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Blood Father – Herança de Sangue

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Para fazer um filme um bocado maluco, você precisa ter uma estrela igualmente “crazy”. Blood Father, em essência, não tem nada de novo. Pelo menos o argumento central não é inovador. Mas ele tem uma segunda camada de leitura interessante e que funciona muito bem. E à frente da trama, o ator um tanto maluco Mel Gibson. Ele está mais velho, mais experiente, mas não perdeu aquele olhar um tanto “descompassado” que volta e meia vemos nele. Para este filme, isso funciona muito bem.

A HISTÓRIA: A imagem de uma menina surge aos poucos e vemos que se trata de um cartaz de pessoa desaparecida. Pelas informações, sabemos que a garota está desaparecida desde os 14 anos. Uma jovem compra várias caixas de munição e um chiclete. Quando pede um cigarro, a caixa pede a identidade dela. Na sequência, a garota entra em um carro cheio de caras armados.

Um dos bandidos reclama que a garota de Jonah (Diego Luna) comprou munição errada para ele. O grupo sai em direção a uma casa, e a garota fica no carro. Ela resiste a seguir o grupo, mas Jonah a ameaça e diz que precisa confiar nela. O final daquela situação levará Lydia (Erin Moriarty) para uma busca desesperada por proteção.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Blood Father): Mel Gibson está mais velho, mais experiente e, parece, mais interessante. Assistindo a Blood Father temos a impressão de que a fase mais “louca” e “raivosa” do ator já passou. Então, talvez, possamos ver a fase inicial da carreira dele, com o primeiro Mad Max, Gallipoli, The Year of Living Dangerously e Lethal Weapon como a primeira grande fase do ator e, quem sabe agora, o início de um grande outro momento.

Mas ainda é cedo para dizer se o ator passou a fase mais louca da vida e vai começar, novamente, a apresentar um grande trabalho. De qualquer forma, é bom vê-lo um pouco mais centrado e com os “olhos menos arregalados”, se é que vocês me entendem. Ao menos eu voltei a acreditar em uma interpretação dele. Ajuda o fato, claro, do personagem dele em Blood Father ser um pouco “underground”, o que casa com o estilo do ator. Mas, de fato, ele está um pouco menos “over”, com uma interpretação bem mais coerente e que faz quem gosta dele acreditar no que ele está fazendo e não vendo apenas ao personagem “Mel Gibson”.

Descontadas as bobagens que ele fez na vida pessoal, eu gosto do estilo Mel Gibson de ser. Afinal, ele saiu daquele perfil de galã do início de carreira para abraçar um tipo de produção mais underground e, com Blood Father, mais realista. Bem, pelo menos até perto do final. Envelhecido, com as rugas bem à mostra e com um personagem que deixa claro que é um bandido que tenta levar uma vida sem maiores problemas até que a filha com bandidos atrás dela aparece, Mel Gibson faz um belo trabalho neste Blood Father.

O filme, evidentemente, é bem centrado no trabalho do ator. Mas ele não está sozinho. Pelo contrário. Por quase todo o filme ele faz uma bela parceria com a jovem atriz Erin Moriarty. Além de muito bonita, a garota tem estilo e tem talento. No filme, a personagem dela está começando a trilhar o caminho da malandragem, se envolvendo com um bandido de porte grande que nem ela imaginava o quanto de poder de fogo ele tinha.

Se o pai dela no filme é “macaco velho”, sabe todos os caminhos da bandidagem e da criminalidade, ela ainda está tateando neste mundo. Mas como fugiu de casa aos 14 anos de idade e andou por aí se virando por conta própria, ela também aprendeu um e outro truque. Bonita, ela sabe usar este argumento a seu favor. E é assim que, pouco a pouco, pai e filha vão se aproximando enquanto eles correm em fuga para tentar sobreviver. No caminho, claro, ele também procura saber quem está realmente perseguindo os dois. Conhecer o inimigo é uma questão vital.

O filme, que poderia ser apenas mais uma história de “bandido persegui mocinha que tem que fazer tudo para sobreviver”, acaba sendo também uma interessante história de aproximação entre pai e filha. Fica evidente, nas entrelinhas do roteiro de Peter Craig e Andrea Berloff, baseado no livro de Peter Craig, que apesar da pouca convivência com o pai, que ficou muito tempo preso, Lydia admira John Link e busca seguir vários de seus passos em sua própria jornada.

Quando ela se vê em apuros, ela sabe que não pode contar com mais ninguém. Se alguém sabe como lidar com bandidos é o pai dela. Algo interessante de Blood Father também é que os roteiristas e o diretor Jean-François Richet não “douram a pílula”. Ou seja, os protagonistas são enrolados, tem uma tendência forte para o crime, e isso não é escondido. John Link queria uma vida tranquila, fora de confusão, mas quando ele tem que proteger a filha, ele não se importa em matar. Lydia certamente não quer matar inocentes, mas se tiver que matar algum bandido para se defender, ela não pensará por muito tempo.

Não faltam tiros e cenas de ação nesta produção, ainda que os roteiristas e o diretor acertem ao não resumir a história apenas a isso. Pelo contrário. O filme equilibra bem estas cenas de ação com o desenvolvimento da relação entre os protagonistas. Por isso eta produção funciona e foge um pouco do lugar-comum. Se a história propriamente dita não inova, pelo menos ela apresenta um certo molho e mais de uma camada de leitura e de interesse. Algo que é bem-vindo em um filme deste estilo.

O realismo é um dos elementos presentes em grande parte desta produção. Por exemplo, John Link mora em um trailer velho, tem um carro que muitas vezes não pega na primeira e parece ter sempre o dinheiro contado. Lydia certamente vive “um dia de cada vez”. Os dois são, digamos assim, uns “ferrados”. Mas estão procurando os seus próprios caminhos tentando fazer o menor dano possível. Apenas por isso eles já merecem uma chance.

Enquanto John Link descobre que o ex-namorado da filha é herdeiro de uma quadrilha realmente barra pesada, a dupla segue sendo perseguida. Fica claro que querem dar um fim na garota, e demora um tempo para sabermos o porquê. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não é exatamente uma surpresa quando sabemos que Jonah não morreu. Ele persegue Lydia para que ela não conte para ninguém que ele está enganando a quadrilha mas, provavelmente e acima disso, porque ele quer se vingar da garota.

Mas aí reside o principal problema desta história. Se o desenvolvimento do filme até é bom e convence por boa parte do tempo, a reta final da história é de chorar. A “super” esperta Lydia não se toca de dar um fim no próprio celular – questão básica para quem não quer ser rastreado, certo? Pouco a pouco, com o celular na mão, ela vai dando a pista para os perseguidores por onde ela anda. Quando, finalmente, ela é pega, é ridícula a negociação de John Link com Jonah. Se o rapaz realmente fosse bandido, ele não daria nenhuma chance para pai e filha se livrarem.

Primeiro, provavelmente teria matado Lydia antes de John Link se aproximar. E mesmo que não tivesse feito isso, esperando para “desfrutar” do fim da ex-namorada, certamente ele não deixaria o pai dela “se despedir” da filha. Não tem muita lógica toda aquela sequência final, de John Link se sentando ao lado da filha e dos bandidos “caindo” na armadilha da morte, em especial. Depois, claro, o filme se redime um pouco com o final para John Link – ainda que o tiroteio final “à la” faroeste pareceu um tanto forçado também.

Enfim, um filme bom, interessante pela boa parceria entre os atores principais, com uma ou outra ideia bacana mas com muitas outras saídas bem batidas, além de um final que esvazio boa parte das qualidades da produção. Ainda assim, após aquele “tiroteio final”, ainda temos uma Lydia se declarando para o pai, o que ficou bacana e torna a decepção com o final um pouco menos irritante. A boa notícia é que Mel Gibson voltou a fazer um bom trabalho, e que Erin Moriarty pode ser um nome interessante que merece ser acompanhado.

NOTA: 8,9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro de Peter Craig e de Andrea Berloff procura, claramente, um tom “realista” sobre a história e os personagens. Ninguém é totalmente bom e, aparentemente, ninguém é totalmente mau. Mas este filme é, digamos assim, mais sobre bandidos do que sobre mocinhos. Todos tem algum pecado pelo qual precisa pedir perdão, e isso torna o filme menos óbvio e um pouco mais interessante.

Este sentido de “realismo” é seguido pelo diretor Jean-François Richet. Em muitas cenas a câmera orquestrada por ele está um tanto “trêmula”, no melhor estilo de um documentário, sem grandes aparatos de sustentação ou preocupação para que a imagem fique perfeita. O diretor também cuida de estar sempre próximo dos atores, valorizando, em especial, a interação entre Mel Gibson e Erin Moriarty. Sem dúvida alguma são boas escolhas.

Como esta produção tem este tom realista e como se trata também de um filme com várias sequências de ação, outro trabalho bastante importante é o do editor Steven Rosenblum. Ele faz um bom trabalho – e difícil, diga-se. Importante também o trabalho do diretor de fotografia Robert Gantz que tem, especialmente nas cenas noturnas, um belo desafio. Mas ambos se saem muito bem. Da parte técnica do filme, vale destacar também a trilha sonora bastante presente de Sven Faulconer.

Na minha crítica acima eu destaquei o trabalho de Mel Gibson e Erin Moriarty porque, realmente, este filme é centrado nos dois. Citei também o vilão da história, o personagem de Diego Luna. Ele está bem, mas achei a interpretação dele um tanto linear demais, sem nuances, sem a complexidade que ele poderia ter. Provavelmente mais culpa do roteiro do que do ator, ainda que eu acho que Diego Luna poderia ter se saído melhor. Parecia que estava apenas “cumprindo tabela”.

Um pouco melhor que ele eu achei outros atores secundários, como o veterano William H. Macy como Kirby, melhor amigo do protagonista e “padrinho” dele no AA, em um trabalho discreto, pontual, mas interessante; Michael Parks como “Preacher”, o líder do grupo do qual John Link fazia parte, responsável por ele ter ficado tanto tempo na prisão, e que tem uma passagem estranha mas curiosa no filme; Dale Dickey em um pequeno papel como a companheira bandida de Preacher; Miguel Sandoval como Arturo Rios, o outro lado da moeda do Preacher, ou seja, o cara que está na prisão mas que é uma espécie de manda-chuva do pedaço e que acaba ajudando o protagonista – bem diferente do antigo “chefe” dele. Além destes, há vários bandidos que aparecem em cena. Destes, destaque para Raoul Max Trujillo como The Cleaner, o mais malvado dos malvados. Ele realmente assusta pelo porte e pela cara de mau.

Blood Father estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio deste ano. Depois, o filme passaria ainda por outros três festivais de cinema. Em nenhum destes festivais ele recebeu qualquer prêmio.

Esta produção foi totalmente rodada no Estado do Novo México, nos Estados Unidos, em cidades como Laguna e Belen.

Antes deste filme ser dirigido por Jean-François Richet e estrelado por Mel Gibson, o ator Sylvester Stallone tinha planos, em 2008, para dirigir e estrelar esta produção.

O ator Raoul Max Trujillo já tinha trabalhado com Mel Gibson antes. Ele faz um trabalho importante como o guerreiro chefe do filme Apocalypto, que foi dirigido por Gibson.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 39 textos positivos e seis negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 6,7. Em termos de nível de aprovação, é um belo desempenho deste filme.

Este filme, apesar de ter sido totalmente rodado nos Estados Unidos e de ter protagonistas norte-americanos, é uma produção francesa. Certamente por causa do diretor.

CONCLUSÃO: Sim, este é mais um filme de vingança. Uma garota atira em um cara que ela não deveria ter atirado e a partir daí ela começa a ser caçada. Para a “sorte” desta garota, ela tem um pai que é bandidão e que pode colocar frente aos outros bandidos. Na essência, Blood Father não é novo. Mas além da perseguição propriamente dita e das consequentes cenas de ação muito bem feitas, a tentativa do protagonista em, mesmo em meio ao caos, “tirar o atraso” na relação com a filha e resgatar um pouco a relação com ela é um ponto interessante e diferenciado da produção. No fim das contas, é um bom filme. Envolvente, com uma bela interação e sintonia entre os dois atores principais. Incomoda alguma forçada de barra, mas nada que não torne a experiência interessante.

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Room – O Quarto de Jack

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Algumas vezes ficamos estarrecidos com algumas notícias que lemos nos jornais. Nestes momentos, a realidade supera a ficção. Quando isso acontece, nossa imaginação não consegue alcançar todos os pormenores do absurdo. Somos incapazes, simplesmente, de mensurar o que aquelas pessoas passaram e o que elas sentiram. Mas Room faz isso pela gente. Exemplo de roteiro, de direção e de atuações, esta é uma das grandes surpresas desta temporada de filmes que chegam com força para as grandes premiações do ano. Indicado ao Globo de Ouro 2016, sem dúvida alguma ele precisa ser valorizado também pelo Oscar para que mais gente descubra esta joia rara.

A HISTÓRIA: Detalhes de objetos. Jack (Jacob Tremblay) começa a acordar, mas a mãe (Brie Larson) dele pede para o menino de cabelos compridos voltar a dormir. Em seguida, começa a narrativa de Jack. Ele conta que antes dele nascer, ela só chorava e assistia à TV. Mas um dia, Jack conta, ele desceu do Céu pela Claraboia até o Quarto. Ele nasceu no tapete, e a mãe cortou o cordão umbilical do menino antes de dar o nome para ele de Jack. Mãe e filho estão deitados lado a lado. Jack lembra a mãe que hoje ele está fazendo cinco anos. Depois de acordar, Jack cumprimenta os objetos do quarto antes de saber que a mãe fará um bolo para ele. Acompanhamos o cotidiano deles antes de saber porque eles estão lá.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Room): Meus caros leitores, amigos e amigas que acompanham este blog, vocês sabem que estes textos de análise costumam contar partes importantes dos filmes e estragar surpresas. Sempre alerto sobre isso com os avisos de spoilers mas, desta vez, quero realmente pedir para vocês não lerem o texto antes de assistirem ao filme. Falo isso porque grande parte da força e da beleza de Room reside, realmente, nas surpresas que esta produção nos apresenta – levando em conta, claro, que você não leu ao livro de Emma Donoghue antes e que não tenha lido nada a respeito ou visto o trailer.

Bem, eu defendo essa “ignorância” antes de ver aos filmes. Não gosto de trailers e nem de ler nada a respeito deles antes de assisti-los. Também não li o livro no qual esta produção foi baseada. Por isso comento que fui totalmente surpreendida pela história. Claro que em pouco tempo o espectador percebe que aquele quarto não é um ambiente normal. A narrativa de Jack, logo no início, deixa o espectador desconfiado. Mas conforme o dia do aniversário de Jack vai se desenvolvendo, fica claro que a mãe dele foi sequestrada por um destes loucos dos quais volta e meia a gente ouve falar.

Não foram nem um e nem dois. Nos últimos anos tivemos alguns casos de mulheres sendo resgatadas de situações de cativeiro aonde elas ficaram por diversos anos. Sempre que leio sobre uma história sobre essa, tento imaginar a situação pela qual aquelas mulheres passaram. Mas como eu disse lá no início, nossa imaginação não consegue ir tão longe. Sempre me sinto incapaz de me colocar no lugar daquela mulher que foi encarcerada e abusada por tanto tempo e de diferentes formas.

Por isso mesmo achei Room impressionante. Primeiro, pela escolha do tema. Não lembro de ter visto a outro filme que entrasse nesta seara pela ótica dos prisioneiros do maníaco. E o melhor: acompanhamos a história pela ótica da criança. Sem dúvida alguma o roteiro de Emma Donoghue, que adaptou o seu livro para o cinema, é o ponto forte do filme. Como uma criança aceitar ficar trancada em um quarto por cinco anos? Tudo que ela conhece da vida e do mundo está restrito àquelas quatro paredes. A única forma de aceitar aquela realidade é acreditar que aquilo é tudo o que existe.

Neste sentido, Room tem um início genial. Até o aniversário de cinco anos, Jack vivia a fantasia de que a realidade existia dentro daquele quarto. Sempre que o Velho Nick (Sean Bridgers) aparecia, Jack era colocado dentro do armário. Algumas vezes ele ouvia e até espionava o Velho Nick pelas frestas do armário, mas ele nunca tinha “confrontado” a realidade cara a cara. A saída dele do armário e os fatos que acontecem na sequência ajudam a mãe dele a tomar uma decisão ousada.

Primeiro ela tenta explicar para o filho que a realidade na qual ele acreditava até então foi inventada por ela porque antes ele era muito novo para entender. Claro que o garoto não reage bem. Imaginou tudo que você acredita ser realidade, de uma hora para a outra, ser mentira? Algo interessante de Room é que a história convence a cada minuto, mesmo ela sendo tão absurda – afinal, esses crimes são irreais mesmo.

A mãe de Jack chega ao limite e compartilha com o filho o seu drama – explica como ela tinha uma família, se chamava Joy e, aos 17 anos, foi sequestrada pelo Velho Nick. Ele resiste, mas ela quase se entrega. Até que o menino mostra que ele entendeu a mensagem. E aí vem o passo mais ousado de Joy: usar o filho para que os dois tenham alguma chance de sair dali. De uma tentativa arriscada, chegamos em uma segunda ainda mais maluca.

Room tem, neste momento, um grande momento. Além do roteiro bem construído até aí, a direção de Lenny Abrahamson se destaca no momento em que Jack se entrega no plano da mãe para os dois escaparem. Ela sabe que tudo pode dar errado e que ela, talvez, nunca mais veja Jack novamente. Mas ela está cansada e desesperada e resolve arriscar tudo em cartadas muito arriscada.

Abrahamson dá um show de direção o filme todo, mas especialmente naquele momento da fuga. Nesta hora, o roteiro e a edição também ajudam muito. (SPOILER – realmente não leia se você não assistiu ao filme ainda). Até a fuga, o roteiro está em pura ascensão. Como a narrativa funciona, o espectador é levado pela mão e fica impossível não torcer pelo plano maluco de Joy. Para a nossa surpresa, ele dá certo – graças a boas doses de pura sorte, da esperteza de Jack e do bom trabalho da policial Parker (Amanda Brugel).

Francamente eu achei que quando a polícia chegasse na casa encontrariam Joy morta. Isso bem poderia ter acontecido, mas o covarde do Velho Nick preferiu tentar fugir do que dar fim em sua testemunha de acusação. Na vida real isso poderia ter acontecido, mas também podia ter acontecido o pior. Na trama Joy tem sorte e sobrevive. E daí o filme passa a ter um outro ritmo bem diferente. Esqueça o ritmo crescente e a adrenalina. Aí começa a parte da “vida real” após o drama. Aquilo que não vemos nas coberturas de casos assim nos jornais e TVs.

E aí, para mim, esta é uma outra grande qualidade do filme. Além do cotidiano maluco de quem está sequestrado por tanto tempo e presa em um quarto, Room mostra a dura volta para a realidade. E o melhor: sob duas óticas. Ainda que o filme continue sendo narrado por Jack, acompanhamos de muito perto as reações de Joy e a tentativa dela de voltar a ter “uma vida normal”.

Mais uma vez o roteiro de Donoghue se destaca nesta segunda fase do filme. Aqui não há a adrenalina dos preparativos para a fuga e do plano sendo executado, mas há a parte humana em evidência. Muitas pessoas, da imprensa até os espectadores das notícias na TV, não tem receio em questionar pessoas como Joy. Afinal, por que ela não deu um jeito do filho ser levado para fora do quarto para ele ter uma vida normal? Ela foi “egoísta” e quis ficar com ele ao invés de pensar em Jack em primeiro lugar.

Bobagem. Como mãe, ela fez o que achou ser o melhor e viveu para cuidar do filho. Muitos se preocupam com os traumas que uma criança pode ter em uma situação como aquela. Mas Room demonstra, com muita precisão, como as crianças conseguem se recuperar de maneira muito mais rápida que os adultos. Até porque Joy teve a consciência do que acontecia o tempo todo. Tinha memória de tudo e, o pior, aquele sentimento de culpa que é típico de toda pessoa que já viveu em uma sociedade com valores judaico-cristãos.

Não estava sendo fácil para Joy lidar para a realidade fora do quarto, aonde ela ficou aprisionada por sete anos, pensando no mundo de fora e tendo que aguentar aquela tortura cotidiana. Mas ficou ainda pior a situação com a pergunta da repórter sobre a responsabilidade dela como mãe de Jack. Se a consciência e a memória já pesavam, ficou insuportável a situação com a culpa adicionada.

Mais uma vez Jack mostra como ele era inteligente. Muito bem criado pela mãe naqueles cinco anos de cativeiro. Ele não apenas dá um incentivo fundamental para Joy como, para arrematar a história, mostra como é importante para uma pessoa traumatizada voltar para o local do próprio drama e conseguir, assim, se despedir daquela realidade. Para então seguir em frente.

A ótica de uma criança que tinha uma realidade totalmente limitada e que, de repente, passa a ter o mundo à frente, com todas as suas possibilidades e escolhas, é maravilhosa. Inspiradora. Nos faz parar para pensar não apenas no que passamos até aqui, na sorte que tivemos, mas também na beleza de ter um olhar mais curioso e atencioso aos detalhes, ao que não conhecemos. Filme bem narrado, com um texto impecável de Donoghue e uma direção perfeita de Abrahamson, tem no talento dos protagonistas e no elenco de apoio a peça que faltava para ser perfeito.

Eis uma história que surpreende e convence. Que não deixa nenhum fio solto e que começa, se desenvolve e termina bem. Há suspense, ação, drama e comédia nas doses exatas. Nada falta, nada sobra. Isso é tão raro! Sem nenhuma grande estrela no elenco para chamar o grande público, este é o típico filme que só vai dar certo se for recomendado de pessoa para pessoa. Espero que isso aconteça.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Quando você assiste a um filme de um diretor ou de um roteirista conhecido, destes que você tem acompanhado o trabalho por algum tempo, você já sabe um pouco o que esperar. A expectativa pela nova produção surge naturalmente. O mesmo acontece quando assiste a um filme de um grande ator ou atriz de quem você gosta também. Por isso mesmo Room me surpreendeu tanto. Porque este é o primeiro trabalho que eu vejo de seus realizadores, do diretor Lenny Abrahamson, da roteirista/escritora Emma Donoghue e com a atriz Brie Larson. Daí fica mais fácil não ter “expectativas” e se deixar envolver totalmente por quem está por trás do filme. Essa é, sem dúvida, uma outra experiência.

Os nomes citados no parágrafo anterior são fundamentais para Room. Vamos começar falando de Lenny Abrahamson. Esse diretor irlandês de 39 anos – ele fará 40 no dia 30 de novembro deste ano – nascido em Dublin tem oito produções no currículo como diretor. Ele estreou com o curta 3 Joes em 1991 e apenas em 2004 ele lançaria o seu primeiro longa, Adam & Paul. Depois ele dirigiu ainda quatro episódios da série de TV Prosperity e quatro longas, sendo o último deles Frank, de 2014, estrelado por Michael Fassbender, Domhall Gleeson e Maggie Gyllenhaal. Francamente, não assisti a nenhum dos filmes anteriores dele, mas ficou curiosa para ver a Frank.

A roteirista Emma Donoghue praticamente estreou com Room. Antes deste filme ela tinha apenas escrito o roteiro do curta Pluck, de 2002. Nascida também em Dublin, como o diretor Abrahamson, Donoghue tem 46 anos e desde os 23 ela “ganha a vida” como escritora. Em 1997 ele terminou um doutorado na Universidade de Cambridge. Ela viveu na Inglaterra, na Irlanda e no Canadá antes de em 1998 estabelecer-se definitivamente em Londres. De acordo com o site da autora, ainda que ela tenha escrito em vários gêneros, os seus trabalho é mais reconhecido na ficção. A obra dela já foi traduzida para mais de 40 idiomas. Room é um sucesso internacional e ganhou seis prêmios. Ela também escreve para o teatro e para a rádio.

Finalmente, a surpresa de Brie Larson. A atriz californiana de Sacramento tem 26 anos de idade e nada menos que 48 trabalhos no currículo – incluindo curtas, longas e séries de TV. A estreia dela, aliás, foi na TV, no The Tonight Show with Jay Leno em 1998. No mesmo ano ela participaria da série de TV To Have & to Hold. O primeiro filme veio em 1999: Special Delivery, do desconhecido diretor Kenneth A. Carlson. Ela participou de muitos filmes fracos e, na maioria deles, em papéis secundários.

De seu filmografia, vi apenas a Rampart (com crítica aqui) – mas o papel dela, como a filha mais velha do protagonista, não foi tão valorizado, a ponto do nome dela nem aparecer entre os destaques do cartaz. Depois de Room, contudo, Larson ganha outra evidência no mercado. Tanto que ela tem um filme em pós-produção, um outro completado, um anunciado e um sendo rodado. Agora sim ela vai aparecer bem mais e provavelmente em papéis mais relevantes.

Fiquei impressionada também com o trabalho de Jacob Tremblay como Jack. Com apenas nove anos – ele completa 10 no dia 5 de outubro de 2016 -, Tremblay tem 13 títulos no currículo de ator. Claro que a lista inclui curtas e séries de TV. O primeiro trabalho de Tremblay foi na série de TV Motive, em 2013 – mesmo ano em que ele participaria do primeiro longa, The Smurfs 2. Aliás, antes de Room, ele tinha feito apenas The Smurfs 2 e participado de Extraterrestrial (mas sem ele aparecer nos créditos). Ou seja, Room é praticamente a estreia dele nos cinemas. E que estreia! O garoto está incrível no filme. Depois de Room ele atuou em um curta e no longa Before I Wake, além de ter outros três filmes em pós-produção. Ele merece ser acompanhado, com certeza.

Brie Larson e Jacob Tremblay são o filme. Eles carregam a história nas costas. Mas não dá para desprezar o trabalho dos coadjuvantes. Neste sentido, merece destaque, especialmente, Joan Allen como Nancy, mãe de Joy. Também fazem um bom trabalho, ainda que com relevância menor, Sean Bridgers como Velho Nick; Tom McCamus como Leo e William H. Macy em uma super ponta como Robert, pai de Joy.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma o grande destaque é a direção de Lenny Abrahamson. Mas além dele, fazem um trabalho fundamental o diretor de fotografia Danny Cohen; o músico Stephen Rennicks, responsável pela trilha sonora que ajuda a história a ter ritmo, especialmente nos momentos mais “líricos”; a excelente edição de Nathan Nugent; e os aspectos técnicos que ajudam o espectador a entrar no clima e no tempo da história, como o design de produção de Ethan Tobman, a direção de arte de Michelle Lannon, a decoração de set de Mary Kirkland, os figurinos de Lea Carlson e os 12 profissionais envolvidos com o departamento de arte. Todos trabalham muito bem.

Room estreou no Festival de Cinema de Telluride em première em setembro de 2015. Depois o filme participaria, ainda, de outros 11 festivais. Até o momento a produção ganhou 43 prêmios e foi indicado a outros 90 – incluindo a três Globos de Ouro. Entre os prêmios que recebeu, ele aparece na lista dos filmes do Prêmio AFI; ganhou como Melhor Filme Independente Internacional no British Independent Film Awards; como Melhor Filme pela escolha do público do Festival Internacional de Cinema de Toronto; além de nada menos que 17 prêmios pela interpretação de Brie Larson, oito pelo trabalho de Jacob Tremblay e quatro pelo roteiro de Emma Donoghue. Merecidos, todos.

Não há informações sobre o custo do filme – mas aparentemente ele foi baixo. No site BoxOfficeMojo, contudo, sabemos que Room arrecadou, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 5,2 milhões até o dia 10 de janeiro. Pouco, muito pouco. Sinal que este filme ainda precisa ser “descoberto”.

Para quem gosta, como eu, de saber aonde os filmes foram rodados, Room foi totalmente gravado no Canadá, principalmente em Toronto, mas com algumas cenas no Apache Burgers em Etobicoke – cidade que também fica em Ontário.

Agora, algumas curiosidades sobre Room. Para vocês terem uma ideia sobre o orçamento baixo deste filme, o designer de produção Ethan Tobman gostaria que na cena final estivesse nevando, mas eles desistiram da ideia de usar neve artificial porque o aluguel do equipamento para produzi-la iria estourar o orçamento da produção. Para a sorte da equipe, quando eles realmente iam começar a gravar a cena, começou a nevar de verdade.

A atriz Brie Larson se isolou durante um mês e seguiu uma dieta rigorosa para poder sentir “na pele” o que a personagem dela e de Jack realmente passaram.

Agora, informações que vão elucidar dúvidas que você provavelmente teve ao ver a este filme – eu, pelo menos, tive essa dúvida. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, Room é baseado em uma história real ou é pura ficção? Apesar de ser ficção, Room tem sim fundo em uma história real. Isso porque a autora do livro e roteirista deste filme, Emma Donoghue, escreveu a história depois de ouvir o relato de Felix, menino do caso Fritzl. Para quem não lembra, Elisabeth Fritzl ficou trancafiada durante 24 anos em um porão pelo próprio pai na cidade austríaca de Amstetten. Durante este tempo ela engravidou sete vezes – o último filho dela com o algoz foi Felix. Um resumo sobre o caso pode ser acessado aqui e também aqui. Neste link é possível saber o que aconteceu com a família Fritzl cinco anos depois do caso ter sido descoberto. Mas ainda que o relato de Feliz tenha inspirado Donoghue, ela gosta de reforçar que Room não está inspirado em nenhum caso real.

Uma curiosidade sobre uma das cenas do filme: o ator Jacob Tremblay não conseguia gritar com Brie Larson no momento em que Jack está insatisfeito com o bolo de aniversário. Para conseguir o que vemos em cena o diretor Lenny Abrahamson fez toda a equipe e elenco pular e gritar até que Tremblay conseguisse fazer o mesmo.

Não tinha me tocado disso, mas Old Nick – ou Velho Nick – em inglês é outra forma de chamar o Diabo, referência ao cristianismo do século 17.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para esta produção – uma avaliação muito boa levando em conta o histórico do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 157 críticas positivas e cinco negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,6. – muito bom também. O concorrente direto de Room como Melhor Filme este ano, Spotlight, tem o mesmo nível de aprovação – 97% – mas uma nota um pouco maior, de 8,9.

Este é um filme coproduzido pela Irlanda e pelo Canadá.

CONCLUSÃO: Filmaço. Sem medo de exagerar, posso dizer que este é um dos melhores filmes que eu vi nos últimos tempos. Surpreendente no roteiro e na forma com que cada elemento em jogo funciona bem, Room é destas produções sem nenhuma grande estrela no elenco e que, certamente, vai fazer sucesso na propaganda boca-a-boca. Ele nos faz pensar e nos colocar no lugar das pessoas em cena. A história nos envolve como espectadores e nos arrebata, durando bem mais tempo do que os minutos em que a produção se desenrola. Exemplar. Veja e recomende se tiveres a mesma opinião.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Difícil saber como Room vai se sair no Oscar. Mas algo é fato: ele merece chegar lá. Como sabemos, é importante para o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood a força dos produtores e dos estúdios envolvidos em um projeto. Não sei até que ponto Room pode ter lobby a seu favor. Por isso vou dizer o que eu gostaria que acontecesse e os possíveis cenários.

Como este, até agora, foi um dos filmes que mais me surpreendeu nesta temporada pré-Oscar, acho que ele merecia receber pelo menos seis indicações na premiação máxima do cinema dos Estados Unidos. Para começar, se eu tivesse voto na Academia – só sonhando, 😉 – ele seria indicado a Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz, Melhor Ator, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição.

Pensando pela ótica da Academia, provavelmente ele terá chances de ser indicado como Melhor Filme – afinal, são até 10 produções na disputa -, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado. Se os votantes tiverem coragem, podem ainda indicar Lenny Abrahamson e Jacob Tremblay. Ainda que, por eles serem nomes um tanto “desconhecidos”, por Tremblay ser tão jovem e por essas categorias terem apenas cinco vagas, não me surpreenderia se eles fossem “esquecidos”.

Pensando sob a ótica da Academia, não seria uma surpresa Room sair de mãos abanando, sem levar nada. Afinal, nas categorias em que ele deveria ter mais chances, como Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado, ele tem fortes concorrentes mais “mainstream” na disputa, como Spotlight (comentado aqui) e Carol (crítica neste link), respectivamente. Na categoria Melhor Atriz é provável que Brie Larson tenha que enfrentar Cate Blanchett. Páreo duro. Pensando na Academia, acho tanto que Room pode sair com um ou mais prêmios importantes quanto pode sair com as mãos vazias.

Dos filmes que eu vi até agora, provavelmente eu torceria por Room, seguido de perto por Spotlight (como Melhor Filme) e por Carol (Melhor Atriz). Mas ainda prefiro Room. Como quase sempre acontece no Oscar, contudo, já espero ver a minha torcida ser derrotada. Tudo certo. Desde que Room, pelo menos, consiga ficar entre os indicados.