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Elysium

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Eis mais uma obra de um cineasta multicultural e que gosta de utilizar diferentes referências em sua obra. E o melhor: com dois ótimos desempenhos de atores brasileiros. Elysium é mais uma demonstração do talento do diretor e roteirista Neill Blomkamp que reforça nesta nova produção o estilo de cinema moderno e com preocupação social que tínhamos visto antes em District 9. Novamente o espectador tem aqui uma história futurística, mas que trata de desigualdades sociais, segregação e a busca pela sobrevivência. Mas com alguns toques diferentes.

A HISTÓRIA: Lixões e favelas por todos os lados. No final do século 21, a Terra sofre com o excesso de poluição e de habitantes. Cenas gerais de Los Angeles mostram prédios em decadência acentuada, como frutas em decomposição. Fora da Terra, vista do alto com aquela bela imagem tradicional, os ricos mantêm o padrão de vida em um complexo de alta tecnologia chamado Elysium. Lá não existe poluição e nem superpopulação.

Na Terra, o garoto Max (Maxwell Perry Cotton quando criança, Matt Damon na vida adulta) olha para Elysium e sonha com o dia em que poderá levar Frey (Valentina Giron quando criança, Alice Braga na vida adulta) para lá. No futuro, na Los Angeles de 2154, Max tenta levar uma vida regrada, enquanto cumpre liberdade condicional, mas após um acidente no trabalho, ele empreende uma cruzada para tentar furar o bloqueio de Elysium e buscar a cura por lá.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Elysium): Quem assistiu a District 9 (comentado aqui no blog) vai encontrar muitos elementos em comum em Elysium. Para começar, o ambiente futurista. Depois, a crítica nas entrelinhas para a desigualdade social que vivemos atualmente, só que potencializada com o passar do tempo. Novamente o diretor Neill Blomkamp não coloca as suas fichas em um futuro cheio de esperança para a Humanidade.

Pelo contrário. Ele acredita na filosofia popularizada por Thomas Hobbes de que o homem é o lobo do homem. Novamente a pobreza e a degradação viraram paisagem costumeira nas grandes cidades. Só que diferente de District 9, os guetos futuristas dividem as pessoas em diferentes órbitas. Enquanto os ricos vivem no paraíso com vistas para o azul da Terra e para o infinito do restante da nossa galáxia, os demais humanos se lascam por aqui mesmo, sofrendo com doenças cada vez mais frequentes causadas pela escassez de recursos e pela poluição.

E aí surge o primeiro questionamento sobre Elysium: por que cargas d’água os ricos resolveram fazer o seu oasis particular tão perto da Terra, tornando-se alvos relativamente fáceis a ataques dos terráqueos “pobretões”? A resposta passa pelo estilo de vida que os ricos parecem ter assumido em Elysium. Lá, todos vivem “na gaita” o tempo todo. Pelo menos é o que o roteiro de Blomkamp sugere.

Há alguns homens de negócios, mas as empresas deles, como a Armadyne, de John Carlyle (William Fichtner), funcionam na Terra, explorando uma mão de obra barata. Alguém precisa fabricar os robôs que fazem o trabalho pesado em Elysium e na Terra, e estas pessoas só podem ser os pobretões que não tem dinheiro para pagar pela tecnologia que promete resolver todos os problemas de saúde na estação futurista que orbita próxima da Terra.

Impossível não lembrar de The Terminator, um clássico do gênero, e pensar que mais eficaz que fazer missões para invadir Elysium, sendo que a maioria acabava em naves destruídas, seria promover uma rebelião contra as máquinas e os humanos que estavam por trás delas na Terra, não? Elysium funciona bem enquanto está acontecendo, porque o filme não para. A ação planejada por Blomkamp impede que o espectador pense nos detalhes sobre o que está vendo.

Claro que durante o filme eu já achei estranha aquela escolha de local para Elysium, assim como a lógica do revolucionário Spider (Wagner Moura), que queria que todas as pessoas na Terra tivessem os mesmos direitos que os ricaços de Elysium. A proposta é idealista e inviável, evidentemente. E isso você consegue pensar durante o filme. Mas quando ele termina, muitos outros questionamentos surgem. Mas afinal, por que a ideologia de Spider, apesar de bonita, é inviável e absurda?

Porque de acordo com o roteiro de Blomkamp, os ricaços de Elysium tem a seu dispor tecnologia que cura todas as doenças e, assim, dá “vida eterna” para quem pode pagar por isso. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Certo. E o que acontece quando esse tratamento é dado para todas as pessoas? Bem, segundo a introdução do filme, a Terra já está superpovoada. Agora, imagine as pessoas parando de morrer? O mundo seria totalmente inviável. Não teria cópias de Elysium suficientes para abrigar esta lógica um bocado pueril.

Claro que há um razão de ser para o diretor e roteirista tocar neste ponto das possíveis desigualdades sociais. Ele foca na segregação das pessoas que tem diferentes formas de conseguir assistência à saúde quando elas precisam porque este é um filme feito em Hollywood. Nada melhor que ambientar a produção em Los Angeles, uma das principais cidades do país onde a saúde é um caso sério, difícil de ser resolvido, e que virou tema de batalha quase campal nos últimos três anos. Barack Obama foi eleito prometendo mudanças sérias no sistema de saúde dos Estados Unidos.

O chamado Obamacare dividiu o país em profundos debates. Elysium roça neste assunto que é importante para qualquer país, independente do sistema de saúde adotado. Vide o Brasil, que funciona com outra lógica, e onde a assistência médica é complicada da sua própria maneira. Igualmente criticada e alvo de polêmica, como o recente programa Mais Médicos.

Bueno, explicado o contexto da ficção, o importante é que a vontade do diretor e roteirista em deixar a fantasia com uma corrente amarrada na realidade segue forte. Para o meu gosto, vejo como importante um cineasta definir um estilo de fazer filmes e manter-se coerente com ele. Neste sentido, Elysium tem boas intenções.

Apesar desta assistência médica perfeita inviável que é o alvo principal dos personagens centrais do filme, a produção tem um bom ritmo, efeitos especiais de primeira, uma boa condução da história e, o que de fato nos interessa, ótimas atuações. Os brasileiros – e não quero ser preconceituosa com o comentário, mas o passado alguma vezes nos condena – desta vez fazem um belo trabalho. Wagner Moura e Alice Braga tem papéis de destaque na produção.

Diferente de outros filmes em que tivemos a paixão verde-e-amarela de pontas erroneamente inflada, neste caso realmente há protagonismo de conterrâneos em um filmão de Hollywood. Eles, assim como o amigo de Max, Julio, vivido pelo sempre ótimo Diego Luna, fazem interpretações convincentes.

Mesmo Wagner Moura afirmando em uma entrevista para a Folha de S. Paulo recente de que prefere exagerar nos personagens, apostando no estilo “axé acting”, do que fazendo interpretações abaixo do tom, achei o trabalho do brasileiro exatamente no nível adequado. Convenhamos que o personagem dele é naturalmente exagerado, porque vive sempre pisando na linha tênue entre o vilão e o herói. Aquele que busca uma saída honrosa para todo mundo e que, ao mesmo tempo, explora muita gente.

Natural que a atitude dele em cena tenha que ser exagerada em alguns momentos – mas totalmente dentro do esperado para o personagem. Alice Braga também está muito bem. Apesar de ser a “mocinha” da produção, contudo, ele é uma das personagens que menos aparece. E, assim como quase todos os outros, tem pouco de sua história aprofundada. Em um filme em que a ação, as perseguições e o velho jogo-do-gato-correndo-atrás-do-rato acabam sendo o miolo da história, sobra pouco espaço para aprofundar a história dos personagens. Senti um pouco de falta disso.

Ainda assim, Alice Braga está bem sempre que aparece. Linda, quando sorri é impossível pensar que Max vai ficar focado em si mesmo por muito tempo. 🙂 Além do pano de fundo da assistência de saúde ruim, Elysium faz uma crítica a outro tema polêmico e bastante atual: a postura que os departamentos de segurança de alguns países que são líderes mundiais assumem frente à diferentes “ameaças”. Essa crítica pode ser vista na definição de dois personagens.

Primeiro, a secretária de Defesa Delacourt, interpretada por Jodie Foster, que não pensa nem meio segundo em autorizar a explosão de duas naves com 46 pessoas inocentes e nada armadas dentro. Depois, aparece na figura do vilão desta história, Kruger, interpretado por Sharlto Copley, um agente não autorizado e “secreto” que é acionado sempre que necessário para fazer o serviço sujo.

Não apenas Guantánamo, mas tantas outras histórias recentes e reais demonstram que há abusos do “sistema”, seja nas ordens, seja na dinâmica da ação, em nome da “segurança” de uma nação poderosa. Finalmente, há um outro ponto que Elysium roça e que pode incomodar a algumas pessoas: o povo que ficou na Terra, pelo menos o que vive em Los Angeles, vive falando espanhol e inglês. Este detalhe faz uma clara alusão aos imigrantes que enchem cada vez mais as ruas de qualquer metrópole do planeta. No futuro longínquo, afinal, não seria nada absurdo pensar nos “pobres” dos Estados Unidos falando inglês e espanhol misturado.

Mesmo sendo compreensível, não deixa de ser estranho ver isso na telona. Comento estes pontos porque Elysium, sem dúvida, é um filme clássico de ficção científica com várias “mensagens subliminares” estrategicamente pensadas pelo seu realizador. Esse é o estilo de Neill Blomkamp, pelo menos até agora. Logo mais veremos até quando ele vai estender a mistura entre futurismo com críticas contemporâneas, quase um realismo fantástico, se ele comportasse o que ainda não existe. 🙂

No fim das contas, o que importa é que a narrativa de Elysium funciona, porque envolve o espectador e deixa algumas boas críticas no ar. Mesmo sendo pouco viável em termos lógicos, muitas vezes, ele tem um belo acabamento técnico, envolvimento dos atores, estilo de diretor/roteirista e toda aquela parafernália de quem curte os filmes de ficção científica. Divirta-se!

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Neill Blomkamp dirigiu cinco curtas antes de District 9. Não assisti a nenhum deles para saber se ele tinha um estilo definido desde sempre. Mas o longa que impressionou a tanta gente em 2009 e este novo Elysium sugerem que ele gosta de trabalhar aqueles conceitos comentados logo acima. Agora, ele trabalha na pré-produção de Chappie.

O que este próximo tem em comum com os anteriores? O que sabemos, desde já, é que ele é uma ficção científica. Esta característica segue os anteriores, verdade. Mas, ao mesmo tempo, Chappie será uma comédia. Será que também com uma certa crítica social? Em 2015, quando o filme for lançado, saberemos. É esperar para ver.

Como eu disse antes, Elysium é muito bem acabado tecnicamente. Como um filme deste porte e com estas características exige. Mas da parte técnica tenho que destacar, em especial, a excelente edição da dupla Julian Clarke e Lee Smith. Sem o trabalho deles, este filme certamente não teria o ritmo que Blomkamp queria que ele tivesse. Belo e difícil trabalho.

Muito boa a direção do realizador sul-africano que, como em District 9, toma a câmera no braço e faz muitas sequências no melhor estilo de “filme de guerra realista”. Mas, distinto da produção anterior, em Elysium há sequências mais lentas, panorâmicas, que dão tempo para mostrar o espaço conquistado e valorizar os “dramas humanos”, especialmente nas capturas de gente ou nos raros momentos em que os personagens tem tempo para se emocionarem.

Dos atores principais deste filme, só fiquei com pena da Jodie Foster. O papel dela é tão raso que ela não pode fazer muito com aquele perfil de “megera má”, com tudo que a redundância pode reforçar do conceito. Ela está bem, claro. Até porque eu não consigo vê-la mal em qualquer filme. Mas seu papel é muito raso, como outros deste filme – vide os da Alice Braga e do Diego Luna.

Dos coadjuvantes deste filme, vale comentar a atuação de Josh Blacker como Crowe, um dos homens de confiança do vilão Kruger e que, normalmente, fica vigiando a Frey e sua filha Matilda, interpretada por Emma Tremblay; Brandon Auret como Drake, outra figura importante nos confrontos da turma de Kruger; Jose Pablo Cantillo como o tatuadão Dr. Frankenstein amigo de Spider e que transforma o moribundo Max em uma semi-máquina de exterminar; e Faran Tahir como o presidente Patel, que tenta frear Delacourt.

Da parte técnica do filme, achei um pouco exagerada, acima do tom a trilha sonora de Ryan Amon. A direção de fotografia de Trent Opaloch, por outro lado, é precisa. E vale destacar o fantástico o design de produção de Philip Ivey; os efeitos especiais da equipe de 31 profissionais comandada por Kuba Roth; a maquiagem da equipe de Fay von Schroeder e Leeann Charette; e os efeitos visuais que mobilizaram a impressionante equipe de mais de 200 profissionais – não terminei de contar porque me cansei 🙂

Não sei se Elysium terá fôlego para chegar com força para ser indicado a algum Globo de Ouro ou Oscar, mas acho que especialmente os quesitos técnicos mereciam entrar na disputa por uma vaga. Só acho que ele ficou distante de qualquer indicação… veremos, parte 2.

E agora, uma curiosidade sobre Elysium. Originalmente, o papel de Delacourt havia sido escrito para um homem. Agora, cá entre nós, bem melhor a Jodie Foster, né? Com tantas mulheres em posição de comando, nada melhor que colocar uma em posição tão de comando no filme. Aprovada a mudança.

Vindo da África do Sul, Blomkamp é legitimamente preocupado com a segregação, incluindo a história do apartheid. Pois bem, depois de falar disto indiretamente em District 9 – e aqui em Elysium também -, Blomkamp dá um pequeno lembrete do tema em um detalhe que aparece neste lançamento. Quando Kruger pega o lança-foguetes de um veículo, é possível ver o nome da “agência” para a qual ele trabalha: Civil Cooperation Bureau. Durante o apartheid na África do Sul existia um esquadrão de ataque patrocinado pelo governo que se chamava The South African Civil Cooperation Bureau.

Prova de que as pessoas deste filme são imortais é que John Carlyle teria nascido em 2010, segundo o dado biográfico dele que aparece no display do computador. Ou seja, para o tempo de Elysium, ele teria 144 anos. E bem conservado. 🙂

E uma última curiosidade: a parte central de Elysium se passa em 2154, exatamente o mesmo ano em que a história de Avatar é ambientada.

Elysium estreou em Taiwan no dia 7 de agosto e, no dia seguinte, em Israel e na Ucrânia. Na sequência, foi entrando em cartaz nos demais países mundo afora. Esta megaprodução teria custado cerca de US$ 155 milhões. Apenas nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de US$ 89,1 milhões até esta quinta-feira, dia 19 de setembro. No restante do mundo, ele teria acumulado pouco mais de US$ 233,25 milhões. Ou seja, está pago e terá algum lucro – descontados os outros gastos que não estão apenas na feitura do filme.

Esta produção foi filmada em British Columbia, no Canadá, na Cidade do México e em Nayarit, no México. Ainda assim, é uma produção 100% dos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb gostaram do filme, a ponto de dar para ele a nota 7. Uma bela avaliação para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco menos generosos. Eles dedicaram 151 críticas positivas e 71 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 68% e uma nota média de 6,5.

E com este filme, engordo a lista de produções dos Estados Unidos que estou comentando por aqui após vocês, caros leitores, terem votado no país em uma enquete aqui do blog.

Ah, e antes de partir para a conclusão, vale deixar alguns textos sobre o Obamacare e afins. Aqui, um resumão sobre o governo do presidente dos Estados Unidos; neste texto, uma boa explicação sobre a reforma no sistema de saúde que Obama conseguiu aprovar em 2010; e aqui um outro explicando a campanha de defesa do presidente de suas propostas.

CONCLUSÃO: Neill Blomkamp virou uma referência em filmes de ação que se passam no futuro. E mesmo com essa ambientação futurística, as produções do diretor tem uma forte carga de reflexão contemporânea. Elysium marca o avanço no cinema de Blomkamp, que dá mais um show no domínio técnico dos recursos que ele tem disponível e também no domínio narrativo. Menos inovador que o anterior District 9, Elysium revela o que o diretor é capaz de fazer com um orçamento maior.

O visual desta produção, assim como os efeitos especiais e a escolha de ótimos atores mostra que ele sabe utilizar bem os recursos que tem disponíveis conforme vai ganhando pontos na indústria. Belo entretenimento, e com algumas pitadas de questionamento social. É o bom cinema de Blomkamp reforçando as suas credenciais. Vejamos se em uma próxima vez ele dá um passo à frente, até para não ficar muito repetitivo – dois filmes futuristas com estas características estão de bom tamanho, certo? Mesmo lembrando bastante District 9, Elysium é uma ótima experiência de cinema com argumentos, ainda que eles sejam um bocado absurdos. Vale ser visto, especialmente se você quiser abraçar a diversão e deixar para lá a lógica. Afinal, este é o típico filme em que os atores e os efeitos especiais fazem a gente esquecer as imperfeições.

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District 9 – Distrito 9

Eu não poderia fechar o ano de 2009 sem assistir a um dos principais fenômenos do cinema deste ano. Para ser franca, alguns “fenômenos” eu devo dispensar – ou deveria, como The Hangover. Outros, como Precious, Paranormal Activity e um curto etcétera, devo assistir nas próximas semanas. Mas District 9, este sim, não poderia ser adiado por muito mais tempo. Antes de assistí-lo, ouvi falar muito a seu respeito. Para alguns, ele revolucionou o filme sobre alienígenas. Para outros, ele é o melhor filme do ano. Mesmo com toda a expectativa que este tipo de argumentos pode despertar, gostei muito do filme. Ele realmente traz um roteiro muito criativo e que transforma o que o cinema tinha feito até agora sobre o tema “invasões alienígenas”. De quebra, District 9 não deixa de ser uma alegoria sobre segregação social, racial (ou, neste caso, de espécies) e sobre a exploração dos mais “fracos” por pessoas que querem tirar proveito deles e/ou corrompê-los.

A HISTÓRIA: Wikus van de Merwe (Sharlto Copley), funcionário da empresa MNU que trabalha no departamento de relacionamento de humanos com alienígenas, se prepara para falar para as câmeras. Até então um funcionário como outro qualquer, Wikus acaba ganhando uma importante missão da noite para o dia: comandar o processo de notificação dos alienígenas que vivem no chamado Distrito 9. Esse local foi criado de forma provisória, 20 anos antes, no subúrbio de Johanesburgo, para servir de abrigo e local de atendimento emergencial de um grupo de alienígenas que foram encontrados em uma nave parada sobre parte da cidade. Como não apareceu nenhuma missão de resgate dos alienígenas e nenhum governo da cidade encontrou uma saída melhor para este problema, o grupo de extraterrestres ficou no local. Mas depois de duas décadas e uma série de problemas – inclusive crescentes enfrentamentos entre humanos e aliens -, a MNU é designada para a missão de transferir os extraterrestres para outro local, mais retirado, na cidade. Wikus fica responsável por essa missão e acaba se contaminando no processo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a District 9): A grande qualidade deste filme, sem dúvida, é o roteiro incrível que o diretor Neill Blomkamp escreveu ao lado de Terri Tatchell. Quem, além deles, poderia imaginar uma “invasão” alienígena tão diferente de tudo que já havíamos visto no cinema? Ao invés de chegarem à Terra com planos mirabolantes de conquista, dominação e/ou extermínio da raça humana, os aliens chamados perjorativamente de “camarões” de District 9 aportaram por aqui por uma falha mecânica. Tudo o que Christopher Johnson e outros aliens querem é sobreviver e, preferencialmente, conseguirem alguma maneira de voltarem para “casa” deixand os humanos e suas vidas para trás. Ainda assim, e isso é uma qualidade do roteiro, os alienígenas não são completamente um grupo de vítimas.

District 9 torna a chegada de uma nave de outro planeta um problemão social, científico e militar. E para a sorte de nós, espectadores, o roteiro de Blomkamp e Tatchell foge do “lugar-comum” dos filmes do gênero que, sempre, tornavam os aliens o símbolo da maldade ou da inocência. Em District 9, a exemplo dos humanos, eles são capazes de praticamente tudo. Do bem, do mal, dos atos mais degradantes ou dos gestos mais heróicos. Por serem tão parecidos com os humanos – provavelmente por mimetismo – no comportamento e, na aparência, tão diferentes, eles passam a ser cada vez mais desprezados pelas pessoas que, com o passar do tempo, vê a presença deles como uma ameaça na medida em que os aliens passam a “competir” com os terráqueos pelas ajudas de governos e organizações não-governamentais.

Neste ponto, District 9 também se mostra um filme capaz de levantar reflexões e debates muito interessantes. Como ocorre com grupos de imigrantes/refugiados em diferentes partes do mundo, o que incomoda mais aos habitantes dos lugares “invadidos” é a disputa que os “intrusos” despertam por saúde, assistência social, educação, segurança pública e todas as ajudas possíveis que podem surgir de governos e ONGs. Para alguns, District 9 seria uma alegoria do apartheid vivido pelos negros na África do Sul (inclusive pelo fato da história do filme “ironicamente” se passar no mesmo país). Certamente o assunto está inserido na história, mas o roteiro acaba ampliando este tema para um campo muito mais amplo, tanto no campo territorial quanto no histórico. As segregações por credo, raça, origem social ou territorial continuam sendo feitas hoje em dia, enquanto escrevo estas linhas, em diversos países pelo mundo.

Por isso mesmo, os temas de District 9 se mostram tão atuais. Outro deles é o debate sobre o sentimento que uma pessoa tem de pertencer a um grupo ou outro da sociedade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Inicialmente, Wikus tem muito claro que ele faz parte dos “donos da terra”, os humanos superiores que fazem “a caridade” de aceitar os alienígenas em sua cidade. Desastrado, arrogante, sedento por aparecer bem frente às câmeras, ele provoca um ato de imperícia com um artefato extraterrestre que lhe vai custar caro. E assim, ele entra em uma crise de identidade que tem tanto a ver com a nossa época, dos habitantes do planeta Terra do século 21. Sem saber o quanto ele ainda era humano ou alienígena, Wikus toma medidas desesperadas e passa a ser visto também com desconfiança por seus “pares” (humanos, claro). Afinal, mesmo antes do final (e apesar dele), Wikus era mais humano ou alienígena? A falta de definição clara sobre a própria identidade parece ser uma constante nos dias atuais.

Mas a série de reflexões do filme não termina por aí. Wikus acaba sendo objeto de cobiça de governos, exércitos, poderosos “letrados” e iletrados. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Vide os poderosos envolvidos com a empresa MNU e o “comandante dos nigerianos criminosos” que acredita que, ao comer pedaços dos alienígenas, conseguirá “os seus poderes”. Todos buscam, através de Wikus, o único “exemplar” de uma mutação humana/alienígena, poder – conseguido através do manejo das armas trazidas pela nave extraterrestre. Como sempre, a corrida armamentista e os bilhões de dólares que ela movimenta está por trás de torturas, abusos de poder e mortes.

Para completar o quadro de pontos curiosos do filme, aparecem os nigerianos e seu comércio ilegal de comidas de gato (sim, o roteiro também tem umas mega ironias como esta), prostituição e demais recursos de “má índole” que são, no fundo, uma forma de exploração dos alienígenas isolados em um gueto. Sempre alguém que se acha um pouco superior a outro consegue subjugá-lo e explorá-lo – mesmo que, no caso dos nigerianos, eles sejam vistos como “inferiores” pelos demais humanos da região. Mas aquele que é explorado e humilhado, muitas vezes, apenas reflete em alguém mais fraco os mesmos mecanismos de dominação – algo que pode ser visto tanto no ceio de algumas famílias, com os papéis sendo desempenhados por pais e filhos, quanto por nações e governos.

Por tudo isso, District 9 é um filme excepcional. Muito criativo e cheio de nuances e detalhes curiosos. E o melhor: todos estes questionamentos e o belo arsenal de informações que contextualizam o filme são apresentados para o espectador de forma muito natural. Como tantos outros filmes produzidos nos últimos anos, District 9 joga com a complicada divisão entre ficção e realidade. Vídeos feitos pela MNU, noticiários de televisão, vídeos com depoimentos de especialistas e pessoas envolvidas com o caso de Wikus procuram dar uma sensação de realismo para a história. Assim como o uso constante de câmeras junto aos atores (muitas vezes, é utilizada a já conhecida “câmera tremida” que acompanha cenas de ação). Por tudo isso, tecnicamente falando, a direção de Neill Blomkamp apenas segue a tendência de filmes que brincam com esta noção de documentário/ficção.

Um ponto muito positivo do filme, também, é o de utilizar os efeitos especiais para complementar a história – e não para roubar a cena e o protagonismo do roteiro e dos atores. Os aliens em cena convencem e o uso de suas armas não parece exageradas. Tudo, basicamente, segue a idéia de “realismo” extremo. Mas para não dizer que tudo são flores… admito que não consigo dar um 10 para este filme por uma única razão. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei uma boa forçada de barra aquele recurso do “herói-que-não-se-importa-com-nada-além-do-próprio-nariz” e que, na última hora, resolve ser magnânimo. Não acho que Wikus teria abandonado, de maneira tão displicente, a sua única chance de conseguir uma cura e, pouco depois, teria se dado conta que estava tornando um pequeno alienígena órfão. Achei uma forçadinha de barra desnecessária para um filme que estava indo tão bem. Mas, diante de todas as outras qualidades da história, este é apenas um detalhe.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Acredito que tudo praticamente já foi dito sobre este filme. Sem dúvida, muitos comentaram sobre District 9 antes do que eu. Mas como perdi o momento da “estréia” deste filme, quis pelo menos parar de ignorá-lo até o final deste ano. Sei que a maioria de vocês, meus caros leitores, já devem tê-lo assistido. Gostaria de saber as suas impressões sobre esta produção – acertos, erros, surpresas, o quanto ele é entretenimento e o quanto provoca reflexões, e por aí vai.

District 9 começou a surpreender o mundo no dia 13 de agosto deste ano, quando estreou na Nova Zelândia, seu país de origem, e em outros seis países. No dia seguinte, ele chegou às salas de cinema dos Estados Unidos, país que co-financiou a produção, do Canadá e da Estônia. Depois, pouco a pouco, ele foi chegando a outras nações. Divulgado pela propaganda boca a boca e  por uma engenhosa fórmula de “propaganda viral”, District 9 conseguiu, até o dia 25 de outubro, a respeitável bilheteria de US$ 115,5 milhões apenas nos Estados Unidos. Um belíssimo resultado para um filme que teria custado aproximadamente US$ 30 milhões.

Segundo esta reportagem do jornal espanhol El País, District 9 foi precedido, nos Estados Unidos, por uma interessante campanha publicitária que espalhou, por inúmeras ruas de diferentes cidades, cartazes que pediam a colaboração dos cidadãos para denunciar a presença de alienígenas. Como resultado, a Sony recebeu milhares de ligações telefônicas que davam informações sobre a aparição de extraterrestres. 😉 Na mesma matéria do El País, o diretor Neill Blomkamp comenta: “Essecialmente o filme salta da nossa história, que é obviamente fictícia, para uma espécie de modo ultrarealista”, disse o diretor, se referindo ao tom documental do filme.

O filme de Neill Blomkamp caiu no gosto de público e de crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para District 9, enquanto que os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 214 críticas positivas e apenas 23 negativas para a produção (o que lhe garante uma aprovação de 90%).

Muitos filmes exploram com eficácia os recursos da internet para divulgar sua produção mas, honestamente, poucos me pareceram tão criativos e interessantes quanto o site oficial de District 9 (que pode ser acessado no início deste texto). Além da página dos Estados Unidos, os curiosos podem conferir a versão brasileira (infinitamente menos rica em detalhes, mas também bem feita visualmente).

Lendo as notas de produção do filme é que fiquei sabendo o significado da sigla MNU: União Multinacional, uma empresa privada que conseguiu o controle sobre o District 9 e a vida dos alienígenas.

Este filme, até o momento, ganhou quatro prêmios e foi indicado ainda a outros nove. Entre os que ganhou, destaque para aqueles entregues pelas associações de críticos de Boston e Austin que premiaram a estréia do novo cineasta Neill Blomkamp. O diretor nascido em Johanesburgo há exatos 30 anos teve experiência, anteriormente, apenas com curtas-metragens. Quatro deles marcaram a trajetória de Blomkamp antes deste seu primeiro longa.

Dos prêmios aos quais ele foi indicado – mas que ainda não apontaram seus vencedores -, sem dúvida, o Globo de Ouro é o mais importante. District 9 concorre na categoria de Melhor Roteiro. Diante dos concorrentes – até o momento, assisti apenas a Inglourious Basterds e The Hurt Locker -, eu acho que ele merece ganhar. Ainda que sejam melhores que ele, Inglourious Basterds e The Hurt Locker se destacam por seus roteiros, é claro, mas especialmente por suas respectivas direções. Por sua vez, District 9 tem como sua principal qualidade o roteiro – por isso mesmo, merece ganhar nesta categoria do Globo de Ouro. Bem, digo isso sem ter assistido, ainda, a Up in the Air e I’ts Complicated.

O sucesso deste filme deve muito a um sujeito chamado Peter Jackson. Ele produziu District 9 e foi o grande responsável por torná-lo tão conhecido. A parceria entre Jackson e o diretor Neill Blomkamp começou há dois anos, quando o diretor da trilogia The Lord of the Rings contratou Blomkamp para adaptar o game Halo para os cinemas. Como o projeto acabou naufragando, segundo esta reportagem, por problemas entre as produtores envolvidas, Jackson perguntou para seu contratado se ele teria outro projeto. Sim, ele tinha: a idéia amplificada de seu primeiro curta, Alive in Joburg, de 2005. Em outras palavras, District 9.

Tecnicamente o filme funciona muito bem. Destaque especial para a edição de Julian Clarke, a direção de fotografia de Trent Opaloch e os efeitos especiais da equipe liderada por David Barkes. Dos atores, destaque para o protagonista – Sharlto Copley faz um grande trabalho em cena, imprimindo toda a fragilidade, despreparo, coragem e determinação de seu personagem. Mas vale citar ainda o trabalho de apoio de Vanessa Haywood como Tania Van De Merwe, esposa de Wikus; Jason Cope como Gray Bradnam, o primeiro a dar um “depoimento” sobre a presença dos alienígenas em Johanesburgo (no filme ele desempenha o papel de correspondente da UKNR); Nathalie Boltt como a socióloga Sarah Livingstone; Marian Hooman em uma ponta como Sandra Van De Merwe, mãe do protagonista; Mandla Gaduka como Fundiswa Mhlanga, colega de Wikus que acompanha de perto toda a sua ação de campo no Distrito 9; Louis Minnaar como Piet Smit, chefe de Wikus e pai de Tania; e David James como Koobus Venter, o coronel do Exército sedento por eliminar alguns alienígenas – e que acaba perseguindo Wikus quando ele começa a se transformar.

CONCLUSÃO: Um filme que consegue equilibrar, de forma acertada e perfeita, entretenimento e reflexão. Com um dos melhores roteiros de ficção científica dos últimos anos, District 9 é um prato cheio para as pessoas que gostam de boas histórias. Concordo com todos que dizem que seu realizador, o diretor Neill Blomkamp, trouxe novos ares, subverteu e/ou reinventou o gênero de “invasão alienígena” da Terra. Nunca, tenham certeza, vocês viram os aliens desta maneira. 😉 De quebra, District 9 serve de alegoria para diversos processos de segregação que foram ou ainda são praticados pelo mundo. Um filme inteligente, divertido e contestador ao mesmo tempo. Cairá certamente no gosto de quem gosta de ficção científica e, talvez, dos curiosos de plantão. Tem suas cenas escatológicas, um bom grau de ironia/humor e, claro, muitos tiros e ação envolvendo alienígenas. Um filme do gênero bem acima da média.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Como a maior premiação de Hollywood este ano terá 10 filmes concorrendo na categoria de melhor produção do ano, não seria nada surpreendente se District 9 conseguisse uma vaguinha entre os indicados. Até o momento, levando os filmes que eu assisti e que tem boas chances de serem indicados, acredito que ele mereça chegar lá. Agora, sem dúvida, ele deverá ser finalistas na categoria Melhor Roteiro Original – na qual, francamente, ele seria um dos mais fortes candidatos. Ele pode ser indicado ainda em categorias técnicas como Melhor Maquiagem, Melhor Mixagem de Som, Melhores Efeitos Especiais e Melhor Edição no Oscar 2010. Na categoria de Melhor Diretor, que seria outra possível, acho muito difícil o estreante Neill Blomkamp chegar – até porque, para isso, teria que deixar veteranos de fora. As melhores chances do filme, resumindo, são na categoria Melhor Roteiro Original e em algumas das categorias técnicas. Mas da mesma forma, District 9 pode sair de mãos abanando da premiação.