Mother! – Mãe!

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Um dos filmes mais “malucos” e controversos que eu assisti em um longo tempo. Na verdade, se eu fosse fazer uma lista com estes predicados, provavelmente Mother! estaria no Top 5 avaliando todas as produções que eu vi até hoje na vida. Darren Aronofsky, de quem eu gosto tanto, desta vez foi um pouco longe demais. Claro que o diretor dá um show na condução da trama mas, no final, nos perguntamos para que tanto esforço. Dele e de quem assiste a este filme. Sim, há um objetivo claro nesta produção. Aronofsky, mais uma vez, alcança o seu objetivo. Mas isso não significa, exatamente, uma grande experiência para quem se lança no cinema para assistir à sua mais nova “peça de arte”.

A HISTÓRIA: Uma pessoa está pegando fogo. Enquanto as chamas queimam, uma lágrima cai pelo seu rosto. Um homem (Javier Bardem) coloca uma grande pedra transparente – que se assemelha à uma pedra preciosa – sobre um pedestal. Logo após ele fazer isso, tudo que estava queimado e que foi destruído pelas chamas volta a se regenerar e a voltar ao ponto anterior ao da destruição. A casa volta ao normal, cada detalhe, inclusive a mulher que está sobre a cama (Jennifer Lawrence). Ela acorda e caminha pela casa procurando por algo. Logo chama por “amor”, e descobrimos que ela é casada com o homem que conseguiu regenerar tudo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mother): Eu gosto muito do diretor Darren Aronofsky, como eu comentei antes. Ele é um dos diretores que eu gosto de acompanhar. Destes raros que eu procuro assistir a todos os filmes que ele já fez. Algumas das produções criadas por ele estão entre as minha preferidas de todos os tempos – com destaque para Requiem for a Dream.

Depois de falar sobre este contexto pessoal, como fã de cinema e de Aronofsky, devo dizer que fiquei chocada com Mother!. Mais que nada, porque achei este filme como um dos piores – se não o pior – da filmografia do diretor. E digo isso por várias razões. Mother! é pretensioso, é cansativo, e por mais que ele faça sentido se pensarmos na história dele de trás para a frente, ele me pareceu mais “sem pé e nem cabeça” do que o desejado. Desta vez, como falei lá no início, parece que Aronofsky quis dar vasão para a sua criatividade de uma forma mais visceral e “maluca” e acabou passando um pouco do limite.

Sei bem, assim como vocês, que cinema – e qualquer outro consumo artístico e cultural – é uma questão muito pessoal. O entendimento sobre cada filme e cada obra depende muito da nossa ótica, nossas experiências, crenças, valores e um longo etc. Mas, como sempre – e isso é chover no molhado -, falo por aqui sobre os filmes sob a minha ótica. Respeito as diferenças, as outras visões além da minha, mas meu papel aqui é falar sobre o que eu vi tendo como base o meu arcabouço de conhecimento e a minha ótica.

Pois bem, afinal de contas, sobre o que fala Mother!? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início do filme e por um bom período dele, pensamos que esta produção trata de um casal que passa por uma certa crise e/ou que tem buscado coisas diferentes. Ainda que esta seja a aparência, alguns elementos – especialmente a direção muito bem feita de Aronofsky – nos fazem ter, permanentemente, uma certa sensação de estranheza e até de mal estar. Algo parece estar muito errado, apesar de toda a beleza que vemos na nossa frente – não apenas da protagonista, mas da casa e do cenário em que ela se move.

Então, evidentemente, aqui – e na vida mesmo -, as aparências enganam. Sim, sabemos que há algo de “muito podre no Reino da Inglaterra”. E aí passamos por um longo período de certa estranheza e angústia e, perto do fim, por uma viagem louca e frenética de cenas diversas de destruição e violência para, no fim das contas, entender o que? No final, finalmente, chegamos ao cerne da questão. Entendemos a razão deste filme existir. Ou seja, como eu disse antes, o estranhíssimo e um tanto pretensioso novo filme de Aronofsky tem sim um significado.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No final, bem no final, entendemos que a protagonista é a “musa inspiradora”, literalmente as lembranças de casa/das origens do poeta – e, claro, entendemos quem é aquele sujeito que está no comando de tudo o tempo todo. Assim, a personagem de Jennifer Lawrence, que nos créditos do filme recebe o nome de “Mother” – mas que durante o desenrolar da história é chamada de “meu amor”, “musa”, entre outros nomes – é, no fim das contas, as memórias que o protagonista tem da sua própria casa, do seu lar, de um lugar que não existe mais mas que o inspira para escrever a sua obra.

Em outras palavras, a personagem de Jennifer Lawrence é a “musa inspiradora” do poeta. Por isso mesmo que ela, após uma noite de paixão com o protagonista, consegue engravidar e, depois, dá a luz à “obra-prima” do protagonista. O personagem central de tudo isso, contudo, é o escritor/poeta interpretado por Javier Bardem. Ainda que a câmera de Aronofsky esteja permanentemente “colada” em Lawrence, acompanhando cada passo dela, toda aquela realidade e tudo que acontece com o “casal” só existe porque o personagem de Bardem existe.

No final das contas, parece que Aronofsky também brinca de ter em Lawrence a sua musa inspiradora. Afinal, é nela que a câmera dele está sempre focada ou próxima. Ela dita os movimentos do diretor. É como se ele não pudesse nunca perder de vista a sua inspiração – diferente do protagonista, que se encanta com vários outros elementos além da sua noção de “lar”. Encantado com o sucesso, muitas vezes ele se esquece da sua fonte de inspiração e dá as costas para ela.

Por sua parte, como a câmera está sempre acompanhando Lawrence, percebemos sob a ótica da inspiração os efeitos do desamor, do abandono e do esquecimento. Aquele sensação de estranheza e de certa angústia é provocada justamente pela falta de sintonia entre o que a inspiração do poeta deseja – apenas ele – e o que o próprio escritor lhe apresenta como resposta para os seus apelos.

Ou seja, para resumir, ao contrário do que pode parecer no início, este filme é uma grande reflexão sobre como as lembranças de um lar, as recordações da origem (e do amor) servem de inspiração fundamental para um artista/poeta e para a sua obra. E como este escritor/poeta/artista pode ser cruel, infiel ou inconstante em relação à sua fonte de inspiração quando começa a fazer sucesso e/ou volta a ser endeusado.

Mother!, no fim das contas, é uma viagem pessoal de Aronofsky sobre a fonte de inspiração de todo artista e de como esta fonte pode incomodar ou ser violentada/atacada de formas muito diversas em regimes totalitários, durante guerras, perseguições e uma bela variedade de conflitos. A inspiração e a arte estão sendo atacadas e sempre foram atacadas em diferentes lugares durante muitos períodos da História. E Aronofsky parece ter resolvido falar disso de uma forma bastante inusitada. Com Mother! o próprio diretor resolve fazer um trabalho mais “artístico”, mas será mesmo que ele conseguiu fazer esta entrega de forma perfeita?

Vou dividir esta resposta em duas partes. Em relação à direção, sem dúvidas Aronofsky faz mais uma entrega exemplar. Ele tem uma dinâmica interessante de câmera, cuidando de valorizar sempre a personagem de Jennifer Lawrence. Toda a narrativa está sob a ótica dela. Afinal, ela é a protagonista, a peça-chave de toda a produção. Ela inspira o artista, o poeta, e sem ela nada existiria. A musa inspiradora do protagonista e deste filme fica realmente no centro do “tablado” o tempo inteiro, e o esforço da direção de Aronofsky não é apenas de seguirmos de perto o que ela faz, mas também de sentir o mesmo que ela – incluindo bastante estranheza, confusão e mal estar.

Neste sentido, tanto a direção quanto boa parte do roteiro de Aronofsky fazem sentido e são coerentes – especialmente se pensamos no filme do final para o início. Porque, desta forma, tudo faz um pouco mais de sentido. Mas e o roteiro? Aronofsky também acerta no roteiro? É nesta parte fundamental de qualquer filme – para mim, sempre a parte central de uma produção – que o diretor/roteirista derrapa. É justamente em várias escolhas do roteiro que ele sugere ter uma obra pretensiosa demais. Vejamos.

Se a intenção do diretor era mostrar o quanto uma “musa inspiradora” é fundamental para um artista e o quanto ele pode se deixar levar pela fama, pelos fãs, pelo “circo” todo que envolve uma obra aclamada e, ao fazer isso, esquecer a sua musa e maltratá-la com esta indiferença, era preciso mesmo tanto ir-e-vir de personagens estranhos na história? O fã que chega sozinho e depois é seguido pela mulher e pelos filhos… eles realmente precisavam ocupar tanto tempo da história?

E, depois, quando o diretor vai inserindo outras pessoas em cena que “invadem” o espaço da “musa inspiradora” e que tornam a angústia dela cada vez maior, até que somos arrebatados por uma sequência maluca de diversos episódios da História em que a arte/a musa inspiradora foram atacadas, nos perguntamos: toda aquela “verborragia” cênica era realmente necessária? Ou foi apenas uma forma do diretor mostrar a sua capacidade? Da minha parte, tudo isso me pareceu o esforço de um artista de mostrar que ele sabe pintar com cores fortes e de forma “mais livre”. Mas isso nem sempre resulta em uma obra de arte como ele gostaria.

Sim, Aronofsky é um grande diretor. Ele sabe conduzir bem uma trama e os atores envolvidos neste projeto fazem um belo trabalho. Mas no final das contas Mother! se apresenta um filme longo demais, um bocado repetitivo e arrastado. E tudo para nos contar uma história sobre um artista e a sua musa inspiradora, e sobre como o mundo e os seus exageros corrompem esta relação que poderia ser perfeita. Enfim, lembrando uma obra de William Shakespeare, achei este filme “muito barulho por nada”. Ou quase isso.

Quando sai do cinema, fiquei um bom tempo pensando sobre a nota que eu daria para esta produção. Admito que, por gostar tanto de Aronofsky, eu comecei dando uma nota mais alta do que esta que vocês podem conferir abaixo. Se compararmos este filme com outros muito medianos que eu comentei aqui no blog e que, por alguma razão ou outra, acabaram recebendo um 8 ou um 8,5, provavelmente concordaríamos que estes outros filmes medianos são “menores” do que Mother!. Mas a nota abaixo foi dada apenas na perspectiva deste filme, sem tentar compará-lo muito com outros.

Pensei, na verdade, mais na obra de Aronofsky e no que eu acho que ele poderia ter apresentado em uma nova produção. E tendo isto como critério, mais do que o que eu tenho visto de outros diretores, é que eu resolvi dar uma nota mais baixo. Admito, sim, que eu esperava mais de Aronofsky. Até pelo que ele já nos apresentou. E se você começou a ver este diretor com Mother!, saiba que ele é muito melhor. Da minha parte, gosto muito de Requiem for a Dream, Pi e Black Swan (comentado aqui). Procure assisti-los, caso ainda não o tenha feito.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu assisti este filme no cinema. E achei interessante a reação das pessoas. Algumas desistiram do filme antes mesmo dele acabar. Notei isso, primeiro, com algumas pessoas abaixo de mim na sala acessando o tempo todo o smartphone, pouco interessadas naquela trama “circular” e repetitiva que estava passando na telona. Depois, algumas pessoas simplesmente saíram do cinema antes do final da trama. Respeito todas as opiniões, sempre, mas isso é algo que eu me recuso a fazer. Não importa o quanto o filme seja ruim ou me desagrade. Eu fico até o final.

Outras reações foram interessantes quando eu sai da sala de cinema. Na minha sessão haviam muitos jovens. Possivelmente pessoas que conheceram Aronofsky com o seu maravilhoso Black Swan, lançado em 2010. Estas pessoas saíram insatisfeitas do cinema. Algumas não entenderam a “moral da história”, o que o filme quis dizer. Outras – e dou razão para estas pessoas -, reclamaram do filme ser classificado como “horror” e “mistério”. Realmente, nada a ver ele estar na categoria “horror”. No fundo, Mother! é um drama sobre um artista e a sua busca incansável pela “fonte” de sua inspiração – a sua própria noção/lembrança de lar. Então, meus caros, é essencialmente um drama. Entendo a frustração de parte do público.

Ao fazer Mother!, Darren Aronofsky saiu muito da curva de tudo que um fã dele poderia esperar do diretor. Sim, ele é um sujeito criativo. Grande diretor, que domina muito bem os recursos e as técnicas do cinema. Mas com este filme ele caminhou em uma direção “artística” (entre aspas mesmo) muito diferente do que tínhamos assistido até então. Para mim, Mother! se assemelha muito a The Tree of Life (com crítica neste link), de Terrence Malick. Os dois filmes são controversos e dividem opiniões. São, ambos, do estilo “ame ou odeie”. E os dois sofrem do mesmo mal: tentam ser melhores do que realmente são.

Mas, admito, ainda que Mother! se assemelhe a The Tree of Life, eu ainda prefiro o primeiro. E isso tem tudo a ver com a minha admiração muito maior para Aronofsky do que para com Malick. Agora, como fã do diretor, o que eu espero é que ele nos apresente algo melhor na próxima vez.

Durante grande parte do filme, Mother! tem um grupo pequeno de atores em cena. Depois, o diretor descamba para uma “enxurrada” de pessoas que aparecem em cena como uma “invasão bárbara”. Muitos nomes, assim, aparecem quase como figurantes. De todos os atores envolvidos no projeto, sem dúvida o destaque principal vai para Jennifer Lawrence, que está linda e que faz um grande trabalho, repassando todo o desconforto e a paixão que a sua personagem pede. Em seguida, vale destacar o bom trabalho – ainda que não excepcional – de Javier Bardem como o escritor/poeta que tem uma relação profunda de amor com a sua musa inspiradora – mas que não cuida dela como deveria.

Além dos protagonistas, vale citar o bom trabalho de Ed Harris como o fã do poeta que procura o seu ídolo antes de morrer; Michelle Pfeiffer como a mulher dele; Brian Gleeson como o filho mais novo do casal e Domhnall Gleeson como o filho mais velho.

Lá pelas tantas Mother! descamba para uma violência considerável. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Esta acaba sendo a parte mais “louca” e criativa da produção – e que contrasta tanto com aquele “bucolismo” um tanto irreal anterior e que preenche boa parte do filme. Não é fácil ver a “musa” do poeta sendo agredida ferozmente. Também chega a dar um bocado de arrepios o fim que o “filho” do casal acaba tendo – mas devemos lembrar, nesta parte, que a criança era a nova obra do poeta, gerada pela união dele com a sua “musa inspiradora”. Ou seja, não era uma criança de verdade, e sim uma obra que acabou sendo vilipendiada e “devorada” pelos fãs do artista. Nesta parte, Aronofsky quer nos dizer que todos somos canibais quando se trata de uma obra. Queremos devorá-la e acabar com ela para satisfazer a nossa fome “por algo belo”. O diretor/roteirista está fazendo uma crítica mordaz sobre o consumo cultural e sobre o público que quer ter as suas vontades sempre satisfeitas, não importa como.

Comentei rapidamente, durante a semana, logo após assistir ao filme, que este não era o melhor trabalho de Aronofsky. Algumas pessoas se manifestaram com comentários lá. Agradeço à participação de Thales Salgado, Andressa Barroso Vieira e Enzo Santos. 😉 Por lá, o Thales perguntou o que eu tinha entendido sobre aquele líquido que a personagem de Jennifer Lawrence tomava de tempos em tempos. Respeito outras opiniões e formas de entender aquele trecho do filme, mas vou dizer aqui o que eu achei, beleza?

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Vamos olhar a questão de forma um pouco mais ampla. Quando tudo é destruído e volta a se regenerar, a “musa inspiradora” acorda e busca o seu amor, o poeta, correto? Neste começo, e por uma parte do tempo – até as “invasões bárbaras” começarem a acontecer -, a “musa” está sempre buscando o amor do poeta e vive uma certa “tranquilidade” em uma reforma do “lar” que parece ser sem fim. Neste começo pacífico, a musa literalmente sente o lar como um organismo vivo. Mas, conforme a história vai avançando e o poeta vai se distanciando da sua musa, a personagem de Lawrence vai se sentindo cada vez mais e sente que o “organismo vivo” do lar está se deteriorando, como que passando por um tipo de câncer – ou, se olharmos por outra ótica, voltando para o estágio de destruição/carvão após o fogo. A deterioração do sentido de lar – que, no fim das contas, é o que representa a musa do poeta – vai ocorrendo aos poucos e vai se manifestando de diferentes formas.

Cada ameaça para a tranquilidade e a idealização da relação entre a musa e o poeta parece provocar dor e início de perda de sentido para a musa. Sim, ela está sendo ameaçada. Os elementos externos simbolizados pelos fãs do poeta – mas que significam também dinheiro, fama, holofotes e, depois, guerra, perseguição, ditaduras, conflitos variados – representam perigo para a musa. Inicialmente este risco era enfrentado por ela com o tal líquido dourado. O que ele representa? Para mim, qualquer dose de algo que possa tranquilizar a inspiração de um artista. Aquele líquido serve como um “elixir” de inspiração. Alguns se inspiram e/ou se conectam com a sua fonte de inspiração bebendo, enquanto outros conseguem isso com drogas ou outras formas de “religar-se” com o que lhe inspira – no caso do protagonista, com a ideia de “lar” original. Então eu não acho que exista apenas uma resposta para a pergunta. Mas acho que o líquido representava uma forma da inspiração manter-se sólida apesar das ameaças externas.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma o destaque vai para a direção de Aronfosky. Ele faz um belo trabalho, especialmente ao decidir sempre ter a câmera perto da protagonista Jennifer Lawrence. Claramente também ele opta por uma direção “fluída”, que faz com que o nosso olhar esteja sempre deslizando pelo espaço daquela casa que é tão protagonista quanto a musa e o poeta. Além disso, o diretor sabe valorizar bem o trabalho dos atores em cena.

Para que o filme tenha a entrega competente que ele tem – pena que o roteiro seja o ponto falho -, foi necessário o bom trabalho de outras pessoas. Destaco, neste sentido, o trabalho de Matthew Libatique na direção de fotografia; de Andrew Weisblum, com um trabalho excepcional na edição; de Philip Messina no design de produção; de Isabelle Guay e de Deborah Jensen na direção de arte; de Danny Glicker nos figurinos; de Larry Dias e Martine Kazemirchuk na decoração de set; assim como o ótimo trabalho dos 14 profissionais envolvidos com a maquiagem; dos 17 profissionais que fazem um trabalho excepcional com um elemento fundamental para a história, que é o som; e o impressionante número de 173 profissionais envolvidos nos efeitos visuais desta produção – que, ok, é um elemento importante no filme, mas que convenhamos… não o torna melhor. Para verem como o roteiro realmente é uma parte fundamental. Mother! é bem acabado, tecnicamente falando, mas não é brilhante ou inesquecível.

Estava pensando agora… alguns podem ter pensado sobre a razão do título deste filme ser “Mother!”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para mim, este título faz referência à “mãe” de todas as artes: a inspiração que move o artista. Seja ele poeta, escritor, artista plástico, músico ou cineasta. E a “mãe” de toda a arte, segundo Aronofsky, seria a lembrança de lar que o artista tem. E isso é fato. Várias e várias obras singulares na História da humanidade, se pararmos para pensar, tem a ver com as lembranças que o artista tem e/ou a noção que ele próprio apresenta de lar, daquilo que ele entende como as suas origens e o seu amor mais duradouro.

Mother! estreou no dia 5 de setembro no Festival de Cinema de Veneza. Até outubro, ele terá participado de outros sete festivais. Como estamos partindo já para o final de 2017, impossível não pensar se este filme chegará com fôlego no próximo Oscar. Da minha parte, acho que não. Mas veremos se estou certa ou errada logo mais. 😉

Esta produção teria custado cerca de US$ 33 milhões. Grande parte do recurso gasto, imagino, nos cachês dos protagonistas/elenco e com os efeitos especiais. De acordo com o site Box Office Mojo, Mother! fez cerca de US$ 15,3 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 13 milhões nos outros países em que ele já estreou. Ou seja, até o momento, teria feito cerca de US$ 28,3 milhões. Verdade que esta produção tem uma história recente. Ainda assim, me parece, vai fechar no vermelho. E, francamente, isso não me surpreende.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. De acordo com as notas de produção de Mother!, este filme tem como as suas inspirações evidentes filmes como Rosemary’s Baby, dirigido por Roman Polanski e lançado em 1968, e Collective Unconscious, dirigido por Dylon Matthews e lançado em 2004. Me chamou a atenção a nota alta deste segundo filme, com nota 9,9 no IMDb.

A atriz Jennifer Lawrence e o diretor Darren Aronofsky começaram a namorar durante as filmes de Mother!. Realmente ele parece ter achado a sua musa inspiradora. 😉 Espero que ela lhe inspire a apresentar algo melhor da próxima vez.

Para explicar um pouco a “confusão” artística de Mother!, acho interessante citar parte de algumas declarações de Aronofsky sobre o filme. Ele começa comentando que acha incrível como muitas pessoas ainda neguem a destruição do planeta que a humanidade está causando com a sua “pegada” no mundo. E que foi a angústia e o “desamparo” provocado por esta reflexão que fizeram, um certo dia, o diretor acordar de manhã com a ideia de Mother! surgida como um “sonho febril”. Enquanto os filmes anteriores do diretor surgiram após o trabalho dele no roteiro desenvolvido durante alguns anos, a primeira versão de Mother! surgiu em apenas cinco dias – isso explica o porquê deste ser o seu pior roteiro, acredito.

Um ano depois do diretor ter escrito a primeira versão do roteiro de Mother! ele já estava filmando a produção. E, dois anos depois, tinha ela pronta para apresentar para o público. Da minha parte, sempre fui da opinião que o quanto mais você trabalha e se dedica para uma história, melhor ela sai. Mother!, para mim, é o sonho filosófico de um diretor que quer denunciar algo e que apresenta isso de forma visceral. Nem sempre isso quer dizer bom.

De acordo com Aronofsky, Mother! começa como uma história sobre um casamento. No centro desta história está uma mulher que é estimulada a dar, dar, dar até não poder dar mais nada. Eventualmente, comentou o diretor, a câmera que foca esta história não consegue conter a pressão que está “fervendo” dentro desta visão. E daí a história se torna, segundo o próprio Aronofsky, “outra coisa que é difícil explicar ou descrever”. Percebemos. hehehehehe. Aronofsky também diz que não sabe identificar, exatamente, de onde tudo que ele nos apresenta neste filme veio.

Parte teve origem nas “manchetes dos jornais” de cada dia (com as suas notícias ruins), parte veio do “zumbido interminável de notificações dos nossos smartphones”, outra parte veio do apagão provocado pelo furação Sandy no Centro de Manhattan, e outras partes vieram do “coração e do instinto” do diretor. Aronofsky diz que o resultado de tudo isso é algo que ele nunca será capaz de reproduzir novamente, e que tudo acabou sendo “servido” como um bêbado que toma a sua melhor dose em um único “shot” de bebida. E que esta bebida bate no bêbado de volta. Bem, talvez essa seja a explicação, afinal, daquele líquido que a “musa” do filme toma. 😉

A atriz Jennifer Lawrence mergulhou tanto em sua personagem que, na cena do clímax da produção, a atriz começou a hiperventilar e até quebrou uma costela – certamente naquela sequência maluca de agressões que ela passa.

Mother! recebeu uma classificação “F” do CinemaScore. Este é o pior resultado que um filme pode obter. Por isso mesmo, é uma classificação rara. Apenas 19 filmes receberam, antes, a classificação “F”.

Esta produção recebeu tanto vaias quanto aplausos na sua estreia no Festival de Cinema de Veneza. Eu entendo. Como eu disse antes, é um filme controverso. Bem ao estilo “ame” ou “odeie”. Da minha parte, não achei ele tãooooo ruim assim. Mas também não achei ele ótimo. Acho que fico mais sobre o muro – e sim, ele seria melhor com meia hora a menos.

O ponto de exclamação no título do filme, segundo Aronofsky, faz alusão aos últimos 30 minutos “efusivos” da produção.

Esta produção obteve apenas US$ 7,5 milhões de resultado nas bilheterias em seu final de semana de estreia nos Estados Unidos. Este resultado torna Mother! como o pior resultado nas bilheterias para um filme estrelado por Jennifer Lawrence.

Antes de Mother! começar a ser filmado, o elenco ensaiou a produção durante três meses em um armazém para que o diretor pudesse testar os movimentos de câmera e aprender com eles para que, quando as filmagens começassem para valer, tudo estivesse fluindo como ele desejava. Deu certo. O filme realmente tem uma direção incrível.

Hummm… e agora alguns comentários do diretor que desmontam totalmente o que eu tinha entendido do filme. hahahahahaha. Mas faz parte, né? Filmes “artísticos” tem muito isso. Cada um entende de uma forma e todos estão certos sobre as suas compreensões. Mas, vejam bem… Aronofsky acabou falando sobre as intenções dele com esta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Segundo o diretor, o título Mother! realmente faz alusão à Mãe Natureza. Jennifer Lawrence interpretaria essa Mãe Natureza, e os demais personagens todos fariam alusão à personagens bíblicos. Por exemplo, Javier Bardem está apenas identificado como Ele e, por isso, ele seria Deus. Ed Harris seria Adão, e Michelle Pfeiffer seria Eva. Os filhos do casal seriam Caim e Abel.

Hummmm… Posso falar e ser franca? Agora sim eu acho que ele pirou. Com todo o respeito. hahahahahaha. Sob esta ótica, a Mãe Natureza só quer saber de Deus, e Este acaba ignorando ela e deixando ela sozinha muitas vezes porque está mais fascinado com a Humanidade e a adulação que as pessoas fazem Dele? Olha, ainda prefiro a minha interpretação do filme. Me parece menos absurda. 😉 E fiquei pensando… sob esta ótica “bíblica” do diretor, quem seria o bebê devorado pelo coletivo? O nosso futuro? Ok, até faz sentido, mas acho ainda mais loucura do que a visão “artística” que eu citei acima.

Até porque, sob esta ótica “bíblica” do diretor, o Deus apresentado por ele seria egoísta, suscetível a ter o ego inflado pela Humanidade e pouco amoroso com grande parte da sua criação, representada pela Mãe Natureza, não? Beleza. Entendo que o diretor esteja bravo e que vá “contra Deus”, mas esta visão é totalmente contra a visão dos cristãos, correto? Enfim, achei, sob esta ótica, a obra ainda mais desnecessária. Mas respeito o diretor. Só acho que ele perdeu uma boa oportunidade de não entrar na seara da fé e de apresentar algo melhor…

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,0 para esta produção. Achei ela muito boa, levando em conta o padrão do site. Por sua vez, os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 173 críticas positivas e 84 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 67% e uma nota média de 6,7.

Para quem, como eu, gosta de saber onde os filmes foram rodados, Mother! foi totalmente filmado na cidade de Montreal, no Canadá. Ainda assim, esta é uma produção 100% dos Estados Unidos – e, por causa disso, ela atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

Honestamente? O filme merecia até menos que um 7. Mas como eu gosto do diretor… não consegui abaixar a nota menos que isso. Espero que me perdoem. 😉

CONCLUSÃO: Este é o filme mais ousado, experimental e artístico do interessante diretor Darren Aronofsky. Mas nem por isso, ou por causa de tudo isso, este não é o seu melhor filme. Está bem longe disso, na verdade. Desta vez Aronofsky abriu todas as comportas da sua imaginação para nos apresentar um filme que é um grande libelo sobre a criação artística. Ok, a obra é interessante se entendida do final para o começo. Mas e tudo que passamos até chegar ao momento da “eureca”? Achei esta produção longa demais e com tintas um tanto forçadas para apresentar o conceito que ela apresenta. Não apenas este não é o melhor filme do diretor como ela também não é tão “obra de arte” quanto o diretor gostaria. Deixa o público perplexo, mas não imprimi realmente uma marca na lembrança do cinéfilo. Será esquecido com uma certa facilidade. Uma pena.

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Noah 3D – Noé 3D

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Um dos mitos mais fascinantes da Bíblia se tornou o mais novo projeto de um dos meus diretores preferidos. Como não assistir a Noah? Mesmo não querendo saber muito sobre o filme antes de buscá-lo em uma sala 3D, li uma e outra chamada de críticos detonando a performance de Russell Crowe. Mas me arrisquei mesmo assim, porque sempre gostei do trabalho de Darren Aronofsky. E não me enganei. Noah é um filme bem conduzido e que tem momentos verdadeiramente impactantes. É destas experiências gratificantes em uma sala 3D. O que mais você pode querer?

A HISTÓRIA: No início, não havia nada. Mas daí tudo foi criado, até chegarmos a Adão e Eva. Com eles, surgiu o pecado. A partir dos filhos do casal surgiu também o primeiro assassinato, quando Caim matou Abel. Seres iluminados tentaram ajudar os homens, mas por traírem a vontade divina, eles acabaram sendo aprisionados na Terra, ficando conhecidos como os Guardiões. A linhagem de Methuselah (Anthony Hopkins) prossegue até Noah (Dakota Goyo quando criança, Russell Crowe na fase adulta). Após ouvir a história anterior do pai, Noah vê ele ser assassinado. Adulto, tenta passar para os filhos Shem (Douglas Booth), Ham (Logan Lerman) e Japheth (Leo McHugh Carroll) os princípios dos antepassados, especialmente o amor à Deus e à sua criação. Mas tudo muda na vida da família quando Noah começa a ter visões sobre o fim do mundo como eles o conheciam.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Noah): Até prevejo os dois estilos de comentários que este post vai render. O primeiro, de pessoas que sempre estão mais interessadas na experiência que o cinema pode proporcionar, independente da fonte de inspiração para o cineasta e sua equipe. O segundo, de pessoas que estão mais interessadas na origem do filme do que no produto cinema.

Isso aconteceu antes e deve se repetir sempre, e especialmente, quando a fonte da história contada no cinema for a Bíblia. The Book of Eli (com crítica por aqui) é um dos comentários sobre filmes que eu fiz que mais rendeu “marola” no site. E nem tanto porque as pessoas discordavam ou concordavam com a minha análise do filme, mas especialmente porque queriam falar sobre as suas próprias crenças. Então, caro/a leitor/a, se você faz parte do segundo grupo, por favor, tente entender que este é um blog que fala sobre cinema e não sobre religião. Por isso mesmo, não vou discutir por aqui o teu ou o meu credo.

Feito este “preâmbulo” para a crítica, vamos ao que interessa. Noah em sua versão 3D. Sim, porque este filme, a exemplo de Gravity (comentado aqui) e Avatar (com crítica neste link), merece ser visto na versão da tecnologia na qual ele foi planejado desde o princípio. Noah tem cenas verdadeiramente impactantes, uma ótima direção de fotografia de Matthew Libatique e sequências cheias de efeitos especiais que tem uma dinâmica diferente nas salas 3D.

Dito isso, vamos voltar ao que eu comentei lá no início. Ao mesmo tempo que eu achei surpreendente a escolha do diretor Darren Aronofsky em explorar uma história bíblica, devo admitir que a ideia foi um verdadeiro achado. Afinal, a história de Noé nunca tinha sido explorada com toda a tecnologia que o cinema atual propicia. E este mito da Bíblia, além de ser um dos melhores em termos de impacto visual, também revela-se muito forte na mensagem que ele quer passar.

Importante dizer e repetir que a história de Noé é um mito bíblico porque, evidentemente, ela não aconteceu. Pelo menos não da forma literal que muitos insistem em acreditar – mas que a própria Igreja afirma que não foi bem assim. O importante da história de qualquer mito é o que ela quer nos dizer. E neste sentido, Noah, o filme, cumpre bem o seu papel.

Primeiro de tudo, Aronofsky soube, mais uma vez, conduzir bem uma história. Sabendo equilibrar momentos de introspecção e de narrativa mais lenta com aqueles de pura ação e adrenalina. Há um bocado de ação em Noah, mas também várias sequências que fazem as pessoas se emocionarem, exercerem a empatia e pensarem sobre o que está sendo dito/mostrado.

A essência da história é que após um longo período de decepção com a raça humana, Deus decide acabar com o último elo de sua Criação. Após o “pecado original” de Adão e Eva, parte da humanidade teria caído em disputas motivadas pela busca pelo poder e pela cobiça. Apenas os descendentes de Methuselah (na tradução, Matusalém) seguiram o caminho do bem. Mas nem eles são poupados, como o início do filme mostra quando o pai de Noé é morto na frente do filho, que foge.

O principal da criação que Noé passa para os filhos, o mais velho Shem, o segundo Ham e o mais novo, Japheth, é o respeito a cada pedaço da criação de Deus. Assim, ele ensina para Ham que ele não deve arrancar uma flor do chão apenas porque ela é bonita, já que ela tem um propósito na Natureza e não deve ser retirada se não for por necessidade. No momento em que Noé ensina este princípio para o filho, ele tem a primeira visão. Outras virão. Cada uma delas é o ponto alto do filme em termos de uso de efeitos especiais e simbolismo.

O dilúvio vislumbrado por Noé é encarado como a redenção para a Humanidade, que havia se perdido após o pecado original. O primeiro problema desta produção, para o meu gosto, é quando surgem os Guardiões. Bem mal-feitos, eles ficam no meio do caminho entre seres dantescos e o que eles deveriam ser: seres de luz aprisionados em pedras e lama. Em certo momento do filme, no momento de maior ação de Noah, quando se dá o embate pouco antes do caos, pela primeira vez os Guardiões se revelam interessantes – é quando, finalmente, eles se libertam e são salvos.

Mesmo que a imagem dos Guardiões deixe a desejar, a história deles convence e se revela interessante – seres de luz que tentam ajudar a Humanidade e que acabam punidos por Deus por causa disso. Quando sonha com a destruição do mundo, Noé também vê o monte de origem de seu ancestral, Methuselah. E é assim que ele e a família procuram pelo ancião, esbarram com os Guardiões e recebem do velho patriarca a semente que dará início ao oásis que servirá de matéria-prima para a arca gigantesca da qual todos já ouviram falar.

Interessante a saída encontrada por Aronofsky, que escreve o roteiro junto com Ari Handel, para a equação quase impossível de encher uma arca, por maior que ela seja, com um casal de cada bicho vivo sobre a Terra. Noé e família usam uma espécie de sonífero para fazer todos os animais “hibernarem”. Desta forma, todos são acomodados dentro da arca para uma viagem que ninguém sabe quando terá fim. Evidentemente que na prática aquela imagem seria impossível, mas o que importa é a mensagem de Noah.

E qual seria essa mensagem? Desde o pecado original, quando Adão e Eva desobedeceram a Deus e comeram a fruta da árvore proibida (que não apenas simboliza o pecado, porque representa a desobediência a Deus, mas também o desejo do homem e da mulher em possuir tudo, sua ganância, ambição e arrogância), passando pela morte de Abel pelas mãos de seu irmão, Caim – primogênito de Adão e Eva -, a Humanidade apenas caminhou ladeira abaixo.

Após o primeiro assassinato narrado pela Bíblica – o de Abel pelas mãos de Caim -, homens e mulheres teriam criado guerras e surgido diferentes pecados e crimes motivados pela cobiça, pela arrogância e pelo desejo de muitas pessoas em dominar a Terra sobre todas as outras criaturas. Muito bem, a história de Noé surge para mostrar como havia gente ainda fiel à Deus. Não apenas a família do protagonista é devota, mas ela simboliza quem ainda seguia a vontade de Deus e não a sua própria vontade.

Pois bem, quando Deus decide acabar com a Humanidade, por não acreditar mais em uma “salvação” para as pessoas que estavam perdidas em si mesmas, Noé lidera a família nos preparativos para a arca que deveria salvar a todos os animais vivos na Terra. Mas mesmo a família de Noé tinha problemas, como uma certa rivalidade entre os irmãos Ham e Shem. O conflito fica pior quando Ham vê o irmão acompanhado – por Ila (Emma Thompson Watson), adotado por Noé e pela mulher Naameh (Jennifer Connelly) – e percebe que ficará sem companheira para o futuro de um mundo sem outras pessoas.

Noé está seguro sobre a vontade de Deus e entende que a Humanidade deve terminar. Afinal, Ila não poderia ter filhos – até que o avô de Noé interfere nesta realidade -, ele e a esposa também não. Assim, quando o filho mais novo do casal morresse, a Humanidade teria terminado. Naameh quer o melhor para os filhos e buscando a felicidade deles, interfere nesta realidade com a ajuda de Methusalah. E daí surge o questionamento fundamental do filme: Noé acredita que o mal está em todas as pessoas, e que mesmo quem se diz do bem é capaz de matar para defender um filho.

Para o protagonista, é preciso vigiar a própria vontade e ser fiel à Deus. Desta forma, mesmo tendo o bem e o mal dentro de si, a pessoa vai trilhar o caminho do bem porque não cairá na tentação de fazer a própria vontade, mas de seguir o que o Criador deseja. Naameh é temente à Deus e concorda em seguir os passos do marido, mas não quer ver os filhos sofrerem e, por isso, segundo a visão de Noé, afronta a vontade divina.

Mas daí surge um ponderamento importante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Se Deus deu ao homem o poder de escolher entre o bem e o mal, e se nada que ele não deseja acontece, como dizer que a gravidez de Ila não é vontade de Deus? Algumas vezes acreditamos que estamos lendo os sinais de Deus corretamente, mas talvez em muitas situações a nossa compreensão limitada seja falha. Noé sofre com a própria “fraqueza”, acreditando que ao poupar as netas ele estava confrontando Deus. Mas nada aconteceria se o Criador não tivesse concordado com a “mudança de planos”. Ele teve misericórdia com a própria criação e resolveu nos dar uma nova chance.

Esta são algumas das reflexões do filme. Independente da crença de cada um, acho que alguns dos pontos citados acima – capacidade de escolha, cada pessoa abrigar o bem e o mal, possibilidade de ser fiel a um desejo superior ou seguir apenas os próprios desejos – valem para qualquer pessoa refletir sobre si mesma e os demais. Além de que Noah aparece em um momento importante, no qual estamos destruindo um bocado dos recursos naturais do mundo e ponderando sobre o nosso egoísmo como civilização – sem contar o choque que temos cada vez que um ato de crueldade é praticado em histórias ordinárias ao nosso redor.

Não há dúvidas de que esta produção aparece em um momento em que muita gente está questionando não apenas o que estamos fazendo, enquanto coletivo, mas também sobre as escolhas que praticamos cotidianamente como indivíduos. Perceber que não estamos sozinhos no mundo e que os nossos atos afetam aos demais independe de religião. Neste ponto Noah cumpre o seu papel de fazer qualquer pessoa refletir. Sem contar que o filme mostra o seu valor como obra de cinema. Explora bem os recursos narrativos e, principalmente, a tecnologia de ponta disponível para este tipo de arte. Ou seja, um bom programa sob qualquer ótica.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Antes de mais nada, quero pedir desculpas pela ausência aqui no blog. Há duas semanas eu não publico nada, e este foi o tempo que me separa de ter assistido a Noah e de estar publicando este texto. Por esta razão, também não considero a crítica acima das melhores. Afinal, quanto mais demoro para falar de um filme que eu assisti, mais fácil para que eu perca detalhes de impressões que eu tive. Dito isso, acho que comentei a essência sobre o que achei desta produção por aqui – mas algo sempre se perde com este hiato de tempo. Tentarei evitá-lo nas próximas publicações.

Noah, como não poderia deixar de ser, é um filme carregado de valores. E de questionamentos. O primeiro valor explorado pela história e que me chamou a atenção foi o da retidão. Esta qualidade fica evidente na linhagem de Noah. A qualidade seguinte daquela família é o respeito extremo a tudo que é vivo – a tudo que é a criação de Deus. Nada deve ser usado ou destruído sem que isso seja extremamente necessário. Uma grande lição para os tempos atuais, quando as principais nações do mundo não conseguem nem mesmo o básico, que é reduzir o nível de poluição de seus países. Sem contar o restante dos problemas causados pelo consumismo e pelo exagero/desrespeito que as pessoas tem pelo que nos cerca.

Dos elementos técnicos do filme, destaque para a ótima direção de Darren Aronofsky. Não por acaso ele é um dos meus diretores favoritos de sua geração. Aronofsky soube conduzir muito bem a trama, com imagens verdadeiramente impressionantes em um filme que exigia cenas grandiloquentes e uma boa condução de atores. Merece aplausos também a impecável direção de fotografia de Matthew Libatique; a trilha forte e marcante de Clint Mansell e, principalmente, os efeitos especiais fantásticos da equipe liderada por Lindsay Boffoli. Para mim, o excelente trabalho de efeitos especiais se revela em todo o seu esplendor em dois momentos: primeiro, no sonho de Noé com a inundação; depois, com o “ressurgimento do Éden”, quando surge da semente dada por Methuselah a floresta que servirá de base para a arca.

Algo que achei interessante nesta produção é que ninguém no filme é visto acima de qualquer suspeita. Por exemplo: apesar do grande respeito que tem por tudo que foi criado por Deus, Noah não titubeia em matar agressores para proteger a própria família. O “não matarás” que está nos 10 mandamentos é desrespeitado, neste sentido. Em outro momento, o próprio Noah vai filosofar com a esposa de como todos carregam o bem e o mal dentro de si. Ele incluído, evidentemente.

Cada um vai tirar uma mensagem específica deste filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Noah). Da minha parte, como católica, achei ótimo um dos meus diretores preferidos ter recontado um dos mitos mais significativos da Bíblia. Afinal, a história de Noé mostra o quanto vale a pena ser fiel à Deus. E o quanto isso é difícil no dia a dia. Afinal, há muitas tentações, diariamente, e recusar estas tentações, esmagando sempre que possível o orgulho, a soberba e a falsa ideia de que somos mais do que pó é difícil. Mas também recompensador. Além de tudo isso, essa história passa para mim a mensagem que, por mais que ele esteja decepcionado com a Humanidade muitas vezes, Deus é sempre perdão e amor. Isso é o que tiro desta história. Mas cada um vai tirar o que lhe parecer mais interessante.

Inicialmente eu achei os Guardiões toscos demais. Me assustei com o quanto eles foram “mal feitos”. Depois, claro, entendi a razão daquele aspecto tosco. Ainda assim, mesmo que justificados pela história, achei o aspecto daqueles Guardiões descuidado demais.

Interessante e ao mesmo tempo um pouco cômica a caracterização do grande Anthony Hopkins como Methuselah. Em certo momento do filme, quando ele está na floresta, o personagem me fez lembrar a figura do clássico desenho Caverna dos Dragão. 🙂

O elenco principal desta produção foi citado antes. Mas faltou comentar o bom trabalho de Ray Winstone como o vilão da história Tubal-cain. Descendente de Caim, ele resume a linhagem da soberba, da crença que o homem é superior ao Criador e que basta em si mesmo. O ator está bem em cada cena, resumindo bem a tentação de Ham e a presença do Mal. Dos atores principais, gostei do trabalho de Russell Crowe – acho que ele esteve firme no papel-chave, sem exagerar a mão na interpretação ou ser relapso com o papel como em produções recentes. Mas o destaque fica mesmo com Emma Watson. Ela rouba a cena como Ila.

Em certo momento, Noé diz que foi escolhido por Deus para proteger a Sua criação porque Ele sabia que Noé seria fiel e faria tudo o que lhe fosse pedido. De fato, dificilmente alguma outra pessoa conseguiria. Porque Noé não se importava de perder tudo e a todos, de que sua própria família desaparecesse da face da Terra se esta fosse a vontade de Deus. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Nós humanos, em geral, seguimos o nosso instinto da autopreservação. Mas isso não mostra a nossa fidelidade com Deus, apenas a nossa condição humana falha e a nossa fraqueza. Noé é diferente. Não apenas a mulher dele “fraqueja” e pensa na família em primeiro lugar, como também o filho “certinho” de Noé, Shem, acaba atacando o pai em momento decisivo. E, quem diria, é o “sempre tentado” e questionador Ham que impede a tragédia. Mais ensinamentos nestes exemplos. Finalmente, concordo com Ila… no fim das contas, nada daquilo teria acontecido se Deus não quisesse. E sim, a compaixão e o amor sempre vencem no final.

Fiquei curiosa para saber o que teria motivado o diretor Darren Aronofsky a filmar uma história da Bíblia. Encontrei alguns textos que ajudam a tirar esta dúvida. Nesta entrevista para o The Washington Post, Aronofsky explica como sendo um judeu do Brooklyn ele teve contato com a história de Noé muito jovem. Na sétima série, quando teve que escrever um texto sobre a paz, ele escreveu o poema The Dove sobre Noé.

O texto acabou levando ele para uma convenção da ONU e foi então que ele percebeu, pela primeira vez, que tinha o talento para contar histórias. Ou seja, Noé marcou a vida do diretor, que segue comentando que logo após fazer Pi (filme bem interessante e que recomendo para quem não assistiu ainda) ele pensou em Noé, mas que Hollywood não estava interessada em um projeto do tipo “filme bíblico”. Mas agora não, este perfil de filme está “em voga”, segundo o próprio Aronofsky. E foi aí que ele viu a oportunidade de resgatar aquela antiga ideia.

E sobre a essência de Noah, Aronofsky afirma que existe uma complexidade na história dele que não está necessariamente escrita na Bíblia, mas que é insinuada. Por exemplo, no fato de Noé ficar bêbado e se desentender com Ham logo após o dilúvio. Para haver este rompimento, os personagens tinham que ter uma relação conflituosa antes, e essa linha foi o que Aronofsky quis explorar. Para o diretor, o relacionamento de Noah e Ham levou a ideia “de bom e ruim que temos dentro de todos nós, e a luta da justiça que ocorre em cada um de nós para tentar equilibrar justiça e misericórdia em nossas vidas”. Cada personagem do filme, segundo o diretor, lida com essa ideia de maldade e perdão. Outro ponto interessante é quando o diretor diz que o seu grande propósito é entreter as pessoas, procurando fazer filmes excitantes, divertidos, emocionais e com movimento, cheios de ação. Ele consegue.

A entrevista do diretor para o The Washington Post está muito boa. Mas quem quiser saber mais sobre as opiniões do diretor, há esta outra entrevista para o Huffington Post e esta outra para a The Independent.

Agora, uma curiosidade sobre a produção: antes de ser lançado, Noah rendeu um belo embate entre Aronofsky e o estúdio Paramount. Preocupado com a recepção que o filme poderia ter, o estúdio fez testes com audiências católicas com três edições diferentes daquela planejada pelo diretor. Aronofsky resistiu à ideia de ter o trabalho alterado e acabou vencendo no final, já que o corte pensado por ele é que chegou até os cinemas. O efeito, acredito, foi o mesmo que se a produção tivesse chegado com algum dos outros cortes: Noah foi proibido em diversos países (como Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos e Egito) porque ele não seria fiel aos ensinamentos do Islã.

De acordo com os realizadores da produção, grande parte dos recursos dos efeitos especiais foi utilizada para recriar todos os animais vistos no filme. Não teriam sido utilizados bichos reais em nenhum momento da produção.

Noah estreou em première na Cidade do México no dia 10 de março. Três dias depois o filme teve première em Berlim e, no dia 17 de março, em Madrid. No Brasil o filme estreou no dia 3 de abril. Até o momento o filme não ganhou nenhum prêmio.

Por ser uma superprodução, Noah teria custado cerca de US$ 125 milhões. Segundo o site Box Office Mojo, até ontem, dia 23 de abril, Noah teria conseguido pouco menos de US$ 94,7 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 207 milhões nos outros mercados. Na soma, acumulou pouco mais de US$ 301 milhões. Ou seja, está conseguindo pagar as contas e conseguir algum lucro.

Para quem gosta de saber sobre as locações dos filmes, Noah foi rodado em Hollywood, na Islândia, no México, em Nova York e em Washington.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para Noah. Acho que a avaliação poderia ser melhor, mas dá para entender porque o filme levantou muitas controvérsias – como a maioria das produções bíblicas que não são “extremistas”. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 157 críticas positivas e 47 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média de 6,6.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ela entra na lista de filmes da categoria “Votações no blog”, já que os leitores deste espaço escolheram os Estados Unidos para uma série de críticas por aqui.

CONCLUSÃO: Quem leva tudo muito à sério não pode assistir a Noah. Por uma razão muito simples: esta é uma obra artística e não um libelo fundamentalista. Digo isso porque quem está buscando neste filme a história ipsis litteris do mito de Noé que está na Bíblia já começou perdendo a viagem. A produção dirigida por Aronofsky não tem a pretensão de levar a história bíblica a sério demais. Ainda bem. O resultado das escolhas do diretor é que assistimos a um filme potente pela forma e pelo conteúdo. Na forma, ótimos efeitos especiais e um bom trabalho dos atores. No conteúdo, o essencial da mensagem do mito de Noé e várias reflexões para adaptarmos para os dias atuais. Um filme inspirador, como tudo que o diretor apresentou até hoje. Se você não é um fundamentalista, tem grandes chances de apreciar mais esta obra interessante em 3D.