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If Beale Street Could Talk – Se A Rua Beale Falasse

Um dos filmes mais contundentes sobre a discriminação racial e a falta de igualdade de direitos nos Estados Unidos. If Beale Street Could Talk é uma história simples, mas muito bem escrita e com propósitos claros. Além de mostrar, sem meandros, como os negros nos Estados Unidos foram e continuam sendo tratados como seres inferiores, essa produção também foca em uma história de amor poderosa. Sem dúvida alguma, If Beale Street Could Talk tem muitas qualidades. Apesar disso, acho que ele poderia ser um pouco mais curto. Facilmente poderíamos tirar meia hora da produção sem que ela ficasse pior.

A HISTÓRIA: Começa com uma apresentação de James Baldwin sobre a Rua Beale: “A Rua Beale é uma rua em New Orleans onde o meu pai, Louis Armstrong e o jazz nasceram. Cada pessoa negra que nasceu na América nasceu na Rua Beale, nasceu no bairro negro de alguma cidade americana, seja em Jackson, Mississippi, ou no Harlem, New York. A Rua Beale é o nosso legado. Esse romance trata da impossibilidade e da possibilidade, a necessidade absoluta de dar expressão a esse legado. A Rua Beale é barulhenta. Deixo ao leitor a tarefa de discernir o sentido da batida”.

Na primeira sequência, o casal Tish (KiKi Layne) e Fonny (Stephan James) descem uma escada. Eles caminham de mãos dadas por um lugar tranquilo. Quando chegam próximos da avenida, eles se olham. Tish pergunta se ele está pronto. Fonny diz que ele nunca esteve tão pronto em sua vida. Eles se beijam. Na próxima cena eles se olham através de um vidro, porque Fonny está preso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a If Beale Street Could Talk): Esse é o típico exemplo de uma produção que começa muito, muito bem e que depois acaba diminuindo a sua força com o passar do tempo. O melhor de If Beale Street Could Talk é o seu começo, quando temos uma presença maior do texto de James Baldwin através da narrativa de Tish Rivers. Do meio para o final, o filme acaba ficando um tanto repetitivo com a evolução lenta do caso de Alonzo “Fonny” Hunt.

Isso não tira o mérito da produção, que tem outras qualidades. Além do texto de James Baldwin, presente em seu romance adaptado pelo roteirista e diretor Barry Jenkins, o filme tem como ponto alto o trabalho dos atores envolvidos no projeto. Todos estão muito bem, mas destaco o trabalho de duas atrizes: KiKi Layne como a protagonista e Regina King como Sharon Rivers, a mãe de Tish. Elas roubam a cena cada vez que aparecem, é algo impressionante.

A história começa muito bem, com a problemática do casal Tish e Fonny sendo apresentada de forma franca e direta. Fonny acaba de ser preso, e Tish apresenta a ele, à sua família e a nós, espectadores, a sua gravidez. Isso logo nos primeiros minutos da produção. A expectativa e o drama estão armados porque nós – e nem os personagens –  sabemos ainda por quanto tempo Fonny ficará preso. Todos desejam que ele saia logo da prisão. Afinal, ele foi injustamente acusado de estupro. Mas, como Tish nos fala logo no início de If Beale Street Could Talk, essa história se passa nos Estados Unidos, um país que se acostumou a tratar os negros de forma diferente e desigual.

Então a problemática está toda armada. De forma inteligente, Jenkins equilibra a narrativa no “tempo atual” com o retorno no tempo através de flashbacks para conhecermos melhor a história do relacionamento de Tish e Fonny. Um dos pontos altos do filme é quando a família de Tish convida a família de Fonny para contar-lhes a novidade da gravidez de Tish. Nesse momento, temos um exemplo contundente como o fanatismo envolvendo a “fé” pode provocar mais danos do que trazer soluções.

A reação da mãe de Fonny, a Sra. Hunt (Aunjanue Ellis), ao saber que Tish está grávida do filho, é estarrecedora. Mas tão típica de quem se acha superior aos demais e usa a “fé” como desculpa para a sua própria crueldade e maldade. Eu poderia escrever um tratado sobre isso, mas não vou. De qualquer forma, vale comentar que este é um dos pontos altos do filme, porque nos faz refletir sobre como as pessoas se dividem e rivalizam em momentos em que elas deveriam estar buscando a união e a empatia.

Até esse momento, o filme vai muito bem. Mas depois que a família de Fonny sai do apartamento, seguimos naquela mesma levada de tempo presente e flashbacks que acabam sendo um tanto repetitivos. Acho que o filme poderia ter uma duração ligeiramente menor e que alguns trechos poderiam ser um pouco condensados. Dou como exemplo toda a narrativa envolvendo Fonny e o seu amigo Daniel Carty (Brian Tyree Henry). Certo que é interessante termos a narrativa de Daniel sobre os terrores da prisão e como ele também foi preso injustamente. Mas os encontros e as interações entre os amigos poderiam ter sido resumidos sem prejuízo para a história.

O mesmo eu vejo em relação ao romance de Tish e Fonny. Algumas sequências poderiam ter sido suprimidas sem maiores problemas. Também acho que a viagem de Sharon Rivers atrás da pessoa que acusou Fonny, Victoria Rogers (Emily Rios) poderia ter aparecido antes na história. Em resumo, If Beale Street Could Talk poderia ter entre 20 e 30 minutos a menos de duração. Isso faria bem para a produção.

Mas, no geral, o filme é muito bem narrado, apresenta uma história envolvente e interessante que perde um pouco de força no meio da narrativa mas que tem alguns grandes momentos. O destaque vai para o texto de Baldwin, geralmente bem trabalhado por Jenkins, e para o trabalho dos atores, que estão muito bem em seus papéis. Todos, sem exceção. É um filme necessário, especialmente pela franqueza com que ele trata o tema da injustiça contra os negros nos Estados Unidos. Algo histórico e que continua acontecendo. Infelizmente.

Além da questão racial, que é algo fundamental nesta produção, algo que gostei em If Beale Street Could Talk é como, no fundo, esta é uma história de amor. Tish simboliza toda a abnegação e determinação de uma mulher que ama. Lembrando trechos da Bíblia, podemos dizer que esta produção resgata todo aquele conceito de que o amor é paciente, de que ele suporta tudo e espera tudo. Como falo na conclusão, inclusive. 😉

Sim, esse filme nos mostra a essência do amor. Não aquele construído sobre falsos preceitos, mas aquele verdadeiro, de uma pessoa que conhece a outra em sua profundidade. Nesses parâmetros, a espera é difícil, mas é suportável. Porque Tish e Fonny, apesar do vidro e das grades, nunca se separaram. Estando juntos, mesmo que não o tempo todo, eles conseguiram suportar a injustiça e o desprezo. Apenas o amor é capaz disso. Nesse sentido, este é um belo filme. Porque nos conta uma história necessária, bela e também inspiradora.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme não deixa claro quando essa história se passa. Mas procurando saber um pouco mais sobre a produção, descobri que a história de If Beale Street Could Talk se passa nos anos 1960. Infelizmente, naquela época, sem a tecnologia que temos hoje de câmeras espalhadas pelas ruas, em lojas e equipamentos de monitoramento, realmente a palavra de um policial que queria ferrar um negro podia valer mais que os fatos. Alguns reclamam do estilo “big brother” em que vivemos atualmente, mas é melhor assim do que antes, quando a perseguição contra uma pessoa podia ser viabilizada porque o ônus da prova é de quem é acusado.

Certo que Fonny estava apenas com a namorada e um amigo ex-presidiário na hora em que o crime de Victoria foi praticado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas nem Tish, a família deles ou o advogado Hayward (Finn Wittrock) poderiam ter conseguido alguma outra testemunha que tivesse visto Fonny entrando em casa e não saindo de lá ou alguém no local em que os fatos aconteceram com Victoria para dizer que um negro não saiu correndo em direção à Rua Beale depois do crime? Eles também poderia ter conseguido testemunhas para expor o preconceito do policial, não? Acho que alguns pontos faltaram ser explorados por essa história.

A grande surpresa desse filme, para mim, nem foi o ótimo trabalho de Regina King como Sharon Rivers, mãe de Tish. Depois dela ganhar todos os prêmios da temporada, inclusive o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, eu já esperava que ela tivesse grandes momentos em If Beale Street Could Talk. Mas quem me surpreendeu pelo excelente trabalho foi KiKi Layne como Tish. Não lembro de ter visto a atriz em outro trabalho, então ela foi uma revelação para mim. Pela característica do filme, como ela é a narradora e também pelo fato do personagem de Stephan James estar preso, é KiKi Layne que aparece na maior parte das cenas. E ela dá um show. Faz uma parceria ótima com James.

Pelo que eu vi, KiKi Layne tem uma trajetória realmente recente. Ela estreou em 2015 no curta Veracity. Depois, ela fez um trabalho na série Chicago Med e estrelou um filme televisivo chamado Untitled Lena Waithe Project antes de estrelar If Beale Street Could Talk. Ou seja, ela praticamente estreia nessa produção. Logo, a veremos em vários outros filmes, começando por Native Son e Captive State, duas produções de 2019 já finalizadas. Acho que vale ficar de olho nela.

Além de KiKi Layne e de Regina King, que se destacam nas suas interpretações, vale comentar o belo trabalho de Stephan James como Fonny; de Colman Domingo como Joseph Rivers, pai de Tish; de Teyonah Parris quase em uma ponta como Ernestine, irmã mais velha de Tish; de Michael Beach também em quase uma ponta como Frank Hunt, pai de Fonny; de Aunjanue Ellis em uma interpretação potente de apenas uma sequência como a mãe de Fonny; de Ebony Obsidian e Dominique Thorne como Adrianne e Sheila, respectivamente, irmãs de Fonny; de Diego Luna também em uma ponta como Pedrocito, amigo de Fonny; de Finn Wittrock como Hayward, advogado contratado para defender Fonny; de Ed Skrein como o policial Bell, que resolve se vingar de Fonny acusando-o de um crime que ele não cometeu; de Emily Rios como Victoria Rogers, a mulher que acusa Fonny; de Dave Franco como Levy, o primeiro sujeito que trata Tish e Fonny como pessoas normais; de Brian Tyree Henry como Daniel Carty, amigo de Fonny e que está com ele quando o crime de Victoria acontece; e de Kaden Byrd como Alonzo Jr, filho do casal. Todos estão bem em seus papéis, sejam eles pequenos ou um pouco maiores do que algumas cenas.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale destacar a ótima direção de fotografia de James Laxton e a trilha de sonora com uma pegada forte de jazz e muito presente durante a produção de Nicholas Britell. Também vale comentar a edição competente de Joi McMillon e Nat Sanders; o design de produção de Mark Friedberg; a direção de arte de Robert Pyzocha, Oliver Rivas Madera e Jessica Shorten; a decoração de set de Devynne Lauchner e Kris Moran e os figurinos de Caroline Eselin.

If Beale Street Could Talk estreou em setembro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou, até março de 2019, de outros 13 festivais de cinema em diversos países. Na sua trajetória, o filme dirigido por Barry Jenkins ganhou 87 prêmios – incluindo o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante para Regina King – e foi indicado a outros 151 prêmios. Números impressionantes, realmente.

Além de ganhar o Oscar como Melhor Atriz Coadjuvante, Regina King ganhou o Globo de Ouro na mesma categoria, assim como 39 outros prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante – impressionante! Destaque também para 8 prêmios de Melhor Filme, 3 prêmios de Melhor Diretor para Barry Jenkins, 13 prêmios de Melhor Trilha Sonora, 9 prêmios de Melhor Roteiro Adaptado e 2 de Melhor Atriz ou Melhor Performance para KiKi Layne. O filme foi indicado, no Oscar, ainda, para os prêmios de Melhor Trilha Sonora e Melhor Roteiro Adaptado.

Cliques de fotógrafos como Gordon Parks, Jack Garofalo e Paul Fusco foram fundamentais para que o diretor e o diretor de fotografia conseguissem restaurar o clima do final dos anos 1960 e do início dos anos 1970 de Nova York. As fotografias das prisões da cidade feitas por Bruce Davidson também foram usadas como referência. Para acertar na luz, Jenkins e o diretor de fotografia James Laxton analisaram o trabalho de Roy DeCarava. “Queríamos traduzir a linguagem de Baldwin e a energia limpa do Harlem também no visual e na fotografia”, comentaram os realizadores.

O primeiro trailer de If Beale Street Could Talk foi lançado no dia 2 de agosto de 2018, no aniversário de 94 anos do escritor James Baldwin.

If Beale Street Could Talk é dedicado para James Baldwin, que é o escritor preferido do diretor e roteirista Barry Jenkins. Publicado em 1974, o filme tinha rendido, antes, uma adaptação feita por Robert Guédiguian e lançada em 1998.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para If Beale Street Could Talk, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 289 críticas positivas e 17 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,62. O site Metacritic apresenta um “metascore” 87 para o filme, fruto de 52 críticas positivas e de 1 mediana – o site ainda apresenta o selo “Metacritic Must-see” para If Beale Street Could Talk.

De acordo com o site Box Office Mojo, If Beale Street Could Talk faturou US$ 14,6 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Não é um super resultado, mas também não está mal.

If Beale Street Could Talk é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme passa a figurar na lista de produções que atendem à uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: O filme começa muito bem e tem trechos realmente preciosos. Ao mesmo tempo, If Beale Street Could Talk acaba sendo um tanto lento e longo demais. Apesar disso, achei a história bonita, muito bem conduzida e com ótimas atuações. Os maiores acertos do filme envolvem o seu discurso, bastante sincero sobre o preconceito racial que atinge negros de forma cruel e desumana nos Estados Unidos – e em outras partes, certamente. Está na hora de falarmos sobre isso com franqueza e de pararmos de fugir do assunto. Além disso, If Beale Street Could Talk nos mostra, de forma muito franca e honesta, como o amor tudo suporta, tudo espera. Ele é forte, ele resiste, ele perdura. Quando é verdadeiro. Um belo filme, com mensagens importantes e muito bem apresentadas.

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Blood Father – Herança de Sangue

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Para fazer um filme um bocado maluco, você precisa ter uma estrela igualmente “crazy”. Blood Father, em essência, não tem nada de novo. Pelo menos o argumento central não é inovador. Mas ele tem uma segunda camada de leitura interessante e que funciona muito bem. E à frente da trama, o ator um tanto maluco Mel Gibson. Ele está mais velho, mais experiente, mas não perdeu aquele olhar um tanto “descompassado” que volta e meia vemos nele. Para este filme, isso funciona muito bem.

A HISTÓRIA: A imagem de uma menina surge aos poucos e vemos que se trata de um cartaz de pessoa desaparecida. Pelas informações, sabemos que a garota está desaparecida desde os 14 anos. Uma jovem compra várias caixas de munição e um chiclete. Quando pede um cigarro, a caixa pede a identidade dela. Na sequência, a garota entra em um carro cheio de caras armados.

Um dos bandidos reclama que a garota de Jonah (Diego Luna) comprou munição errada para ele. O grupo sai em direção a uma casa, e a garota fica no carro. Ela resiste a seguir o grupo, mas Jonah a ameaça e diz que precisa confiar nela. O final daquela situação levará Lydia (Erin Moriarty) para uma busca desesperada por proteção.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Blood Father): Mel Gibson está mais velho, mais experiente e, parece, mais interessante. Assistindo a Blood Father temos a impressão de que a fase mais “louca” e “raivosa” do ator já passou. Então, talvez, possamos ver a fase inicial da carreira dele, com o primeiro Mad Max, Gallipoli, The Year of Living Dangerously e Lethal Weapon como a primeira grande fase do ator e, quem sabe agora, o início de um grande outro momento.

Mas ainda é cedo para dizer se o ator passou a fase mais louca da vida e vai começar, novamente, a apresentar um grande trabalho. De qualquer forma, é bom vê-lo um pouco mais centrado e com os “olhos menos arregalados”, se é que vocês me entendem. Ao menos eu voltei a acreditar em uma interpretação dele. Ajuda o fato, claro, do personagem dele em Blood Father ser um pouco “underground”, o que casa com o estilo do ator. Mas, de fato, ele está um pouco menos “over”, com uma interpretação bem mais coerente e que faz quem gosta dele acreditar no que ele está fazendo e não vendo apenas ao personagem “Mel Gibson”.

Descontadas as bobagens que ele fez na vida pessoal, eu gosto do estilo Mel Gibson de ser. Afinal, ele saiu daquele perfil de galã do início de carreira para abraçar um tipo de produção mais underground e, com Blood Father, mais realista. Bem, pelo menos até perto do final. Envelhecido, com as rugas bem à mostra e com um personagem que deixa claro que é um bandido que tenta levar uma vida sem maiores problemas até que a filha com bandidos atrás dela aparece, Mel Gibson faz um belo trabalho neste Blood Father.

O filme, evidentemente, é bem centrado no trabalho do ator. Mas ele não está sozinho. Pelo contrário. Por quase todo o filme ele faz uma bela parceria com a jovem atriz Erin Moriarty. Além de muito bonita, a garota tem estilo e tem talento. No filme, a personagem dela está começando a trilhar o caminho da malandragem, se envolvendo com um bandido de porte grande que nem ela imaginava o quanto de poder de fogo ele tinha.

Se o pai dela no filme é “macaco velho”, sabe todos os caminhos da bandidagem e da criminalidade, ela ainda está tateando neste mundo. Mas como fugiu de casa aos 14 anos de idade e andou por aí se virando por conta própria, ela também aprendeu um e outro truque. Bonita, ela sabe usar este argumento a seu favor. E é assim que, pouco a pouco, pai e filha vão se aproximando enquanto eles correm em fuga para tentar sobreviver. No caminho, claro, ele também procura saber quem está realmente perseguindo os dois. Conhecer o inimigo é uma questão vital.

O filme, que poderia ser apenas mais uma história de “bandido persegui mocinha que tem que fazer tudo para sobreviver”, acaba sendo também uma interessante história de aproximação entre pai e filha. Fica evidente, nas entrelinhas do roteiro de Peter Craig e Andrea Berloff, baseado no livro de Peter Craig, que apesar da pouca convivência com o pai, que ficou muito tempo preso, Lydia admira John Link e busca seguir vários de seus passos em sua própria jornada.

Quando ela se vê em apuros, ela sabe que não pode contar com mais ninguém. Se alguém sabe como lidar com bandidos é o pai dela. Algo interessante de Blood Father também é que os roteiristas e o diretor Jean-François Richet não “douram a pílula”. Ou seja, os protagonistas são enrolados, tem uma tendência forte para o crime, e isso não é escondido. John Link queria uma vida tranquila, fora de confusão, mas quando ele tem que proteger a filha, ele não se importa em matar. Lydia certamente não quer matar inocentes, mas se tiver que matar algum bandido para se defender, ela não pensará por muito tempo.

Não faltam tiros e cenas de ação nesta produção, ainda que os roteiristas e o diretor acertem ao não resumir a história apenas a isso. Pelo contrário. O filme equilibra bem estas cenas de ação com o desenvolvimento da relação entre os protagonistas. Por isso eta produção funciona e foge um pouco do lugar-comum. Se a história propriamente dita não inova, pelo menos ela apresenta um certo molho e mais de uma camada de leitura e de interesse. Algo que é bem-vindo em um filme deste estilo.

O realismo é um dos elementos presentes em grande parte desta produção. Por exemplo, John Link mora em um trailer velho, tem um carro que muitas vezes não pega na primeira e parece ter sempre o dinheiro contado. Lydia certamente vive “um dia de cada vez”. Os dois são, digamos assim, uns “ferrados”. Mas estão procurando os seus próprios caminhos tentando fazer o menor dano possível. Apenas por isso eles já merecem uma chance.

Enquanto John Link descobre que o ex-namorado da filha é herdeiro de uma quadrilha realmente barra pesada, a dupla segue sendo perseguida. Fica claro que querem dar um fim na garota, e demora um tempo para sabermos o porquê. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não é exatamente uma surpresa quando sabemos que Jonah não morreu. Ele persegue Lydia para que ela não conte para ninguém que ele está enganando a quadrilha mas, provavelmente e acima disso, porque ele quer se vingar da garota.

Mas aí reside o principal problema desta história. Se o desenvolvimento do filme até é bom e convence por boa parte do tempo, a reta final da história é de chorar. A “super” esperta Lydia não se toca de dar um fim no próprio celular – questão básica para quem não quer ser rastreado, certo? Pouco a pouco, com o celular na mão, ela vai dando a pista para os perseguidores por onde ela anda. Quando, finalmente, ela é pega, é ridícula a negociação de John Link com Jonah. Se o rapaz realmente fosse bandido, ele não daria nenhuma chance para pai e filha se livrarem.

Primeiro, provavelmente teria matado Lydia antes de John Link se aproximar. E mesmo que não tivesse feito isso, esperando para “desfrutar” do fim da ex-namorada, certamente ele não deixaria o pai dela “se despedir” da filha. Não tem muita lógica toda aquela sequência final, de John Link se sentando ao lado da filha e dos bandidos “caindo” na armadilha da morte, em especial. Depois, claro, o filme se redime um pouco com o final para John Link – ainda que o tiroteio final “à la” faroeste pareceu um tanto forçado também.

Enfim, um filme bom, interessante pela boa parceria entre os atores principais, com uma ou outra ideia bacana mas com muitas outras saídas bem batidas, além de um final que esvazio boa parte das qualidades da produção. Ainda assim, após aquele “tiroteio final”, ainda temos uma Lydia se declarando para o pai, o que ficou bacana e torna a decepção com o final um pouco menos irritante. A boa notícia é que Mel Gibson voltou a fazer um bom trabalho, e que Erin Moriarty pode ser um nome interessante que merece ser acompanhado.

NOTA: 8,9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro de Peter Craig e de Andrea Berloff procura, claramente, um tom “realista” sobre a história e os personagens. Ninguém é totalmente bom e, aparentemente, ninguém é totalmente mau. Mas este filme é, digamos assim, mais sobre bandidos do que sobre mocinhos. Todos tem algum pecado pelo qual precisa pedir perdão, e isso torna o filme menos óbvio e um pouco mais interessante.

Este sentido de “realismo” é seguido pelo diretor Jean-François Richet. Em muitas cenas a câmera orquestrada por ele está um tanto “trêmula”, no melhor estilo de um documentário, sem grandes aparatos de sustentação ou preocupação para que a imagem fique perfeita. O diretor também cuida de estar sempre próximo dos atores, valorizando, em especial, a interação entre Mel Gibson e Erin Moriarty. Sem dúvida alguma são boas escolhas.

Como esta produção tem este tom realista e como se trata também de um filme com várias sequências de ação, outro trabalho bastante importante é o do editor Steven Rosenblum. Ele faz um bom trabalho – e difícil, diga-se. Importante também o trabalho do diretor de fotografia Robert Gantz que tem, especialmente nas cenas noturnas, um belo desafio. Mas ambos se saem muito bem. Da parte técnica do filme, vale destacar também a trilha sonora bastante presente de Sven Faulconer.

Na minha crítica acima eu destaquei o trabalho de Mel Gibson e Erin Moriarty porque, realmente, este filme é centrado nos dois. Citei também o vilão da história, o personagem de Diego Luna. Ele está bem, mas achei a interpretação dele um tanto linear demais, sem nuances, sem a complexidade que ele poderia ter. Provavelmente mais culpa do roteiro do que do ator, ainda que eu acho que Diego Luna poderia ter se saído melhor. Parecia que estava apenas “cumprindo tabela”.

Um pouco melhor que ele eu achei outros atores secundários, como o veterano William H. Macy como Kirby, melhor amigo do protagonista e “padrinho” dele no AA, em um trabalho discreto, pontual, mas interessante; Michael Parks como “Preacher”, o líder do grupo do qual John Link fazia parte, responsável por ele ter ficado tanto tempo na prisão, e que tem uma passagem estranha mas curiosa no filme; Dale Dickey em um pequeno papel como a companheira bandida de Preacher; Miguel Sandoval como Arturo Rios, o outro lado da moeda do Preacher, ou seja, o cara que está na prisão mas que é uma espécie de manda-chuva do pedaço e que acaba ajudando o protagonista – bem diferente do antigo “chefe” dele. Além destes, há vários bandidos que aparecem em cena. Destes, destaque para Raoul Max Trujillo como The Cleaner, o mais malvado dos malvados. Ele realmente assusta pelo porte e pela cara de mau.

Blood Father estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio deste ano. Depois, o filme passaria ainda por outros três festivais de cinema. Em nenhum destes festivais ele recebeu qualquer prêmio.

Esta produção foi totalmente rodada no Estado do Novo México, nos Estados Unidos, em cidades como Laguna e Belen.

Antes deste filme ser dirigido por Jean-François Richet e estrelado por Mel Gibson, o ator Sylvester Stallone tinha planos, em 2008, para dirigir e estrelar esta produção.

O ator Raoul Max Trujillo já tinha trabalhado com Mel Gibson antes. Ele faz um trabalho importante como o guerreiro chefe do filme Apocalypto, que foi dirigido por Gibson.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 39 textos positivos e seis negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 6,7. Em termos de nível de aprovação, é um belo desempenho deste filme.

Este filme, apesar de ter sido totalmente rodado nos Estados Unidos e de ter protagonistas norte-americanos, é uma produção francesa. Certamente por causa do diretor.

CONCLUSÃO: Sim, este é mais um filme de vingança. Uma garota atira em um cara que ela não deveria ter atirado e a partir daí ela começa a ser caçada. Para a “sorte” desta garota, ela tem um pai que é bandidão e que pode colocar frente aos outros bandidos. Na essência, Blood Father não é novo. Mas além da perseguição propriamente dita e das consequentes cenas de ação muito bem feitas, a tentativa do protagonista em, mesmo em meio ao caos, “tirar o atraso” na relação com a filha e resgatar um pouco a relação com ela é um ponto interessante e diferenciado da produção. No fim das contas, é um bom filme. Envolvente, com uma bela interação e sintonia entre os dois atores principais. Incomoda alguma forçada de barra, mas nada que não torne a experiência interessante.

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Elysium

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Eis mais uma obra de um cineasta multicultural e que gosta de utilizar diferentes referências em sua obra. E o melhor: com dois ótimos desempenhos de atores brasileiros. Elysium é mais uma demonstração do talento do diretor e roteirista Neill Blomkamp que reforça nesta nova produção o estilo de cinema moderno e com preocupação social que tínhamos visto antes em District 9. Novamente o espectador tem aqui uma história futurística, mas que trata de desigualdades sociais, segregação e a busca pela sobrevivência. Mas com alguns toques diferentes.

A HISTÓRIA: Lixões e favelas por todos os lados. No final do século 21, a Terra sofre com o excesso de poluição e de habitantes. Cenas gerais de Los Angeles mostram prédios em decadência acentuada, como frutas em decomposição. Fora da Terra, vista do alto com aquela bela imagem tradicional, os ricos mantêm o padrão de vida em um complexo de alta tecnologia chamado Elysium. Lá não existe poluição e nem superpopulação.

Na Terra, o garoto Max (Maxwell Perry Cotton quando criança, Matt Damon na vida adulta) olha para Elysium e sonha com o dia em que poderá levar Frey (Valentina Giron quando criança, Alice Braga na vida adulta) para lá. No futuro, na Los Angeles de 2154, Max tenta levar uma vida regrada, enquanto cumpre liberdade condicional, mas após um acidente no trabalho, ele empreende uma cruzada para tentar furar o bloqueio de Elysium e buscar a cura por lá.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Elysium): Quem assistiu a District 9 (comentado aqui no blog) vai encontrar muitos elementos em comum em Elysium. Para começar, o ambiente futurista. Depois, a crítica nas entrelinhas para a desigualdade social que vivemos atualmente, só que potencializada com o passar do tempo. Novamente o diretor Neill Blomkamp não coloca as suas fichas em um futuro cheio de esperança para a Humanidade.

Pelo contrário. Ele acredita na filosofia popularizada por Thomas Hobbes de que o homem é o lobo do homem. Novamente a pobreza e a degradação viraram paisagem costumeira nas grandes cidades. Só que diferente de District 9, os guetos futuristas dividem as pessoas em diferentes órbitas. Enquanto os ricos vivem no paraíso com vistas para o azul da Terra e para o infinito do restante da nossa galáxia, os demais humanos se lascam por aqui mesmo, sofrendo com doenças cada vez mais frequentes causadas pela escassez de recursos e pela poluição.

E aí surge o primeiro questionamento sobre Elysium: por que cargas d’água os ricos resolveram fazer o seu oasis particular tão perto da Terra, tornando-se alvos relativamente fáceis a ataques dos terráqueos “pobretões”? A resposta passa pelo estilo de vida que os ricos parecem ter assumido em Elysium. Lá, todos vivem “na gaita” o tempo todo. Pelo menos é o que o roteiro de Blomkamp sugere.

Há alguns homens de negócios, mas as empresas deles, como a Armadyne, de John Carlyle (William Fichtner), funcionam na Terra, explorando uma mão de obra barata. Alguém precisa fabricar os robôs que fazem o trabalho pesado em Elysium e na Terra, e estas pessoas só podem ser os pobretões que não tem dinheiro para pagar pela tecnologia que promete resolver todos os problemas de saúde na estação futurista que orbita próxima da Terra.

Impossível não lembrar de The Terminator, um clássico do gênero, e pensar que mais eficaz que fazer missões para invadir Elysium, sendo que a maioria acabava em naves destruídas, seria promover uma rebelião contra as máquinas e os humanos que estavam por trás delas na Terra, não? Elysium funciona bem enquanto está acontecendo, porque o filme não para. A ação planejada por Blomkamp impede que o espectador pense nos detalhes sobre o que está vendo.

Claro que durante o filme eu já achei estranha aquela escolha de local para Elysium, assim como a lógica do revolucionário Spider (Wagner Moura), que queria que todas as pessoas na Terra tivessem os mesmos direitos que os ricaços de Elysium. A proposta é idealista e inviável, evidentemente. E isso você consegue pensar durante o filme. Mas quando ele termina, muitos outros questionamentos surgem. Mas afinal, por que a ideologia de Spider, apesar de bonita, é inviável e absurda?

Porque de acordo com o roteiro de Blomkamp, os ricaços de Elysium tem a seu dispor tecnologia que cura todas as doenças e, assim, dá “vida eterna” para quem pode pagar por isso. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Certo. E o que acontece quando esse tratamento é dado para todas as pessoas? Bem, segundo a introdução do filme, a Terra já está superpovoada. Agora, imagine as pessoas parando de morrer? O mundo seria totalmente inviável. Não teria cópias de Elysium suficientes para abrigar esta lógica um bocado pueril.

Claro que há um razão de ser para o diretor e roteirista tocar neste ponto das possíveis desigualdades sociais. Ele foca na segregação das pessoas que tem diferentes formas de conseguir assistência à saúde quando elas precisam porque este é um filme feito em Hollywood. Nada melhor que ambientar a produção em Los Angeles, uma das principais cidades do país onde a saúde é um caso sério, difícil de ser resolvido, e que virou tema de batalha quase campal nos últimos três anos. Barack Obama foi eleito prometendo mudanças sérias no sistema de saúde dos Estados Unidos.

O chamado Obamacare dividiu o país em profundos debates. Elysium roça neste assunto que é importante para qualquer país, independente do sistema de saúde adotado. Vide o Brasil, que funciona com outra lógica, e onde a assistência médica é complicada da sua própria maneira. Igualmente criticada e alvo de polêmica, como o recente programa Mais Médicos.

Bueno, explicado o contexto da ficção, o importante é que a vontade do diretor e roteirista em deixar a fantasia com uma corrente amarrada na realidade segue forte. Para o meu gosto, vejo como importante um cineasta definir um estilo de fazer filmes e manter-se coerente com ele. Neste sentido, Elysium tem boas intenções.

Apesar desta assistência médica perfeita inviável que é o alvo principal dos personagens centrais do filme, a produção tem um bom ritmo, efeitos especiais de primeira, uma boa condução da história e, o que de fato nos interessa, ótimas atuações. Os brasileiros – e não quero ser preconceituosa com o comentário, mas o passado alguma vezes nos condena – desta vez fazem um belo trabalho. Wagner Moura e Alice Braga tem papéis de destaque na produção.

Diferente de outros filmes em que tivemos a paixão verde-e-amarela de pontas erroneamente inflada, neste caso realmente há protagonismo de conterrâneos em um filmão de Hollywood. Eles, assim como o amigo de Max, Julio, vivido pelo sempre ótimo Diego Luna, fazem interpretações convincentes.

Mesmo Wagner Moura afirmando em uma entrevista para a Folha de S. Paulo recente de que prefere exagerar nos personagens, apostando no estilo “axé acting”, do que fazendo interpretações abaixo do tom, achei o trabalho do brasileiro exatamente no nível adequado. Convenhamos que o personagem dele é naturalmente exagerado, porque vive sempre pisando na linha tênue entre o vilão e o herói. Aquele que busca uma saída honrosa para todo mundo e que, ao mesmo tempo, explora muita gente.

Natural que a atitude dele em cena tenha que ser exagerada em alguns momentos – mas totalmente dentro do esperado para o personagem. Alice Braga também está muito bem. Apesar de ser a “mocinha” da produção, contudo, ele é uma das personagens que menos aparece. E, assim como quase todos os outros, tem pouco de sua história aprofundada. Em um filme em que a ação, as perseguições e o velho jogo-do-gato-correndo-atrás-do-rato acabam sendo o miolo da história, sobra pouco espaço para aprofundar a história dos personagens. Senti um pouco de falta disso.

Ainda assim, Alice Braga está bem sempre que aparece. Linda, quando sorri é impossível pensar que Max vai ficar focado em si mesmo por muito tempo. 🙂 Além do pano de fundo da assistência de saúde ruim, Elysium faz uma crítica a outro tema polêmico e bastante atual: a postura que os departamentos de segurança de alguns países que são líderes mundiais assumem frente à diferentes “ameaças”. Essa crítica pode ser vista na definição de dois personagens.

Primeiro, a secretária de Defesa Delacourt, interpretada por Jodie Foster, que não pensa nem meio segundo em autorizar a explosão de duas naves com 46 pessoas inocentes e nada armadas dentro. Depois, aparece na figura do vilão desta história, Kruger, interpretado por Sharlto Copley, um agente não autorizado e “secreto” que é acionado sempre que necessário para fazer o serviço sujo.

Não apenas Guantánamo, mas tantas outras histórias recentes e reais demonstram que há abusos do “sistema”, seja nas ordens, seja na dinâmica da ação, em nome da “segurança” de uma nação poderosa. Finalmente, há um outro ponto que Elysium roça e que pode incomodar a algumas pessoas: o povo que ficou na Terra, pelo menos o que vive em Los Angeles, vive falando espanhol e inglês. Este detalhe faz uma clara alusão aos imigrantes que enchem cada vez mais as ruas de qualquer metrópole do planeta. No futuro longínquo, afinal, não seria nada absurdo pensar nos “pobres” dos Estados Unidos falando inglês e espanhol misturado.

Mesmo sendo compreensível, não deixa de ser estranho ver isso na telona. Comento estes pontos porque Elysium, sem dúvida, é um filme clássico de ficção científica com várias “mensagens subliminares” estrategicamente pensadas pelo seu realizador. Esse é o estilo de Neill Blomkamp, pelo menos até agora. Logo mais veremos até quando ele vai estender a mistura entre futurismo com críticas contemporâneas, quase um realismo fantástico, se ele comportasse o que ainda não existe. 🙂

No fim das contas, o que importa é que a narrativa de Elysium funciona, porque envolve o espectador e deixa algumas boas críticas no ar. Mesmo sendo pouco viável em termos lógicos, muitas vezes, ele tem um belo acabamento técnico, envolvimento dos atores, estilo de diretor/roteirista e toda aquela parafernália de quem curte os filmes de ficção científica. Divirta-se!

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Neill Blomkamp dirigiu cinco curtas antes de District 9. Não assisti a nenhum deles para saber se ele tinha um estilo definido desde sempre. Mas o longa que impressionou a tanta gente em 2009 e este novo Elysium sugerem que ele gosta de trabalhar aqueles conceitos comentados logo acima. Agora, ele trabalha na pré-produção de Chappie.

O que este próximo tem em comum com os anteriores? O que sabemos, desde já, é que ele é uma ficção científica. Esta característica segue os anteriores, verdade. Mas, ao mesmo tempo, Chappie será uma comédia. Será que também com uma certa crítica social? Em 2015, quando o filme for lançado, saberemos. É esperar para ver.

Como eu disse antes, Elysium é muito bem acabado tecnicamente. Como um filme deste porte e com estas características exige. Mas da parte técnica tenho que destacar, em especial, a excelente edição da dupla Julian Clarke e Lee Smith. Sem o trabalho deles, este filme certamente não teria o ritmo que Blomkamp queria que ele tivesse. Belo e difícil trabalho.

Muito boa a direção do realizador sul-africano que, como em District 9, toma a câmera no braço e faz muitas sequências no melhor estilo de “filme de guerra realista”. Mas, distinto da produção anterior, em Elysium há sequências mais lentas, panorâmicas, que dão tempo para mostrar o espaço conquistado e valorizar os “dramas humanos”, especialmente nas capturas de gente ou nos raros momentos em que os personagens tem tempo para se emocionarem.

Dos atores principais deste filme, só fiquei com pena da Jodie Foster. O papel dela é tão raso que ela não pode fazer muito com aquele perfil de “megera má”, com tudo que a redundância pode reforçar do conceito. Ela está bem, claro. Até porque eu não consigo vê-la mal em qualquer filme. Mas seu papel é muito raso, como outros deste filme – vide os da Alice Braga e do Diego Luna.

Dos coadjuvantes deste filme, vale comentar a atuação de Josh Blacker como Crowe, um dos homens de confiança do vilão Kruger e que, normalmente, fica vigiando a Frey e sua filha Matilda, interpretada por Emma Tremblay; Brandon Auret como Drake, outra figura importante nos confrontos da turma de Kruger; Jose Pablo Cantillo como o tatuadão Dr. Frankenstein amigo de Spider e que transforma o moribundo Max em uma semi-máquina de exterminar; e Faran Tahir como o presidente Patel, que tenta frear Delacourt.

Da parte técnica do filme, achei um pouco exagerada, acima do tom a trilha sonora de Ryan Amon. A direção de fotografia de Trent Opaloch, por outro lado, é precisa. E vale destacar o fantástico o design de produção de Philip Ivey; os efeitos especiais da equipe de 31 profissionais comandada por Kuba Roth; a maquiagem da equipe de Fay von Schroeder e Leeann Charette; e os efeitos visuais que mobilizaram a impressionante equipe de mais de 200 profissionais – não terminei de contar porque me cansei 🙂

Não sei se Elysium terá fôlego para chegar com força para ser indicado a algum Globo de Ouro ou Oscar, mas acho que especialmente os quesitos técnicos mereciam entrar na disputa por uma vaga. Só acho que ele ficou distante de qualquer indicação… veremos, parte 2.

E agora, uma curiosidade sobre Elysium. Originalmente, o papel de Delacourt havia sido escrito para um homem. Agora, cá entre nós, bem melhor a Jodie Foster, né? Com tantas mulheres em posição de comando, nada melhor que colocar uma em posição tão de comando no filme. Aprovada a mudança.

Vindo da África do Sul, Blomkamp é legitimamente preocupado com a segregação, incluindo a história do apartheid. Pois bem, depois de falar disto indiretamente em District 9 – e aqui em Elysium também -, Blomkamp dá um pequeno lembrete do tema em um detalhe que aparece neste lançamento. Quando Kruger pega o lança-foguetes de um veículo, é possível ver o nome da “agência” para a qual ele trabalha: Civil Cooperation Bureau. Durante o apartheid na África do Sul existia um esquadrão de ataque patrocinado pelo governo que se chamava The South African Civil Cooperation Bureau.

Prova de que as pessoas deste filme são imortais é que John Carlyle teria nascido em 2010, segundo o dado biográfico dele que aparece no display do computador. Ou seja, para o tempo de Elysium, ele teria 144 anos. E bem conservado. 🙂

E uma última curiosidade: a parte central de Elysium se passa em 2154, exatamente o mesmo ano em que a história de Avatar é ambientada.

Elysium estreou em Taiwan no dia 7 de agosto e, no dia seguinte, em Israel e na Ucrânia. Na sequência, foi entrando em cartaz nos demais países mundo afora. Esta megaprodução teria custado cerca de US$ 155 milhões. Apenas nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de US$ 89,1 milhões até esta quinta-feira, dia 19 de setembro. No restante do mundo, ele teria acumulado pouco mais de US$ 233,25 milhões. Ou seja, está pago e terá algum lucro – descontados os outros gastos que não estão apenas na feitura do filme.

Esta produção foi filmada em British Columbia, no Canadá, na Cidade do México e em Nayarit, no México. Ainda assim, é uma produção 100% dos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb gostaram do filme, a ponto de dar para ele a nota 7. Uma bela avaliação para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco menos generosos. Eles dedicaram 151 críticas positivas e 71 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 68% e uma nota média de 6,5.

E com este filme, engordo a lista de produções dos Estados Unidos que estou comentando por aqui após vocês, caros leitores, terem votado no país em uma enquete aqui do blog.

Ah, e antes de partir para a conclusão, vale deixar alguns textos sobre o Obamacare e afins. Aqui, um resumão sobre o governo do presidente dos Estados Unidos; neste texto, uma boa explicação sobre a reforma no sistema de saúde que Obama conseguiu aprovar em 2010; e aqui um outro explicando a campanha de defesa do presidente de suas propostas.

CONCLUSÃO: Neill Blomkamp virou uma referência em filmes de ação que se passam no futuro. E mesmo com essa ambientação futurística, as produções do diretor tem uma forte carga de reflexão contemporânea. Elysium marca o avanço no cinema de Blomkamp, que dá mais um show no domínio técnico dos recursos que ele tem disponível e também no domínio narrativo. Menos inovador que o anterior District 9, Elysium revela o que o diretor é capaz de fazer com um orçamento maior.

O visual desta produção, assim como os efeitos especiais e a escolha de ótimos atores mostra que ele sabe utilizar bem os recursos que tem disponíveis conforme vai ganhando pontos na indústria. Belo entretenimento, e com algumas pitadas de questionamento social. É o bom cinema de Blomkamp reforçando as suas credenciais. Vejamos se em uma próxima vez ele dá um passo à frente, até para não ficar muito repetitivo – dois filmes futuristas com estas características estão de bom tamanho, certo? Mesmo lembrando bastante District 9, Elysium é uma ótima experiência de cinema com argumentos, ainda que eles sejam um bocado absurdos. Vale ser visto, especialmente se você quiser abraçar a diversão e deixar para lá a lógica. Afinal, este é o típico filme em que os atores e os efeitos especiais fazem a gente esquecer as imperfeições.