Entebbe – 7 Days in Entebbe – 7 Dias em Entebbe

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O conflito israelense e palestino já rendeu bastante pano pra manga. Não apenas histórias, contadas em livros, filmes, séries e em outras plataformas, mas, sobretudo, já rendeu muitas mortes, sofrimento, dor. Entebbe conta um dos episódios desse conflito que parece não ter fim. O filme dirigido pelo brasileiro José Padilha é bem filmado e tem bons atores, mas a narrativa é bastante cansativa e previsível. Na verdade, Entebbe dá sono. A parte mais interessante do filme é vermos a alguns personagens históricos importantes daquele cenário em ação.

A HISTÓRIA: Em um palco, várias pessoas estão dispostas em um semicírculo. A música e o ensaio começam. A introdução comenta como, em 1947, Israel consegue se estabelecer como nação, enquanto os palestinos resistem à falta de território e consegue o apoio de diversos grupos de esquerda espalhados pelo mundo. A história dessa produção, em si, começa no dia 27 de junho de 1976, considerado o primeiro dia da ação.

Wilfried Böse (Daniel Brühl) não está passando bem no banheiro, mas ele se recompõe e sai para o saguão do aeroporto para se encontrar com Brigitte Kuhlmann (Rosamund Pike). Quando eles saem, dois outros homens olham para eles. Todos estão juntos. Eles entram no avião da Air France que está saindo de Tel Aviv com destino a Paris. Em breve, eles vão entrar em ação e entrar para a História.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Entebbe): Dessa vez eu prometo não falar muito sobre esse filme. Até porque eu acho que Entebbe não merece uma grande avaliação. Por uma razão muito simples: esse filme deveria ter rendido um curta e não um longa. E se fosse para render um longa, que ele fosse muito, mas muito melhor contextualizado.

Da maneira com que Entebbe foi desenvolvido, não precisaríamos gastar tanto tempo no cinema. Afinal, o roteiro de Gregory Burke é simplório e previsível. Fora um breve momento de retorno na história para mostrar a preparação dos sequestradores para a operação envolvendo o avião da Air France, a narrativa é linear e com um desenvolvimento um bocado lento. Como comentei no início dessa crítica, com bastante facilidade esse filme dá sono.

Apesar de ter poucos personagens de destaque, Entebbe realmente não desenvolve bem personagem algum. Os atores principais, que podem ser considerados Daniel Brühl e Rosamund Pike, fazem um bom trabalho, mas, apesar disso, não sabemos quase nada de seus personagens. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, qual era a origem de Böse e de Kuhlmann. Sabemos que Kuhlmann se responsabiliza pela prisão – e posterior morte – de Ulrike Meinhof na prisão, mas não sabemos muito mais do que isso da personagem.

Presumimos, com a cena em que Brigitte Kuhlmann fala da morte de Ulrike Meinhof na prisão, que ela fazia parte do grupo Baader Meinhof – ou RAF (Fração do Exército Vermelho) – e que planejava, com aquele sequestro do avião francês com dezenas de israelenses à bordo, resgatar parte do grupo que estava preso. O mesmo presumimos de Böse, mas tudo não passa de suposições. Afinal, Entebbe realmente nos fala pouco destes personagens. E o mesmo a respeito dos outros sequestradores.

Assim, Entebbe deixa tudo muito sugerido e pouco realmente claro. Ao menos envolvendo os sequestradores. Porque a respeito de Israel e de seus líderes, claramente Entebbe praticamente lhes rende uma homenagem. Em partes, ao menos. Claramente percebemos uma postura, por parte de Shimon Peres (Eddie Marsan), de não ceder aos sequestradores sob circunstância alguma. O primeiro ministro Yitzhak Rabin (Lior Ashkenazi), por sua vez, parece ter muito mais dúvidas do que certezas.

Se algo esse filme tem de interessante, é mostrar como as preocupações políticas de algumas lideranças – ou seria de todas? – está acima de vidas humanas e de interesses maiores que não sejam os seus próprios projetos de poder. Peres parece estar sempre preocupado com o “custo político” das ações que o governo israelense pode tomar. Claramente ele é um sujeito ambicioso e combativo, que acredita piamente na filosofia “nós contra eles”.

Enquanto isso, Rabin parece ser um sujeito muito mais ponderado e pacifista. Ele percebe, já na segunda metade dos anos 1970, que não adianta Israel sempre optar pelo combate e pelo enfrentamento. Em algum momento, o país deverá ceder e dialogar, chegar a um acordo – e, para isso, abrir mão de algo, seja de um pouco de poder, seja de um pouco do território. Naquele momento já existiam questões que seguem válidas mais de 40 anos depois – infelizmente.

Para resumir, se temos algo de interessante nesse filme, é justamente esse bastidor político e de jogo de poder. Vemos a dois personagens importantes da história – Peres e Rabin – em momentos de debate e de decisão. Essa é a parte que faz esse filme valer o tempo gasto. O restante, o sequestro e o resgate dos reféns, em si, são desenvolvidos de maneira simplória e um tanto desorganizada.

No fundo, pelo que o filme nos conta, não nos aprofundamos na história e na motivação dos sequestradores e nem nos aprofundamos na história e nas intenções dos outros envolvidos naquela situação. A parte melhor desenvolvida, digamos assim, é a dos personagens de Israel. Sobre o ditador Idi Amin (Nonso Anozie) sabemos pouco. Apenas, por exemplo, que ele é uma pessoa dúbia e com motivações não muito claras – parece que ele faz um jogo duplo.

Um problema de Entebbe, a meu ver, é que ele é uma produção muito “chapa branca”. Ou seja, basicamente, o roteiro de Gregory Burke assume a versão dos fatos de Israel. Eles são os heróis, no fim das contas – ainda que a direção do brasileiro José Padilha mostre que a operação “heroica” de resgate dos reféns foi mais atabalhoada e desastrada do que a história oficial costuma mostrar.

Enfim, aquele foi um episódio importante para Israel e para os palestinos, mas pareceu mais que o sequestro do avião teve a ver com interesses paralelos ao interesse palestino – como o dos apoiadores da RAF, por exemplo, e de outras pessoas que tem a motivação pouco clara no filme, como o líder do núcleo de terroristas e que negocia diretamente com o ditador de Uganda. Afinal, qual era a real motivação daquele cidadão? O filme não deixa isso claro.

Para resumir, Entebbe fraqueja mais por tudo que ele não mostra e não explica do que se sustenta por aquilo que apresenta. As diversas cenas que buscam apresentar a tensão do sequestro acabam sendo bastante repetitivas, e alguns personagens não dizem ao que vieram. Falta contextualização e falta um roteiro que apresente uma versão dos fatos mais crítica e um pouco menos “chapa branca”.

Um exemplo de parte do roteiro que não convence é quando Böse insisti dizendo que nem ele e nem Brigitte Kuhlmann eram nazistas (ou neonazistas). Que a motivação deles não era matar e/ou combater judeus. Certo. Nesse sentido, além de mostrar a “operação heroica” de Israel, Entebbe parece querer convencer a audiência de que a dupla alemã era inocente na história.

Aparentemente, segundo o roteiro, Böse e Brigitte estavam sequestrando um avião cheio de pessoas, inclusive judeus, achando que todos renderiam o resgate de “aliados” de seu movimento “libertário”. Ora, não sejamos inocentes. Eles sabiam que eram alemães e que no voo haveriam muitos judeus. Em que planeta o gesto de alemães ameaçando de morte judeus não faria lembrar a Segunda Guerra Mundial e o extermínio comandado por Hitler? Então o roteiro de Burke me pareceu um tanto estranho e um bocado “parcial”.

No fim das contas, achei esse filme bastante cansativo e pouco explicativo. Valeu por conferir a mais um trabalho do diretor José Padilha que, desta vez, nos entrega um resultado apenas “ok”. O ponto fraco do filme é realmente o roteiro. A ponto de mesmo os atores principais fazerem um trabalho mediano, mas sem realmente nos convencer do que eles estão fazendo.

Para mim, tudo muito mediano. Ou seja, um filme que está longe de ser fundamental. Há muitos outros no mercado bem mais interessantes. Agora, se você, como eu, gosta do diretor José Padilha e de alguns atores em cena, talvez vale a pena investir o seu tempo nesta produção. Mas sabendo que você não verá nada demais em cena.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para quem ficou curioso sobre o grupo Baader Meinhof, recomendo duas leituras e conteúdos. O primeiro é o filme Der Baader Meinhof Komplex, comentado por aqui no blog. E o segundo material que eu recomendo é esse super resumo feito pela Deutsche Welle sobre a história da RAF. Vale aprofundar-se nesse contexto para entender melhor a “motivação” da dupla de alemães que fazem parte do sequestro mostrado em Entebbe.

Falando em contexto, como Entebbe não é muito preciso ou mesmo contextualiza muito bem a história do sequestro, os seus antecedentes e desdobramentos, pode ser interessante ler a alguns textos que relembram aqueles fatos. Vale consultar desde esse artigo da Wikipédia até essa matéria curta da revista IstoÉ, essa reportagem do Acervo de O Globo e essa outra matéria da Folha de S. Paulo.

Ainda bem que muito mudou em relação à aviação civil no mundo nas últimas décadas, não é mesmo? Evoluímos muito em questão de segurança, por exemplo. Nunca hoje um grupo de terroristas entraria com tanta facilidade em um avião com armas dentro das bolsas de mão. O filme também me fez lembrar o tempo em que era permitido fumar dentro dos voos – não que isso seja mostrado em Entebbe, mas esse tipo de falta de controle e de “noção” sobre riscos para o voo veio à minha mente ao ver o sequestro “fácil” do avião que é mostrado nessa produção.

O diretor José Padilha faz um bom trabalho, valorizando as cenas de ação e o trabalho dos atores, mas ele realmente não consegue entregar uma grande produção porque falta para isso um roteiro melhor. Achei o trabalho de Gregory Burke abaixo da média. Infelizmente.

Como o roteiro não ajuda os atores, eles fazem em cena o melhor que eles podem, mas sem nenhum grande destaque. Ainda assim, vale comentar o sempre competente trabalho de Daniel Brühl como Wilfried Böse; de Rosamund Pike como Brigitte Kuhlmann; de Eddier Marsan como Shimon Peres; de Lior Ashkenazi como Yitzhak Rabin; de Ben Schnetzer como Zeev Hirsch, um dos soldados que se destaca no resgate dos reféns; de Nonso Anozie como o ditador de Uganda, Idi Amin; de Mark Ivanir como o general israelense Motta Gur; de Juan Pablo Raba como Juan Pablo, um personagem muito deslocado e mal desenvolvido mas que seria o namorado de Brigitte que pula fora da operação antes dela começar; Denis Ménochet como Jacques Le Moine, o engenheiro da aeronave que se destaca entre os representantes da tripulação do voo; e Angel Bonanni como Yonatan Netanyahu, comandante da operação de resgate.

Falando em roteiro bem mais ou menos, achei uma viagem a história de pelo menos dois personagens: Zeev Hirsch e Juan Pablo. O primeiro, a exemplo do personagem de Jacques Le Moine, “representante” da tripulação da aeronave sequestrada, parece ter sido destacado apenas para que o espectador se sinta mais “próximo” ou familiarizado com o grupo de militares israelenses. Zeev, assim como a sua namorada, aparecem um bocado na história sem ter, realmente, uma relevância grande para o que aconteceu. Eles, como tantos outros, tem a mesma “importância”, digamos assim. Então por que só eles foram destacados? O mesmo sobre o personagem de Juan Pablo, um bocado deslocado na história. Se ao invés de gastar tempo com esses personagens o roteirista tivesse contextualizado mais a situação do sequestro, certamente o filme seria melhor.

Filme arrastado e um bocado longo para o meu gosto. Para ter a entrega que teve, poderia ser um curta ou ter, pelo menos, uns 20 minutos de corte. Há muitas sobras nessa produção ao mesmo tempo em que falta uma contextualização para o filme funcionar melhor.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale citar a trilha sonora de Rodrigo Amarante; a direção de fotografia de Lula Carvalho; a edição de Daniel Rezende; o design de produção de Kave Quinn; a direção de arte de Charlo Dalli; a decoração de set de Stella Fox; e os figurinos de Bina Daigeler.

Entebbe estreou em fevereiro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme participou do Festival BCN. E nada mais. Em sua curta trajetória em eventos, ele não recebeu nenhum prêmio ou indicação.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 58 críticas negativas e apenas 17 positivas para esta produção – o que lhe garante uma aprovação de 22% e uma nota média de 5,2. Realmente eu não tenho como discordar dos usuários do site IMDb ou dos críticos. O filme talvez mereça mesmo estar na faixa da nota 5.

No site Metacritic o filme registrou metascore 49, resultado de 6 críticas positivas, 19 críticas medianas e 2 negativas. Acho até que o site foi “bonzinho” com essa produção – especialmente se comparamos com outros metascores. Segundo o site Box Office Mojo, Entebbe faturou US$ 3,2 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e quase US$ 3 milhões nas bilheterias dos outros países em que estreou. Ou seja, o filme teria feito quase US$ 6,2 milhões. É pouco para Hollywood, mas como não há informações sobre o custo da produção, fica difícil de saber o tamanho do “prejuízo” do filme para os produtores.

Talvez você esteja se perguntando porque eu assisti a esse filme se ele tinha tão pouca aprovação nos sites que eu sempre consulto. Olha, sou franca em dizer que eu resolvi encarar essa produção, basicamente, por duas razões. A primeira, porque eu queria ver ao novo filme do diretor José Padilha. Eu gosto do diretor brasileiro – acho um dos melhores da sua geração. Depois, porque esse filme ainda estava em cartaz no cinema no feriado de 1º de maio e eu resolvi aproveitar ao máximo a minha carteirinha do cinema – incentivo importante do Beiramar Shopping de Florianópolis para pessoas como eu, que ajudam a difundir os bons (ou nem tão bons) filmes que estão em cartaz.

Dito isso, sim, estou em uma fase no estilo “ver o que está passando nos cinemas”. Mas, em breve, quero resgatar os comentários sobre filmes clássicos e/ou históricos que estão fazendo aniversário nesse ano e também ver a outros filmes mais alternativos e que nem sempre passam nos cinemas comerciais. Em breve, meus caros, vou conseguir equilibrar esses três perfis novamente aqui no blog.

Espero que o José Padilha tenha mais sorte em sua próxima produção em Hollywood. Espero que ele conte com um roteiro melhor para trabalhar – ou que ele próprio consiga emplacar um roteiro por lá. Do contrário, ele pode apenas queimar o próprio filme ou cair na “vala comum” de tantos diretores que não emplacaram naquele super competitivo mercado de realizadores.

Entebbe é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos. Por ser tão “chapa branca”, até achei que poderia ter grana de Israel no meio. Mas não.

CONCLUSÃO: Entebbe trata de uma história real para nos ensinar como o idealismo muitas vezes sofre com o pouco contato com a realidade. Ao mesmo tempo que é verdade que não é justo o que Israel historicamente faz com os palestinos, também é verdade que não adianta atacar civis israelenses que não tem nada a ver com isso para tornar a balança “mais justa”. Atacar civis nunca pode ser considerado algo correto.

Bem filmado, mas com um roteiro bastante enfadonho, Entebbe sofre com um ritmo lento e uma história por si só pouco interessante para um longa. Poderia render um belo curta ou, talvez, ficaria melhor em um formato de até 1h30. Mais que isso, é exigir demais do espectador. Apenas mediano, e ainda sendo generosa na avaliação.

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Atomic Blonde – Atômica

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Jogos e intrigas de espionagem e contraespionagem. Já vimos um bocado disso no cinema. Mas da forma com que isso é apresentado em Atomic Blonde… nunca! Este é um filme com uma pegada intensa, com muitas cenas de violência e de pancadaria e um arcabouço interessante de qualidades. Para começar, uma ótima direção. Depois, uma trilha sonora das melhores que eu já escutei em um filme e um elenco bastante interessante. Destaque, evidentemente, para a estrela Charlize Theron. Com Atomic Blonde ela se credenciou para seguir em uma trajetória de filmes de ação e de mulheres no comando, sem dúvidas. Belo filme.

A HISTÓRIA: Em uma gravação, o presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan afirma que o Oriente e o Ocidente desconfiam um do outro. Na sequência, ele pede para que o Muro de Berlim seja derrubado. De fato, o Muro cairia em novembro de 1989. Mas este filme conta uma outra história. Relacionada sim com a guerra fria e com a disputa entre Estados Unidos, Inglaterra e Rússia, mas que corre por trás da “Cortina de Ferro”. Um homem corre desesperado por ruas e vielas. Quando ele acha que está livre, ele é violentamente atropelado. Mais de uma vez. James Gasciogne (Sam Hargrave) encara o inimigo, o russo Yuri Bakhtin (Jóhannes Haukur Jóhannesson), antes de levar o tiro fatal. O relógio que o russo pega do espião inglês passa a mover as ações que esta narrativa nos conta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Atomic Blonde): Como é bom, de tempos em tempos, assistir a um filme com “pegada”, não é mesmo? Atomic Blonde tem muito disso. Começando pela direção de David Leitch. Esse dublê, que entende muito bem sobre as técnicas da pancadaria, e que tem um trabalho um pouco mais longo – 19 títulos – como ator, realmente está estreando na direção com este filme.

Antes, Leitch havia ajudado na direção de John Wick, mas sem que o seu nome fosse creditado, e dirigido o curta Deadpool: No Good Deed. E isso foi tudo. A direção para valer de um longa veio com este Atomic Blonde. Para mim, Leitch está mais que credenciado como diretor, especialmente de filmes de ação. Ele sabe tirar o melhor de cada cena e, principalmente, valorizar e apresentar algo fresco nas intermináveis e viscerais cenas de luta.

Diversas sequências deste tipo impressionam neste filme. Mas destaco, em especial, a sequência em que a protagonista Lorraine Broughton (Charlize Theron) encara um bando de policiais no apartamento que era de James Gasciogne, e as cenas em que ela enfrenta um bando de russos em uma missão quase suicida para proteger Spyglass (Eddie Marsan). Nós já vimos a muitas cenas de pancadaria e de luta no cinema, mas como estas sequências… é coisa rara. O experiente dublê David Leitch, agora na direção, consegue nos apresentar sequências realmente inesquecíveis. E isso não é algo simples ou fácil de se ver.

Esta é uma das grandes qualidades do filme. A direção de David Leitch e as sequências de ação que ele nos apresenta. Realmente são cenas estonteantes e que impressionam. A segunda grande qualidade de Atomic Blonde é a atriz Charlize Theron. Maravilhosa, ela está conseguindo se reinventar a cada papel, praticamente. E aqui, novamente, ela mostra porque é um dos grandes nomes da sua geração. Charlize Theron tem um desempenho impecável e irretocável. Ela apanha bastante, mas também consegue ser a “loira fatal” que um filme como este se propõe a apresentar.

Não importa se ela está em uma cena quente, falando francamente em um interrogatório ou sozinha em uma banheira cheia de gelo. Cada vez que ela aparece em cena ela nos convence de seu personagem e de seu papel. Ela está estonteante, mesmo cheia de hematomas. Enfim, mais um grande desempenho desta atriz – que, se o Oscar não fosse ainda tão careta, mereceria uma indicação por causa de Atomic Blonde. Também ajuda muito na valorização da personagem como a “femme fatale” clássica dos filmes de espionagem a direção de Leitch e os figurinos maravilhosos de Cindy Evans.

Uma outra qualidade marcante desta produção e que arrebatou o meu coração foi a trilha sonora cheia de rock e de intensidade. A trilha sonora desta produção, pipocada aqui e ali, é de Tyler Bates. Mas o que realmente aquece a alma de alguém que gosta de rock como eu é a seleção musical que contempla, entre outros, New Order, David Bowie, Public Enemy, George Michael, After the Fire, The Clash, Siouxsie and the Banshees, Depeche Mode, Queen e David Bowie, entre outros – a lista completa da trilha sonora vocês podem encontrar por aqui.

Outra qualidade importante do filme é que ele tem um bom ritmo e uma ótima pegada. Em poucos momentos temos uma “baixa” na adrenalina. Ainda assim, devo comentar, esta produção acaba sendo um tanto “repetitiva”. Afinal, nós temos uma premissa que fica clara logo no início: um espião russo conseguiu, matando um espião inglês, um relógio em que estão listados todos os espiões ingleses e americanos na ativa. Essas informações sigilosas, se caírem nas mãos erradas, colocam em risco toda a espionagem destas grandes potências.

Conhecida por suas habilidades apuradas, a espiã inglesa Lorraine Broughton é convocada para recuperar esta lista e, se possível, identificar o agente duplo que está criando muitas dores de cabeça para os ingleses ao trabalhar na surdina para os russos. O roteiro de Kurt Johnstad, baseado nos quadrinhos The Coldest City da dupla Antony Johnston e Sam Hart, é envolvente, mas acaba não conseguindo evitar um certo desenvolvimento previsível para a história. Verdade que a direção visceral e atenta aos detalhes de David Leitch consegue dar um ritmo veloz para a produção de tal maneira que quase não conseguimos parar para pensar nisso, em como a história vai por caminhos previsíveis.

Ainda que boa parte do roteiro já é esperado – como aquele velho jogo de “gato e rato” entre Lorraine, o espião inglês David Percival (James McAvoy) e os russos -, as reviravoltas que a história dá, especialmente na reta final, é o que torna o filme realmente interessante. Digamos que o final, que muitas vezes atrapalha algumas produções, no caso de Atomic Blonde, redime o filme de suas partes mais “previsíveis”. (SPOILER – não leia os próximos parágrafos se você ainda não assistiu ao filme).

Sim, é verdade que era um bocado previsível aquela permanente desconfiança entre os diferentes espiões que aparecem em cena. Os russos, claro, eram sempre os “inimigos” em comum. Depois, tínhamos três espiões que ficavam, aparentemente, o tempo todo se “medindo” e desconfiados uns com os outros: Lorraine, David e a francesa Delphine Lasalle (Sofia Boutella). Mas, especialmente para o que interessava nesta história, que era descobrir o “agente duplo”, era um tanto óbvio que esta descoberta estaria entre Lorraine ou David – ou, para não ir muito longe, e ainda ser plausível, alguns dos “figurões” da espionagem inglesa ou americana, como era o caso de Emmett Kurzfeld (John Goodman), Eric Gray (Toby Jones), os dois que interrogam Lorraine sobre o que aconteceu em Berlim, e o Chefe C (James Faulkner), que acompanha tudo por perto.

O interessante do roteiro é que a desconfiança sobre se Lorraine e David eram o agente duplo, permanece quase até o final. Ficamos com a “pulga atrás da orelha” também porque, segundo o que o roteiro de Johnstad sugere, grande parte do filme é narrado por Lorraine. Como ela está sendo interrogada após os fatos de Berlim e ficamos sabendo do que aconteceu lá a partir do depoimento dela, parte do que vemos poderia ser mentira, certo? Mas não. O filme não chega a este requinte.

Ainda assim, é interessante o “twist” final. Aparentemente Lorraine mente para Emmett, Eric e C dizendo que o agente duplo era David quando, na verdade, ela era esse agente duplo. Bem na reta final, quando ela se encontra com o chefão russo, Aleksander Bremovych (Roland Moller), parece que temos a confirmação de tudo isso. Mas aí ele decide matá-la, e descobrimos que David encontrou no tal relógio a informação que Lorraine não era uma agente dupla, mas tripla. 😉 Assumindo uma identidade inglesa, ela fornecia (e colhia) informações estratégicas para os russos mas, no fim das contas, trabalhava mesmo para os americanos. Essa reviravolta final foi especialmente bacana.

Por um bom tempo eu fiquei tentada a dar uma nota 10 para este filme. Mas aí fiquei analisando um pouco melhor, e achei alguns pequenos defeitos na produção – nada que lhe tire os méritos, mas algo que talvez me impeça de dar um 10 para ela. Além do filme ficar um pouco arrastado e previsível naquele jogo de gato-e-rato de Lorraine com David, achei que o roteiro perdeu a chance de tornar o mistério mais interessante ao focar em poucos personagens. Também não vi muito sentido em ter ficado em Berlim apenas um espião do lado ocidental importante – David. Não parece muito lógico isso – especialmente porque a cidade estava apinhada de russos ainda.

Além disso, acho que a personagem de Delphine foi um tanto desnecessária naquele contexto. Verdade que a atriz é boa e ela dá uma “apimentada” na estadia de Lorraine em Berlim, mas para a história ela pouco serve de ponto de intriga ou de dúvida sobre “quem é o agente duplo”. Lembrando que o agente duplo era inglês – e ela, francesa. Então sim, acho que faltou incluir mais um ou dois espiões franceses e/ou americanos na história para que o roteiro ficasse melhor e para que tivéssemos mais dúvidas do que iria acontecer.

Mas fora isso, este filme é perfeito em seu estilo e na forma com que a história se desenrola. As cenas de ação, de luta e de perseguição são impecáveis, uma verdadeira aula de direção, de interpretação e de edição. Um filme envolvente, com uma trilha sonora magnífica e com bastante pegada e adrenalina. Apenas para o roteiro faltou pouco para ser perfeito. Mas nada que estrague a experiência e o prazer de ver uma Charlize Theron arrasadora.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Charlize Theron combina, definitivamente, com o papel de estrela de filmes de ação. A atriz tem talento, já demonstrado em filme com diversos perfis, mas tem fibra, carisma e entrega suficiente para estrelar, especificamente, filmes como Atomic Blonde. Gostei muito do papel dela e acredito que, pelo estilo do filme, poderemos ter alguma continuação no futuro. Seria interessante.

Ainda que eu tenha um ou dois poréns com o roteiro deste filme – como já comentei antes -, acho que a história acerta ao se ambientar nos bastidores de um acontecimento histórico importante, como foi a Queda do Muro do Berlim. Apesar de bem documentado, aquele fato realmente dá margem para alguns filmes como este, que tem um certo tom de “teoria da conspiração”. 😉

Atomic Blonde estreou em março de 2017 no Festival de Cinema South by Southwest. Depois, o filme participou do Festival Internacional de Cinema Fantasia, no Canadá, em julho; e no Festival de Cinema de Locarno, na Suíça, em agosto.

Em sua trajetória, o filme ganhou três prêmios e foi indicado a outros quatro. Os prêmios que ele recebeu foram todos entregues pelo Golden Trailer Awards: Best Summer 2017 Blockbuster, Best Motion/Title Graphics e Melhor Edição de Som.

Atomic Blonde teria custado US$ 30 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 51 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 43 milhões. Ou seja, no total, pouco mais de US$ 94 milhões – está no lucro, pois. Merecido!

Agora, aquelas curiosidades bacanas sobre o filme. Durante as filmagens de Atomic Blonde a atriz Charlize Theron rachou dois dentes. Para fazer o papel da protagonista, Theron contou com oito treinadores que a ajudaram a dar conta do recado de um papel tão vigoroso e com desempenho físico tão intenso.

Antes das filmagens desta produção começarem, o ator James McAvoy quebrou a mão no set de Split (comentado por aqui). Daí que ele teve que aguentar todas as cenas de ação de Atomic Blonde com a mão ferida.

Ainda que a cena de luta no apartamento de Gasciogne parece ter sido toda rodada na sequência, sem interrupção – a cena inteira dura 10 minutos -, na verdade aquela sequência é fruto de uma edição perfeita de quase 40 filmagens que foram feitas separadamente. A maior parte do trabalho, e não apenas nesta sequência, teve que contar com o apoio de efeitos especiais para “preencher” pequenos furos nas sequências.

Interessante que a atriz Charlize Theron, além de estrela desta produção, é uma das produtoras do filme. Segundo as notas sobre a produção, a atriz passou mais de cinco anos trabalhando para fazer este projeto sair do papel. Bacana!

Entre os atores desta produção, o destaque é realmente Charlize Theron. Ela está perfeita em um papel difícil – tanto pelo vigor físico e pelas ótimas cenas de ação quanto por todas a sequências em que os detalhes do gestual e da sua expressão são determinantes. Além dela, vale destacar o bom trabalho de alguns coadjuvantes, como Eddie Marsan como Spyglass; John Goodman como Emmett Kurzfeld; Toby Jones como Eric Gray; Roland Moller como Aleksander Bremovych; Bill Skarsgard como Merkel, alemão que ajuda a protagonista em momentos decisivos; e Til Schweiger em uma ponta interessante como o relojoeiro onde fatos cruciais aconteceram.

Outro nome importante da produção, James McAvoy está bem, mas nada além do já esperado do ator. Também valem ser citados, por fazerem um bom trabalho, mas nada perto de ser um grande destaque, os atores James Faulkner como C; Sofia Boutella como Delphine Lasalle; Sam Hargrave em uma micro ponta como James Gasciogne; e Jóhannes Haukur Jóhannesson também em uma micro ponta como Yuri Bakhtin.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma os elogios principais vão para a direção de David Leitch. Ele fez um trabalho excelente, especialmente nas cenas de ação – em outras partes, ele não se mostra tão original mas, ainda assim, sabe “beber” das melhores fontes. Então ele está de parabéns. Além dele, vale destacar a ótima direção de fotografia de Jonathan Sela; a maravilhosa e marcante trilha sonora de Tyler Bates; a edição muito difícil, cuidadosa e exemplar de Elísabet Ronaldsdóttir; o trabalho excelente do departamento de maquiagem com 11 profissionais; o competente efeitos especiais com 14 profissionais; e os efeitos visuais fundamentais que movimentaram 74 profissionais.

Além de tudo isso, vale citar o design de produção de David Scheunemann; a direção de arte de Zsuzsa Kismarty-Lechner, de Tibor Lázár e de Wolfgang Metschan; a decoração de set de Zsuzsa Mihalek e de Mark Rosinski; e os figurinos maravilhosos e já citados antes de Cindy Evans.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, Atomic Blonde teve cenas gravadas na cidade de Budapeste, na Hungria; em Berlim, na Alemanha; em Londres, no Reino Unido; e no Studio Babelsberg, na cidade de Potsdam, na Alemanha. Entre os pontos turísticos de Berlim que aparecem na produção estão o Gedächtniskirche e a Breitscheidplatz.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 180 críticas positivas e 61 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média de 6,4. Bem, como vocês viram, eu gostei mais do filme do que esta maioria. 😉

Este filme é uma coprodução da Alemanha, da Suécia e dos Estados Unidos. Como algumas votações feitas aqui no blog há tempos pediram filmes da Alemanha e dos Estados Unidos, esta crítica acaba fazendo parte da lista de filmes que atendem a pedidos aqui no blog. Fica o registro, pois.

CONCLUSÃO: Honestamente? Achei este um dos melhores filmes de espionagem de todos os tempos. Pode parecer exagero, mas eu colocaria ele no Top 10 do gênero. Com uma direção muito bem feita, com uma protagonista com desempenho impecável, recheado de muita ação, violência e uma boa carga de humor, embalado por uma trilha sonora impecável e maravilhosa, Atomic Blonde é um filme envolvente e interessante. Só não é perfeito por um ou dois detalhes do roteiro. A história também acaba “cansando” um pouco por ser um tanto “repetitiva” e rasa, mas as reviravoltas do roteiro compensam um pouco estas pequenas falhas. Se você gosta de filmes de espionagem e não se importa (ou até gosta) de pancaria, este é o seu filme.

Still Life – Uma Vida Comum

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O respeito ao outro deveria ser algo intrínseco, natural, inquestionável, e válido não apenas quando alguém está olhando. Você sabe quando uma pessoa tem respeito pelos outros desta forma justamente quando esta pessoa não está sendo observada ou aplaudida pelo “gesto nobre”. Still Life trata de um sujeito assim, que exerce o respeito pela outra pessoa cotidianamente. Retrato interessante sobre o nosso mundo e posturas que parecem quase em desuso. Atitudes estas que entram em conflito com a realidade cada vez mais material e sem cuidado que parece marcar nosso tempo.

A HISTÓRIA: Um cemitério e uma igreja. Dentro do templo, um caixão, um padre e John May (Eddie Marsan). E mais ninguém. A cena se repete outras vezes, mas em outros locais e com outros tipos de despedida para os mortos. Em comum, apenas a presença séria de May. Após um destes velórios, John May pede para o atendente do crematório (Leon Silver) as cinzas de mais uma pessoa que não teve nenhum parente ou conhecido encontrado.

O atendente pergunta se ele levará apenas aquelas cinzas, e May diz que sim, porque dará mais um tempo para os demais. Nunca se sabe quando um conhecido poderá aparecer. Em breve, John May terá que enfrentar um último trabalho de investigação para propiciar um funeral diferente para um morto da cidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Still Life): Sempre gostei de histórias de pessoas comuns. Basicamente, por duas razões: primeiro, porque elas revelam muito do que podemos enxergar ao nosso redor, quando estamos dispostos; e depois, justamente pela razão anterior, porque elas nos fazem olhar o ordinário de forma mais cuidadosa, carinhosa, propiciando algumas reflexões que não teríamos se a história do filme não tivesse cruzado o nosso caminho.

Claro que aprecio também algumas superproduções (os famosos blockbusters), histórias de heróis de HQs adaptadas para o cinema, filmes com grandes astros e estrelas esforçados em fazer algo diferente. Mas quando encontro produções como Still Life, parece que o cinema faz ainda mais sentido. Porque histórias bem contadas não precisam de grandes reviravoltas ou outros truques narrativos.

O essencial de Still Life é a delicadeza da história. Um filme que aparentemente trata de um sujeito comum, um funcionário público como tantos outros que existem mundo afora – mas que normalmente não são lembrados ou valorizados. Só que o interessante da história não está apenas aí. Pouco a pouco vamos refletindo sobre a postura do protagonista, mas também sobre a mensagem que o exemplo dele nos repassa.

Onde começa ou termina o respeito pelo próximo? Quanto do que você faz é apenas pela “obrigação” – seja ela infligida pela tua educação ou pelas convenções sociais? Se ninguém estiver olhando, esse respeito permanece inalterado? Cotidianamente eu percebo gente atuando de maneria quase robótica. De forma automática, as pessoas se “preocupam” ou se “importam” com as demais na medida do que a sociedade exige. Mas não há verdade naqueles atos.

É como se muita gente vivesse atuando. Representando um papel. O respeito ao próximo ou a generosidade dos atos foram aprendidos, são repetidos, mas não partem da verdade interior de quem está agindo. Still Life questiona o que é estar vivo, para valer, e o que seria “aproveitar bem a vida”. O protagonista desta história é sistemático, extremamente organizado, com método em cada gesto. Um olhar apressado para a rotina de John May pode significar a leitura de que ele “não tem vida”.

Afinal, para muita gente, viver significa fazer festa sempre que possível. “Curtir” viagens constantes, confraternizar com quem estiver disponível, transar adoidadamente, e por aí vai. John May não conhece esta lista de prazeres. Ele trabalha de forma dedicada propiciando um funeral digno para pessoas que aparentemente não tem família ou amigos. Fora o horário de expediente, vai para casa e se alimenta sempre com a mesma comida. Age de forma cuidadosa a cada minuto e, no fim do dia, atualiza um álbum que mantém em casa com fotos das pessoas que ele acompanhou na última despedida quase solitária.

Como tantos outros funcionários públicos que ignoramos no dia a dia, John May é um sujeito dedicado. Como ele diz em certo momento do ótimo roteiro do diretor Uberto Pasolini, ele ama o trabalho que desempenha. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando um burocrata desalmado – como tantos que existem na vida real, sem qualquer respeito pela história dos outros, apenas ligado a resultados e números – coloca fim à carreira de May após 22 anos de um trabalho dedicado do protagonista, fica evidente uma certa “crise existencial” do personagem.

Como acontece com tantas outras pessoas, como lidar com aquela quebra da rotina? E mais que isso, como deixar de fazer o que se ama para lançar-se em uma vida com tanto tempo livre? Bebendo da mesma fonte de vários filmes de ação em que o protagonista deve fazer “um último trabalho como criminoso” antes de deixar aquela vida a que estava acostumado para sempre, Still Life mostra como May se dedica ao “último caso” que recebe.

Boa parte do filme mostra o protagonista na investigação sobre a vida de William “Billy” Stoke. Afinal, esta pode ser a última vez em que John May poderá propiciar um funeral diferente para uma pessoa que morreu de forma solitária. Será que, desta vez, será diferente? A expectativa por esta resposta alimenta a curiosidade do espectador, na mesma medida em que acompanhamos May na redescoberta da própria rotina.

Pouco a pouco ele vai mudando detalhes da forma de agir. Começa experimentando um chocolate quente no lugar do tradicional chá escuro. Daí para perder o trem e seguir na busca por amigos e parentes de Stoke é um pulo, quase um acaso. Com leveza e um humor diferenciado, Pasolini torna o espectador cúmplice deste cidadão disposto a prolongar o máximo possível a sua própria história e, desta forma, conseguir um final digno para Stoke e, consequentemente, para a própria carreira de May.

Mas o bonito da história do protagonista é que ele não se importa em ser invisível. John May gosta de fazer o trabalho que lhe compete bem, mesmo que ninguém perceba isso. E mesmo ao prolongar em dias esse trabalho, ele não quer ganhar protagonismo. Pelo contrário. May deseja que seu trabalho termine com pelo menos um funeral carregado de homenagens e de carinho, sem a solidão e a formalidade sem uma história por trás que muitas vezes ele tem que orquestrar.

O importante da história de May não é ele próprio, mas o que ele consegue fazer pelos demais. Com seu jeito dedicado, atencioso, metódico, persistente e muito discreto, o protagonista de Still Life cuida para que cada pessoa encontrada morta e sozinha no distrito londrino de Kennington tenha um final digno e respeitoso.

O novo chefe dele, o burocrata Sr. Pratchett (Andrew Buchan), em certo momento expõe aquele que é o pensamento de muita gente atualmente: para quê tanto esforço em relação a pessoas que morreram sem ninguém se estas pessoas já estão mortas e os vivos não se importam? Mas de fato é assim? Até acredito que para alguns desalmados e robôs humanos seja isso mesmo. Mas para pessoas como John May, que entendem em plenitude o que é o respeito pela pessoa humana, esteja ela respirando ou não, essa forma de pensar é absurda. Estou do lado de May.

De forma muito simples e natural acompanhamos a história deste sujeito, um funcionário público que ninguém valoriza – mas que encontra um pouco de reconhecimento perto do fim de sua carreira através de Kelly Stoke (a sempre excelente Joanne Froggatt) -, mas que nos faz refletir um bocado sobre valores fundamentais. Palmas para o diretor e roteirista Uberto Pasolini e para o genial Eddie Marsan, que dá vida para John May. Um filme singelo, mas carregado de emoção. Bela descoberta que merece ser compartilhada.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei encantada pelo roteiro de Pasolini. Ele soube equilibrar de forma bem precisa o humor, o drama, (e quem diria) a “aventura” e o “suspense” em Still Life. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Boa parte da produção se desenrola no trabalho de investigação feito por John May sobre o seu “último caso”, o ex-presidiário, ex-morador de rua e ex-várias coisas William Stoke. Existe um interesse natural do espectador para saber mais sobre Stoke e também para ver como o trabalho de May vai terminar. Por isso mesmo o final desta produção é tão brilhante.

Interessante como um homem que vivia sozinho e que provavelmente terminaria da mesma forma com que várias das pessoas que ele velava terminaram – sem alguém para participar do “último adeus” – não se importava consigo mesmo. Altruísta, e para valer, ele queria dedicar a própria vida a tornar o final de desconhecidos mais digno, honrado. Talvez em algum momento, ao ver as fotos no álbum azul de primeira qualidade que ele mantinha em casa, May tenha se visto em uma foto envelhecida. Mas nem por isso ele se abatia ou pensava em si em primeiro lugar. Quem dera que mais pessoas fossem assim na vida real.

Importante para esta história os vários momentos de silêncio e de contemplação que o personagem principal propicia para o espectador. Na ausência de palavras, cada pessoa pode preencher aquele “vazio” com diferentes leituras e significados. Como nos momentos em que John May parava para contemplar as fotos do álbum azul ou para observar outras pessoas e lugares, o que poderia estar passando na cabeça dele. Certamente ele tinha uma noção sobre viver a vida e o papel que ele desempenhava nela muito diferente daquela cheia de “reconhecimento” e ego exaltado tão frequente nos dias atuais.

Fiquei em dúvida sobre a nota a dar para este filme. Pensei em um 10, mas depois diminui a avaliação. Especialmente porque o filme me fez lembrar de outra produção, esta sim com a nota máxima e comentada aqui no blog: Okuribito. Still Life me fez lembrar do filme japonês não apena porque os dois tratam dos cuidados com os mortos, mas também porque ressaltam valores importantes. Mas na comparação, ainda prefiro Okuribito – guardada as devidas proporções, já que os dois filmes apostam em formas de narrativa e elementos diferentes. Por isso dei a nota acima para Still Life.

Cada pessoa envolvida nesta produção está bem. Mas o trabalho de Eddie Marsan impressiona. O ator dá uma aula de interpretação. Inspirador. Além dele, vale comentar o bom trabalho de Joanne Froggatt, conhecida pela série Dowtown Abbey, que aparece aqui luminosa. Vale também citar o bom trabalho de Karen Drury como Mary, ex-namorada e companheira de Billy, e Neil D’Souza como Shakthi, amigo do homem morto e última missão de John May.

Falando em Mary, aqui vai uma observação importante. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O filme não é óbvio nem neste momento, mas deixa a entender algo importante. Quando John May mostra as fotos de Kelly Stoke quando era criança para Mary, e ela se surpreende ao saber que o ex-companheiro que não queria ter uma família tinha uma filha, o roteiro deixa claro – ainda que não com todas as linhas – que quando saiu para não mais voltar, Stoke deixou Mary grávida. Ou seja, quando May insiste para ela ir no funeral de William, está pedindo isso para que o homem possa ter a filha e a neta, além da ex-companheira, em sua despedida derradeira. Bonito gesto de May que, apesar do desejo de tornar o funeral de Stoke especial, soube respeitar a vida que Mary teve que fazer após a saída de William – aparentemente fazendo o novo companheiro pensar que era o pai da filha de Mary.

Da parte técnica do filme, o maior destaque vai para a direção de Uberto Pasolini. O diretor sabe equilibrar com maestria cenas em que apresenta atenção total para a interpretação de Eddie Marsan e outras em que coloca o personagem principal e os demais desta história em perspectiva com os seus respectivos ambientes. Um filme planejado em todos os detalhes, dos diálogos sem sobras até os silêncios contemplativos em que a direção de Pasolini e a trilha sonora de Rachel Portman ganham destaque. Também vale elogiar o ótimo trabalho de edição da dupla Gavin Buckley e Tracy Granger e a direção de fotografia de Stefano Falivene.

Still Life estrou em setembro de 2013 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participaria de outros seis festivais, incluindo os de Zurique e de Seattle. Nesta trajetória, Still Life recebeu sete prêmios e foi indicado a outros três. Entre os que recebeu, destaque para quatro prêmios recebidos no Festival de Cinema de Veneza: o C.I.C.A.E. para Uberto Pasolini, o Pasinetti de Melhor Filme, o Prêmio Cinematográfico Civitas Vitae prossima para Pasolini e o Venice Horizons de Melhor Diretor para o realizador. Todos prêmios secundários, como se pode observar, mas que demonstram a força desta produção.

Este é apenas o segundo filme dirigido por Uberto Pasolini. Antes de Still Life, ele dirigiu e escreveu o roteiro de Machan, lançado em 2008. Não vi o filme anterior, mas fiquei com vontade de acompanhá-lo a partir de agora. Eis um realizador com ideias interessantes e que sabe trabalhar bem os recursos do cinema.

Para quem se interessa em saber os locais em que foram filmadas as produções, Still Life foi totalmente rodado em Londres, com algumas cenas nos Arquivos Nacionais de Kew, em Surrey, também no Reino Unido.

Procurando saber um pouco mais sobre Uberto Pasolini, achei esse texto com entrevista dele no site Cineuropa. Através do texto, fiquei sabendo de algumas intenções do diretor italiano radicado no Reino Unido com Still Life. Por exemplo, para Pasolini, esta produção trata da vida e não da morte – segundo ele, este é um filme “sobre o valor da vida das pessoas”. Ele também comenta que teve vontade de escrever esta história por causa da curiosidade que ele tem “sobre o tema do isolamento, que é cada vez mais forte na sociedade ocidental”. E ele segue: “Não há mais sensação de proximidade. Antes de iniciar o filme, eu não sabia quem eram os meus vizinhos também”.

Mas além do aspecto social, explica Pasolini, houve também uma questão pessoal: “Eu comecei recentemente um divórcio e, depois de viver por muitos anos com minha esposa e três filhos, agora há noites em que eu me vejo voltando para casa e encontrando uma casa escura, onde ninguém está esperando por mim. Então eu me projeto para a vida de quem está só a cada dia. O ponto de partida visual para o filme foi a imagem de um enterro solitário, sem ninguém por perto. Quem já não se perguntou quantas pessoas iriam aparecer em seu funeral?”. De fato, estes são temas potentes do filme. Achei muito corajoso o diretor expor a si mesmo desta forma. Por isso ele é tão bom.

Interessante também que o diretor se baseou em pessoas reais que desempenham o papel de “oficiais de funeral” – função desempenhada por muitas pessoas em todo o Reino Unido. Pasolini fala a respeito: “Tudo começou com uma entrevista que li em um jornal de Londres de um oficial de funeral de Westminster. Eu decidi entrar em contato com ele. É um trabalho que sempre existiu. Há uma pessoa que o desempenha em todas as partes de Londres. Eu conheci cerca de trinta destas pessoas. Vi as casas dos falecidos e fui a funerais e cremações por seis meses. Alguns têm uma relação burocrática com esse trabalho, outros levam mais tempo tendo no memória aqueles que morreram sozinhos. O personagem principal John May é uma combinação de dois ou três destes profissionais. Há pouco de ficção. Mesmo as cartas e fotos vistas no filme são verdadeiras”. Uau! Muito bacana.

Still Life é uma coprodução do Reino Unido com a Itália.

CONCLUSÃO: Há quem se interesse apenas por histórias agitadas, com reviravoltas importantes, cheias de surpresa ou impactantes. Há quem se alimente de socos no estômago. Eu gosto deste estilo de cinema também, mas não apenas dele. Still Life caminha na margem contrária deste rio. Esta história fala de um sujeito “ordinário” que vive a vida tentando trazer um último momento de dignidade e de homenagem para pessoas que acabaram de morrer.

Uma figura que ninguém reconhece, que poucos sabem que existe, mas que dia após dia tenta fazer o seu trabalho com esmero. História de pessoas comuns me fascinam porque elas normalmente falam de valores fundamentais e volta e meia esquecidos. Este é o caso deste filme. Um libelo à vida, ao respeito ao próximo e ao amor que é possível colocar em cada pequeno gesto. Lindo e recomendado.