me incomodou: o roteiro perde um longo tempo nas “negociações” e vai-não-vai entre Molly e o advogado Charlie Jaffey (Idris Elba). Realmente aquilo faz uma graaaande diferença para a história, para o filme? Acho que não.

Assim, tira um pouco daqui, explica melhor ali, simplifica acolá, Molly’s Game poderia ter, perfeitamente, 30 minutos a menos de duração. Isso teria ajudado a história e teria evitado que eu tivesse que lutar para não dormir no cinema. Olha, não cheguei a “pescar” ou a cochilar, mas que deu vontade, ah, isso deu. Filme bem mediano, para resumir. Poderia ser melhor, se fosse mais realista e desenvolvesse melhor os personagens – especialmente a relação pai e filha. Mas essa produção não faz isso, e o resultado é que ela facilmente provoca tédio e sono.

NOTA: 6,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ah sim, antes que eu me esqueça. Esse filme trata de um outro aspecto além dos que eu citei antes. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Molly’s Game aborda muito bem todo o “submundo” da jogatina ilegal nos Estados Unidos. E que está presente em vários outros países também – incluindo o Brasil. Nestes locais, as pessoas cheias de dinheiro que não sabem como gastar as suas fortunas e precisam fazer algo para sentir emoção, se entregam em longas disputas movidas à dinheiro e adrenalina. Para alguns, não importa ganhar ou perder. Interessa fazer parte de um “clube seleto” em que eles entram apenas por estarem dispostos a gastar grandes quantidades de dinheiro.

O mundo é feito destes disparates mesmo. Enquanto aquele bando de ricaços de vários países e origens gastavam milhões de dólares sem propósito algum além de algumas horas de diversão e para saciar o seu vício por jogar, quantas pessoas estão por aí morando nas ruas, pedindo trocados nas esquinas e/ou mendigando qualquer trabalho que lhes dê o que comer? O quanto Molly ou qualquer outro que vemos em cena se importa com isso? E por que mesmo a gente deveria se importar com a história deles? Sim, não dá para ignorar que eles existem. Mas acho que tem histórias mais interessantes para conhecermos e para nos inspirarmos – até porque a história de Molly não me inspira para nada.

Molly’s Game marca a estreia de Aaron Sorkin na direção. Ele é bem conhecido como roteirista. Fez a sua carreira nessa área. Inclusive ganhou um Oscar de Melhor Roteiro Adaptado em 2011, pelo roteiro de The Social Network (comentado por aqui). O que comentar sobre ele como diretor? Que ele não faz nada demais. Faz uma direção “básica”, digamos assim. Focada nos atores, na dinâmica entre eles e contando as suas histórias de forma pincelada aqui e ali. Mas nada que realmente surpreenda.

Gosto de várias pessoas que estão nesse elenco. Mas não acho que ninguém está realmente brilhante nesta produção. Até porque o roteiro não ajuda muito, não é mesmo? Com um roteiro mais ou menos, não tem como um grande ator fazer um trabalho realmente memorável. Assim, todos estão bem, mas nada que você não possa esquecer após uma semana de ter visto a esse filme.

Entre os atores que fazem parte deste elenco, vale comentar o bom trabalho – mas não excepcional, volto a dizer – de Jessica Chastain como Molly Bloom; Michael Cera como Player X, o jogador que realmente define o sucesso ou o fracasso como organizadora de partidas da protagonista; Jeremy Strong como Dean Keith, o sujeito sem noção que introduz Molly na vida do poker; Brian d’Arcy James como Brad, o cara que sempre perde mas que continua jogando; Bill Camp como Harlan Eustice, um cara talentoso no poker, mas que perde a cabeça quando começa a perder no jogo; Idris Elba em um papel super morno como o advogado Charlie Jaffey; Kevin Costner em quase uma ponta como Larry Bloom, pai de Molly; Chris O’Dowd como Douglas Downey; Graham Greene em uma super ponta como o juiz Foxman; Samantha Isler como a jovem Molly e Piper Howell como Molly aos sete anos de idade.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale destacar a edição de Alan Baumgarten, Elliot Graham e Josh Schaeffer – que realmente se mostra interessante no início do filme e, depois, cai um tanto no “lugar comum”; a trilha sonora de Daniel Pemberton; a direção de fotografia de Charlotte Bruus Christensen; o design de produção de David Wasco; a direção de arte de Brandt Gordon; a decoração de set de Patricia Larman; e os figurinos de Susan Lyall.

A única parte realmente interessante de Molly’s Game é quando Kevin Costner conversa com a filha sobre o que aconteceu com ela e sobre a sua motivação para ter chegado tão fundo no poço. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No fim das contas, segundo a análise de Larry Bloom, tudo que Molly fez se explica pelo fato dela ter descoberto, ainda criança, que o pai traía a mãe dela (interpretada por Claire Rankin). Isso é interessante. Para as pessoas perceberem como algumas decisões muito equivocadas que elas podem tomar quando adultas tem, de fato, relação com decepções, traumas e descobertas ruins que elas tiveram na infância e/ou juventude. Especialmente quando o assunto está relacionado aos pais. No caso de Molly, ela se decepcionou com o pai, que deveria ser um exemplo para ela, e, como consequência, passou a encarar os outros, incluindo a sociedade, com um bocado de cinismo (e desprezo, até). E tudo porque ela não resolveu bem a questão da traição paterna. Interessante.

Molly’s Game estreou em setembro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou de outros oito festivais. Nessa trajetória, o filme recebeu três prêmios e foi indicado a outros 41 – incluindo a indicação para o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Prêmio do Público como melhor filme dos EUA no Festival de Cinema de Mill Valley.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Dizem, nos bastidores, que existe uma grande probabilidade do Player X ser, na vida real, o ator Tobey Maguire.

Molly Bloom falou para o diretor e roteirista Aaron Sorkin que gostaria que o seu papel fosse interpretado por Jessica Chastain.

No filme, o advogado de Molly aparece lendo um dos exemplares do livro lançado por ela e que conta a sua história. Na vida real, o livro de Molly não foi publicado antes do julgamento dela ter terminado.

De acordo com Molly Bloom, a maior quantia que ela viu um jogador perder em uma noite foi de US$ 100 milhões. Esse mesmo jogador recuperou esse dinheiro no dia seguinte. Agora, vocês já pensaram uma jogatina significar prejuízo de US$ 100 milhões? Algo realmente inacreditável.

A quantidade de dinheiro que o FBI apreendeu de Molly e a multa que ela teve que pagar por fazer algo ilegal foi bem maior no filme do que na vida real.

Molly’s Game é uma coprodução dos Estados Unidos, da China e do Canadá.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 195 críticas positivas e 42 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 82% e uma nota média de 7,2. Acho que os crítico e os usuários do site IMDb realmente viram mais qualidades nessa produção do que eu. 😉

Molly’s Game tem 140 minutos de duração – ou seja, 2h20. Tranquilamente, como eu disse antes, ele poderia ter meia hora a menos. Muito longo para o meu gosto.

De acordo com o site Box Office Mojo, Molly’s Game faturou pouco mais de US$ 28,7 milhões nos Estados Unidos. Não há informações ainda sobre os outros mercados em que a produção já estreou.

Essa é a última crítica que eu publico aqui no blog antes da entrega do Oscar. Logo mais, vou começar a cobertura da premiação aqui no site. A minha expectativa é que os prêmios sejam bem espalhados. Acho que vários filmes vão levar pelo menos um ou dois Oscar’s para casa. Será bacana de ver. Muita gente sairá feliz da noite de hoje. Quem vai levar Melhor Filme? Estou entre Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (comentado por aqui); Dunkirk (com crítica neste link) e The Shape of Water (com crítica por aqui). Eu, francamente, votaria no primeiro. Mas não me surpreenderia se um dos outros dois desse uma de “zebra” e levasse o Oscar para casa.

CONCLUSÃO: Francamente, eu nunca indicaria Molly’s Game ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Se eu votasse e decidisse qualquer coisa na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, é claro. Filme um tanto pretensioso demais, essa produção sofre mesmo por ser longa, repetitiva e arrastada. Honestamente? Há muitos, mas muitos mesmo filmes melhores no mercado.

Só perca o seu tempo com essa produção se você tem uma “tara” especial pelo roteirista, pelo diretor ou por algum dos atores em cena. Do contrário, faça uma escolha melhor e assista a uma outra produção melhor acabada – nessa lista, incluo inclusive o fenômeno Black Panther, que segue nos cinemas e é uma pedida bem melhor.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Molly’s Game ter sido indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado já é um grande prêmio para Aaron Sorkin. Mas alguma chance do filme ganhar nessa categoria? Nenhuma. Concorrendo com Call Me By Your Name (comentado por aqui), The Disaster Artist, Logan (com crítica neste link) e Mudbound, Molly’s Game tem chance zero de levar a estatueta dourada para casa.

Para mim, o grande favorito nessa categoria é mesmo Call Me By Your Name. O filme merece levar o Oscar. Não assisti ainda a Mudbound e a The Disaster Artist, mas acho que depois de Call Me By Your Name, seria interessante ver Logan premiado – no caso do primeiro não ser, claro. Mas Molly’s Game não merece levar. Na verdade, como eu disse antes, nem merecia ter sido indicado. Mas o Oscar tem dessas coisas. Para mim, Molly’s Game foi indicado porque a Academia gosta de Sorkin. Nada mais.

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Captain Fantastic – Capitão Fantástico

Uma história para dar bastante pano para manga. Na verdade, algumas teses poderiam ser escritas sobre Captain Fantastic. Mas eu vou me eximir desta tarefa e fazer apenas alguns comentários sobre o filme. Com um roteiro corajoso, que leva uma ideia até o extremo em alguns momentos ao mesmo tempo em que nos apresenta uma proposta bastante realista sobre um conceito, este filme é uma aula de cinema. Primeiro, pelo roteiro. Depois, pelo elenco escolhido a dedo e com ótimo desempenho e, finalmente, com algumas mensagens que a produção deixa no ar.

A HISTÓRIA: Uma imensa e linda floresta com belas árvores. Em meio à mata, vemos um cervo. Ele está tranquilo, perto de um riacho. O animal se alimenta de flores. Ele olha para um lado e vemos a uma pessoa camuflada. O cervo não se assusta. Bo (George MacKay) espera ele chegar perto e ataca. Ele corta a garganta do animal. Lentamente os irmãos dele chegam perto, e Ben (Viggo Mortensen) marca o filho mais velho com sangue e lhe dá uma parte do animal para comer. Esse foi o rito de passagem do garoto. Em seguida, a família tira a camuflagem no riacho e leva a caça para casa. Todos sabem o que fazer na sequência. A família vive em meio à floresta e tem o seu próprio modo de vida alternativo à civilização.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Captain Fantastic): Uma característica importante para assistir a este filme é desarmar-se. Deixar em segundo plano as suas opiniões, crenças e valores e acompanhar essa história e seus argumentos sem julgar. Ben e os seus filhos tem uma maneira de encarar a vida e a realidade muito diferente da maioria.

Alguns podem achar a história utópica, ou exagerada. Sem dúvida a forma de pensar de Ben e dos filhos é utópica. Eles acreditam em uma sociedade diferente da que os cerca e daquela que nos rodeia. Captain Fantastic também é um pouco exagerado, sem dúvida. O roteirista e diretor Matt Ross exagera em algumas cores para justamente comprovar os seus argumentos. Um recurso bem conhecido na literatura e nas artes e um tanto em “desuso” no cinema, que anda bastante padronizado.

Não vou mentir que alguns exageros da história me pareceram um tanto desnecessários. A forma com que Ben tenta tocar a vida de forma “normal” após a perda da esposa e mãe de seus filhos me pareceu um tanto exagerada. Certo que ele parecia estar um pouco em choque também e que era um grande defensor do estilo “sobrevivência”, mas me pareceu um pouco forçada a frieza dele tanto na hora de contar para os filhos sobre a morte da mãe deles quanto o episódio seguinte de treinamento na montanha.

Também achei um tanto infantil a sequência da “missão libertar comida”, que nada mais foi do que roubar alimentos de um supermercado. Ora, se a filosofia de Ben e da esposa era criar os filhos tendo como base a verdade acima de tudo, parece um tanto incoerente ensinar para eles a manipulação de um ataque cardíaco fictício para cometer um crime, não? (sem contar a sequência do cemitério, que por mais que fosse cheia de “boas intenções”, novamente se trata de um crime e de um grande desrespeito aos pais da mãe dos garotos). Mas ok, Ross exagera nas tintas para mostrar uma família anti-sistema, alternativa ao extremo.

Entendo as intenções do diretor e roteirista, mas só acho algumas cenas um tanto “pesadas” demais. Ver crianças, algumas inclusive pequenas, agindo em conjunto para cometer crimes não me caiu bem. Descontada esta parte, acho bacana a forma com que Captain Fantastic mostra uma realidade possível de uma família que resolve apostar em uma forma alternativa de viver a vida. A exemplo de Into the Wild (comentado aqui), sempre é bacana ver um filme que questiona a realidade de “piloto-automático” e consumismo em que vivemos.

Mas, ainda que pareça bonita a ideia de procurar uma sociedade alternativa, não acredito que alguém se realize sozinho ou de forma isolada. Então ok, Ben e a esposa Leslie (Trin Miller) tentaram preparar os filhos da melhor forma possível. Conseguiram ensinar para eles não apenas técnica de sobrevivência, de luta, o valor de conhecer a origem do que nos alimenta e a pensar por sua própria conta e de argumentar cada pensamento e teoria, mas não ensinaram para eles a importância de viver em um coletivo. Acredito que a gente só aprenda para valer no contato com o outro, com o estranho e o diferente, e não vivendo em uma bolha e na realidade que nos parece mais conveniente.

De forma crítica o filme mostra a realidade das cidades e o seu consumismo e padrão de vida sem reflexão. As pessoas se alimentam sem nenhum contato com a origem do alimento e estão mais conectadas com os eletrônicos do que com o raciocínio lógico, a argumentação e o conhecimento. Esse é um extremo que não serve. E o extremo da família de Ben, que vê o mundo apenas de uma forma e sem contato com o diferente, também não serve.

O bacana deste filme é que ele vai expondo os seus argumentos de forma linear e crescente, com algumas surpresas no caminho, e termina mostrando que os extremos não deveriam nos servir. Tanto que no final Ben cede um pouco ao estilo de vida que eles vinham levando e percebe a importância de não isolar os filhos na educação que ele acredita ser certa.

Eles precisam ser integrados à sociedade e é isso que acontece. Certamente eles estarão muito bem preparados para enfrentar a vida pensando por conta própria, mas agora mais abertos a aprender também com os outros. Porque não basta apostar em uma forma diferente de enxergar o mundo e ensinar literatura e música de qualidade para os seus filhos. Tão importante quanto é ensiná-los a respeitar os outros, especialmente quem pensa diferente. O equilíbrio sempre é a resposta.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro e a direção de Matt Ross são exemplares. Especialmente o roteiro, que é inteligente e que exagera algumas tintas de forma proposital. Mas, descontados os pontos que eu já tratei antes, achei o trabalho dele exemplar. Soube apresentar essa história com muita competência e, o mais importante, não apenas com ótimas linhas de roteiro, mas valorizando o trabalho de cada ator.

Aliás, o elenco é outro ponto forte da produção. Viggo Mortensen lidera o grupo por ser o intérprete mais experiente em cena na maior parte do tempo, mas todos estão ótimos. Mortensen mereceu a indicação ao Oscar de Melhor Ator, mas acho que George MacKay merecia, também, uma indicação como Melhor Ator Coadjuvante. Ele realmente é um dos destaques desta produção.

Além deles, vale citar os outros atores que compõem a família e que se saem muito bem: Samantha Isler como Kielyr; Annalise Basso como Vespyr; Nicholas Hamilton como Rellian, o filho que se rebela contra o pai; Shree Crooks como a esperta Zaja; e Charlie Shotwell como Nai, uma fofa. A despedida da família de Leslie, bem perto do fim da produção, com as irmãs Kielyr e Vespyr soltando a voz, é um dos momentos mais especiais e bonitos do filme. Todos esses atores que interpretam os filhos de Ben e Leslie estão incríveis.

Completando o elenco, mas em papéis menores, estão Kathryn Hahn como Harper, irmã de Ben; Steve Zahn como Dave, marido de Harper; Elijah Stevenson como Justin, um dos filhos de Harper e Dave; Teddy Van Ee como Jackson, o outro filho do casal; Erin Moriarty como Claire, a primeira garota a beijar Bo; Missi Pyle em uma super ponta como Ellen, mãe de Claire; Frank Langella como Jack, pai de Leslie; e Ann Dowd como Abigail, mãe de Leslie.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Stéphane Fontaine; da trilha sonora bem pontual mas também bem bacana de Alex Somers; da edição cuidadosa de Joseph Krings; dos figurinos de Courtney Hoffman; do design de produção de Russell Barnes; da direção de arte de Erick Donaldson; e da decoração de set Tania Kupczak e Susan Magestro.

Captain Fantastic fez quase US$ 5,9 milhões nos Estados Unidos. É uma bilheteria baixa, mas não é um resultado ruim para um filme tão alternativo. Sem dúvida alguma este é um deste filmes que só vai ter público na propaganda boca-a-boca e, provavelmente, entre as pessoas com cabeça “mais aberta”. Afinal, esta não é uma produção simples. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez quase US$ 3 milhões.

Algo bacana neste filme é que os argumentos para defender a proposta de Ben e de Leslie estão certos, assim como os argumentos que criticam o que os dois fizeram. A reta final da produção demonstrou isso, e a saída equilibrada foi sem dúvida um dos grandes acertos de Matt Ross.

Captain Fantastic é o segundo longa-metragem dirigido por Matt Ross. Mais conhecido por seu trabalho como ator, Ross estreou na direção em 1997 com o curta The Language of Love. Depois, ele voltaria a dirigir um curta apenas em 2009, Human Resources. O primeiro longa viria três anos depois, 28 Hotel Rooms. Acho que ele tem um trabalho bastante promissor. Tem talento para escrever e um feeling importante na direção.

Esta produção, 100% dos Estados Unidos, conquistou 12 prêmios e foi indicada a outros 40, inclusive a indicação de Viggo Mortensen na categoria Melhor Ator do Oscar 2017. Sim, ainda estou na onda do Oscar. 😉 Mas já estou atenta ao que está nos cinemas e estreando nas próximas semanas para acompanhar o que de melhor teremos pela frente neste ano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 152 críticas positivas e 32 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 83% e uma nota média de 7,1.

Como este filme é 100% americano, ele entra na categoria de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Captain Fantastic, para mim, leva um pouco além a ideia de Into the Wild. Esta produção leva um pouco além a ideia de sociedade alternativa, mostrando de maneira bastante cruel, em alguns momentos, como é para uma família viver de forma totalmente independente. O bacana da produção é que, apesar dela exagerar em algumas tintas volta e meia, ela tenta ser franca com os conceitos e com a realidade e, no final das contas, busca o que é o ideal da vida: o equilíbrio. A saída é não ser totalmente alternativos, a ponto de viver isolado da sociedade, e nem seguir o pensamento mediano comum. Bem desenvolvido, é um filme que merece ser visto e discutido, certamente.