Detroit – Detroit em Rebelião

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É impressionante quando a pressão extrapola qualquer barreira e a convulsão social acontece. Para tudo nessa vida existe limite. Ao assistir a Detroit, percebemos um exemplo contundente de reação contra décadas, séculos de abusos, preconceito racial e violência. E o que impacta tanto quanto assistir ao que aconteceu nesta cidade norte-americana há 50 anos, é pensar que hoje em dia, tanto tempo depois, muito da motivação do “levante popular” continua válido. Sim, nós avançamos alguns milímetros em algumas direções, mas em outras… parece que custamos a sair do lugar.

A HISTÓRIA: Começa com uma animação que explica parte das mudanças na sociedade americana. Eles comentam, por exemplo, como houve uma grande migração antes da 1ª Guerra Mundial, com muitos negros indo da região Sul para o Norte dos Estados Unidos. Eles acabam morando nas periferias das cidades, onde começam a dividir espaço com brancos que trabalham nas fábricas.

Nos anos 1960, a tensão racial atinge o seu auge, especialmente porque os negros percebem que a ideia de igualdade de oportunidades entre eles e os brancos não passa de ilusão. A mudança então parece ser inevitável. A única questão é quando e como ela vai acontecer. A partir daí, a história mostra como a panela de pressão estoura e o que acontece a partir de então em um Detroit convulsionada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Detroit): Eu gosto muito da diretora Kathryn Bigelow. Ela é um (ainda) raro caso de diretora que conseguiu conquistar com muito talento e obstinação o seu espaço de respeito em Hollywood, um local dominado por homens na direção. Kathryn conhece muito bem o seu ofício, e a cada filme ela demonstra isso com suavidade e competência, sem apostar em pirotecnia ou em exibicionismos.

Desde que lançou o ótimo The Hurt Locker, filme comentado aqui e que garantiu para ela duas estatuetas do Oscar na prateleira – uma como Melhor Filme, já que ela foi uma das produtoras da produção, e outro como Melhor Diretora -, Kathryn parece ter abraçado temas importantes para os Estados Unidos e para boa parte do mundo. The Hurt Locker fala sobre os efeitos nocivos de uma guerra “contra o terror” que parecem um tanto invisíveis e menos óbvios.

Depois, ela nos apresentou o interessante e denso Zero Dark Thirty, comentado neste texto aqui no blog. Novamente o tema era importante, o combate ao terrorismo, os seus personagens e os seus efeitos. Ou seja, entre 2010 e 2012, Kathryn nos apresentou dois filmes marcantes, ambos caracterizados por um estilo um tanto “documentarista”. De 2012 e até agora, ela havia dirigido apenas a dois curtas. Até que em 2017 ela nos apresenta Detroit, um filme que curiosamente trata sobre conflitos, mas totalmente de outra espécie.

Desta vez os inimigos não estão fora dos Estados Unidos. O perigo, o medo, a repressão e a covardia não estão longe, mas “dentro de casa”. O estilo de direção, contudo, segue o mesmo. Kathryn dá mais uma demonstração de que entende muito de cinema ao transformar a reconstituição de fatos reais em uma narrativa que lembra a de um documentário. A câmera dela se movimenta com bastante frequência, buscando reproduzir a agitação daqueles dias de convulsão social.

O tema do filme é interessante, especialmente porque os Estados Unidos tem dificuldade, na maioria das vezes, em falar de seus próprios demônios. Com muita frequência vemos ao cinema de Hollywood tratando dos “inimigos estrangeiros”, dos “bárbaros” que precisam ser combatidos de forma heroica longe de casa. Também vemos a alguns filmes humanos, demasiados humanos, sobre conflitos e dramas pessoais – mas menos do que podemos conferir no cinema europeu.

Agora, não são tão frequentes, ao menos nas últimas duas décadas, os filmes que tratam sobre os próprios problemas criados nos Estados Unidos. Sem, existem exceções à regra. Mas, no geral, o cinema de Hollywood não gosta muito de olhar para dentro de suas fronteiras. Talvez Kathryn tenha percebido isso e tenha pensado e se perguntado, diante de uma nova onda de violência policial contra negros dentro do país e a consequente revolta que isso despertou, que tipo de história ela poderia contar?

Sim, ela poderia ter focado em algum caso recente de violência policial e de morte de negros inocentes. Mas mais forte do que contar uma história recente, ainda passível de discussões e de interpretações, foi a escolha dela por voltar atrás espantosos 50 anos e mostrar que pouco avançamos desde então. A narrativa é bem feita, e algumas cenas são de arrepiar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A primeira vítima do policial Krauss (Will Poulter), o cidadão que foi fazer compras, que corre quando vê policiais brancos armados vindo na direção dele e que é acertado pelas costas, é um grande exemplo do que acontecia na cidade convulsionada de Detroit em 1967.

Quando vemos aquela cena, maravilhosamente conduzida por Kathryn, ficamos chocados e arrepiados. E outras sequências produzem o mesmo efeito. Sim, dá para entender a revolta dos negros que vemos em cena, mas também nos perguntamos sobre como pode terminar uma situação como aquela. O caos reinante pode ter fim sem a geração de mais violência? Eu acredito que sim. Mas que nada se resolve com mais repressão e mais violência. Impressionante a cena, por exemplo, de um tanque de guerra patrulhando as ruas e disparando contra um prédio.

Detroit tem várias cenas marcantes. Estas duas que eu citei são dois bons exemplos da força a história contada pela diretora Kathryn Bigelow e com roteiro de Mark Boal. Mas… um dos problemas da produção é que ela é longa demais. Detroit tem 2h23min de duração. Hoje, mais do que antes, acho que poucos filmes merecem ter mais de 2h… a maioria poderia ter, inclusive, 1h30min de duração. Sendo assim, não. Não há necessidade de Detroit ser tão longo. Existem alguns elementos da produção que poderiam ser perfeitamente “enxugados” para tornar a narrativa mais cadenciada.

Entre várias outras sequências e fatos narrados na produção, sem dúvida o que ocupa o maior espaço no roteiro e no tempo do que vemos em tela é a sequência envolvendo o Motel Algiers em que parte dos amigos cantores do grupo The Dramatics vai se refugiar após mais uma noite tensa em Detroit. Aquele parecia ser um lugar seguro para eles ficarem até o toque de recolher passar, mas eles não sabiam que, ali, encontrariam pessoas sem noção do perigo como Carl (Jason Mitchell) que, com uma arma sem poder letal, acaba fazendo um disparo que desencadeia uma série de fatos trágicos.

Aquela sequência do motel é longa demais e parece não ter fim. A narrativa é contada em detalhes. Imagino que esta foi a intenção da diretora e do roteirista, contar os fatos minuciosamente e fazer o espectador vivenciar aquela sensação de terror sem fim. A sequência provoca angústia e indignação. Então sim, os realizadores conseguiram o efeito desejado. Mas, da minha parte, de quem gosta de uma narrativa menos redundante, eu preferia um pouco menos de repetição nesta parte do filme.

Cada um dos seis garotos e garotas que é torturado pelos policiais passa pelo mesmo “modus operandi”. Eles são questionados de forma violenta e ameaçadora quando estão em grupo e, depois, levados individualmente para um cômodo do motel para passarem por uma simulação de morte. (SPOILER – não leia se… bem, você já sabe). O problema é que um deles realmente é morto por um policial menos “ligado” na “psicologia” que está sendo usada naquela noite. Mas este não é o problema principal.

O policial Krauss, que realmente não se acha racista e acredita que apenas está “fazendo o seu trabalho”, não pensa duas vezes em matar duas pessoas desarmadas naquela noite. Logo na chegada dos policiais, ele atira para matar – e mais uma vez pelas costas – Carl. Depois, e esta é a uma das sequências mais cruéis do filme, ele mata o jovem Fred (Jacob Latimore), o último a ser solto e o único que não concorda em ficar quieto frente ao absurdo que ele presenciou. Krauss mata ele como se eliminasse a um inseto. É de arrepiar.

Então sim, Detroit tem ótimas sequências e uma narrativa franca que faz qualquer um ficar perplexo com a força que um absurdo como o racismo pode tomar tendo as condições certas para existir e se proliferar. Por outro lado, o filme tem algumas sequências repetitivas e outras que não agregam grande valor para a história – como o “chá de cadeira” que Krauss leva após fazer a sua primeira vítima, algumas sequências dele com outros policiais e, principalmente, grandes sequências que mostram The Dramatics e aquela cena musical da época.

Para mim, as melhores sequências do filme são aquelas que mostram a cidade de Detroit convulsionada, assim como a impactante ação da polícia e do Exército para reprimir o que está acontecendo. Também são marcantes as cenas dos crimes cometidos pelos policiais – representados, neste filme, pela figura de Krauss. Mas esta produção tem alguns pequenos defeitos que incomodam um pouco.

Para começar, não achei positivo o filme mostrar apenas um grande “vilão”. Até parece que apenas um sujeito “fora da curva” como Krauss é que foi responsável por grande parte do drama que vemos em cena. Sabemos que não foi assim. Vários policiais em 1967 e vários policiais hoje em dia nos Estados Unidos seguem tratando negros de forma diferente do que tratam os brancos como eles. Então não acho que ajuda a narrativa “resumir” boa parte destas figuras em apenas um personagem.

Depois, como eu disse antes, acho que o filme dedica tempo demais para questões secundárias daquela época, como o cenário musical e o grupo The Dramatics. Ok mostrar um pouco disso para apresentar um quadro mais completo da época, mas acho que a narrativa gasta tempo demais nestas partes. Também acho que o filme poderia ter condensado algumas narrativas paralelas, como os “bastidores” da polícia e até mesmo a repetição de fatos que acontecem no hotel.

Detroit é um filme importante e necessário. Toca em um tema que vale ser mostrado e debatido. A direção é bem feita, mas o roteiro podia ser um pouco mais objetivo e envolvente. No fim das contas, apesar de nos apresentar alguns personagens interessantes, não nos aprofundamos na vida de nenhum deles, além da história se distrair com pontos que não são muito relevantes para a história. Um bom filme, mas abaixo dos últimos que vimos da diretora.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu já estou de olho no Oscar 2018, meus bons amigos e amigas do blog. Vocês que me acompanham há mais tempo, sabem que eu não acho o Oscar algo fundamental ou realmente o melhor critério para definir um filme que seja bom. Sabemos que tem um peso muito grande no Oscar o lobby e os interesses da indústria cinematográfica de Hollywood – que, afinal, promove esta “festa” e premiação. Mas o que eu acho importante no Oscar é a seleção que esta premiação nos apresenta – especialmente na fase atual, em que são divulgadas listas enormes de produções que estão “habilitadas” para chegar até a premiação.

Digo isso porque vocês vão ver, pouco a pouco, eu comentando bastante sobre produções que eu acho que tem ou não chance de serem indicados ao Oscar. Detroit é um filme que teria predicados para chegar lá – uma diretora que já ganhou uma estatueta, um roteirista que também já foi premiado -, mas que, francamente, acho que não terá fôlego para tanto. Quer dizer, tudo depende da qualidade dos concorrentes deste ano. Mas olhando de “longe” para a premiação, acho que Detroit não conseguirá ser indicado. Talvez consiga emplacar a indicação a alguma categoria técnica, como Melhor Design de Produção ou Melhor Edição. Veremos.

Gostei, em especial, dos cartazes de Detroit. Neles a gente lê “Detroit. This is America”. Soco no estômago. Importante e necessário. E que este filme sirva de tema de debate dentro e fora dos Estados Unidos. Já passou da hora. E serve para nós, no Brasil, que precisaríamos discutir o preconceito racial, contra as mulheres e tantas outras formas de abuso e violência cotidiana.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma a direção de Kathryn Bigelow e a reconstrução dos detalhes da época feito pela equipe que a diretora escolheu são os pontos fortes de Detroit. Merecem elogios o diretor de fotografia Barry Ackroyd; a edição de William Goldenberg e de Harry Yoon; o design de produção de Jeremy Hindle; a equipe de 63 profissionais envolvidos com o departamento de arte, responsáveis por reconstruir a Detroit de 1967; os 22 profissionais envolvidos com o Departamento de Som; e os 43 profissionais responsáveis pelos Efeitos Visuais do filme.

Do elenco, poucos nomes acabam tendo destaque porque Detroit tem, na verdade, uma profusão de personagens. O roteiro de Mark Boal realmente não se aprofunda na história de nenhum deles. Como não temos o contexto das vidas dos personagens, poucos realmente chamam a atenção. Assim, do elenco, chamam mais a atenção por terem mais espaço em cena para demonstrar o seu trabalho os atores John Boyega, que interpreta a Dismukes, um segurança negro que se vê envolvido na situação dos crimes no motel; Will Poulter como o policial branco racista e assassino Krauss; Algee Smith como Larry, uma das lideranças da banda The Dramatics e que muda radicalmente de vida após a noite no motel; e Jacob Latimore como Fred, uma das vítimas daquela noite no motel e que se destaca, realmente, ao confrontar ao personagem de Krauss.

Além deles, vários outros atores fazem parte deste filme, mas em papéis menos expressivos. Ainda assim, vale citá-los. Até porque cada um deles tem algum momento de destaque na narrativa: Jason Mitchell como Carl; Hannah Murray como Julie; Jack Reynor como o policial Demens; Ben O’Toole como o policial Flynn; Kaitlyn Dever como Karen; John Krasinski como o advogado que defende os policiais Auerbach; Anthony Mackie como Greene; Nathan Davis Jr. como Aubrey; Gbenga Akinnagbe como Aubrey Pollard Sr.; Tyler James Williams como Leon; e Austin Hébert como o oficial Roberts.

Detroit estreou em première no dia 25 de julho na cidade que dá nome ao filme. Três dias depois o filme entrou em cartaz nos Estados Unidos, mas ainda em poucas cópias – um dia após o “aniversário” de 50 anos do início da revolta em Detroit -, estreando para valer no país e no Canadá no dia 4 de agosto. No Brasil, ele estreou no dia 6 de outubro no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, chegando ao circuito comercial apenas no dia 12 de agosto. Eu assisti ao filme há umas duas semanas, por isso não lembro de todos os detalhes dele. 😉 Mas do essencial eu me lembrei.

Esta produção custou uma pequena fortuna: US$ 34 milhões. Nos Estados Unidos, o filme fez pouco quase US$ 16,8 milhões até o dia 28 de julho. Pouco, hein? Ainda que a produção consiga uma bilheteria boa fora dos Estados Unidos, dificilmente o filme vai conseguir se pagar.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Detroit foi filmado seguindo o estilo que Kathryn Bigelow adotou em The Hurt Locker. Ou seja, diversas sequências da produção tinham três ou quatro câmeras rodando ao mesmo tempo, e próximas dos atores, para dar aquela sensação de “história acontecendo sob nossos olhos”. A diretora gosta de trabalhar com atores que podem improvisar e não faz ensaios em que eles tenham pouca possibilidade de movimentação. Pelo contrário. Ela também prefere acompanhar os atores de perto, mas sem bloquear as suas possibilidades de movimento. E isso nós vemos bem em Detroit.

O ator John Boyega teve a oportunidade de conhecer pessoalmente a um dos sobreviventes daquela cena do motel, Melvin Dismukes, que ele retrata nesta produção. Outro ator que está nesta produção, Algee Smith, que interpreta a Larry, da banda The Dramatics, compôs a canção Grow, que ouvimos no filme, e que é interpretada por Smith e Reed.

Grande parte da produção e toda a sequência de Argel foram rodadas em ordem cronológica.

Detroit foi rodado nas cidades de Mason, Detroit, ambas no Michigan; em Brockton, Lawrence, Boston e Lynn, todas em Massachusetts.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 178 críticas positivas e 38 negativas para o filme, o que garante para Detroit uma aprovação de 82% e uma nota média de 7,5. A nota dos dois sites é muito boa, levando em conta os padrões dos dois lugares que reúnem críticas do público e da crítica. Ou seja, Kathryn Bigelow agradou a ambos. Da minha parte, como disse antes, eu gostei, mas não tanto quanto eu achei que gostaria.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso, o filme passa a integrar a lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog. Até o momento Detroit não recebeu nenhum prêmio.

Achei algumas reportagens interessantes que mostram o quanto o filme Detroit é ou não fiel ao que realmente aconteceu na cidade de Detroit em 1967. Entre outros artigos que vale conferir, destaco este do site History vs Hollywood; este outro da revista Time; mais este texto do site The Wrap e esta outra reportagem do The Detroit News. No fim das contas, o filme de Kathryn Bigelow adotou uma série de “licenças poéticas”, como se pode notar por estas reportagens. Mais um fator que deve tornar as chances desta produção no Oscar pequenas.

CONCLUSÃO: Eu gosto da diretora Kathryn Bigelow. Ela tem estilo, tem assinatura, e gosta de temas importantes/relevantes. Não é diferente com este Detroit. Novamente ela assume o seu estilo de direção um tanto “documentarista” para nos contar uma história importante para os americanos, em especial. O filme é bem feito, tecnicamente falando, e toca em temas importantes. Mas achei o desenvolvimento da história um tanto lento, em algumas partes, e a produção longa demais. Sim, a longa sequência no hotel, que parece não ter fim, é para nos causar angústia. Algo que a diretora consegue. Kathryn Bigelow entrega mais um bom filme, mas nada além do mediano. Não é o seu melhor trabalho, mas vale conferir.

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The Revenant – O Regresso

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Selvageria em um grau elevado. Interessante como os Estados Unidos têm revisitado, ultimamente, alguns períodos importantes da história do país. Recentemente vimos a um filme bastante duro sobre a escravatura. Agora, com The Revenant, assistimos a um filme que vai na veia sobre a época da exploração do território por brancos e todos os confrontos advindos daí com os índios. A parte disso, este é um filme sobre vingança. Mas não dá para ignorar o pano de fundo histórico. Poderia ser um Tarantino, mas é uma produção de Alejandro González Iñarritu.

A HISTÓRIA: Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) está deitado ao lado do filho pequeno Hawk (Isaiah Tootoosis criança e Forrest Goodluck adulto) e da mulher (Grace Dove). Em seguida, aparecem cenas deles felizes, até que outras imagens mostram destruição e o menino sendo socorrido pelo pai. Tudo parece um sonho – ou lembranças que Glass carrega consigo sempre. Corta.

Homens caminham lentamente em meio a um lugar aonde a água escorre cristalina. Eles estão calçando alces. Glass chama a atenção de Hawk para um animal que será abatido. Perto dali, o tiro disparado por Glass é ouvido por Fitzgerald (Tom Hardy), que está orientando os seus homens para tirar a carne e embalar as peles dos 30 animais que eles já abateram. Mas os planos deles são mudados quando o grupo é atacada por um grupo de índios.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Revenant): O que 12 Years a Slave (com crítica aqui) foi para a filmografia sobre escravidão este The Revenant representa para os filmes que mostram os Estados Unidos selvagem, quando os confrontos entre brancos e índios eram constantes. Esta foi a primeira conclusão que eu cheguei logo depois que terminei de assistir a esta nova produção comandada pelo diretor Alejandro González Iñarritu.

Mas durante o filme, claro, outras questões se sobressaíram nesta produção. Para começar, o virtuosismo do diretor Iñarritu. Ele não leva a técnica da gravação em um eterno plano sequência sem cortes tão a sério quanto no premiado e anterior Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance) – comentado neste texto, mas em The Revenant novamente vemos ao diretor destilando o seu talento ao optar por este recurso.

Em mais de uma sequência, especialmente na parte inicial do filme, Iñarritu filma com longos planos sequência. A verdade é que esta técnica, especialmente em um ambiente externo e agreste como o mostrado em The Revenant, dá bastante fluidez para a história e ritmo para a produção. Funciona. E, francamente, achei que de forma mais interessante que no paparicado Birdman.

Além de mais um ótimo trabalho de Iñarritu na forma de conduzir a trama, me chamou muito a atenção como ele e o diretor de fotografia veterano Emmanuel Lubezki exploraram as florestas, os campos de gelo e as demais paisagens como personagens da história. Para entender aqueles personagens era fundamental também compreender o ambiente em que eles viviam. Depois, evidente que logo chama a atenção do espectador o tom cru da narrativa e a violência resultante desta escolha.

Por isso mesmo comentei, lá em cima, que este filme muito bem poderia levar a assinatura de Quentin Tarantino. Pelo menos em termos de crueza e violência. A diferença, provavelmente, estaria nos diálogos, que com Tarantino costumam ter mais “malemolência”, ironia e acidez. Claro que os filmes são bem diferentes, mas ao assistir a The Revenant eu me lembrei de Inglorious Basterds (comentado aqui), do Tarantino, e de No Country for Old Men (com crítica por aqui), dos irmãos Coen. O que une todos eles? Além de uma boa carga de violência e de crueza, também aquela pegada de “filme de vingança”.

Bem, feitos estes comentários, vale comentar o que é apenas próprio de The Revenant. Como comecei a falar ali acima, esta produção com roteiro de Iñarritu e de Mark L. Smith, inspirado em parte da obra de Michael Punke, resolve recontar fatos que teriam ocorrido em uma expedição guiada pelo lendário explorador Hugh Glass nos anos 1820. Ele estava à frente de um grupo que saiu de um forte para conseguir peles em uma região agreste e selvagem dos Estados Unidos. Território que tinha recursos explorados por americanos, franceses e índios de diferentes origens.

Naquele cenário sobrevivia quem conhecia melhor o território e quem tinha sorte. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Honra era algo que poderia ser esquecido facilmente em nome da própria sobrevivência – ou da ganância, ou dos dois, como demonstrou John Fitzgerald. Depois do ataque dos índios, parte do grupo de exploradores consegue sobreviver. Mas Glass é brutalmente atacado por um urso e, depois, apesar da tentativa do capitão Andrew Henry (o interessante Domhnall Gleeson) de dar a ele alguma chance de recuperação e sobrevivência, ele acaba sendo traído por Fitzgerald.

A partir daí o filme embarca na busca por vingança de Glass – busca esta que acaba motivando ele a sobreviver. Afinal, ele precisa fazer o homem que matou covardemente Hawk pagar por isso. De fato ele consegue uma recuperação incrível e até certo ponto plausível. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Agora, cá entre nós, na sequência em que ele cai com o cavalo em um desfiladeiro após ser perseguido pelos índios e, ao invés de ficar na copa da árvore ele cai no chão, é difícil de engolir. Logo pensei nele como o bisavô de Ethan Hunt, de Mission: Impossible. 😉

Mas ok, vamos dar um desconto e esquecer aquela sequência. Naquele ambiente e tempo, todos matavam sem pestanejar em confronto. Algumas vezes uma morte se justificava por um punhado de peles que, depois, seriam roubadas de uns por outros para trocar por outras mercadorias – como cavalos – com outro grupo. Não era difícil de acreditar, naquele cenário, que a vida humana valia tanto – ou menos, dependendo – que um cavalo. Claro que figuras conhecidas e respeitadas como Glass deveriam valer mais. Mas isso também era relativo – a ver o exemplo de Fitzgerald e de outros homens que matavam os índios por puro prazer.

A verdade é que The Revenant se mostra interessante não pela história de vingança e obstinação de Glass – temos muitas outras histórias similares no cinema. Mas esta produção interessa pela forma com que ela mostra as relações entre brancos e índios nos Estados Unidos há quase dois séculos. A exploração dos recursos naturais e a matança advinda desta prática ocorreu também na América do Sul, no Brasil e em tantas outras partes, mas poucas vezes um filme mostrou esta realidade sem embelezar a pílula.

The Revenant é uma resposta a todos os filmes de faroeste que mostraram os índios sem motivações ou história – apenas aparecendo para morrer na sequência – ou como “bonzinhos” ajudantes dos brancos. Não que aqui a história dos índios seja muito contada, mas pelo menos o grupo central desta produção tem sim uma motivação – o resgate da filha do chefe de uma tribo que foi sequestrada para ser escrava sexual de um grupo de exploradores.

O índio que ajuda Glass, em certo momento, e que foi fundamental para a sobrevivência dele, também tem parte de sua vida e motivação contada. Ainda assim, existe uma evidente desigualdade entre o espaço que é dado para diferentes grupos de brancos e índios contarem as suas histórias. Se bem que, e é preciso comentar isto, este filme é evidentemente centrado em Glass. Então é mais a história dele mesmo que conhecemos. Dos demais, brancos ou índios, não sabemos tanto quanto dele.

Por esta razão, The Revenant acaba não acertando no alvo como filme de revisão histórica e nem como filme de vingança pessoal. Ele fica no meio do caminho entre estes dois polos. É interessante, bem executado, mas dificilmente entraria em uma lista dos melhores do ano – arriscado dizer isso com 2016 começando agora, mas posso comentar isso levando em conta as produções que eu assisti nos últimos anos. The Revenant é um show de direção e de atuação de Leonardo DiCaprio. Tem uma direção de fotografia irretocável e uma trilha sonora impactante. Mas isso é tudo.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sempre gostei de Alejandro González Iñarritu. Ainda que o meu fraco seja maior por outros dois diretores da geração dele: Paul Thomas Anderson e Alejandro Amenábar. Ainda assim, é preciso admitir que Iñarritu está destilando, a cada filme, cada vez mais o seu estilo de autor. Como diretor, Iñarritu tem 15 títulos no currículo, incluindo longas, curtas e produções para a TV. Desta produção, sem dúvida alguma eu prefiro (e recomendo) Amores Perros, 21 Grams e Babel, nesta sequência de preferência.

Algo que não dá para criticar de The Revenant é a direção de Iñarritu. O filme tem algumas sequências dignas de aplauso. Uma das minha preferidas é aquele em que Glass está perto do rio e é encontrado pelo grupo de índios. Desde que ele escuta o ruído de alerta, tanta se esconder e até que empreende a fuga, a sequência é incrível. Mais um grande trabalho de Iñarritu como diretor, ainda que o roteiro, para mim, não teve a força ou a qualidade desejada.

Se da parte técnica do filme o nome principal de The Revenant é o de Iñarritu como diretor, entre o elenco não há dúvida que este é mais um grande trabalho de Leonardo DiCaprio. Até agora ele foi “esnobado” pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Mas, com este filme, certamente ele terá mais uma boa chance de ganhar uma estatueta dourada do Oscar.

DiCaprio já tinha mostrado uma grande performance a amadurecimento no ótimo The Wolf of Wall Street (com crítica aqui), mas com The Revenant ele não deixa nenhuma dúvida de que cresceu e amadureceu como intérprete.

Sei que muita gente gosta muito de Tom Hardy, babando por ele especialmente pelo trabalho em Mad Max: Fury Road (comentado aqui). Francamente, para mim, ele está cada vez mais bem ao estilo de Mel Gibson. Ou seja, cada vez que eu o vejo em cena, me parece que ele está com a mesma expressão e tudo o mais de louco. Dito isso, não quero dizer que ele esteja mal em The Revenant. Mas para o meu gosto, ele também não está digno de destaque.

Por outro lado, gostei muito do trabalho de Domhnall Gleeson como o capitão Andrew Henry, apesar dele aparecer menos que Hardy, e gostei muito também de Will Poulter, que interpreta a Jim Bridger, que se voluntaria a cuidar de Glass junto com Fitzgerald e é enganado por ele.  Dos índios, sem dúvida merece destaque pela presença e expressividade o trabalho de Duane Howard como Elk Dog, o chefe da tribo que procura Powaqa (Melaw Nakehk’o); e o de Arthur RedCloud como Hikuc, o índico que ajuda Glass.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma há alguns destaques. Além da já citada em mais de uma ocasião direção de Iñarritu, é fundamental para esta produção o trabalho do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki; a edição de Stephen Mirrione e a trilha sonora de Bryce Dessner, Carsten Nicolai e Ryuichi Sakamoto. Também merecem destaque o design de produção de Jack Fisk (afinal, pelo estilo da direção, este filme precisou ser bem planejado antes); o departamento de maquiagem com 29 profissionais sob o comando de Anthony Gordon; e a equipe de efeitos especiais com 26 profissionais sob a batuta de Douglas D. Ziegler. Esse filme não seria possível sem eles – especialmente as duas últimas equipes.

The Revenant fez première em Hollywood no dia 16 de dezembro de 2015 e estreou em circuito comercial, mas de forma limitada, nove dias depois, no dia 25 de dezembro. Ele estreia para valer em diferentes mercados a partir dos dias 7 e 8 de janeiro.

Esta produção teria custado cerca de US$ 135 milhões. Sobre o resultado nas bilheterias ainda não podemos falar – tem que esperar ele estrear mundo afora para termos uma ideia se ele vai conseguir se pagar ou não.

Para quem gosta, como eu, de saber aonde os filmes foram feitos, The Revenant foi rodado na Terra do Fogo, na Argentina, e em diferentes locais do Canadá e dos Estados Unidos. A parte rodada em estúdio também foi feita no Canadá, no Mammoth Studios em Burnaby.

Agora, algumas curiosidades de The Revenant. Como o filme sugere, DiCaprio teve que fazer diversos sacrifícios para o seu papel. Um deles foi comer um bom pedaço de fígado de bisonte cru – pequeno detalhe: o ator é vegetariano. Além disso, ele aprendeu a atirar com um mosquete, a fazer uma fogueira, aprendeu duas línguas nativas americanas (Pawnee e Arikara) e estudou técnicas antigas de cura. Segundo o ator, este foi o papel mais difícil de sua carreira. Uma história boa como pano-de-fundo para o primeiro Oscar dele, não?

Esta produção foi rodada durante nove meses porque Iñarritu e Lubezki quiseram gravar a maior parte do tempo com luz natural, estratégia para dar ainda mais realismo para a produção. Considerado um tempo longo de filmagem, ele foi necessário pelas condições climáticas das locações externas e pela distância entre os diferentes países em que The Revenant foi filmado.

Como as filmagens acabaram sendo mas longas que o planejado, a neve começou a derreter no Canadá e, por isso, a equipe teve que terminar os trabalhos na Argentina aonde as condições climáticas ainda eram favoráveis para a produção gelada.

Tom Hardy ficou preocupado com a sua segurança em algumas cenas do filme e, por isso, ele se desentendeu com Iñarritu. A discordância chegou às vias de fato, com Hardy “estrangulando” o diretor em certo momento – esta cena acabou sendo imortalizada pelo ator em uma camiseta que ele entregou para a equipe depois que o filme tinha sido concluído.

Sean Penn tinha sido convidado para o papel de John Fitzgerald mas acabou desistindo do projeto porque houve um conflito de agendas. Me desculpem os fãs do Hardy, mas eu teria preferido Penn no papel.

Pelas condições adversas do filme e pelo temperamento de Iñarritu muitas pessoas da equipe teriam deixado o filme antes dele ser concluído.

O trailer de The Revenant contabilizou 7 milhões de visualizações em menos de 36 horas depois que ele foi lançado no dia 17 de julho de 2015. Bem, esse pode ser um indicativo de uma ótima bilheteria para o filme.

DiCaprio fez questão de comentar que apesar das dificuldades do cenário agreste mostrado no filme e dos sacrifícios que ele fez pelo personagem de Glass, ele não se feriu de verdade em nenhum momento da produção.

O projeto inicial deste filme remonta a 2001, quando o produtor Akiva Goldsman adquiriu os direitos do então inédito manuscrito de Michael Punke. Depois, Dave Rabe escreveu a primeira versão do roteiro da produção, até que Iñarritu embarcou no projeto e assinou como diretor em agosto de 2011.

O diretor Iñarritu se defendeu de um relatório que comentou que os custos da produção ficaram fora de controle. Ele disse que deixou claro desde o início que este projeto seria caro e que a maioria dos custos adicionais tiveram que ver com o atraso nas filmagens por causa das questões climáticas.

Esta produção é baseada na história real de Glass que foi atacado por um urso cinza e deixado para morrer em 1823. Depois, ele se arrastou por 200 milhas (cerca de 321,9 quilômetros) até a civilização e jurou vingança contra aqueles que tinham levado os seus suprimentos e deixado ele para morrer, gastando diversos anos depois para caçá-los. Mas a história conta que ele não conseguiu pegar nenhum dos dois – e que Jim Bridger ficou famoso por suas próprias viagens de exploração.

Até o momento, The Revenant ganhou 19 prêmios e foi indicado a outros 85, incluindo quatro Globos de Ouro. Dos prêmios recebidos por associações de críticos de cinema, a maioria, 10 no total, foram para Leonardo DiCaprio como Melhor Ator. Outros cinco foram para Emmanuel Lubezki como Melhor Fotografia – as outras premiações foram pulverizadas.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para esta produção, uma avaliação muito boa considerando o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 89 textos positivos e 20 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 82% e uma nota média de 8.

CONCLUSÃO: Todo país tem capítulos escabrosos em sua formação histórica. Os Estados Unidos não foge da regra. The Revenant é um filme sobre vingança, como comentei no início, mas não apenas isso. Este é um filme cru e direto sobre parte da selvageria que dominou o cenário do país nas incontáveis disputas entre “brancos” e “índios” por recursos e terras. Com muita violência e cenas bem realistas, é mais uma aula de direção de Alejandro Iñarritu, assim como mais um grande trabalho do cada vez mais afiado Leonardo DiCaprio. Filme bem acabado, certamente receberá várias indicações ao Oscar. Mas descontada a questão histórica e a virtuosidade da direção, The Revenant não me encantou e nem acho que será um filme para ser lembrado por muito tempo. É bom, mas não é brilhante.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Para mim é claro que The Revenant será indicado a algumas categorias do Oscar. Me arrisco a dizer que ele vai concorrer a oito estatuetas, pelo menos. Vejamos: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Leonardo DiCaprio), Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Edição, Melhor Fotografia, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Maquiagem e Penteado. A lista ainda pode crescer acrescentando Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som, ou encurtar sem Melhores Efeitos Visuais ou Melhor Edição. Mas não deve ficar muito diferente do comentado.

Entre todas estas categorias e pelo que eu vi dos concorrentes até agora – além de The Revenant vi apenas a Spotlight -, vejo uma chance grande desta produção emplacar como Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Fotografia e Melhor Maquiagem e Penteado. Claro que é preciso ver aos outros concorrentes ainda para dar o pitaco final, mas as chances são boas nestas categorias. Nas demais, como em Melhor Trilha Sonora Original, vai depender muito da qualidade dos concorrentes. Como Melhor Filme, até o momento, meu voto iria para Spotlight. Tenho que ver os outros. Depois voltarei por aqui para seguir palpitando. 😉

We’re the Millers – Família do Bagulho

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Há tempos eu não assistia a uma comédia. E é bom mudar, volta e meia, o estilo. Talvez por isso eu tenha gostado deste simplório We’re the Millers. A premissa é interessante, o desenvolvimento um tanto previsível, mas este filme tem algumas boas sacadas e atores que claramente se divertiram. Além disso, me surpreendi com Jason Sudeikis, protagonista desta produção. Não lembro de ter assistido a outro trabalho dele, e acho que ele se saiu muito bem.

A HISTÓRIA: Alguns dos vídeos mais assistidos da internet. Todos engraçados e no melhor estilo “pegadinha”. Vários – ou todos – serão reconhecidos pelo público. Enquanto fala com a mãe no telefone, David Clark (Jason Sudeikis) assiste a estes vídeos no computador. Ela pergunta se ele está escutando, e David disfarça e diz que sim. Em seguida, ele começa a receber pedidos. Abre uma caixa, se abastece com diferentes tipos de maconha e com algum dinheiro.

Em seguida, parte para fazer negócios, vendendo para diferentes públicos. Após fazer uma venda em um café, ele esbarra com um antigo colega, Rick Nathanson (Thomas Lennon), que fala de sua família, deixando David com uma visível ponta de inveja. Mais tarde, ele é assaltado e acaba devendo US$ 43 mil para Brad Gurdlinger (Ed Helms), chefe local e para quem ele trabalha. Sem saída, David aceita um trabalho de risco para o qual ele forma uma família de fachada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a We’re the Millers): Tentei não contar muito sobre o filme no resumo acima. Afinal, são as pequenas “surpresas” desta história que fazem ela ser interessante. We’re the Millers tem algumas boas sacadas, que vou comentar na sequência, o que não é suficiente para fazer o filme ser genial. Um problema desta produção é que ela tem uma condução um bocado previsível. Mesmo tendo piadas claramente politicamente incorretas, o enredo não surpreende após a primeira reviravolta. O que não é bom.

Mas vamos ao que interessa. Falar sobre as qualidades desta produção. Para começar, ela tem uma premissa muito boa – apesar de manjada: um sujeito que começa a vender drogas na faculdade segue fazendo isso depois de formado e, após marcar bobeira e ser assaltado, é ameaçado pelo chefe do tráfico. Quantos filmes você já viu em que um bandido se ferra ao dever para outro?

Pois bem, o protagonista de We’re the Millers acaba sem saída após ajudar Kenny Rossmore (Will Poulter) quando ele resolve defender a Casey Mathis (Emma Roberts), uma garota que vive perambulando pelas ruas. Na própria visão um tanto cínica de Clark, ele marcou bobeira. Difícil acreditar que além de perder a mochila, ele ainda abriu a casa para os jovens assaltantes… mas ok, o filme precisava se justificar.

Desta forma, David está ferrado e aceita trazer mercadoria para Gurdlinger desde o México em um motor home gigantesco. Lendo até aqui, o roteiro do quarteto Bob Fisher, Steve Faber, Sean Anders e John Morris, inspirado em uma história dos dois primeiros, não parece muito original, certo? De fato, não é. Assim como não é exatamente inovadora a sequência, quando David e “família” encontram outra família esquisitona e que exemplifica os “norte-americanos médios” pelo caminho. Mas We’re the Millers se mostra interessante nos detalhes.

Para começar, há uma nuance interessante nos personagens de David e de Rose O’Reilly (Jennifer Aniston): mesmo não sabendo a idade exata deles, presumimos que eles passaram dos 30 e que continuam fazendo os “bicos” que tinham agarrado quando eram jovens. É o típico exemplo considerado fracassado de deixar “a vida me levar”. Nos olhares da sociedade, até dá para entender um cara que venda maconha na faculdade, possivelmente para pagar os estudos, e uma mulher que faça strip-tease pela mesma razão. Mas e quando eles seguem fazendo isso após os estudos? “Losers”, certo?

Mesmo dizendo que inveja o “amigo” por ele ser solteiro, não ter que se incomodar com uma família, e por seguir vendendo drogas – o que lhe daria “liberdade” -, Nathanson não esconde o olhar de surpresa com alguma reprovação. Ele representa o americano médio. E convenhamos, vender drogas ou dançar pole dance para ganhar a vida não são, por assim dizer, o sonho de qualquer pai ou mãe para os seus filhos. Nem os próprios personagens que assumem estas “carreiras” no filme estão satisfeitos consigo mesmos.

Este primeiro sutil questionamento sobre pessoas que não sabem que rumo dar para a própria vida é o primeiro ponto interessante de We’re the Millers. O segundo é o trabalho do quarteto de roteiristas em esquecer por alguns momentos o politicamente correto e também em investir em referências “pop” aqui e ali.

Para exemplificar este último ponto, cito o que para mim foi a primeira grande sacada desta produção – e que rendeu a minha primeira risada (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme): quando David é solto pelos capangas de Gurdlinger sobre um enorme plástico no escritório do traficante. A referência a Dexter foi uma tirada inteligente. O filme tem outras destas, mas não são muitas. Como aquela do “insight” de Clark ao ver a reação do policial ao ajudar a uma família de “americanos turistas idiotas”. Neste e em outros momentos o filme não mostrará sutileza alguma.

E este é, sem dúvida, o estilo de humor que o norte-americano adora. Vide o mega sucesso da grife The Hangover (o primeiro filme foi comentado aqui no blog). A ideia é aquela do ambiente universitário dos Estados Unidos, onde uns sacaneiam os outros o tempo todo, se possível. Tirar sarro é o lema destes filmes. We’re the Millers segue esta linha, mas sem ter que recorrer a tantos estereótipos quanto The Hangover. Menos mal.

Algo que prejudica este filme é que a ideia de alguém que precisa de dinheiro mergulhar no ambiente das drogas como alternativa para resolver os seus problemas nunca mais será a mesma após a brilhante série Breaking Bad. Daí que para embarcar em We’re the Millers, se você acompanha a Breaking Bad, será fundamental pensar que este filme é uma comédia. E que não tem a pretensão de reinventar esta roda. Se pensar desta forma, você poderá se divertir.

A terceira boa sacada do filme é a encaretada de David e Casey – porque Kenny já tinha o estilo careta. Impressionante o que um corte de cabelo pode fazer para a imagem de uma pessoa. 🙂 Depois, o filme embarca em uma rotina bonitinha e nada inovadora até a primeira reviravolta do roteiro.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não sei vocês, mas eu estava achando aquela missão dos “Millers” muito tranquila, mesmo com a aparição do policial mexicano (Luis Guzmán) pelo caminho. Então, ao menos para mim, não foi uma grande surpresa a aparição do verdadeiro Pablo Chacón (Tomer Sisley). Ainda que não tenha sido totalmente surpreendente, devo admitir que o estilo da virada funciona muito bem.

E há todas as sequências politicamente incorretas – que, quando bem encaixadas, funcionam bem. Para começar, David exigindo que o quase adolescente Kenny se “sacrificasse pela equipe” com o policial mexicano. Ele poderia ser mais escroto? Como adulto e chefe da operação, David deveria assumir a missão, não é mesmo? Mas no roteiro deste filme o importante é tentar surpreender o espectador. E algumas vezes eles conseguem. Outra sequência claramente neste sentido é aquela da noite no acampamento dos Millers com os Fitzgerald – o pai Don (Nick Offerman), a mãe Edie (Kathryn Hahn) e a filha Melissa (Molly C. Quinn).

Pena que o filme abrace o humor pastelão – vide o atropelamento do capanga One-Eye (Matthew Willig), a queima dos “fogos-de-artifício” pedida por Casey, a sequência da aranha e o confronto com os bandidos. Humor que deve estar bem ao gosto dos norte-americanos, mas que parece um tanto simplório pra gente. Ou não?

Enfim… estas piadinhas, assim como o previsível envolvimento dos Millers – ainda que um tanto difícil de acreditar – acabam sendo os pontos fracos do filme. Porque simplórios e bastante previsíveis. Esse é o lado ruim da balança. Mas há o lado bom, que são as sacadas. E mais.

Acho que o ótimo trabalho do protagonista, Jason Sudeikis, é uma das razões para assistir a esta produção. Além de muito expressivo, ele faz um trabalho na medida, tornando o personagem dele bastante crível. Apesar de David agir como um idiota boa parte do tempo, ele tem carisma e, por isso, provoca empatia. Também gostei do trabalho de Jennifer Aniston, que também faz um trabalho em que dá pra gente acreditar no que vê. E, não tenho dúvidas, ela fará a alegria do público masculino. Afinal, aparece em mais de uma sequência dando um show com seu corpão. 🙂

Para um filme assim funcionar, os atores são fundamentais. Além dos adultos da história, os jovens que fazem parceria com Sudeikis e Aniston também se saem muito bem. Mesmo sem grande invenção no estilo, a direção de Rawson Marshall Thurber vai bem. Há pelo menos uma sequência interessante: aquela da chegada do pai e dos filhos dos “Millers” no aeroporto. Boa sequência, com ajuda da trilha sonora de Ludwig Göransson e Theodore Shapiro e da edição de Michael L. Sale.

E assim, com estes acertos, este filme faz rir em um par de momentos e termina bem, sem se render ao modelo de “família perfeita” – até porque seria forçar muito a barra. Além disso, o filme inteiro ironiza este modelo, assim como as famílias de norte-americanos que saem por aí de férias parecendo uns idiotas. Não é a melhor comédia de todos os tempos, mas funciona em vários momentos.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Todos os personagens principais tem histórias convincentes. Com uma exceção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, a mãe de Kenny saiu para beber com um “amigo” uma semana antes da história do filme começar e nunca mais voltou? Ou o personagem encararia deixar a casa para seguir a proposta que aparece no final do filme assim, facilmente? Ok, até dá para acreditar nesta versão. Mas me pareceu pouco convincente. Exceto se estes desaparecimentos da mãe fossem frequentes e o garoto estivesse louco para sair de casa e viu na oportunidade que surgiu a deixa perfeita. Até pode ser… Mas acho que faltou um pouco de contextualização aí.

Há tempos eu não assistia a um filme com quatro roteiristas. Não é uma prática muito comum em Hollywood.

No final desta produção, há algumas cenas de “erros de gravação”. Elas sempre valem ser vistas. E neste filme, dão a entender que os atores tiveram espaço para improvisar e que fizeram isso em vários momentos. Em alguns, claro, eram simples “pegadinhas” para aparecer nos extras. Em outros momentos, acredito que o diretor escolheu a melhor improvisação para deixar no filme.

Mais uma vez a tradução do nome original do filme para o mercado brasileiro foi lamentável. Convenhamos que Família do Bagulho é horrível, né? Melhor seria algo uma tradução literal como Nós somos os Millers ou Conheça os Millers ou sei lá. Mas Família do Bagulho é terrível.

Os atores importantes desta produção já foram citados. Mas não custa comentar o trabalho secundário de algumas pessoas relativamente conhecidas. Mark L. Young interpreta a Scottie P., o garoto que impressiona Casey no hospital e com quem ela tem um rolinho na sequência; Ken Marino faz uma ponta como Todd, que coordena o clube de strip-tease onde Rose trabalha; e Laura-Leigh interpreta a Kymberly, a novata animada do clube.

Sem dúvida uma das melhores “pegadinhas” do filme, que aparece após o término da história, é aquela com referência a Friends. Bela sacada.

Agora, uma curiosidade sobre We’re the Millers: antes de Jason Sudeikis ser confirmado para o papel principal deste filme, foram cogitados para o papel Jason Bateman, Will Arnett e Steve Buscemi. O último mesmo… achei nada a ver.

Uma outra sacada que achei muito boa foi aquela da música da “comemoração”. David é franco em dizer que nunca gostou da música que está tocando, nem quando ela foi um sucesso. Boa! 🙂 Mas eu estou com o restante dos Millers, acho a música bacaninha. Não lembrava de quem era. E para quem também quer lembrar, informo: trata-se de Waterfalls, de TLC. A trilha é bem diversa, mas vale destacar ainda South of The Border (Down Mexico Way), de Frank Sinatra; Shakey Ground, de Beck; Sweet Emotion, do Aerosmith; e I’ll Be There For You, de The Rembrandts.

We’re the Millers estreou no dia 3 de agosto no desconhecido Traverse City Film Festival. Depois, passou também pelo festival de Locarno. Mas, até o momento, não ganhou nenhum prêmio.

Esta produção foi totalmente rodada nos Estados Unidos, nas cidades de Wilmington, na Carolina do Norte, e Santa Fe, no Novo México. Lembrando que esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

Da parte técnica do filme, acredito que já comentei os pontos principais. O roteiro funciona bem, com algumas boas sacadas, mas poderia ter um pouquinho mais de inovação. Alguma outra reviravolta na história ou uma “moral” menos óbvia seria interessante. Claro que é bonitinho pensar que “nós escolhemos a nossa própria família”, e que ela é importante para qualquer pessoa. Mas a condução da história foi um pouco morna demais. Além do roteiro, a direção é competente, mas sem grandes invenções. A trilha sonora funciona, assim como a edição. E isso é tudo.

Este é apenas o terceiro longa do diretor Rawson Marshall Thurber. A primeira produção com a assinatura dele foi a comédia Dodgeball: A True Underdog Story, de 2004, que tem a nota 6,6 segundo a avaliação dos usuários do IMDb. E a segunda, The Mysteries of Pittsburgh, de 2008, com nota 5,3 no mesmo site.

Bacana ver Ed Helms em ação, mesmo que ele esteja em um papel secundário. Fiquei fã do ator não por ele estar em The Hangover, mas pelo trabalho na excelente série The Office, versão dos EUA.

Este filme, por cair tão bem no gosto do norte-americano, está sendo um grande sucesso no país. We’re the Millers teria custado cerca de US$ 70 milhões e faturado, até hoje, dia 22 de setembro, quase US$ 138,2 milhões apenas nos Estados Unidos, segundo o site Box Office. Nos demais mercados em que já estreou, a produção teria acumulado mais US$ 209,4 milhões. Um baita êxito comercial, pois.

We’re the Millers é destes filmes que faz sucesso entre o público, mas nem tanto entre a crítica. Uma prova disto é que os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para a produção, uma avaliação muito boa pelos padrões do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos. Eles publicaram 75 críticas negativas e 67 positivas para a produção, o que garante para We’re the Millers uma aprovação de 47% e uma nota média de 5,4.

Entre os críticos que não gostaram do filme está Cath Clarke, da Time Out. Ela escreveu (aqui o original): “Talvez Jennifer Aniston queira mostrar ao mundo o que uma dieta e o yoga feitos sete dias por semana podem fazer para uma garota. Não consigo imaginar outra explicação relativamente decente para o strip-tease desesperado do meio para o final de We’re the Millers (que não tem nada a ver com o enredo)”. Ah, vá! Acho que ela não gostou de ver Aniston tão bem… e em uma comédia, quantas coisas são colocadas sem terem todo o sentido do mundo no roteiro? Se formos exigir lógica em todas as comédias, ferrou! 🙂 Agora, concordo com ela sobre a piada sem graça e “clonada” da aranha. Eu teria tirado ela do filme.

Por outro lado, Mick La Salle, do San Francisco Chronicle, gostou do filme. Ele escreveu (aqui o original): “As comédias estão ficando cada vez mais vulgares, o que não é, necessariamente, uma coisa ruim. (… We’re the Millers) passa a comédia e tem algo estranho em seu núcleo – um cinismo profundo sobre a família e, ao mesmo tempo, um desejo de família, os dois ao mesmo tempo. Mas o roteiro é demais uma colcha de retalhos para expressar qualquer coisa profunda ou inconsciente”. Tenho que concordar com ele. De fato, We’re the Millers tem este flerte, mas que não prossegue. Possivelmente o problema para o filme ir além é ter tantos roteiristas.

Esta é mais uma produção dos Estados Unidos que entra na lista dos filmes que eu comento após vocês, meus bons leitores, terem escolhido este país como alvo para uma série de críticas. Inicialmente, coloquei os filmes desta “barca” e as críticas de filmes feitos no Brasil – que também foi escolhido em uma enquete aqui no site – na categoria “Sugestões de Leitores”.

Mas andei refletindo a este respeito e não achei correto. Afinal, essa categoria é para críticas de filmes que vocês indicaram diretamente. Então, para contemplar estes países que vão ganhando as enquetes aqui no blog, criei a categoria “Votações no blog”. Todos os filmes que eu comentar por causa das enquetes vão entrar nesta categoria. Aliás, lembro e estimulo vocês a votar na enquete que está aberta aqui na coluna direta do blog. Bora lá!

CONCLUSÃO: Este filme não vai mudar a sua vida e nem fazer você pensar nela. Mas alguma risada, com certeza, ele vai te dar de presente. O que mais esperar de um filme do gênero? Alguma inovação? Se possível. We’re the Millers não inova na narrativa, não tem ousadia na direção ou interpretações de tirar o fôlego. Ou seja, é uma produção mediana. Com algumas boas tiradas aqui e ali, e uma bela escalação de elenco. Se você não tiver um filme melhor para assistir, pelo menos este não é um desperdício de tempo. Poderia ser um pouco mais cínico, ou picante, mas cumpre o seu papel, com aquele humor que cai como uma luva no gosto do público dos Estados Unidos – e um pouco no nosso.