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Black Swan – Cisne Negro

A busca incessante pela perfeição é angustiante, perigosa, cobra um preço alto e dá como frutos beleza e terror. Black Swan, o mais novo grande trabalho do brilhante Darren Aronofsky, poderia ser mais um filme sobre a fixação de uma jovem pelo estrelato, pelo sucesso e reconhecimento. Mas não. A forma diferenciada de Aronofsky em contar esta história, bebendo da essência do clássico que é “homenageado” e que serve de espinha dorsal da história, assim como a interpretação perfeccionista e brilhante de Natalie Portman transformam Black Swan em uma rara e preciosa peça de cinema. Um filme que tem uma proposta muito clara e que consegue, como poucos, ser fiel a esta proposta do início ao fim.

A HISTÓRIA: Uma bailarina, vestida de branco, desliza suave e com movimentos precisos em uma pequena área iluminada cercada de escuro. Quando ela abaixa e se senta no chão, reconhecemos Nina Sayers (Natalie Portman). Logo ela se levanta, sentindo a presença de Rothbart. Ela tenta fugir, mas ele a persegue. A câmera segue veloz os movimentos dos artistas, e mostra quando o Cisne Branco é enfeitiçado por Rothbart. Corta. Nina acorda animada, faz alguns exercícios em casa e conta para a mãe, Erica (Barbara Hershey) sobre o sonho que teve, no qual dançava o Cisne Branco. Ela come frutas no café da manhã e segue para a companhia dirigida por Thomas Leroy (Vincent Cassel). Prestes a perder a sua principal estrela, Leroy propõe uma releitura ousada do clássico O Lago dos Cisnes. Em sua montagem, o Cisne Branco e o Negro serão interpretados pela mesma bailarina. Nina faz de tudo para assumir o papel, mas deve enfrentar a concorrência das demais bailarinas e seus próprios demônios para conseguir interpretar o papel duplo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Black Swan): Nos primeiros minutos do filme, o espectador é apresentado a dois dos três elementos principais que fazem de Black Swan uma obra diferenciada: a fluidez na direção de Aronofsky e a tão divulgada e comentada entrega para o papel da atriz Natalie Portman. Conforme a história vai se desenvolvendo, soma-se a estes dois elementos o roteiro provocante do trio Mark Heyman, John J. McLaughlin e Andres Heinz, este último o autor da história original que foi transformada em roteiro.

Em uma época em que o balé clássico, a dança e o teatro em geral – não apenas o alternativo – lutam de maneira inglória para conseguir alguma audiência, Black Swan surge para desafiar o senso comum. Não deixa de ser interessante assistir a um filme como este no mesmo ano em que o grande premiado da temporada seja The Social Network. Por um lado, temos a história do criador do Facebook, que retrata uma época de superexposição voluntária e pública da intimidade das pessoas. Por outro, a história de uma garota obcecada por brilhar em uma profissão com cada vez menos audiência. Mark Zuckerberg e Nina Sayers tem pelo menos duas características em comum: são dedicados, perfeccionistas e, ao mesmo tempo, tem uma certa dificuldade em se relacionarem com as pessoas.

Fora estas semelhanças e ironias entre os dois filmes, destaques desta temporada de premiações em Hollywood, outro ponto aproxima Black Swan e The Social Network: as duas produções são um bocado “anti-um grande público”. Como comentei na crítica sobre The Social Network, o fato dele tratar de um tema que nem todos dominam, utilizando termos técnicos e uma verborragia um tanto incomum para Hollywood, torna-o diferenciado da “vala comum” dos filmes comerciais produzidos por aquela indústria. E Black Swan, então… além de tratar de uma peça clássica do balé, ele é um filme autoral, com as estranhezas e sabores do cinema de Aronofsky.

Eu sou fã do diretor desde Requiem for a Dream. Sem dúvida, este filme do ano 2000 está na minha lista de preferidos, de todos os tempos. Fascinada com aquela produção, fui atrás de sua obra anterior, o fantástico Pi. Quem assistiu a estes dois filmes verá, em Black Swan, a digital do diretor. O tom macabro, dúbio, fragmentado e provocante de Pi volta com força nesta nova produção. Mas tecnicamente falando, em Black Swan Aronofsky consegue dar mais um passo em direção à perfeição. Ele assume a alma da produção e reproduz, com a câmera, a fluidez, singeleza e perfeição do balé. Nós viajamos com ele, assumimos a melhor ótica para cada cena. E mesmo quando a câmera de Aronofsky não está dançando, ela se aproxima dos personagens, tenta extrair a pulsação deles e exprimir a emoção de cada momento. Desta forma, o espectador é impelido a sentir-se angustiado, provocado, em dúvida, excitado, e surpreso.

Black Swan é uma verdadeira obra de cinema. Destas nas quais o diretor consegue conduzir a história de tal forma que manipula os sentimentos e sensações dos espectadores a seu bel-prazer. Mergulhamos no processo de criação de uma obra e nos bastidores de uma companhia. E mais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Adentramos na angústia perfeccionista da protagonista, uma garota sem experiência de vida, obcecada por ser a melhor bailarina da companhia, que se alimenta pouco – e vomita esse pouco para continuar magérrima, exemplo da bulimia que se tornou um bocado comum entre algumas bailarinas e modelos -, vive em função da dança, e que tem na própria mãe o pêndulo da cobrança e do controle constante. Sem contar a competição. Fascinante a forma com que a garota vai enlouquecendo e, ao mesmo tempo, ganhando a profundidade exigida por sua personalidade dupla no balé prestes a estrear.

No início do filme, especialmente, naquelas cenas no metrô, Black Swan me fez lembrar outro filme brilhante: La Double Vie de Véronique, do fantástico – e mais que recomendado – diretor Krzysztof Kieslowski. Não sei até que ponto a semelhança foi uma espécie de “homenagem” de Aronofsky para o genial Kieslowski, mas é importante lembrar a origem destas “brincadeiras” de sentido. Além de uma direção dinâmica e “bailarina”, Black Swan conta com uma frequente sensação de paranoia e de evolução da personagem principal que torna o seu roteiro psicológico.

Aronofsky e os roteiristas jogam, o tempo todo, com a dúvida do espectador. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Desde o início, a aposta mais evidente é de que Nina Sayers está enlouquecendo. Pela falta de alimentação e descanso, pela alta competitividade que lhe cerca e, principalmente, pela pressão do papel duplo e da expectativa pela substituição da estrela Beth Macintyre (Winona Ryder). As alucinações dela, que passa a ver uma outra Nina perambulando por aí, é o termômetro de que as coisas vão mal e continuarão piorando. Mas até este elemento cria dúvidas no espectador, porque inserem um elemento “sobrenatural” na história. Ou sugerem, pelo menos.

Ainda que a grande estrela do filme seja Natalie Portman, importante destacar pelo menos três outros nomes que acabam sendo fundamentais para esta produção – inclusive como “escada” para a protagonista: o experiente Vincent Cassel como Thomas Leroy; a enigmática, encantadora, fascinante e “competitiva” Mila Kunis como Lily e, finalmente, a veterana Barbara Hershey como Erica, mãe de Nina. Os três estão perfeitos em seus papéis cheios de dupla interpretação – suas ações e reações ganham outros contornos conforme a leitura da protagonista, o que torna a história ainda mais interessante. Dizem que Meryl Streep havia sido cogitada para o papel da mãe de Nina mas, cá entre nós, Barbara Hershey tinha muito mais a ver com o papel. Que bom que ela foi a escolhida.

Black Swan me fez lembrar outro filme, um clássico maior que aquele comentado do Kieslowski: All About Eve, com as fantásticas Bette Davis e Anne Baxter. No filme de 1950, não tínhamos nenhuma sugestão de “sobrenatural” acontecendo, mas uma disputa acirrada entre duas atrizes. Algo visto em Black Swan, entre as duas bailarinas aspirantes ao estrelado – e sugerido entre Nina Sayers e Beth Macintyre e todas as demais bailarinas jovens que pretendem substituir rapidamente a estrela “decadente”.

O interessante de Black Swan é que estas referências a outras filmes não tornam ele uma “cópia” ou uma coleção de referências sem inventividade. Pelo contrário. As lembranças que ele traz de outras produções de qualidade apenas enriquecem a produção e deixam ela mais saborosa, mas não menos criativa. Com uma direção inspirada, um grupo de atores que literalmente se entregaram para os seus papéis e um cuidado técnico de tirar o chapéu, Black Swan envolve e prende o espectador mais do que o esperado. Equilibrando drama, suspense, um tom “fantástico” e artístico, este filme cumpre o seu papel do início ao fim. Algo bastante raro nos dias de hoje, quando muitos filmes, inclusive os de qualidade, costumam apresentar aquele quase inevitável momento de “baixa” na narrativa. Mas não aqui. E o melhor: como em qualquer grande peça de balé, Black Swan também tem o seu “grand finale”. Perfeito.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pode parecer óbvio, em um filme que tem a alma de um clássico repaginado do balé, mas dois elementos técnicos são fundamentais nesta produção: a direção de fotografia de Matthew Libatique e a trilha sonora de Clint Mansell. A primeira joga o tempo todo com tons crus, geralmente carregados, muito mais escuros do que iluminados, em um mergulho constante em tons cinzas ou mais escuros. A razão para isto é óbvia: o caminho obscuro e denso/tenso que pode levar uma pessoa até o estrelato. A trilha sonora é fundamental, porque ela justifica a maior parte da “dança” da câmera do diretor e o ritmo assumido pelo filme. Mérito de Mansell, antigo colaborador de Aronofsky. Soma-se a estes elementos a edição fundamental de Andrew Weisblum. Essa edição, em parceria com a “câmera na mão” e em sistemas versáteis adotados pelo diretor, é responsável pelo tom dinâmico da produção.

Não deixa de ser irônica a escalação de Winona Ryder como a estrela decadente Beth Macintyre. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A atriz faz praticamente uma ponta neste filme. Aparece pouco. Mas a sua própria trajetória, de atriz famosa que foi envolvida em vários escândalos e foi perdendo, na mesma proporção, o convite para bons papéis, reflete-se na personagem do filme de Aronovsky. Em algumas cenas, a decadência e/ou semiloucura da personagem chega a arrepiar. Depois de Mickey Rourke, em The Wrestler, este parece mais um resgate irônico e com certa crítica ao mainstream fomentada pelo diretor. Mas, diferente de Rourke, desta vez Ryder não ficou com o papel de protagonista e, por isso, praticamente some na produção.

Uma cena específica da produção deu o que falar e serviu como um bom chamariz para os que se interessam por temas “picantes”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Me refiro à provocante e sensual sequência em que Natalie Portman se atraca com Mila Kunis. Muito bem conduzida e interpretada, a cena está perfeitamente justificada na produção. Poderia não estar, como tantas outras “cartas” polêmicas inseridas em algumas outras produções que inserem sequências lésbicas provocativas apenas como “chamariz”. Aqui não. O atraco entre Nina e Lily se justifica pela imagem que a segunda representa para a primeira desde o princípio. Além disso, a libido de Nina estava incitada após o desafio de Thomas para que ela começasse a experimentar a sua própria sexualidade. E ela foi neste caminho, rendendo cenas provocativas com Thomas e a já famosa sequência com Lily.

Black Swan tem uma trajetória recente. Estreou em setembro no Festival de Veneza e, a partir daí, passou pelos festivais de Telluride, Toronto, New Orleans, Londres, Austin, Virginia, da AFI, Denver, Saint Louis e Thessaloniki. Até o momento, o filme ganhou três prêmios e foi indicado a outros 22, incluindo quatro Globos de Ouro: Melhor Filme – Drama, Melhor Diretor, Melhor Atriz – Drama e Melhor Atriz Coadjuvante – Drama. Os dois últimos, claro, para Natalie Portman e Mila Kunis.

Os prêmios recebidos pelo filme, até agora, foram os seguintes: Melhor Atriz, para Natalie Portman, e Melhor Edição para Andrew Weisblum no Prêmio da Associação de Críticos de Boston e o prêmio Marcello Mastroiani para Mila Kunis no Festival de Cinema de Veneza.

Black Swan se saiu bem na opinião dos usuários do site IMDb: conseguiu a nota 8,6. Só para comparação, maior do que a de The Social Network: 8,2. No site Rotten Tomatoes o filme também foi bem: conseguiu a aprovação de 88% dos críticos, ou, em outras palavras, recebeu 185 críticas positivas e 25 negativas. A nota média recebida pelo filme foi de 8,2 – nada mal, para os padrões dos críticos que tem textos linkados no site. Um de seus concorrentes no Oscar, King’s Speech, teve um desempenho melhor: conseguiu a aprovação de 95% dos críticos – com nota média de 8,7. E o concorrente principal da produção, The Social Network, conseguiu uma avaliação ainda melhor: 97% e uma nota média 9. Nada mal – e mais uma prova que o filme é o favoritíssimo no próximo Oscar.

O filme de Aronofsky custou US$ 13 milhões e faturou, até o dia 9 de janeiro, pouco mais de US$ 61,2 milhões apenas nos Estados Unidos. Nada mal. Especialmente por se tratar de um filme um bocado “alternativo”. Com certeza o grande chamariz da produção tem sido a avalanche de comentários positivos para o desempenho de Natalie Portman. E a bilheteria só tende a aumentar conforme a atriz for abocanhando novos prêmios. O mesmo vale para Mila Kunis.

Para os que ficaram curiosos para saber onde a produção foi rodada, Black Swan foi interiamente filmado em Nova York.

O grande Vincent Cassel comparou o seu personagem a George Balanchine, co-fundador do Ballet da cidade de Nova York. Segundo Cassel, Balanchine era um controlador extremo, um “verdadeiro artista que usava a sexualidade para direcionar os seus dançarinos”. Parece que o ator francês realmente se inspirou nesta linha. 🙂

Uma curiosidade sobre a produção: inicialmente ela iria ser ambientada nos bastidores do teatro de Nova York. Aronovsky gostou da ideia, do roteiro, mas pediu para que ele fosse transportado para o balé. Sem dúvida, um acerto. Sobre os bastidores do teatro e a competição entre atores existem muitos filmes, mas com o mesmo foco no ambiente do balé, não.

Impressionante a preparação de Natalie Portman e de Mila Kunis para os seus respectivos papéis. Quem quiser saber mais detalhes sobre a preparação das atrizes, o site IMDb traz detalhes neste link. Vale comentar que, apesar da entrega e da preparação pesada de Natalie Portman para o seu papel, em algumas cenas com movimentos muito complexos, ela contou com a ajuda da “dublê” e bailarina profissional Sarah Lane.

Em uma entrevista para a divina Ana Maria Bahiana, Aronovsky disse que Black Swan “é mais um conto de fadas do que um estudo da mente humana. É a antiga disputa da luz contra a sombra. É uma jornada pelo mundo das sombras”. E eu diria que esta é uma boa definição. E outra curiosidade: a irmã de Aronofsky fez balé por muito tempo, por isso o fascínio e o conhecimento do diretor deste mundo – e seu interesse em transportar a história do teatro para o balé. Bacana, hein? Foi a irmã dele que comentou que, muitas vezes, a bailarina do clássico interpreta a Rainha dos Cisnes e o Cisne Negro ao mesmo tempo.

CONCLUSÃO: Um filme intenso, pulsante, que mergulha na arte e na força do ballet. Se aprofunda, também, nos efeitos de uma busca incessante pela perfeição. Mais um grande trabalho do diretor Darren Aronofsky, um dos jovens cineastas autorais que manteve, até o momento, uma filmografia digna de ser vista do início ao fim. Contando com uma câmera ágil, um roteiro envolvente e uma entrega dos atores principais digna de prêmios, Black Swan atinge com perfeição todas as suas promessas. Trata da arte e de suas múltiplas interpretações na mesma forma com que joga com a libido do espectador. Uma produção sem erros, com a marca de seu realizador e um trabalho incrível da atriz principal. Merece ser vista – com tempo e sem receios.

PALPITES PARA O OSCAR 2011: Black Swan tem alguns grandes concorrentes pela frente. The Social Network é um filme competente e que consegue resumir, de uma maneira que outras produções premiadas fizeram anteriormente, o seu próprio tempo. Ainda assim, mesmo que esta próxima edição do Oscar tenha quatro ou cinco grandes concorrentes na disputa, acredito que Black Swan poderá figurar com indicações nas principais categorias.

Para o deleite das pessoas que gostam do bom cinema feito nos Estados Unidos, nos últimos anos o Oscar tem dado cada vez mais espaço para os filmes “independentes” ou, se preferirem chamar, para as produções de baixo orçamento. Black Swan caminha nesta linha. Pela qualidade técnica do filme e sua veia artística escancarada, acredito que a produção deverá ser indicada para as principais categorias. Disputará em Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz, Melhor Roteiro Original, Melhor Edição e, possivelmente, Melhor Atriz Coadjuvante. Talvez consiga aparecer em alguma outra categoria técnica. É de se esperar.

Entre as categorias que eu tenho como certas que ele vá concorrer, acredito que as melhores chances do filme estejam em Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante (com menos chance) e Melhor Diretor. Pessoalmente, gostaria muito que Aronofsky ganhasse, mas ele terá um páreo duríssimo com “a bola da vez”, David Fincher. Natalie Portman provavelmente levará o Oscar, mas também não seria de todo injusto se Annette Bening surpreendesse a todos e levasse o prêmio para casa.

Além de Fincher, o grande concorrente de Aronofsky no prêmio é Tom Hooper. Eu torço para Aronofsky e, em segundo lugar, Fincher, ainda que eu acredite que o segundo vá ganhar – junto com o seu filme. Nas categorias técnicas, Black Swan pode abocanhar alguns prêmios, especialmente em edição. É esperar para ver – e, neste domingo, o Globo de Ouro será um bom termômetro.

SUGESTÕES DE LEITORES: Meus caros, vocês devem ter observado que eu estou super-mega-ultra atrasada com as respostas para vocês. Mas pouco a pouco vou colocando a nossa conversa em dia. Como só agora estou tendo tempo para começar esse processo, devo admitir que cometi uma falha. Há tempos eu estava monitorando para assistir a Black Swan, mas muito antes de conseguir fazer isso, vários leitores deste blog comentaram sobre o filme. E vocês sabem que qualquer comentário eu considero uma sugestão para o blog, mesmo que isso não esteja totalmente declarado. Então eu devo dizer que o primeiro a indicar Black Swan, no final de dezembro de 2010, foi o Túlio. Alguns dias depois, a segunda pessoa a falar do filme foi o Vander. Então, meus bons, muito obrigada pela dica e pela “forcinha” para que eu assistisse a Black Swan. Pela correria, só fui ver ele tempos depois. Mas vale aqui o registro. E se eu reparar que outros indicaram o filme antes que eu publicasse o texto dele aqui, vou citá-los em seguida.

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The Book of Eli – O Livro de Eli

Para alguns filmes seria perfeito se não existissem histórias similares que os precedessem. Este é o caso de The Book of Eli, uma produção instigante visualmente que sofre com o fato de terem sido lançadas, anteriormente, produções como as de Mad Max, Children of Men, Planet of the Apes (o original), entre outras. Perto delas, The Book of Eli se revela uma tentativa frustrada de reativar um gênero ao explorar uma história simplista e um bocado vazia. As intenções do filme até podem ser boas, e conta a seu favor um elenco com grandes atores, mas nada disso salva The Book of Eli de ser comparado com filmes com qualidade muito superior.

A HISTÓRIA: Folhas secas caem interminantemente enquanto a câmera percorre um cenário composto por um revólver, um morto e um animal selvagem que se aproxima. A certa distância, um homem imóvel com uma máscara se prepara para atirar uma flecha mortífera. Este mesmo homem caminha por cenários pós-apocalípticos acumulando objetos que podem ser trocados por artigos difíceis de serem encontrados, como água. Eli (Denzel Washington) se acostumou a viver sozinho e de forma errante, caminhando sempre para o Oeste. Ele acredita ter uma missão e, em seu caminho, conhecerá um homem determinado a encontrar um livro raro, o ambicioso Carnegie (Gary Oldman). Por acaso, tal livro está no poder de Eli, que se recusa a entregá-lo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Book of Eli): Certos filmes devem funcionar apenas para espectadores um tanto “desavisados”. Ou, em outras palavras, para aqueles que deixaram de assistir a filmes importantes. The Book of Eli é tão raso, fraco e cheio de referências mal empregadas que só mesmo quem perdeu várias produções anteriores para achá-lo algo criativo ou interessante.

Para começar, a sequência inicial do filme me fez lembrar, ao mesmo tempo, Antichrist e Nochnoy Dozor (ou mesmo The Matrix). O primeiro, pela sugestão do mal em uma floresta que parece ter saído de um sonho; o segundo/terceiro pela inevitável referência ao uso de câmera em slow motion para dar maior “plasticidade” a uma ação. Depois, quando Eli começa a andar por cenários de destruição, foi inevitável não lembrar dos bons tempos de Mad Max. O curioso é que todas estas referências poderiam ser desconsideradas com o tempo, na medida em que o filme com roteiro de Gary Whitta se mostrasse interessante e “sobrepusesse” todas as referências citadas. O problema de The Book of Eli é que isto não acontece.

A narrativa inicial mostrando nosso “herói solitário” é longa demais, para início da nossa conversa. Mesmo o momento “lírico” (e aqui estou sendo irônica) que lembra o filme Wall-E, em que Eli escuta uma música de “corações partidos”, não surte o efeito desejado. Ao invés de emocionar ou colocar o espectador em um clima propício para a história, ele parece apenas preencher um vazio narrativo. Mas ok, até o primeiro momento realmente Mad Max do filme você ainda espera que ele seja interessante. Afinal, a direção de fotografia de Don Burgess é maravilhosa e temos Denzel Washington no elenco! Normalmente isso significa algo.

O filme então passa por aquele momento de lutas encenadas – até que bem feitas e visualmente perfeitas – e de uma certa “reflexão” (mesmo?) sobre o “homem como lobo do homem”. Certo, as pessoas que sobraram após a destruição em massa da Humanidade são indivíduos desesperados, cheios de cobiça e com fome de sobrevivência. Mas isso tantos filmes já haviam mostrado… qual seria então a novidade de The Book of Eli? Logo mais falaremos disto. Antes, há uma cena que demonstra que o “herói” do filme não é nenhum kamikaze. Ele também está ocupado, basicamente, em sua sobrevivência – e não em salvar todo e qualquer pobre coitado em vias de ser massacrado.

Quando chega em uma cidadezinha em meio ao nada, Eli se encontra com um comerciante desconfiado – o sempre ótimo Tom Waits -, com o qual quer negociar a carga de um alimentador Phantom. Enquanto espera pelo serviço, Eli frequenta um bar aonde pede água (para levar) e acaba enfrentando Martz (Evan Jones), o líder de um bando de mercenários que seguem ordens de Carnegie (aqui alguém pode lembrar de Kill Bill). Agora sim, o filme coloca frente à frente o “bandidão” e o “herói” de sua história.

(SPOILER – não leia este e os próximos parágrafso se você não assistiu ao filme). Curioso que o “bandidão” Carnegie, que não pensa duas vezes em mandar um bando de mercenários para conseguir livros à qualquer custo por aí, atue de forma tão “educada” e precavida com Eli. Primeiro, ele oferece sua “hospitalidade” para que o forasteiro passe uma noite em sua casa, recebendo a visita educada de sua mulher, Claudia (Jennifer Beals), e depois da filha dela, Solara (Mila Kunis). A primeira oferece apenas comida para o forasteiro; a segunda, o próprio corpo.

Mesmo que o “bandidão” não quisesse mais um morto em sua casa aparentemente sem motivos, fica evidente que seu objeto de desejo supremo está nas mãos de Eli quando Solara explica como era o livro que ela viu entre seus pertences. E ao invés de matar o protagonista de maneira cruel e sorrateira, Carnegie lhe dá a oportunidade de escapar. Além do ritmo lento do filme até este momento – lento demais, diga-se -, esta falta de coerência no roteiro acaba incomodando. Sem contar toda a falta de criatividade na forma de narrar os acontecimentos até então – volto a dizer, nada que filmes anteriores já não tivessem mostrado, e melhor.

Mas ok, vamos mostrar um pouco de boa vontade e esperar para que Gary Whitta nos revele o “grande achado” de The Book of Eli. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com muita paciência para aguentar o filme até aqui, não demora muito para entendermos que tudo gira em torno da Bíblia Sagrada. Ela teria sido acusada por provocar a tragédia que dizimou grande parte da Humanidade e, por isso, foi proibida e destruída em fogueiras que retorceram os tempos da Inquisição. Mas Eli foi “chamado” para preservar uma destas Bíblias. Ele ouviu uma voz que disse que ele deveria preservá-la e encaminhá-la para um lugar em que a obra fosse importante. Para conseguir isso, ele seria “protegido”.

Claro que em certo momento esta crença de Eli é colocada à prova. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E daí, para não dizer que o filme é um total desperdício, The Book of Eli faz um questionamento interessante: afinal, tudo aquilo que o protagonista acreditava era verdadeiro ou apenas uma “ilusão” de um homem que precisava se apegar em algo para continuar vivendo? Afinal, ele realmente tinha uma missão, um propósito, ou tudo aquilo não passava de um delírio? Pena que estes questionamentos são rapidamente respondidos pela interferência de Solara e o desfecho da história.

No fim das contas, The Book of Eli é apenas uma história sobre o poder da Bíblia – para o bem e para o mal. O filme dirigido pelos irmãos Albert e Allen Hughes mostra como este livro pode ser utilizado para unir ou destruir civilizações. Algo que já foi feito tantas vezes e de tantas formas na história da Humanidade que eu me pergunto para quê realmente projetar esta realidade para um cenário pós-apocalíptico. Ok, sempre existiram “defensores honrados” da Bíblia e pessoas que tentaram utilizá-la para benefício próprio. Então qual é mesmo o propósito do filme? Ah sim, contar uma história óbvia, sem nenhuma invenção, criatividade e que nos faz lembrar de tantos filmes melhores. Uma pena, realmente.

NOTA: 5,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Honestamente, se fosse avaliar apenas o roteiro deste filme, ele certamente ganharia uma nota ainda mais baixa. Mas não consigo desprezar a belíssima direção de fotografia e o trabalho do sempre adequado Denzel Washington. Estes dois pontos são os melhores do filme – e possivelmente o que lhe salva do total fracasso. Ainda assim, é pouco para fazer com que ele possa valer o ingresso. A direção dos Hughes tem alguns acertos, ainda que muitas vezes a insistência deles em sequências em câmera lenta me fizeram lembrar, basicamente, de cenas de comerciais – especialmente aquelas que mostram Eli e Solara caminhando pela estrada com seus óculos indefectíveis. 😉

Mesmo em um filme ruim, Denzel Washington consegue segurar o seu papel com dignidade. Aqui, mais uma vez, ele faz um bom trabalho. Gostei também da presença de Mila Kunis. Gary Oldman, coitado, está mais uma vez caricato – acho que ele, como outros veteranos de Hollywood, anda com preguiça de mostrar seu melhor trabalho e/ou está tendo azar de ser “premiado” apenas com papéis ruins. Fiquei com dó também de Jennifer Beals, subutilizada na história.

Além dos atores citados, outro que tem um certo papel de destaque nesta produção é o ator Ray Stevenson. Ele interpreta a Redridge, o “braço direito” do bandidão Carnegie. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com ele, mais uma vez, o filme cai no pecado de um argumento que não convence. Afinal, se ele era “apaixonado” por Solara, porque esperou justamente que ela fugisse para pedí-la como moeda de troca para Carnegie? Não era muito mais fácil ter conseguido ela antes? Por mais que Claudia protegesse a filha, Redridge já poderia ter algum caso com a garota. Sem contar que parece forçado o interesse dele por Solara – o filme não mostrou nenhum cortejo ou aproximação deles antes. Errinhos de narrativa que acabam incomodando. Faz uma ponta em The Book of Eli ainda Chris Browning como o líder dos ladrões rapidamente dizimados por Eli no início do filme.

Ah sim, ia esquecendo uma parte “engraçada” da história. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O momento do  “comer miolos” que qualquer filme de terror (? e esse é um filme de terror?) pede. Achei totalmente hilária a inserção dos “desprezíveis” canibais interpretados pelo simpático casal George (Michael Gambon) e Martha (Frances de la Tour) no filme. Provavelmente o roteirista quis criar um momento de “suspense e tensão” em The Book of Eli mas, francamente, como os demais, me pareceu apenas artificial e sem eficácia.

Descontados todos esses “probleminhas” do filme, tenho que admitir que ele tem alguns toques irônicos bacanas e curiosos. Como por exemplo a inserção de The Da Vinci Code e do Oxford American Dictionary entre os livros desprezados por Carnegie; ou a citação de Johnny Cash por Eli em um momento em que ele tenta explicar “a força que lhe faz seguir adiante”. Muito bom! 😉 Uma das únicas ironias genuínas do filme. Além disso, The Book of Eli “homenageia” outras produções ao expor seus cartazes em algumas cenas. Entre os pôsteres que aparecem estão o de A Clockwork Orange, Baby Doll e Hell’s Angel.

Certamente algumas pessoas vão ficar com certas dúvidas com o final de The Book of Eli. Tentarei esclarecê-las. 🙂 (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Claudia sabia ler em braille, mas ela se “vingou” de Carnegie ao reafirmar a sua “ignorância”/esquecimento (ignorância que o “vilão” tinha como fato em relação à mulher para poder subjugá-la). Depois, Eli não era cego. Como eu sei disso? Além do fato dele olhar em direção ao Sol sempre com óculos escuros, porque todas as vezes em que conseguimos ver seus olhos dá para perceber que eles não são olhos de um homem cego. Comento estes dois pontos porque acredito que algumas pessoas poderiam ter ficado em dúvida.

ATUALIZAÇÃO (26/03): Resolvi acrescentar este parágrafo porque notei que muitas pessoas se prenderam ao detalhe de se o personagem de Eli era cego ou não. Como respondi rapidamente nos comentários abaixo, acho essa pergunta sem importância para o filme. No fundo, é uma questão secundária, porque o centro da história e seus problemas são outros. Mas como a questão apareceu repetidas vezes, ali embaixo, resolvi buscar uma resposta mais concreta. E encontrei esta entrevista com o ator Denzel Washington. Ele também afirma que nunca responde se o personagem é cego ou não porque esta é uma questão que não é importante (bingo! eu também acho). Ainda assim, ele sugere que Eli não era cego e que por provicência Divina ele teria aprendido a ler em braille. Algo que eu também desconfiava, porque com isso sua história acaba sendo ainda mais “milagrosa”…

Em outra entrevista, achei engraçado quando o ator comenta sobre as pessoas que buscam “pequenas pistas” durante a história para defender a teoria de que ele é cego ou a de que ele não – recomendo a leitura. Ficou engraçado! Ah sim, e ele volta a afirmar que nem ele próprio, que deu vida ao personagem, pode responder com certeza se ele era cego ou não. Em outras palavras, cada um acredita no que quiser. Eu continuo achando que ele não era cego e que aprendeu o braille por outras razões – talvez até por “providência Divina”.

Da parte técnica do filme, vale citar o trabalho de Cindy Mollo na edição; o design de produção de Gae S. Buckley; a direção de arte de Christopher Burian-Mohr e o desempenho do trio Atticus Ross, Leopold Ross e Claudia Sarne com a trilha sonora. Todos trabalhos corretos, ainda que nenhum deles excepcional.

The Book of Eli consumiu importantes US$ 80 milhões. Mas para a sorte de seus produtores, o filme conseguiu pelo menos cobrir os seus gastos, arrecadando pouco mais de US$ 93,4 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos até o dia 7 de março. Nada mal – especialmente pela qualidade do roteiro do filme.

As locações de The Book of Eli foram variadas. A equipe filmou em lugares emblemáticos como a desativada Prisão de Alcatraz, na Califórnia; até em diferentes cidades do Novo México que serviram de pano-de-fundo para os terrenos “desolados” e amplos mostrados pela história.

A atriz sensação do momento, Kristen Stewart, teve que recusar o papel que acabou sendo encarnado por Mila Kunis porque The Book of Eli entraria em conflito com as filmagens de New Moon. Sorte dela!

Outra curiosidade: os produtores fizeram questão de revelar que o ator Denzel Washington encenou realmente todas as cenas de luta do filme. Para isso, ele teria estudado técnicas marciais com o pupilo do lendário Bruce Lee, Dan Inosanto.

Como não poderia deixar de ser, existe um significado para a escolha do nome de Eli para o protagonista. Segundo as notas de produção do filme, em árabe, hebraico e aramaico, o nome Eli pode ser empregado como uma variedade do nome de Deus. O sufixo “i” indicaria o pronome possessivo da primeira pessoa no singular, ou seja, “meu El” ou “meu Deus”.

The Book of Eli conseguiu uma avaliação positiva entre o público. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,1 para a produção. Os críticos de cinema, por sua vez, foram menos eufóricos. O site Rotten Tomatoes lista links para 85 críticas negativas e para 71 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 46% (com nota média de 5,3). Nem preciso dizer que estou do lado dos críticos, não é mesmo? 😉 (mas isso não é sempre).

Não vou citar muitos críticos desta vez. Quero apenas divulgar rapidamente os textos de Rick Groen, do Globe and Mail, e o de Peter Howell do Toronto Star. O primeiro começa seu texto da seguinte forma: “Realmente, este é apenas mais um conto de profeta-no-deserto – não tão ruim quanto os trailers podem sugerir, mas também sem nenhum risco de sua alma ser iluminada”. Groen comenta que a história se passa 31 anos depois “do Flash” apocalíptico que dizimou grande parte da Humanidade. O crítico recomenda que o espectador coloque seu “cérebro em espera” porque, assim, será mais “fácil apreciar a ação cheia de sermões que está prestes a vir”. hahahahaha. Adorei!

Gostei do texto irônico de Groen. Bastante acertado para o filme. O crítico afirma, por exemplo, que o espectador deve seguir a “marcha do soldado cristão” chamado Eli até o momento em que o roteiro exige um problema em “grande escala”, como aqueles vistos nos filmes-B de western que The Book of Eli começa a imitar. 😉 Groen ainda afirma que fica difícil convencer com as referências bíblicas inseridas em meio à matança de forma humorada e com levada pop depois do trabalho de Samuel L. Jackson em Pulp Fiction. E ele está certo.

O crítico Peter Howell, por sua vez, escreveu em seu texto que se The Book of Eli tivesse sido lançado um ano antes, ele poderia até ser encarado como uma sátira da troca de poder em Washington (com Denzel fazendo o papel do democrata e Oldman o do republicano). Mas ao invés disso, ele não passa de uma oportunidade perdida. “Este Livro não ensina, inspira ou diverte”, resumiu. Depois, quando fala das ações sem sentido de Carnegie, Howell define o roteiro do novato Gary Whitta como “idiota”, simplesmente porque ele é negligente com os detalhes. Eu não poderia estar mais de acordo.

Howell lamenta que os diretores do anterior From Hell tenham desperdiçado a chance de fazer um The Book of Eli mais crível. Achei cômico quando ele comenta que o protagonista deve ter errado muito seu caminho para, depois de viajar por 30 anos, ainda não ter chegado ao seu destino – ele cita como exemplo o novo confronto de Eli com bandidos que el já havia enfrentado. hahahahahahaha. Howell ainda ironiza o fato de Carnegie mandar queimar um exemplar de The Da Vinci Code e uma revista da Oprah: “Todo mundo é um crítico, mesmo no fim do mundo”.

Uma última recomendação: se você ficou fascinado(a) com a direção de fotografia deste filme, recomendo que assistas a Uç Maymun (ou Three Monkeys, seu título para o mercado internacional, comentado aqui no blog). Eis aí um filme com uma direção de fotografia similar, de alta qualidade, e que além disso tem um roteiro e umas atuações exemplares. Muito melhor que este The Book of Eli.

CONCLUSÃO: Típico exemplo de um filme com grande potencial que acaba se mostrando, no final, muito abaixo do que poderia ter sido. The Book of Eli serve mais como lembrete de filmes marcantes do que como um resgate do gênero de filmes de ação ambientados em cenários pós-apocalípticos. Lento e arrastado em muitos momentos, o filme conta com um roteiro fraco que tenta fazer alguma reflexão sobre o “poder” da Bíblia para os propósitos da Humanidade, mas sem sucesso. A direção dos irmãos Albert e Allen Hughes tem alguns acertos, mas no geral se mostra nada inventiva – na verdade, eles parecem fazer um “apanhado geral” da obra de outros cineastas. O melhor do filme, sem dúvida, é a sua direção de fotografia e o trabalho seguro do sempre excelente Denzel Washington. Ainda assim, francamente, é difícil dizer que ele vale o dinheiro do ingresso. Recomendo outros filmes do gênero, como Mad Max, Planet of Apes, entre outros citados na crítica.