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Saul Fia – Son of Saul – O Filho de Saul

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A angústia não para nem por um segundo e parece não ter fim. Mais que uma grande história, Saul Fia nos apresenta uma grande técnica. O cinema ao serviço de mergulhar o espectador no caos e no extremo da crueldade de uma fase tenebrosa da nossa história. Demorei para assistir a este filme, o vencedor na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2016. Mas apesar de toda a saraivada de elogios e de críticas positivas que precederam esta experiência, ela não deixou de ser impactante ou diminuiu por causa disso.

A HISTÓRIA: Começa explicando a expressão alemã Sonderkommando. Ela foi utilizada nos campos de concentração nazista para designar prisioneiros com status especial, que não ficavam junto com os demais. Normalmente eles eram mortos após alguns meses de trabalho. Em um cenário embaçado, surgem alguns sonderkommando, com Saul (Géza Röhrig) na frente deles. Junto com os demais homens com um X vermelho nas costas, ele ajuda a organizar o fluxo de prisioneiros que acabou de chegar em um trem. Eles são conduzidos até um local onde tiram as roupas e, depois, confinados, são exterminados. Mas uma das vítimas acaba chamando a atenção de Saul que, a partir daí, empreende uma cruzada para dar um fim digno para aquele garoto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Saul Fia): Sempre sou da opinião que quando uma produção do cinema é muito elogiada, a análise do espectador já inicia um tanto “viciada” e/ou comprometida. Eu não apenas sabia, antes do Oscar 2016, que este filme era o franco favorito, como acompanhei ele ganhando praticamente todos os prêmios do ano ao qual ele concorreu – pelo menos os principais.

Ainda assim, sempre faço um esforço de esquecer esse tipo de informação quando vejo um filme muito premiado ou elogiado. Fiz isso desta vez, e fiquei simplesmente surpresa com o que eu vi. Mais que a história, que tem sim o seu viés inovador, Saul Fia me surpreendeu pela narrativa e pela técnica do diretor László Nemes.

O mexicano Alejandro González Iñarritu foi premiado dois anos seguidos como Melhor Diretor no Oscar por seu estilo de filmar sem cortes – ou quase sem cortes, no caso do último The Revenant (com crítica neste link). Mas, francamente, achei a direção de Nemes neste Saul Fia mais inovadora e interessante do que o próprio trabalho de Iñarritu. O problema é que Hollywood não costuma premiar diretores de outros países que não estão radicados na meca americana do cinema. Uma pena, porque Nemes merecia.

Desde o primeiro minuto desta produção e até o final a câmera que nos apresenta a história está quase colada nas costas do protagonista ou, quando isso não é assim, ela está muito próxima. Não temos praticamente planos em que ele aparece com uma certa distância ou em perspectiva. Não. A câmera está sempre muito próxima dele, muitas vezes deixando a ação que transcorre em volta como quase um “pano de fundo”. Esta é uma das grandes qualidades desta produção.

O que você sentiu estando por boa parte da produção “nas costas” de Saul? No início, certamente, estranheza. Afinal, não é comum um filme assumir aquela ótica. Depois, junto com a estranheza, provavelmente confusão. Nem sempre a narrativa que ocorre ao redor de Saul é clara ou evidente. Muito fica em segundo plano, e os detalhes fazem a diferença. Além disso, provavelmente você sentiu aflição e desconforto. A história em si provoca isso, além de outros sentimentos, mas a forma com que a história é contada reforça e amplia a angústia que eu comentava lá no início.

Saul e os outros sonderkommando passam os dias encaminhando prisioneiros nazistas para a morte. Por acaso, apenas por uma circunstância qualquer, praticamente de forma aleatória, não é Saul e seus companheiros que estão do lado das vítimas que, depois de exterminadas, viram pilhas de corpos que devem ser queimados ou jogados em valas.

Depois de encaminhar mais um comboio para a morte, seguindo sempre um mesmo “modus operandi”, Saul parece reconhecer uma das vítimas que não morre junto com as outras no gás letal. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O jovem é morto na sequência, asfixiado por um militar judeu, e segue para uma autópsia. Aí começa a via crucis de Saul para tentar dar um fim honrado para o garoto que ele diz ser o seu filho.

Primeiro, ele tenta negociar com o médico Miklos Nyiszli (Sándor Zsótér) para que ele não faça a autópsia. Afinal, segundo o que prega o judaísmo, o corpo da pessoa morta deve ser preservado. Segundo os preceitos seguidos pelos judeus, ele também não pode ser cremado e nem visto por qualquer pessoa após a morte. Finalmente, as orações fúnebres devem ser recitadas em hebraico por um rabino ou por um membro do Chevra Kadisha (“sociedade sagrada”, composta por homens e mulheres dedicados que executam as preparações dos corpos dos mortos). Este texto é bem completo sobre tudo que deve ser feito após a morte de um judeu.

Depois de negociar com o médico, sem muito sucesso – tanto que ele acaba “furtando” o corpo do jovem quando tem uma oportunidade -, Saul começa a correr atrás de um rabino para fazer as orações fúnebres para o seu filho (“interpretado” por Georgö Farkas e por Balázs Farkas). Como ele não encontra um rabino que tope enterrar um corpo – uma ideia que realmente parece maluca e impossível naquele contexto -, Saul parte para se “infiltrar” em outro grupo para encontrar o rabino Mietek (Kamil Dobrowolski).

Como era previsto, esta tentativa de Saul de convencer Mietek a ajudá-lo não termina bem. Mas o protagonista se safa, a tempo de buscar um outro rabino que possa lhe ajudar. Com os alemães perto de perderem a guerra, eles apressam o envio de prisioneiros para o extermínio, o que faz a rotina de Saul e seus colegas que trabalham de dia não terminar à noite. Eles devem dobrar os esforços para dar conta da nova leva expressiva de vítimas.

Como não é possível matar todos nas câmaras de gás com monóxido de carbono, os nazistas passam a matar as pessoas com tiros e jogá-las diretamente nas covas. Na parte mais caótica do filme, inclusive os sonderkommando viram alvo dos tiros e da confusão. Mesmo no meio daquele caos Saul não desistiu de enterrar aquele que ele diz ser o seu filho. Mas antes disso, Saul participa de uma ação de alguns judeus que tentam usar pólvora para explodir alguns nazistas e, com isso, tentarem fugir.

Depois das pessoas serem mortas nas câmaras de gás e seus corpos incendiados, os sonderkommando vasculham nas roupas das vítimas atrás de dinheiro, joias, relógios e demais peças valiosas. Alguns conseguem esconder algumas peças que, depois, serão utilizadas como moeda de troca por “favores” – como o guarda que deixa os judeus se aproximarem das mulheres para uma “rapidinha”. Saul acaba fazendo esse papel, do intermediário, mas durante a noite caótica ele perde a pólvora que Ella (Juli Jakab) lhe havia passado.

Mesmo no meio daquela confusão extrema, Saul não desiste de encontrar um rabino e, de forma um tanto confusa, ele acha que encontrou um em um prisioneiro exausto e barbudo (Todd Charmont). A partir daquele encontro não demora muito para o filme acabar após o enfrentamento entre os judeus desesperados por alguma chance de fuga e os nazistas acelerando o extermínio de quem ainda estava vivo antes que os inimigos chegassem nos campos de concentração e pudessem encontrar sobreviventes.

O confronto começa no dia seguinte e, mesmo com os tiroteios em andamento, Saul tenta enterrar o adolescente. Sem sucesso, ele acaba empreendendo fuga com o corpo nos ombros e, no caminho, descobre o que os seus companheiros já suspeitavam: o prisioneiro não era um rabino. Ao tentar cruzar um rio, Saul perde o corpo do jovem e parece desistir de seguir lutando. Mas o seu amigo Abraham Warszawski (Levente Molnár), que parece conhecer Saul antes daquela loucura, volta para ajudá-lo a sair do rio. O grupo acaba se escondendo em um celeiro, mas não por muito tempo.

Se o dia de Saul parece não ter fim – e, de fato, ele avança pela noite e tem o seu desfecho apenas no dia seguinte -, o espectador também não consegue desgrudar os olhos da narrativa de Nemes. A técnica utilizada por ele é magistral e casa muito bem com a história que ele está contando – o roteiro é assinado pelo diretor e por Clara Royer. Os personagens não são de muitas falas, especialmente Saul, mas a ação é constante, assim como a angústia e o horror.

Impossível não se colocar no lugar de Saul – por mais que a ideia dele de dar um fim digno e dentro do que prega a religião para aquele jovem pareça absurda, nos compadecemos dele e acompanhamos os seus passos de perto. O ator que vive Saul é simplesmente genial, apresentando uma interpretação soberba. Conseguimos acompanhar cada sentimento dele em suas micro-expressões e, especialmente, em seu olhar. Com a câmera boa parte do tempo nas costas dele, é como se estivéssemos vigilando os seus passos, com um lado “bem definido” para cada um de nós.

Para mim, por mais que já foram feitos e lançados muitos filmes sobre o Holocausto – e muitos deles bem narrados e conduzidos -, nenhum outro foi tão contundente em mostrar a crueldade, a crueza e o absurdo dos campos de concentração do que este filme.

Além da técnica narrativa impressionante de Nemes, foi uma grande sacada dele e de Clara Royer ter contado esta história sob a ótica de judeus que eram obrigados a trabalhar para os nazistas na infame função de ajudá-los a matar os seus similares. Impactante e marcante. Não imagino ninguém encarando aquela realidade da mesma forma depois de assistir a esta produção.

Agora, vou comentar o que, para muitos, deve ser uma dúvida bastante presente sobre uma aspecto importante deste filme: afinal, aquele jovem era ou não o filho de Saul? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Achei incrível quando o roteiro de Nemes, através do personagem de Abraham, questiona isso. O amigo de Saul insiste em dizer que Saul não tem filhos e que aquele jovem não pode ser o seu filho. Saul responde que ele é um filho que ele teve fora do casamento. Mas, ainda assim, paira a dúvida no ar – especialmente porque Abraham insiste em contradizer o amigo.

Da minha parte, acho que dificilmente Abraham insistiria neste ponto se ele não estivesse convicto de que Saul não era o pai do garoto. Mas então por que o protagonista insistiria tanto em enterrar aquele jovem e em dizer que ele era o seu filho? Para mim ele viu a oportunidade de dar um fim digno para alguém, de pelo menos salvar uma alma, e colocou toda a sua energia nisso. Por isso mesmo acho que não é tão importante se aquele era realmente filho de Saul ou não. A beleza do gesto do protagonista é o que importa, sendo por “causa própria” ou não.

No fim das contas a mensagem que este filme passou para mim foi essa. De que mesmo em meio a todo o terror, à toda ameaça e desesperança, é possível fazer um gesto bom para alguém, buscar fazer o certo apesar dos pesares. Saul é um homem obstinado e ele percebe que, mesmo que ele não tiver chances de sobrevivência, ele pode fazer um grande gesto final por alguém – sendo esta pessoa ou seu filho ou não. Grande filme. Marcante e merecedor de todos os seus prêmios, tanto pela contundência da história quanto e, principalmente, pela inovação narrativa.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Normalmente eu procuro acompanhar as estreias da semana nos cinemas em que estou – como, agora, no Brasil e, antes, na Espanha. Outras vezes, quando consigo publicar duas críticas na semana, busco também produções que foram indicadas por vocês, caros leitores e leitoras aqui do blog, ou algum outro filme que eu tenho curiosidade de assistir e que foge das duas regras anteriores. Nesta semana, como nenhuma produção me chamou muito a atenção entre as estreias no Brasil, resolvi, finalmente, colocar em dia a curiosidade que sempre tive sobre Saul Fia. Quando o filme estreou no Brasil, não tive como parar para assisti-lo, por isso aproveitei esta semana sem grandes destaques nos cinemas para conferi-lo.

Ainda há alguns filmes do Oscar 2016 que eu não assisti, por isso não se espantem se em outra semana “fraca” nos cinemas eu não voltar a eles.

Depois de escrever a crítica acima, fui buscar algumas entrevistas com o diretor Lászlo Nemes para sabe se eu estava falando uma bobagem muito grande ou não na parte final do meu texto. Pois bem, achei entrevistas interessantes neste link, neste outro e, finalmente, neste aqui. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No primeiro, em português, Nemes comenta, ao explicar o seu processo criativo, que ele buscou uma história muito simples e que ele se interessou “mais (com) a ideia de num lugar onde se queimam pessoas haver um tipo que quer enterrar aquele que julga ser o seu filho”. Perceberam? Não há certeza aí, apenas a convicção de Saul – que pode estar equivocado.

Na entrevista de Nemes para o Jornal Tornado ele comenta também sobre as dificuldades que ele teve em financiar o filme. Ninguém queria bancar o projeto. Então fico feliz que ele passou o rodo e ganhou praticamente todos os prêmios possíveis em 2016. Com isso ele prova que cinema de qualidade deve ser corajoso. Espero que o êxito de Nemes facilite os seus próximos projetos. Ele merece.

Na entrevista para o site Mubi, Nemes fala algo interessante: “Meu filme não é sobre sobrevivência, é sobre a realidade da morte. A sobrevivência é uma mentira, porque ela era uma exceção”. Perfeito. Um realizador que não soube apenas construir bem a sua obra, mas que tem olhar crítico e sabe do que está falando. Em outra parte da entrevista ele fala sobre a questão central do filme, na ótica dele, que não é a sobrevivência física, mas a sobrevivência interior. Ou seja, isso também bate com o que eu dizia antes. Pouco importa se o rapaz é ou não o filho de Saul, mas o importante é que ele tem uma “causa” justa e bela para “lutar”. Aí estaria a sobrevivência interior falada por Nemes? Eu acredito que sim. E esta leitura faz o filme ser ainda mais genial.

A visão e a direção de László Nemes é simplesmente fundamental para Saul Fia. Sem ele o filme simplesmente não existiria de forma tão magistral. Mas depois de Nemes é preciso tirar o chapéu para Géza Röhrig. Que ator, meu Deus! Ele deixa várias outras interpretas no chinelo. Impressionante em todos os momentos e, para mim, especialmente nos minutos finais. A liberdade é uma questão de ponto de vista e, no final desta história, isto fica evidente. Depois de todo aquele pesadelo ele e os demais finalmente serão livres. Enquanto o garotinho estava aterrorizado, Saul estava livre e foi capaz de sorrir. Afinal, ele tinha feito tudo que era possível.

Géza Röhrig é o grande nome deste filme junto com Nemes. Mas é preciso citar o trabalho de outros atores que também deram um show nesta produção: Levente Molnár está ótimo como o amigo de Saul, Abraham Warszawski; Urs Rechn como o oberkapo (chefes dos sonderkommando) Biederman, chefe do grupo de Saul; Todd Charmont como o prisioneiro barbudo que Saul acredita ser um rabino; Jerzy Walczak muito bem como o rabino Frankel, que tenta convencer o protagonista a apenas rezar e não tentar enterrar o seu “filho”; Sándor Zsótér como o Dr. Miklos Nyiszli; e outros atores, como Marcin Czarnik, Kamil Dobrowolski e Attila Fritz como outros judeus do sonderkommando que apareceram mais; além de Uwe Lauer e Christian Harting como chefes nazistas que tinham contato direto com aquele grupo de judeus “de confiança”.

O filme tem muitas qualidades técnicas. Merece uma reverência especial o excelente trabalho de Nemes e de seus assistentes na direção, assim como o departamento da equipe elétrica e de câmeras. No total, 11 pessoas estiveram divididas na função de operador de câmera, assistente de câmera, operador de vídeo, eletricista e afins. Equipe de tirar o chapéu. Também merecem aplausos os nove profissionais envolvidos com o departamento de som – um elemento fundamental para este filme funcionar. Finalmente, vale citar o bom trabalho do diretor de fotografia Mátyás Erdély e do editor Matthieu Taponier.

Saul Fia estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2015. Até maio de 2016 o filme passou por nada menos que outros 29 festivais mundo afora. Nesta trajetória a produção acumulou 46 prêmios – incluindo o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira – e foi indicada a outros 38. Entre os prêmios que recebeu, além do Oscar, eu destacaria o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira; o Grande Prêmio do Júri e outros três prêmios no Festival de Cinema de Cannes; o National Board of Review de Melhor Filme em Língua Estrangeira e o Independent Spirit Award de Melhor Filme Internacional.

Esta produção teria custado US$ 1,65 milhão e faturado, apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, US$ 1,77 milhão – não há informações sobre o resultado do filme em outros mercados.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Todas as cenas externas foram filmadas com luz natural. Saul Fia foi rodado totalmente na Hungria (nas cidades de Budapeste e Rácalmás e no Rio Danúbio, perto de Budapeste) em apenas 28 dias. A produção de 107 minutos é composta a partir de 85 takes – nenhum com mais de quatro minutos.

Esta produção é 100% da Hungria. Aliás, este é o primeiro filme húngaro a ganhar um Globo de Ouro como Melhor Filme em Língua Estrangeira e o segundo a levar um Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira – o anterior tinha sido Mephisto, de 1981.

Saul Fia bebe de diversas fontes históricas, apesar de ser um filme ficcional. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). A história, por exemplo, transcorre durante um dia e meio entre os dias 6 e 7 de outubro de 1944 – quando uma revolta de sonderkommando realmente aconteceu em Auschwitz-Birkenau.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção. Ainda que seja uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site, achei que a nota poderia ser maior – afinal, o filme realmente é diferenciado. Ela estar neste patamar apenas demonstra que boa parte do público ainda não está disposta a ver filme inovadores – elas ficam mais “confortáveis” com produções que seguem um padrão normalzinho. Uma pena. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 184 críticas positivas e apenas oito negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,9 – esta nota sim, eu gostei. Muito alta para o padrão do site.

Antes de Saul Fia, László Nemes tinha dirigido apenas outros três títulos, todos curtas, entre 2007 e 2010. Ou seja, esta produção marca a estreia dele em longas. Impressionante. Sem dúvida alguma Nemes é um nome a ser acompanhado. O protagonista desta produção, amigo pessoal de Nemes, também é praticamente um estreante. Ele tinha apenas participado, em 1999, como ator na minissérie para a TV Eszmélet. Ou seja, Saul Fia marca a estreia de Géza Röhrig no cinema e em longas. Que dupla!

Se tudo der certo, até o final desta semana, finalmente, eu vou conseguir estrear uma seção aqui no blog que há tempos estou imaginando. Tenho essa ideia na cabeça há bastante tempo e espero estreá-la nos próximos dias. Espero que vocês gostem. 😉

CONCLUSÃO: Eis uma grande experiência de cinema. Como eu disse antes, mais que uma história marcante, Saul Fia nos apresenta uma técnica diferenciada e que potencializa a experiência de quem assiste. Muito já foi falado sobre o Holocausto, mas não lembro de outro filme que tenha colocado o espectador sob a ótica de uma vítima com olhar diferenciado do horror do extermínio judeu. O diretor László Nemes dá um banho de técnica cinematográfica enquanto o protagonista Géza Röhrig dá um show de interpretação. Um filme que, diferente do que o tema pode sugerir, foge do óbvio e não deixa ninguém indiferente. Sem dúvida alguma, uma grande peça de bom cinema.

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The Lady in the Van – A Senhora da Van

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Não importa o país em que você viva ou em que esteja de passagem. Sempre será possível encontrar alguém que more na rua e/ou que não tenha um endereço fixo. Algumas vezes isso acontece por pura fragilidade social, por falta de recursos financeiros para a pessoa ter uma residência própria ou compartilhada. Outras tantas vezes as razões passam por desentendimentos familiares, problemas mentais ou incapacidade de viver em um único local. Os motivos são variados. The Lady in the Van conta uma destas histórias. De quebra, o filme fala sobre como a sociedade vê pessoas com este perfil, e como não é difícil dar-lhes um pouco de oportunidade e de dignidade.

A HISTÓRIA: Um grito e o som de uma batida. Uma van anda veloz em uma estrada do interior enquanto um carro de polícia a persegue. No volante da van, Miss Shepherd (Maggie Smith), que olha assustada para o vidro da frente da van partido e com sangue. O policial Underwood (Jim Broadbent) vê quando ela tenta escapar dele. Corta. Cenas de um concerto. Corta. O escritor Alan Bennett (Alex Jennings) escreve sobre Miss Shepherd que, por bondade dele, vive na garagem de sua casa na velha van cheia de sacolas. Ela está ali há cinco anos. Mas voltamos no tempo, quando Bennett, em 1970, escolhe a casa em Camden Town, bairro de Londres, para viver. É em uma igreja próxima da residência que ele vai conhecer Miss Shepherd e, a partir dali, eles vão desenvolver uma relação duradoura.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só leia quem já assistiu a The Lady in the Van): A minha maior motivação para assistir a este filme foi, sem dúvida alguma, a atriz Maggie Smith. Ela é uma das grandes atrizes da Inglaterra e um dos destaques da série de TV Downton Abbey, entre outros filmes e peças de teatro. Gosto muito do estilo dela e, claro, sempre é bom ver a um filme inglês. O humor deles é único.

Só depois de começar a assistir ao filme é que soube do que se tratava. The Lady in the Van é ao mesmo tempo um mergulho na história de uma homeless (pessoas sem uma residência) e uma apreciação detalhista do trabalho e da vida de um escritor, o inglês Alan Bennett. Certamente o filme tem uma graça bem diferente para quem conhece a obra de Bennett. Como não é o meu caso, achei esta produção apenas razoável. E explico o porquê na sequência.

Sempre que vejo um filme, quando ele não me “golpeia” completamente do início ao fim, me pergunto se ele poderia ser mais curto. Francamente, a primeira leitura que tive de The Lady in the Van, e isso enquanto eu assisti ao filme, é que ele poderia perfeitamente ser um curta. Talvez uma produção com 50 minutos de duração. Não era necessário quase duas horas de filme para contar a história de um escritor e a sua relação generosa e de pesquisa com uma senhora que vive em uma van.

Maggie Smith está ótima, não há o que contestar. Mas a história acaba sendo um tanto repetitiva, muitas vezes “derrapando” em basicamente as mesmas linhas – como as vezes em que Miss Shepherd viajou para aproveitar a brisa do mar e visitar o irmão Leo (David Calder) sorrateiramente. Uma sequência mostrando aquele tipo de viagem já seria suficiente, não? Também há muitas cenas que significam quase o mesmo envolvendo a mãe (Gwen Taylor) do escritor. Claro, para quem gosta da obra de Bennett, certamente estes detalhes são importantes e fazem sentido. Para mim, pareceram totalmente passíveis de cortes.

Boa parte do filme se justifica mostrando os personagens complementares da história, especialmente os vizinhos de Camden Town. Neste sentido também o filme pode interessar para quem viveu naquele bairro ou para quem se interessa por aquela região para saber como as pessoas viviam ali entre os anos 1970 e 1980 – a história acompanha a relação entre Bennett e Miss Shepherd até 1985. Estes são os pontos de interesse do filme, além de uma reflexão importante sobre como todas as pessoas “marginalizadas” da sociedade merecem respeito e consideração porque todas elas, afinal, tem as suas próprias histórias e riquezas a partir do que viveram até chegar àquele ponto.

Neste sentido, The Lady in the Van é um filme bacana e importante. As pessoas que fogem do “padrão aceitável” da sociedade, ou seja, pessoas que não tem casa, que não estão sempre limpas, que cheiram mal ou que tem comportamentos que podem não ser ilegais, mas que incomodam quem segue os padrões, tem as suas próprias histórias para contar. E ainda que elas não pareçam muito coerente às vezes – porque não estão com a sua saúde perfeita ou porque padecem de alguma condição mental diferenciada -, elas merecem respeito e atenção. O que, infelizmente, quase nunca acontece.

As pessoas estão mais acostumadas a não ver esse tipo de pessoa ou, quando as vêem, é apenas para fazer cara feia, de desprezo e atravessar a rua. Pouquíssimas pessoas olham para elas como indivíduos que merecem atenção, um “bom dia” ou “boa tarde”, alguns minutos de conversa. Normalmente os “homeless” são vistos como problema, como pessoas indesejáveis. The Lady in the Van trata a história de Miss Shepherd com respeito, mas também com um certo humor que muitas vezes pode ser questionável – tudo bem que é o estilo inglês de tratar os assuntos sérios, mas especialmente a trilha sonora um tanto “circense” me incomodou algumas vezes.

Além da reflexão óbvia sobre a figura de Miss Shepherd, este filme se debruça sobre o trabalho criativo de um escritor que ficou conhecido por escrever sobre o que ele observava e vivenciava. Daí é interessante não apenas o olhar que ele tem para a vizinhança – e, de quebra, para a sociedade inglesa -, mas também sobre a própria mãe e sobre si mesmo. Dá para entender porque ele trata de forma furtiva a própria homossexualidade – afinal, nos anos 1970 ela não era exatamente “bem vista” -, mas isso me incomodou um pouco, devo admitir. Acho que o filme – com roteiro do próprio escritor – poderia ter tratado esse tema de forma mais franca e aberta.

Também achei um tanto angustiante aquele permanente diálogo de Bennett com ele mesmo. O tempo todo o ator está falando com “outro ele mesmo”. Para resolver esta questão, o roteiro de Bennett e o diretor Nicholas Hytner resolveram colocar o ator sempre em dois “papéis”: o Bennett que sai para a rua, tem uma vida “pública”, digamos assim, e o Bennett que está sempre em casa, sentado na escrivaninha escrevendo. É uma forma de resolver a questão, mas achei ela um tanto esquizofrênica. Francamente, eu teria achado mais realista e interessante ele falando literalmente sozinho. Mas ok, há que se respeitar a escolha dos realizadores.

Os últimos pontos relevantes que o filme aborda tem a ver com a forma com que a administração pública lida com pessoas como Miss Shepherd e a relação estreita e muitas vezes comum entre altruísmo e a busca por benefício próprio ao fazermos uma boa ação.

A primeira assistente social a aparecer falando com Miss Shepherd, Lois (Claire Foy), deixa claro que o melhor seria se aquela senhora fosse para outro local – resolvendo, assim, um “problema” do bairro. A outra assistente social a acompanhar Miss Shepherd, Miss Briscoe (Cecilia Noble), aparece de tempos em tempos mais para cobrar uma boa postura de Bennett do que realmente se envolver com a senhora que vive em uma van.

Depois, e o próprio Bennett não escapa desta autocrítica, qual era a motivação dele em ajudar Miss Shepherd? Me parece que ele realmente tinha consideração e respeito por aquela senhora idosa, mas ele também se beneficiou da observação dela. Não apenas porque escreveu uma história a seu respeito, mas também porque conseguiu fazer com ela o que ele não conseguiu fazer com a própria mãe.

Bennett deixa claro, assim, como muitas vezes ajudamos outras pessoas não exatamente porque sejamos bons, ou porque é o certo, mas porque estamos resolvendo alguma outra “dívida” que temos com outra pessoa, com a sociedade ou conosco mesmos. E há quem ajude porque acha que assim terá um local no céu depois que morrer. Enfim, por muitas óticas que se veja, muitas vezes, a ajuda para os outros não tem tanto a ver com altruísmo, mas com atos que no fim tem causa própria. Esta reflexão é sempre válida, e é algo que The Lady in the Van nos propicia. Um bom filme, mas poderia ser mais curto, sem dúvida.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor Nicholas Hytner faz um trabalho correto neste The Lady in the Van. E apenas isso. A direção dele é tradicional, focando o trabalho dos atores e seguindo uma lógica praticamente toda linear. Nada além do previsível. O roteiro de Alan Bennett, baseado no livro que ele mesmo escreveu, também segue uma lógica tradicional, conservadora, com muito cuidado sobre como explorar cada aspecto da história. Por ser uma das pessoas diretamente envolvidas na história, temos com ele uma ótica bem definida e, claro, limitada.

A atriz Maggie Smith dá um show neste filme. Ela está ótima e é precisa, como sempre, aliás. O filme é dela. Alex Jennings, o outro personagem central nesta produção, também faz um bom papel. E atores veteranos como Jim Broadbent e David Calder acabam fazendo papéis bem secundários, quase em pontas.

Além deles, vale citar o trabalho de outros atores que ganham um certo destaque na história: Clare Hammond como a jovem Margaret Fairchild (nome verdadeiro de Miss Shepherd); George Fenton como o jovem motociclista que a protagonista mata em um acidente quando era mais jovem; Deborah Findlay como Pauline, mulher de Rufus (Roger Allam), casal que é vizinho de Bennett; Richard Griffiths como Sam Perry, Pandora Colin como Fiona Perry, Nicholas Burns como Giles Perry e Tom Klenerman como Tom Perry, família que também mora na vizinhança; Dominic Cooper em uma super ponta com o um ator que trabalha em uma das peças de Bennett; Frances de la Tour como Vaughan Williams, amiga de Bennett; Dermot Crowley como o padre que é antigo conhecido de Miss Shepherd; Linda Broughton como Edith Fairchild, cunhada da protagonista; e Andrew Knott como o homem da ambulância que trata Miss Shepherd com respeito e atenção. Estes são os coadjuvantes com maior destaque.

Da parte técnica do filme, nada muito a destacar além da edição de Tariq Anwar, dos figurinos de Natalie Ward e da ótima maquiagem com cinco profissionais liderados por Naomi Donne. A direção de fotografia de Andrew Dunn é bastante simples e tradicional, e a trilha sonora de George Fenton achei um tanto circense e irritante, para ser franca. No mais, bem feito design de produção de John Beard, a decoração de set de Niamh Coulter e a direção de arte de Tim Blake – mas nada, volto a dizer, excepcional.

O escritor Alan Bennett tem livros e peças de teatro que levam a assinatura dele, além de ter um trabalho reconhecido como roteirista do grupo que ficou conhecido como Beyond the Fringe, criado em 1964 e que tinha os diretores Peter Cook, Jonathan Miller e Dudley Moore como participantes. Como roteirista ele tem 33 trabalhos no currículo, incluindo filmes para o cinema e para a TV, minisséries e séries para a TV, peças de teatro filmadas e documentários feitos para a TV. Ele tem 10 prêmios no currículo e uma indicação ao Oscar por The Madness of King George. No dia 9 de maio Bennett completa 82 anos de idade.

The Lady in the Van estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria ainda de outros nove festivais de cinema – o último começando amanhã, dia 11 de abril, na Turquia. Até o momento o filme recebeu um prêmio e foi indicado a outros quatro, incluindo uma indicação para Maggie Smith como Melhor Atriz – Comédia ou Musical no Globo de Ouro. O único prêmio que o filme ganhou foi o de Melhor Atriz para Maggie Smith no Evening Stardard British Film Award.

Esta produção teria custado 2,26 milhões de libras esterlinas. Apenas nos Estados Unidos o filme conseguiu US$ 9,46 milhões. No Reino Unido ele fez mais 11,26 milhões de libras esterlinas. Ou seja, um verdadeiro sucesso nas bilheterias. Nos Estados Unidos o filme chegou a estar em cartaz em 602 cinemas e, no Reino Unido, em 549.

O filme foi totalmente rodado em Glouscester Crescent, em Camden Town, na cidade de Londres, e também em Broadstairs, na cidade de Kent, ambas, claro, no Reino Unido.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. O diretor Nicholas Hytner disse para o jornal The Guardian que um dia a equipe de filmagens chegou na locação em Camden Town e percebeu que a van tinha sido assaltada, além de que duas pessoas tinham passado o final de semana dentro do veículo para que eles “passassem um bom tempo um com o outro”. Isso exigiu que a equipe tirasse tudo que estava dentro a van e que tinha sido “artisticamente sujo” para limpar tudo tudo e voltar a sujar da maneira que eles queriam para o filme. Eita!

O filme foi rodado na casa e na rua em que os fatos reais aconteceram. Algumas das pessoas que vivenciaram aqueles fatos ainda continuavam morando por ali.

Em maio do ano passado, no Hay Festival, o roteirista Alan Bennett comentou algo interessante: “A história deste filme tem lugar há 40 e poucos anos e Miss Shepherd está há muito tempo morta. Ela era difícil e excêntrica, mas acima de tudo, ela era pobre. E nestes dias, particularmente, a pobreza é algo que as pessoas não querem olhar muito. A pobreza é uma falha moral hoje e no tempo dos Tudors. Se esse filme tem um ponto, é sobre equidade e tolerância e sobre o contragosto em ajudar os menos favorecidos, aqueles que não estão bem nos dias atuais. E agora é provável que ainda menos”.

Esta é uma adaptação que Bennett fez de sua peça teatral lançada em 1999 e do drama transmitido pela Radio BBC em 2009, todas com o mesmo nome. Maggie Smith interpretou o papel em todas as ocasiões.

Agora, um detalhe diferente neste filme em relação ao material original de Bennett. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Segundo Bennett, grande parte da história adaptada para o cinema é legítima e condizente com a história da verdadeira Miss Shepherd, com exceção do personagem do policial interpretado por Jim Broadbent. Na história real o homem que vinha volta e meia procurar Miss Shepherd era um homeless conhecido dela e não um policial que a extorquia.

Para quem ficou interessado em saber mais sobre a personagem real que inspirou Bennett, há informações interessante neste link, em uma matéria do The Telegraph, e para saber mais sobre o escritor e roteirista Bennett, há outro texto interessante com os principais momentos da vida dele feita pelo The Telegraph e acessível aqui.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para este filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 111 críticas positivas e apenas nove negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,2. Acho que a nota dos críticos é uma avaliação bastante justa.

Esta é uma produção 100% do Reino Unido.

CONCLUSÃO: Filme interessante, com uma grande atriz interpretando a personagem principal, mas isso não garante que a história não seja um tanto arrastada. A premissa é boa, mas talvez ela rendesse melhor um curta. Com uma ótica bastante humana e inglesa, The Lady in the Van nos apresenta uma de tantas histórias de pessoas que decidiram ou foram impelidas a viver de forma alternativa à qual a sociedade está acostumada. Sem dúvida nenhuma elas merecem o nosso respeito e atenção, e o filme trata bem deste assunto. Um filme interessante, com uma boa proposta, mas que considerei apenas mediano.

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Youth – La Giovinezza – Juventude

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Você está em um local feito para o prazer, para o relaxamento, idílico e no qual é perfeitamente identificável a noção exata do peso da passagem do tempo. Youth é um filme que trata sobre isso, em especial sobre o processo de envelhecimento e sobre a constante e interminável comparação entre a juventude e a velhice. Quando pensamos nisso, refletimos sobre a vida mesma, nossas escolhas, as casualidades, o que fizemos e o que fizeram com a gente. Francamente, mais um grande filme do diretor Paolo Sorrentino. Para mim, um dos nomes mais interessantes do cinema mundial a ser acompanhado.

A HISTÓRIA: Começa com uma cantora e sua banda tocando uma música pop sobre amor. A câmera está fixa na cantora, mas ela e o restante da banda giram em um cenário em que pessoas parecem se divertir. Em seguida aparecem algumas pessoas, como uma mãe caminhando de mãos dados com a filha e o diretor Mick Boyle (Harvey Keitel) olhando tudo atentamente. Corta. No dia seguinte, o maestro Fred Ballinger (Michael Caine) conversa com um dos organizadores de eventos (Alex Macqueen) e festas da rainha da Inglaterra. Eles conversam sobre as razões de Ballinger sempre passar férias naquele local, na Suíça.

O emissário da rainha convida ele para uma apresentação para o Palácio de Buckingham. Perto deles está o ator Jimmy Tree (Paul Dano), atora que está por ali pesquisando para os eu próximo papel. Ballinger diz que não vai aceitar o convite. Na sequência, começamos a ver toda a dinâmica daquela ambiente e conhecer melhor as pessoas que estão por ali movidas por diferentes razões.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Youth): O diretor italiano Paolo Sorrentino tem um jeito todo peculiar de contar uma história. A visão dele de mundo, de narrativa, do cinema e da vida é bastante diferenciada e, apenas por isso, acho o diretor e roteirista admirável. Para mim, ele é um dos grandes diretores de sua geração – ele tem 46 anos – que merece ser acompanhado.

Antes deste Youth eu assisti, do diretor, os filmes This Must Be The Place (comentado aqui) e o magnífico The Great Beauty (com crítica neste link). Parece que, a exemplo do que aconteceu com Almodóvar em uma certa fase, Sorrentino vive uma boa safra. Seus dois últimos filmes foram os melhores. E quando falo dos dois últimos, incluo este Youth.

Para quem já assistiu a um bocado de filmes, como eu, impossível ver a Youth e não se lembrar um pouco de Fellini. Ainda que o estilo de Sorrentino, claro, é mais “condizente” com o nosso tempo. Ou seja, há fantasia sim e até autorreferência nos filmes dele, mas também há uma boa valorização de assuntos que são importantes para o final dos anos 1990 e especialmente para estes anos 2000 e pouco, como a beleza das imagens e das proporções, a harmonia entre pessoas e arquitetura e a música, uma trilha sonora importante e bem presente.

Passada essa introdução, falemos propriamente de Youth. Neste filme, a reflexão maior é sobre a passagem do tempo. Sobre as características das pessoas quando elas são jovens, que tipo de olhar, percepção, sensibilidade elas tem, e o que acontece quando elas envelhecem – muda o olhar, a percepção e tudo o mais. Em mais de uma situação Sorrentino trabalha o contexto, em especial, e também os seus personagens com frieza.

Ele é irônico ao mostrar aquele “paraíso idílico” de férias na Suíça como quase um local de linha de produção, com diferentes “corpos” e pessoas de diferentes idades seguindo um mesmo fluxo para sessões de massagens, banheiras, piscinas, saunas e os demais locais feitos para todos relaxarem. Mas eles realmente encontram o que procuram? Isso seria possível? Sorrentino parece nos deixar claro, em todos os momentos, que cada pessoa em cena tem muito mais peso, gravidade, desejos e sentimentos do que seria possível resumir em um filme.

Ainda assim, ele deixa claro também outro debate importante, além da passagem do tempo: afinal, o que deixamos de legado na nossa vida? Neste sentido, não por acaso temos como protagonista um grande compositor e um grande diretor de cinema. Em diversos momentos fica sugerido que a obra que eles deixaram acaba sendo mais importante do que o que eles conseguiram fazer de suas vidas.

Isso especialmente em relação a Ballinger. Parece evidente que ele conseguiu deixar um legado de composições muito mais “feliz” e representativa para as outras pessoas do que o que ele conseguiu “acumular” e vivenciar no final de sua vida. Outro personagem central nessa história, o grande amigo de Ballinger, o diretor Boyle, também vive o seu momento “pós-glória”. Ele acredita que ainda pode fazer grandes filmes e escreve o roteiro da produção que ele acha mais importante, o seu legado, mas as outras pessoas tem uma visão bem diferente da dele.

Esse choque entre a visão que as pessoas tem de si mesmas e do que elas fizeram quando chegam na velhice e a forma com que as outras pessoas as encaram é muito representativo na vida real e bem explorado em Youth. Como o filme trata disso e da vida “como ela é”, há diversas pequenas reflexões muito interessantes.

Por exemplo, a diferença de olhar que um(a) filho(a) tem de seu pai e de sua mãe se compararmos esta leitura com a experiência que o pai e a mãe tiveram de si mesmos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Isso fica evidente neste filme com a leitura bastante crítica que Lena Ballinger (Rachel Weisz) faz de seu pai e da relação que ele tinha com a mãe dela e o que de fato ele viveu com a esposa – e que fica claro quando ele vai visitá-la na instituição em que ela está internada. Ele comenta com a esposa coisas que só eles sabem e que os filhos nunca vão saber, porque são detalhes da convivência e da intimidade de um casal que ninguém mais fica sabendo.

Essa diferença de olhares e de leituras que as pessoas fazem está evidente também em diversos outros momentos do filme. Achei muito interessante, por exemplo, como Youth trata do preconceito que todos nós temos com algum perfil de pessoa. Por exemplo, a expectativa ruim que fazemos da garota (Emilia Jones) que faz birra com a mãe, ou a leitura que Tree faz da Miss Universo (Madalina Diana Ghenea) antes mesmo dela falar qualquer coisa, ou de todas as pessoas em relação à garota (Gabriella Belisario) que faz programas naquele local chique da Suíça ou de Lena Ballinger em relação ao professor de alpinismo Luca Moroder (Robert Seethaler).

Sorrentino mostra claramente a expectativa ruim e premeditada que as pessoas fazem destas pessoas e de que forma estas leituras estão equivocadas. Todas merecem ser respeitadas e ouvidas, merecem crédito, e não desprezo premeditado. A garota que faz birra com a mãe é a mesma que ao se encontrar com Tree lhe surpreende ao fazer uma leitura profunda de um filme que ele comenta que “ninguém assistiu”. Sim, ela não viu ao blockbuster dele que todos citam.

Ela comenta sobre outro filme e a respeito de uma cena envolvendo um pai e o seu filho e que traz uma de diversas leituras interessantes deste Youth: de que ninguém se sente realmente capaz para fazer grandes coisas, inclusive para ser pai ou mãe. Todos, parece, estão em permanente aprendizado, em uma escola sem fim. E, mesmo assim, não devemos nos acovardar de fazer o que achamos que faz sentido.

O mesmo Tree é surpreendido com a Miss Universo. Ela, diferente da garota que gritou com a mãe, cita o filme blockbuster do ator. No primeiro encontro entre eles, a Miss Universo comenta que quer ser atriz, e Tree claramente despreza os comentários dela. Até que ela surpreende a todos matando a charada sobre ele. A ironia que ele destilou contra ela estava, na verdade, carregada de frustração. Ela acaba com ele em um comentário. Mais um sinal de que não devemos desprezar as outras pessoas sem ao menos darmos a chance de conhecer melhor as suas vastas e complexas histórias.

Lena inicialmente acha Luca um tanto estranho, talvez um tanto “bruto”, sem refinamento, como parecia ser o caso de seu ex-marido Julian (Ed Stoppard). Quando eles se encontram, Lena não parece ter nenhuma atração por Luca. Mas quando ela deixa ele se aproximar, acaba conhecendo a sensibilidade e a forma dele de encarar o mundo que ela não poderia imaginar no primeiro contato. E, finalmente, todos desprezam a garota de programa – ou olham para ela apenas como um “pedaço de carne”. Mas Boyle não pensa assim e resolve sair com ela de braços dados para mostrar que ela merece ser vista com a mesma dignidade que qualquer outra pessoa.

Além destes pontos, Youth tem outras reflexões, como a importância da amizade – talvez a única riqueza que alguém leve consigo até a velhice -; da família, e de se fazer o que se ama até o final (seja um filme, seja pensar nos sons da vida como uma trilha sonora). Também percebemos a limitação que todos temos – ou teremos – com a passagem do tempo, como o esquecimento (ou a dificuldade de manter as próprias memórias), as limitações físicas e de oportunidades. Poucos acreditam que “um velho” ou “uma velha” podem ainda produzir algo útil ou incrível – como um ótimo filme. Pena que a nossa pense assim.

Ah, e claro, como o nome da produção mesmo sugere, este filme é uma grande reflexão sobre a força da juventude. De como todos e a sociedade em geral valoriza a beleza dos jovens, e de como parece que esta época da vida sempre é vista como a melhor pela maioria – tanto que os protagonistas deste filme estão sempre lembrando de suas próprias juventudes e de uma garota pela qual os dois eram apaixonados. Mas será que a juventude é tudo isso mesmo ou ela é idealizada? Esta é uma das questões apontadas por Youth – francamente, acho que a juventude é fantástica, mas que nada melhor do que amadurecer e envelhecer bem.

Tive muitas dúvidas sobre que nota dar para esse filme. Enquanto eu o assistia, pensei na nota abaixo. Mas admito que o final me fez ficar em dúvida se eu deveria realmente dar a nota máxima para Youth. Além disso, claro, não dá para negar que Sorrentino tem grandes pretensões com este filme. Isso também seria um motivo para, talvez, não dar a nota 10 para Youth.

Mas a verdade é que eu achei o filme envolvente, muito bem feito, tecnicamente falando, e com um roteiro incrível. Além de grandes atores em interpretações irretocáveis. Então, por que não dar a nota máxima? Sim, apesar do filme ser um tanto pretensioso, acho que ele consegue fazer uma entrega excepcional. Especialmente pelos temas que ele levanta, pelo olhar crítico que ele lança para a compreensão da sociedade sobre a velhice e sobre a passagem do tempo. Gosto também da forma com que ele homenageia as artes e as amizades, assim como o respeito que ele tem com cada um dos personagens em cena. Isso é algo raro no cinema e, por isso mesmo, tão belo.

Também as mensagens que o filme deixa são muito significativas. Primeiro, de que para fazer arte – e acho que bem qualquer coisa – é preciso vivenciar, ter experiências. Depois, que o importante da vida e o que levamos conosco é justamente aquilo que vivemos – e não o que acumulamos de bens, por exemplo. Finalmente, conforme nos comenta Tree quando está “submerso” no personagem de Hitler, de que sempre é preciso fazer uma escolha entre o terror e o desejo – e que ele, após observar os outros, resolve não dar atenção para a “insignificância do terror”, mas para o valor do desejo que acaba movendo a todas as pessoas.

Agora, falemos um pouco do final do filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Youth). Francamente, questiono a escolha de Sorrentino por um final impactante. Realmente era necessário o suicídio de Boyle? Ok, o diretor quis deixar claro que no ambiente do cinema não existe gratidão e que pessoas sensíveis acabam sofrendo com a falta de oportunidades e o desprezo de pessoas que elas ajudaram antes. Mas me pareceu que a morte de Boyle foi mais uma forma de “impactar” perto do final e de dar uma “reviravolta” na história do que algo realmente necessário. Claro que situações assim acontecem, mas Boyle parecia amar demais a vida e a arte para simplesmente desistir assim de tudo.

Depois daquele momento, para mim, o final pode ser entendido de duas formas. Que a partir da morte de Boyle tudo o que vemos depois é real ou é como ele gostaria que fosse. Afinal, Ballinger realmente foi visitar a esposa e depois aceitou fazer o concerto para a rainha da Inglaterra ou tudo isso seria o final do filme que Boyle imaginaria? Acho que esta questão é levantada pelo final, quando Boyle aparece enquadrando a “última cena”.

Se encararmos o final como algo real, acho um contrassenso Ballinger ter cedido e feito a regência de algo que ele prometeu que não faria. Não faz sentido algum. Quer dizer, até faria sentido, se o que Sorrentino quer nos dizer com esses fatos finais – morte de Boyle e conserto de Ballinger – é que a vida é imprevisível e que sempre podemos mudar de opinião e de direção. Algo considerado imutável pode sim ser mudado se assim decidirmos.

Mas francamente eu prefiro a outra forma de encarar o final. Desta forma, fica mais fácil de dar a nota abaixo. Neste caso, encarando o final como a imaginação de Boyle. Por esta ótica, a história terminou, de fato, quando o diretor se joga da sacada. O restante seria, de fato, o legado dele. Desta forma, Sorrentino faz uma autorreferência ao cinema marcante. Prefiro encarar o filme desta forma. Ainda que não deixe de ser interessante que Youth nos possibilite pelo menos duas visões diferentes e interessantes do final – a escolha do espectador.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sorrentino, especialmente com os dois últimos filmes que eu vi dele, entrou na minha lista de diretores que eu quero sempre acompanhar. Acho bacana fazer isso, especialmente com realizadores que tem uma proposta bem clara do que eles enxergam como cinema. Sorrentino é um destes.

Para mim, o filme funciona bem em todos os seus elementos. A direção de Sorrentino é cuidadosa, atenta aos detalhes e em busca permanente da beleza das situações e das pessoas. O roteiro dele é uma colcha de retalhos de histórias e de personagens que ajudam a refletirmos sobre a vida.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Luca Bigazzi, da maravilhosa trilha sonora de David Lang, da edição precisa e importante de Cristiano Travaglioli, do design de produção de Ludovica Ferrario, dos figurinos de Carlo Poggioli, e da direção de arte de Daniel Newton e de Marion Schramm. Tudo funciona muito bem e forma um conjunto interessante mas, sem dúvida, eu destaco a trilha sonora e a direção de fotografia.

Os grandes Michael Caine e Harvey Keitel fazem grandes trabalhos neste filme. Os dois são de tirar o chapéu. Rachel Weisz também está ótima, roubando a cena sempre que aparece – ela ganha protagonismo quase sempre, não apenas no excelente monólogo a respeito do pai. Além deles, o elenco de apoio faz um bom trabalho. Além dos nomes já citados, vale comentar os outros com maior relevância que fazem parte do filme: Roly Serrano em uma estranha versão e paródia de Diego Maradonna; Nate Dern, Alex Beckett, Mark Gessner, Tom Lipinski e Chloe Pirrie como o time de roteiristas que ajuda Mick Boyle a fazer o roteiro de seu “filme legado”; Luna Zimic Mijovic como a jovem massagista que aparece em diversos momentos do filme além daqueles de seu ofício propriamente dito; e, claro, uma super ponta de Jane Fonda como Brenda Morel, a estrela preferida de Boyle.

Das apresentações musicais, um destaque especial para a que abre o filme, feita pela banda The Retrosettes, e para a apresentação final, com a fantástica Sumi Jo.

Youth estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2015. Depois o filme passou por outros 19 festivais em diversas partes do mundo. Nesta trajetória o filme conseguiu 12 prêmios e foi indicado a outros 36, inclusive uma indicação para o Oscar (de Melhor Canção Original por Simple Song #3, justamente a música que fecha o filme) e duas indicações no Globo de Ouro (Melhor Atriz Coadjuvante para Jane Fonda e Melhor Canção para Simple Song #3). Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Filme Europeu, Melhor Diretor Europeu e Melhor Ator Europeu no European Film Awards; para o Prêmio da Audiência do Festival Internacional de Cinema Karlovy Vary para Paolo Sorrentino; e para o de Melhor Atriz do Ano para Jane Fonda no Hollyood Film Awards.

Esta produção teria custado 12,3 milhões de euros e faturado, nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 2,7 milhões; e na Itália, quase 6 milhões de euros. Ou seja, talvez o filme tenha dificuldade de cobrir os seus gastos.

Youth foi filmado em três países: Suíça (Davos, Flims, Kandersteg e Wiesen), Itália (Veneza e Roma) e na Inglaterra (Londres).

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. Jane Fonda se interessou pelo papel de Brenda depois que Al Pacino, que é amigo dela, comentou que o papel tinha sido escrito para ela – ou seja, que se encaixava como uma luva para a atriz veterana. Uma outra atriz tinha sido escalada para o papel, mas com a desistência dela Jane Fonda conseguiu fazer Brenda. Ela realmente está ótima em sua super ponta.

Michael Caine improvisou na cena em que o maestro pede para a filha parar de chorar. Paolo Sorrentino escreveu Youth tendo Caine em mente – sem dúvida alguma o ator é uma bela inspiração para qualquer roteirista/diretor.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A cena final em que Ballinger conduz uma orquestra lembra muito, segundo os críticos, a cena de Federico Fellini em Orchestra Rehearsal, de 1978. Fellini é uma grande influência sobre Sorrentino.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes publicaram 119 críticas positivas e 47 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 72% e uma nota média 7. Entendo as críticas. Não apenas porque não é um filme para todo mundo, mas porque os que encaram este filme como pretensioso tem a sua razão. Ainda assim, vi Youth com melhores olhos. 😉

Este filme é uma coprodução entre a Itália, França, Reino Unido e Suíça.

CONCLUSÃO: Um filme quase perfeito e cheio de detalhes sobre diversos aspectos da vida, com ênfase especial para a passagem do tempo. Não existe apenas um tema central em Youth. Além da óbvia comparação entre juventude e velhice, temos tudo que está relacionado entre estes dois tópicos, como as relações humanas, os sonhos, as expectativas e as frustrações, a incapacidade de manter as potencialidades por muito tempo, a fama e o anonimato, a família e os amigos. Tudo faz parte da reflexão do diretor. Mais um grande trabalho de Sorrentino. Um filme que merece ser visto com atenção e tempo, porque é uma obra para ser apreciada. Francamente, achei uma das grandes produções que eu assisti ultimamente.

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Trumbo – Lista Negra

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Quase todos os países do mundo já viveram épocas tenebrosas em suas histórias. Os Estados Unidos não é diferente. Na verdade, o mundo enquanto conjunto civilizatório já viveu diversas épocas tenebrosas e que valeriam variados filmes críticos. Trumbo trata de uma destas épocas sob uma ótica pouco mostrada pelos filmes de Hollywood: a chamada caça à bruxas dentro dos estúdios de cinema durante a Guerra Fria. Eu já tinha lido um bocado a respeito e sabia sobre a perseguição de vários nomes, mas nunca tinha visto um filme tão direto e focado neste assunto quanto este Trumbo.

A HISTÓRIA: Começa explicando que durante os anos 1930, em resposta à Grande Depressão e ao crescimento do Fascismo, milhares de americanos se filiaram ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Depois que os Estados Unidos se aliaram à União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial, muitos mais se juntaram ao partido. O roteirista Dalton Trumbo, antigo defensor dos direitos trabalhistas, tornou-se membro do partido em 1943. Mas a Guerra Fria lançou uma nova luz de suspeita sobre os comunistas americanos. A história propriamente começa em 1947, na propriedade de Trumbo ao norte de Los Angeles. Vemos o autor trabalhando, o cenário de Hollywood naquela época e o início da caça aos comunistas em Hollywood.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Trumbo): Gosto de filmes que falam de cinema e da relação que esta arte tem com a sociedade e vice-versa. Eles não são muito frequentes, por isso é sempre um deleite quando encontramos uma boa produção que trate desta indústria. Trumbo, para ser ainda melhor, não trata de uma fase qualquer da indústria, e sim quando ela mudou para sempre.

Há diversos acertos e alguns pequenos deslizes neste filme. Primeiro, vou falar de todos os acertos – que, em número, excedem em muito as falhas da produção. Para começar, o roteirista John McNamara, baseado no livro de Bruce Cook, acerta em focar a carreira de Trumbo pouco antes dela começar a ser questionada e desmoronar. Não demora muito, assim, para o filme entrar na questão central, que foi a criação pelo Comitê de Atividades Anti-Americanas, criado em 1938, de um inquérito para investigar a Indústria Cinematográfica de Hollywood em 1947.

Ao mesmo tempo que o roteiro de McNamara acerta em ir direto ao ponto e em se debruçar no que aconteceu durante, imediatamente depois e nos anos seguintes deste processo que ficou conhecido como “caça às bruxas em Hollywood”, o filme perde um pouco de contextualização. Eis um motivo para, apesar de soberbo, brilhante e necessário, este filme não ser perfeito.

Valeria ter gasto alguns minutos a mais para explorar melhor aquelas ameaças de greve que aparecem rapidamente no início de Trumbo. Na verdade, elas foram causadas, mais que por influência dos “comunistas”, como o filme pode ter sugerido, por uma mudança de lógica em Hollywood. Na década de 1940 os grandes estúdios, até então predominantes nas decisões de Hollywood, estavam começando a ruir enquanto catalisadores da indústria. Grandes diretores e atores surgiram com poder criativo e de escolha, ditando regras e não mais repetindo as velhas fórmulas dos estúdios.

Neste cenário, naturalmente diversas categorias começavam a exigir mais. Trumbo mostra os designers de produção fazendo piquetes e greve, mas na história de Hollywood há diversos outros profissionais que fizeram isso. Uma das greves mais conhecidas foi a relativamente recente paralisação dos roteiristas de Hollywood entre o final de 2007 e o início de 2008, em uma paralisação que durou 100 dias e que afetou produções para o cinema e para a televisão – confira aqui uma matéria que fala do final desta greve.

Comentei isso apenas para deixar claro que a greve dos designers de produção e as manifestações de outras categorias na Hollywood da segunda metade dos anos 1940 tinha pouco a ver com os comunistas. Verdade que eles defendiam uma outra organização econômica e social, mas nem todos eram panfletários. E mesmo que fossem, eles não faziam isso através dos filmes e sim em sua vida particular. Trumbo, o filme, mostra isso com propriedade.

Gostei muito do roteiro de McNamara e da direção de Jay Roach. Os dois realmente focam no personagem central, o roteirista Dalton Trumbo, mas nem por isso ignoram o que acontece ao redor dele. Verdade que acho que faltou um pouco mais de contextualização histórica, como eu comentei antes. Afinal, depois da prisão e da soltura de Trumbo, passados alguns anos daquela perseguição descabida, parece um tanto inusitado para quem não acompanhou a história de Hollywood o ator Kirk Douglas (interpretado por Dean O’Gorman) bater à porta do roteirista para pedir que ele refizesse o roteiro de Spartacus.

Afinal, quando Trumbo começa, figuras como Louis B. Mayer (interpretado por Richard Portnow), um dos fundadores do estúdio MGM, é quem dita as regras da indústria. Como, anos depois, Kirk Douglas era o produtor de seu próprio filme e, junto com Stanley Kubrick, foi o grande responsável por Spartacus? Isso tem a ver com o que eu disse antes, com a ascensão de diretores como Alfred Hitchcock e de atores como Huphrey Bogart e Kirk Douglas, que ganharam mais independência, autoridade e autonomia, enquanto os estúdios perderam força.

Essa falta de contextualização atrapalha um pouco Trumbo. Senti falta também de serem citados mais nomes perseguidos naqueles tempos. Afinal, verdade que Trumbo fez parte do “The Hollywood Ten” (Os Dez de Hollywood), primeiro grupo identificado e penalizado por ser comunista e trabalhar em Hollywood, mas em junho de 1950 três ex-agentes de FBI e um produtor de televisão de direita, Vincent Harnett, publicaram o Red Channels.

Esse documento listava nada menos que 151 nomes de roteiristas, diretores e atores que passaram a integrar a lista negra do Comitê de Atividades Anti-Americanas. Conforme as pessoas eram convocadas para falar com o Comitê e preferiam ficar caladas, elas também eram listadas – cerca de 320 pessoas passaram a fazer parte desta lista que as impedia, em teoria, de trabalhar na indústria. Entre os nomes incluídos nesta relação estavam os de Leonard Bernstein, Charlie Chaplin, John Garfield, Dashiell Hammett, Lillian Hellman, Arthur Miller e Orson Welles.

Claro que eu não esperava que Trumbo listasse todos esses nomes, mas poderia ter indicado, aqui e ali, no roteiro de McNamara, alguns destes nomes conhecidos além daqueles 10 iniciais que acabaram presos. Mas esses são os únicos aspectos que me “incomodaram” um pouco neste filme, pensando neles especialmente depois que a produção terminou. Porque enquanto o filme está se desenrolando ele é apenas um grande deleite.

Trumbo acerta ao mostrar os bastidores de Hollywood e, principalmente, em focar os efeitos daquela caça às bruxas na vida dos nomes perseguidos e suas famílias. Para mim, o filme tem dois grandes recortes: o óbvio, sobre a indústria do cinema, e o menos óbvio, dos perigos da histeria coletiva e da política do medo. Especialmente o segundo tema é mais do que atual. Nos Estados Unidos, desde o ataque às Torres Gêmeas, a política do medo vive assombrando a população e a cultura do país, provocando estragos particulares e coletivos dentro e fora do país.

Falemos primeiro do recorte sobre Hollywood que o filme faz. Fiquei impressionada não apenas com a interpretação de Bryan Cranston, que está perfeito, mas também com os atores que interpretam personagens importantes daquela época e daquele círculo como Edward G. Robinson (interpretado por Michael Stuhlbarg), Hedda Hopper (a ótima Helen Mirren), John Wayne (David James Elliott), Arlen Hird (Louis C.K.), Buddy Ross (Roger Bart), Frank King (John Goodman), Hymie King (Stephen Root) e Otto Preminger (Christian Berkel). Ainda ainda o já citado Kirk Douglas e uma ponta de John F. Kennedy (Rick Kelly).

Sempre é um prazer ver tantos personagens importantes da história – especialmente de Hollywood – sendo reinterpretados e trazidos novamente “à vida”. A reconstituição de época e os “bastidores” do cinema que permeiam toda a história são interessantíssimos, especialmente para quem gosta do tema. Interessante ver as relações de poder e o jogo de interesses que permeia os diferentes estúdios e profissionais que atuam naquela área, assim como o governo e formadores de opinião – como a jornalista Hedda Hopper. Na época figuras como ela podiam destruir ou, pelo menos, abalar reputações com bastante facilidade.

Essa narrativa dos bastidores de Hollywood não é muito comum e, por isso mesmo, Trumbo se torna um filme diferenciado. No fim das contas, apesar de toda a pressão e “terrorismo” das pessoas que queriam acabar com os comunistas no país, o talento venceu. Com a ajuda inicial fundamental dos irmãos Frank King e Hymie King, Trumbo conseguiu sobreviver e, pouco a pouco, trabalhar cada vez mais – e até em demasia – para pagar as contas e dar estabilidade para a família.

E daí surge o outro aspecto interessante de Trumbo. Ao focar essencialmente em um personagem importante daquela época, o filme dirigido por Roach se aprofunda na personalidade e no cotidiano do personagem, mostrando não apenas o seu talento, mas também o seu contexto familiar e de amizades. Esta produção acerta, sem dúvida, ao fazer isso, porque daí percebemos os efeitos daninhos de uma perseguição aloprada como aquela da caça às bruxas. Vale lembrar também que aquele tipo de perseguição se espalhou pelo mundo, em diferentes países e realidades – no Brasil ela também existiu e, como diz Trumbo, vitimou não apenas a cultura, mas também tirou vida de várias pessoas.

Bueno, voltando para o filme. Ao se debruçar na história de Trumbo, vemos como aquela paranoia coletiva cobrou um preço alto das famílias, que eram hostilizadas por vizinhos e conhecidos e não podiam admitir o que os perseguidos faziam para viver. As pessoas eram condenadas pelo que elas acreditavam e pensavam e não por seus atos. Como Trumbo afirma na entrevista que o filme reproduz apenas uma parte, o tal Comitê de Atividades Anti-Americanas nunca conseguiu provar nenhuma atividade realmente daninha para o país.

O que aquela perseguição provocou foi a perda de liberdade de centenas de pessoas que, no fim das contas, foram impedidas de trabalhar. E sem trabalho, passaram por diversas agruras – algumas morreram, como diz Trumbo, vítimas dos efeitos desta perseguição. No caso do protagonista deste filme, depois que saiu da prisão Trumbo ficou obcecado por fazer exatamente aquilo que a caça às bruxas queria lhe impedir de fazer: trabalhar.

Obcecado por escrever cada vez mais, mas sem a possibilidade de assinar os próprios roteiros, Trumbo virava as noites, trabalhava praticamente o tempo inteiro e sem ter mais tempo para a família – algo que ele conseguia fazer muito bem antes de ser perseguido. O filme mostra muito bem essa mudança e a forma com que Trumbo acaba envolvendo toda a família naquela nova rotina – até que a esposa dele, Cleo (interpretada pela ótima Diane Lane), resolve dar um basta e chamar a atenção do marido sobre a forma repressora que ele adotou em casa.

Esse filme tem grandes momentos – dois que me tocaram muito foi a conversa de Cleo com o marido e as vezes em que a família dele, em casa, torceram para que ele ganhasse os dois Oscar’s que ele ganhou assinando com outros nomes duas produções premiadas pela Academia.

Todo o contexto cruel que cercou todas aquelas vidas é um verdadeiro absurdo. E é bom falar deste absurdo hoje, em 2016, porque há muitas figuras que querem voltar para aquele tempo de censura e de perseguição. É preciso recordar, lembrar, para impedir que histórias assim se repitam. Trumbo funciona muito bem neste sentido. Grande filme, mais uma das boas descobertas apresentadas pelo Oscar 2016.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vale listar os “The Hollywood Ten”: Herbert Biberman, Lester Cole, Albert Maltz, Adrian Scott, Samuel Ornitz, Dalton Trumbo, Edward Dmytryk, Ring Lardner Jr., John Howard Lawson e Alvah Bessie. Eles foram condenados a períodos que variaram entre seis e doze meses de prisão.

O tema da caça às bruxas feita em Hollywood é fascinante. Vale buscar mais a respeito. Recomendo, para quem quiser iniciar essa pesquisa, este texto bem ilustrativo sobre o Macartismo da Planeta Educação; também este outro texto do blog Ready for My Close Up Now que não apenas traz os nomes e obras dos 10 de Hollywood, mas também os movimentos de solidariedade à eles (algo que Trumbo também ignora); vale dar uma olhada neste texto da revista Época, com outras informações curiosas sobre o período; e, mesmo escapando um pouco do tema, mas complementando ele um bocado, vale a leitura deste texto da História Viva sobre a “colaboração” ou influência direta do Exército americano no cinema até que eles se divorciaram após o Vietnã.

Trumbo não trata do tema, mas o blog Ready for My Close Up Now lembra bem que se existia o MPA (Motion Picture Alliance for the Preservation of American Ideals), que tinha entre um de seus líderes John Wayne, também existia para contrabalancear a balança o Comitê Pela Primeira Emenda que contava com Humphrey Bogart, Lauren Bacall, John Huston, entre outras personalidades que defendiam os 10 de Hollywood. Aliás, falando em MPA, Trumbo não trata disso, mas ela foi fundada por Walt Disney – sim, meus caros! – e tinha como participantes, ainda, Gary Cooper, Barbara Stanwick, Cecil B. DeMille, Ginger Rogers, Ronald Reagan, King Vidor, entre outros.

Uma coisa, e Trumbo aborda bem isso, é alguém “dedurar” um colega para sobreviver, como alegou o ator Edward G. Robinson, interpretado com precisão e brilhantismo por Michael Stuhbarg, outra bem diferente é a delação “por prazer”, praticamente, como aquela feita por Elia Kazan – que era brilhante, mas pisou na bola ao destruir a vida de diversos colegas. Diversos nomes não precisavam ter denunciado os colegas para sobreviver.

O diretor Jay Roach acerta ao apostar no talento de Bryan Cranston e estar sempre próximo do ator, assim como dos outros personagens próximos a ele. Ele faz uma boa e competente direção, mas sem nenhuma grande “invenção”. O que é bom, porque valoriza o trabalho dos atores e o bom roteiro de John McNamara – ainda que ele tenha falhado em alguns pontos que eu já comentei, especialmente na falta de contextualização e da citação de mais nomes daquele contexto histórico.

O elenco de apoio do filme é muito competente – e chama a atenção a quantidade de estrelas. Além de Bryan Cranston, se destacam Helen Mirren, Diane Lane, Michael Stuhlbarg e Louis C.K. Mas além deles e dos outros nomes já citados, vale comentar o bom trabalho dos atores que dão vida para os filhos dos Trumbo: Toby Nichols como Chris Trumbo entre as idades de seis e 10 anos; Madison Wolfe como Niki Trumbo na idade entre oito e 11 anos; Meghan Wolfe como Mitzi Trumbo na idade entre seis e oito anos; Mitchell Zakocs como Chris Trumbo entre os 10 e os 12 anos; Mattie Liptak como Chris Trumbo entre os 13 e os 17 anos; Becca Nicole Preston como Mitzi Trumbo entre os nove e os 12 anos; John Mark Skinner como Chris Trumbo quando ele tem 29 anos; e a sempre competente Elle Fanning como Niki Trumbo na fase universitária/adulta quando ela tem uma troca mais madura com o pai.

Da parte técnica do filme, vale destacar a ótima trilha sonora de Theodore Shapiro; a direção de fotografia de Jim Denault; a edição de Alan Baumgarten; o design de produção de Mark Ricker; a direção de arte de Lisa Marinaccio e Jesse Rosenthal; a decoração de set de Cindy Carr; e os figurinos de Daniel Orlandi. Todos eles, especialmente os últimos, são fundamentais para a ambientação da história.

Achei os irmãos King – que, na verdade, tinham o sobrenome Kozinsky – mais que admiráveis. Eles deram emprego não apenas para Trumbo, mas para vários outros nomes perseguidos pela lista negra. Vale dar uma conferida na história deles neste link da Wikipédia.

Eu nem preciso dizer que Bryan Cranston mais que mereceu a indicação como Melhor Ator no Oscar 2016, né? Grande ator. Espero que ele faça mais filmes excelentes e que logo mais ganhe, por mérito puro, uma estatueta dourada. Este ano não tinha como porque a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood já devia um Oscar há tempos para o Leonardo DiCaprio, mas eu espero, sinceramente, que a hora de Cranston chegue. Agora, falando ainda e Oscar, Helen Mirren bem que podia ter sido indicada como Melhor Atriz Coadjuvante pelo trabalho neste filme, não? Ela está tão bem que não tem como não odiar a personagem que ela está fazendo. 😉

Trumbo estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria, ainda, de outros sete festivais mundo afora. Nesta trajetória, até o momento, o filme recebeu dois prêmios e foi indicado a outros 31. Ele rendeu apenas o terceiro lugar como Melhor Ator para Bryan Cranston no Prêmio dos Críticos de Cinema de Iowa; o Spotlight Award no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs para Bryan Cranston e o prêmio de Melhor Ator para Cranston no Prêmio da Associação de Críticos de Cinema Southeastern.

Algo que este filme aborda e que nunca eu vou entender: por que tantas pessoas tem medo de outras que pensam diferente e preferem combatê-las do que aceitar que elas tem o direito de pensar diferente? Isso já aconteceu muito na história da Humanidade – da Inquisição na Idade Média até a “blacklist” de Hollywood – e volta e meia alguém tenta fazer este tipo de medo e de atitude predominar. Temos que estar alertas e cada vez mais defender que todas as pessoas tenham liberdade de pensar diferente – desde que este pensamento não se materialize em crime e infrinja as leis, evidentemente. Neste segundo caso, a aplicação da lei deve ser feita. E isso é tudo.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme: o diretor Jay Roach disse que muitas cenas de Trumbo em que o protagonista escreve sozinho na mesa ou na banheira foram improvisadas por Bryan Cranston enquanto as câmeras estavam rodando e que ele realmente estava criando frases para os roteiros que o personagem estaria escrevendo.

O ator Steve Martin comentou que quando ele era muito jovem a sua namorada e a família dela lhe apresentaram novas ideias e oportunidades intelectuais – e o pai dela era Dalton Trumbo, de quem Martin nunca tinha ouvido falar até aquele momento.

Gary Oldman foi cogitado para o papel de Trumbo. Francamente, Cranston faz um trabalho tão impressionante como o roteirista que eu não consigo imaginar mais ninguém como protagonista deste filme.

Importante observar duas “incorreções” do filme. Edward G. Robinson, na verdade, nunca delatou nenhum nome para o Comitê, como Trumbo mostra. Ele testemunhou quatro vezes, mas nunca apontou nenhum nome. Outro personagem, Arlen Hird, não existiu com este nome – ele é, na verdade, um amálgama de vários nomes de escritores que fizeram parte da lista negra. Observando a lista dos 10 de Hollywood, da qual ele teria feito parte, realmente já dá para perceber isso. Curioso não terem escolhido um outro personagem real, não é mesmo? Não vi muito a razão para isso. Também não entendi porque colocar Robinson como delator quando ele não foi – e outros sim.

Trumbo fez pouco mais de US$ 7,8 milhões nos Estados Unidos. Somando com o que a produção fez nas outras bilheterias mundo afora, ele chegou a US$ 8,2 milhões. Ainda pouco para o filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 107 críticas positivas e 38 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 74% e uma nota média de 6,7. Fiquei curiosa para ver o documentário sobre Trumbo. Será que é melhor que o filme? Alguém viu e quer comentar? 😉

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Filme extraordinário e que conta um momento muito importante da história não apenas dos Estados Unidos, mas do mundo. Afinal, enquanto artistas eram perseguidos naquele país, tínhamos situação parecida no Brasil quando por aqui tivemos ditadura militar, e em tantos outros países em fases um pouco anteriores ou posteriores. Bem narrado, com um ator de primeiríssima linha como protagonista e um belo elenco de apoio nos outros papéis, Trumbo é um destes filmes inevitáveis para quem gosta de cinema.

Quem dera que mais filmes se debruçassem não apenas nas relações e bastidores da Sétima Arte, mas que também falassem de épocas tenebrosas da nossa história coletiva. O filme acerta no ritmo e na crítica, assim como na imersão na história pessoal e profissional do protagonista. Por pouco ele não é perfeito. Senti falta da produção citar mais nomes importantes de Hollywood que foram perseguidos naquela época, assim como explicar um pouco melhor a mudança do “sistema” da indústria, que deixou naqueles anos de ser dominada por grandes estúdios para passar a ser muito mais autoral.

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Ex Machina – Ex_Machina: Instinto Artificial

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Desde que o homem se imagina sendo Deus pensamos como será quando as máquinas pensarem por si mesmas. Quando elas tiverem o controle. Antes veio 2001: A Space Odyssey e Blade Runner, divisores de água neste sentido. E agora vem se juntar a eles este Ex Machina. Provocador em outro sentido, menos sombrio mas com uma boas surpresas no caminho, este filme é mais uma produção acertada que o Oscar selecionou para estar entre os seus indicados neste ano.

A HISTÓRIA: Em uma empresa em que todos estão conectados, Caleb (Domhnall Gleeson) recebe a mensagem de que ele foi sorteado com o primeior prêmio. Na sequência ele manda uma mensagem para Andy T avisando que ele ganhou o prêmio. O amigo pede para ir junto com ele e, na sequência, várias pessoas cumprimentam Caleb pela conquista. Corta.

Um helicóptero rasga uma área de montanhas geladas. Caleb pergunta quando eles vão chegar na propriedade de seu chefe, Nathan (Oscar Isaac). O piloto ri e diz que eles já estão sobrevoando a propriedade há duas horas. Caleb desce e tem que andar até a casa de Nathan, com alta segurança. Lá ele vai conhecer Ava (Alicia Vikander), o mais recente experimento de Nathan e a consolidação de uma AI (Inteligência Artificial da sigla em inglês) humanoide pra valer.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ex Machina): Não é uma tarefa exatamente simples fazer um filme de AI (Inteligência Artificial). Especialmente porque já temos ótimos filmes do gênero, inclusive os super clássicos 2001 e Blade Runner já citados. Apesar disso, Ex Machina assumiu este desafio e consegue um bom resultado com o que ele se propôs a fazer.

Ex Machina tem alguns diferenciais importantes em relação aos filmes anteriores. Ele acerta em apostar em um viés mais psicológico e conceitual, além de acrescentar algumas colheradas de apelo sexual na história. O caráter psicológico marcou 2001 e uma pitada de provocação sexual podemos encontrar em Blade Runner, mas sem dúvida alguma Ex Machina explora mais estes dois pontos – nos outros filmes há outras questões importantes em cena.

Mesmo não sendo muito inovador, Ex Machina introduz o tema dos “riscos” que a AI pode trazer para quem se arriscar a ser Deus para uma nova geração. Entendo porque muitos espectadores sem as referências anteriores devem ter ficado maravilhados com esse filme. Mas quem já assistiu aos clássicos, certamente, terá outra impressão. Menos eufórica e mais embasada. Ainda assim, preciso admitir, esse filme tem mais acertos que erros.

Para começar, gostei da atmosfera criada pelo diretor e roteirista Alex Garland. O clima de suspense começa a ser criado logo no início, especialmente na chegada do protagonista na “terra prometida” do seu chefe e ídolo. Todo aquele excesso de segurança, claro, esconde algo sinistro. Inicialmente Garland vende, acertadamente para o desenrolar da história, a ideia que aquele aparato todo é porque o empresário Nathan é um grande desconfiado.

Rico, famoso, ele está se preservando de problemas – como sequestros – e, principalmente, de ter os seus avanços tecnológicos “vazados”. Como pede a regra do bom cinema, o roteiro de Ex Machina vai crescendo com o tempo. Nos primeiros dias do teste que Caleb aplica em Ava o “gelo” vai sendo quebrado e a interação mais íntima entre os dois começa a ganhar corpo. Em paralelo, temos a perda de energia estranha do local – não demora muito para o espectador desconfiar sobre a fonte daqueles acontecimentos.

A conversa entre Caleb e Ava segue o roteiro esperado, até que ela larga algumas frases bem estranhas quando mais um blecaute acontece – neste momento as gravações e o monitoramento feito por Nathan acabam sendo interrompidos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A quebra da previsibilidade na conversa de Caleb e Ava é muito bem feita mas, cá entre nós, é difícil de acreditar que um cara tão controlador e metódico quanto Nathan aceitaria ficar tanto tempo sem ouvir tudo que os dois falavam, ou não?

Neurótico pela segurança e pelo próprio experimento, sem dúvida alguma Nathan não aceitaria facilmente ficar no “blecaute” tantas vezes. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No final, na última pequena reviravolta do roteiro, Nathan comenta que instalou um sistema para registrar tudo independente dos blecautes. Só não fez muito sentido ele demorar tanto para fazer isso. Claro, para o roteiro de Garland foi importante isso acontecer apenas no final, mas é difícil acreditar que Nathan realmente daria tanta bobeira durante vários dias.

Depois das dicas de Ava, Caleb começa a observar tudo com uma dupla atenção. Em certo momento ele percebe que Nathan realmente tem um comportamento estranho. Na verdade, para o espectador um pouco mais atento, essa desconfiança está presente desde o início. Afinal, quem está sempre mergulhado em bebida tem que estar enfrentando algum problema sério, ou não? O problema pode ser transitório ou mais grave. A resposta para esta dúvida o espectador terá com o tempo – ao lado de Caleb.

Pouco a pouco o tom sinistro vai ganhando espaço e Caleb nos guia pela mente de Nathan. Afinal, tudo gira em torno do anfitrião do programador e criador de Ava. Mas a pessoa que dá um baile em todo mundo é a ciborgue – como manda o figurino do gênero, aliás. Até aí, nenhuma inovação. Os maiores acertos do filme estão mesmo no jogo psicológico entre os personagens – Nathan, Caleb e Ava – e na atuação provocativa de Alicia Vikander.

A atratividade da personagem, cuidadosamente planejada por Nathan, é um elemento provocador importante para a história. Finalizando os ganhos do filme, vale comentar a forma com que ele segue uma nova linha de produções que mostram as mulheres dando a volta por cima.

Vimos isso antes de forma marcante com Mad Max: Fury Road (comentado aqui). Depois veio Carol (com crítica neste link), Room (uma das grandes surpresas do Oscar, comentado aqui), Mustang (comentado neste link) e, agora, Ex Machina. Várias produções apostam as suas fichas na “libertação” feminina. Uma onda positiva que, esperamos, não seja apenas “modinha”. Ex Machina vem nesta levada sendo provocativo, sexy, psicológico e com a pitada adequada de suspense e esquisitice.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Diversos elementos contribuem para este filme funcionar bem. Sem dúvida alguma uma das qualidades é o roteiro de Alex Garland que, descontados os pequenos erros, tem o ritmo adequado e as pequenas viradas de direção nos momentos certos. A direção dele também é bem competente, sempre próxima dos atores e da ação, distanciando-se apenas nos momentos em que isso interessa para a história.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma os grandes destaques são o design de produção de Mark Didby; a direção de arte de Katrina Mackay e Denis Schnegg; a decoração de set de Michelle Day; o departamento de arte com 43 profissionais; o departamento de efeitos especiais com 11 profissionais e os efeitos visuais envolvendo nada menos que 148 profissionais. Destes filmes que empregaram muita gente nos bastidores e que exigiu muito trabalho além das câmeras.

Apesar de ser um bom roteiro, três pontos me incomodaram nesta produção. Vejamos. (SPOILER – não leia se você não viu o filme). Para começar, aquele ponto que citei na crítica: dificilmente o genial e um tanto neurótico por segurança e controle Nathan deixaria de ouvir as conversas durante os blecautes entre Caleb e Ava por tantos dias. Depois, segundo Caleb, ele havia invertido a lógica da segurança da casa quando os blecautes aconteciam. Quando Ava sai do local, aparentemente, a casa passa por novo blecaute. Segundo Caleb, naquele momento, as portas não deveriam todas abrir? Neste caso ele poderia sair do local tranquilamente. O terceiro ponto é a falha temporal da história. Quando Caleb e Nathan estão conversando, na cozinha, o dono da casa comenta que Caleb irá embora no dia seguinte às 8h. Aparentemente, logo depois, Nathan mostra que estava ouvindo as conversas entre Caleb e Ava mesmo nos blecautes, e toda a sequência seguinte se desenrola. Mas quando Ava sai da casa ainda é dia e ela logo vai pegar o helicóptero… é como se toda essa ação tivesse acontecido muito cedo na manhã da saída de Caleb. Mas não é isso que o roteiro nos apresenta. Teríamos dois dias diferentes para acompanhar – desde a fala de Caleb e Nathan e até a “manhã seguinte” em que Ava escapa. Ou seja, uma bela falha temporal na história. Descuido do roteirista.

Outros aspectos técnicos que valem ser citados é a trilha sonora de Geoff Barrow e Ben Salisbury; a direção de fotografia de Rob Hardy e a edição de Mark Day.

Como protagonista deste filme Domhnall Gleeson mostra, mais uma vez, que é um ator a quem devemos estar atentos. Ele sempre se sai bem em seus papéis e, parece, está em rota crescente de boas produções. O mesmo se pode dizer de Alicia Vikander que, ao que tudo indicada, deve levar o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante este ano por The Danish Girl (com crítica neste link). São dois jovens talentos em ascensão e que merecem ser acompanhados. Normalmente o ator Oscar Isaac não me chama muito a atenção. Mas admito que neste filme ele está muito bem. Possivelmente é o melhor filme que eu vi dele até agora.

Além dos atores citados, vale comentar o bom trabalho de Sonoya Mizuno como Kyoko. Ela literalmente faz um papel mudo, mas tem bastante expressão e momentos feitos para ela se destacar.

Ex Machina estreou em janeiro de 2015 no Reino Unido, na Coreia do Sul, na Irlanda e na Suécia. No final daquele mês ele participou do primeiro festival, o de Göteborg. Depois o filme participaria, ainda, de outros cinco festivais. Em sua trajetória o filme acumulou 51 prêmios e foi indicado a outros 114 – um número impressionante. Entre as indicações estão duas para o Oscar 2016.

Esta é uma produção que teria custado US$ 15 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 25,4 milhões. No restante dos mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 11,4 milhões. Ou seja, tem conseguido se pagar.

Boa parte de Ex Machina foi rodado na Noruega, mas houve cenas também rodadas no Reino Unido, nas cidades de Londres e Buckinghamshire.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Filme Independente Britânico, Melhor Diretor, Melhor Roteiro e Melhores Efeitos Visuais no British Independent Film Awards; e a escolha dele para figura na lista dos 10 melhores filmes independentes do ano pelo National Board of Review.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Na visão do diretor Alex Garland o futuro de Ex Machina está a apenas “10 minutos” de distância da realidade que temos agora. “Se alguém como o Google ou a Apple anunciar amanhã que eles tinham feito a Ava, todos ficariam surpreendidos, mas eu não ficaria tão surpreso”, comentou.

O título é um derivado da expressão “Deus Ex-Machina”, que significa “um Deus para a máquina”, uma frase que tem origem nas tragédias gregas. Segundo a história original um ator interpretando Deus desceria por uma plataforma (a máquina) para resolver os problemas dos personagens, o que resultaria em um final feliz para todos.

Não comentei antes, mas o filme acerta em fazer diversas referências interessantes, que vão de Pollock até Robert Oppenheimer e o seu livro Prometheus Americano. A fala de Nathan pouco antes de dormir bêbado é um trecho de Gita que foi citado por Oppenheimer antes dos testes com explosivos que ele estava fazendo falhou.

Os três personagens principais deste filme tem os seus nomes inspirados em personagens da Bíblia – nada mais apropriado para um filme que trata dos riscos do homem querer tornar-se Deus. Ava é, claramente, uma alusão à Eva; Nathan era um profeta do tempo de Davi; e Caleb foi um emissário de Moisés para avaliar a Terra Prometida.

Outras referências interessantes no filme são um retrato de Margaret Stonborough-Wittgenstein pintada pelo artista Gustav Klimt no quarto de Nathan – Margaret era irmã de Ludwig Wittgenstein, autor de The Blue Book, mesmo nome do motor de busca criado por Nathan segundo a história de Ex Machina; e uma pintura de Ticiano que aparece do lado esquerdo na parede cheia de post-its de Nathan – a obra intitulada A Alegoria da Prudência tem três cabeças em três animais que podem ser interpretados pelos conceitos de memória, inteligência e perspicácia.

Este filme marca a estreia na direção de longas de Alex Garland. Sem dúvida nenhuma uma grande estreia!

Ex Machina seria uma releitura moderna da última peça de William Shakespeare, A Tempestade, na qual existe um “mestre mágico” no domínio da situação, a sua bela pseudo-filha que nunca havia conhecido outro homem além do “pai” e um homem jovem que acaba sendo ferido por ela.

Durante o filme as cores verde, vermelha e azul são valorizadas – o verde na floresta e nas plantas; o vermelho nos blecautes e o azul no teclado do sistema de segurança, por exemplo. Esta é uma referência para o padrão RGB utilizado para exibir imagens nos sistemas eletrônicos.

Agora, hora das curiosidades com SPOILER (não leia… bem, você já sabe). No final do filme aparece Sessão 7 – Ava, ainda que Caleb não esteja mais administrando o Teste de Turing e que Nathan seja morto. Essa parte dá a entender que no fim das contas quem estava aplicando o teste nos dois era Ava. Em certo momento Nathan provoco Caleb a pensar em uma cena da Jornada nas Estrelas. De fato Ex Machina se parece muito com Star Trek: Requiem for Methuselah, de 1969, episódio em que um gênio inventor cria um androide feminino e coloca o capitão Kirk como catalisador de uma experiência para descobrir se a androide poderia amar. Tanto o episódio de Star Trek quanto Ex Machina tem cenas em que aparecem vários robôs parcialmente inativos.

Quando está apenas como máquina, Ava não pisca. Ela só dá as primeiras piscadas quando veste a pele de outra androide e, com isso, termina de “construir-se” como mulher.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 206 críticas positivas e apenas 17 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média 8.

Esta é uma produção 100% do Reino Unido.

Apesar de ter sido bem elogiado e bastante premiado, Ex Machina foi praticamente ignorado no Globo de Ouro 2016. Praticamente, eu digo, porque ele acabou rendendo uma indicação a Melhor Atriz Coadjuvante para Alicia Vikander – ela perdeu para Kate Winslet. Menos mal que o Oscar fez mais jus ao filme e o indicou em duas categorias.

CONCLUSÃO: Um filme competente em sua proposta. A história vai crescendo conforme mergulhamos junto com o protagonista na relação com Eva. Há um par de quase-reviravoltas na história, e isso faz Ex Machina cair no gosto de quem gosta de ser surpreendido. E ainda que este seja um filme que caminha ao lado de outras produções que contam uma certa “revolução feminina”, ele não apresenta, realmente, um grande avanço no gênero. Apesar de ser competente, ele não tem o impacto para o público atual que antes os clássicos da Inteligência Artificial – os já citados 2001 e Blade Runner – tiveram para os seus públicos. É bom, vale ser conferido, mas não é genial.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Ex Machina está concorrendo em duas categorias do maior prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood que será entregue na noite deste próximo domingo, dia 28 de fevereiro. O filme concorre como Melhor Roteiro Original e como Melhores Efeitos Visuais. Sem dúvida alguma merecidas as duas indicações, ainda que eu tenha algumas ressalvas quanto à primeira indicação. Se bem que, devemos admitir, este ano está mais fraco em termos de Roteiro Original.

Ex Machina tem boas sacadas no roteiro, como eu comentei na crítica acima. Mas ele não consegue ir tão além no subgênero da AI a ponto de reinventar a roda. Ou seja, Ex Machina até ajuda a refrescar os filmes de inteligência artificial, ganha pontos na escolha de um texto mais psicológico e com provocação sexual, mas não chega a deixar o espectador maravilhado. Ainda assim, é bem conduzido e tem as surpresas desejadas no roteiro. Sendo assim, merece chegar entre os cinco finalistas em Melhor Roteiro Original.

Sobre ganhar… francamente prefiro o roteiro de Spotlight (comentado por aqui). E sobre originalidade, acho que até Inside Out (com crítica neste link) é mais original que Ex Machina – levando em conta os filmes anteriores dos dois gêneros. Sendo assim, acho que ele não deve levar esta estatueta – eu consideraria um pouco de zebra se isso acontecesse. Acredito que Spotlight será premiado nesta categoria.

Analisando a outra categoria, Melhores Efeitos Visuais, Ex Machina também mereceu a indicação. Não assisti a Star Wars: The Force Awakens, mas há outros três grandes concorrentes na disputa: The Martian (com crítica por aqui), The Revenant (comentado neste link) e, principalmente, Mad Max: Fury Road. Francamente, na maior parte das quedas-de-braço entre Star Wars: The Force Awakens e Mad Max: Fury Road eu acredito que dará o segundo. Neste caso, desconfio, Mad Max vai faturar. Um segundo possível vencedor seja The Martian – o filme merecia, mais que os outros quatro.

Para resumir, em Melhores Efeitos Visuais Mad Max: Fury Road é o grande favorito, mas The Martian pode faturar. Ex Machina ganharia apenas se tiver bom lobby e para não sair de mãos vazias – o que eu acho ser o resultado mais provável.