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Star Wars: Episode VII – The Force Awakens – Star Wars: O Despertar da Força

O que é bom, o que nos traz ótimas lembranças, deveria ser sempre revisitado. Assim como é bom, depois de quatro décadas do início de uma das grifes mais famosas do cinema, retomar alguns personagens que foram lançados há tanto tempo. E é exatamente isso que Star Wars Episode VII: The Force Awakens faz. Alguns de vocês podem estar achando estranho eu comentar este filme agora, mas é que eu perdi de assisti-lo quando ele estreou nos cinemas. E como eu quis assistir, nesse final de ano, ao segundo filme da nova trilogia da saga, segui o conselho de um amigo e vi a este filme primeiro. Star Wars VII é realmente um deleite, especialmente para quem ainda tem a saga original (relativamente) fresca na memória.

A HISTÓRIA: Inicia com a frase clássica “Há muito tempo em uma galáxia muito, muito distante…” e a música de início da saga que marcou o cinema há exatos 40 anos. Episode VII inicia comentando que Luke Skywalker (Mark Hamill) desapareceu, e que na ausência dele, a sinistra Primeira Ordem surgiu das cinzas do Império. Esse grupo procura por Skywalker e não descansará até que o “último Jedi” seja destruído. Com o apoio da República, a General Leia Organa (Carrie Fisher) lidera a Resistência que, por sua vez, também procura por Luke. Na missão de encontrar o seu irmão, Leia envia para uma missão secreta o piloto Poe Dameron (Oscar Isaac), que busca no planeta Jakku informações sobre o paradeiro de Luke.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Star Wars VII): O meu amigo, o Félix, estava certo. Eu realmente precisava assistir a esse Episode VII antes de conferir, nos cinemas, ao novo Episode VIII. Desta vez, aqui no blog, eu também fiz diferente. Assisti a este filme, comecei a escrever sobre ele, mas só terminei o texto cerca de duas semanas depois… nesse meio tempo, conferi ao Episode VIII nos cinemas e também escrevi sobre ele, começando o texto sobre o novo filme logo depois de assisti-lo e terminando o seu conteúdo apenas hoje.

Ou seja, pela primeira vez na história desse blog – ao menos pelo que eu tenho lembrança -, eu termino agora de escrever sobre um filme que foi o penúltimo que eu assisti e com uma crítica escrita posteriormente ao do blog post que eu ainda vou publicar. Eita! Espero não ter dado um nó na cabeça de alguém, mas tenho que ser sincera sobre a ordem dos fatos. Assim, assisti ao Episode VII um dia antes de ver nos cinemas ao Episode VIII, mas finalizei o texto do Episode VIII antes de terminar este texto aqui do Episode VII.

A escolha pela ordem dos fatos tem a ver com o “frescor” das lembranças na minha mente. Em casa, estou escrevendo este texto e vendo novamente ao Episode VII, enquanto que para escrever a crítica do Episode VIII eu contei apenas com as lembranças do que eu vi no cinema. Comentado isso, vamos ao que realmente interessa: as minhas impressões sobre este primeiro filme da nova trilogia da saga Star Wars.

Eu gostei do início do filme, com aquela alusão clara da nave gigante de outras naves menores saindo dela relacionadas com o filme que inaugurou a saga e que foi lançado em 1977 – revisto por mim este ano e comentado neste texto. Mas admito que algo me incomodou um pouco. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na parte inicial do Episode VII, fiquei me perguntando: o que separa uma história que faz diversas homenagens para o filme original daquela história que parece carecer de imaginação?

Acredito que boa parte dos fãs curtiu as várias “homenagens” feitas pelo roteiro de Lawrence Kasdan, J.J. Abrams e Michael Arndt, inspirados nos personagens de George Lucas, à história original que apresentou a saga para o mundo em 1977. Digo isso pelas ótimas avaliações que esse filme recebeu e por verificar que, apesar do Episode VIII ter me parecido mais criativo e interessante, ele ter uma avaliação menos positiva que esse Episode VII. Entendo os fãs, mas eu fiquei um pouco incomodada com toda aquela “repetição” de padrões.

Nesse Episode VII temos, novamente, uma mensagem importante sendo escondida em um pequeno robô que, de forma leal, passa por diversos mal bocados até chegar a alguém de confiança que possa ajudá-lo. Mais uma vez, o vilão da história captura a um dos personagens importantes para tentar arrancar informações dele. No lugar do R2-D2, o robô da vez é o ágil BB-8 (interpretado por Brian Herring e Dave Chapman), e ao invés de um Darth Vader torturando uma Princesa Leia, temos Kylo Ren (Adam Driver) interrogando e torturando Poe Dameron.

A exemplo de Luke Skywalker, que contemplava os dois sóis no Star Wars Episode III, temos agora a nova heroína da saga, Rey (Daisy Ridley), também observando o anoitecer em sua cidade natal. Os dois personagens não foram criados por seus pais e tem curiosidade sobre as suas origens. Diversas semelhanças para um começo de história, não? Ao menos para o meu gosto, esse excesso de referências incomodou um pouco.

Mas descontado isso, devo dizer que esta história dirigida com esmero por J.J. Abrams cumpre totalmente o seu papel. Com um bom ritmo e resgatando a essência da trilogia original de George Lucas – aquela que encantou o público mundo afora nos anos 1970 e 1980 -, esse Episode VII volta a colocar a série de filmes com o selo Star Wars no caminho certo. Temos nesse Episode VII todos os elementos que encantaram as pessoas há algumas décadas.

O principal trunfo, possivelmente, destes filmes – e desse Episode VII – seja equilibrar os diversos elementos que fazem parte da vida de qualquer um de nós. Assim, nós temos drama, humor, ação, romance – ao menos sugerido – e suspense em um mesmo pacote. Um destaque deste filme, assim como do original de 1977, é a presença maior do humor e da ação na história. Esses elementos fazem com que esse Episode VII seja puro entretenimento. Um filme bem conduzido, com ritmo e que prende a atenção do público a cada segundo.

O interessante é que, ao mesmo tempo em que temos o resgate do “espírito” Star Wars nesse Episode VII e que vemos, literalmente, a personagens importantes da trilogia original voltando à tela, conferimos o protagonismo de novos personagens. São eles que trazem os elementos novos para a saga e que ajudam a renová-la, projetando um futuro interessante para Star Wars.

Os novos personagens apresentam várias semelhanças com os heróis que fizeram história na trilogia original ao mesmo tempo em que avançam na compreensão dos fãs sobre o significado da Força, dos Jedi e de tudo o mais que faz parte do universo de George Lucas. Rey resgata algumas características e valores da Princesa Leia, ao mesmo tempo em que ela se parece mais com o exemplo de mulher “empoderada” da atualidade.

O mesmo pode ser dito sobre Finn (John Boyega), personagem interessantíssimo que lembra um pouco o relutante e corajoso Han Solo da trilogia original. Poe Dameron recorda um pouco a Luke, mas apenas na parte da destreza como piloto – está claro que Poe não terá a importância de Luke para a história, não apenas pelo que vemos no Episode VII, mas especialmente pelo Episode VIII. E assim, de forma muito sutil, J.J. Abrams, George Lucas e companhia demonstram como a saga Star Wars tem muito para nos contar ainda e pode ser renovada com talento por muito tempo ainda.

As cenas de batalha aérea são o principal do filme em termos de sequências de ação neste Episode VII. Da minha parte, senti falta de mais disputas em solo, seja com sabres de luz ou não – isso eu fui ver mais apenas no Episode VIII. Os efeitos visuais e especiais, assim como o ritmo do filme, são impecáveis. Em relação à história, descontada a parte que comentei antes de um certo “excesso” de referências ao filme de 1977, gostei da forma com que o roteiro apresentou os novos personagens, resgatou o espírito dos filmes originais e promoveu reencontros importantes e emocionantes.

É muito marcante cada momento em que vemos em cena, novamente, personagens tão marcantes como Han Solo (Harrison Ford), Leia Organa (Carrie Fisher), Chewbacca (Peter Mayhew e Joonas Suotamo) e C-3PO (Anthony Daniels). Especialmente emocionante os momentos entre Han Solo e Leia Organa. O quanto não aconteceu entre os dois entre os episódios VI e VII? Espero que um dia esta história ainda seja contada. 😉

Este filme é mais concentrado na apresentação dos novos personagens e no início do embate entre a Primeira Ordem e a Resistência. É um filme também sobre a busca do herói – ou a ideia que temos dele – e sobre a busca particular de cada um sobre a sua essência e sobre o que lhe faz sentido. Alguns dos elementos fundamentais da saga original, pois, voltam à cena, mas de forma renovada e inteligente. Um filme divertido e que mostra, ao mesmo tempo, como sempre podemos escolher entre o bem e o mal. Ninguém nos leva por um caminho se não quisermos seguir aquela direção.

O novo vilão, neto de Darth Vader e filho de Han Solo e de Leia Organa, tem muitos elementos interessantes para tornar este um personagem forte na saga Star Wars. E para equilibrar com ele, que é um dos personagens centrais do “lado negro” da Força, temos personagens da estirpe de Rey, uma garota que percebe o “lado claro” da Força despertando em si neste Episode VII. Outros personagens como ela devem surgir, é claro, especialmente após o Episode VIII. Bom ver, neste dois novos episódios, como a saga Star Wars tem ainda muito gás para dar.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como eu disse antes, perdi esse filme quando ele passou nos cinemas. Mas, agora, prestes a ver ao Episode VIII, consegui uma versão em 3D do Episode VII para ver em casa. Realmente é um filme fascinante, muito bonito e que utiliza bem a tecnologia 3D a seu favor.

Han Solo e Leia Organa são os dois grandes retornos/presentes desse filme. Como é bom rever personagens tão “clássicos” e carismáticos novamente em cena! Os atores Harrison Ford e Carrie Fisher estão ótimos, tão bons e carismáticos como nos filmes originais – ou até melhores, após algumas décadas de experiência. Além deles, os destaques desta produção são os atores Daisy Ridley, John Boyega, Adam Driver e Oscar Isaac, as novas estrelas que apresentam os personagens da nova trilogia Star Wars. Todos estão muito bem, com protagonismo de Daisy Ridley e John Boyega.

Entre os atores coadjuvantes, vale citar o bom trabalho de Lupita Nyong’o como Maz Kanata; de Andy Serkis como o Supremo Líder Snoke; o de Domhnall Gleeson como General Hux; o de Gwendoline Christie como Capitã Phasma; e o de Ken Leung como Almirante Statura. Além deles, vale citar as participações pequenas, mas muito marcantes, de Max von Sydow como Lor San Tekka e de Mark Hamill como Luke Skywalker. J.J. Abrams sabe alimentar muito bem, aliás, a expectativa até revermos ao grande Mark Hamill em cena. A sequência final é muito marcante.

O diretor J.J. Abrams faz um belo trabalho na direção. Nada realmente inovador, mas ele segue bem a cartilha de George Lucas, de Irvin Keshner e de Richard Marquand, os diretores da trilogia original. Além do belo trabalho na direção, Episode VII se destaca, entre os aspectos técnicos, pela marcante e inesquecível trilha sonora de John Williams; pela direção de fotografia de Dan Mindel; pela edição de Maryann Brandon e de Mary Jo Markey; pelo design de produção de Rick Carter e de Darren Gilford; pela decoração de set de Lee Sandales; pelos figurinos de Michael Kaplan; e pelo trabalho decisivo e coletivo da equipe de 16 artistas responsáveis pela Direção de Arte; dos cerca de 170 profissionais envolvidos com o Departamento de Arte; dos cerca de 100 profissionais responsáveis pelos Efeitos Especiais e pelo trabalho do espantoso contingente de cerca de 1.250 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais desta produção.

Star Wars Episode VII estreou no dia 14 de dezembro de 2015 em uma première em Los Angeles. No dia seguinte, o filme teve première em Jakarta e, no dia 16 de dezembro, em Sydney. No Brasil, o Episode VII estreou no dia 17 de dezembro de 2015.

Vocês vão me perdoar, mas desta vez eu não vou citar curiosidades sobre esta produção. Até porque a lista é beeeeem grande. Quem quiser conferir curiosidades sobre o Episode VII, pode dar uma conferir em alguns (ou todos) dos 380 tópicos listados por aqui pelo site IMDb.

Star Wars Episode VII foi indicado em cinco categorias do Oscar, ganhou 57 prêmios e foi indicado a outros 123. O filme não ganhou nenhum Oscar, mas entre as premiações que levou para casa, destaque para a de Melhores Efeitos Visuais no Prêmio Bafta; o de Melhor Trilha Sonora para Mídia Visual para John Williams no Grammy; e o Trailer de Filme Mais Visto no YouTube em 24 horas no Guinness World Record Award.

Episode VII foi rodado na Irlanda, na Islândia, no Reino Unido, nos Emirados Árabes e nos Estados Unidos. Apesar de ser rodado em todos esses países, Star Wars The Force Awakens é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

De acordo com o site Box Office Mojo, Star Wars Episode VII faturou quase US$ 936,7 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 1,13 bilhão nos outros países em que o filme estreou. Ou seja, no total, superou a marca de US$ 2 bilhões.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,0 para Star Wars Episode VII, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 350 textos positivos e apenas 28 negativos para esse filme, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,2. Especialmente o patamar das notas chama a atenção – bem acima da média para os dois sites.

CONCLUSÃO: Um filme que coloca lado a lado ótimos personagens da trilogia anterior da saga e novos nomes que vão renovar Star Wars nesta nova fase de filmes. Como manda o figurino dos filmes Star Wars, este Episode VII tem muitas batalhas no ar e na terra, confrontos marcantes, equilíbrio entre ação, emoção e comédia e, claro, personagens interessantes. Novamente a disputa entre as forças do bem e do mal está no centro na narrativa, assim como o esperado reencontro de alguns personagens. Para os fãs, não há como não se arrepiar com algumas cenas. Para os demais mortais, este filme será, pelo menos, puro entretenimento. Sob uma ótica ou sob a outra, ele funciona muito bem. Um belo retorno da saga.

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Saul Fia – Son of Saul – O Filho de Saul

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A angústia não para nem por um segundo e parece não ter fim. Mais que uma grande história, Saul Fia nos apresenta uma grande técnica. O cinema ao serviço de mergulhar o espectador no caos e no extremo da crueldade de uma fase tenebrosa da nossa história. Demorei para assistir a este filme, o vencedor na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2016. Mas apesar de toda a saraivada de elogios e de críticas positivas que precederam esta experiência, ela não deixou de ser impactante ou diminuiu por causa disso.

A HISTÓRIA: Começa explicando a expressão alemã Sonderkommando. Ela foi utilizada nos campos de concentração nazista para designar prisioneiros com status especial, que não ficavam junto com os demais. Normalmente eles eram mortos após alguns meses de trabalho. Em um cenário embaçado, surgem alguns sonderkommando, com Saul (Géza Röhrig) na frente deles. Junto com os demais homens com um X vermelho nas costas, ele ajuda a organizar o fluxo de prisioneiros que acabou de chegar em um trem. Eles são conduzidos até um local onde tiram as roupas e, depois, confinados, são exterminados. Mas uma das vítimas acaba chamando a atenção de Saul que, a partir daí, empreende uma cruzada para dar um fim digno para aquele garoto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Saul Fia): Sempre sou da opinião que quando uma produção do cinema é muito elogiada, a análise do espectador já inicia um tanto “viciada” e/ou comprometida. Eu não apenas sabia, antes do Oscar 2016, que este filme era o franco favorito, como acompanhei ele ganhando praticamente todos os prêmios do ano ao qual ele concorreu – pelo menos os principais.

Ainda assim, sempre faço um esforço de esquecer esse tipo de informação quando vejo um filme muito premiado ou elogiado. Fiz isso desta vez, e fiquei simplesmente surpresa com o que eu vi. Mais que a história, que tem sim o seu viés inovador, Saul Fia me surpreendeu pela narrativa e pela técnica do diretor László Nemes.

O mexicano Alejandro González Iñarritu foi premiado dois anos seguidos como Melhor Diretor no Oscar por seu estilo de filmar sem cortes – ou quase sem cortes, no caso do último The Revenant (com crítica neste link). Mas, francamente, achei a direção de Nemes neste Saul Fia mais inovadora e interessante do que o próprio trabalho de Iñarritu. O problema é que Hollywood não costuma premiar diretores de outros países que não estão radicados na meca americana do cinema. Uma pena, porque Nemes merecia.

Desde o primeiro minuto desta produção e até o final a câmera que nos apresenta a história está quase colada nas costas do protagonista ou, quando isso não é assim, ela está muito próxima. Não temos praticamente planos em que ele aparece com uma certa distância ou em perspectiva. Não. A câmera está sempre muito próxima dele, muitas vezes deixando a ação que transcorre em volta como quase um “pano de fundo”. Esta é uma das grandes qualidades desta produção.

O que você sentiu estando por boa parte da produção “nas costas” de Saul? No início, certamente, estranheza. Afinal, não é comum um filme assumir aquela ótica. Depois, junto com a estranheza, provavelmente confusão. Nem sempre a narrativa que ocorre ao redor de Saul é clara ou evidente. Muito fica em segundo plano, e os detalhes fazem a diferença. Além disso, provavelmente você sentiu aflição e desconforto. A história em si provoca isso, além de outros sentimentos, mas a forma com que a história é contada reforça e amplia a angústia que eu comentava lá no início.

Saul e os outros sonderkommando passam os dias encaminhando prisioneiros nazistas para a morte. Por acaso, apenas por uma circunstância qualquer, praticamente de forma aleatória, não é Saul e seus companheiros que estão do lado das vítimas que, depois de exterminadas, viram pilhas de corpos que devem ser queimados ou jogados em valas.

Depois de encaminhar mais um comboio para a morte, seguindo sempre um mesmo “modus operandi”, Saul parece reconhecer uma das vítimas que não morre junto com as outras no gás letal. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O jovem é morto na sequência, asfixiado por um militar judeu, e segue para uma autópsia. Aí começa a via crucis de Saul para tentar dar um fim honrado para o garoto que ele diz ser o seu filho.

Primeiro, ele tenta negociar com o médico Miklos Nyiszli (Sándor Zsótér) para que ele não faça a autópsia. Afinal, segundo o que prega o judaísmo, o corpo da pessoa morta deve ser preservado. Segundo os preceitos seguidos pelos judeus, ele também não pode ser cremado e nem visto por qualquer pessoa após a morte. Finalmente, as orações fúnebres devem ser recitadas em hebraico por um rabino ou por um membro do Chevra Kadisha (“sociedade sagrada”, composta por homens e mulheres dedicados que executam as preparações dos corpos dos mortos). Este texto é bem completo sobre tudo que deve ser feito após a morte de um judeu.

Depois de negociar com o médico, sem muito sucesso – tanto que ele acaba “furtando” o corpo do jovem quando tem uma oportunidade -, Saul começa a correr atrás de um rabino para fazer as orações fúnebres para o seu filho (“interpretado” por Georgö Farkas e por Balázs Farkas). Como ele não encontra um rabino que tope enterrar um corpo – uma ideia que realmente parece maluca e impossível naquele contexto -, Saul parte para se “infiltrar” em outro grupo para encontrar o rabino Mietek (Kamil Dobrowolski).

Como era previsto, esta tentativa de Saul de convencer Mietek a ajudá-lo não termina bem. Mas o protagonista se safa, a tempo de buscar um outro rabino que possa lhe ajudar. Com os alemães perto de perderem a guerra, eles apressam o envio de prisioneiros para o extermínio, o que faz a rotina de Saul e seus colegas que trabalham de dia não terminar à noite. Eles devem dobrar os esforços para dar conta da nova leva expressiva de vítimas.

Como não é possível matar todos nas câmaras de gás com monóxido de carbono, os nazistas passam a matar as pessoas com tiros e jogá-las diretamente nas covas. Na parte mais caótica do filme, inclusive os sonderkommando viram alvo dos tiros e da confusão. Mesmo no meio daquele caos Saul não desistiu de enterrar aquele que ele diz ser o seu filho. Mas antes disso, Saul participa de uma ação de alguns judeus que tentam usar pólvora para explodir alguns nazistas e, com isso, tentarem fugir.

Depois das pessoas serem mortas nas câmaras de gás e seus corpos incendiados, os sonderkommando vasculham nas roupas das vítimas atrás de dinheiro, joias, relógios e demais peças valiosas. Alguns conseguem esconder algumas peças que, depois, serão utilizadas como moeda de troca por “favores” – como o guarda que deixa os judeus se aproximarem das mulheres para uma “rapidinha”. Saul acaba fazendo esse papel, do intermediário, mas durante a noite caótica ele perde a pólvora que Ella (Juli Jakab) lhe havia passado.

Mesmo no meio daquela confusão extrema, Saul não desiste de encontrar um rabino e, de forma um tanto confusa, ele acha que encontrou um em um prisioneiro exausto e barbudo (Todd Charmont). A partir daquele encontro não demora muito para o filme acabar após o enfrentamento entre os judeus desesperados por alguma chance de fuga e os nazistas acelerando o extermínio de quem ainda estava vivo antes que os inimigos chegassem nos campos de concentração e pudessem encontrar sobreviventes.

O confronto começa no dia seguinte e, mesmo com os tiroteios em andamento, Saul tenta enterrar o adolescente. Sem sucesso, ele acaba empreendendo fuga com o corpo nos ombros e, no caminho, descobre o que os seus companheiros já suspeitavam: o prisioneiro não era um rabino. Ao tentar cruzar um rio, Saul perde o corpo do jovem e parece desistir de seguir lutando. Mas o seu amigo Abraham Warszawski (Levente Molnár), que parece conhecer Saul antes daquela loucura, volta para ajudá-lo a sair do rio. O grupo acaba se escondendo em um celeiro, mas não por muito tempo.

Se o dia de Saul parece não ter fim – e, de fato, ele avança pela noite e tem o seu desfecho apenas no dia seguinte -, o espectador também não consegue desgrudar os olhos da narrativa de Nemes. A técnica utilizada por ele é magistral e casa muito bem com a história que ele está contando – o roteiro é assinado pelo diretor e por Clara Royer. Os personagens não são de muitas falas, especialmente Saul, mas a ação é constante, assim como a angústia e o horror.

Impossível não se colocar no lugar de Saul – por mais que a ideia dele de dar um fim digno e dentro do que prega a religião para aquele jovem pareça absurda, nos compadecemos dele e acompanhamos os seus passos de perto. O ator que vive Saul é simplesmente genial, apresentando uma interpretação soberba. Conseguimos acompanhar cada sentimento dele em suas micro-expressões e, especialmente, em seu olhar. Com a câmera boa parte do tempo nas costas dele, é como se estivéssemos vigilando os seus passos, com um lado “bem definido” para cada um de nós.

Para mim, por mais que já foram feitos e lançados muitos filmes sobre o Holocausto – e muitos deles bem narrados e conduzidos -, nenhum outro foi tão contundente em mostrar a crueldade, a crueza e o absurdo dos campos de concentração do que este filme.

Além da técnica narrativa impressionante de Nemes, foi uma grande sacada dele e de Clara Royer ter contado esta história sob a ótica de judeus que eram obrigados a trabalhar para os nazistas na infame função de ajudá-los a matar os seus similares. Impactante e marcante. Não imagino ninguém encarando aquela realidade da mesma forma depois de assistir a esta produção.

Agora, vou comentar o que, para muitos, deve ser uma dúvida bastante presente sobre uma aspecto importante deste filme: afinal, aquele jovem era ou não o filho de Saul? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Achei incrível quando o roteiro de Nemes, através do personagem de Abraham, questiona isso. O amigo de Saul insiste em dizer que Saul não tem filhos e que aquele jovem não pode ser o seu filho. Saul responde que ele é um filho que ele teve fora do casamento. Mas, ainda assim, paira a dúvida no ar – especialmente porque Abraham insiste em contradizer o amigo.

Da minha parte, acho que dificilmente Abraham insistiria neste ponto se ele não estivesse convicto de que Saul não era o pai do garoto. Mas então por que o protagonista insistiria tanto em enterrar aquele jovem e em dizer que ele era o seu filho? Para mim ele viu a oportunidade de dar um fim digno para alguém, de pelo menos salvar uma alma, e colocou toda a sua energia nisso. Por isso mesmo acho que não é tão importante se aquele era realmente filho de Saul ou não. A beleza do gesto do protagonista é o que importa, sendo por “causa própria” ou não.

No fim das contas a mensagem que este filme passou para mim foi essa. De que mesmo em meio a todo o terror, à toda ameaça e desesperança, é possível fazer um gesto bom para alguém, buscar fazer o certo apesar dos pesares. Saul é um homem obstinado e ele percebe que, mesmo que ele não tiver chances de sobrevivência, ele pode fazer um grande gesto final por alguém – sendo esta pessoa ou seu filho ou não. Grande filme. Marcante e merecedor de todos os seus prêmios, tanto pela contundência da história quanto e, principalmente, pela inovação narrativa.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Normalmente eu procuro acompanhar as estreias da semana nos cinemas em que estou – como, agora, no Brasil e, antes, na Espanha. Outras vezes, quando consigo publicar duas críticas na semana, busco também produções que foram indicadas por vocês, caros leitores e leitoras aqui do blog, ou algum outro filme que eu tenho curiosidade de assistir e que foge das duas regras anteriores. Nesta semana, como nenhuma produção me chamou muito a atenção entre as estreias no Brasil, resolvi, finalmente, colocar em dia a curiosidade que sempre tive sobre Saul Fia. Quando o filme estreou no Brasil, não tive como parar para assisti-lo, por isso aproveitei esta semana sem grandes destaques nos cinemas para conferi-lo.

Ainda há alguns filmes do Oscar 2016 que eu não assisti, por isso não se espantem se em outra semana “fraca” nos cinemas eu não voltar a eles.

Depois de escrever a crítica acima, fui buscar algumas entrevistas com o diretor Lászlo Nemes para sabe se eu estava falando uma bobagem muito grande ou não na parte final do meu texto. Pois bem, achei entrevistas interessantes neste link, neste outro e, finalmente, neste aqui. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No primeiro, em português, Nemes comenta, ao explicar o seu processo criativo, que ele buscou uma história muito simples e que ele se interessou “mais (com) a ideia de num lugar onde se queimam pessoas haver um tipo que quer enterrar aquele que julga ser o seu filho”. Perceberam? Não há certeza aí, apenas a convicção de Saul – que pode estar equivocado.

Na entrevista de Nemes para o Jornal Tornado ele comenta também sobre as dificuldades que ele teve em financiar o filme. Ninguém queria bancar o projeto. Então fico feliz que ele passou o rodo e ganhou praticamente todos os prêmios possíveis em 2016. Com isso ele prova que cinema de qualidade deve ser corajoso. Espero que o êxito de Nemes facilite os seus próximos projetos. Ele merece.

Na entrevista para o site Mubi, Nemes fala algo interessante: “Meu filme não é sobre sobrevivência, é sobre a realidade da morte. A sobrevivência é uma mentira, porque ela era uma exceção”. Perfeito. Um realizador que não soube apenas construir bem a sua obra, mas que tem olhar crítico e sabe do que está falando. Em outra parte da entrevista ele fala sobre a questão central do filme, na ótica dele, que não é a sobrevivência física, mas a sobrevivência interior. Ou seja, isso também bate com o que eu dizia antes. Pouco importa se o rapaz é ou não o filho de Saul, mas o importante é que ele tem uma “causa” justa e bela para “lutar”. Aí estaria a sobrevivência interior falada por Nemes? Eu acredito que sim. E esta leitura faz o filme ser ainda mais genial.

A visão e a direção de László Nemes é simplesmente fundamental para Saul Fia. Sem ele o filme simplesmente não existiria de forma tão magistral. Mas depois de Nemes é preciso tirar o chapéu para Géza Röhrig. Que ator, meu Deus! Ele deixa várias outras interpretas no chinelo. Impressionante em todos os momentos e, para mim, especialmente nos minutos finais. A liberdade é uma questão de ponto de vista e, no final desta história, isto fica evidente. Depois de todo aquele pesadelo ele e os demais finalmente serão livres. Enquanto o garotinho estava aterrorizado, Saul estava livre e foi capaz de sorrir. Afinal, ele tinha feito tudo que era possível.

Géza Röhrig é o grande nome deste filme junto com Nemes. Mas é preciso citar o trabalho de outros atores que também deram um show nesta produção: Levente Molnár está ótimo como o amigo de Saul, Abraham Warszawski; Urs Rechn como o oberkapo (chefes dos sonderkommando) Biederman, chefe do grupo de Saul; Todd Charmont como o prisioneiro barbudo que Saul acredita ser um rabino; Jerzy Walczak muito bem como o rabino Frankel, que tenta convencer o protagonista a apenas rezar e não tentar enterrar o seu “filho”; Sándor Zsótér como o Dr. Miklos Nyiszli; e outros atores, como Marcin Czarnik, Kamil Dobrowolski e Attila Fritz como outros judeus do sonderkommando que apareceram mais; além de Uwe Lauer e Christian Harting como chefes nazistas que tinham contato direto com aquele grupo de judeus “de confiança”.

O filme tem muitas qualidades técnicas. Merece uma reverência especial o excelente trabalho de Nemes e de seus assistentes na direção, assim como o departamento da equipe elétrica e de câmeras. No total, 11 pessoas estiveram divididas na função de operador de câmera, assistente de câmera, operador de vídeo, eletricista e afins. Equipe de tirar o chapéu. Também merecem aplausos os nove profissionais envolvidos com o departamento de som – um elemento fundamental para este filme funcionar. Finalmente, vale citar o bom trabalho do diretor de fotografia Mátyás Erdély e do editor Matthieu Taponier.

Saul Fia estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2015. Até maio de 2016 o filme passou por nada menos que outros 29 festivais mundo afora. Nesta trajetória a produção acumulou 46 prêmios – incluindo o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira – e foi indicada a outros 38. Entre os prêmios que recebeu, além do Oscar, eu destacaria o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira; o Grande Prêmio do Júri e outros três prêmios no Festival de Cinema de Cannes; o National Board of Review de Melhor Filme em Língua Estrangeira e o Independent Spirit Award de Melhor Filme Internacional.

Esta produção teria custado US$ 1,65 milhão e faturado, apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, US$ 1,77 milhão – não há informações sobre o resultado do filme em outros mercados.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Todas as cenas externas foram filmadas com luz natural. Saul Fia foi rodado totalmente na Hungria (nas cidades de Budapeste e Rácalmás e no Rio Danúbio, perto de Budapeste) em apenas 28 dias. A produção de 107 minutos é composta a partir de 85 takes – nenhum com mais de quatro minutos.

Esta produção é 100% da Hungria. Aliás, este é o primeiro filme húngaro a ganhar um Globo de Ouro como Melhor Filme em Língua Estrangeira e o segundo a levar um Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira – o anterior tinha sido Mephisto, de 1981.

Saul Fia bebe de diversas fontes históricas, apesar de ser um filme ficcional. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). A história, por exemplo, transcorre durante um dia e meio entre os dias 6 e 7 de outubro de 1944 – quando uma revolta de sonderkommando realmente aconteceu em Auschwitz-Birkenau.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção. Ainda que seja uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site, achei que a nota poderia ser maior – afinal, o filme realmente é diferenciado. Ela estar neste patamar apenas demonstra que boa parte do público ainda não está disposta a ver filme inovadores – elas ficam mais “confortáveis” com produções que seguem um padrão normalzinho. Uma pena. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 184 críticas positivas e apenas oito negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,9 – esta nota sim, eu gostei. Muito alta para o padrão do site.

Antes de Saul Fia, László Nemes tinha dirigido apenas outros três títulos, todos curtas, entre 2007 e 2010. Ou seja, esta produção marca a estreia dele em longas. Impressionante. Sem dúvida alguma Nemes é um nome a ser acompanhado. O protagonista desta produção, amigo pessoal de Nemes, também é praticamente um estreante. Ele tinha apenas participado, em 1999, como ator na minissérie para a TV Eszmélet. Ou seja, Saul Fia marca a estreia de Géza Röhrig no cinema e em longas. Que dupla!

Se tudo der certo, até o final desta semana, finalmente, eu vou conseguir estrear uma seção aqui no blog que há tempos estou imaginando. Tenho essa ideia na cabeça há bastante tempo e espero estreá-la nos próximos dias. Espero que vocês gostem. 😉

CONCLUSÃO: Eis uma grande experiência de cinema. Como eu disse antes, mais que uma história marcante, Saul Fia nos apresenta uma técnica diferenciada e que potencializa a experiência de quem assiste. Muito já foi falado sobre o Holocausto, mas não lembro de outro filme que tenha colocado o espectador sob a ótica de uma vítima com olhar diferenciado do horror do extermínio judeu. O diretor László Nemes dá um banho de técnica cinematográfica enquanto o protagonista Géza Röhrig dá um show de interpretação. Um filme que, diferente do que o tema pode sugerir, foge do óbvio e não deixa ninguém indiferente. Sem dúvida alguma, uma grande peça de bom cinema.

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Youth – La Giovinezza – Juventude

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Você está em um local feito para o prazer, para o relaxamento, idílico e no qual é perfeitamente identificável a noção exata do peso da passagem do tempo. Youth é um filme que trata sobre isso, em especial sobre o processo de envelhecimento e sobre a constante e interminável comparação entre a juventude e a velhice. Quando pensamos nisso, refletimos sobre a vida mesma, nossas escolhas, as casualidades, o que fizemos e o que fizeram com a gente. Francamente, mais um grande filme do diretor Paolo Sorrentino. Para mim, um dos nomes mais interessantes do cinema mundial a ser acompanhado.

A HISTÓRIA: Começa com uma cantora e sua banda tocando uma música pop sobre amor. A câmera está fixa na cantora, mas ela e o restante da banda giram em um cenário em que pessoas parecem se divertir. Em seguida aparecem algumas pessoas, como uma mãe caminhando de mãos dados com a filha e o diretor Mick Boyle (Harvey Keitel) olhando tudo atentamente. Corta. No dia seguinte, o maestro Fred Ballinger (Michael Caine) conversa com um dos organizadores de eventos (Alex Macqueen) e festas da rainha da Inglaterra. Eles conversam sobre as razões de Ballinger sempre passar férias naquele local, na Suíça.

O emissário da rainha convida ele para uma apresentação para o Palácio de Buckingham. Perto deles está o ator Jimmy Tree (Paul Dano), atora que está por ali pesquisando para os eu próximo papel. Ballinger diz que não vai aceitar o convite. Na sequência, começamos a ver toda a dinâmica daquela ambiente e conhecer melhor as pessoas que estão por ali movidas por diferentes razões.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Youth): O diretor italiano Paolo Sorrentino tem um jeito todo peculiar de contar uma história. A visão dele de mundo, de narrativa, do cinema e da vida é bastante diferenciada e, apenas por isso, acho o diretor e roteirista admirável. Para mim, ele é um dos grandes diretores de sua geração – ele tem 46 anos – que merece ser acompanhado.

Antes deste Youth eu assisti, do diretor, os filmes This Must Be The Place (comentado aqui) e o magnífico The Great Beauty (com crítica neste link). Parece que, a exemplo do que aconteceu com Almodóvar em uma certa fase, Sorrentino vive uma boa safra. Seus dois últimos filmes foram os melhores. E quando falo dos dois últimos, incluo este Youth.

Para quem já assistiu a um bocado de filmes, como eu, impossível ver a Youth e não se lembrar um pouco de Fellini. Ainda que o estilo de Sorrentino, claro, é mais “condizente” com o nosso tempo. Ou seja, há fantasia sim e até autorreferência nos filmes dele, mas também há uma boa valorização de assuntos que são importantes para o final dos anos 1990 e especialmente para estes anos 2000 e pouco, como a beleza das imagens e das proporções, a harmonia entre pessoas e arquitetura e a música, uma trilha sonora importante e bem presente.

Passada essa introdução, falemos propriamente de Youth. Neste filme, a reflexão maior é sobre a passagem do tempo. Sobre as características das pessoas quando elas são jovens, que tipo de olhar, percepção, sensibilidade elas tem, e o que acontece quando elas envelhecem – muda o olhar, a percepção e tudo o mais. Em mais de uma situação Sorrentino trabalha o contexto, em especial, e também os seus personagens com frieza.

Ele é irônico ao mostrar aquele “paraíso idílico” de férias na Suíça como quase um local de linha de produção, com diferentes “corpos” e pessoas de diferentes idades seguindo um mesmo fluxo para sessões de massagens, banheiras, piscinas, saunas e os demais locais feitos para todos relaxarem. Mas eles realmente encontram o que procuram? Isso seria possível? Sorrentino parece nos deixar claro, em todos os momentos, que cada pessoa em cena tem muito mais peso, gravidade, desejos e sentimentos do que seria possível resumir em um filme.

Ainda assim, ele deixa claro também outro debate importante, além da passagem do tempo: afinal, o que deixamos de legado na nossa vida? Neste sentido, não por acaso temos como protagonista um grande compositor e um grande diretor de cinema. Em diversos momentos fica sugerido que a obra que eles deixaram acaba sendo mais importante do que o que eles conseguiram fazer de suas vidas.

Isso especialmente em relação a Ballinger. Parece evidente que ele conseguiu deixar um legado de composições muito mais “feliz” e representativa para as outras pessoas do que o que ele conseguiu “acumular” e vivenciar no final de sua vida. Outro personagem central nessa história, o grande amigo de Ballinger, o diretor Boyle, também vive o seu momento “pós-glória”. Ele acredita que ainda pode fazer grandes filmes e escreve o roteiro da produção que ele acha mais importante, o seu legado, mas as outras pessoas tem uma visão bem diferente da dele.

Esse choque entre a visão que as pessoas tem de si mesmas e do que elas fizeram quando chegam na velhice e a forma com que as outras pessoas as encaram é muito representativo na vida real e bem explorado em Youth. Como o filme trata disso e da vida “como ela é”, há diversas pequenas reflexões muito interessantes.

Por exemplo, a diferença de olhar que um(a) filho(a) tem de seu pai e de sua mãe se compararmos esta leitura com a experiência que o pai e a mãe tiveram de si mesmos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Isso fica evidente neste filme com a leitura bastante crítica que Lena Ballinger (Rachel Weisz) faz de seu pai e da relação que ele tinha com a mãe dela e o que de fato ele viveu com a esposa – e que fica claro quando ele vai visitá-la na instituição em que ela está internada. Ele comenta com a esposa coisas que só eles sabem e que os filhos nunca vão saber, porque são detalhes da convivência e da intimidade de um casal que ninguém mais fica sabendo.

Essa diferença de olhares e de leituras que as pessoas fazem está evidente também em diversos outros momentos do filme. Achei muito interessante, por exemplo, como Youth trata do preconceito que todos nós temos com algum perfil de pessoa. Por exemplo, a expectativa ruim que fazemos da garota (Emilia Jones) que faz birra com a mãe, ou a leitura que Tree faz da Miss Universo (Madalina Diana Ghenea) antes mesmo dela falar qualquer coisa, ou de todas as pessoas em relação à garota (Gabriella Belisario) que faz programas naquele local chique da Suíça ou de Lena Ballinger em relação ao professor de alpinismo Luca Moroder (Robert Seethaler).

Sorrentino mostra claramente a expectativa ruim e premeditada que as pessoas fazem destas pessoas e de que forma estas leituras estão equivocadas. Todas merecem ser respeitadas e ouvidas, merecem crédito, e não desprezo premeditado. A garota que faz birra com a mãe é a mesma que ao se encontrar com Tree lhe surpreende ao fazer uma leitura profunda de um filme que ele comenta que “ninguém assistiu”. Sim, ela não viu ao blockbuster dele que todos citam.

Ela comenta sobre outro filme e a respeito de uma cena envolvendo um pai e o seu filho e que traz uma de diversas leituras interessantes deste Youth: de que ninguém se sente realmente capaz para fazer grandes coisas, inclusive para ser pai ou mãe. Todos, parece, estão em permanente aprendizado, em uma escola sem fim. E, mesmo assim, não devemos nos acovardar de fazer o que achamos que faz sentido.

O mesmo Tree é surpreendido com a Miss Universo. Ela, diferente da garota que gritou com a mãe, cita o filme blockbuster do ator. No primeiro encontro entre eles, a Miss Universo comenta que quer ser atriz, e Tree claramente despreza os comentários dela. Até que ela surpreende a todos matando a charada sobre ele. A ironia que ele destilou contra ela estava, na verdade, carregada de frustração. Ela acaba com ele em um comentário. Mais um sinal de que não devemos desprezar as outras pessoas sem ao menos darmos a chance de conhecer melhor as suas vastas e complexas histórias.

Lena inicialmente acha Luca um tanto estranho, talvez um tanto “bruto”, sem refinamento, como parecia ser o caso de seu ex-marido Julian (Ed Stoppard). Quando eles se encontram, Lena não parece ter nenhuma atração por Luca. Mas quando ela deixa ele se aproximar, acaba conhecendo a sensibilidade e a forma dele de encarar o mundo que ela não poderia imaginar no primeiro contato. E, finalmente, todos desprezam a garota de programa – ou olham para ela apenas como um “pedaço de carne”. Mas Boyle não pensa assim e resolve sair com ela de braços dados para mostrar que ela merece ser vista com a mesma dignidade que qualquer outra pessoa.

Além destes pontos, Youth tem outras reflexões, como a importância da amizade – talvez a única riqueza que alguém leve consigo até a velhice -; da família, e de se fazer o que se ama até o final (seja um filme, seja pensar nos sons da vida como uma trilha sonora). Também percebemos a limitação que todos temos – ou teremos – com a passagem do tempo, como o esquecimento (ou a dificuldade de manter as próprias memórias), as limitações físicas e de oportunidades. Poucos acreditam que “um velho” ou “uma velha” podem ainda produzir algo útil ou incrível – como um ótimo filme. Pena que a nossa pense assim.

Ah, e claro, como o nome da produção mesmo sugere, este filme é uma grande reflexão sobre a força da juventude. De como todos e a sociedade em geral valoriza a beleza dos jovens, e de como parece que esta época da vida sempre é vista como a melhor pela maioria – tanto que os protagonistas deste filme estão sempre lembrando de suas próprias juventudes e de uma garota pela qual os dois eram apaixonados. Mas será que a juventude é tudo isso mesmo ou ela é idealizada? Esta é uma das questões apontadas por Youth – francamente, acho que a juventude é fantástica, mas que nada melhor do que amadurecer e envelhecer bem.

Tive muitas dúvidas sobre que nota dar para esse filme. Enquanto eu o assistia, pensei na nota abaixo. Mas admito que o final me fez ficar em dúvida se eu deveria realmente dar a nota máxima para Youth. Além disso, claro, não dá para negar que Sorrentino tem grandes pretensões com este filme. Isso também seria um motivo para, talvez, não dar a nota 10 para Youth.

Mas a verdade é que eu achei o filme envolvente, muito bem feito, tecnicamente falando, e com um roteiro incrível. Além de grandes atores em interpretações irretocáveis. Então, por que não dar a nota máxima? Sim, apesar do filme ser um tanto pretensioso, acho que ele consegue fazer uma entrega excepcional. Especialmente pelos temas que ele levanta, pelo olhar crítico que ele lança para a compreensão da sociedade sobre a velhice e sobre a passagem do tempo. Gosto também da forma com que ele homenageia as artes e as amizades, assim como o respeito que ele tem com cada um dos personagens em cena. Isso é algo raro no cinema e, por isso mesmo, tão belo.

Também as mensagens que o filme deixa são muito significativas. Primeiro, de que para fazer arte – e acho que bem qualquer coisa – é preciso vivenciar, ter experiências. Depois, que o importante da vida e o que levamos conosco é justamente aquilo que vivemos – e não o que acumulamos de bens, por exemplo. Finalmente, conforme nos comenta Tree quando está “submerso” no personagem de Hitler, de que sempre é preciso fazer uma escolha entre o terror e o desejo – e que ele, após observar os outros, resolve não dar atenção para a “insignificância do terror”, mas para o valor do desejo que acaba movendo a todas as pessoas.

Agora, falemos um pouco do final do filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Youth). Francamente, questiono a escolha de Sorrentino por um final impactante. Realmente era necessário o suicídio de Boyle? Ok, o diretor quis deixar claro que no ambiente do cinema não existe gratidão e que pessoas sensíveis acabam sofrendo com a falta de oportunidades e o desprezo de pessoas que elas ajudaram antes. Mas me pareceu que a morte de Boyle foi mais uma forma de “impactar” perto do final e de dar uma “reviravolta” na história do que algo realmente necessário. Claro que situações assim acontecem, mas Boyle parecia amar demais a vida e a arte para simplesmente desistir assim de tudo.

Depois daquele momento, para mim, o final pode ser entendido de duas formas. Que a partir da morte de Boyle tudo o que vemos depois é real ou é como ele gostaria que fosse. Afinal, Ballinger realmente foi visitar a esposa e depois aceitou fazer o concerto para a rainha da Inglaterra ou tudo isso seria o final do filme que Boyle imaginaria? Acho que esta questão é levantada pelo final, quando Boyle aparece enquadrando a “última cena”.

Se encararmos o final como algo real, acho um contrassenso Ballinger ter cedido e feito a regência de algo que ele prometeu que não faria. Não faz sentido algum. Quer dizer, até faria sentido, se o que Sorrentino quer nos dizer com esses fatos finais – morte de Boyle e conserto de Ballinger – é que a vida é imprevisível e que sempre podemos mudar de opinião e de direção. Algo considerado imutável pode sim ser mudado se assim decidirmos.

Mas francamente eu prefiro a outra forma de encarar o final. Desta forma, fica mais fácil de dar a nota abaixo. Neste caso, encarando o final como a imaginação de Boyle. Por esta ótica, a história terminou, de fato, quando o diretor se joga da sacada. O restante seria, de fato, o legado dele. Desta forma, Sorrentino faz uma autorreferência ao cinema marcante. Prefiro encarar o filme desta forma. Ainda que não deixe de ser interessante que Youth nos possibilite pelo menos duas visões diferentes e interessantes do final – a escolha do espectador.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sorrentino, especialmente com os dois últimos filmes que eu vi dele, entrou na minha lista de diretores que eu quero sempre acompanhar. Acho bacana fazer isso, especialmente com realizadores que tem uma proposta bem clara do que eles enxergam como cinema. Sorrentino é um destes.

Para mim, o filme funciona bem em todos os seus elementos. A direção de Sorrentino é cuidadosa, atenta aos detalhes e em busca permanente da beleza das situações e das pessoas. O roteiro dele é uma colcha de retalhos de histórias e de personagens que ajudam a refletirmos sobre a vida.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Luca Bigazzi, da maravilhosa trilha sonora de David Lang, da edição precisa e importante de Cristiano Travaglioli, do design de produção de Ludovica Ferrario, dos figurinos de Carlo Poggioli, e da direção de arte de Daniel Newton e de Marion Schramm. Tudo funciona muito bem e forma um conjunto interessante mas, sem dúvida, eu destaco a trilha sonora e a direção de fotografia.

Os grandes Michael Caine e Harvey Keitel fazem grandes trabalhos neste filme. Os dois são de tirar o chapéu. Rachel Weisz também está ótima, roubando a cena sempre que aparece – ela ganha protagonismo quase sempre, não apenas no excelente monólogo a respeito do pai. Além deles, o elenco de apoio faz um bom trabalho. Além dos nomes já citados, vale comentar os outros com maior relevância que fazem parte do filme: Roly Serrano em uma estranha versão e paródia de Diego Maradonna; Nate Dern, Alex Beckett, Mark Gessner, Tom Lipinski e Chloe Pirrie como o time de roteiristas que ajuda Mick Boyle a fazer o roteiro de seu “filme legado”; Luna Zimic Mijovic como a jovem massagista que aparece em diversos momentos do filme além daqueles de seu ofício propriamente dito; e, claro, uma super ponta de Jane Fonda como Brenda Morel, a estrela preferida de Boyle.

Das apresentações musicais, um destaque especial para a que abre o filme, feita pela banda The Retrosettes, e para a apresentação final, com a fantástica Sumi Jo.

Youth estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2015. Depois o filme passou por outros 19 festivais em diversas partes do mundo. Nesta trajetória o filme conseguiu 12 prêmios e foi indicado a outros 36, inclusive uma indicação para o Oscar (de Melhor Canção Original por Simple Song #3, justamente a música que fecha o filme) e duas indicações no Globo de Ouro (Melhor Atriz Coadjuvante para Jane Fonda e Melhor Canção para Simple Song #3). Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Filme Europeu, Melhor Diretor Europeu e Melhor Ator Europeu no European Film Awards; para o Prêmio da Audiência do Festival Internacional de Cinema Karlovy Vary para Paolo Sorrentino; e para o de Melhor Atriz do Ano para Jane Fonda no Hollyood Film Awards.

Esta produção teria custado 12,3 milhões de euros e faturado, nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 2,7 milhões; e na Itália, quase 6 milhões de euros. Ou seja, talvez o filme tenha dificuldade de cobrir os seus gastos.

Youth foi filmado em três países: Suíça (Davos, Flims, Kandersteg e Wiesen), Itália (Veneza e Roma) e na Inglaterra (Londres).

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. Jane Fonda se interessou pelo papel de Brenda depois que Al Pacino, que é amigo dela, comentou que o papel tinha sido escrito para ela – ou seja, que se encaixava como uma luva para a atriz veterana. Uma outra atriz tinha sido escalada para o papel, mas com a desistência dela Jane Fonda conseguiu fazer Brenda. Ela realmente está ótima em sua super ponta.

Michael Caine improvisou na cena em que o maestro pede para a filha parar de chorar. Paolo Sorrentino escreveu Youth tendo Caine em mente – sem dúvida alguma o ator é uma bela inspiração para qualquer roteirista/diretor.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A cena final em que Ballinger conduz uma orquestra lembra muito, segundo os críticos, a cena de Federico Fellini em Orchestra Rehearsal, de 1978. Fellini é uma grande influência sobre Sorrentino.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes publicaram 119 críticas positivas e 47 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 72% e uma nota média 7. Entendo as críticas. Não apenas porque não é um filme para todo mundo, mas porque os que encaram este filme como pretensioso tem a sua razão. Ainda assim, vi Youth com melhores olhos. 😉

Este filme é uma coprodução entre a Itália, França, Reino Unido e Suíça.

CONCLUSÃO: Um filme quase perfeito e cheio de detalhes sobre diversos aspectos da vida, com ênfase especial para a passagem do tempo. Não existe apenas um tema central em Youth. Além da óbvia comparação entre juventude e velhice, temos tudo que está relacionado entre estes dois tópicos, como as relações humanas, os sonhos, as expectativas e as frustrações, a incapacidade de manter as potencialidades por muito tempo, a fama e o anonimato, a família e os amigos. Tudo faz parte da reflexão do diretor. Mais um grande trabalho de Sorrentino. Um filme que merece ser visto com atenção e tempo, porque é uma obra para ser apreciada. Francamente, achei uma das grandes produções que eu assisti ultimamente.

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Trumbo – Lista Negra

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Quase todos os países do mundo já viveram épocas tenebrosas em suas histórias. Os Estados Unidos não é diferente. Na verdade, o mundo enquanto conjunto civilizatório já viveu diversas épocas tenebrosas e que valeriam variados filmes críticos. Trumbo trata de uma destas épocas sob uma ótica pouco mostrada pelos filmes de Hollywood: a chamada caça à bruxas dentro dos estúdios de cinema durante a Guerra Fria. Eu já tinha lido um bocado a respeito e sabia sobre a perseguição de vários nomes, mas nunca tinha visto um filme tão direto e focado neste assunto quanto este Trumbo.

A HISTÓRIA: Começa explicando que durante os anos 1930, em resposta à Grande Depressão e ao crescimento do Fascismo, milhares de americanos se filiaram ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Depois que os Estados Unidos se aliaram à União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial, muitos mais se juntaram ao partido. O roteirista Dalton Trumbo, antigo defensor dos direitos trabalhistas, tornou-se membro do partido em 1943. Mas a Guerra Fria lançou uma nova luz de suspeita sobre os comunistas americanos. A história propriamente começa em 1947, na propriedade de Trumbo ao norte de Los Angeles. Vemos o autor trabalhando, o cenário de Hollywood naquela época e o início da caça aos comunistas em Hollywood.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Trumbo): Gosto de filmes que falam de cinema e da relação que esta arte tem com a sociedade e vice-versa. Eles não são muito frequentes, por isso é sempre um deleite quando encontramos uma boa produção que trate desta indústria. Trumbo, para ser ainda melhor, não trata de uma fase qualquer da indústria, e sim quando ela mudou para sempre.

Há diversos acertos e alguns pequenos deslizes neste filme. Primeiro, vou falar de todos os acertos – que, em número, excedem em muito as falhas da produção. Para começar, o roteirista John McNamara, baseado no livro de Bruce Cook, acerta em focar a carreira de Trumbo pouco antes dela começar a ser questionada e desmoronar. Não demora muito, assim, para o filme entrar na questão central, que foi a criação pelo Comitê de Atividades Anti-Americanas, criado em 1938, de um inquérito para investigar a Indústria Cinematográfica de Hollywood em 1947.

Ao mesmo tempo que o roteiro de McNamara acerta em ir direto ao ponto e em se debruçar no que aconteceu durante, imediatamente depois e nos anos seguintes deste processo que ficou conhecido como “caça às bruxas em Hollywood”, o filme perde um pouco de contextualização. Eis um motivo para, apesar de soberbo, brilhante e necessário, este filme não ser perfeito.

Valeria ter gasto alguns minutos a mais para explorar melhor aquelas ameaças de greve que aparecem rapidamente no início de Trumbo. Na verdade, elas foram causadas, mais que por influência dos “comunistas”, como o filme pode ter sugerido, por uma mudança de lógica em Hollywood. Na década de 1940 os grandes estúdios, até então predominantes nas decisões de Hollywood, estavam começando a ruir enquanto catalisadores da indústria. Grandes diretores e atores surgiram com poder criativo e de escolha, ditando regras e não mais repetindo as velhas fórmulas dos estúdios.

Neste cenário, naturalmente diversas categorias começavam a exigir mais. Trumbo mostra os designers de produção fazendo piquetes e greve, mas na história de Hollywood há diversos outros profissionais que fizeram isso. Uma das greves mais conhecidas foi a relativamente recente paralisação dos roteiristas de Hollywood entre o final de 2007 e o início de 2008, em uma paralisação que durou 100 dias e que afetou produções para o cinema e para a televisão – confira aqui uma matéria que fala do final desta greve.

Comentei isso apenas para deixar claro que a greve dos designers de produção e as manifestações de outras categorias na Hollywood da segunda metade dos anos 1940 tinha pouco a ver com os comunistas. Verdade que eles defendiam uma outra organização econômica e social, mas nem todos eram panfletários. E mesmo que fossem, eles não faziam isso através dos filmes e sim em sua vida particular. Trumbo, o filme, mostra isso com propriedade.

Gostei muito do roteiro de McNamara e da direção de Jay Roach. Os dois realmente focam no personagem central, o roteirista Dalton Trumbo, mas nem por isso ignoram o que acontece ao redor dele. Verdade que acho que faltou um pouco mais de contextualização histórica, como eu comentei antes. Afinal, depois da prisão e da soltura de Trumbo, passados alguns anos daquela perseguição descabida, parece um tanto inusitado para quem não acompanhou a história de Hollywood o ator Kirk Douglas (interpretado por Dean O’Gorman) bater à porta do roteirista para pedir que ele refizesse o roteiro de Spartacus.

Afinal, quando Trumbo começa, figuras como Louis B. Mayer (interpretado por Richard Portnow), um dos fundadores do estúdio MGM, é quem dita as regras da indústria. Como, anos depois, Kirk Douglas era o produtor de seu próprio filme e, junto com Stanley Kubrick, foi o grande responsável por Spartacus? Isso tem a ver com o que eu disse antes, com a ascensão de diretores como Alfred Hitchcock e de atores como Huphrey Bogart e Kirk Douglas, que ganharam mais independência, autoridade e autonomia, enquanto os estúdios perderam força.

Essa falta de contextualização atrapalha um pouco Trumbo. Senti falta também de serem citados mais nomes perseguidos naqueles tempos. Afinal, verdade que Trumbo fez parte do “The Hollywood Ten” (Os Dez de Hollywood), primeiro grupo identificado e penalizado por ser comunista e trabalhar em Hollywood, mas em junho de 1950 três ex-agentes de FBI e um produtor de televisão de direita, Vincent Harnett, publicaram o Red Channels.

Esse documento listava nada menos que 151 nomes de roteiristas, diretores e atores que passaram a integrar a lista negra do Comitê de Atividades Anti-Americanas. Conforme as pessoas eram convocadas para falar com o Comitê e preferiam ficar caladas, elas também eram listadas – cerca de 320 pessoas passaram a fazer parte desta lista que as impedia, em teoria, de trabalhar na indústria. Entre os nomes incluídos nesta relação estavam os de Leonard Bernstein, Charlie Chaplin, John Garfield, Dashiell Hammett, Lillian Hellman, Arthur Miller e Orson Welles.

Claro que eu não esperava que Trumbo listasse todos esses nomes, mas poderia ter indicado, aqui e ali, no roteiro de McNamara, alguns destes nomes conhecidos além daqueles 10 iniciais que acabaram presos. Mas esses são os únicos aspectos que me “incomodaram” um pouco neste filme, pensando neles especialmente depois que a produção terminou. Porque enquanto o filme está se desenrolando ele é apenas um grande deleite.

Trumbo acerta ao mostrar os bastidores de Hollywood e, principalmente, em focar os efeitos daquela caça às bruxas na vida dos nomes perseguidos e suas famílias. Para mim, o filme tem dois grandes recortes: o óbvio, sobre a indústria do cinema, e o menos óbvio, dos perigos da histeria coletiva e da política do medo. Especialmente o segundo tema é mais do que atual. Nos Estados Unidos, desde o ataque às Torres Gêmeas, a política do medo vive assombrando a população e a cultura do país, provocando estragos particulares e coletivos dentro e fora do país.

Falemos primeiro do recorte sobre Hollywood que o filme faz. Fiquei impressionada não apenas com a interpretação de Bryan Cranston, que está perfeito, mas também com os atores que interpretam personagens importantes daquela época e daquele círculo como Edward G. Robinson (interpretado por Michael Stuhlbarg), Hedda Hopper (a ótima Helen Mirren), John Wayne (David James Elliott), Arlen Hird (Louis C.K.), Buddy Ross (Roger Bart), Frank King (John Goodman), Hymie King (Stephen Root) e Otto Preminger (Christian Berkel). Ainda ainda o já citado Kirk Douglas e uma ponta de John F. Kennedy (Rick Kelly).

Sempre é um prazer ver tantos personagens importantes da história – especialmente de Hollywood – sendo reinterpretados e trazidos novamente “à vida”. A reconstituição de época e os “bastidores” do cinema que permeiam toda a história são interessantíssimos, especialmente para quem gosta do tema. Interessante ver as relações de poder e o jogo de interesses que permeia os diferentes estúdios e profissionais que atuam naquela área, assim como o governo e formadores de opinião – como a jornalista Hedda Hopper. Na época figuras como ela podiam destruir ou, pelo menos, abalar reputações com bastante facilidade.

Essa narrativa dos bastidores de Hollywood não é muito comum e, por isso mesmo, Trumbo se torna um filme diferenciado. No fim das contas, apesar de toda a pressão e “terrorismo” das pessoas que queriam acabar com os comunistas no país, o talento venceu. Com a ajuda inicial fundamental dos irmãos Frank King e Hymie King, Trumbo conseguiu sobreviver e, pouco a pouco, trabalhar cada vez mais – e até em demasia – para pagar as contas e dar estabilidade para a família.

E daí surge o outro aspecto interessante de Trumbo. Ao focar essencialmente em um personagem importante daquela época, o filme dirigido por Roach se aprofunda na personalidade e no cotidiano do personagem, mostrando não apenas o seu talento, mas também o seu contexto familiar e de amizades. Esta produção acerta, sem dúvida, ao fazer isso, porque daí percebemos os efeitos daninhos de uma perseguição aloprada como aquela da caça às bruxas. Vale lembrar também que aquele tipo de perseguição se espalhou pelo mundo, em diferentes países e realidades – no Brasil ela também existiu e, como diz Trumbo, vitimou não apenas a cultura, mas também tirou vida de várias pessoas.

Bueno, voltando para o filme. Ao se debruçar na história de Trumbo, vemos como aquela paranoia coletiva cobrou um preço alto das famílias, que eram hostilizadas por vizinhos e conhecidos e não podiam admitir o que os perseguidos faziam para viver. As pessoas eram condenadas pelo que elas acreditavam e pensavam e não por seus atos. Como Trumbo afirma na entrevista que o filme reproduz apenas uma parte, o tal Comitê de Atividades Anti-Americanas nunca conseguiu provar nenhuma atividade realmente daninha para o país.

O que aquela perseguição provocou foi a perda de liberdade de centenas de pessoas que, no fim das contas, foram impedidas de trabalhar. E sem trabalho, passaram por diversas agruras – algumas morreram, como diz Trumbo, vítimas dos efeitos desta perseguição. No caso do protagonista deste filme, depois que saiu da prisão Trumbo ficou obcecado por fazer exatamente aquilo que a caça às bruxas queria lhe impedir de fazer: trabalhar.

Obcecado por escrever cada vez mais, mas sem a possibilidade de assinar os próprios roteiros, Trumbo virava as noites, trabalhava praticamente o tempo inteiro e sem ter mais tempo para a família – algo que ele conseguia fazer muito bem antes de ser perseguido. O filme mostra muito bem essa mudança e a forma com que Trumbo acaba envolvendo toda a família naquela nova rotina – até que a esposa dele, Cleo (interpretada pela ótima Diane Lane), resolve dar um basta e chamar a atenção do marido sobre a forma repressora que ele adotou em casa.

Esse filme tem grandes momentos – dois que me tocaram muito foi a conversa de Cleo com o marido e as vezes em que a família dele, em casa, torceram para que ele ganhasse os dois Oscar’s que ele ganhou assinando com outros nomes duas produções premiadas pela Academia.

Todo o contexto cruel que cercou todas aquelas vidas é um verdadeiro absurdo. E é bom falar deste absurdo hoje, em 2016, porque há muitas figuras que querem voltar para aquele tempo de censura e de perseguição. É preciso recordar, lembrar, para impedir que histórias assim se repitam. Trumbo funciona muito bem neste sentido. Grande filme, mais uma das boas descobertas apresentadas pelo Oscar 2016.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vale listar os “The Hollywood Ten”: Herbert Biberman, Lester Cole, Albert Maltz, Adrian Scott, Samuel Ornitz, Dalton Trumbo, Edward Dmytryk, Ring Lardner Jr., John Howard Lawson e Alvah Bessie. Eles foram condenados a períodos que variaram entre seis e doze meses de prisão.

O tema da caça às bruxas feita em Hollywood é fascinante. Vale buscar mais a respeito. Recomendo, para quem quiser iniciar essa pesquisa, este texto bem ilustrativo sobre o Macartismo da Planeta Educação; também este outro texto do blog Ready for My Close Up Now que não apenas traz os nomes e obras dos 10 de Hollywood, mas também os movimentos de solidariedade à eles (algo que Trumbo também ignora); vale dar uma olhada neste texto da revista Época, com outras informações curiosas sobre o período; e, mesmo escapando um pouco do tema, mas complementando ele um bocado, vale a leitura deste texto da História Viva sobre a “colaboração” ou influência direta do Exército americano no cinema até que eles se divorciaram após o Vietnã.

Trumbo não trata do tema, mas o blog Ready for My Close Up Now lembra bem que se existia o MPA (Motion Picture Alliance for the Preservation of American Ideals), que tinha entre um de seus líderes John Wayne, também existia para contrabalancear a balança o Comitê Pela Primeira Emenda que contava com Humphrey Bogart, Lauren Bacall, John Huston, entre outras personalidades que defendiam os 10 de Hollywood. Aliás, falando em MPA, Trumbo não trata disso, mas ela foi fundada por Walt Disney – sim, meus caros! – e tinha como participantes, ainda, Gary Cooper, Barbara Stanwick, Cecil B. DeMille, Ginger Rogers, Ronald Reagan, King Vidor, entre outros.

Uma coisa, e Trumbo aborda bem isso, é alguém “dedurar” um colega para sobreviver, como alegou o ator Edward G. Robinson, interpretado com precisão e brilhantismo por Michael Stuhbarg, outra bem diferente é a delação “por prazer”, praticamente, como aquela feita por Elia Kazan – que era brilhante, mas pisou na bola ao destruir a vida de diversos colegas. Diversos nomes não precisavam ter denunciado os colegas para sobreviver.

O diretor Jay Roach acerta ao apostar no talento de Bryan Cranston e estar sempre próximo do ator, assim como dos outros personagens próximos a ele. Ele faz uma boa e competente direção, mas sem nenhuma grande “invenção”. O que é bom, porque valoriza o trabalho dos atores e o bom roteiro de John McNamara – ainda que ele tenha falhado em alguns pontos que eu já comentei, especialmente na falta de contextualização e da citação de mais nomes daquele contexto histórico.

O elenco de apoio do filme é muito competente – e chama a atenção a quantidade de estrelas. Além de Bryan Cranston, se destacam Helen Mirren, Diane Lane, Michael Stuhlbarg e Louis C.K. Mas além deles e dos outros nomes já citados, vale comentar o bom trabalho dos atores que dão vida para os filhos dos Trumbo: Toby Nichols como Chris Trumbo entre as idades de seis e 10 anos; Madison Wolfe como Niki Trumbo na idade entre oito e 11 anos; Meghan Wolfe como Mitzi Trumbo na idade entre seis e oito anos; Mitchell Zakocs como Chris Trumbo entre os 10 e os 12 anos; Mattie Liptak como Chris Trumbo entre os 13 e os 17 anos; Becca Nicole Preston como Mitzi Trumbo entre os nove e os 12 anos; John Mark Skinner como Chris Trumbo quando ele tem 29 anos; e a sempre competente Elle Fanning como Niki Trumbo na fase universitária/adulta quando ela tem uma troca mais madura com o pai.

Da parte técnica do filme, vale destacar a ótima trilha sonora de Theodore Shapiro; a direção de fotografia de Jim Denault; a edição de Alan Baumgarten; o design de produção de Mark Ricker; a direção de arte de Lisa Marinaccio e Jesse Rosenthal; a decoração de set de Cindy Carr; e os figurinos de Daniel Orlandi. Todos eles, especialmente os últimos, são fundamentais para a ambientação da história.

Achei os irmãos King – que, na verdade, tinham o sobrenome Kozinsky – mais que admiráveis. Eles deram emprego não apenas para Trumbo, mas para vários outros nomes perseguidos pela lista negra. Vale dar uma conferida na história deles neste link da Wikipédia.

Eu nem preciso dizer que Bryan Cranston mais que mereceu a indicação como Melhor Ator no Oscar 2016, né? Grande ator. Espero que ele faça mais filmes excelentes e que logo mais ganhe, por mérito puro, uma estatueta dourada. Este ano não tinha como porque a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood já devia um Oscar há tempos para o Leonardo DiCaprio, mas eu espero, sinceramente, que a hora de Cranston chegue. Agora, falando ainda e Oscar, Helen Mirren bem que podia ter sido indicada como Melhor Atriz Coadjuvante pelo trabalho neste filme, não? Ela está tão bem que não tem como não odiar a personagem que ela está fazendo. 😉

Trumbo estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria, ainda, de outros sete festivais mundo afora. Nesta trajetória, até o momento, o filme recebeu dois prêmios e foi indicado a outros 31. Ele rendeu apenas o terceiro lugar como Melhor Ator para Bryan Cranston no Prêmio dos Críticos de Cinema de Iowa; o Spotlight Award no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs para Bryan Cranston e o prêmio de Melhor Ator para Cranston no Prêmio da Associação de Críticos de Cinema Southeastern.

Algo que este filme aborda e que nunca eu vou entender: por que tantas pessoas tem medo de outras que pensam diferente e preferem combatê-las do que aceitar que elas tem o direito de pensar diferente? Isso já aconteceu muito na história da Humanidade – da Inquisição na Idade Média até a “blacklist” de Hollywood – e volta e meia alguém tenta fazer este tipo de medo e de atitude predominar. Temos que estar alertas e cada vez mais defender que todas as pessoas tenham liberdade de pensar diferente – desde que este pensamento não se materialize em crime e infrinja as leis, evidentemente. Neste segundo caso, a aplicação da lei deve ser feita. E isso é tudo.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme: o diretor Jay Roach disse que muitas cenas de Trumbo em que o protagonista escreve sozinho na mesa ou na banheira foram improvisadas por Bryan Cranston enquanto as câmeras estavam rodando e que ele realmente estava criando frases para os roteiros que o personagem estaria escrevendo.

O ator Steve Martin comentou que quando ele era muito jovem a sua namorada e a família dela lhe apresentaram novas ideias e oportunidades intelectuais – e o pai dela era Dalton Trumbo, de quem Martin nunca tinha ouvido falar até aquele momento.

Gary Oldman foi cogitado para o papel de Trumbo. Francamente, Cranston faz um trabalho tão impressionante como o roteirista que eu não consigo imaginar mais ninguém como protagonista deste filme.

Importante observar duas “incorreções” do filme. Edward G. Robinson, na verdade, nunca delatou nenhum nome para o Comitê, como Trumbo mostra. Ele testemunhou quatro vezes, mas nunca apontou nenhum nome. Outro personagem, Arlen Hird, não existiu com este nome – ele é, na verdade, um amálgama de vários nomes de escritores que fizeram parte da lista negra. Observando a lista dos 10 de Hollywood, da qual ele teria feito parte, realmente já dá para perceber isso. Curioso não terem escolhido um outro personagem real, não é mesmo? Não vi muito a razão para isso. Também não entendi porque colocar Robinson como delator quando ele não foi – e outros sim.

Trumbo fez pouco mais de US$ 7,8 milhões nos Estados Unidos. Somando com o que a produção fez nas outras bilheterias mundo afora, ele chegou a US$ 8,2 milhões. Ainda pouco para o filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 107 críticas positivas e 38 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 74% e uma nota média de 6,7. Fiquei curiosa para ver o documentário sobre Trumbo. Será que é melhor que o filme? Alguém viu e quer comentar? 😉

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Filme extraordinário e que conta um momento muito importante da história não apenas dos Estados Unidos, mas do mundo. Afinal, enquanto artistas eram perseguidos naquele país, tínhamos situação parecida no Brasil quando por aqui tivemos ditadura militar, e em tantos outros países em fases um pouco anteriores ou posteriores. Bem narrado, com um ator de primeiríssima linha como protagonista e um belo elenco de apoio nos outros papéis, Trumbo é um destes filmes inevitáveis para quem gosta de cinema.

Quem dera que mais filmes se debruçassem não apenas nas relações e bastidores da Sétima Arte, mas que também falassem de épocas tenebrosas da nossa história coletiva. O filme acerta no ritmo e na crítica, assim como na imersão na história pessoal e profissional do protagonista. Por pouco ele não é perfeito. Senti falta da produção citar mais nomes importantes de Hollywood que foram perseguidos naquela época, assim como explicar um pouco melhor a mudança do “sistema” da indústria, que deixou naqueles anos de ser dominada por grandes estúdios para passar a ser muito mais autoral.

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Ich Seh Ich Seh – Goodnight Mommy – Boa Noite, Mamãe

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A loucura e a violência se manifestam e, muitas vezes, não conseguimos ver além de seus estragos e efeitos. As causas, as razões e a história que antecederam a insanidade não são conhecidos. Goodnight Mommy é um filme perturbador não apenas por mostrar uma situação fora do esquadro o tempo todo até que a violência domina a cena, mas principalmente por abrir espaço mais para perguntas do que para respostas. Um filme forte, cruel, indicado apenas para os que estão mais preparados para ver a crueldade em sua forma mais bruta.

A HISTÓRIA: Um grupo de crianças cerca uma mulher loira e canta com ela uma canção de ninar. Corta. Um menino corre em um milharal. Ele olha ao redor e não vê nada, até que o seu irmão gêmeo o acerta e o derruba. Depois, os dois meninos voltam para casa. No caminho, Elias (Elias Schwarz) chama por Lukas (Lukas Schwarz), que tomou a dianteira. No lago Elias faz o mesmo, chama por Lukas. Corta. Um carro se aproxima da casa e buzina. Os dois meninos correm e encontram a mãe (Susanne Wuest) com o rosto todo enfaixado. O encontro não é dos mais afetivos. Acompanhamos a relação destes personagens.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Goodnight Mommy): O tom predominante neste filme é o de estranheza. Os meninos, irmãos gêmeos, vivem colados, parecem não ter uma vida independente. Quando a mãe chega, com o rosto e a cabeça toda enfaixada, sabemos que algo de muito errado aconteceu antes. O que aconteceu com eles é apenas a primeira de muitas perguntas que esta história irá levantar.

O encontro entre os meninos e a mãe não demora muito para acontecer. E daquele momento em diante o espectador fica se perguntando o que está acontecendo. Afinal, por que a mãe dos gêmeos não reconhece e não interage com um deles? Em certo momento esta resposta vem à tona mas, até lá, você tem dois caminhos lógicos para seguir – dentro do que um filme como este permite de lógica, claro.

Fiquei observando os gêmeos. Além deles estarem sempre quase colados, claramente eles praticamente falam a mesma coisa. E quando falam algo diferente, quem realmente é “escutado” é Elias. Ora, será que a mãe deles está desprezando de fato alguém real? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Daí surgem duas interpretações possíveis e bem diferentes para esta história. Francamente, desde o início do filme, acreditei na primeira. Mas a segunda é tão viável quanto a primeira – dependendo das tuas crenças e pontos de vista.

Conforme as poucas informações que o espectador vai recebendo no desenrolar da história, sabemos que a mãe dos gêmeos está se recuperando de um acidente gravíssimo. Não sabemos com certeza se foi nesse acidente que Lukas morreu, mas de fato o menino foi vítima de algum acidente do qual a mãe faz questão de inocentar o outro filho. Após o acidente, a mãe dos meninos se divorciou e, agora, tem que lidar com a própria recuperação e com o comportamento estranho de Elias.

Logo no início do filme achei o comportamento dos gêmeos muito estranho. E comecei a reparar que um deles, provavelmente, não existia. Daí surge a primeira interpretação possível deste filme – e foi a que eu adotei durante praticamente a história toda. Lukas, na verdade, só existe na imaginação de Elias. Antes de saber que o garoto realmente existiu, eu achei que Lukas fosse o “irmão imaginário” de Elias. Depois que a mãe insiste com o filho de que ele não foi culpado pela morte de Lukas, temos certeza que o garoto existiu.

Mas então por que Elias segue tratando Lukas como se ele ainda existisse? Novamente, duas interpretações possíveis. Da minha parte, acho que Elias, como tantas outras pessoas, teve dificuldade de lidar com a perda. Ao invés de aceitar que o irmão morreu, ele seguiu imaginando Lukas do lado dele como antes. Como se o irmão fosse um amigo invisível, ele interage com Lukas o tempo todo, inclusive ao ponto de tomar algumas atitudes como se o irmão estivesse o levando àquilo – comportamento explicável após um trauma importante.

O erro da mãe do menino foi não levar tão a sério essa situação. Ela não deveria ter desprezado o fato do filho seguir interagindo com Lukas mesmo depois do garoto ter morrido. Claro que ela estava também em choque e ainda tendo que lidar com a própria perda e com a recuperação de sua saúde, mas ela deveria ter pedido ajuda de alguém, talvez de algum familiar ou, especialmente, de um psiquiatra ou psicólogo. O garoto deveria, imediatamente, ter passado por um tratamento. Ao desprezar o que estava acontecendo ela abriu caminho para a loucura do menino chegar ao extremo.

Essa é uma forma de analisar o que aconteceu. Outra forma, e que acho menos plausível, é a de que Lukas de fato estava junto com Elias o tempo todo, mas como espírito. Ou seja, o menino que tinha sido morto tragicamente voltou para acompanhar o irmão, pela forte ligação que os gêmeos tem e, de fato, influenciou nas decisões de Elias. Juntos eles não aceitaram a mãe quando ela voltou, torturando-a para saber a “verdade” e, depois, acabando com ela sem, aparentemente, sentir remorso. Afinal, “ela não era a mamãe”.

Aparentemente Elias, que é a pessoa real em questão, parece não sentir nada. Ele tem um comportamento estranho, deslocado da realidade. Procurando saber um pouco mais sobre o estresse pós-traumático, encontrei esse interessante artigo que ajuda a explicar, talvez, pelo que o garoto passou: distresse. Vale citar um trecho: “Há uma organização psicofísica que sustenta a pessoa no estado de distresse, criando a percepção de que o mundo é de um certo modo – no caso, hostil – e produzindo repetições infinitas de pensamentos, fantasias, pesadelos e sentimentos em torno de uma mesma questão, criada e mantida por um padrão alterado de funcionamento”.

Há mais informações sobre essa situação de distresse. Francamente, vejo que Goodnight Mommy se justifica não pela crueldade e violência que o filme apresenta, mas pelo alerta que ele nos dá sobre o perigo que situações traumáticas podem ter quando o estresse e o distresse causados por elas não são levados a sério e tratados. Esta é a minha leitura do filme. Acho que Elias não aceitou a morte do irmão e que reagiu muito mal com o retorno da mãe, vivendo uma realidade recheada de terror e de fantasia. Os pais dele desprezaram os efeitos deste trauma e deu no que deu. De arrepiar a crueldade do garoto.

Outra forma de interpretar o que aconteceu é aquela que eu comentei antes, esquecendo o viés psicológico e abraçando o viés paranormal. Lukas seria, assim, o espírito “vingador”, aquele que não aceitou que morreu e que volta para tentar ter a vida que tinha antes. Como ele não é reconhecido pela mãe, ele também não a reconhece e “inspira” o irmão a acabar com tudo aquilo.

No fim do filme, independente da interpretação que se faça para a reação de Elias e a relação dele com Lukas, o filme dá a entender que todos ficam juntos “após a morte”. Um final um tanto estranho, fantasioso, como o próprio começo do filme. No fim, tudo parece um tanto irreal. Seria a forma dos diretores e roteiristas Severin Fiala e Veronika Franz encararem histórias como essa com certo tom de fantasia e irrealidade?

Sabemos que histórias como a mostrada por Goodnight Mommy aconteceram e/ou podem acontecer. O filme acerta quando mostra as situações com crueza – ainda que várias cenas sejam perturbadoras demais. Por isso mesmo é estranho aquele final que tenta “embelezar” ou deixar uma mensagem fantasiosa sobre o que aconteceu. Achei tão sinistro quando o restante do filme que, francamente, não é fácil de assistir. Mas algo tem que ser dito: o trabalho de Fiala e Franz leva a sério a loucura e a violência que pode advir de um distúrbio psicológico. Que o filme sirva de alerta para muitas famílias e pessoas que passam por situações de violência e ficam traumatizadas com elas.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tudo neste filme foi pensado para que reforçar o tom de estranheza e de deslocamento da realidade. Do roteiro e da direção da dupla Severin Fiala e Veronika Franz até a trilha sonora asfixiante em muitos momentos de Olga Neuwirth e a direção de fotografia exageradamente luminosa e com muitos contrastes de Martin Gschlacht.

Da parte técnica do filme, vale comentar também o bom trabalho do editor Michael Palm. Funcionam bem também o design de produção de Hubert Klausner e Hannes Salat e os figurinos de Tanja Hausner. Como é um filme contemporâneo, as escolhas que ressaltam a ideia de “história de pessoas comuns” funcionam.

Os meninos Lukas Schwarz e Elias Schwarz fazem um trabalho bastante honesto e, dentro da proposta do filme, bastante convincentes e assustadores. A atriz Susanne Wuest também ajuda no reforço desta mensagem de estranheza. A tensão está no ar o tempo todo e o espectador, de forma acertada, fica esperando que algo de ruim aconteça. Ainda assim, quando o pior de fato acontece, não estamos suficientemente preparados para isso. Mérito da criatividade dos realizadores, que levam à fundo a crueldade e o deslocamento da realidade. É preciso ter muito cuidado com distúrbios psicológicos, está claro.

O filme é centrado nos dois irmãos e na mãe deles. Mas vale citar a rápida aparição de outros atores, como Hans Escher como o padre que leva os meninos de volta para casa; Christian Steindl como o sacristão que recebe Elias; Christian Schatz como o fazendeiro que pede para o menino se afastar das chamas; e Georg Deliovsky como o entregador de pizzas. Como se pode notar, fora os meninos que protagonizam a história, todos os demais não tem nome, são identificados apenas por suas “funções” na história.

Francamente eu não gostei muito desse filme. Daria, originalmente, uma nota ainda menor que a que dei acima. Achei um filme muito pesado, muito cruel e perturbador. Mas depois que o filme terminou, refleti sobre ele e vi um alerta importante nesta história para as situações traumáticas e seus efeitos. Além disso, também observei a forma com que ele deixa pelo menos duas interpretações possíveis. O que, inicialmente, é sempre válido. Analisando tudo isso, resolvi dar a nota acima. Ainda que, para o meu gosto pessoal, o filme merecia uma avaliação um tanto menor. Só dei o 8 porque acho que a mensagem de alerta dele é importante – se levarmos em conta a interpretação de que Elias reagiu daquela forma por causa do distresse.

Goodnight Mommy estreou em agosto de 2014 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participou de outros 41 festivais mundo afora. Uma carreira impressionante entre festivais, sem dúvida. Neste trajetória o filme ganhou 17 prêmios e foi indicado a outros 25.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Direção de Fotografia, Melhor Maquiagem e Melhor Design de Produção no Festival de Cinema Austríaco. O filme também ficou na lista dos cinco melhores filmes em língua estrangeira da National Board of Review.

Não há informações sobre o custo de Goodnight Mommy, um filme 100% produzido pela Áustria, mas há informação sobre o resultado dele nas bilheterias dos Estados Unidos: cerca de US$ 1,18 milhão. Pouco, muito pouco.

Agora, algumas curiosidades sobre este filme: os atores não receberam o roteiro do Goodnight Mommy, para decorá-lo antes, e a produção foi totalmente rodada em ordem cronológica. No total, 240 gêmeos fizeram os testes para os papéis principais.

Goodnight Mommy foi a indicação da Áustria para o Oscar 2016. O filme acabou não ficando entre os cinco finalistas ao prêmio. Francamente, não merecia mesmo.

Para quem gosta de saber aonde os filmes são rodados, Goodnight Mommy teve como locação a propriedade em Schlossgasse, 2, em Raabs an der Thaya, na Áustria.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 98 críticas positivas e 18 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,3.

Fiquei curiosa para saber mais sobre os realizadores deste filme. Goodnight Mommy é o quarto filme no currículo do diretor Severin Fiala e o segundo no currículo da diretora Veronika Franz. Antes deste filme Fiala dirigiu a dois curtas e ao documentário Kern – este último codirigido por Veronika Franz.

CONCLUSÃO: Um dos filmes mais cruéis que eu assisti em muito tempo. Goodnight Mommy parece fora do esquadro desde o início. Sabemos que algo está muito errado naquela história, e ela só vai piorando com o tempo até que acaba em um desfecho trágico. Filme psicológico ou paranormal, ele tem duas possibilidades de interpretação muito claras. Da minha parte, achei violento demais e sem um propósito definido além de provocar repúdio no espectador. Entre as produções mais estranhas dos últimos tempos, ele deixa mais perguntas que respostas no ar. Algumas vezes isso funciona mas, em outras, nos faz perguntar a razão de tudo aquilo. Talvez a falta de razão seja a resposta.