Mother! – Mãe!

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Um dos filmes mais “malucos” e controversos que eu assisti em um longo tempo. Na verdade, se eu fosse fazer uma lista com estes predicados, provavelmente Mother! estaria no Top 5 avaliando todas as produções que eu vi até hoje na vida. Darren Aronofsky, de quem eu gosto tanto, desta vez foi um pouco longe demais. Claro que o diretor dá um show na condução da trama mas, no final, nos perguntamos para que tanto esforço. Dele e de quem assiste a este filme. Sim, há um objetivo claro nesta produção. Aronofsky, mais uma vez, alcança o seu objetivo. Mas isso não significa, exatamente, uma grande experiência para quem se lança no cinema para assistir à sua mais nova “peça de arte”.

A HISTÓRIA: Uma pessoa está pegando fogo. Enquanto as chamas queimam, uma lágrima cai pelo seu rosto. Um homem (Javier Bardem) coloca uma grande pedra transparente – que se assemelha à uma pedra preciosa – sobre um pedestal. Logo após ele fazer isso, tudo que estava queimado e que foi destruído pelas chamas volta a se regenerar e a voltar ao ponto anterior ao da destruição. A casa volta ao normal, cada detalhe, inclusive a mulher que está sobre a cama (Jennifer Lawrence). Ela acorda e caminha pela casa procurando por algo. Logo chama por “amor”, e descobrimos que ela é casada com o homem que conseguiu regenerar tudo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mother): Eu gosto muito do diretor Darren Aronofsky, como eu comentei antes. Ele é um dos diretores que eu gosto de acompanhar. Destes raros que eu procuro assistir a todos os filmes que ele já fez. Algumas das produções criadas por ele estão entre as minha preferidas de todos os tempos – com destaque para Requiem for a Dream.

Depois de falar sobre este contexto pessoal, como fã de cinema e de Aronofsky, devo dizer que fiquei chocada com Mother!. Mais que nada, porque achei este filme como um dos piores – se não o pior – da filmografia do diretor. E digo isso por várias razões. Mother! é pretensioso, é cansativo, e por mais que ele faça sentido se pensarmos na história dele de trás para a frente, ele me pareceu mais “sem pé e nem cabeça” do que o desejado. Desta vez, como falei lá no início, parece que Aronofsky quis dar vasão para a sua criatividade de uma forma mais visceral e “maluca” e acabou passando um pouco do limite.

Sei bem, assim como vocês, que cinema – e qualquer outro consumo artístico e cultural – é uma questão muito pessoal. O entendimento sobre cada filme e cada obra depende muito da nossa ótica, nossas experiências, crenças, valores e um longo etc. Mas, como sempre – e isso é chover no molhado -, falo por aqui sobre os filmes sob a minha ótica. Respeito as diferenças, as outras visões além da minha, mas meu papel aqui é falar sobre o que eu vi tendo como base o meu arcabouço de conhecimento e a minha ótica.

Pois bem, afinal de contas, sobre o que fala Mother!? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início do filme e por um bom período dele, pensamos que esta produção trata de um casal que passa por uma certa crise e/ou que tem buscado coisas diferentes. Ainda que esta seja a aparência, alguns elementos – especialmente a direção muito bem feita de Aronofsky – nos fazem ter, permanentemente, uma certa sensação de estranheza e até de mal estar. Algo parece estar muito errado, apesar de toda a beleza que vemos na nossa frente – não apenas da protagonista, mas da casa e do cenário em que ela se move.

Então, evidentemente, aqui – e na vida mesmo -, as aparências enganam. Sim, sabemos que há algo de “muito podre no Reino da Inglaterra”. E aí passamos por um longo período de certa estranheza e angústia e, perto do fim, por uma viagem louca e frenética de cenas diversas de destruição e violência para, no fim das contas, entender o que? No final, finalmente, chegamos ao cerne da questão. Entendemos a razão deste filme existir. Ou seja, como eu disse antes, o estranhíssimo e um tanto pretensioso novo filme de Aronofsky tem sim um significado.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No final, bem no final, entendemos que a protagonista é a “musa inspiradora”, literalmente as lembranças de casa/das origens do poeta – e, claro, entendemos quem é aquele sujeito que está no comando de tudo o tempo todo. Assim, a personagem de Jennifer Lawrence, que nos créditos do filme recebe o nome de “Mother” – mas que durante o desenrolar da história é chamada de “meu amor”, “musa”, entre outros nomes – é, no fim das contas, as memórias que o protagonista tem da sua própria casa, do seu lar, de um lugar que não existe mais mas que o inspira para escrever a sua obra.

Em outras palavras, a personagem de Jennifer Lawrence é a “musa inspiradora” do poeta. Por isso mesmo que ela, após uma noite de paixão com o protagonista, consegue engravidar e, depois, dá a luz à “obra-prima” do protagonista. O personagem central de tudo isso, contudo, é o escritor/poeta interpretado por Javier Bardem. Ainda que a câmera de Aronofsky esteja permanentemente “colada” em Lawrence, acompanhando cada passo dela, toda aquela realidade e tudo que acontece com o “casal” só existe porque o personagem de Bardem existe.

No final das contas, parece que Aronofsky também brinca de ter em Lawrence a sua musa inspiradora. Afinal, é nela que a câmera dele está sempre focada ou próxima. Ela dita os movimentos do diretor. É como se ele não pudesse nunca perder de vista a sua inspiração – diferente do protagonista, que se encanta com vários outros elementos além da sua noção de “lar”. Encantado com o sucesso, muitas vezes ele se esquece da sua fonte de inspiração e dá as costas para ela.

Por sua parte, como a câmera está sempre acompanhando Lawrence, percebemos sob a ótica da inspiração os efeitos do desamor, do abandono e do esquecimento. Aquele sensação de estranheza e de certa angústia é provocada justamente pela falta de sintonia entre o que a inspiração do poeta deseja – apenas ele – e o que o próprio escritor lhe apresenta como resposta para os seus apelos.

Ou seja, para resumir, ao contrário do que pode parecer no início, este filme é uma grande reflexão sobre como as lembranças de um lar, as recordações da origem (e do amor) servem de inspiração fundamental para um artista/poeta e para a sua obra. E como este escritor/poeta/artista pode ser cruel, infiel ou inconstante em relação à sua fonte de inspiração quando começa a fazer sucesso e/ou volta a ser endeusado.

Mother!, no fim das contas, é uma viagem pessoal de Aronofsky sobre a fonte de inspiração de todo artista e de como esta fonte pode incomodar ou ser violentada/atacada de formas muito diversas em regimes totalitários, durante guerras, perseguições e uma bela variedade de conflitos. A inspiração e a arte estão sendo atacadas e sempre foram atacadas em diferentes lugares durante muitos períodos da História. E Aronofsky parece ter resolvido falar disso de uma forma bastante inusitada. Com Mother! o próprio diretor resolve fazer um trabalho mais “artístico”, mas será mesmo que ele conseguiu fazer esta entrega de forma perfeita?

Vou dividir esta resposta em duas partes. Em relação à direção, sem dúvidas Aronofsky faz mais uma entrega exemplar. Ele tem uma dinâmica interessante de câmera, cuidando de valorizar sempre a personagem de Jennifer Lawrence. Toda a narrativa está sob a ótica dela. Afinal, ela é a protagonista, a peça-chave de toda a produção. Ela inspira o artista, o poeta, e sem ela nada existiria. A musa inspiradora do protagonista e deste filme fica realmente no centro do “tablado” o tempo inteiro, e o esforço da direção de Aronofsky não é apenas de seguirmos de perto o que ela faz, mas também de sentir o mesmo que ela – incluindo bastante estranheza, confusão e mal estar.

Neste sentido, tanto a direção quanto boa parte do roteiro de Aronofsky fazem sentido e são coerentes – especialmente se pensamos no filme do final para o início. Porque, desta forma, tudo faz um pouco mais de sentido. Mas e o roteiro? Aronofsky também acerta no roteiro? É nesta parte fundamental de qualquer filme – para mim, sempre a parte central de uma produção – que o diretor/roteirista derrapa. É justamente em várias escolhas do roteiro que ele sugere ter uma obra pretensiosa demais. Vejamos.

Se a intenção do diretor era mostrar o quanto uma “musa inspiradora” é fundamental para um artista e o quanto ele pode se deixar levar pela fama, pelos fãs, pelo “circo” todo que envolve uma obra aclamada e, ao fazer isso, esquecer a sua musa e maltratá-la com esta indiferença, era preciso mesmo tanto ir-e-vir de personagens estranhos na história? O fã que chega sozinho e depois é seguido pela mulher e pelos filhos… eles realmente precisavam ocupar tanto tempo da história?

E, depois, quando o diretor vai inserindo outras pessoas em cena que “invadem” o espaço da “musa inspiradora” e que tornam a angústia dela cada vez maior, até que somos arrebatados por uma sequência maluca de diversos episódios da História em que a arte/a musa inspiradora foram atacadas, nos perguntamos: toda aquela “verborragia” cênica era realmente necessária? Ou foi apenas uma forma do diretor mostrar a sua capacidade? Da minha parte, tudo isso me pareceu o esforço de um artista de mostrar que ele sabe pintar com cores fortes e de forma “mais livre”. Mas isso nem sempre resulta em uma obra de arte como ele gostaria.

Sim, Aronofsky é um grande diretor. Ele sabe conduzir bem uma trama e os atores envolvidos neste projeto fazem um belo trabalho. Mas no final das contas Mother! se apresenta um filme longo demais, um bocado repetitivo e arrastado. E tudo para nos contar uma história sobre um artista e a sua musa inspiradora, e sobre como o mundo e os seus exageros corrompem esta relação que poderia ser perfeita. Enfim, lembrando uma obra de William Shakespeare, achei este filme “muito barulho por nada”. Ou quase isso.

Quando sai do cinema, fiquei um bom tempo pensando sobre a nota que eu daria para esta produção. Admito que, por gostar tanto de Aronofsky, eu comecei dando uma nota mais alta do que esta que vocês podem conferir abaixo. Se compararmos este filme com outros muito medianos que eu comentei aqui no blog e que, por alguma razão ou outra, acabaram recebendo um 8 ou um 8,5, provavelmente concordaríamos que estes outros filmes medianos são “menores” do que Mother!. Mas a nota abaixo foi dada apenas na perspectiva deste filme, sem tentar compará-lo muito com outros.

Pensei, na verdade, mais na obra de Aronofsky e no que eu acho que ele poderia ter apresentado em uma nova produção. E tendo isto como critério, mais do que o que eu tenho visto de outros diretores, é que eu resolvi dar uma nota mais baixo. Admito, sim, que eu esperava mais de Aronofsky. Até pelo que ele já nos apresentou. E se você começou a ver este diretor com Mother!, saiba que ele é muito melhor. Da minha parte, gosto muito de Requiem for a Dream, Pi e Black Swan (comentado aqui). Procure assisti-los, caso ainda não o tenha feito.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu assisti este filme no cinema. E achei interessante a reação das pessoas. Algumas desistiram do filme antes mesmo dele acabar. Notei isso, primeiro, com algumas pessoas abaixo de mim na sala acessando o tempo todo o smartphone, pouco interessadas naquela trama “circular” e repetitiva que estava passando na telona. Depois, algumas pessoas simplesmente saíram do cinema antes do final da trama. Respeito todas as opiniões, sempre, mas isso é algo que eu me recuso a fazer. Não importa o quanto o filme seja ruim ou me desagrade. Eu fico até o final.

Outras reações foram interessantes quando eu sai da sala de cinema. Na minha sessão haviam muitos jovens. Possivelmente pessoas que conheceram Aronofsky com o seu maravilhoso Black Swan, lançado em 2010. Estas pessoas saíram insatisfeitas do cinema. Algumas não entenderam a “moral da história”, o que o filme quis dizer. Outras – e dou razão para estas pessoas -, reclamaram do filme ser classificado como “horror” e “mistério”. Realmente, nada a ver ele estar na categoria “horror”. No fundo, Mother! é um drama sobre um artista e a sua busca incansável pela “fonte” de sua inspiração – a sua própria noção/lembrança de lar. Então, meus caros, é essencialmente um drama. Entendo a frustração de parte do público.

Ao fazer Mother!, Darren Aronofsky saiu muito da curva de tudo que um fã dele poderia esperar do diretor. Sim, ele é um sujeito criativo. Grande diretor, que domina muito bem os recursos e as técnicas do cinema. Mas com este filme ele caminhou em uma direção “artística” (entre aspas mesmo) muito diferente do que tínhamos assistido até então. Para mim, Mother! se assemelha muito a The Tree of Life (com crítica neste link), de Terrence Malick. Os dois filmes são controversos e dividem opiniões. São, ambos, do estilo “ame ou odeie”. E os dois sofrem do mesmo mal: tentam ser melhores do que realmente são.

Mas, admito, ainda que Mother! se assemelhe a The Tree of Life, eu ainda prefiro o primeiro. E isso tem tudo a ver com a minha admiração muito maior para Aronofsky do que para com Malick. Agora, como fã do diretor, o que eu espero é que ele nos apresente algo melhor na próxima vez.

Durante grande parte do filme, Mother! tem um grupo pequeno de atores em cena. Depois, o diretor descamba para uma “enxurrada” de pessoas que aparecem em cena como uma “invasão bárbara”. Muitos nomes, assim, aparecem quase como figurantes. De todos os atores envolvidos no projeto, sem dúvida o destaque principal vai para Jennifer Lawrence, que está linda e que faz um grande trabalho, repassando todo o desconforto e a paixão que a sua personagem pede. Em seguida, vale destacar o bom trabalho – ainda que não excepcional – de Javier Bardem como o escritor/poeta que tem uma relação profunda de amor com a sua musa inspiradora – mas que não cuida dela como deveria.

Além dos protagonistas, vale citar o bom trabalho de Ed Harris como o fã do poeta que procura o seu ídolo antes de morrer; Michelle Pfeiffer como a mulher dele; Brian Gleeson como o filho mais novo do casal e Domhnall Gleeson como o filho mais velho.

Lá pelas tantas Mother! descamba para uma violência considerável. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Esta acaba sendo a parte mais “louca” e criativa da produção – e que contrasta tanto com aquele “bucolismo” um tanto irreal anterior e que preenche boa parte do filme. Não é fácil ver a “musa” do poeta sendo agredida ferozmente. Também chega a dar um bocado de arrepios o fim que o “filho” do casal acaba tendo – mas devemos lembrar, nesta parte, que a criança era a nova obra do poeta, gerada pela união dele com a sua “musa inspiradora”. Ou seja, não era uma criança de verdade, e sim uma obra que acabou sendo vilipendiada e “devorada” pelos fãs do artista. Nesta parte, Aronofsky quer nos dizer que todos somos canibais quando se trata de uma obra. Queremos devorá-la e acabar com ela para satisfazer a nossa fome “por algo belo”. O diretor/roteirista está fazendo uma crítica mordaz sobre o consumo cultural e sobre o público que quer ter as suas vontades sempre satisfeitas, não importa como.

Comentei rapidamente, durante a semana, logo após assistir ao filme, que este não era o melhor trabalho de Aronofsky. Algumas pessoas se manifestaram com comentários lá. Agradeço à participação de Thales Salgado, Andressa Barroso Vieira e Enzo Santos. 😉 Por lá, o Thales perguntou o que eu tinha entendido sobre aquele líquido que a personagem de Jennifer Lawrence tomava de tempos em tempos. Respeito outras opiniões e formas de entender aquele trecho do filme, mas vou dizer aqui o que eu achei, beleza?

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Vamos olhar a questão de forma um pouco mais ampla. Quando tudo é destruído e volta a se regenerar, a “musa inspiradora” acorda e busca o seu amor, o poeta, correto? Neste começo, e por uma parte do tempo – até as “invasões bárbaras” começarem a acontecer -, a “musa” está sempre buscando o amor do poeta e vive uma certa “tranquilidade” em uma reforma do “lar” que parece ser sem fim. Neste começo pacífico, a musa literalmente sente o lar como um organismo vivo. Mas, conforme a história vai avançando e o poeta vai se distanciando da sua musa, a personagem de Lawrence vai se sentindo cada vez mais e sente que o “organismo vivo” do lar está se deteriorando, como que passando por um tipo de câncer – ou, se olharmos por outra ótica, voltando para o estágio de destruição/carvão após o fogo. A deterioração do sentido de lar – que, no fim das contas, é o que representa a musa do poeta – vai ocorrendo aos poucos e vai se manifestando de diferentes formas.

Cada ameaça para a tranquilidade e a idealização da relação entre a musa e o poeta parece provocar dor e início de perda de sentido para a musa. Sim, ela está sendo ameaçada. Os elementos externos simbolizados pelos fãs do poeta – mas que significam também dinheiro, fama, holofotes e, depois, guerra, perseguição, ditaduras, conflitos variados – representam perigo para a musa. Inicialmente este risco era enfrentado por ela com o tal líquido dourado. O que ele representa? Para mim, qualquer dose de algo que possa tranquilizar a inspiração de um artista. Aquele líquido serve como um “elixir” de inspiração. Alguns se inspiram e/ou se conectam com a sua fonte de inspiração bebendo, enquanto outros conseguem isso com drogas ou outras formas de “religar-se” com o que lhe inspira – no caso do protagonista, com a ideia de “lar” original. Então eu não acho que exista apenas uma resposta para a pergunta. Mas acho que o líquido representava uma forma da inspiração manter-se sólida apesar das ameaças externas.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma o destaque vai para a direção de Aronfosky. Ele faz um belo trabalho, especialmente ao decidir sempre ter a câmera perto da protagonista Jennifer Lawrence. Claramente também ele opta por uma direção “fluída”, que faz com que o nosso olhar esteja sempre deslizando pelo espaço daquela casa que é tão protagonista quanto a musa e o poeta. Além disso, o diretor sabe valorizar bem o trabalho dos atores em cena.

Para que o filme tenha a entrega competente que ele tem – pena que o roteiro seja o ponto falho -, foi necessário o bom trabalho de outras pessoas. Destaco, neste sentido, o trabalho de Matthew Libatique na direção de fotografia; de Andrew Weisblum, com um trabalho excepcional na edição; de Philip Messina no design de produção; de Isabelle Guay e de Deborah Jensen na direção de arte; de Danny Glicker nos figurinos; de Larry Dias e Martine Kazemirchuk na decoração de set; assim como o ótimo trabalho dos 14 profissionais envolvidos com a maquiagem; dos 17 profissionais que fazem um trabalho excepcional com um elemento fundamental para a história, que é o som; e o impressionante número de 173 profissionais envolvidos nos efeitos visuais desta produção – que, ok, é um elemento importante no filme, mas que convenhamos… não o torna melhor. Para verem como o roteiro realmente é uma parte fundamental. Mother! é bem acabado, tecnicamente falando, mas não é brilhante ou inesquecível.

Estava pensando agora… alguns podem ter pensado sobre a razão do título deste filme ser “Mother!”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para mim, este título faz referência à “mãe” de todas as artes: a inspiração que move o artista. Seja ele poeta, escritor, artista plástico, músico ou cineasta. E a “mãe” de toda a arte, segundo Aronofsky, seria a lembrança de lar que o artista tem. E isso é fato. Várias e várias obras singulares na História da humanidade, se pararmos para pensar, tem a ver com as lembranças que o artista tem e/ou a noção que ele próprio apresenta de lar, daquilo que ele entende como as suas origens e o seu amor mais duradouro.

Mother! estreou no dia 5 de setembro no Festival de Cinema de Veneza. Até outubro, ele terá participado de outros sete festivais. Como estamos partindo já para o final de 2017, impossível não pensar se este filme chegará com fôlego no próximo Oscar. Da minha parte, acho que não. Mas veremos se estou certa ou errada logo mais. 😉

Esta produção teria custado cerca de US$ 33 milhões. Grande parte do recurso gasto, imagino, nos cachês dos protagonistas/elenco e com os efeitos especiais. De acordo com o site Box Office Mojo, Mother! fez cerca de US$ 15,3 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 13 milhões nos outros países em que ele já estreou. Ou seja, até o momento, teria feito cerca de US$ 28,3 milhões. Verdade que esta produção tem uma história recente. Ainda assim, me parece, vai fechar no vermelho. E, francamente, isso não me surpreende.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. De acordo com as notas de produção de Mother!, este filme tem como as suas inspirações evidentes filmes como Rosemary’s Baby, dirigido por Roman Polanski e lançado em 1968, e Collective Unconscious, dirigido por Dylon Matthews e lançado em 2004. Me chamou a atenção a nota alta deste segundo filme, com nota 9,9 no IMDb.

A atriz Jennifer Lawrence e o diretor Darren Aronofsky começaram a namorar durante as filmes de Mother!. Realmente ele parece ter achado a sua musa inspiradora. 😉 Espero que ela lhe inspire a apresentar algo melhor da próxima vez.

Para explicar um pouco a “confusão” artística de Mother!, acho interessante citar parte de algumas declarações de Aronofsky sobre o filme. Ele começa comentando que acha incrível como muitas pessoas ainda neguem a destruição do planeta que a humanidade está causando com a sua “pegada” no mundo. E que foi a angústia e o “desamparo” provocado por esta reflexão que fizeram, um certo dia, o diretor acordar de manhã com a ideia de Mother! surgida como um “sonho febril”. Enquanto os filmes anteriores do diretor surgiram após o trabalho dele no roteiro desenvolvido durante alguns anos, a primeira versão de Mother! surgiu em apenas cinco dias – isso explica o porquê deste ser o seu pior roteiro, acredito.

Um ano depois do diretor ter escrito a primeira versão do roteiro de Mother! ele já estava filmando a produção. E, dois anos depois, tinha ela pronta para apresentar para o público. Da minha parte, sempre fui da opinião que o quanto mais você trabalha e se dedica para uma história, melhor ela sai. Mother!, para mim, é o sonho filosófico de um diretor que quer denunciar algo e que apresenta isso de forma visceral. Nem sempre isso quer dizer bom.

De acordo com Aronofsky, Mother! começa como uma história sobre um casamento. No centro desta história está uma mulher que é estimulada a dar, dar, dar até não poder dar mais nada. Eventualmente, comentou o diretor, a câmera que foca esta história não consegue conter a pressão que está “fervendo” dentro desta visão. E daí a história se torna, segundo o próprio Aronofsky, “outra coisa que é difícil explicar ou descrever”. Percebemos. hehehehehe. Aronofsky também diz que não sabe identificar, exatamente, de onde tudo que ele nos apresenta neste filme veio.

Parte teve origem nas “manchetes dos jornais” de cada dia (com as suas notícias ruins), parte veio do “zumbido interminável de notificações dos nossos smartphones”, outra parte veio do apagão provocado pelo furação Sandy no Centro de Manhattan, e outras partes vieram do “coração e do instinto” do diretor. Aronofsky diz que o resultado de tudo isso é algo que ele nunca será capaz de reproduzir novamente, e que tudo acabou sendo “servido” como um bêbado que toma a sua melhor dose em um único “shot” de bebida. E que esta bebida bate no bêbado de volta. Bem, talvez essa seja a explicação, afinal, daquele líquido que a “musa” do filme toma. 😉

A atriz Jennifer Lawrence mergulhou tanto em sua personagem que, na cena do clímax da produção, a atriz começou a hiperventilar e até quebrou uma costela – certamente naquela sequência maluca de agressões que ela passa.

Mother! recebeu uma classificação “F” do CinemaScore. Este é o pior resultado que um filme pode obter. Por isso mesmo, é uma classificação rara. Apenas 19 filmes receberam, antes, a classificação “F”.

Esta produção recebeu tanto vaias quanto aplausos na sua estreia no Festival de Cinema de Veneza. Eu entendo. Como eu disse antes, é um filme controverso. Bem ao estilo “ame” ou “odeie”. Da minha parte, não achei ele tãooooo ruim assim. Mas também não achei ele ótimo. Acho que fico mais sobre o muro – e sim, ele seria melhor com meia hora a menos.

O ponto de exclamação no título do filme, segundo Aronofsky, faz alusão aos últimos 30 minutos “efusivos” da produção.

Esta produção obteve apenas US$ 7,5 milhões de resultado nas bilheterias em seu final de semana de estreia nos Estados Unidos. Este resultado torna Mother! como o pior resultado nas bilheterias para um filme estrelado por Jennifer Lawrence.

Antes de Mother! começar a ser filmado, o elenco ensaiou a produção durante três meses em um armazém para que o diretor pudesse testar os movimentos de câmera e aprender com eles para que, quando as filmagens começassem para valer, tudo estivesse fluindo como ele desejava. Deu certo. O filme realmente tem uma direção incrível.

Hummm… e agora alguns comentários do diretor que desmontam totalmente o que eu tinha entendido do filme. hahahahahaha. Mas faz parte, né? Filmes “artísticos” tem muito isso. Cada um entende de uma forma e todos estão certos sobre as suas compreensões. Mas, vejam bem… Aronofsky acabou falando sobre as intenções dele com esta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Segundo o diretor, o título Mother! realmente faz alusão à Mãe Natureza. Jennifer Lawrence interpretaria essa Mãe Natureza, e os demais personagens todos fariam alusão à personagens bíblicos. Por exemplo, Javier Bardem está apenas identificado como Ele e, por isso, ele seria Deus. Ed Harris seria Adão, e Michelle Pfeiffer seria Eva. Os filhos do casal seriam Caim e Abel.

Hummmm… Posso falar e ser franca? Agora sim eu acho que ele pirou. Com todo o respeito. hahahahahaha. Sob esta ótica, a Mãe Natureza só quer saber de Deus, e Este acaba ignorando ela e deixando ela sozinha muitas vezes porque está mais fascinado com a Humanidade e a adulação que as pessoas fazem Dele? Olha, ainda prefiro a minha interpretação do filme. Me parece menos absurda. 😉 E fiquei pensando… sob esta ótica “bíblica” do diretor, quem seria o bebê devorado pelo coletivo? O nosso futuro? Ok, até faz sentido, mas acho ainda mais loucura do que a visão “artística” que eu citei acima.

Até porque, sob esta ótica “bíblica” do diretor, o Deus apresentado por ele seria egoísta, suscetível a ter o ego inflado pela Humanidade e pouco amoroso com grande parte da sua criação, representada pela Mãe Natureza, não? Beleza. Entendo que o diretor esteja bravo e que vá “contra Deus”, mas esta visão é totalmente contra a visão dos cristãos, correto? Enfim, achei, sob esta ótica, a obra ainda mais desnecessária. Mas respeito o diretor. Só acho que ele perdeu uma boa oportunidade de não entrar na seara da fé e de apresentar algo melhor…

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,0 para esta produção. Achei ela muito boa, levando em conta o padrão do site. Por sua vez, os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 173 críticas positivas e 84 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 67% e uma nota média de 6,7.

Para quem, como eu, gosta de saber onde os filmes foram rodados, Mother! foi totalmente filmado na cidade de Montreal, no Canadá. Ainda assim, esta é uma produção 100% dos Estados Unidos – e, por causa disso, ela atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

Honestamente? O filme merecia até menos que um 7. Mas como eu gosto do diretor… não consegui abaixar a nota menos que isso. Espero que me perdoem. 😉

CONCLUSÃO: Este é o filme mais ousado, experimental e artístico do interessante diretor Darren Aronofsky. Mas nem por isso, ou por causa de tudo isso, este não é o seu melhor filme. Está bem longe disso, na verdade. Desta vez Aronofsky abriu todas as comportas da sua imaginação para nos apresentar um filme que é um grande libelo sobre a criação artística. Ok, a obra é interessante se entendida do final para o começo. Mas e tudo que passamos até chegar ao momento da “eureca”? Achei esta produção longa demais e com tintas um tanto forçadas para apresentar o conceito que ela apresenta. Não apenas este não é o melhor filme do diretor como ela também não é tão “obra de arte” quanto o diretor gostaria. Deixa o público perplexo, mas não imprimi realmente uma marca na lembrança do cinéfilo. Será esquecido com uma certa facilidade. Uma pena.

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Brooklyn

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Morar fora de seu habitat natural nunca é algo simples. Mas retornar para “casa” também não é. Até porque, depois de algum tempo, você descobre que a noção de “casa” é muito relativa. Brooklyn nos conta a história de uma imigrante irlandesa que adota os Estados Unidos como a sua nova morada. A trajetória dela resume a de tantos outros imigrantes que fizeram não apenas os Estados Unidos, mas tantos outros países mundo afora.

A HISTÓRIA: Eilis (Saoirse Ronan) sai de casa quando ainda está escuro. Ao lado de Miss Kelly (Brid Brennan) e de Mary (Maeve McGrath) ela participa da missa antes de ir trabalhar no armazém de Miss Kelly. Chegando no local, Eilis pede para falar com a empregadora, mas ela comenta que aquele não é um bom momento. Depois da missa das 9h, o armazém fica cheio. Miss Kelly tem um jeito bem diferenciado de tratar os clientes, o que visivelmente incomoda Eilis.

Quando o estabelecimento fecha, Eilis comunica que está se mudando para a América. Quem arranjou tudo foi o padre Flood (Jim Broadbent), que atendeu a um pedido da irmã mais velha de Eilis, Rose (Fiona Glascott). Acompanhamos a jornada da jovem irlandesa nos Estados Unidos, com ela indo morar e trabalhar no Brooklyn, bairro com grande população vinda da Irlanda.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Brooklyn): O Oscar 2016 está com uma seleção interessante. Ao mesmo tempo que temos filmes ousados na direção e no roteiro, como The Revenant, Room e Mad Max: Fury Road, temos produções muito sensíveis e delicadas, como Carol e esta Brooklyn.

Antes de assistir a este filme, como mandam as minhas regras próprias, eu não sabia nada de Brooklyn. Apenas, claro, que ele tinha uma elogiada atuação de Saoirse Ronan. De fato a atriz é um dos pontos fortes do filme, assim como Cate Blanchett e Rooney Mara são a fortaleza de Carol (com crítica aqui no blog).

A diferença é que a interpretação de Ronan é muito mais “entregue” e destemida do que as interpretações de Blanchett e Mara, destacadas pela expressão dos sentimentos, em muitos momentos, apenas pelos olhares. Ronan não. Ela demonstra uma certa obstinação desde o início, mas com a diferença que faz você sair de um local aonde conhece a todos, está cercada de família e de amigas, para outro local aonde está praticamente sozinha. Quando se muda desta forma de cenário, é inevitável que a pessoa também mude por dentro.

Assim como Carol, Brooklyn é um interessante retrato de uma época e de um local. Nos dois filmes o contexto histórico e social jogam um papel importante. No caso de Brooklyn, é especialmente interessante observar as diferenças entre o local de origem da protagonista, uma Irlanda provinciana aonde as pessoas prezam tanto a ida regular na Igreja quanto a vigilância sobre os vizinhos e conhecidos, e os Estados Unidos que começa a ser cosmopolita e aonde há excesso de gente, de ilusões e de sonhos, com cada pessoa lutando para sobreviver e crescer da melhor forma possível.

Diferente de Carol, Brooklyn mergulha de forma mais franca no romance clássico e sem amarras como o caso proibido do outro filme. De forma muito coerente, Ronan demonstra toda a tristeza de Eilis na primeira fase dela nos Estados Unidos, quando ela ainda tenta se adaptar ao jeito mais franco e mais exigente da sociedade norte-americana. Neste contexto e tentando fugir da nova inquilina da pensão aonde ela mora, a esquisita Dolores (Jenn Murray), Eilis conhece em um baile da colônia irlandesa o italiano Tony (Emory Cohen).

A partir daí o filme mergulha no romance entre os dois. Cohen parece um Al Pacino jovem. Ele tem talento, carisma e uma bela sintonia com Ronan. O casal convence. E aí vem um dos grandes acertos do roteiro de Nick Hornby inspirado no romance de Colm Tóibín: quebrar toda a sequência óbvia de eventos com um fato trágico na história. Além de dar uma nova dinâmica para o filme, esse fato também reproduz o que acontece na vida real. Não estamos no controle das nossas vidas e, quando menos esperamos, fatos marcantes acabam mudando tudo o que esperávamos que aconteceria depois.

Muito antes do que o esperado Eilis se vê obrigada a voltar para a Irlanda. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E para surpresa dela, e do espectador também, ela acaba encontrando a realidade em casa diferente. Tudo parece conspirar para que ela fique lá cuidando da mãe, Mary Lacey (Jane Brennan) e ganhando dinheiro em um bom emprego, que antes era da irmã. Para completar o cenário, ela fica encantada com Jim Farrell (Domhall Gleeson), amigo de sua melhor amiga, Nancy (Eileen O’Higgins), que está prestes a se casar.

O que pareceria ser uma nova e feliz vida nos Estados Unidos acaba ficando em segundo plano. Ela está em casa, se sente bem e feliz. De uma forma que não era antes no mesmo lugar. Mas será que o lugar mudou ou foi ela? Em breve ela terá a resposta para isso. A verdade é que sempre mudamos quando nos desafiamos para isso. Eilis não é mais a mesma e, ao mudar, ela também moveu a roda das oportunidades ao seu redor. A casa que ela conhecia não é a mesma – por um lado, mais triste e vazia, por outro, mais promissora e interessante.

A vida é cheia de possibilidades e cada vez que fazemos uma escolha abrimos certos caminhos e damos costas para outros. Mas se Eilis está em dúvida sobre que caminho seguir – ou pelo menos é isso que o roteiro de Brooklyn sugere -, em breve uma coincidência destas de “mundo menor que uma noz” vai fazer ela lembrar de escolhas que fez e que devem moldar os seus passos.

Interessante como Eilis, assim como nós mesmos, é surpreendida pelos fatos. Ela tinha certeza que iria visitar a mãe na Irlanda e que logo voltaria para a sua nova vida nos Estados Unidos. O que ela não esperava é que a sua casa antiga estivesse tão diferente e com novas possibilidades.

Se não fosse a intromissão de Miss Kelly será que Eilis poderia ter escolhido outro destino? Pode ser que sim, pode ser que não. Nunca saberemos. Ela estava dividida entre obrigações – com a mãe, com Tony – e entre futuros possíveis na Irlanda ou nos Estados Unidos. Mas como não podemos abraçar o mundo, mais cedo ou mais tarde ela teria que tomar uma decisão. A intrometida Miss Kelly apenas apressou uma solução para o problema. Ainda que Eilis já parecia estar propensa a esta decisão.

Desta forma Brooklyn se revela um filme interessante não apenas por tratar de imigração ou por ser uma história de romance clássico. Ele chama a atenção por tratar dos sentimentos de pertencimento a um lugar que todos nós vivenciamos e sobre as escolhas que fazemos na nossa vida e o que elas podem acarretar para o nosso futuro.

Quando saímos de um lugar e caminhamos para a frente, nunca mais podemos olhar a paisagem da mesma forma. A ótica do lugar novo é diferente, para o bem e para o mal. Neste contexto, devemos nos contentar em sentir sempre saudade de algo, mas ter coragem para abraçar as escolhas que fizemos e, assim, vivenciar a felicidade. Sabendo que nunca mais pertenceremos a um lugar totalmente, e que são as pessoas que fazem os lugares e cada um de nós nos sentir em casa ou não. Brooklyn é um filme sobre o desabrochar de uma mulher e sobre a descoberta de uma sociedade mais livre. Vale o ingresso

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este filme tem uma escolha interessante de atores. Apesar de estar centrado no trabalho de Saoirse Ronan, sem dúvida alguma a protagonista feita para brilhar nesta produção, Brooklyn tem um elenco de apoio de peso. Entre os nomes interessantes estão os do já citados Jim Broadbent como o padre Flood; Jane Brennan como Mary Lacey; Fiona Glascott como Rose; Eileen O’Higgins como Nancy; Emory Cohen como Tony e Domhall Gleeson (que parece estar em todas) como Jim Farrell.

Mas além deles, que já foram citados, vale comentar o bom trabalho de Eva Birthistle em uma super ponta como Georgina, a mulher que divide a cabine no navio com Eilis na viagem de ida para os Estados Unidos; Peter Campion como George Sheridan, que se casa com Nancy; Julie Walters quase irreconhecível como Mrs. Keogh, dona da pensão aonde Eilis fica hospedada; Emily Bett Rickards como a deslumbrada Patty, que faz dupla junto com a atriz Nora-Jane Noone, que interpreta Sheila, como as fofoqueiras e engraçadinhas da pensão; e Jessica Paré, que me faz sempre lembrar de Mad Men, como Miss Fortiri, a chefe direta de Eilis na loja de departamento em que ela trabalha no Brooklyn.

Como esta produção se passa nos anos 1950, acaba sendo fundamental para a história diversos aspectos técnicos que ajudam Brooklyn a ser um filme de época. Neste sentido destaco, em especial, o design de produção de François Séguin; a direção de arte de Irene O’Brien e Robert Parle; a decoração de set de Suzanne Cloutier, Jenny Oman e Louise Tremblay; e os figurinos acertados de Odile Dicks-Mireaux.

Algo admirável neste filme é como o diretor John Crowley conduz a narrativa. Ele está sempre atento às expressões da protagonista e dos demais atores em cena. Além disso, claro, ele não ignora os belos cenários e a contextualização das duas sociedades retratadas. Neste sentido, merece ser mencionado também o trabalho do competente diretor de fotografia Yves Bélanger. Outro item importante para o filme é a trilha sonora de Michael Brook, bastante emotiva na maior parte do tempo.

Brooklyn teve uma história longa até chegar ao Oscar. O filme estreou em janeiro de 2015 no Festival de Cinema de Sundance. Depois ele passaria por outros 21 festivais mundo afora. Nesta trajetória a produção colecionou 21 prêmios e foi indicada a outros 105, incluindo três indicações ao Oscar 2016. Entre os prêmios que recebeu, destaque para sete prêmios como Melhor Atriz para Saoirse Ronan; para quatro prêmios conferidos pelo público como Melhor Filme; para um prêmio como Melhor Roteiro Adaptado; e para dois prêmios como Melhor Design de Produção.

Esta produção teve cenas rodadas em Enniscorthy, na Irlanda; em Montreal, no Canadá; e em Coney Island e no Brooklyn, nos Estados Unidos.

Brooklyn teve uma bilheteria bastante singela, até agora, nos Estados Unidos. O filme conseguiu fazer, até ontem, dia 18 de janeiro, pouco mais de US$ 25,1 milhões. Não encontrei informações sobre o custo da produção.

Este filme, aliás, é uma coprodução da Irlanda, do Reino Unido e do Canadá. Uma exceção entre os filmes que estão concorrendo ao Oscar de Melhor Filme – o único que não tem os Estados Unidos como produtor ou coprodutor.

Agora, algumas curiosidades sobre Brooklyn. O diretor John Crowley dividiu o filme em três movimentos visuais diferentes. O primeiro é aquele que acompanha a protagonista antes dela sair da Irlanda e viajar pela primeira vez para os Estados Unidos e se caracteriza por enquadramentos apertados e cheios de tons de verde. O segundo movimento começa quando Eilis chega no Brooklyn e as imagens passam a ser mais amplas e abertas, com cores mais vivas e alegres para marcar a América de 1952 que vivia o auge da cultura pop. O terceiro movimento está na segunda viagem dela para os Estados Unidos, quando as imagens ficam mais brilhantes, com mais glamour e “sutilmente mais colorido” do que no primeiro movimento. O objetivo do diretor era mostrar a mudança pela qual Eilis passou e, no final, ressaltar como ela estava mais sonhadora do que no início. Interessante.

A atriz Saoirse Ronan nasceu no Bronx, em Nova York, mas foi criada na Irlanda por seus pais, que eram irlandeses. Por isso mesmo ela considera Brooklyn como um de seus filmes mais pessoais. Além disso, essa é a primeira vez que ela utiliza o seu sotaque irlandês em uma produção.

Saoirse Ronan estava em uma manicure em Dublin quando recebeu uma ligação dizendo que ela estava concorrendo ao Globo de Ouro pelo seu papel como Eilis. Ela ficou tão contente que mandou comprar champanhe para todos que estavam no salão. Gracioso! 😉

O vestido amarelo que Eilis utilizada em uma cena é o preferido da figurinista Odile Dicks-Mireaux. Ele foi comprado em uma loja em Montreal.

A ideia para o romance do escritor irlandês Colm Tóibín surgiu de uma memória de infância dele. O autor lembrou de uma mulher que havia comentado sobre a viagem de sua filha de Enniscorthy, na Irlanda, para o Brooklyn. No ano 2000 Tóibín escreveu uma história curta a partir desta lembrança, mas decidiu ampliá-la depois que ele mesmo morou nos Estados Unidos por algum tempo. O autor também revelou que foi inspirado pela obra de Jane Austen – faz todo o sentido pelo “espírito” que este filme tem.

O Brooklyn que aparece no filme foi ambientado na canadense Montreal por uma questão orçamentária. Sairia muito caro mudar o Brooklyn do tempo atual para o estilo que o bairro tinha nos anos 1950.

Outra curiosidade técnica importante do filme: nas cenas de close-up da atriz Saoirse Ronan o diretor de fotografia Yves Bélanger utilizou lanternas individuais para os olhos da atriz com o objetivo de adicionar mais brilho para as suas expressões. Bélanger também utilizou uma câmera de mão Alexa e uma combinação de luzes de estúdio e de iluminação natural para capturar uma representação mais real e pessoal dos anos 1950.

Michael Brook decidiu usar o violino como o instrumento da personagem de Eilis. Quem executa o violino nas cenas com a atriz é a mulher de Brook, Julie Rogers.

Entre os filmes irlandeses, Brooklyn foi o que teve a melhor estreia em 19 anos. Naquele país o filme teve a maior presença em cinemas da história, superando o filme Michael Collins, de 1996.

Brooklyn foi aplaudido de pé quando estreou no Festival de Cinema de Sundance.

Não li o livro de Tóibín, mas segundo as notas de produção de Brooklyn, o filme tem um final diferente do livro. Quem tiver lido a obra original, por favor, pode comentar aqui qual é a grande diferença do final? Desde já eu agradeço. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, uma boa avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 182 críticas positivas e quatro negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média de 8,6. Bela avaliação, aliás.

CONCLUSÃO: Diferentes paixões movem quem sai de seu lugar de origem e passa a viver em outra parte. Brooklyn conta a história de uma garota que empreende esta jornada sozinha, a exemplo de tantas outras pessoas. Bem conduzido e com uma interpretação muito sensível de Saoirse Ronan, Brooklyn reforça a boa safra do cinema nesta temporada do Oscar.

Além de enfocar um assunto tão em voga quanto a imigração, ele trata de outros temas importantes na formação da Irlanda e dos Estados Unidos, como a religião, os costumes e a busca por autonomia das mulheres. Com roteiro bem construído, Brooklyn dá espaço para Saoirse Ronan brilhar. Além da imigração e da contextualização de época, este filme é um grande romance. Bem ao gosto dos ingleses, coprodutores do filme. Vale especialmente pelo contexto histórico, pelo conjunto da obra e por Ronan.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Brooklyn foi indicado em três categorias da premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Além de concorrer a Melhor Filme e Melhor Atriz (Saioirse Ronan), a produção concorre também como Melhor Roteiro Adaptado. Francamente, vejo poucas chances dele ganhar qualquer um destes prêmios.

Melhor Filme está fora de cogitação. Melhor Atriz parece estar definido para Brie Larson, de Room (comentado aqui no blog). Outro páreo duro para Ronan, caso Larson perca, seria Cate Blanchett por Carol (com crítica neste link), outro filme de época. Fechando a lista de possibilidades, Brooklyn concorre com The Big Short, Carol, The Martian e Room como Melhor Roteiro Adaptado.

The Big Short parece levar uma certa vantagem, ainda que a minha torcida vá para Room. The Martian e Carol também são grandes adaptações. Não vejo muitas chances para Brooklyn. Ou seja, no fim das contas, o filme deve sair de mãos abanando no Oscar. Não porque não tenha qualidades, mas porque os concorrentes são melhores.

Unbroken – Invencível

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Diversos países, e não duvido que todo país do mundo, na verdade, tenha diversos heróis. Mas poucas nações sabem valorizar o heroísmo dos filhos de sua pátria como os Estados Unidos. Unbroken é mais um destes filmes que paga a história de um homem comum que acaba se transformando em herói pelo exemplo que ele vai dando, dia após dia, e contra todas as previsões e apostas. Um belo trabalho da atriz Angelina Jolie como diretora. O filme tem o espírito de produções que não vemos mais em Hollywood. Mesmo com estas qualidades, ele acaba se revelando longo demais, um pouco cansativo e, se você já tem uma bagagem no cinema, nada surpreendente e até com ideias repetidas.

A HISTÓRIA: Acima das nuvens, uma revoada de aviões se aproxima do alvo. Diversos homens em cada aeronave, e cada um deles em um posicionamento e com uma função bem definidos. Um destes homens é Louis Zamperini (Jack O’Connell), que após disparar com o bombardeiro, fica preocupado com o restante do grupo quando eles começam a sofrer a represália.

Em certo momento, ele começa a se lembrar de quando era uma criança, de tudo que os pais lhe ensinaram, do ambiente em que ele cresceu e, principalmente, que se não fosse pelo irmão mais velho, Pete (John D’Leo quando jovem, Alex Russell na vida adulta), provavelmente ele não teria sido alguém de destaque na vida. Pete incentivou Louis a correr, e o jovem atleta chegou até as Olimpíadas. Depois, na Segunda Guerra Mundial, ele passaria pelos maiores desafios imagináveis para sobreviver.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Unbroken): Como eu comentei anteriormente, se você tem uma certa bagagem assistindo à filmes, certamente não vai se surpreender com nada que Unbroken apresenta. Filmes anteriores já exploraram diversos pontos mostrados nesta produção. Assim sendo, ela não é surpreendente, mas também não pode ser considerada um filme ruim.

Verdade que achei ele longo demais, como comentei antes. Diversos momentos poderiam ter sido encurtados, especialmente no sofrimento dos amigos Louis, Phil (o ótimo Domhall Gleeson) e Mac (Finn Wittrock) no mar e nos embates quando Louis integra o grupo maior de americanos em campos de prisioneiros no Japão.

Também acaba sendo inevitável não lembrar de outras produções enquanto a história se desenvolve – o efeito surpresa, realmente, poucas vezes aparece nesta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Talvez o momento mais surpreendente seja o ataque que Louis, Phil e Mac sofrem no mar quando eles pedem socorro e acabam recebendo algumas rajadas de tiros.

Mesmo sendo pouco surpreendente e um bocado longo demais, acho que Unbroken tem um bom roteiro. Joel Coen, Ethan Coen, Richard LaGravenese e William Nicholson conseguiram adaptar a história de um homem comum que se superou em diversos momentos, surpreendeu e inspirou a muitos com o seu exemplo em uma produção com a cara de Hollywood. Dividida em diversos momentos da história do protagonista, o filme parte do clássico “momento decisivo” para fazer um retrocesso na biografia do retratado e recontá-la desde a sua infância.

Desta forma é que vemos como Louis se envolveu com o esporte e como, influenciado pelo irmão, ele levou a sério o desafio e tornou-se medalhista olímpico. A volta no tempo tem uma justificativa clara: mostrar como o protagonista encarnou ainda jovem o desejo de superação e de surpreender a todos que apostavam que ele seria “um nada”. Esse espírito seria fundamental no futuro, quando ele seria testado até o extremo pelos japoneses.

Então o filme mostra esse herói imperfeito – como qualquer modelo mortal – que dá uma guinada na vida e se destaca no esporte antes que os nazistas se revelassem inimigos que deveriam ser combatidos por boa parte do mundo, incluindo o país de Louis. Senti falta, contudo, já que estavam fazendo um apanhadão da vida dele, de vermos como ele chegou no Exército. Pequeno detalhe, verdade, mas que senti falta – certo, evidente que a convocação era obrigatória, mas acho que não custava mostrar o momento em que ele deu a entrada no Exército.

Depois de uma rápida repassada na infância e na juventude do protagonista, como se fosse o próprio Louis tendo na “iminência da morte” um filme dele próprio passando na cabeça, mergulhamos novamente no cenário de guerra. Primeiro nos céus, com os bombardeiros, depois no mar, quando eles sobrevivem de um choque na água da aeronave em outra missão e, por fim, em solo.

Para mim, foi inevitável não lembrar de outros filmes enquanto eu assistia a Unbroken. Para começar, a excelente direção de fotografia de Roger Deakins me fez lembrar de filmes de guerra e/ou drama de guerra feitos nos anos 1950 e 1960 como The Guns of Navarone, Paths of Glory e, principalmente, o clássico The Bridge on the River Kwai. Quando Louis começa a correr, impossível não lembrar um outro clássico, este bem mais “moderno”: Forrest Gump. Durante o estresse no mar, impossível não lembrar de Life of Pi. E para fechar a lista de lembranças, quando Louis está na fase Olimpíadas, recordei o clássico Chariots of Fire.

Se você, como eu, assistiu a estas produções, vai achar Unbroken um bocado previsível na fórmula e no conteúdo. Ainda assim, algo é preciso admitir: Angelina Jolie faz um bom trabalho na direção. Ela sabe explorar a adrenalina e o estresse dos momentos de batalha, fazendo a câmera tremer na medida certa sem tirar o foco sempre em algum ator. E nos momentos de embates mais “mano a mano”, especialmente entre Louis e o vilão Watanabe (o fraquinho Takamasa Ishihara), ela busca sempre a emoção dos intérpretes. Conhece o ofício, pois – ela teve um ótimo mestre, Clint Eastwood, de quem é amiga.

Então apesar de um bocado óbvio, o roteiro de Unbroken tem condução e focos bem definidos, é envolvente e sabe valorizar bem a progressão do heroísmo do protagonista. A direção de Jolie é coerente e competente, ainda que nada inventiva. Mas o destaque está mesmo no homem que inspirou este filme – ele sim, merece ter o próprio enredo contado e difundido. E também no ator que interpreta ele. Jack O’Connell convence e se entrega para o trabalho, o que faz todo o pacote negativo da produção ser minimizado.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Unbroken pré-estreou no dia 17 de novembro em Sydney e, no dia 25 daquele mês, entrou em cartaz nos Estados Unidos, no Canadá e na Espanha. A produção teria custado cerca de US$ 65 milhões para ser feita. Apenas nos Estados Unidos o filme conseguiu pouco mais de US$ 108 milhões e, no restante dos mercados em que já estreou, cerca de US$ 21,8 milhões. Ou seja, ainda está tentando se pagar – na média, um filme só começa a dar lucro depois que arrecada o dobro do que custou, já que boa parte do custo adicional surge com a distribuição do filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, o que mostra que o público tem aprovado o filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos: eles dedicaram 92 críticas positivas e 91 negativas para a produção, o que lhe garante aprovação de 50% e nota média de 6,1.

Hoje eu corri para entregar mais esta crítica para vocês. Mas faltou fazer outros comentários. Assim que possível, atualizarei o blog com eles. Até breve.

Agora sim, voltando. A minha leitura desta produção eu fiz antes. Mas claro que algo da história é importante acrescentar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Fica clara, em Unbroken, a influência de Louis Zamperini para dezenas de soldados norte-americanos que eram prisioneiros dos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. O embate pessoal dele com o algoz Watanabe simbolizava também o desejo daqueles soldados em ganhar a guerra, vencer o adversário, mostrar que eles eram mais resistentes que o oponente. No fim das contas, toda guerra é exatamente isso: uma queda de braços para ver que nação é mais forte, que sistema é mais viril. Vidas são sacrificadas no processo, mas no fim das contas um ou mais de um país recebe o prêmio e tem a sua(s) respectiva(s) economia vitaminada com a disputa que é coletiva, mas também entre indivíduos. Por tudo isso, é evidente, este filme também é ufanista e levanta a bandeira dos Estados Unidos. Neste sentido, dá para entender porque a produção chegou ao Oscar.

O nome forte desta produção, sem dúvida, é do ator Jack O’Connell. Ele faz um belo trabalho como o determinado Louis Zamperini. Além dele e dos atores já citados, vale destacar a participação de Garrett Hedlund como Fitzgerald, um dos soldados do campo de prisioneiros mantido por Watanabe – ele está em um papel menor do que estamos acostumados.

Da parte técnica do filme, além da ótima direção de fotografia de Deakins, vale destacar a trilha sonora marcante de Alexandre Desplat; a edição da dupla William Goldenberg e Tim Squyres; os figurinos de Louise Frogley; a equipe de 36 profissionais envolvidos com o departamento de arte; os 32 profissionais que trabalharam no departamento de som; os 13 profissionais que trabalharam nos efeitos especiais e as dezenas – me cansei de contar – profissionais envolvidos com os efeitos visuais. Sem estes dois últimos grupos, em especial, o filme teria sido quase impossível de ser feito – e, sem dúvida, não teria a qualidade visual que conferimos na telona.

Apesar de ser uma produção 100% dos Estados Unidos, Unbroken foi totalmente rodado na Austrália – cenas em estúdio e externas também.

Até o momento, Unbroken ganhou nove prêmios e foi indicado a outros 18, incluindo a indicação a três estatuetas do Oscar 2015. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o CFCA Award como “intérprete mais promissor” para Jack O’Connell no Prêmio da Associação de Críticos de Cinema de Chicago; para o prêmio de interpretação para Jack O’Connell no Prêmio do Círculo de Críticos de Cinema de Dublin; e para o prêmio de interpretação marcante para O’Connell no National Board Review. Em todas estas premiações o ator foi reconhecido também pelo trabalho em Starred Up. Unbroken também foi reconhecido por mais de um prêmio como um dos 10 melhores filmes de 2014.

O roteiro dos irmãos Coen, de LaGravenese e de Nicholson é baseado no livro de Laura Hillenbrand lançado em 2010 e que, antes, ficou conhecida pela obra Seabiscuit. Ela foi a primeira mulher a receber o prêmio inglês William Hill’s Sports.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: o Universal Studios comprou os direitos para a história de Louis Zamperini em 1957, mas foi apenas com a publicação do livro de Hillenbrand que o projeto tomou corpo para sair do plano apenas das intenções.

O ator Takamasa Ishihara manteve distância de Jack O’Connell para conseguir, nos momentos necessários, interpretar toda a frieza necessária para Watanabe praticar as suas crueldades contra o inimigo. Na cena mais tensa do filme, quando o protagonista levanta o vergalhão acima da cabeça, Ishihara chegou a vomitar no set como reação ao choque provocado pela cena.

A diretora Angelina Jolie não pode comparecer na pré-estreia do filme porque ela ficou enferma com uma varicela.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como Unbroken revela nos minutos finais, Louis Zamperini morreu no dia 2 de julho de 2014. Ou seja, ele faleceu antes do filme sobre a sua história estrear. Mas ele chegou a ver uma versão prévia do filme no notebook de Angelina Jolie quando ele estava internado no hospital.

Jolie e o diretor de fotografia Roger Deakins afirmaram que uma das grandes influências deles para Unbroken foi a produção The Hill, de 1965, dirigida por Sidney Lumet e protagonizada por Sean Connery.

Este é o terceiro trabalho de Angelina Jolie na direção. Ela estreou atrás das câmeras com o documentário A Place in Time, de 2007, e fez a primeira obra ficcional em 2011 com In the Land of Blood and Honey. Não assisti a nenhum dos dois. Agora, ela trabalha na pós-produção de By the Sea e já tem outro projeto no gatilho: Africa. Me parece que todas estas produções – ou quase todas – defendem questões bem ideológicas da atriz/diretora.

CONCLUSÃO: Uma das principais qualidades de Unbroken é que ele transporta o espectador para produções que eram frequentes nos anos 1950 e 1960. Filmes ufanistas, que procuravam valorizar a bandeira do país de origem – normalmente os Estados Unidos – e que tinham aquele saber de “homens viris e a suas bravuras”. Bem conduzido, com ritmo adequado, um protagonista que convence e uma direção de fotografia impecável, Unbroken é um filme que entrega o que promete. Mas para quem já assistiu a outros filmes do gênero, isso é pouco.

A história, como eu disse lá no início, acaba sendo longa demais – ela poderia ter sido encurtada meia hora, pelo menos. E apesar de ser incrível a resistência do personagem baseado em um homem real, não é exatamente surpreendente o que vai acontecendo no minuto seguinte por grande parte do filme. Isso, para o cinema, não é exatamente bom. Para resumir, um filme mediano, mas que tem as suas qualidades.

PALPITE PARA O OSCAR 2015: Interessante a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ter lembrado diversas vezes de Unbroken nas indicações de sua premiação este ano. Porque o filme, por mais que tenha qualidades – e as tem, como dito antes -, poderia perfeitamente ter sido esquecido pela Academia. Os votantes da maior premiação do cinema dos Estados Unidos já fizeram isso antes com produções melhores.

Mas o filme de Angelina Jolie – ela seria a razão principal das indicações, já que é um dos nomes fortes de Hollywood? – conseguiu figurar em três categorias do Oscar 2015: Melhor Fotografia, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som. Tudo bem que são apenas categorias técnicas. Ainda assim, sempre há uma forte concorrência nesta área. Mas Unbroken, é preciso dizer, chega com estas três indicações merecendo.

De fato, o trabalho da equipe de som – seja na mixagem, seja na edição – e do diretor de fotografia veterano Roger Deakins é o que a produção tem de melhor. Junto com a interpretação de Jack O’Connell, é claro. O filme pode sair vencedor em alguma destas categorias? Bem, ainda preciso assistir aos outros indicados, mas acho que a ele terá uma parada duríssima em Edição de Som, porque enfrenta a ficção científica Interstellar (esse gênero, tradicionalmente, vai muito bem nestas categorias) e a ótima edição de som de The Hobbit: The Battle of the Five Armies. Desconfio também que a edição de som de American Sniper deve ser muito boa… parada bem dura, pois.

Em mixagem do som, os adversários a serem batidos são Interstellar, mais uma vez, American Sniper e, um elemento forte e adicional na queda-de-braços, o drama musical Whiplash – que, ainda não o assisti, mas presumo que tenha uma mixagem de som perfeita. Unbroken, para mim, corre por fora nas duas categorias. E o mesmo acontece em Melhor Fotografia. Ida tem um trabalho primoroso neste quesito. Além disso, há os super indicados do ano Birdman e The Grand Budapest Hotel para serem batidos – o segundo, deste já posso falar, tem realmente uma fotografia excelente. Enfim, a vida de Unbroken está bem complicada. Mas acho que o filme e seus realizadores devem ficar felizes já por terem sido lembrados no Oscar.