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Song to Song – De Canção em Canção

Três pessoas e seus amores – especialmente, suas mulheres. O diretor Terrence Malick volta à cena com mais uma de suas narrativas diferenciadas, fragmentadas e cheias de pensamentos, palavras não ditas e muita beleza. Song to Song nos parece, mais que uma história, um compêndio de lembranças. É como se os protagonistas revisitassem as suas próprias histórias e paixões e falassem sobre tudo aquilo como pessoas um tanto “onipresentes” sobre tudo o que acontecia. Um filme muito peculiar, bem ao estilo de seu realizador.

A HISTÓRIA: Ele abre a porte devagar enquanto ela espera com o rosto perto da parede e da porta. Faye (Rooney Mara) confessa, em suas reminiscências, que houve um tempo em que sexo bom, para ela, tinha que ser violento. Faye e Cook (Michael Fassbender) se provocam sobre o chão. Faye continua comentando sobre como, para ela, era importante tentar sentir algo. E que ela decidiu experimentar tudo que podia. Por sua parte, Cook vivia a vida freneticamente. Outras pessoas aparecem em cena. Pessoas das quais vamos saber parte de suas histórias e desejos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Song to Song): Para assistir a este filme, não é preciso nenhum manual de instruções. Mas é altamente recomendado conhecer o estilo do diretor Terrence Malick. Especialmente o seu “mais recente” estilo de contar histórias de uma forma bastante fragmentada, de jeito “confessional” e mais artística do que o normal para Hollywood.

Não adianta assistir a um filme de Malick e achar que vai encontrar pela frente uma história “regular”, “mais uma” produção de um cineasta norte-americano. Esse diretor, que ficou 20 anos sem filmar depois de ter emplacado um sucesso de crítica e público, não se importa com convenções. Ele faz cinema como lhe parece melhor e de um jeito que faz sentido para ele. Em sua trajetória há filmes mais “palatáveis” e outros nem tanto. Depois de fazer o elogiado Days of Heaven, em 1978, Malick voltaria a lançar um longa apenas em 1998, The Thin Red Line.

Entre os seus filmes, The Thin Red Line pode ser considerada uma produção mais “mainstream” ou mais “facilmente digerível” pelo grande público. Mas nem sempre o diretor trabalha com este perfil de filme. Vide The Tree of Life que, quem acompanha o blog há mais tempo, sabe que me pareceu um tanto pretensioso demais. Mas Malick não se importa realmente com o que os outros acham. Ele faz os filmes da forma com que para ele faz sentido e espera que cada um trabalhe as suas histórias como lhe convir melhor.

Da minha parte – e como vocês sabem, super respeito as opiniões contrárias -, gostei mais deste Song to Song do que de The Tree of Life. Os dois filmes são um tanto pretensioso, além de “artísticos”, mas uma boa diferença entre eles é que nesta produção mais recente não temos que ver a uma longa de sequência da “origem dos tempos” que vimos em The Tree of Life. Em Song to Song o que interessa é a reflexão de três personagens sobre as suas próprias buscas pelo amor.

Sim, como eu comentei antes, novamente aqui temos a uma narrativa bem fragmentada e sem um sequência “lógica” dos fatos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A história não é linear, ainda que, por um tempo, o espectador pode acreditar que sim. Mas conforme vamos acompanhando as diferentes reflexões dos personagens sobre as suas escolhas e trajetórias, percebemos que não. A sequência dos fatos não é apresentada conforme tudo aconteceu e sim conforme os personagens vão “revisitando” as suas próprias lembranças.

Ainda que o filme tenha três “narradores” – Faye, Cook e BV (Ryan Gosling) em algum momento comentam as suas próprias lembranças -, existe um certo protagonismo da personagem de Rooney Mara. Ela é praticamente onipresente na história. Mas há sequências em que ela não aparece e nas quais os personagens de Ryan Gosling e Michael Fassbender contam um pouco sobre outras de suas desventuras amorosas.

Song to Song não é muito óbvio sobre a narrativa “ir e vir” na linha temporal. Percebemos isso nos detalhes, como quando BV pergunta para Faye o que “eles” fizeram com a “professora”. Ora, ele está se referindo à mulher de Cook, Rhonda (Natalie Portman). Conforme a história apresentada por Malick, parece que Cook conhece Rhonda após ele ter “desistido” de Faye. A nossa protagonista, encantada por BV, acaba deixando para trás a relação intensa, um tanto “doentia” e “caótica” que ela tinha com Cook. Mas quando a secretária do ricaço DJ e músico vira amante dele, aparentemente, ele já era casado com Rhonda.

Como este filme é um grande compêndio de reminiscências de três pessoas sobre os seus amores e as suas trajetórias, não existe uma preocupação temporal na narrativa. Pense em você mesmo. Quando você começa a lembrar de seus amores e de suas escolhas, dificilmente você segue uma ordem realmente cronológica, não é mesmo? As lembranças vão e vem conforme a ordem que nós mesmos colocamos nas nossas recordações. Muitas vezes a ordem que damos vai do ponto mais importante para o que tem menos importância, mas esta graduação também vai mudando com o tempo.

O mesmo parece acontecer com este filme. E por fazer esta escolha Malick nos apresenta algo interessante e um tanto “inovador”. Poucos diretores – para não dizer que mais nenhum – teria a coragem de fazer um filme tão diferenciado. Mas esta parece ser a natureza de Malick. Então a narrativa é interessante. Ponto. Mas isso não torna o filme brilhante. Francamente, acho que a produção deixa a desejar um bocado na questão musical – eu esperava bem mais música embalando a trama – e, muitas vezes, a história abre espaço para um certo “puxa-saquismo” de estrelas da música.

Certo que o foco da história são personagens que vivem naquele ambiente. Mas tem pouco a acrescentar as “aparições” de famosos como Iggy Pop, Patti Smith ou os caras do Red Hot Chili Peppers (Flea, Anthony Kiedis e Chad Smith). É bacana vê-los interagindo com os personagens da história, mas achei um tanto “forçado” colocar Iggy Pop e Patti Smith em sequências maiores do que aparições relâmpago.

Além disso, apesar de eu agradecer de não ter uma longa e tediosa sequência sobre “a origem da vida e a evolução até hoje” ao estilo de The Tree of Life para encarar neste novo filme, achei que toda a “arte” do nosso amigo Malick carece um pouco de conteúdo. Ele ama belas imagens, assim como ama tirar interpretações “legítimas” de seus atores, incentivando eles a se “soltarem” a partir de seus personagens. Dá para perceber que os astros em cena – e a lista é admirável – também se divertem. Mas no final, o que fica para nós, espectadores de tudo isso?

Sim, quem ama belas cenas tem várias aqui para curtir. Os fãs dos astros escolhidos à dedo para esta produção também vão vê-los em grande forma. Belos, valorizados pelo diretor. Mas e aí? O que Song to Song nos diz, afinal? O roteiro retrata alguns ambientes e personagens que tem tudo a ver com o século 21. Jovens – ou não tão jovens assim, mas que gostariam de ser jovens para sempre – que gostam de viver cada dia ao máximo.

Que gostam, como bem define Faye, de experimentar. Muitas vezes eles exageram nesta experimentação porque querem sentir algo… preencher um vazio que, só tempos depois, eles vão descobrir que não será preenchido com música, raves eletrônicas, conhecendo famosos, enchendo a cara ou se drogando. O tempo ensina um bocado, assim como as experiências, é claro. Este é um filme sobre pessoas que olham para as suas próprias trajetórias e amores tentando aprender com elas. Colhemos o que plantamos e, algumas vezes, um pouco mais do que isso. Song to Song trata disso e de mais.

Achei esse filme interessante por ele tratar tão bem de pessoas que estão vivendo os nossos dias. Pessoas de carne e osso, como você e eu, a gente tendo ou não os mesmos ambientes em comum. Não importa se você se identifica com eles ou não. Temos em comum a nossa humanidade e nossa busca pelo amor – atual ou que ficou no passado. Como eles. Achei por isso Song to Song um filme bastante humano, apesar da forma dele ser tão diferenciada e, muitas vezes, esta forma roubar o protagonismo do conteúdo.

Algo que eu achei interessante nesta produção é como ela mostra que uma pessoa nunca é uma coisa só. Faye nos mostra isso de uma forma muito bem acabada. Ela vive diversos amores durante a produção. Está sempre disposta a “experimentar”. Os diferentes momentos – que eu chamo de retratos – da personagem são mostrados neste filme. Mas a junção deles nos revela o “filme” da vida da personagem. E nós também somos assim. Somos retrato (no momento) e também filme (na passagem do tempo). Não somos, assim, uma coisa só… somos múltiplos, complexos, simples e, conforme a vida passa, sabemos cada vez mais o que nos interessa e o que não.

Esta é a beleza da vida. E isso Song to Song nos apresenta. Bem no seu estilo, é claro. Mas esta mensagem está ali. Depois de Faye experimentar um bocado, ela sabe definir melhor quem ela é o que lhe interessa. O que lhe faz mais sentido. Esta é a beleza da passagem do tempo e do aprendizado. Os personagens deste filme e nós mesmos vamos aprendendo com os nossos erros e nossos acertos. Sabendo selecionar melhor o que nos faz bem e o que nos dá sentido. Faye descobre que tipo de amor lhe interessa, ainda que essa descoberta parece ter sido um tanto tardia – e as suas escolhas anteriores terem cobrado um preço grande dela através da culpa.

Estas questões renderiam outro texto, longas discussões, mas não vem ao acaso. O que importa mesmo é o que Song to Song nos apresenta histórias de amor e de vida interessantes e muito atuais. No mundo há muita fúria, caos, amor, alegria, culpa, entrega e desespero. Sentimentos e reações que são retratados nesta produção. Cook é um cara cheio de grana que gosta de mostrar o que o dinheiro pode comprar e trazer “de bom”. Mas ele não percebe a destruição que esse mesmo dinheiro e falta de freios pode causar – até que é tarde demais.

Quantas pessoas existem no mundo com este perfil? Quantas você já encontrou pela frente ou apenas ouviu falar? Cook realmente “contamina” todos que estão ao seu redor mas, tão cheio de si, não percebe como esta sua forma de vida nos 220 volts provoca estragos. Novamente temos pela frente a questão do “como as pessoas buscam preencher os seus próprios vazios”. Esta é uma questão existencial, tão ao gosto de Terrence Malick.

Para o meu gosto, desta vez, a reflexão existencial dele não é chata. Ela está cheia de amor, cenas provocantes e sensuais e muita, muita beleza. Nossos olhos agradecem, ainda que, no final, podemos pensar que seria interessante ter, além da forma e do visual, um pouco mais de “substância” na história. Mas isso tudo, evidentemente, vai depender do gosto do cliente.

Para os fãs do diretor e para as pessoas que gostam dos atores em cena, dificilmente este filme não será prazeroso. Para os demais – a maioria – ele será longo demais e “artístico” demais. Acho que eu fico no meio do caminho entre estas duas visões, pendendo um pouco para a primeira. Até porque, no fim das contas, o filme tem uma mensagem interessante. De que o amor pode sim preencher aquele vazio existencial do qual boa parte da história trata. Voltar para o simples, deixar tanta besteira de lado e focar no amor pode ser uma boa saída. Song to Song nos mostra isso.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como sempre, não gosto de ver muito sobre o filme que eu vou assistir antes de conferi-lo de perto. Sendo assim, para mim foi uma surpresa ver tantos astros nesta produção. Claro que eu já sabia que estavam neste filme Ryan Gosling, Michael Fassbender e Rooney Mara. Mas foi uma surpresa ver também Natalie Porman e Cate Blanchett, só para citar os papéis importantes. Além delas, fazem papéis menores outros nomes interessantes/importantes, como Holly Hunter, Bérénice Marlohe, Val Kilmer, Linda Emond, Lykke Li e Olivia Grace Applegate.

Isso para citar apenas os atores. Além deles, há muitos outros famosos da música. Além dos já citados anteriormente, vale citar John Lydon, Florence Welch, Big Freedia, Tegan e Sara Quin, entre outros.

Song to Song estreou em março de 2017 no Festival de Cinema South by Southwest. Até agosto ele terá participado de outros quatro festivais – incluindo os de Sydney e Melbourne.

Não encontrei informações sobre o quanto o filme custou, e os dados sobre o resultado dele nas bilheterias americanas ainda é restrito, de cerca de US$ 443 mil – resultado em 77 dias em que ele ficou em cartaz em apenas 95 cinemas. Ou seja, ele estreou em um circuito bastante fechado e ainda não se deu muito bem.

Agora, aquelas curiosidades “clássicas” sobre a produção. De acordo com o ator Ryan Gosling, eles filmaram sem roteiro. Isso fica um pouco evidente ao assistirmos à produção, não? Provavelmente os atores receberam linhas gerais sobre os seus personagens e as suas histórias e improvisaram a partir daí. Depois é que vieram as “reflexões” sobre as suas histórias – o que construiu a narrativa propriamente dita.

O ator Christian Bale teria, inicialmente, um papel com certa importância no filme. Mas, no fim das contas, ele acabou participando de apenas quatro dias de filmagens e, no final, o personagem dele foi cortado da produção porque ele se parecia muito com o de Michael Fassbender. Ou seja, seria mais um nome de peso no elenco. Além dele, iriam participar com cenas na produção mas acabaram tendo estas participações cortadas na edição final nomes como Haley Bennett, Trevante Rhodes, Boyd Holbrook, Callie Hernandez, Clifton Collins Jr. e Benicio Del Toro.

Esta produção foi rodada ao mesmo tempo que Knight of Cups, filme dirigido por Terrence Malick e lançado em 2015 – e que eu não assisti. 😉

Song to Song foi parcialmente rodado durante o Austin City Limits Festival 2012 e, por isso, apresenta alguns artistas que se apresentaram no evento naquele ano, como Arcade Fire, John Lydon e Iron and Wine.

O diretor e roteirista Terrence Malick fez uma primeira versão desta produção com oito horas de duração. Já pensaram? hehehehehe. Deste corte final o filme foi sendo reduzido até ficar com pouco mais de duas horas de duração – ufa!

Esta produção foi rodada durante 40 dias no período de dois anos. Quando as filmagens eram feitas, elas eram longas, começando pela manhã e tendo apenas uma pausa de 30 minutos para o almoço. Malick saia com os atores pela cidade, muitas vezes filmando eles dirigindo, para depois usar estas imagens na produção.

Inicialmente esta produção iria receber o título de Limitless. Depois, foi batizada de Weightless. Até que chegaram à versão definitiva de Song to Song. Segundo Malick, com este filme ele quis mostrar como a vida é feita de “uma série de momentos”, como canções que marcam a nossa trajetória. Faz sentido e é muito coerente com o que vemos na telona.

Na primeira sessão de exibição deste filme em Los Angeles, cerca de 15 pessoas deixaram o cinema antes do filme acabar. Realmente o filme não agradou a muita gente, basta ver as bilheterias…

O destaque do filme, além da direção “visceral” de Terrence Malick é, sem dúvidas, o trio de atores principais. Rooney Mara, Ryan Gosling e Michael Fassbender estão bem “soltinhos” e se saem muito bem em seus respectivos papéis. Dos três, sem dúvida alguma o destaque mesmo é Mara. Ela está excelente.

Da parte técnica do filme, como a beleza é um elemento fundamental da história, um dos principais destaques é a direção de fotografia do sempre ótimo Emmanuel Lubezki. Depois, vale citar o bom trabalho do trio Rehman Nizar Ali, Hank Corwin e Keith Fraase na edição; o design de produção de Jack Fisk; a direção de arte de Ruth De Jong; a decoração de set de David Hack; os figurinos de Jacqueline West; o trabalho dos 24 profissionais envolvidos no departamento de som; e o trabalho dos seis profissionais que trabalham com o departamento musical.

Esta produção foi rodada na cidade de Austin, no Texas; e nas cidades mexicanas de Progreso, Mérida e Izamal.

Nem sempre os filmes de Terrence Malick são realmente marcantes. Talvez esta seja uma particularidade do diretor. Os filmes dele nos despertam impressões enquanto os assistimos mas, depois, não perduram muito na memória. Acho que esta é a característica dos filmes sem roteiros marcantes. Tanto isso é verdade que, por exemplo, não lembrava de ter assistido a To The Wonder, produção de Malick após The Tree of Life. Reparei, ao encontrar a crítica do filme, que gostei mais dele do que do anterior. 🙂

Os usuários do site IMDb deram a nota 6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 58 críticas negativas e 44 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 43% e uma nota média de 5,4. Realmente os críticos parecem ter gostado pouco da produção. Curioso que os críticos aprovaram em 84% The Tree of Life. Realmente o meu gosto não bate com o deles. hehehehe

Este é um filme 100% dos Estados Unidos. Por causa disso ele entra para a lista de produções que atende a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Mais um filme artístico com a assinatura de Terrence Malick. Sim, o diretor tem um estilo próprio e esta produção é mais uma chance dele mostrar isso. Explorando a beleza dos lugares e das pessoas e um estilo de vida à la “carpe diem” nos 200 volts, Song to Song nos conta algumas histórias de amor embaladas por algo de música. Mais que som, o que vemos em cena é desejo, tesão, fúria, suavidade, e muitas, muitas reminiscências. O filme inteiro é como se alguém olhasse para trás, na própria história, e divagasse sobre o que viveu. É uma produção interessante, especialmente se você gosta do diretor e/ou dos atores. Mas vá com paciência. Porque este é um filme bem ao estilo Malick. Lento e “filosófico”, muitas vezes pretensioso e um bocado bonito.

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Jackie

Jackie revela uma Jacqueline Kennedy, posteriormente Jacqueline Onassis, como você nunca viu. Diferente do que alguns poderiam esperar – e eu me incluo neste grupo -, Jackie não conta a trajetória de uma das primeiras-damas dos Estados Unidos mais conhecidas de todos os tempos. Não. Este filme se debruça sobre os fatos que circundaram o assassinato de JFK. Ou, em outras palavras, Jackie é a história do assassinato de JFK e de parte dos sonhos e da vida do casal sob a ótica de Jackie.

A HISTÓRIA: Jackie (Natalie Portman) caminha por um gramado. A câmera está muito próxima dela e registra uma expressão que parece ser a de choro contido. Corta. Em Hyannis Port, na cidade de Massachusetts, em 1963, Jackie acompanha a chegada de um carro na propriedade. Um jornalista (Billy Crudup) desembarca e se apresenta à porta, dando os pêsames para a ex-primeira dama.

Ela logo pergunta se ele tem lido o que outros jornalistas tem escrito. Ele diz que sim, e Jackie demonstra todo o seu descontentamento com a forma com que estão tratando o seu marido morto, John F. Kennedy. O jornalista pergunta como ela gostaria que JFK fosse lembrado, e Jackie afirma que ela vai editar o que ela quiser da conversa. Ele acaba aceitando a condição, e Jackie começa a contar a sua própria versão dos fatos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Jackie): Na seção que eu fui para assistir a Jackie, a maioria dos espectadores era de pessoas com 60 anos de idade ou mais. Um público que vivenciou os anos de JFK e que, provavelmente, como a maioria da audiência mundo afora, admirava a figura da primeira-dama dos Estados Unidos, Jackie Kennedy.

Para este público não foi fácil assistir a Jackie. Na verdade, para qualquer público eu imagino que não seja uma experiência fácil. Eu, que não vivi aquela época do início dos anos 1960 mas que, como quase todo terráqueo, conhece a história de JFK, de seu assassinato, todas as teorias de conspiração envolvendo o fato e, claro, a figura admirada de Jackie Kennedy, achei este um filme difícil.

Especialmente por uma razão: Jackie quebra toda expectativa do público. Esta produção não mostra um Jacqueline Kennedy dócil, serena, simpática. Muito pelo contrário. O filme destrincha toda a complexidade desta figura histórica ao mostrar fatos de sua vida pré e pós o assassinato do marido, incluindo no pacote cenas do fato propriamente dito.

Boa parte do público deve ter procurado Jackie pensando que este filme mostraria a trajetória de Jacqueline Kennedy, talvez até da Jacqueline Onassis. Eu, ao menos, que não gosto de ler sobre os filmes antes e evito assistir aos trailers das produções, achava que eu teria pela frente um interessante retrato sobre a protagonista.

Isso não deixa de ser verdade. Só que o roteirista Noah Oppenheim e o diretor Pablo Larraín fizeram uma escolha diferente. Ao invés de contar a história de Jackie desde antes do casamento com JFK e até depois de sua morte, quando se casou com Aristóteles Onassis, os realizadores resolveram focar em sua personalidade durante o episódio da morte do presidente americano.

A linha narrativa é toda cadenciada pela entrevista que Jackie dá para um jornalista, interpretado por Billy Crudup. Até a sua morte, em 1994, Jackie deu apenas três entrevistas. A primeira, que inspirou o filme Jackie, foi feita realmente poucos dias após a morte de JFK e foi divulgada pouco depois. Nela, Jackie cria o mito de “Camelot” como sendo a inspiração do marido morto.

A segunda entrevista, que Jackie queria que fosse divulgada apenas 50 anos após a sua morte, foi dada para o amigo e historiador Arthur Schlesinger Jr. em 1964 e divulgada no livro “Jacqueline Kennedy – Historic Conversations on Life with John F. Kennedy” em 2011 sob a autorização da filha do casal presidencial, Caroline. A terceira entrevista, reza a lenda, será divulgada apenas em 2067.

Como eu comentava, Jackie tem como linha narrativa a primeira entrevista divulgada com a ex-primeira-dama. A partir da conversa dela com o jornalista a história retrocede e avança na linha temporal, mostrando cenas de Jackie na Casa Branca antes da morte do marido, todos os detalhes dos fatos ocorridos logo após o assassinato de JFK, toda a preocupação da protagonista com o velório e o funeral do marido e questionamentos que ela fez neste período.

É um filme profundo, que disseca Jacqueline Kennedy de uma forma muito interessante e impactante. Natalie Portman dá um show de interpretação tanto nos momentos em que está sozinha em cena, tendo que lidar com a solidão e o luto, quanto nos momentos em que está lutando por colocar o marido e a família dela definitivamente na história dos Estados Unidos.

Mais que uma pessoa elegante, simpática e encantadora, Jackie se revela uma mulher forte, inteligente, perspicaz, afiada nas respostas para o jornalista – em mais de uma ocasião ela o questiona e o deixa constrangido – e, principalmente, uma grande conhecedora da História dos EUA e obstinada por colocar Kennedy e sua família como um capítulo importante desta mesma História.

Este talvez seja o aspecto mais interessante de Jackie. Como o roteiro de Oppenheim e a direção talentosa de Larraín revelam uma primeira-dama extremamente preocupada com o legado do marido e, consequentemente, dela própria para os Estados Unidos. Ela queria ter o controle sobre tudo, especialmente sobre a imagem dela e de JFK.

Jackie era obcecada por Abraham Lincoln, não apenas por ele ter sido um presidente dos EUA que também foi assassinado, a exemplo do marido, mas especialmente pela força da figura de Lincoln na história americana. O filme deixa claro como ela queria que JFK tivesse uma figura tão marcante para a História como tinha sido Lincoln – tanto que ela pede para examinar o cortejo de Lincoln e tentar emular algo parecido para o marido morto.

Mas mesmo antes da morte de JFK Jacqueline queria que a figura do marido e de sua família fosse marcante para a História. Esta preocupação constante com a imagem e o trabalho de Jackie para utilizar a nova “fábrica” de sonhos, manipuladora de “corações e mentes” chamada televisão a seu favor, é algo fascinante neste filme. Nos faz pensar sobre o uso da comunicação de massas, que apenas mudou de plataforma, tirando um pouco da audiência dos meios tradicionais (rádio, jornais, revistas e TV) para jogá-la nos meios digitais, a favor dos interesses próprios.

Jackie foi muito inteligente nesta forma de explorar a comunicação de massas e o poder da imagem. Neste sentido, o filme também é uma maravilha. O diretor chileno Pablo Larraín cuida para construir um filme em que as imagens jogam um papel narrativo fundamental. Ele coloca a câmera sempre próxima dos atores, permitindo que os espectadores escutem as suas conversas “ao pé do ouvido” e, principalmente, foca em cada detalhe da interpretação de Natalie Portman.

A atriz está impecável especialmente porque ela estudou cada detalhe da forma de falar, caminhar e agir da personagem histórica que ela está retratando. A ajudou neste processo, claro, o rico e variado material de imagens com a primeira-dama, incluindo o filme “A Tour of the White House with Mrs. John F. Kennedy” que está disponível neste link no YouTube e que é muito bem explorado por Larraín no filme.

Identificamos Natalie Portman, é claro, mas ela se transfigura de forma tão intensa em Jacqueline Kennedy que, em alguns momentos, parece que estamos vendo a ex-primeira-dama pela frente. É impressionante. Mais um trabalho soberbo desta atriz que, para mim, é uma das melhores de sua geração.

Como duas das três entrevistas com a ex-primeira-dama dos EUA já mostraram, ela era realmente uma mulher forte e inteligente, muito mais do que aquelas imagens históricas controladas por ela revelam. Procurando mais sobre a personagem, descobri que realmente o filme Jackie faz um retrato bastante interessante e próximo da realidade dela.

Ainda assim, como para o público em geral esta imagem mais complexa de Jacqueline Kennedy Onassis não é a mais frequente, muita gente vai se surpreender com este filme. Tanto porque ele desconstrói a imagem tradicional da protagonista quanto porque ele foca em um capítulo bem complicado da história americana. Ainda que a produção tenha algumas pílulas de história além da tragédia, 95% da produção é sobre o assassinato de JFK e sobre os fatos que o sucedem.

Por tudo isso, Jackie não é um filme fácil. Pelo contrário. Ele é um filme triste, tenso, impactante. Ajuda neste processo a trilha sonora igualmente forte Mica Levi. Ela ajuda na narrativa da produção e muitas vezes leva a tensão para outro nível. Jackie, apesar de um ou outro “defeito”, é uma produção muito interessante sobre os bastidores do poder. Ele nos conta uma história de pessoas que ficaram encantadas com o poder e com a imagem que deixariam de legado. São temas até hoje muito, muito atuais.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: No geral, achei as escolhas do roteirista Noah Oppenheim e do diretor Pablo Larraín muito interessantes. Eles conseguem o que desejam, que é apresentar uma outra visão de uma personagem histórica bastante conhecida e impactar com esta narrativa.

Dificilmente alguém vai pensar em Jacqueline Kennedy da mesma forma depois de assistir a Jackie. Eles conseguem uma desconstrução muito interessante da personagem história e a humanizam. Algo importante e inspirador, sem dúvidas.

Ainda assim, eu admito que eu esperava um filme um pouco mais “amplo”, que mostrasse um pouco mais de Jackie antes e depois do fato que é narrado. Eu queria saber mais sobre a sua fase após a viuvez e sobre a sua vida antes de JFK. Esse é um dos fatores para eu ter dado a nota acima para esta produção. Acho que os realizadores poderiam ter ousado um pouco mais na narrativa, poderiam ter fragmentado ela mais e se aprofundado na leitura da personagem para outras épocas de sua vida.

Um outro fator para a nota de Jackie não ser maior é que, apesar do filme desconstruir um bocado a imagem da ex-primeira-dama, ele também ignora uma série de outros fatos da época e que foram comentados por Jacqueline Kennedy nas cartas para o padre – e, talvez, na entrevista com o jornalista.

Por exemplo, ficam de fora do filme todas as infidelidades conjugais de JFK e, possivelmente, de Jackie. Muitos comentam que Onassis já era uma figura presente na vida de Jackie antes dela se tornar viúva e que ela teve um caso um tanto conhecido com William Holden quando ainda era casada com JFK. Nada disso é explorado no filme, o que achei uma escolha um tanto equivocada dos realizadores.

Antes eu comentei que o principal fio condutor da história é a entrevista real que Jacqueline Kennedy deu para um jornalista poucos dias depois da morte de JFK. Ainda que isso seja verdade, é preciso comentar que outro trecho marcante do filme, de conversas da protagonista com um padre (interpretado por John Hurt) são inspiradas em correspondências que a ex-primeira dama teve com um padre irlandês durante 15 anos e que foram leiloadas em 2014. Nestas cartas, ela fala sobre o que sentiu após a morte do marido – incluindo aí uma certa “bronca” com Deus.

Natalie Portman é realmente o nome deste filme. E não teria como ser diferente, já que ela é uma figura praticamente onipresente na história. O filme, afinal de contas, conta os fatos sob a ótica dela. Ainda assim, em algumas cenas ela não está presente. Nestes momentos outros nomes brilham em cena. Achei impressionante a caracterização de época. As pessoas escolhidas para cada papel foram certeiras.

Além da protagonista, que faz um trabalho impecável, estão muito bem em seus papéis Peter Sarsgaard como Bobby Kennedy; Billy Crudup como o jornalista que entrevista a ex-primeira-dama; John Hurt como o padre que conversa com Jackie após o assassinato de JFK; e Caspar Phillipson com uma semelhança assustadora como JFK – ele aparece pouco, mas está muito bem em cada aparição que faz no filme.

Em papéis menores e secundários, mas igualmente bem, estão os atores Greta Gerwig como Nancy Tuckerman, assessora e braço direito de Jackie no período em que ela foi a primeira-dama; Richard E. Grant como Bill Walton, assessor da Casa Branca; John Carroll Lynch como Lyndon B. Johnson; Beth Grant como a nova primeira-dama dos EUA, Bird Johnson; Max Casella como Jack Valenti, assessor de Johnson; e Georgie Glen como Rose Kennedy, mãe de JFK e Bobby. Todos estão muito bem.

O trabalho do diretor Pablo Larraín neste filme é feito com esmero. Em diversas cenas ele mistura cenas de época, reais, com os atores que fazem parte desta produção. O trabalho é interessante e dá outra força para a narrativa. Todos sabemos que estamos vendo personagens reais tendo as suas vidas contadas nesta produção, mas é diferente quando temos esta história imersa em cenas reais. Há diversas sequências impactantes, mas sem dúvida as que envolvem o assassinato em si e a sequência em que Jackie está limpando o sangue do marido no rosto estão no rol de inesquecíveis.

Além do diretor Pablo Larraín, que se credencia como um dos nomes a ser acompanhados no cinema, merecem aplausos nesta produção o trabalho de Mica Levi na trilha sonora; o de Stéphane Fontaine na direção de fotografia primorosa; o de Sebastián Sepúlveda na edição impecável e muito detalhista; o de Madeline Fontaine com os figurinos; o de Jean Rabasse no design de produção; o de Halina Gebarowicz na direção de arte; o de Véronique Melery na decoração de set; o dos 11 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem; os 22 profissionais do departamento de arte; os 10 profissionais que fazem um ótimo trabalho no departamento de som; e os 12 profissionais dos efeitos visuais e que propiciam aquela “mescla” entre cenas históricas e as feitas pelo diretor.

Jackie estreou no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2016. Depois o filme teve uma trajetória em 18 festivais pelo mundo – o último deles será o de Belgrado a partir de 3 de março deste ano. Até o momento o filme conquistou 32 prêmios e foi indicado a outros 136 – incluindo a indicação para três Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os 15 recebidos por Natalie Portman como Melhor Atriz, para os sete recebidos por Mica Levi por Melhor Trilha Sonora e para os dois recebidos por Madeline Fontaine por Melhor Figurino.

Jackie teria custado US$ 9 milhões – um orçamento baixo para os padrões de Hollywood – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 13 milhões. É uma bilheteria baixa se levarmos em conta a força da figura de Jacqueline Kennedy no país. Chega a ser admirável como o filme não decolou nos EUA.

Talvez o público da época de JFK não tenha gostado da narrativa, um tanto “pesada” para a memória de Jackie, e a história contada pela produção não tenha atraído ao público mais jovem. O que é uma pena, porque é um belo filme, muito bem feito e que com temáticas muito atuais, além de ser uma produção interessante sobre uma época importante dos EUA e do mundo.

Esta produção foi rodada nos Estados Unidos e na França. Entre as locações, destaque para os Studios de Paris, na La Cité du Cinéma; para o Easton Newman Field Airport, em Maryland (cena em que Jackie sai do avião junto com JFK); e em Tred Avon Manor, em Royal Oak, Maryland (casa de Verão da família do presidente); além das cidades de Washington e de Baltimore, nos EUA, e de Paris, na França.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Jackie foi anunciado como um filme que seria dirigido por Darren Aronofsky e tendo Rachel Weisz como protagonista. Os dois acabaram pulando fora da produção, mas Aronofsky seguiu sendo um dos produtores do filme.

O diretor Pablo Larraín estima que pelo menos um terço do que vemos no filme no corte final foram rodados em apenas um take – o que reforça ainda mais o talento da equipe envolvida.

O jornalista interpretado por Billy Crudup é inspirado em Theodore H. White, jornalista da revista Life que fez uma entrevista com a ex-primeira-dama pouco depois da morte de JFK.

As filmagens foram feitas em um prazo curto para os padrões de Hollywood: duraram 23 dias em Paris e mais 10 dias em Washington e Baltimore.

O diretor Pablo Larraín disse que só faria Jackie se Natalie Portman estrelasse a produção. O produtor Darren Aronofsky concordou que ela era a pessoa ideal para viver Jackie.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 218 críticas positivas e 26 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média 8. A nota do IMDb é boa, mas está entre as mais baixas entre os filmes concorrentes ao Oscar. A nota do Rotten Tomatoes, por outro lado, é bastante boa se levarmos em conta o padrão do site.

Este filme é uma coprodução do Chile, da França e dos Estados Unidos. Por ter os EUA como um de seus países, ele entra para a lista de produções que atendem uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

Há diversos textos interessantes sobre as entrevistas dadas por Jacqueline Kennedy e sobre esta personagem conhecida da história americana. Deixo como sugestões por aqui esta matéria em espanhol do jornal El País; esta outra do El País sobre as cartas de Jackie para o padre irlandês Joseph Leonard; esta matéria da Veja sobre a entrevista de Jackie dada em 1963; esta reportagem do português Jornal de Notícias sobre a segunda entrevista de Jackie; esta coluna de Elio Gaspari em que ele fala das três entrevistas da ex-primeira-dama; e, finalmente, esta matéria da Carta Capital sobre a vida sexual diversificada do casal Kennedy.

CONCLUSÃO: Este filme é impactante. Ele incomoda. Não apenas porque ele mergulha em uma realidade duríssima, mas também porque é um mergulho na cabeça de uma mulher que se habituou a ser fotografada a cada passo. Com uma direção interessante de Pablo Larraín, Jackie tem uma interpretação impressionante de Natalie Portman. Mais uma, aliás.

Em Jackie ela e o diretor conseguem desconstruir boa parte da imagem que temos de Jackie Kennedy. O que não é uma tarefa fácil, mas que é cumprida a risca. É um filme angustiante, até certo ponto, e pode ser uma decepção para quem tem apenas uma imagem positiva da protagonista na lembrança. Não acredito que este filme seja interessante para qualquer pessoa, mas ele tem um propósito muito claro e o realiza muito bem.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Era certo que Jackie teria pelo menos duas indicações ao prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: Melhor Atriz para Natalie Portman e Melhor Figurino. Além destas indicações mais que esperadas, o filme ainda emplacou uma terceira, a de Melhor Trilha Sonora.

Para mim, a interpretação de Natalie Portman neste filme, que é todo focado nela, é uma peça irretocável. A forma com que a atriz emula a voz, a forma de falar, o jeito de andar, a postura e todos os demais detalhes da ex-primeira-dama americana é algo impressionante. E não é uma tarefa simples, especialmente porque há muito material de comparação – Jackie Kennedy foi uma figura extremamente filmada e fotografada.

Fiquei arrepiada e perplexa de forma positiva com a forma com que Natalie Portman “encarnou” uma personagem tão conhecida. E fazendo algo ainda mais difícil: além de “emular” Jackie Kennedy, ela ainda imprimiu uma dinâmica para a personagem que não vimos em lugar algum. Digo tudo isso para afirmar que, sem dúvidas, ela merecia ganhar o Oscar 2017 mas que, infelizmente, isso não deve acontecer.

Tudo indica que este será o ano de La La Land. E como já comentei na crítica do filme, La La Land é a produção da vida de Emma Stone. No prêmio máximo dos atores, o Screen Actors Guild Awards, Emma Stone foi a vencedora como Melhor Atriz. Então é muito improvável que um resultado diferente ocorra no Oscar.

O bom é que, diferente de outros anos, Natalie Portman perder para Emma Stone não será exatamente uma grande injustiça, até porque Emma Stone está muito bem em La La Land – para mim, ela é um dos pontos fortes do filme que carece de roteiro. Então, apesar de fazer um trabalho mais complexo, Natalie Portman vai perder para alguém que também está bem.

Sobram as outras duas categorias em que Jackie está concorrendo. O filme tem boas chances em Melhor Figurino, mas ele tem pela frente, novamente, o “queridinho do ano” La La Land. Então sim, ele pode perder novamente nesta mesma queda-de-braço. Em Melhor Trilha Sonora ele tem chances muito, muito remotas. O favoritíssimo, e com razões desta vez, é La La Land, seguido de Moonlight.

Então, se as previsões estiverem certas e este ano for confirmado como o ano de La La Land, Jackie deve sair do Oscar 2017 com as mãos vazias. Não será de todo injusto, porque realmente La La Land é um filme muito bem acabado, ainda que lhe falte conteúdo. Jackie é denso, tem conteúdo e tem uma reconstrução de época impressionante, mas não tem a mensagem de celebração de Hollywood que o rival tem e que a indústria do cinema acha tão importante valorizar neste momento político dos Estados Unidos.

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Black Swan – Cisne Negro

A busca incessante pela perfeição é angustiante, perigosa, cobra um preço alto e dá como frutos beleza e terror. Black Swan, o mais novo grande trabalho do brilhante Darren Aronofsky, poderia ser mais um filme sobre a fixação de uma jovem pelo estrelato, pelo sucesso e reconhecimento. Mas não. A forma diferenciada de Aronofsky em contar esta história, bebendo da essência do clássico que é “homenageado” e que serve de espinha dorsal da história, assim como a interpretação perfeccionista e brilhante de Natalie Portman transformam Black Swan em uma rara e preciosa peça de cinema. Um filme que tem uma proposta muito clara e que consegue, como poucos, ser fiel a esta proposta do início ao fim.

A HISTÓRIA: Uma bailarina, vestida de branco, desliza suave e com movimentos precisos em uma pequena área iluminada cercada de escuro. Quando ela abaixa e se senta no chão, reconhecemos Nina Sayers (Natalie Portman). Logo ela se levanta, sentindo a presença de Rothbart. Ela tenta fugir, mas ele a persegue. A câmera segue veloz os movimentos dos artistas, e mostra quando o Cisne Branco é enfeitiçado por Rothbart. Corta. Nina acorda animada, faz alguns exercícios em casa e conta para a mãe, Erica (Barbara Hershey) sobre o sonho que teve, no qual dançava o Cisne Branco. Ela come frutas no café da manhã e segue para a companhia dirigida por Thomas Leroy (Vincent Cassel). Prestes a perder a sua principal estrela, Leroy propõe uma releitura ousada do clássico O Lago dos Cisnes. Em sua montagem, o Cisne Branco e o Negro serão interpretados pela mesma bailarina. Nina faz de tudo para assumir o papel, mas deve enfrentar a concorrência das demais bailarinas e seus próprios demônios para conseguir interpretar o papel duplo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Black Swan): Nos primeiros minutos do filme, o espectador é apresentado a dois dos três elementos principais que fazem de Black Swan uma obra diferenciada: a fluidez na direção de Aronofsky e a tão divulgada e comentada entrega para o papel da atriz Natalie Portman. Conforme a história vai se desenvolvendo, soma-se a estes dois elementos o roteiro provocante do trio Mark Heyman, John J. McLaughlin e Andres Heinz, este último o autor da história original que foi transformada em roteiro.

Em uma época em que o balé clássico, a dança e o teatro em geral – não apenas o alternativo – lutam de maneira inglória para conseguir alguma audiência, Black Swan surge para desafiar o senso comum. Não deixa de ser interessante assistir a um filme como este no mesmo ano em que o grande premiado da temporada seja The Social Network. Por um lado, temos a história do criador do Facebook, que retrata uma época de superexposição voluntária e pública da intimidade das pessoas. Por outro, a história de uma garota obcecada por brilhar em uma profissão com cada vez menos audiência. Mark Zuckerberg e Nina Sayers tem pelo menos duas características em comum: são dedicados, perfeccionistas e, ao mesmo tempo, tem uma certa dificuldade em se relacionarem com as pessoas.

Fora estas semelhanças e ironias entre os dois filmes, destaques desta temporada de premiações em Hollywood, outro ponto aproxima Black Swan e The Social Network: as duas produções são um bocado “anti-um grande público”. Como comentei na crítica sobre The Social Network, o fato dele tratar de um tema que nem todos dominam, utilizando termos técnicos e uma verborragia um tanto incomum para Hollywood, torna-o diferenciado da “vala comum” dos filmes comerciais produzidos por aquela indústria. E Black Swan, então… além de tratar de uma peça clássica do balé, ele é um filme autoral, com as estranhezas e sabores do cinema de Aronofsky.

Eu sou fã do diretor desde Requiem for a Dream. Sem dúvida, este filme do ano 2000 está na minha lista de preferidos, de todos os tempos. Fascinada com aquela produção, fui atrás de sua obra anterior, o fantástico Pi. Quem assistiu a estes dois filmes verá, em Black Swan, a digital do diretor. O tom macabro, dúbio, fragmentado e provocante de Pi volta com força nesta nova produção. Mas tecnicamente falando, em Black Swan Aronofsky consegue dar mais um passo em direção à perfeição. Ele assume a alma da produção e reproduz, com a câmera, a fluidez, singeleza e perfeição do balé. Nós viajamos com ele, assumimos a melhor ótica para cada cena. E mesmo quando a câmera de Aronofsky não está dançando, ela se aproxima dos personagens, tenta extrair a pulsação deles e exprimir a emoção de cada momento. Desta forma, o espectador é impelido a sentir-se angustiado, provocado, em dúvida, excitado, e surpreso.

Black Swan é uma verdadeira obra de cinema. Destas nas quais o diretor consegue conduzir a história de tal forma que manipula os sentimentos e sensações dos espectadores a seu bel-prazer. Mergulhamos no processo de criação de uma obra e nos bastidores de uma companhia. E mais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Adentramos na angústia perfeccionista da protagonista, uma garota sem experiência de vida, obcecada por ser a melhor bailarina da companhia, que se alimenta pouco – e vomita esse pouco para continuar magérrima, exemplo da bulimia que se tornou um bocado comum entre algumas bailarinas e modelos -, vive em função da dança, e que tem na própria mãe o pêndulo da cobrança e do controle constante. Sem contar a competição. Fascinante a forma com que a garota vai enlouquecendo e, ao mesmo tempo, ganhando a profundidade exigida por sua personalidade dupla no balé prestes a estrear.

No início do filme, especialmente, naquelas cenas no metrô, Black Swan me fez lembrar outro filme brilhante: La Double Vie de Véronique, do fantástico – e mais que recomendado – diretor Krzysztof Kieslowski. Não sei até que ponto a semelhança foi uma espécie de “homenagem” de Aronofsky para o genial Kieslowski, mas é importante lembrar a origem destas “brincadeiras” de sentido. Além de uma direção dinâmica e “bailarina”, Black Swan conta com uma frequente sensação de paranoia e de evolução da personagem principal que torna o seu roteiro psicológico.

Aronofsky e os roteiristas jogam, o tempo todo, com a dúvida do espectador. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Desde o início, a aposta mais evidente é de que Nina Sayers está enlouquecendo. Pela falta de alimentação e descanso, pela alta competitividade que lhe cerca e, principalmente, pela pressão do papel duplo e da expectativa pela substituição da estrela Beth Macintyre (Winona Ryder). As alucinações dela, que passa a ver uma outra Nina perambulando por aí, é o termômetro de que as coisas vão mal e continuarão piorando. Mas até este elemento cria dúvidas no espectador, porque inserem um elemento “sobrenatural” na história. Ou sugerem, pelo menos.

Ainda que a grande estrela do filme seja Natalie Portman, importante destacar pelo menos três outros nomes que acabam sendo fundamentais para esta produção – inclusive como “escada” para a protagonista: o experiente Vincent Cassel como Thomas Leroy; a enigmática, encantadora, fascinante e “competitiva” Mila Kunis como Lily e, finalmente, a veterana Barbara Hershey como Erica, mãe de Nina. Os três estão perfeitos em seus papéis cheios de dupla interpretação – suas ações e reações ganham outros contornos conforme a leitura da protagonista, o que torna a história ainda mais interessante. Dizem que Meryl Streep havia sido cogitada para o papel da mãe de Nina mas, cá entre nós, Barbara Hershey tinha muito mais a ver com o papel. Que bom que ela foi a escolhida.

Black Swan me fez lembrar outro filme, um clássico maior que aquele comentado do Kieslowski: All About Eve, com as fantásticas Bette Davis e Anne Baxter. No filme de 1950, não tínhamos nenhuma sugestão de “sobrenatural” acontecendo, mas uma disputa acirrada entre duas atrizes. Algo visto em Black Swan, entre as duas bailarinas aspirantes ao estrelado – e sugerido entre Nina Sayers e Beth Macintyre e todas as demais bailarinas jovens que pretendem substituir rapidamente a estrela “decadente”.

O interessante de Black Swan é que estas referências a outras filmes não tornam ele uma “cópia” ou uma coleção de referências sem inventividade. Pelo contrário. As lembranças que ele traz de outras produções de qualidade apenas enriquecem a produção e deixam ela mais saborosa, mas não menos criativa. Com uma direção inspirada, um grupo de atores que literalmente se entregaram para os seus papéis e um cuidado técnico de tirar o chapéu, Black Swan envolve e prende o espectador mais do que o esperado. Equilibrando drama, suspense, um tom “fantástico” e artístico, este filme cumpre o seu papel do início ao fim. Algo bastante raro nos dias de hoje, quando muitos filmes, inclusive os de qualidade, costumam apresentar aquele quase inevitável momento de “baixa” na narrativa. Mas não aqui. E o melhor: como em qualquer grande peça de balé, Black Swan também tem o seu “grand finale”. Perfeito.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pode parecer óbvio, em um filme que tem a alma de um clássico repaginado do balé, mas dois elementos técnicos são fundamentais nesta produção: a direção de fotografia de Matthew Libatique e a trilha sonora de Clint Mansell. A primeira joga o tempo todo com tons crus, geralmente carregados, muito mais escuros do que iluminados, em um mergulho constante em tons cinzas ou mais escuros. A razão para isto é óbvia: o caminho obscuro e denso/tenso que pode levar uma pessoa até o estrelato. A trilha sonora é fundamental, porque ela justifica a maior parte da “dança” da câmera do diretor e o ritmo assumido pelo filme. Mérito de Mansell, antigo colaborador de Aronofsky. Soma-se a estes elementos a edição fundamental de Andrew Weisblum. Essa edição, em parceria com a “câmera na mão” e em sistemas versáteis adotados pelo diretor, é responsável pelo tom dinâmico da produção.

Não deixa de ser irônica a escalação de Winona Ryder como a estrela decadente Beth Macintyre. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A atriz faz praticamente uma ponta neste filme. Aparece pouco. Mas a sua própria trajetória, de atriz famosa que foi envolvida em vários escândalos e foi perdendo, na mesma proporção, o convite para bons papéis, reflete-se na personagem do filme de Aronovsky. Em algumas cenas, a decadência e/ou semiloucura da personagem chega a arrepiar. Depois de Mickey Rourke, em The Wrestler, este parece mais um resgate irônico e com certa crítica ao mainstream fomentada pelo diretor. Mas, diferente de Rourke, desta vez Ryder não ficou com o papel de protagonista e, por isso, praticamente some na produção.

Uma cena específica da produção deu o que falar e serviu como um bom chamariz para os que se interessam por temas “picantes”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Me refiro à provocante e sensual sequência em que Natalie Portman se atraca com Mila Kunis. Muito bem conduzida e interpretada, a cena está perfeitamente justificada na produção. Poderia não estar, como tantas outras “cartas” polêmicas inseridas em algumas outras produções que inserem sequências lésbicas provocativas apenas como “chamariz”. Aqui não. O atraco entre Nina e Lily se justifica pela imagem que a segunda representa para a primeira desde o princípio. Além disso, a libido de Nina estava incitada após o desafio de Thomas para que ela começasse a experimentar a sua própria sexualidade. E ela foi neste caminho, rendendo cenas provocativas com Thomas e a já famosa sequência com Lily.

Black Swan tem uma trajetória recente. Estreou em setembro no Festival de Veneza e, a partir daí, passou pelos festivais de Telluride, Toronto, New Orleans, Londres, Austin, Virginia, da AFI, Denver, Saint Louis e Thessaloniki. Até o momento, o filme ganhou três prêmios e foi indicado a outros 22, incluindo quatro Globos de Ouro: Melhor Filme – Drama, Melhor Diretor, Melhor Atriz – Drama e Melhor Atriz Coadjuvante – Drama. Os dois últimos, claro, para Natalie Portman e Mila Kunis.

Os prêmios recebidos pelo filme, até agora, foram os seguintes: Melhor Atriz, para Natalie Portman, e Melhor Edição para Andrew Weisblum no Prêmio da Associação de Críticos de Boston e o prêmio Marcello Mastroiani para Mila Kunis no Festival de Cinema de Veneza.

Black Swan se saiu bem na opinião dos usuários do site IMDb: conseguiu a nota 8,6. Só para comparação, maior do que a de The Social Network: 8,2. No site Rotten Tomatoes o filme também foi bem: conseguiu a aprovação de 88% dos críticos, ou, em outras palavras, recebeu 185 críticas positivas e 25 negativas. A nota média recebida pelo filme foi de 8,2 – nada mal, para os padrões dos críticos que tem textos linkados no site. Um de seus concorrentes no Oscar, King’s Speech, teve um desempenho melhor: conseguiu a aprovação de 95% dos críticos – com nota média de 8,7. E o concorrente principal da produção, The Social Network, conseguiu uma avaliação ainda melhor: 97% e uma nota média 9. Nada mal – e mais uma prova que o filme é o favoritíssimo no próximo Oscar.

O filme de Aronofsky custou US$ 13 milhões e faturou, até o dia 9 de janeiro, pouco mais de US$ 61,2 milhões apenas nos Estados Unidos. Nada mal. Especialmente por se tratar de um filme um bocado “alternativo”. Com certeza o grande chamariz da produção tem sido a avalanche de comentários positivos para o desempenho de Natalie Portman. E a bilheteria só tende a aumentar conforme a atriz for abocanhando novos prêmios. O mesmo vale para Mila Kunis.

Para os que ficaram curiosos para saber onde a produção foi rodada, Black Swan foi interiamente filmado em Nova York.

O grande Vincent Cassel comparou o seu personagem a George Balanchine, co-fundador do Ballet da cidade de Nova York. Segundo Cassel, Balanchine era um controlador extremo, um “verdadeiro artista que usava a sexualidade para direcionar os seus dançarinos”. Parece que o ator francês realmente se inspirou nesta linha. 🙂

Uma curiosidade sobre a produção: inicialmente ela iria ser ambientada nos bastidores do teatro de Nova York. Aronovsky gostou da ideia, do roteiro, mas pediu para que ele fosse transportado para o balé. Sem dúvida, um acerto. Sobre os bastidores do teatro e a competição entre atores existem muitos filmes, mas com o mesmo foco no ambiente do balé, não.

Impressionante a preparação de Natalie Portman e de Mila Kunis para os seus respectivos papéis. Quem quiser saber mais detalhes sobre a preparação das atrizes, o site IMDb traz detalhes neste link. Vale comentar que, apesar da entrega e da preparação pesada de Natalie Portman para o seu papel, em algumas cenas com movimentos muito complexos, ela contou com a ajuda da “dublê” e bailarina profissional Sarah Lane.

Em uma entrevista para a divina Ana Maria Bahiana, Aronovsky disse que Black Swan “é mais um conto de fadas do que um estudo da mente humana. É a antiga disputa da luz contra a sombra. É uma jornada pelo mundo das sombras”. E eu diria que esta é uma boa definição. E outra curiosidade: a irmã de Aronofsky fez balé por muito tempo, por isso o fascínio e o conhecimento do diretor deste mundo – e seu interesse em transportar a história do teatro para o balé. Bacana, hein? Foi a irmã dele que comentou que, muitas vezes, a bailarina do clássico interpreta a Rainha dos Cisnes e o Cisne Negro ao mesmo tempo.

CONCLUSÃO: Um filme intenso, pulsante, que mergulha na arte e na força do ballet. Se aprofunda, também, nos efeitos de uma busca incessante pela perfeição. Mais um grande trabalho do diretor Darren Aronofsky, um dos jovens cineastas autorais que manteve, até o momento, uma filmografia digna de ser vista do início ao fim. Contando com uma câmera ágil, um roteiro envolvente e uma entrega dos atores principais digna de prêmios, Black Swan atinge com perfeição todas as suas promessas. Trata da arte e de suas múltiplas interpretações na mesma forma com que joga com a libido do espectador. Uma produção sem erros, com a marca de seu realizador e um trabalho incrível da atriz principal. Merece ser vista – com tempo e sem receios.

PALPITES PARA O OSCAR 2011: Black Swan tem alguns grandes concorrentes pela frente. The Social Network é um filme competente e que consegue resumir, de uma maneira que outras produções premiadas fizeram anteriormente, o seu próprio tempo. Ainda assim, mesmo que esta próxima edição do Oscar tenha quatro ou cinco grandes concorrentes na disputa, acredito que Black Swan poderá figurar com indicações nas principais categorias.

Para o deleite das pessoas que gostam do bom cinema feito nos Estados Unidos, nos últimos anos o Oscar tem dado cada vez mais espaço para os filmes “independentes” ou, se preferirem chamar, para as produções de baixo orçamento. Black Swan caminha nesta linha. Pela qualidade técnica do filme e sua veia artística escancarada, acredito que a produção deverá ser indicada para as principais categorias. Disputará em Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz, Melhor Roteiro Original, Melhor Edição e, possivelmente, Melhor Atriz Coadjuvante. Talvez consiga aparecer em alguma outra categoria técnica. É de se esperar.

Entre as categorias que eu tenho como certas que ele vá concorrer, acredito que as melhores chances do filme estejam em Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante (com menos chance) e Melhor Diretor. Pessoalmente, gostaria muito que Aronofsky ganhasse, mas ele terá um páreo duríssimo com “a bola da vez”, David Fincher. Natalie Portman provavelmente levará o Oscar, mas também não seria de todo injusto se Annette Bening surpreendesse a todos e levasse o prêmio para casa.

Além de Fincher, o grande concorrente de Aronofsky no prêmio é Tom Hooper. Eu torço para Aronofsky e, em segundo lugar, Fincher, ainda que eu acredite que o segundo vá ganhar – junto com o seu filme. Nas categorias técnicas, Black Swan pode abocanhar alguns prêmios, especialmente em edição. É esperar para ver – e, neste domingo, o Globo de Ouro será um bom termômetro.

SUGESTÕES DE LEITORES: Meus caros, vocês devem ter observado que eu estou super-mega-ultra atrasada com as respostas para vocês. Mas pouco a pouco vou colocando a nossa conversa em dia. Como só agora estou tendo tempo para começar esse processo, devo admitir que cometi uma falha. Há tempos eu estava monitorando para assistir a Black Swan, mas muito antes de conseguir fazer isso, vários leitores deste blog comentaram sobre o filme. E vocês sabem que qualquer comentário eu considero uma sugestão para o blog, mesmo que isso não esteja totalmente declarado. Então eu devo dizer que o primeiro a indicar Black Swan, no final de dezembro de 2010, foi o Túlio. Alguns dias depois, a segunda pessoa a falar do filme foi o Vander. Então, meus bons, muito obrigada pela dica e pela “forcinha” para que eu assistisse a Black Swan. Pela correria, só fui ver ele tempos depois. Mas vale aqui o registro. E se eu reparar que outros indicaram o filme antes que eu publicasse o texto dele aqui, vou citá-los em seguida.

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Brothers – Entre Irmãos

Feridas provocadas pela guerra que parecem não curar nunca foram retratadas, até hoje, por dezenas de filmes em Hollywood. O diferencial de Brothers em relação aos demais é a sua tentativa de colocar em primeiro plano a relação familiar que cerca um veterano de guerra. Não entra em jogo, nesta história, sua busca por se encaixar na sociedade, como tentativas frustradas de encontrar um novo emprego ou sua luta para vencer o alcoolismo. Na verdade, tudo o que o protagonista de Brothers deseja é voltar para o “terreno seguro” dos enfrentamentos militares. O cartaz da nova produção dirigida pelo veterano Jim Sheridan dá a dica sobre o que diferencia realmente esta produção: a possibilidade de um triângulo amoroso protagonizado por dois irmãos. Ainda que bem escrito, com uma direção segura e interpretações variáveis, Brothers parece ter ficado dois tons abaixo do ideal.

A HISTÓRIA: A bandeira dos Estados Unidos é hasteada no Fort Mahlus no dia 7 de outubro de 2007 e um grupo de soldados corre nas primeiras horas da manhã. Integra o pelotão bem preparado pelo Exército o capitão Sam Cahill (Tobey Maguire). Ele conta os dias – quatro, precisamente – para ser enviado novamente ao Afeganistão. Antes, escreve uma carta de despedida para a esposa, Grace (Natalie Portman). Ele espera que ela não precise recebê-la. Sam deixa a carta que escreveu para o major Cavazos (Clifton Collins Jr.) antes de dirigir para casa, onde encontra a esposa e suas duas filhas, Isabelle (Bailee Madison) e Maggie (Taylor Geare). Pouco depois, Sam vai até o presídio local, pegar o irmão mais novo, Tommy (Jake Gyllenhaal), que está saindo em condicional. Grace não gosta de Tommy, mas ele acaba sendo o apoio inesperado da família quando Sam não volta para casa do Afeganistão.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Brothers): Eu gosto do estilo do diretor Jim Sheridan. Uma de suas marcas registradas é tratar temas sérios e duros com uma levada marcante de “modernidade” – para alguns, uma levada pop. O primeiro filme dele que me marcou foi My Left Foot: The Story of Christy Brown, com um marcante Daniel Day-Lewis como protagonista. Depois, me marcou muito In the Name of the Father, com uma interpretação igualmente marcante de Day-Lewis e uma trilha sonora poderosa que contava, entre outros, com Bono, do U2. Não foi por acaso que aquela produção, de 1993, recebeu sete indicações ao Oscar. Sheridan, contudo, não é um diretor prolífico. Em 20 anos, ele dirigiu apenas sete filmes. Brothers, sua última produção lançada nos cinemas, surgiu quatro anos depois de seu trabalho anterior.

Novamente Sheridan consegue equilibrar na medida exata imagens bem captadas/planejadas, uma trilha sonora moderna e atuações competentes. Ainda que Tobey Maguire tenha conseguido com o personagem de Sam um de seus papéis mais “adultos” dos últimos tempos, ele ainda lembra a imagem do “adolescente-prestes-a-virar-adulto” que parece lhe acompanhar sem descanso desde Spider-Man e The Cider House Rules. Jake Gyllenhaal praticamente não muda a sua expressão durante todo o filme, e Natalie Portman, esta sim, parece navegar bem nos diferentes sentimentos com os quais sua personagem deve lidar.

Com isso, não quero dizer que Tobey Maguire, por exemplo, está mal no filme. Não. Talvez em Brothers ele consiga um dos primeiros papéis sérios de sua carreira – e ele, geralmente, consegue segurar esta responsabilidade com competência. O problema talvez resida no fato de que este filme, com roteiro de David Benioff, resolve dar uma “acelerada” no final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Teria sido muito melhor para a história e para a interpretação de Maguire se ele tivesse mais tempo de desenvolver a “estranheza” de voltar para casa depois da experiência traumatizante do Afeganistão. O roteirista decidiu gastar muito mais tempo do filme com a aproximação de Tommy com a família do irmão do que em explorar a adaptação (ou melhor, a falta dela) de Sam no retorno para casa. Acredito que se o espectador tivesse mais tempo de observar o quanto o pai das meninas estava frio, ausente e distante de sua mulher e de suas filhas, a história convenceria mais no final – e Maguire teria um terreno adequado para mostrar seu talento sem parecer “estranhamente desesperado”, como na sequência da quebradeira na cozinha.

Mas antes de continuar falando do trio de atores principais de Brothers, vamos comentar sobre o que o filme nos conta. Importante citar que esta nova produção de Jim Sheridan é uma refilmagem do dinamarquês Brodre, dirigido por Susanne Bier (de Efter Brylluppet e Things We Lost in the Fire, comentado aqui no blog, entre outros), uma das melhores diretoras de seu país, e lançado em 2004. Não assisti ao filme original, mas pelo estilo de Bier e do roteirista Anders Thomas Jensen, algo me diz que a produção original deveria ser mais ousada que esta refilmagem de Sheridan – quem assistiu aos dois, por favor, comente a respeito. Uma das razões que fazem Hollywood “repaginarem” produções de outros países é a de “emprestarem” boas idéias e transformá-las em um produto de vitrine, que poderá, em teoria, ser visto por um público muito maior.

A verdade é que o argumento de Brothers é muito interessante. Ele traz, como eu disse lá no início, a idéia das “feridas de guerra” vista em outra perspectiva. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O ponto central do roteiro reside no cotidiano da família Cahill. Temos, em jogo, a boa e velha “disputa” entre irmãos – um tratado como herói, o outro, como bandido. Essa disputa nasceu há muito tempo, quando Sam e Tommy ainda eram crianças. O irmão mais novo sente-se sempre subjugado pelo mais velho – especialmente pela visão que ele acha que o pai deles, Hank (Sam Shepard), preserva desde que eles eram jovens. Ainda assim, os garotos, aparentemente, conseguiram manter o laço de confiança, amor e irmandade bastante fortes. Como muitos filmes dinamarqueses, a questão familiar ganha protagonismo mesmo quando o assunto é a guerra.

Para os que tem pressa em ver “algo acontecer” em um filme, Brothers não demora muito para promover as mudanças na dinâmica da história. Rapidamente ocorre uma “dança de cadeiras” no núcleo familiar dos Cahill. Sai de cena o aparentemente equilibrado e amoroso Sam, que volta para os terrenos perigosos do Afeganistão, e entra no convívio de Grace e filhas o até então inconstante e problemático Tommy. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Com esta mudança de papéis involuntária, Brothers lança outra reflexão: ninguém é apenas uma coisa nesta vida. Nem Sam era o herói acima de qualquer suspeita e muito menos Tommy era o problemático que todos estavam acostumados a olhar com desconfiança. Quando o irmão mais novo assume, naturalmente, as responsabilidades do mais velho, Brothers nos ajuda a refletir sobre como o rol social pode ajudar a definir uma pessoa.

O que ninguém percebe – e nisto o espectador é colocado em lugar previlegiado porque, ele sim, sabe o que está acontecendo – é que o herói Sam perde esta sua definição quando é capturado no Afeganistão. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Perdido, sem saber que papel continuar seguindo na vida – e é a identidade pessoal e o rol social que assumimos na sociedade o que nos define -, Sam se sente totalmente desnorteado e sufocado pela realidade da família que, ainda, o vê como herói (mesmo depois dele ter matado um companheiro de Exército para conseguir continuar vivo). A dura realidade exposta com naturalidade por Brothers nos mostra um protagonista que busca, no seio familiar, qualquer indício de traição. Ele quer encontrar, seja em Grace ou em Tommy, a mesma traição que ele sente ter praticado contra o Exército, simbolizado pelo soldado Joe Willis (Patrick Flueger) e, indiretamente, contra a sua própria vida (identificada pelo rol social de herói). Sam não suporta, em resumo, olhar-se no espelho – e/ou confrontar-se com si mesmo.

Em certo ponto do filme, Sam comenta que se sente em casa no Afeganistão, acompanhado de “seus homens” (soldados). (SPOILER). Quando ele pratica uma traição neste ambiente “familiar” do Exército, no momento em que ele quebra a confiança em seu “segundo” lar, parece quase natural que ele busque a mesma “sujeira” em sua família original. Para que ele tenha alguma absolvição, é preciso que Grace ou Tommy tenham traído a sua confiança também. Esta reflexão vai fundo em um sentimento irreparável de perda e de cobrança que parece cercar os veteranos de distintas guerras. Mas poucas vezes este assunto foi tratado de forma tão pessoal e com diferentes camadas interpretativas. Um belo trabalho dos roteiristas originais, Bier e Andersen e, neste filme de Sheridan, de Benioff. Ainda que, francamente, achei que o filme poderia ser um pouco mais longo, para que o espectador pudesse acompanhar com um pouco mais de tempo as mudanças pelas quais passa Sam – especialmente no ambiente familiar. A acelerada no final prejudicou um pouco o desempenho de Tobey Maguire – que vinha fazendo um dos melhores trabalhos de sua carreira.

Em alguns momentos, Jake Gyllenhaal e Natalie Portman conseguem acompanhar o nível de entrega de Maguire. Gyllenhaal, por exemplo, consegue variar bem o tom rude com o qual o seu personagem sai da prisão com a leveza que ele encontra quando reencontra a alegria de fazer parte de uma família – composta por crianças. Ainda que, francamente, me irrite um pouco aquela sua permanente expressão de “cachorro abandonado” – a mesma que se vê quando ele fala com o pai na cozinha de Grace e a que ele esbanja quando enfrenta o irmão, perto do final do filme. Natalie Portman se mantêm firme e coerente com a sua personagem, ainda que eu tenha sentido a falta de um pouco mais de emoção a partir do momento em que Sam volta estranho para casa – especialmente na já citada cena de descontrole do marido na cozinha. Mas no geral, o núcleo central de Brothers trabalha muito bem – e, admito, sou suspeita para falar, porque gosto muito dos três atores principais.

Antes de falar dos aspectos técnicos do filme, como a direção de fotografia e a trilha sonora, uma última reflexão sobre a sua história. (SPOILER). Não deixa de ser interessante como Gracie e Sam tomam atitudes para não “tornar verdadeiras” as realidades que eles não querem aceitar. Gracie, primeiro, deixa de abrir a carta escrita por Sam antes dele “morrer” no Afeganistão – como se, ao ler a sua despedida, ela aceitasse que ele havia morrido. Depois, Sam evita ao máximo revelar, para quem quer que seja, o que ocorreu no tempo em que ele ficou prisioneiro no Afeganistão. É como se, ao verbalizar o seu ato de traição para alguém, ele tornasse este ato, finalmente, real. Palavras escritas ou proferidas parecem ter, na história de Brothers, a capacidade de materializar realidades. O que, na vida real, parece também ser verdade. Não sabemos se Sam conseguirá aceitar o fato de que continua vivo – e enfrentar/absolver seus próprios “pecados”. Mas a história de amor dele e de Grace, o ponto central deste filme, parece ser o único caminho possível para ajudá-lo neste sentido.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos primeiros elementos que me chamou a atenção neste filme foi a trilha sonora de Thomas Newman. O veterano e premiado compositor fez um trabalho muito bom com Brothers. Escolheu a dedo composições que casaram perfeitamente com a história. E a estrela entre elas, Winter, composta por Bono e o U2, aparece apenas nos créditos finais. Como se ela fosse uma ode à história de amor e sobrevivência que acabamos de assistir. E o U2, velho parceiro de Jim Sheridan, é “homenageado” em outra parte do filme, quando seu clássico, Bad, ganha um papel curioso na aproximação de Grace e Tommy. Mas além da banda de origem irlandesa, integram a trilha sonora de Brothers músicas como Rocky Mountain Man (escrita por David Manzanares e interpretada por David James), Empty Sky (interpretada por Simon Wilcox), entre outras. A música, neste filme, casa perfeitamente com a história e as imagens algumas vezes poéticas de Sheridan.

O diretor, aliás, faz um trabalho bastante correto. Ainda que o foco de suas câmeras sejam sempre a intepretação dos atores em cena, não lhe escapam detalhes como as imagens captadas por Sam no Afeganistão ou a aliança do capitão deixada no pescoço de sua esposa. Em vários momentos Sheridan assume a posição de um observador “íntimo”, familiar, como é o caso das cenas da intimidade de Grace e Sam da parte inicial da produção. Em outras ocasiões, como nos atos de tortura sofridos por Sam e Joe no Afeganistão, Sheridan mantêm a sua câmera distante, como que em sinal de reprovação ao que está sendo mostrado (ou como indicativo de perigo). A posição e o grau de intimidade do “observador” mudam conforme a situação, mas em nenhum momento o espectador é privado do que está ocorrendo. Uma forma de narrar tradicional e ao mesmo tempo cuidadosamente planejada – o que apenas comprova a experiência e o talento de Sheridan.

Outro ponto importante do filme é a qualidade técnica da direção de fotografia de Frederick Elmes. Ele utiliza um jogo de lentes que puxam as cores sempre um pouco para ao cinza, ressaltando a crueza da difícil realidade que cerca a família Cahill. Mesmo nos momentos “felizes” de brincadeiras na neve, quando Sam está ausente, o tom das imagens parece recordar os espectadores de que aquela felicidade é apenas aparente, talvez “falsa”. Afinal, o “herói” da história está passando por maus bocados longe dali. Quando ele volta para casa com o peso da culpa e com a necessidade de encontrar “bodes-expiatórios” para os seus próprios “pecados”, o tom cromático é o mesmo. Uma escolha interessante de Elmes que, com a escolha deste tom permanentemente “cinzento”, parece nos lembrar que esta história não é simples – ainda que, no fundo, ela trate de amor e perdão.

Além do trio de protagonista, é importante citar que o elenco de apoio também se mostra muito competente. Do veterano Sam Shepard até as jovens Bailee Madison e Taylor Geare (especialmente Bailee), todos incorporam com perfeição as diferentes experiências e sentimentos pelos quais passam o seus personagens. Vale a pena citar ainda o trabalho de Mare Winningham como Elsie Cahill, madrasta de Sam e Tommy; Carey Mulligan como Cassie Willis, viúva do soldado Joe; Omid Abtahi como Yusuf, o chefão dos “vilões” do Afeganistão, e Navid Negahban como Murad, o seu braço direito.

Brothers não tem como objetivo discutir o papel de “mocinhos e bandidos” em uma invasão/ocupação como a do Exército dos Estados Unidos no Afeganistão. Ainda que os soldados norte-americanos apareçam apenas como “vítimas” dos terroristas, o objetivo do filme não é discutir este tema, e sim mostrar o que acontece na vida familiar de quem resolve se dedicar a uma “causa” como a de proteger o seu próprio país.

O mais recente filme dirigido por Sheridan estreou no início de dezembro de 2009 em Israel, no Canadá e nos Estados Unidos. Em seu currículo, até o momento, a participação em apenas um festival, o de Dubai. Talvez por isso ele tenha sido indicado a apenas três prêmios: um da Broadcast Film Critics Association e outros dois do Globo de Ouro.

Até o início deste ano Brothers havia arrecadado pouco mais de US$ 25,3 milhões nos Estados Unidos. Uma bilheteria razoável para um filme que não teve um grande investimento de marketing – só para comparar, o mega divulgado Nine conseguiu, até o momento, pouco mais de US$ 13,7 milhões.

As opiniões sobre Brothers são positivas, ainda que nada arrebatadoras. Os usuários do site IMDb, por exemplo, deram a nota 7,6 para o filme. Por sua vez, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais duros com a nova produção de Sheridan: lhe dedicaram 60 críticas positivas e 45 negativas, o que garante para Brothers uma aprovação de 57%. Um dos críticos que reprovou Brothers foi Rex Reed, do The New York Observer. Neste texto Reed afirma que esta foi uma refilmagem desnecessária. Ele comenta que o drama ao estilo Caim e Abel ambientado em uma cidade do interior dos Estados Unidos tem mais clichês do que um filme pode suportar. Concordo com ele quando o crítico afirma que as mudanças de papéis entre os irmãos ocorrem muito rapidamente e de forma alarmante – e, por isso, de maneira um pouco difícil de acreditar. Esse, sem dúvida, é o principal problema do filme.

David Denby, do The New Yorker, comenta que os atores Tobey Maguire e Natalie Portman não parecem caminhar juntos – ou, em outras palavras, não tem a sintonia necessária para seus papéis. Nesta curta crítica, Denby bate firme na sequência em que Maguire se descontrola na cozinha da família – chamando seu trabalho de pirotecnia ao invés de interpretação. Pegou pesado, não? O crítico considera o filme The Messenger, que trata de um tema similar, melhor que Brothers. A conferir.

Neste outro texto, Liam Lacey afirma que o desejo de Brothers em emocionar o público acaba enfraquecendo a história, ao tranformá-la em um melodrama. Gostei, especialmente, quando Lacey faz um paralelo entre as irmãs Maggie e Isabelle e os irmãos Sam e Tommy. Realmente na questão disputa, insegurança e “queridinha/o-de-todos” as duas filhas de Sam se parecem com ele e o irmão Tommy. Lacey ainda destaca o trabalho de Sheridan com os atores, comentando o desempenho maduro de Natalie Portman e a eficácia dos demais intérpretes em seus respectivos papéis. Mas o crítico afirma que o principal pecado do filme é o de tentar ser “potente” desde o princípio. Ainda que respeite o material original, o filme de Sheridan tem uma dinâmica muito diferente que seu predecessor. Para Lacey, o estilo do original dinamarquês, filmado sob os preceitos do Dogma, captava a realidade através do uso de câmeras na mão da diretora, revelando naturalmente a angústia da crise familiar retratada. A busca de Sheridan por confrontar a realidade do Afeganistão com a do cotidiano familiar dos Cahill acaba colocando o espectador em guarda contra a manipulação das performances das estrelas do elenco, dos “riffs” de guitarra e da arrebatadora canção final do U2. Interessante reflexão.

Tom Long, do The Detroit News, afirma neste texto que Brothers surpreende ao público e que esta produção, mesmo contando com um elenco afiado, é mesmo de Tobey Maguire. Long considera o último filme de Sheridan perturbador. A sempre interessante Claudia Puig, do USA Today, destaca neste texto a agilidade de Sheridan como contador de histórias e o seu talento para dirigir o trabalho dos atores – mesmo os mais jovens/crianças. “Embora tenha várias cenas poderosas e comoventes, o filme também apresenta momentos de artifício desnecessários”, comenta Puig – e ela tem razão. Ainda assim, a crítica afirma que Brothers acaba sendo instigante em sua tentativa de explorar a natureza complexa dos vínculos familiares – onde as feridas causadas por um pai perturbado podem ser tão dolorosas quanto as cicatrizes de uma batalha.

A crítica Lisa Kennedy, do Denver Post, destaca a interpretação das meninas que interpretam as filhas de Sam e Grace – para ela, neste texto, elas são o ponto forte de Brothers. Peter Howell, do The Star, comenta neste texto que a comparação entre um remake e seu original é praticamente uma forma de punição para a nova produção. Sem hesitar, o crítico afirma que o original, dirigido por Susanne Bier, é melhor que o filme de Sheridan em todos os aspectos. Howell destaca o trabalho de “alto calibre” de Maguire, Gyllenhaal e Portman, ainda que, para ele, falte a naturalidade mostrada pelos atores dinamarqueses do filme original. “No Brothers original, você pode entender melhor as motivações dos personagens e as decisões que eles tomam”, afirma o crítico. Para Howell, ainda com todos os seus “pecados”, o Brothers de Sheridan merece ser visto – especialmente pelas performances de seus atores.

Eu admiro cartazes e sites de filmes que primam pela simplicidade e pela plasticidade. Este é o caso de Brothers, que tem um pôster e um site oficial bem feitos e muito limpos.

CONCLUSÃO: Com uma história poderosa que explora os efeitos da guerra na intimidade de uma família, Brothers evidencia o trabalho do seu trio de atores principal. Sob a batuta do experiente Jim Sheridan, Tobey Maguire e Natalie Portman conseguem interpretações maduras – talvez as melhores de suas respectivas carreiras nos últimos tempos. Jake Gyllenhaal e as jovens Bailee Madison e Taylor Geare também se destacam nesta produção. Com um desenvolvimento natural e parte de sua narrativa dividida em duas realidades – uma nos Estados Unidos, outra no Afeganistão -, Brothers sofre, contudo, com mudanças no roteiro bruscas demais. O resultado é que parte da história acaba parecendo um tanto artificial e/ou forçada além do desejado. Ainda assim, é destes filmes que emocionam e fazem pensar. Não apenas sobre os efeitos da guerra na vida prática de seus sobreviventes, mas sobre o papel que certas pessoas desempenham em suas famílias e sobre a capacidade delas em conviver com os seus próprios pecados.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Brothers não deve ter muitas chances na próxima premiação da Academia. Se o Globo de Ouro serve de termômetro para o Oscar, o novo filme de Jim Sheridan poderia emplacar indicações para Tobey Maguire e para a música Winter, do U2. Francamente, não acho que Maguire tenha alguma chance real de levar uma estatueta para casa – acho difícil, inclusive, que ele consiga chegar entre os cinco indicados ao prêmio. Por mais que o ator tenha se entregado no papel de Sam Cahill, ele fica atrás de outros colegas bastante cotados nesta categoria. Winter, por outro lado, tem grandes chances de ser indicada na categoria de Melhor Canção Original. Mas para vencer, Bono e colegas de banda terão que levar a melhor na queda-de-braços com os representantes de Avatar, Nine e Crazy Heart, entre outros. O páreo será duro. Dificilmente Brothers conseguirá alguma outra indicação, mas não seria absurdo vê-lo surpreendendo a muitos nas categorias Melhor Atriz (com Natalie Portman), Melhor Ator Coadjuvante (com Jake Gyllenhaal) ou Melhor Trilha Sonora Original. Mas se eu fosse apostar, diria que Brothers sairá de mãos vazias do Oscar.