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Blood Father – Herança de Sangue

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Para fazer um filme um bocado maluco, você precisa ter uma estrela igualmente “crazy”. Blood Father, em essência, não tem nada de novo. Pelo menos o argumento central não é inovador. Mas ele tem uma segunda camada de leitura interessante e que funciona muito bem. E à frente da trama, o ator um tanto maluco Mel Gibson. Ele está mais velho, mais experiente, mas não perdeu aquele olhar um tanto “descompassado” que volta e meia vemos nele. Para este filme, isso funciona muito bem.

A HISTÓRIA: A imagem de uma menina surge aos poucos e vemos que se trata de um cartaz de pessoa desaparecida. Pelas informações, sabemos que a garota está desaparecida desde os 14 anos. Uma jovem compra várias caixas de munição e um chiclete. Quando pede um cigarro, a caixa pede a identidade dela. Na sequência, a garota entra em um carro cheio de caras armados.

Um dos bandidos reclama que a garota de Jonah (Diego Luna) comprou munição errada para ele. O grupo sai em direção a uma casa, e a garota fica no carro. Ela resiste a seguir o grupo, mas Jonah a ameaça e diz que precisa confiar nela. O final daquela situação levará Lydia (Erin Moriarty) para uma busca desesperada por proteção.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Blood Father): Mel Gibson está mais velho, mais experiente e, parece, mais interessante. Assistindo a Blood Father temos a impressão de que a fase mais “louca” e “raivosa” do ator já passou. Então, talvez, possamos ver a fase inicial da carreira dele, com o primeiro Mad Max, Gallipoli, The Year of Living Dangerously e Lethal Weapon como a primeira grande fase do ator e, quem sabe agora, o início de um grande outro momento.

Mas ainda é cedo para dizer se o ator passou a fase mais louca da vida e vai começar, novamente, a apresentar um grande trabalho. De qualquer forma, é bom vê-lo um pouco mais centrado e com os “olhos menos arregalados”, se é que vocês me entendem. Ao menos eu voltei a acreditar em uma interpretação dele. Ajuda o fato, claro, do personagem dele em Blood Father ser um pouco “underground”, o que casa com o estilo do ator. Mas, de fato, ele está um pouco menos “over”, com uma interpretação bem mais coerente e que faz quem gosta dele acreditar no que ele está fazendo e não vendo apenas ao personagem “Mel Gibson”.

Descontadas as bobagens que ele fez na vida pessoal, eu gosto do estilo Mel Gibson de ser. Afinal, ele saiu daquele perfil de galã do início de carreira para abraçar um tipo de produção mais underground e, com Blood Father, mais realista. Bem, pelo menos até perto do final. Envelhecido, com as rugas bem à mostra e com um personagem que deixa claro que é um bandido que tenta levar uma vida sem maiores problemas até que a filha com bandidos atrás dela aparece, Mel Gibson faz um belo trabalho neste Blood Father.

O filme, evidentemente, é bem centrado no trabalho do ator. Mas ele não está sozinho. Pelo contrário. Por quase todo o filme ele faz uma bela parceria com a jovem atriz Erin Moriarty. Além de muito bonita, a garota tem estilo e tem talento. No filme, a personagem dela está começando a trilhar o caminho da malandragem, se envolvendo com um bandido de porte grande que nem ela imaginava o quanto de poder de fogo ele tinha.

Se o pai dela no filme é “macaco velho”, sabe todos os caminhos da bandidagem e da criminalidade, ela ainda está tateando neste mundo. Mas como fugiu de casa aos 14 anos de idade e andou por aí se virando por conta própria, ela também aprendeu um e outro truque. Bonita, ela sabe usar este argumento a seu favor. E é assim que, pouco a pouco, pai e filha vão se aproximando enquanto eles correm em fuga para tentar sobreviver. No caminho, claro, ele também procura saber quem está realmente perseguindo os dois. Conhecer o inimigo é uma questão vital.

O filme, que poderia ser apenas mais uma história de “bandido persegui mocinha que tem que fazer tudo para sobreviver”, acaba sendo também uma interessante história de aproximação entre pai e filha. Fica evidente, nas entrelinhas do roteiro de Peter Craig e Andrea Berloff, baseado no livro de Peter Craig, que apesar da pouca convivência com o pai, que ficou muito tempo preso, Lydia admira John Link e busca seguir vários de seus passos em sua própria jornada.

Quando ela se vê em apuros, ela sabe que não pode contar com mais ninguém. Se alguém sabe como lidar com bandidos é o pai dela. Algo interessante de Blood Father também é que os roteiristas e o diretor Jean-François Richet não “douram a pílula”. Ou seja, os protagonistas são enrolados, tem uma tendência forte para o crime, e isso não é escondido. John Link queria uma vida tranquila, fora de confusão, mas quando ele tem que proteger a filha, ele não se importa em matar. Lydia certamente não quer matar inocentes, mas se tiver que matar algum bandido para se defender, ela não pensará por muito tempo.

Não faltam tiros e cenas de ação nesta produção, ainda que os roteiristas e o diretor acertem ao não resumir a história apenas a isso. Pelo contrário. O filme equilibra bem estas cenas de ação com o desenvolvimento da relação entre os protagonistas. Por isso eta produção funciona e foge um pouco do lugar-comum. Se a história propriamente dita não inova, pelo menos ela apresenta um certo molho e mais de uma camada de leitura e de interesse. Algo que é bem-vindo em um filme deste estilo.

O realismo é um dos elementos presentes em grande parte desta produção. Por exemplo, John Link mora em um trailer velho, tem um carro que muitas vezes não pega na primeira e parece ter sempre o dinheiro contado. Lydia certamente vive “um dia de cada vez”. Os dois são, digamos assim, uns “ferrados”. Mas estão procurando os seus próprios caminhos tentando fazer o menor dano possível. Apenas por isso eles já merecem uma chance.

Enquanto John Link descobre que o ex-namorado da filha é herdeiro de uma quadrilha realmente barra pesada, a dupla segue sendo perseguida. Fica claro que querem dar um fim na garota, e demora um tempo para sabermos o porquê. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não é exatamente uma surpresa quando sabemos que Jonah não morreu. Ele persegue Lydia para que ela não conte para ninguém que ele está enganando a quadrilha mas, provavelmente e acima disso, porque ele quer se vingar da garota.

Mas aí reside o principal problema desta história. Se o desenvolvimento do filme até é bom e convence por boa parte do tempo, a reta final da história é de chorar. A “super” esperta Lydia não se toca de dar um fim no próprio celular – questão básica para quem não quer ser rastreado, certo? Pouco a pouco, com o celular na mão, ela vai dando a pista para os perseguidores por onde ela anda. Quando, finalmente, ela é pega, é ridícula a negociação de John Link com Jonah. Se o rapaz realmente fosse bandido, ele não daria nenhuma chance para pai e filha se livrarem.

Primeiro, provavelmente teria matado Lydia antes de John Link se aproximar. E mesmo que não tivesse feito isso, esperando para “desfrutar” do fim da ex-namorada, certamente ele não deixaria o pai dela “se despedir” da filha. Não tem muita lógica toda aquela sequência final, de John Link se sentando ao lado da filha e dos bandidos “caindo” na armadilha da morte, em especial. Depois, claro, o filme se redime um pouco com o final para John Link – ainda que o tiroteio final “à la” faroeste pareceu um tanto forçado também.

Enfim, um filme bom, interessante pela boa parceria entre os atores principais, com uma ou outra ideia bacana mas com muitas outras saídas bem batidas, além de um final que esvazio boa parte das qualidades da produção. Ainda assim, após aquele “tiroteio final”, ainda temos uma Lydia se declarando para o pai, o que ficou bacana e torna a decepção com o final um pouco menos irritante. A boa notícia é que Mel Gibson voltou a fazer um bom trabalho, e que Erin Moriarty pode ser um nome interessante que merece ser acompanhado.

NOTA: 8,9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro de Peter Craig e de Andrea Berloff procura, claramente, um tom “realista” sobre a história e os personagens. Ninguém é totalmente bom e, aparentemente, ninguém é totalmente mau. Mas este filme é, digamos assim, mais sobre bandidos do que sobre mocinhos. Todos tem algum pecado pelo qual precisa pedir perdão, e isso torna o filme menos óbvio e um pouco mais interessante.

Este sentido de “realismo” é seguido pelo diretor Jean-François Richet. Em muitas cenas a câmera orquestrada por ele está um tanto “trêmula”, no melhor estilo de um documentário, sem grandes aparatos de sustentação ou preocupação para que a imagem fique perfeita. O diretor também cuida de estar sempre próximo dos atores, valorizando, em especial, a interação entre Mel Gibson e Erin Moriarty. Sem dúvida alguma são boas escolhas.

Como esta produção tem este tom realista e como se trata também de um filme com várias sequências de ação, outro trabalho bastante importante é o do editor Steven Rosenblum. Ele faz um bom trabalho – e difícil, diga-se. Importante também o trabalho do diretor de fotografia Robert Gantz que tem, especialmente nas cenas noturnas, um belo desafio. Mas ambos se saem muito bem. Da parte técnica do filme, vale destacar também a trilha sonora bastante presente de Sven Faulconer.

Na minha crítica acima eu destaquei o trabalho de Mel Gibson e Erin Moriarty porque, realmente, este filme é centrado nos dois. Citei também o vilão da história, o personagem de Diego Luna. Ele está bem, mas achei a interpretação dele um tanto linear demais, sem nuances, sem a complexidade que ele poderia ter. Provavelmente mais culpa do roteiro do que do ator, ainda que eu acho que Diego Luna poderia ter se saído melhor. Parecia que estava apenas “cumprindo tabela”.

Um pouco melhor que ele eu achei outros atores secundários, como o veterano William H. Macy como Kirby, melhor amigo do protagonista e “padrinho” dele no AA, em um trabalho discreto, pontual, mas interessante; Michael Parks como “Preacher”, o líder do grupo do qual John Link fazia parte, responsável por ele ter ficado tanto tempo na prisão, e que tem uma passagem estranha mas curiosa no filme; Dale Dickey em um pequeno papel como a companheira bandida de Preacher; Miguel Sandoval como Arturo Rios, o outro lado da moeda do Preacher, ou seja, o cara que está na prisão mas que é uma espécie de manda-chuva do pedaço e que acaba ajudando o protagonista – bem diferente do antigo “chefe” dele. Além destes, há vários bandidos que aparecem em cena. Destes, destaque para Raoul Max Trujillo como The Cleaner, o mais malvado dos malvados. Ele realmente assusta pelo porte e pela cara de mau.

Blood Father estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio deste ano. Depois, o filme passaria ainda por outros três festivais de cinema. Em nenhum destes festivais ele recebeu qualquer prêmio.

Esta produção foi totalmente rodada no Estado do Novo México, nos Estados Unidos, em cidades como Laguna e Belen.

Antes deste filme ser dirigido por Jean-François Richet e estrelado por Mel Gibson, o ator Sylvester Stallone tinha planos, em 2008, para dirigir e estrelar esta produção.

O ator Raoul Max Trujillo já tinha trabalhado com Mel Gibson antes. Ele faz um trabalho importante como o guerreiro chefe do filme Apocalypto, que foi dirigido por Gibson.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 39 textos positivos e seis negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 6,7. Em termos de nível de aprovação, é um belo desempenho deste filme.

Este filme, apesar de ter sido totalmente rodado nos Estados Unidos e de ter protagonistas norte-americanos, é uma produção francesa. Certamente por causa do diretor.

CONCLUSÃO: Sim, este é mais um filme de vingança. Uma garota atira em um cara que ela não deveria ter atirado e a partir daí ela começa a ser caçada. Para a “sorte” desta garota, ela tem um pai que é bandidão e que pode colocar frente aos outros bandidos. Na essência, Blood Father não é novo. Mas além da perseguição propriamente dita e das consequentes cenas de ação muito bem feitas, a tentativa do protagonista em, mesmo em meio ao caos, “tirar o atraso” na relação com a filha e resgatar um pouco a relação com ela é um ponto interessante e diferenciado da produção. No fim das contas, é um bom filme. Envolvente, com uma bela interação e sintonia entre os dois atores principais. Incomoda alguma forçada de barra, mas nada que não torne a experiência interessante.

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We Are What We Are – Somos o que Somos

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Há vários tipos de filmes de terror. Existe aquele estilo que deixa o espectador em permanente tensão e que provoca sobressaltos pontuais, enquanto outros filmes cozinham a tensão a fogo lento. Há histórias que exploram a violência, os cortes e o sangue, enquanto outros apostam mais no terror psicológico – na sugestão e não na exposição do terrível. We Are What We Are é do estilo fogo lento, que na maior parte do tempo apenas sugere o terror, mas que também escolhe um “grand finale” que parece escolha de gente maluca. E há muitos malucos por aí.

A HISTÓRIA: Teia de aranha, barulho de pássaros, e uma frase de Alyce Parker que diz que aquilo que é feito é feito com amor e que a vontade de Deus deve ser feita. Depois, cenas de um lago e de florestas. Chove. Naquele cenário de interior, uma folha cai de uma árvore e é levada pelas águas. As mesmas que passam sob um rio, por sobre o qual trafega uma caminhonete que vai nos levar até uma casa branca por onde Emma Parker (Kassie Wesley DePaiva) olha da porta para fora. É sexta-feira. E mesmo com muita chuva, Emma dirige até a venda mais próxima. Mas ao sair de lá com compras, ela olha para a foto de uma garota desaparecida e passa mal. Enquanto isso, na casa da família, as irmãs Iris (Ambyr Childers) e Rose (Julia Garner) cuidam do caçula Rory (Jack Gore) após ler o bilhete da mãe que não vai voltar mais para casa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a We Are What We Are): Serei honesta com vocês. Este filme me deu preguiça de escrever. Ao ponto de eu ficar alguns dias me enrolando para começar este post e em dúvida em como iniciá-lo. E isso não ocorreu porque o filme é perturbador. Mas porque eu achei ele bem mais fraco do que eu esperava.

Logo no início de We Are What We Are fica claro o desejo do diretor e roteirista Jim Mickle em fazer um filme de terror com uma pegada bem “realista”. Assim, mergulhamos nas paisagens e no “jeito de ser” daquela comunidade do interior dos Estados Unidos para compreender um pouco melhor o que está por vir. Ainda assim, é preciso muita generosidade na imaginação para acreditar na história.

Vendo o cartaz de We Are What We Are e pensando no título do filme, a primeira teoria que formulei é que esta seria a história de uma família com uma história muito pesada. Talvez até de torturas, violência física e mental praticadas por um pai dominante contra as mulheres da família. Logo pensei nas histórias reais que volta e meia aparecem no noticiário e me “preparei” para ver, inclusive, um pai que abusasse sexualmente de seus filhos. Ledo engano.

No caso deste filme, a ficção fica aquém das histórias da vida real. Isso porque tudo se resume a um único mistério. Algo que perdurou por séculos e que, convenhamos, fica difícil de acreditar que nunca tenha sido descoberto. Mas um acerto no roteiro de Mickle com Nick Damici (que também interpreta ao sheriff Meeks), baseados no trabalho original de Jorge Michel Grau, é que ele não demora nada para mostrar a primeira morte. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Emma morre de um jeito estranho, “vomitando” um líquido negro que nos faz pensar se ela pode ter sido envenenada… ou se havia algo sobrenatural naquela morte.

Mas a dúvida dura praticamente nada. Porque logo percebemos que a família Parker costuma manter reféns no porão do celeiro onde apenas o patriarca, Frank (Bill Sage) pode entrar. E daí não demora muito para sabermos que eles são canibais. Pronto, mistério desvendado. E o “risco” que a família corre parece pouco ameaçador, com uma investigação bem capenga feita pelo Dr. Barrow (Michael Parks) e pelo recém formado policial Anders (Wyatt Russell).

O problema é que ainda que o roteiro acerte ao mostrar a primeira morte logo, despertando o interesse do público, We Are What We Are demora para decolar. Ao invés de entrar mais diretamente na tensão da família Parker, a história gasta um tempo precioso focando a “vida comum” daquelas pessoas. Desde o cereal que Rory não pode comer até a relação com a simpática e desimportante vizinha Marge (Kelly McGillis). Para mim, boa parte daquela “ambientação” poderia ter sido economizada para entrarmos com um pouco mais de profundidade na tradição familiar ou nos conflitos dentro da casa dos Parker.

Claro que o “banho maria” serve para alimentar a expectativa para que algo diferente aconteça. E não chega a ser um total sacrifício esperar por isso já que os atores são muito bons. Mas de fato falta ritmo para We Are What We Are. E, como eu disse, também acho que a vida real já nos apresentou casos muito mais tenebrosos que este. No fim das contas, o mais difícil de acreditar não é que os Parker eram canibais. Mas que desde 1782 aquela família preservava o costume de sequestrar e matar pessoas e que eles nunca haviam sido pegos – ou seja, mais ou menos 230 anos de crimes estranhamente “invisíveis”.

E daí vem a minha teoria de que um filme de terror tem que ter uma mínima de lógica para poder convencer. Admito um louco matando um monte de gente por puro prazer, até porque há muitos por aí, mas acreditar que os Parker seguiram com esta tradição por tanto tempo é beeeeem complicado. Sem contar que o filme me deixou com mais dúvidas do que respostas, em alguns momentos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por exemplo: os Parker só matavam e comiam as suas vítimas no período de “quaresma” ou faziam isso o tempo inteiro?

Se a resposta é a primeira alternativa, então de fato comer carne humana uma vez por ano poderia provocar aquela “doença de kuru” – também chamada de “doença de Creutzfeldt-Jakob”? E se a resposta é a segunda alternativa, da onde os Parker arranjaram tantas vítimas em mais de 200 anos de canibalismo? Difícil acreditar em uma versão ou em outra. Se bem que faz mais sentido a primeira versão – de que eles eram canibais uma vez por ano. Buscando mais informações sobre a “doença de kuru” encontrei este texto bem elucidativo. Mas daí o que não bate na história é que a doença não se manifesta porque se come carne humana, mas sim porque alguém que tem o tal príon contamina os demais ao ser devorado.

Outro ponto que me pareceu obscuro foi o da morte da filha do casal Kimble (Traci Hovel e Nat DeWolf). Afinal, por que aquela história entrou ali no meio? Apenas como “cortina de fumaça” e para desviar a atenção do espectador? Vejamos. A garota não foi levada como refém por Frank. Mas pode ter sido morta por ele – quando o corpo dela é encontrado no rio não dá para descartar que alguém tenha se desfeito do carro e dela após um crime. Ainda que a cena sugira que ela tenha morrido afogada após cair com o carro ali. Então para que mostrar Frank na estrada caminhando em direção à ela? E se foi ele que matou a garota e depois “desovou” o carro e a vítima no rio, para que ele mataria alguém sem o propósito de “alimentar a família”? O provável é que ele fosse inocente na história – e tenha ajudado a garota na estrada mesmo. Mas achei desnecessário e um elemento a mais para confundir quem assiste.

Descontado estes dois pontos que achei dispensáveis, Mickle faz um trabalho cuidadoso a maior parte do tempo. Ele escolhe algumas cenas bem interessantes e ângulos diferenciados. Tem um estilo de direção que flui na tela, ritmado em muitas ocasiões. Os atores também fazem um bom trabalho, especialmente Bill Sage, que interpreta o sempre ameaçador Frank. As atrizes que fazem as irmãs Iris e Rose também dão conta do recado em papéis complicados. O jovem Jack Gore irrita um pouco com Rory, mas acho que esta era uma das suas funções.

Mesmo com os acertos, incluindo vários quesitos técnicos (dos quais vou falar logo abaixo), senti falta de mais cenas de abuso familiar. Porque, convenhamos, que garotas iriam concordar em seguir uma tradição familiar tão absurda apenas porque o pai dizia que tinha que ser feito e porque era a “vontade de Deus”. Aliás, o que justificaria essa “vontade divina”? Por que apenas os Parker deveriam ter o direito de comer outras pessoas – e não serem devorados? Bastante sem pé e sem cabeça… quase literalmente. 🙂

Daí quando você pensa que aquela história está absurda demais, vem o “grand finale”. hehehehehehe. Admito que achei a cena da “comilança” das meninas muito coerente com o filme. Afinal, se é para apostar no macabro, vamos apostar com todas as fichas, não é mesmo? Sem dúvida aquela sequência é a melhor do filme – para quem gosta do gênero terror, é claro. Admito que, até ali, tinha achado We Are What We Are muito “água com açúcar” na parte do terror. Mas a sequência na mesa, após uma bem difícil de acreditar perseguição de Frank (que poderia ter sido derrubado por qualquer um naquela condição frágil e já doente), serve como uma redenção do filme. Tardia, quase, mas à tempo. Um filme macabro que se justifica no final, mas que deveria ter mais força no resto do tempo.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Ryan Samul, da decoração de set de Daniel R. Kersting e dos figurinos de Liz Vastola. Todos estes elementos ajudam Jim Mickle a contar esta história e ambientar os personagens no contexto correto – eles vivem no melhor estilo de “família recatada e muito devota”. Também funciona a edição de Mickle e a trilha sonora de Phil Mossman, Darren Morris e Jeff Grace.

Além dos atores já citados, vale comentar que a frase que aparece no início do filme é de autoria da personagem Alyce Parker, interpretada por Odeya Rush. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela faz parte da reconstituição da “tradição” dos Parker e escreve a “Bíblia” da família – que ensina, entre outros pontos, como esquartejar uma pessoa.

Falando nos atores, sem dúvida os melhores em cena, além das irmãs Parker, são os que interpretam ao pai das meninas e ao médico-detetive. Agora, uma curiosidade sobre o elenco: a atriz que faz a vizinha, Marge, é ninguém mais, ninguém menos que a mesma atriz que estrelou Top Gun ao lado de Tom Cruise. Sim senhores! O tempo passa diferente para as pessoas, sem dúvida – basta olhar para Tom Cruise e outros astros que pouco envelheceram enquanto os seus pares de menos sucesso passaram por outra experiência.

Agora, vamos voltar às confusões que este filme provoca. Afinal de contas, porque vemos ao cartaz de Bridget Rafferty, sabemos da história da jovem Kimble e depois ouvimos o nome de Sra. Stratton (na verdade, Arlete Stratton, interpretada por Annemarie Lawless)? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Imagino que jogar na tela os nomes de três vítimas diferentes seja a forma de Mickle deixar ainda mais claro que os Parker tem uma verdadeira multidão de vítimas nas “costas”. O incrível mesmo é que nunca a vizinha Marge ou qualquer outra pessoa tenha desconfiado deles, não é mesmo? Se ainda houvessem outros cúmplices… tipo o delegado, ou os próprios vizinhos, eu acharia mais fácil de acreditar.

We Are What We Are me pareceu desleixado em alguns momentos. Por exemplo, na primeira vítima dos Parker, em 1782… aquele cadáver estava beeeem mal feito. Depois, achei bem absurdo que a Sra. Stratton estava acorrentada e amordaçada tendo as mãos livres… quem, ao ser sequestrada e colocada em cativeiro, seguiria amordaçada podendo usar as mãos para tirar o pano da boca? hahahahahahaha. Detalhes que poderiam ter sido melhor cuidados.

Na verdade, acho a minha nota acima até generosa. Levando em conta todos estes pontos falhos do filme. O que acontece é que gostei do final. Ele acabou me deixando de boca aberta e garantindo alguns pontos para o filme.

Não há muitas informações sobre o custo ou a bilheteria que We Are What We Are conquistou em diferentes mercados até agora. O site Box Office Mojo, por exemplo, traz apenas a informação de que este filme estreou nos Estados Unidos no dia 27 de setembro e que teria faturado, até o final de outubro, pouco mais de US$ 81,3 mil. Uma miséria. E para ficar ainda mais claro como esta produção estreou sem força nos EUA, We Are What We Are abriu a temporada por lá em apenas duas salas de cinema.

Este filme estrou no Festival de Sundance em janeiro de 2013. Depois, ele participaria de outros 12 festivais, incluindo o de Cannes. Segundo o site IMDb, apesar desta trajetória considerável, ele não conseguiu nenhum prêmio até o momento.

Falando no IMDb, se eu fosse levar em conta a opinião dos usuários do site, não teria assistido a We Are What We Are. Afinal, eles deram apenas a nota 5,7 para esta produção. Para comparar, o filme original, o mexicano Somos Lo Que Hay, de 2010, dirigido por Jorge Michel Grau, ostenta a nota 5,6 no site. Ou seja, ambos bem abaixo da média que considero ideal – a partir de 6,5, pelo menos. Mas o que me convenceu a assistir a este filme foi a avaliação dos críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes. Eles dedicaram 49 críticas positivas e oito negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,1. Muito boa esta nota, levando em conta a tendência do site.

Este é um filme 100% dos Estados Unidos – o que faz a lista de produções que atendem a uma votação aqui no site apenas “engrossar”.

CONCLUSÃO: Honestamente, eu esperava mais de We Are What We Are. Mesmo sem conhecer o filme original, de 2010, esperava por uma produção com rasgos mais doentios, por assim dizer. Ou, pelo menos, com maior tensão. Acho que a história cozinha tão lentamente que chega a dar um pouco de sono… tudo para, claro, chegarmos a um final macabro e extremamente esquisito. O que combina com o filme, é claro. Mas ainda que o desfecho seja coerente, há outras partes que não são, e o sentimento que esperamos de um filme assim na maior parte do tempo não acontece. Ainda assim, esta produção acerta na escolha do elenco e do “clima” da produção. Mas lhe faltam outros predicados para ser mais marcante. É bom, mas há outros do gênero muito melhores.