Atomic Blonde – Atômica

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Jogos e intrigas de espionagem e contraespionagem. Já vimos um bocado disso no cinema. Mas da forma com que isso é apresentado em Atomic Blonde… nunca! Este é um filme com uma pegada intensa, com muitas cenas de violência e de pancadaria e um arcabouço interessante de qualidades. Para começar, uma ótima direção. Depois, uma trilha sonora das melhores que eu já escutei em um filme e um elenco bastante interessante. Destaque, evidentemente, para a estrela Charlize Theron. Com Atomic Blonde ela se credenciou para seguir em uma trajetória de filmes de ação e de mulheres no comando, sem dúvidas. Belo filme.

A HISTÓRIA: Em uma gravação, o presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan afirma que o Oriente e o Ocidente desconfiam um do outro. Na sequência, ele pede para que o Muro de Berlim seja derrubado. De fato, o Muro cairia em novembro de 1989. Mas este filme conta uma outra história. Relacionada sim com a guerra fria e com a disputa entre Estados Unidos, Inglaterra e Rússia, mas que corre por trás da “Cortina de Ferro”. Um homem corre desesperado por ruas e vielas. Quando ele acha que está livre, ele é violentamente atropelado. Mais de uma vez. James Gasciogne (Sam Hargrave) encara o inimigo, o russo Yuri Bakhtin (Jóhannes Haukur Jóhannesson), antes de levar o tiro fatal. O relógio que o russo pega do espião inglês passa a mover as ações que esta narrativa nos conta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Atomic Blonde): Como é bom, de tempos em tempos, assistir a um filme com “pegada”, não é mesmo? Atomic Blonde tem muito disso. Começando pela direção de David Leitch. Esse dublê, que entende muito bem sobre as técnicas da pancadaria, e que tem um trabalho um pouco mais longo – 19 títulos – como ator, realmente está estreando na direção com este filme.

Antes, Leitch havia ajudado na direção de John Wick, mas sem que o seu nome fosse creditado, e dirigido o curta Deadpool: No Good Deed. E isso foi tudo. A direção para valer de um longa veio com este Atomic Blonde. Para mim, Leitch está mais que credenciado como diretor, especialmente de filmes de ação. Ele sabe tirar o melhor de cada cena e, principalmente, valorizar e apresentar algo fresco nas intermináveis e viscerais cenas de luta.

Diversas sequências deste tipo impressionam neste filme. Mas destaco, em especial, a sequência em que a protagonista Lorraine Broughton (Charlize Theron) encara um bando de policiais no apartamento que era de James Gasciogne, e as cenas em que ela enfrenta um bando de russos em uma missão quase suicida para proteger Spyglass (Eddie Marsan). Nós já vimos a muitas cenas de pancadaria e de luta no cinema, mas como estas sequências… é coisa rara. O experiente dublê David Leitch, agora na direção, consegue nos apresentar sequências realmente inesquecíveis. E isso não é algo simples ou fácil de se ver.

Esta é uma das grandes qualidades do filme. A direção de David Leitch e as sequências de ação que ele nos apresenta. Realmente são cenas estonteantes e que impressionam. A segunda grande qualidade de Atomic Blonde é a atriz Charlize Theron. Maravilhosa, ela está conseguindo se reinventar a cada papel, praticamente. E aqui, novamente, ela mostra porque é um dos grandes nomes da sua geração. Charlize Theron tem um desempenho impecável e irretocável. Ela apanha bastante, mas também consegue ser a “loira fatal” que um filme como este se propõe a apresentar.

Não importa se ela está em uma cena quente, falando francamente em um interrogatório ou sozinha em uma banheira cheia de gelo. Cada vez que ela aparece em cena ela nos convence de seu personagem e de seu papel. Ela está estonteante, mesmo cheia de hematomas. Enfim, mais um grande desempenho desta atriz – que, se o Oscar não fosse ainda tão careta, mereceria uma indicação por causa de Atomic Blonde. Também ajuda muito na valorização da personagem como a “femme fatale” clássica dos filmes de espionagem a direção de Leitch e os figurinos maravilhosos de Cindy Evans.

Uma outra qualidade marcante desta produção e que arrebatou o meu coração foi a trilha sonora cheia de rock e de intensidade. A trilha sonora desta produção, pipocada aqui e ali, é de Tyler Bates. Mas o que realmente aquece a alma de alguém que gosta de rock como eu é a seleção musical que contempla, entre outros, New Order, David Bowie, Public Enemy, George Michael, After the Fire, The Clash, Siouxsie and the Banshees, Depeche Mode, Queen e David Bowie, entre outros – a lista completa da trilha sonora vocês podem encontrar por aqui.

Outra qualidade importante do filme é que ele tem um bom ritmo e uma ótima pegada. Em poucos momentos temos uma “baixa” na adrenalina. Ainda assim, devo comentar, esta produção acaba sendo um tanto “repetitiva”. Afinal, nós temos uma premissa que fica clara logo no início: um espião russo conseguiu, matando um espião inglês, um relógio em que estão listados todos os espiões ingleses e americanos na ativa. Essas informações sigilosas, se caírem nas mãos erradas, colocam em risco toda a espionagem destas grandes potências.

Conhecida por suas habilidades apuradas, a espiã inglesa Lorraine Broughton é convocada para recuperar esta lista e, se possível, identificar o agente duplo que está criando muitas dores de cabeça para os ingleses ao trabalhar na surdina para os russos. O roteiro de Kurt Johnstad, baseado nos quadrinhos The Coldest City da dupla Antony Johnston e Sam Hart, é envolvente, mas acaba não conseguindo evitar um certo desenvolvimento previsível para a história. Verdade que a direção visceral e atenta aos detalhes de David Leitch consegue dar um ritmo veloz para a produção de tal maneira que quase não conseguimos parar para pensar nisso, em como a história vai por caminhos previsíveis.

Ainda que boa parte do roteiro já é esperado – como aquele velho jogo de “gato e rato” entre Lorraine, o espião inglês David Percival (James McAvoy) e os russos -, as reviravoltas que a história dá, especialmente na reta final, é o que torna o filme realmente interessante. Digamos que o final, que muitas vezes atrapalha algumas produções, no caso de Atomic Blonde, redime o filme de suas partes mais “previsíveis”. (SPOILER – não leia os próximos parágrafos se você ainda não assistiu ao filme).

Sim, é verdade que era um bocado previsível aquela permanente desconfiança entre os diferentes espiões que aparecem em cena. Os russos, claro, eram sempre os “inimigos” em comum. Depois, tínhamos três espiões que ficavam, aparentemente, o tempo todo se “medindo” e desconfiados uns com os outros: Lorraine, David e a francesa Delphine Lasalle (Sofia Boutella). Mas, especialmente para o que interessava nesta história, que era descobrir o “agente duplo”, era um tanto óbvio que esta descoberta estaria entre Lorraine ou David – ou, para não ir muito longe, e ainda ser plausível, alguns dos “figurões” da espionagem inglesa ou americana, como era o caso de Emmett Kurzfeld (John Goodman), Eric Gray (Toby Jones), os dois que interrogam Lorraine sobre o que aconteceu em Berlim, e o Chefe C (James Faulkner), que acompanha tudo por perto.

O interessante do roteiro é que a desconfiança sobre se Lorraine e David eram o agente duplo, permanece quase até o final. Ficamos com a “pulga atrás da orelha” também porque, segundo o que o roteiro de Johnstad sugere, grande parte do filme é narrado por Lorraine. Como ela está sendo interrogada após os fatos de Berlim e ficamos sabendo do que aconteceu lá a partir do depoimento dela, parte do que vemos poderia ser mentira, certo? Mas não. O filme não chega a este requinte.

Ainda assim, é interessante o “twist” final. Aparentemente Lorraine mente para Emmett, Eric e C dizendo que o agente duplo era David quando, na verdade, ela era esse agente duplo. Bem na reta final, quando ela se encontra com o chefão russo, Aleksander Bremovych (Roland Moller), parece que temos a confirmação de tudo isso. Mas aí ele decide matá-la, e descobrimos que David encontrou no tal relógio a informação que Lorraine não era uma agente dupla, mas tripla. 😉 Assumindo uma identidade inglesa, ela fornecia (e colhia) informações estratégicas para os russos mas, no fim das contas, trabalhava mesmo para os americanos. Essa reviravolta final foi especialmente bacana.

Por um bom tempo eu fiquei tentada a dar uma nota 10 para este filme. Mas aí fiquei analisando um pouco melhor, e achei alguns pequenos defeitos na produção – nada que lhe tire os méritos, mas algo que talvez me impeça de dar um 10 para ela. Além do filme ficar um pouco arrastado e previsível naquele jogo de gato-e-rato de Lorraine com David, achei que o roteiro perdeu a chance de tornar o mistério mais interessante ao focar em poucos personagens. Também não vi muito sentido em ter ficado em Berlim apenas um espião do lado ocidental importante – David. Não parece muito lógico isso – especialmente porque a cidade estava apinhada de russos ainda.

Além disso, acho que a personagem de Delphine foi um tanto desnecessária naquele contexto. Verdade que a atriz é boa e ela dá uma “apimentada” na estadia de Lorraine em Berlim, mas para a história ela pouco serve de ponto de intriga ou de dúvida sobre “quem é o agente duplo”. Lembrando que o agente duplo era inglês – e ela, francesa. Então sim, acho que faltou incluir mais um ou dois espiões franceses e/ou americanos na história para que o roteiro ficasse melhor e para que tivéssemos mais dúvidas do que iria acontecer.

Mas fora isso, este filme é perfeito em seu estilo e na forma com que a história se desenrola. As cenas de ação, de luta e de perseguição são impecáveis, uma verdadeira aula de direção, de interpretação e de edição. Um filme envolvente, com uma trilha sonora magnífica e com bastante pegada e adrenalina. Apenas para o roteiro faltou pouco para ser perfeito. Mas nada que estrague a experiência e o prazer de ver uma Charlize Theron arrasadora.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Charlize Theron combina, definitivamente, com o papel de estrela de filmes de ação. A atriz tem talento, já demonstrado em filme com diversos perfis, mas tem fibra, carisma e entrega suficiente para estrelar, especificamente, filmes como Atomic Blonde. Gostei muito do papel dela e acredito que, pelo estilo do filme, poderemos ter alguma continuação no futuro. Seria interessante.

Ainda que eu tenha um ou dois poréns com o roteiro deste filme – como já comentei antes -, acho que a história acerta ao se ambientar nos bastidores de um acontecimento histórico importante, como foi a Queda do Muro do Berlim. Apesar de bem documentado, aquele fato realmente dá margem para alguns filmes como este, que tem um certo tom de “teoria da conspiração”. 😉

Atomic Blonde estreou em março de 2017 no Festival de Cinema South by Southwest. Depois, o filme participou do Festival Internacional de Cinema Fantasia, no Canadá, em julho; e no Festival de Cinema de Locarno, na Suíça, em agosto.

Em sua trajetória, o filme ganhou três prêmios e foi indicado a outros quatro. Os prêmios que ele recebeu foram todos entregues pelo Golden Trailer Awards: Best Summer 2017 Blockbuster, Best Motion/Title Graphics e Melhor Edição de Som.

Atomic Blonde teria custado US$ 30 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 51 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 43 milhões. Ou seja, no total, pouco mais de US$ 94 milhões – está no lucro, pois. Merecido!

Agora, aquelas curiosidades bacanas sobre o filme. Durante as filmagens de Atomic Blonde a atriz Charlize Theron rachou dois dentes. Para fazer o papel da protagonista, Theron contou com oito treinadores que a ajudaram a dar conta do recado de um papel tão vigoroso e com desempenho físico tão intenso.

Antes das filmagens desta produção começarem, o ator James McAvoy quebrou a mão no set de Split (comentado por aqui). Daí que ele teve que aguentar todas as cenas de ação de Atomic Blonde com a mão ferida.

Ainda que a cena de luta no apartamento de Gasciogne parece ter sido toda rodada na sequência, sem interrupção – a cena inteira dura 10 minutos -, na verdade aquela sequência é fruto de uma edição perfeita de quase 40 filmagens que foram feitas separadamente. A maior parte do trabalho, e não apenas nesta sequência, teve que contar com o apoio de efeitos especiais para “preencher” pequenos furos nas sequências.

Interessante que a atriz Charlize Theron, além de estrela desta produção, é uma das produtoras do filme. Segundo as notas sobre a produção, a atriz passou mais de cinco anos trabalhando para fazer este projeto sair do papel. Bacana!

Entre os atores desta produção, o destaque é realmente Charlize Theron. Ela está perfeita em um papel difícil – tanto pelo vigor físico e pelas ótimas cenas de ação quanto por todas a sequências em que os detalhes do gestual e da sua expressão são determinantes. Além dela, vale destacar o bom trabalho de alguns coadjuvantes, como Eddie Marsan como Spyglass; John Goodman como Emmett Kurzfeld; Toby Jones como Eric Gray; Roland Moller como Aleksander Bremovych; Bill Skarsgard como Merkel, alemão que ajuda a protagonista em momentos decisivos; e Til Schweiger em uma ponta interessante como o relojoeiro onde fatos cruciais aconteceram.

Outro nome importante da produção, James McAvoy está bem, mas nada além do já esperado do ator. Também valem ser citados, por fazerem um bom trabalho, mas nada perto de ser um grande destaque, os atores James Faulkner como C; Sofia Boutella como Delphine Lasalle; Sam Hargrave em uma micro ponta como James Gasciogne; e Jóhannes Haukur Jóhannesson também em uma micro ponta como Yuri Bakhtin.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma os elogios principais vão para a direção de David Leitch. Ele fez um trabalho excelente, especialmente nas cenas de ação – em outras partes, ele não se mostra tão original mas, ainda assim, sabe “beber” das melhores fontes. Então ele está de parabéns. Além dele, vale destacar a ótima direção de fotografia de Jonathan Sela; a maravilhosa e marcante trilha sonora de Tyler Bates; a edição muito difícil, cuidadosa e exemplar de Elísabet Ronaldsdóttir; o trabalho excelente do departamento de maquiagem com 11 profissionais; o competente efeitos especiais com 14 profissionais; e os efeitos visuais fundamentais que movimentaram 74 profissionais.

Além de tudo isso, vale citar o design de produção de David Scheunemann; a direção de arte de Zsuzsa Kismarty-Lechner, de Tibor Lázár e de Wolfgang Metschan; a decoração de set de Zsuzsa Mihalek e de Mark Rosinski; e os figurinos maravilhosos e já citados antes de Cindy Evans.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, Atomic Blonde teve cenas gravadas na cidade de Budapeste, na Hungria; em Berlim, na Alemanha; em Londres, no Reino Unido; e no Studio Babelsberg, na cidade de Potsdam, na Alemanha. Entre os pontos turísticos de Berlim que aparecem na produção estão o Gedächtniskirche e a Breitscheidplatz.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 180 críticas positivas e 61 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média de 6,4. Bem, como vocês viram, eu gostei mais do filme do que esta maioria. 😉

Este filme é uma coprodução da Alemanha, da Suécia e dos Estados Unidos. Como algumas votações feitas aqui no blog há tempos pediram filmes da Alemanha e dos Estados Unidos, esta crítica acaba fazendo parte da lista de filmes que atendem a pedidos aqui no blog. Fica o registro, pois.

CONCLUSÃO: Honestamente? Achei este um dos melhores filmes de espionagem de todos os tempos. Pode parecer exagero, mas eu colocaria ele no Top 10 do gênero. Com uma direção muito bem feita, com uma protagonista com desempenho impecável, recheado de muita ação, violência e uma boa carga de humor, embalado por uma trilha sonora impecável e maravilhosa, Atomic Blonde é um filme envolvente e interessante. Só não é perfeito por um ou dois detalhes do roteiro. A história também acaba “cansando” um pouco por ser um tanto “repetitiva” e rasa, mas as reviravoltas do roteiro compensam um pouco estas pequenas falhas. Se você gosta de filmes de espionagem e não se importa (ou até gosta) de pancaria, este é o seu filme.

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Still Life – Uma Vida Comum

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O respeito ao outro deveria ser algo intrínseco, natural, inquestionável, e válido não apenas quando alguém está olhando. Você sabe quando uma pessoa tem respeito pelos outros desta forma justamente quando esta pessoa não está sendo observada ou aplaudida pelo “gesto nobre”. Still Life trata de um sujeito assim, que exerce o respeito pela outra pessoa cotidianamente. Retrato interessante sobre o nosso mundo e posturas que parecem quase em desuso. Atitudes estas que entram em conflito com a realidade cada vez mais material e sem cuidado que parece marcar nosso tempo.

A HISTÓRIA: Um cemitério e uma igreja. Dentro do templo, um caixão, um padre e John May (Eddie Marsan). E mais ninguém. A cena se repete outras vezes, mas em outros locais e com outros tipos de despedida para os mortos. Em comum, apenas a presença séria de May. Após um destes velórios, John May pede para o atendente do crematório (Leon Silver) as cinzas de mais uma pessoa que não teve nenhum parente ou conhecido encontrado.

O atendente pergunta se ele levará apenas aquelas cinzas, e May diz que sim, porque dará mais um tempo para os demais. Nunca se sabe quando um conhecido poderá aparecer. Em breve, John May terá que enfrentar um último trabalho de investigação para propiciar um funeral diferente para um morto da cidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Still Life): Sempre gostei de histórias de pessoas comuns. Basicamente, por duas razões: primeiro, porque elas revelam muito do que podemos enxergar ao nosso redor, quando estamos dispostos; e depois, justamente pela razão anterior, porque elas nos fazem olhar o ordinário de forma mais cuidadosa, carinhosa, propiciando algumas reflexões que não teríamos se a história do filme não tivesse cruzado o nosso caminho.

Claro que aprecio também algumas superproduções (os famosos blockbusters), histórias de heróis de HQs adaptadas para o cinema, filmes com grandes astros e estrelas esforçados em fazer algo diferente. Mas quando encontro produções como Still Life, parece que o cinema faz ainda mais sentido. Porque histórias bem contadas não precisam de grandes reviravoltas ou outros truques narrativos.

O essencial de Still Life é a delicadeza da história. Um filme que aparentemente trata de um sujeito comum, um funcionário público como tantos outros que existem mundo afora – mas que normalmente não são lembrados ou valorizados. Só que o interessante da história não está apenas aí. Pouco a pouco vamos refletindo sobre a postura do protagonista, mas também sobre a mensagem que o exemplo dele nos repassa.

Onde começa ou termina o respeito pelo próximo? Quanto do que você faz é apenas pela “obrigação” – seja ela infligida pela tua educação ou pelas convenções sociais? Se ninguém estiver olhando, esse respeito permanece inalterado? Cotidianamente eu percebo gente atuando de maneria quase robótica. De forma automática, as pessoas se “preocupam” ou se “importam” com as demais na medida do que a sociedade exige. Mas não há verdade naqueles atos.

É como se muita gente vivesse atuando. Representando um papel. O respeito ao próximo ou a generosidade dos atos foram aprendidos, são repetidos, mas não partem da verdade interior de quem está agindo. Still Life questiona o que é estar vivo, para valer, e o que seria “aproveitar bem a vida”. O protagonista desta história é sistemático, extremamente organizado, com método em cada gesto. Um olhar apressado para a rotina de John May pode significar a leitura de que ele “não tem vida”.

Afinal, para muita gente, viver significa fazer festa sempre que possível. “Curtir” viagens constantes, confraternizar com quem estiver disponível, transar adoidadamente, e por aí vai. John May não conhece esta lista de prazeres. Ele trabalha de forma dedicada propiciando um funeral digno para pessoas que aparentemente não tem família ou amigos. Fora o horário de expediente, vai para casa e se alimenta sempre com a mesma comida. Age de forma cuidadosa a cada minuto e, no fim do dia, atualiza um álbum que mantém em casa com fotos das pessoas que ele acompanhou na última despedida quase solitária.

Como tantos outros funcionários públicos que ignoramos no dia a dia, John May é um sujeito dedicado. Como ele diz em certo momento do ótimo roteiro do diretor Uberto Pasolini, ele ama o trabalho que desempenha. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando um burocrata desalmado – como tantos que existem na vida real, sem qualquer respeito pela história dos outros, apenas ligado a resultados e números – coloca fim à carreira de May após 22 anos de um trabalho dedicado do protagonista, fica evidente uma certa “crise existencial” do personagem.

Como acontece com tantas outras pessoas, como lidar com aquela quebra da rotina? E mais que isso, como deixar de fazer o que se ama para lançar-se em uma vida com tanto tempo livre? Bebendo da mesma fonte de vários filmes de ação em que o protagonista deve fazer “um último trabalho como criminoso” antes de deixar aquela vida a que estava acostumado para sempre, Still Life mostra como May se dedica ao “último caso” que recebe.

Boa parte do filme mostra o protagonista na investigação sobre a vida de William “Billy” Stoke. Afinal, esta pode ser a última vez em que John May poderá propiciar um funeral diferente para uma pessoa que morreu de forma solitária. Será que, desta vez, será diferente? A expectativa por esta resposta alimenta a curiosidade do espectador, na mesma medida em que acompanhamos May na redescoberta da própria rotina.

Pouco a pouco ele vai mudando detalhes da forma de agir. Começa experimentando um chocolate quente no lugar do tradicional chá escuro. Daí para perder o trem e seguir na busca por amigos e parentes de Stoke é um pulo, quase um acaso. Com leveza e um humor diferenciado, Pasolini torna o espectador cúmplice deste cidadão disposto a prolongar o máximo possível a sua própria história e, desta forma, conseguir um final digno para Stoke e, consequentemente, para a própria carreira de May.

Mas o bonito da história do protagonista é que ele não se importa em ser invisível. John May gosta de fazer o trabalho que lhe compete bem, mesmo que ninguém perceba isso. E mesmo ao prolongar em dias esse trabalho, ele não quer ganhar protagonismo. Pelo contrário. May deseja que seu trabalho termine com pelo menos um funeral carregado de homenagens e de carinho, sem a solidão e a formalidade sem uma história por trás que muitas vezes ele tem que orquestrar.

O importante da história de May não é ele próprio, mas o que ele consegue fazer pelos demais. Com seu jeito dedicado, atencioso, metódico, persistente e muito discreto, o protagonista de Still Life cuida para que cada pessoa encontrada morta e sozinha no distrito londrino de Kennington tenha um final digno e respeitoso.

O novo chefe dele, o burocrata Sr. Pratchett (Andrew Buchan), em certo momento expõe aquele que é o pensamento de muita gente atualmente: para quê tanto esforço em relação a pessoas que morreram sem ninguém se estas pessoas já estão mortas e os vivos não se importam? Mas de fato é assim? Até acredito que para alguns desalmados e robôs humanos seja isso mesmo. Mas para pessoas como John May, que entendem em plenitude o que é o respeito pela pessoa humana, esteja ela respirando ou não, essa forma de pensar é absurda. Estou do lado de May.

De forma muito simples e natural acompanhamos a história deste sujeito, um funcionário público que ninguém valoriza – mas que encontra um pouco de reconhecimento perto do fim de sua carreira através de Kelly Stoke (a sempre excelente Joanne Froggatt) -, mas que nos faz refletir um bocado sobre valores fundamentais. Palmas para o diretor e roteirista Uberto Pasolini e para o genial Eddie Marsan, que dá vida para John May. Um filme singelo, mas carregado de emoção. Bela descoberta que merece ser compartilhada.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei encantada pelo roteiro de Pasolini. Ele soube equilibrar de forma bem precisa o humor, o drama, (e quem diria) a “aventura” e o “suspense” em Still Life. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Boa parte da produção se desenrola no trabalho de investigação feito por John May sobre o seu “último caso”, o ex-presidiário, ex-morador de rua e ex-várias coisas William Stoke. Existe um interesse natural do espectador para saber mais sobre Stoke e também para ver como o trabalho de May vai terminar. Por isso mesmo o final desta produção é tão brilhante.

Interessante como um homem que vivia sozinho e que provavelmente terminaria da mesma forma com que várias das pessoas que ele velava terminaram – sem alguém para participar do “último adeus” – não se importava consigo mesmo. Altruísta, e para valer, ele queria dedicar a própria vida a tornar o final de desconhecidos mais digno, honrado. Talvez em algum momento, ao ver as fotos no álbum azul de primeira qualidade que ele mantinha em casa, May tenha se visto em uma foto envelhecida. Mas nem por isso ele se abatia ou pensava em si em primeiro lugar. Quem dera que mais pessoas fossem assim na vida real.

Importante para esta história os vários momentos de silêncio e de contemplação que o personagem principal propicia para o espectador. Na ausência de palavras, cada pessoa pode preencher aquele “vazio” com diferentes leituras e significados. Como nos momentos em que John May parava para contemplar as fotos do álbum azul ou para observar outras pessoas e lugares, o que poderia estar passando na cabeça dele. Certamente ele tinha uma noção sobre viver a vida e o papel que ele desempenhava nela muito diferente daquela cheia de “reconhecimento” e ego exaltado tão frequente nos dias atuais.

Fiquei em dúvida sobre a nota a dar para este filme. Pensei em um 10, mas depois diminui a avaliação. Especialmente porque o filme me fez lembrar de outra produção, esta sim com a nota máxima e comentada aqui no blog: Okuribito. Still Life me fez lembrar do filme japonês não apena porque os dois tratam dos cuidados com os mortos, mas também porque ressaltam valores importantes. Mas na comparação, ainda prefiro Okuribito – guardada as devidas proporções, já que os dois filmes apostam em formas de narrativa e elementos diferentes. Por isso dei a nota acima para Still Life.

Cada pessoa envolvida nesta produção está bem. Mas o trabalho de Eddie Marsan impressiona. O ator dá uma aula de interpretação. Inspirador. Além dele, vale comentar o bom trabalho de Joanne Froggatt, conhecida pela série Dowtown Abbey, que aparece aqui luminosa. Vale também citar o bom trabalho de Karen Drury como Mary, ex-namorada e companheira de Billy, e Neil D’Souza como Shakthi, amigo do homem morto e última missão de John May.

Falando em Mary, aqui vai uma observação importante. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O filme não é óbvio nem neste momento, mas deixa a entender algo importante. Quando John May mostra as fotos de Kelly Stoke quando era criança para Mary, e ela se surpreende ao saber que o ex-companheiro que não queria ter uma família tinha uma filha, o roteiro deixa claro – ainda que não com todas as linhas – que quando saiu para não mais voltar, Stoke deixou Mary grávida. Ou seja, quando May insiste para ela ir no funeral de William, está pedindo isso para que o homem possa ter a filha e a neta, além da ex-companheira, em sua despedida derradeira. Bonito gesto de May que, apesar do desejo de tornar o funeral de Stoke especial, soube respeitar a vida que Mary teve que fazer após a saída de William – aparentemente fazendo o novo companheiro pensar que era o pai da filha de Mary.

Da parte técnica do filme, o maior destaque vai para a direção de Uberto Pasolini. O diretor sabe equilibrar com maestria cenas em que apresenta atenção total para a interpretação de Eddie Marsan e outras em que coloca o personagem principal e os demais desta história em perspectiva com os seus respectivos ambientes. Um filme planejado em todos os detalhes, dos diálogos sem sobras até os silêncios contemplativos em que a direção de Pasolini e a trilha sonora de Rachel Portman ganham destaque. Também vale elogiar o ótimo trabalho de edição da dupla Gavin Buckley e Tracy Granger e a direção de fotografia de Stefano Falivene.

Still Life estrou em setembro de 2013 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participaria de outros seis festivais, incluindo os de Zurique e de Seattle. Nesta trajetória, Still Life recebeu sete prêmios e foi indicado a outros três. Entre os que recebeu, destaque para quatro prêmios recebidos no Festival de Cinema de Veneza: o C.I.C.A.E. para Uberto Pasolini, o Pasinetti de Melhor Filme, o Prêmio Cinematográfico Civitas Vitae prossima para Pasolini e o Venice Horizons de Melhor Diretor para o realizador. Todos prêmios secundários, como se pode observar, mas que demonstram a força desta produção.

Este é apenas o segundo filme dirigido por Uberto Pasolini. Antes de Still Life, ele dirigiu e escreveu o roteiro de Machan, lançado em 2008. Não vi o filme anterior, mas fiquei com vontade de acompanhá-lo a partir de agora. Eis um realizador com ideias interessantes e que sabe trabalhar bem os recursos do cinema.

Para quem se interessa em saber os locais em que foram filmadas as produções, Still Life foi totalmente rodado em Londres, com algumas cenas nos Arquivos Nacionais de Kew, em Surrey, também no Reino Unido.

Procurando saber um pouco mais sobre Uberto Pasolini, achei esse texto com entrevista dele no site Cineuropa. Através do texto, fiquei sabendo de algumas intenções do diretor italiano radicado no Reino Unido com Still Life. Por exemplo, para Pasolini, esta produção trata da vida e não da morte – segundo ele, este é um filme “sobre o valor da vida das pessoas”. Ele também comenta que teve vontade de escrever esta história por causa da curiosidade que ele tem “sobre o tema do isolamento, que é cada vez mais forte na sociedade ocidental”. E ele segue: “Não há mais sensação de proximidade. Antes de iniciar o filme, eu não sabia quem eram os meus vizinhos também”.

Mas além do aspecto social, explica Pasolini, houve também uma questão pessoal: “Eu comecei recentemente um divórcio e, depois de viver por muitos anos com minha esposa e três filhos, agora há noites em que eu me vejo voltando para casa e encontrando uma casa escura, onde ninguém está esperando por mim. Então eu me projeto para a vida de quem está só a cada dia. O ponto de partida visual para o filme foi a imagem de um enterro solitário, sem ninguém por perto. Quem já não se perguntou quantas pessoas iriam aparecer em seu funeral?”. De fato, estes são temas potentes do filme. Achei muito corajoso o diretor expor a si mesmo desta forma. Por isso ele é tão bom.

Interessante também que o diretor se baseou em pessoas reais que desempenham o papel de “oficiais de funeral” – função desempenhada por muitas pessoas em todo o Reino Unido. Pasolini fala a respeito: “Tudo começou com uma entrevista que li em um jornal de Londres de um oficial de funeral de Westminster. Eu decidi entrar em contato com ele. É um trabalho que sempre existiu. Há uma pessoa que o desempenha em todas as partes de Londres. Eu conheci cerca de trinta destas pessoas. Vi as casas dos falecidos e fui a funerais e cremações por seis meses. Alguns têm uma relação burocrática com esse trabalho, outros levam mais tempo tendo no memória aqueles que morreram sozinhos. O personagem principal John May é uma combinação de dois ou três destes profissionais. Há pouco de ficção. Mesmo as cartas e fotos vistas no filme são verdadeiras”. Uau! Muito bacana.

Still Life é uma coprodução do Reino Unido com a Itália.

CONCLUSÃO: Há quem se interesse apenas por histórias agitadas, com reviravoltas importantes, cheias de surpresa ou impactantes. Há quem se alimente de socos no estômago. Eu gosto deste estilo de cinema também, mas não apenas dele. Still Life caminha na margem contrária deste rio. Esta história fala de um sujeito “ordinário” que vive a vida tentando trazer um último momento de dignidade e de homenagem para pessoas que acabaram de morrer.

Uma figura que ninguém reconhece, que poucos sabem que existe, mas que dia após dia tenta fazer o seu trabalho com esmero. História de pessoas comuns me fascinam porque elas normalmente falam de valores fundamentais e volta e meia esquecidos. Este é o caso deste filme. Um libelo à vida, ao respeito ao próximo e ao amor que é possível colocar em cada pequeno gesto. Lindo e recomendado.