Lady Bird – Lady Bird: É Hora de Voar

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O final da adolescência é uma fase de autodescobertas e de muitas escolhas. É quando começamos a perceber melhor o que nos faz sentido, o que não faz, porque somos como somos e para onde queremos ir. Lady Bird trata dessa fase, das descobertas, de uma certa revolta e da aceitação pela qual passa uma adolescente. É um bom filme, mas sou franca em dizer que eu esperava mais. Primeiro, porque muitos apontam esse filme como um candidato sério a algumas indicações do Oscar e, inclusive, como possível vencedor em uma ou mais categoria. E, depois, pelas indicações que ele recebeu no Globo de Ouro e por ter sido premiado nesse domingo. A verdade é que a expectativa, que era considerável, não se realizou totalmente.

A HISTÓRIA: Começa com uma frase de Joan Didion: “Qualquer um que fale sobre o hedonismo da Califórnia nunca passou um Natal em Sacramento”. Em uma cama, Marion McPherson (Laurie Metcalf) está deitada ao lado da filha, Christine “Lady Bird” (Saoirse Ronan). Elas estão deixando uma cama de hotel, mas Marion faz questão de fazer a cama. A filha diz que ela não precisa fazer aquilo, mas Marion diz que é sempre bom fazer as coisas bem feitas. A mãe pergunta se a filha está pronta para voltar para casa, e Lady Bird diz que sim. Na volta para casa, de carro, mãe e filha ouvem o final de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. Mas a paz entre mãe e filha logo vai terminar, quando uma simples discussão sobre ligar o rádio termina com um desfecho surpreendente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lady Bird): Algumas pessoas não estão satisfeitas com o lugar de onde elas vieram. E nem com a vida que elas tem. Elas sonham em viver em um lugar distante, onde podem “voltar a ser feliz”. A grande questão é que, geralmente, esta idealização de um local diferente não passa disso mesmo, de uma idealização. Com pouco fundo prático ou ligado à realidade.

Lady Bird nos fala um pouco sobre isso. Sobre a vida que uma pessoa leva, sobre as suas expectativas e desejos, assim como trata da autodescoberta e das relações familiares e com a rede de amigos que nos cerca. Essa produção é bastante honesta e “moderniza” alguns filmes sobre adolescentes que já vimos antes, mas realmente Lady Bird é um filme brilhante?

Eu vi muita gente falando sobre esta produção. Muitos citando ela como uma forte candidata ao Oscar. Como sempre, evitei de ler críticas sobre o filme antes de assisti-lo, mas foi impossível ignorar a ótima aprovação da crítica sobre Lady Bird e como o filme está bem nas “bolsas de apostas” do Oscar. Por isso, devo admitir, assisti ao segundo filme dirigido pela atriz Greta Gerwig com muita expectativa.

Estava esperando uma interpretação irretocável de Saoirse Ronan e um roteiro igualmente inesquecível. E ainda que a atriz esteja muito bem, eu não acho que ela teve um desempenho para ganhar muitos prêmios – especialmente se pensarmos na safra deste ano e em outros desempenhos de atrizes protagonistas. Mas ok, resolveram fazer de Lady Bird o “filme da vez”, e isso acontece de tempos em tempos em Hollywood. Alguns críticos e formadores de opinião resolveram amar esta produção e ela virou um fenômeno.

Sim, Lady Bird tem os seus méritos. Para começar, como eu disse antes, ele ajuda a explicar a juventude do início dos anos 2000 que está na fase de se formar no ensino médio e que tem várias dúvidas sobre o que fazer da vida na faculdade. A busca pela própria identidade, que passa pelas relações familiares, de amigos, os encontros e desencontros da escola e a expectativa da “primeira vez” fazem parte deste contexto e são abordados nesse filme.

Como pano de fundo, vemos a questão social de uma cidade comum americana no início dos anos 2000, quando o pai de uma família perde o emprego e a esposa dele deve dobrar o turno de trabalho para conseguir sustentar a família. Lady Bird tem muitas críticas para fazer contra a mãe, que realmente tem dificuldades de demonstrar carinho e de expressar para a filha o que sente, mas ela também não percebe o quanto a mãe se esforça para manter todos unidos, a casa funcionando e, apesar das dificuldades, ainda ajudar as pessoas.

Desta forma, o roteiro escrito por Gerwig pode fazer muitos adolescentes pensarem de forma um pouco mais ampla – e menos egoísta. Sim, é verdade que Marion muitas vezes é dura demais com Lady Bird. Mas, no fim das contas, o que Marion quer é dar responsabilidade e ensinar valores que ela considera importante para a filha. É verdade que, às vezes, no processo, ela pode fazer mais mal do que bem para Lady Bird – especialmente quando diz para a garota que ela não vai conseguir passar nas faculdades que ela quer ir.

Olhando de forma ligeira para isso, podemos pensar que Marion tem a necessidade de sempre estar “diminuindo” a filha. Como uma forma de compensar as próprias frustrações. Mas uma outra forma de olhar para isso é observar como Marion não quer, no fundo, que a filha vá para longe dela. Apesar de não saber demonstrar os seus sentimentos e de não ser carinhosa, Marion ama a filha da mesma forma com que ama Miguel (Jordan Rodrigues), o filho mais velho.

Algo interessante desse filme é que ele mostra com bastante franqueza a realidade dos jovens americanos de 15 anos atrás. A protagonista, que alimenta o sonho de sair da cidade natal, da qual ela não gosta, para lançar-se em uma cidade maior, passa por experiências marcantes do último ano do ensino médio do qual os americanos gostam tanto de falar.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim, ela acaba se lançando em uma aula de teatro, onde se apaixona pelo jovem Danny O’Neill (Lucas Hedges). Ela vai se frustrar com ele ao descobrir que o garoto é gay. Na sequência, ela se lança na direção de outro jovem, o “artístico” e “descolado” Kyle Scheible (Timothée Chalamet). Como aconteceu antes com Danny, que frustrou as expectativas da jovem, Kyle também a decepciona. E tudo passa – percebemos isso realmente com a passagem do tempo – pelas expectativas que ela nutria sobre uma “primeira vez especial” e sobre romances perfeitos.

Lady Bird mostra, desta forma, os primeiros contatos da protagonista com a frustração e com a realização de um grande desejo – materializado no fato dela conseguir passar em uma universidade que ela queria e, especialmente, sair da cidade natal. Mas quando ela finalmente atinge este “plano ideal”, ela percebe que sair de casa não era realmente o problema. O que ela precisava era começar a olhar para a vida de forma mais franca, sem filtros e distorções. Reconhecer melhor de onde ela vinha e o que formava a sua própria identidade.

Esse é sempre um processo interessante. Lady Bird trata de forma interessante estas questões, ainda que grande parte da história gire em torno das “estripulias” de uma adolescente meio revoltada, meio sonhadora. Sim, os personagens são bem desenvolvidos e há uma ou outra sequência interessante no filme. Mas, no geral, achei ele bastante previsível, um tanto cheio de lugares-comum e de ideias requentadas. Verdade que eu estava esperando um grande filme pela frente, e talvez por causa da minha grande expectativa eu tenha achado ele um tanto frustrante.

Não quero colocar a culpa em outras fontes, mas talvez por ter visto a filmes tão bons nessa safra pré-Oscar – especialmente as produções habilitadas para concorrer na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira -, eu tenha esperado mais de uma produção considerada forte concorrente no ano. Para o meu gosto, produções de outros países que eu citei recentemente aqui no blog, como First They Killed My Father, The Divine Order, Loveless e On Body and Soul tiveram um impacto maior e um frescor de novidade muito maior do que Lady Bird.

Enfim, gosto é gosto. Por isso vou respeitar a todas as pessoas que discordarem de mim. Mas para os meus critérios de avaliação, Lady Bird é um filme com pouca criatividade e inovação. Fora a cena do carro, que está na parte inicial da produção, o restante desse filme não tem realmente um grande impacto ou surpresa. Sim, um filme não precisa ter isso para ser bom. Mas mesmo a parte “filosófica” e que faz pensar em Lady Bird me parece um tanto rasa.

Enfim, por tudo isso, achei esse filme abaixo das minhas expectativas. E só dou a nota abaixo para ele porque eu admito que ele faz um bom trabalho em dialogar com pais e filhos de uma geração mais nova – exatamente essa que nasceu nos anos 2000. Para eles, possivelmente, esse filme terá um efeito maior – até porque a maioria desses pais e filhos não assistiu a tantos filmes até o momento para perceber o quanto Lady Bird repete fórmulas. A contribuição desse filme para essa nova geração, a mensagem positiva da produção para o entendimento entre as pessoas diferentes de uma família, a aceitação de um indivíduo sobre as suas origens e as belas atuações que vemos em Lady Bird é o que me fazem dar a nota abaixo.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Alguém mais observador e que aparece com frequência aqui no blog deve ter notado que eu dei notas mais baixas do que o meu “normal” aqui nas últimas duas críticas. A verdade é que o comentário de um leitor aqui no blog, feito há pouco tempo, me fez repensar nas notas que eu ando conferindo para os filmes. E ainda que cada um tenha o seu critério de avaliação e de “pontuação”, e que esse critério deve ser respeitado, admito que o comentário me fez pensar que eu talvez andasse “muito generosa”.

Comentado isso, afirmo que a partir de agora eu tentarei ser mais “dura” e criteriosa com as notas altas. Realmente darei a nota máxima ou uma nota bastante alta para os filmes que me arrebatarem, que eu achar que são “imperdíveis”. Para os demais, tentarei ser um pouco mais justa na avaliação – especialmente na pontuação.

Sob esta ótica, provavelmente 50% das notas do blog deveriam ser rebaixadas. Mas vou pedir perdão para vocês porque eu não farei isso. Por pura falta de tempo. Se eu não tenho tido tempo nem de responder aos recados de vocês, quanto mais para rever com justiça todas as minhas avaliações aqui no blog. Conto com a generosidade dos leitores para entenderem notas possivelmente mais altas que eu dei anteriormente para filmes que não mereciam avaliação tão boa. A partir de agora, prometo, tentarei ser mais justa e criteriosa. 😉

Voltando a falar sobre Lady Bird, pois. Acho que um dos fatores que me fez não gostar taaanto assim desta produção – ao menos gostei menos do que a maioria dos críticos – foi o fato de que o nome dela me remeteu a outro filme. E, este sim, que eu achei muito mais potente e interessante. Me refiro a Lady Macbeth, produção que eu considero uma das melhores que eu vi em 2017. Enquanto, para o meu gosto, Lady Macbeth se mostra um filme potente e surpreendente, como eu comentei antes por aqui Lady Bird me pareceu um tanto requentado demais, com pouca novidade para mostrar.

Sem dúvida alguma o nome forte desta produção é o de Saoirse Ronan. A atriz soube encarnar muito bem o papel da protagonista. Realmente acreditamos que ela é uma adolescente cheia de questionamentos e com uma certa “crise de identidade”. A atriz não se parece em nada com outros papéis que já desempenhou. Além dela, os destaques desta produção são Laurie Metcalf, que interpreta a mãe da protagonista, Marion; Tracy Letts em uma interpretação sensível como Larry, pai de Lady Bird; Lucas Hedges mais uma vez fazendo um belo trabalho, desta vez como Danny; e Beanie Feldstein como Julie Steffans, melhor amiga da protagonista. Estas são as pessoas que realmente brilham em cena e convencem.

Além deles, outros atores também fazem um bom trabalho, ainda que com menos destaque. Vale citar, neste grupo, Timothée Chalamet como Kyle, segundo “affair” de Lady Bird; Lois Smith como a Irmã Sarah Joan, que é bastante compreensiva com as suas alunas na escola católica; Stephen Henderson como o Padre Leviatch, coordenador do teatro e que sofre com uma certa “crise” na vida; Odeya Rush como Jenna Walton, a garota popular do colégio de quem Lady Bird se aproxima lá pelas tantas; Jordan Rodrigues como Miguel, irmão mais velho da protagonista; Marielle Scott como Shelly Yuhan, namorada de Miguel e que acaba sendo “adotada”/abrigada pelos McPherson; Jake McDorman como Mr. Bruno, um dos professores “gatos” da escola; e Daniel Zovatto como Jonah Ruiz, namorado de Jenna.

Gostei da direção segura de Greta Gerwig. Ela faz um trabalho sempre próximo dos atores e parece, por ser uma atriz bastante experiente, deixá-los bastante à vontade para que eles consigam exprimir tudo que ela deseja para os personagens que criou. O roteiro dela é bom, mas poderia ser melhor. Ela opta por uma narrativa linear, por uma cena na parte inicial de impacto, para “chocar” um pouco o espectador, mas depois acaba se rendendo a uma narrativa um tanto previsível. Desenvolve bem os personagens centrais, ainda que o filme sendo totalmente contado sob a ótica de Lady Bird acaba limitando um pouco a narrativa. Neste sentido, gostei mais, por exemplo, da narrativa fragmenta e com múltiplos olhares de Wonder.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale comentar a direção de fotografia “naturalista” de Sam Levy; a edição precisa de Nick Houy; os figurinos de April Napier; o design de produção de Chris Jones; a decoração de set de Traci Spadorcia; e a trilha sonora praticamente ausente de Jon Brion.

Lady Bird estreou no dia 1º de setembro no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme participou de uma maratona de 17 festivais, um na sequência do outro. Nessa trajetória, o filme ganhou 55 prêmios e foi indicado a outros 126. Realmente são números impressionantes. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Filme – Musical ou Comédia e para Melhor Atriz em Musical e Comédia para Saoirse Ronan.

O filme também apareceu na lista dos 10 melhores filmes do ano segundo o Prêmio AFI; a atriz Laurie Metcalf ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante 20 vezes; a atriz Saoirse Ronan venceu como Melhor Atriz oito vezes – sem contar o Globo de Ouro; Greta Gerwig recebeu três prêmios como Melhor Diretora; o filme ganhou cinco vezes o prêmio de Melhor Roteiro; e a produção foi reconhecida como Melhor Filme em quatro ocasiões  (descontado, novamente, o Globo de Ouro). Uma bela coleção de prêmios, não é mesmo?

Eu gosto muito de Greta Gerwig como atriz. Mas pelo burburinho que ela está provocando com Lady Bird, desconfio que ela vai “se jogar” mais na função de diretora e roteirista. Importante ponderar, contudo, que Lady Bird não é a sua estreia na direção. Ela debutou em 2008 com o filme Nights and Weekends, escrito e estrelado por ela. Mas sim, Lady Bird é apenas o seu segundo filme como realizadora. Agora sim, provocando efeito.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. As atrizes Saoirse Ronan e Greta Gerwig se conheceram no Festival de Cinema de Toronto de 2015, quando Saoirse estava promovendo Brooklyn e Greta estava divulgando Maggie’s Plan. Saoirse leu o roteiro de Lady Bird e imediatamente se sentiu conectada com a protagonista. As duas então discutiram o roteiro no quarto de hotel de Saoirse, quando Greta disse que tinha achado a sua “Lady Bird”.

De acordo com Gerwig, a primeira versão do roteiro desse filme tinha 350 páginas. Se o filme tivesse sido rodado a partir desse original, ele teria seis horas de duração.

Lady Bird quebrou o recorde de críticas positivas de Toy Story 2. A animação registrou 163 comentários positivos no site Rotten Tomatoes antes de registrar a primeira crítica negativa. Lady Bird registrou 196 críticas positivas antes de aparecer o primeiro comentário negativo. Mesmo não tendo mais 100% de críticas positivas, ele registra esse percentual de aprovação entre os “melhores críticos” do site. Algo impressionante e que ajuda a explicar o “burburinho” pro trás desse filme.

Interessante como a diretora e roteirista faz algumas “homenagens” com esse filme. Christine, o nome de batismo de Lady Bird, era o nome da mãe de Greta Gerwig. Além disso, a mãe da protagonista da história, trabalha como enfermeira, mesma profissão da mãe da diretora.

Este foi o último filme feito pela atriz Lois Smith.

A história ocorre entre os anos de 2002 e 2003.

Como a história desse filme sugere, Lady Bird foi realmente rodado nas cidades de Sacramento, na Califórnia; South Pasadena e Los Angeles, no mesmo Estado; e em Nova York – onde a protagonista começa a amadurecer.

De acordo com o site Box Office Mojo, Lady Bird fez US$ 34,1 milhões apenas nas bilheterias dos Estados Unidos. Um resultado muito bom para um filme com “tintas” de independente.

Assistindo a esse filme, não tive como não lembrar da canção clássica da Legião Urbana. “(…) você me diz que seus pais não te entendem/ mas você não entende seus pais/ você culpa seus pais por isso, isso é absurdo/ são crianças como você/ o que você vai ser quando você crescer?”. Sim, mesmo os “revoltados” sempre percebem, mais cedo ou mais tarde, que tudo que eles gostariam eram do amor, do afeto e da “aceitação” dos seus pais. Mas todos nós somos falhos, e cada um tenta dar o melhor de sim. O quanto antes percebemos isso, melhor.

Lady Bird é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 214 críticas positivas e apenas uma negativa para o filme – o que lhe garante a impressionante aprovação de 99% e a nota média tão impressionante quanto, para os padrões do site, de 8,8.

CONCLUSÃO: Um filme sobre o processo de amadurecimento e de autodescoberta sobre o qual todos passam. Lady Bird é focado na protagonista que se autodenominou desta forma. Um filme com uma boa pegada humana, sensível, sobre as origens de uma pessoa e a aceitação dela sobre as suas origens, assim como os seus desejos de mudar. Mas, francamente? Apesar de ter uma boa pegada e belas interpretações, especialmente de Saoirse Ronan, Lady Bird não nos apresenta nenhuma ideia nova.

Quem já assistiu a um bocado de filmes viu, antes, outras produções com essa mesma proposta. Se você for sem expectativa alguma ver a essa produção, talvez ache ela melhor. Como eu esperava algo muito bom, achei Lady Bird apenas mediano. Sim, há bons diálogos e personagens bem desenvolvidas, mas não vi nada assim de tão fantástico nessa produção. Para mim, a experiência foi um tanto frustrante. Mas espero que para você que me lê, sinceramente, ela seja melhor.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Então, minha gente, esse filme realmente caiu no gosto da crítica. Só não sei até que ponto ele caiu no gosto dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Mas, pelo andar da carruagem e avaliando não apenas os prêmios que o filme já recebeu mas as bolsas de apostas para o Oscar 2018, tudo indica que Lady Bird será bem indicado na premiação deste ano.

Não será uma surpresa se essa produção concorrer nas categoria de Melhor Filme, Melhor Diretora (Greta Gerwig), Melhor Atriz (Saoirse Ronan), Melhor Atriz Coadjuvante (Laurie Metcalf) e Melhor Roteiro Original. Ou seja, tudo indica que Lady Bird será indicado a cinco estatueta. Quantas ele deve ganhar? As chances maiores, me parece, são para Laurie Metcalf como Melhor Atriz Coadjuvante. O filme também será páreo duro e tem boas chances em Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz para Saoirse Ronan. Isso, ao menos, avaliando a opinião dos críticos e bolsas de apostas.

Da minha parte, pelo meu gosto pessoal, eu não daria o prêmio de Melhor Roteiro Original. Eu preciso ver a outros filmes que estão forte na disputa pelos prêmios, como The Shape of Water; The Post; Three Billboards Outside Ebbing, Missouri; Call Me By Your Name; The Florida Project; Darkest Hour; All the Money in the World e I, Tonya, mas desde já eu acredito que eu não votaria em Saoirse ou Laurie para ganhar as suas respectivas estatuetas. Mas, como eu não voto no Oscar, 😉 vejamos o que virá por aí.

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Loving Vincent – Com Amor, Van Gogh

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A cada novo frame, uma obra de arte. Sem exageros. Loving Vincent é uma obra estonteante, um verdadeiro deleite para quem já se pegou passando um longo tempo contemplando uma obra de arte. E se você é fã de Van Gogh, então… aposto que você vai ficar sem palavras com este filme. Honestamente, acho que este é um dos filmes mais bonitos que eu já assisti na vida. A história é envolvente, interessante, o filme têm dinâmica e movimento, apesar de ser todo feito a partir de um trabalho totalmente artesanal. Uma bela, belíssima homenagem ao artista que foi incompreendido no seu tempo e valorizado apenas após a sua morte.

A HISTÓRIA: Começa nos informando que o filme que vamos assistir foi totalmente pintado à mão por uma equipe de mais de 100 artistas. Em uma notícia ampliada de jornal, sabemos que em Auvers-Sur-Oise, no domingo dia 17 de julho, Van Gogh, com 37 anos, pintor holandês que estava com “estadia” em Auvers, atirou em si mesmo com um revólver nos campos, mas que ele acabou retornando para o quarto em que estava hospedado, onde morreu dois dias depois. Depois desta notícia, o filme informa que a história de Loving Vincent começa um ano após a morte de Vincent Van Gogh. A “jornada” começa em Aarles, no ano de 1891.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Loving Vincent): Este é um filme que preferencialmente, você deve assisti-lo em um cinema. Afinal, para curtir toda a beleza e o trabalho magnífico dos artistas envolvidos neste filme, só mesmo em frente a uma tela grande. Algo similar com ver uma obra de arte em um livro e/ou na tela do computador ou pessoalmente. A diferença entre as nossas leituras e impressões é gigantesca.

Eu não sou uma grande conhecedora da vida e da obra de Vincent Van Gogh. Eu já vi a algumas de suas obras pessoalmente, em museus de mais de uma latitude, mas eu sei o que quase todo mundo sabe sobre a vida dele. Antes de assistir a este filme, por exemplo, eu sabia sim que ele não tinha sido uma pessoa exatamente feliz em vida, que ele tinha alguns problemas psicológicos – a ponto de cortar a própria orelha em um dia de desespero. E era isso que eu sabia sobre a vida dele.

Sobre a obra… esta eu posso dizer que eu conhecia um pouco mais. Tinha visto a alguns de seus quadros pessoalmente e a vários outros em coleções e livros de arte que eu li há vários anos. A obra dele é realmente algo impressionante. E isso é o que me marcou logo nos primeiros segundos deste filme. Como a equipe dirigida por Dorota Kobiela e Hugh Welchman, responsáveis pelo roteiro desta produção junto com Jacek Dehnel, conseguiram reproduzir com tanto esmero e talento a obra do mestre que eles estão homenageando.

Realmente o trabalho é incrível. Cada frame que vemos em cena, especialmente do “tempo presente” da narrativa, é algo impressionante. Obras de arte que tem os traços e as cores das obras de Van Gogh. Como vários outros filmes com atores reais que são dirigidos em longas que não são de animação, em Loving Vincent o passado é narrado em preto e branco. Um recurso bem conhecido do público para diferenciar dois momentos narrativos diferentes.

Então este é outro ponto marcante nesta produção. Como cada tempo narrativo tem uma técnica diferente de pintura desenho e de arte. Muito interessante como os estilos, tão diferentes, acabam se complementando. Honestamente, achei o trabalho técnico e artístico deste filme impecável. Os realizadores não apenas resgatam a história de Van Gogh, mas o homenageiam de forma espetacular ao reproduzir algumas de suas telas na nossa frente. E o que não foi pintado pelo mestre holandês se inspira na obra dele para preencher os espaços entre uma obra e outra de Van Gogh que vemos em cena. Um trabalho belíssimo.

Imagino que quem conhece com profundidade a vida de Van Gogh, não tenha se surpreendido tanto com esta história quanto eu. Possivelmente esta pessoa que tem mais conhecimento tenha também achado um e outro defeito da história que está sendo contada. Da minha parte, de quem não é uma especialista em Van Gogh, achei o roteiro de Kobiela, Welchman e Dehnel muito bem construído. A história segue uma linha um tanto “clássica”, intercalando o momento presente da narrativa e o passado que tenta explicar o que teria provocado a morte prematura do pintor holandês.

O protagonista desta produção, o jovem Armand Roulin (com voz de Douglas Booth), que foi retratado por Van Gogh e que era filho do carteiro que atendeu o artista por muitos anos, faz as vezes em Loving Vincent de um investigador. Enviado pelo pai, Joseph Roulin (Chris O’Dowd), para encontrar a última carta escrita por Van Gogh, Armand acaba indo atrás, primeiro, do irmão do pintor holandês, Theo van Gogh (Cezary Lukaszewicz). Afinal, ele era o destinatário da carta e parecia a pessoa certa a receber esta última correspondência.

Em Paris, Armand descobre que Theo não morreu muito depois do irmão. E a esposa e filhos dele já não estão morando mais ali. Então ele decide ir para Auvers, onde Van Gogh morreu, para tentar encontrar algumas respostas sobre o que aconteceu com o amigo de seu pai. Inicialmente, Armand tinha pouco interesse em realmente saber o que tinha acontecido com Van Gogh, até porque ele acreditava na versão oficial de que o pintor tinha se matado. Mas a certeza do pai dele de que isso não teria acontecido com o amigo Van Gogh, que estaria melhor de uma depressão, fazem com que Armand acabe investigando as relações e os últimos dias de Van Gogh.

No fim das contas, Armand acredita que se ele entregar a carta de Van Gogh para o Doutor Gachet (Jerome Flynn), ele poderá dar o destino correto para a correspondência. É desta forma que ele conhece algumas pessoas interessantes e que foram retratadas por Van Gogh em suas obras. O roteiro de Loving Vincent equilibra, desta forma, esta espécie de “investigação” sobre a morte de Van Gogh, o que imprime um pouco de suspense para o roteiro do filme, com um resgate de fatos da vida do artista que aparecem como pinceladas volta e meia na história.

Assim, sabemos um pouco sobre a infância dele, da relação conturbada com os pais, sobre a dependência e a proximidade de Vincent com o irmão Theo, assim como sabemos sobre as alegrias e os muitos desafios e fontes de tristeza que o artista teve na sua vida. Fica evidente, com este filme, que Van Gogh foi incompreendido em seu tempo. Ele não teve apoio de ninguém além do irmão, e não teve sucesso com a sua arte enquanto vivo. Também sabemos sobre o quanto ele escrevia – muito! – para o irmão e sobre como ele era admirado pelas pessoas que o conheceram mais de perto. Afinal, ele era um sujeito calmo, atencioso, educado, e que vivia por sua arte.

Uma história interessante por si mesma, pois, e que foi muito bem explorada por esta produção. Claro que a vida de um artista como Van Gogh não pode ser resumida em 1h34 de filme, como é a duração desta produção, mas a homenagem que os realizadores fizeram para o artista aqui é impressionante e maravilhosa. Me apaixonei por esta produção. Achei uma grande experiência de cinema. Dos melhores filmes que eu já vi do gênero. Por isso, recomendo a todos que assistam a Loving Vincent. Especialmente nos cinemas.

Além de todos os fatos que eu citei anteriormente e de todas as qualidades relacionadas, também pela história inspiradora de Vincent Van Gogh. Ele viveu em outro tempo e em outros locais do que a gente, mas algo que podemos aprender com a sua história é que quando nos dedicamos a um talento com o qual nascemos, maravilhas surgem do nosso trabalho. Mas que para chegarmos a um trabalho excepcional, precisamos sacrificar outras partes da nossa vida e realmente trabalhar muito. Van Gogh era um apaixonado pela arte e uma pessoa muito atenta e admiradora de tudo que o cercava. Características que deveriam nos inspirar e nos fazer pensar sobre como gastamos o nosso tempo, não é mesmo? Belo filme.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei dos poucos momentos em que este filme citou trechos de cartas e, consequentemente, do pensamento de Vincent Van Gogh. Claro que o filme, com a duração que ele tem, já deu muitíssimo trabalho para os realizadores, mas eu não teria achado ruim mais 10 ou 15 minutos de filme e a citação de mais trechos de cartas de Van Gogh. Algo que esta produção desperta é o nosso interesse por saber mais sobre o artista, a sua vida, o que ele pensava e como ele produzia as suas obras de arte.

Falando no pensamento de Van Gogh, uma das frases dele que são citadas, logo no início do filme e que serve como uma espécie de cartão-de-visitas da produção é esta aqui: “Só podemos falar através das nossas pinturas”. De fato, Van Gogh acreditava nisso. Como ele não tinha muitas relações pessoais e pensava e conversava através de sua arte, é que entendemos o porquê dele ser tão talentoso.

Todos os atores que “interpretam” os personagens deste filme, ou seja, que dão vozes para eles, estão muito bem. O destaque inevitável, claro, pela presença dele em tela e por conduzir a narrativa, é para o ator Douglas Booth, que interpreta a Armand Roulin. Mas outros personagens e atores que ganham destaque neste filme são Eleanor Tomlinson, que interpreta Adeline Ravoux, filha dos proprietários do hotel em que Van Gogh ficou hospedado e onde morreu; Saoirse Ronan como Marguerite Gachet, filha do Doutor Gachet e uma grande admiradora do talento de Van Gogh; Jerome Flynn como Doutor Gachet, uma figura muito próxima de Van Gogh na temporada próxima de sua morte; Robert Gulaczyk como Vincent Van Gogh; Cezary Lukaszewicz como Theo van Gogh; Robin Hodges como o Lieutenant Milliet; Chris O’Dowd como o carteiro Joseph Roulin; John Sessions como Pere Tanguy, dono de galeria que tentava comercializar as obras de Van Gogh em Paris; Helen McCrory como Louise Chevalier, empregada dos Gachet; Aidan Turner como o barqueiro que conviveu com Van Gogh e que é procurado por Armand; Bill Thomas como o Doutor Mazery, que deu outra interpretação para o tiro que Van Gogh levou; e Piotr Pamula em uma ponta como Paul Gaugin.

Além da direção e do roteiro, já comentados antes, o grande mérito desta produção ser tão bela e perfeita são os artistas – mais de 100, como foi comentado na introdução deste filme – envolvidos nas pinturas que compõem este filme. O trabalho deles é que faz Loving Vincent ser tão diferenciado. Então todos os louros para os 20 nomes relacionados no Departamento de Arte deste filme e para os 111 nomes que trabalharam no Departamento de Animação. Eles são os grandes responsáveis por este filme ser tão especial. Parabéns a todos os envolvidos, pois!

Da parte técnica do filme, também vale destacar o ótimo – e fundamental – trabalho dos diretores de fotografia Tristan Oliver e Lukasz Zal; o belo e pontual trabalho de Clint Mansell com a trilha sonora; a edição cuidadosa e precisa de Dorota Kobiela e de Justyna Wierszynska; o design de produção de Matthew Button, Maria Duffek e Andrzej Rafal Waltenberger – os dois últimos envolvidos nas fotografias dos atores em Wroclaw, trabalho esse que depois influenciaria nas pinturas dos artistas que fizeram esta produção; a direção de arte de Daniela Faggio; os figurinos de Dorota Roqueplo; o trabalho dos 17 profissionais envolvidos com o Departamento de Som – responsáveis, entre outros pontos, pela difícil sincronização das falas dos atores com o trabalho dos artistas envolvidos com as animações; e os 50 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais.

Loving Vincent estreou em junho de 2017 no Annecy International Animation Film Festival. Depois, esta produção participaria, ainda, de outros 25 festivais em várias partes do mundo. Nesta trajetória, Loving Vincent ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 11. Entre os que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Filme segundo a escolha do público no Annecy International Animation Film Festival; para o de Melhor Animação Estrangeira/Trailer Familiar e para o Melhores Gráficos Estrangeiros em um Trailer no Golden Trailer Awards; para o prêmio de Melhor Filme de Animação no Festival Internacional de Cinema de Shanghai; e para o prêmio Produção Internacional Mais Popular no Festival Internacional de Cinema de Vancouver. Loving Vincent também figura no Top 10 da lista do National Board of Review de Filmes Independentes. Ele é a única animação da lista, vale dizer.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. De acordo com o site IMDb, Loving Vincent é o primeiro longa de animação totalmente pintado que já foi realizado pelo cinema mundial. Baita, não?

Segundo os produtores, cada um dos 65 mil frames que vemos em cena, nesta produção, são quadros de pinturas a óleo sobre tela. A parte do filme colorida utiliza a mesma técnica utilizada por Van Gogh; técnica esta reproduzida por pouco mais de 100 artistas.

Durante uma “masterclass” no Klik Amsterdam Animation Festival, os diretores Dorota Kobiela e Hugh Welchman afirmaram que, se você olhar atentamente para cada cena desta produção, em uma delas você poderá notar uma mosca presa na pintura de um dos quadros. Quem se habilita a buscar a tal mosca? 😉

Loving Vincent foi totalmente rodado no Three Mills Studios, na cidade de Londres, no Reino Unidos.

Este filme é uma coprodução do Reino Unido com a Polônia.

Claro que existem muitos outros textos melhores e mais profundos sobre a vida de Vincent Van Gogh. Mas vale, para os que ficaram curiosos para saber um “resumo” sobre a trajetória do artista, dar uma olhada nos textos dos sites InfoEscola; History; UOL Educação; e Huffpost Brasil.

De acordo com o site Box Office Mojo, Loving Vincent teria feito quase US$ 5,8 milhões nos cinemas dos Estados Unidos. Para um filme independente e com a proposta desta produção, acho que não está nada mal. Mas o principal concorrente dele no Oscar 2018 está em primeiro lugar nas bilheterias dos Estados Unidos e conseguiu, até o momento, pouco mais de US$ 135,5 milhões apenas nos Estados Unidos. Ou seja, uma comparação realmente brutal – e não fica difícil presumir para onde “pende” o pêndulo da indústria de Hollywood, não é mesmo?

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 94 críticas positivas e 21 negativas para este filme – o que garante para Loving Vincent uma aprovação de 82% e uma nota média 7. Pelos prêmios que eu citei antes, já dá para perceber que este filme agradou mais ao público do que aos críticos, não é mesmo?

Procurando saber um pouco mais sobre os realizadores deste filme, achei interessante saber – e comentar com vocês – que Loving Vincent marca a estreia na direção do produtor Hugh Welchman. Por outro lado, este filme é o quarto trabalho na direção de Dorota Kobiela. Ela estreou na direção com o longa The Flying Machine, em 2011, e, depois, dirigiu a dois curtas antes de fazer com Welchman o filme Loving Vincent.

Ah sim, e você, como eu, deve ter se perguntado como os artistas trabalharam cada frame que vemos em cena, não é mesmo? Pesquisando sobre o filme e vendo fotos de bastidores, percebi que os diretores filmaram as cenas com os atores e que depois cada um daqueles 111 envolvidos com o trabalho do Departamento de Animação produziram as telas que reproduziram a ação em quadros que são verdadeiras obras de arte. Bem bacana!

CONCLUSÃO: Para quem é um profundo conhecedor da vida e da obra de Van Gogh, possivelmente a leitura deste filme será diferente da minha. Como eu não me enquadro neste perfil, me considero apenas uma pessoa com conhecido médio sobre o artista, achei Loving Vincent simplesmente divino. É um prazer passar pouco mais de uma hora e meia no cinema, frente a uma grande tela que desfila obras de arte a cada novo frame, como comentei lá na introdução deste texto.

Como animação, este filme é um dos melhores que eu já vi na vida. Enquanto história criada para o cinema, este filme cumpre bem o seu propósito, resgatando parte da vida, da obra e do pensamento do artista. Para mim, um trabalho irretocável. Merece ser visto com tempo e, quem sabe, até revisto. Este é um dos raros casos de peça de cinema que não cansa pela experiência prazerosa de cada cena. Não perca!

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Loving Vincent é um dos 26 filmes de animação que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood informou que está concorrendo a uma vaga na disputa de Melhor Filme de Animação no próximo Oscar. Este filme a exemplo do que aconteceu em outros anos, foge do padrão “hollywoodiano” de filmes de animação. Especialmente pelo fato desta produção ser artística e mais “adulta”, diferente das produções que costumam ganhar o prêmio e que são feitas pela Disney ou pelo estúdio Pixar.

Francamente, este é o primeiro filme da lista de 26 que eu assisto. E mesmo sem poder compará-lo com os demais ainda, digo com toda a certeza que ele não deveria ficar fora da disputa do Oscar 2018 em sua categoria. Esta produção é brilhante, belíssima, muito bem narrada e com uma beleza ímpar. Como e disse antes, um dos melhores filmes que eu já vi do gênero. Então, apesar de não ter o lobby dos grandes estúdios, Loving Vincent deveria sim estar entre os cinco finalistas desta categoria.

Agora, ele tem chances de ganhar o Oscar? O franco favorito, pelo que eu tenho lido, é o sucesso de público e de crítica Coco. Existem outros filmes que estariam na “dianteira” desta disputa, como The Breadwinner, Ferdinand e Birdboy: The Forgotten Children, além de outras produções que estariam correndo um pouco por fora mas com chances de chegar a uma das cinco indicações, como os filmes da grife The Lego Movie e The Boss Baby.

Para realmente opinar sobre esta categoria, eu preciso ver a outros concorrentes. Mas analisando apenas Loving Vincent, o meu foto seria, inicialmente, para ele. Seria muito injusto este filme não figurar entre os cinco finalistas ao Oscar. O grande desafio desta produção será vencer o grande lobby do filme Coco, uma coprodução das gigantes Disney e Pixar. Me parece que Coco leva vantagem, mas seria bacana ver a “zebra” Loving Vincent ganhar esta disputa.

ATUALIZAÇÃO (11/12): Hoje, dia 11 de dezembro, saiu a lista dos filmes indicados ao Globo de Ouro. Loving Vincent foi indicado na categoria Melhor Filme de Animação. Como esperado, o principal concorrente dele será Coco. Esperamos que este filme também consiga a sua vaga no Oscar. Eu estou na torcida desde já! 😉

Brooklyn

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Morar fora de seu habitat natural nunca é algo simples. Mas retornar para “casa” também não é. Até porque, depois de algum tempo, você descobre que a noção de “casa” é muito relativa. Brooklyn nos conta a história de uma imigrante irlandesa que adota os Estados Unidos como a sua nova morada. A trajetória dela resume a de tantos outros imigrantes que fizeram não apenas os Estados Unidos, mas tantos outros países mundo afora.

A HISTÓRIA: Eilis (Saoirse Ronan) sai de casa quando ainda está escuro. Ao lado de Miss Kelly (Brid Brennan) e de Mary (Maeve McGrath) ela participa da missa antes de ir trabalhar no armazém de Miss Kelly. Chegando no local, Eilis pede para falar com a empregadora, mas ela comenta que aquele não é um bom momento. Depois da missa das 9h, o armazém fica cheio. Miss Kelly tem um jeito bem diferenciado de tratar os clientes, o que visivelmente incomoda Eilis.

Quando o estabelecimento fecha, Eilis comunica que está se mudando para a América. Quem arranjou tudo foi o padre Flood (Jim Broadbent), que atendeu a um pedido da irmã mais velha de Eilis, Rose (Fiona Glascott). Acompanhamos a jornada da jovem irlandesa nos Estados Unidos, com ela indo morar e trabalhar no Brooklyn, bairro com grande população vinda da Irlanda.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Brooklyn): O Oscar 2016 está com uma seleção interessante. Ao mesmo tempo que temos filmes ousados na direção e no roteiro, como The Revenant, Room e Mad Max: Fury Road, temos produções muito sensíveis e delicadas, como Carol e esta Brooklyn.

Antes de assistir a este filme, como mandam as minhas regras próprias, eu não sabia nada de Brooklyn. Apenas, claro, que ele tinha uma elogiada atuação de Saoirse Ronan. De fato a atriz é um dos pontos fortes do filme, assim como Cate Blanchett e Rooney Mara são a fortaleza de Carol (com crítica aqui no blog).

A diferença é que a interpretação de Ronan é muito mais “entregue” e destemida do que as interpretações de Blanchett e Mara, destacadas pela expressão dos sentimentos, em muitos momentos, apenas pelos olhares. Ronan não. Ela demonstra uma certa obstinação desde o início, mas com a diferença que faz você sair de um local aonde conhece a todos, está cercada de família e de amigas, para outro local aonde está praticamente sozinha. Quando se muda desta forma de cenário, é inevitável que a pessoa também mude por dentro.

Assim como Carol, Brooklyn é um interessante retrato de uma época e de um local. Nos dois filmes o contexto histórico e social jogam um papel importante. No caso de Brooklyn, é especialmente interessante observar as diferenças entre o local de origem da protagonista, uma Irlanda provinciana aonde as pessoas prezam tanto a ida regular na Igreja quanto a vigilância sobre os vizinhos e conhecidos, e os Estados Unidos que começa a ser cosmopolita e aonde há excesso de gente, de ilusões e de sonhos, com cada pessoa lutando para sobreviver e crescer da melhor forma possível.

Diferente de Carol, Brooklyn mergulha de forma mais franca no romance clássico e sem amarras como o caso proibido do outro filme. De forma muito coerente, Ronan demonstra toda a tristeza de Eilis na primeira fase dela nos Estados Unidos, quando ela ainda tenta se adaptar ao jeito mais franco e mais exigente da sociedade norte-americana. Neste contexto e tentando fugir da nova inquilina da pensão aonde ela mora, a esquisita Dolores (Jenn Murray), Eilis conhece em um baile da colônia irlandesa o italiano Tony (Emory Cohen).

A partir daí o filme mergulha no romance entre os dois. Cohen parece um Al Pacino jovem. Ele tem talento, carisma e uma bela sintonia com Ronan. O casal convence. E aí vem um dos grandes acertos do roteiro de Nick Hornby inspirado no romance de Colm Tóibín: quebrar toda a sequência óbvia de eventos com um fato trágico na história. Além de dar uma nova dinâmica para o filme, esse fato também reproduz o que acontece na vida real. Não estamos no controle das nossas vidas e, quando menos esperamos, fatos marcantes acabam mudando tudo o que esperávamos que aconteceria depois.

Muito antes do que o esperado Eilis se vê obrigada a voltar para a Irlanda. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E para surpresa dela, e do espectador também, ela acaba encontrando a realidade em casa diferente. Tudo parece conspirar para que ela fique lá cuidando da mãe, Mary Lacey (Jane Brennan) e ganhando dinheiro em um bom emprego, que antes era da irmã. Para completar o cenário, ela fica encantada com Jim Farrell (Domhall Gleeson), amigo de sua melhor amiga, Nancy (Eileen O’Higgins), que está prestes a se casar.

O que pareceria ser uma nova e feliz vida nos Estados Unidos acaba ficando em segundo plano. Ela está em casa, se sente bem e feliz. De uma forma que não era antes no mesmo lugar. Mas será que o lugar mudou ou foi ela? Em breve ela terá a resposta para isso. A verdade é que sempre mudamos quando nos desafiamos para isso. Eilis não é mais a mesma e, ao mudar, ela também moveu a roda das oportunidades ao seu redor. A casa que ela conhecia não é a mesma – por um lado, mais triste e vazia, por outro, mais promissora e interessante.

A vida é cheia de possibilidades e cada vez que fazemos uma escolha abrimos certos caminhos e damos costas para outros. Mas se Eilis está em dúvida sobre que caminho seguir – ou pelo menos é isso que o roteiro de Brooklyn sugere -, em breve uma coincidência destas de “mundo menor que uma noz” vai fazer ela lembrar de escolhas que fez e que devem moldar os seus passos.

Interessante como Eilis, assim como nós mesmos, é surpreendida pelos fatos. Ela tinha certeza que iria visitar a mãe na Irlanda e que logo voltaria para a sua nova vida nos Estados Unidos. O que ela não esperava é que a sua casa antiga estivesse tão diferente e com novas possibilidades.

Se não fosse a intromissão de Miss Kelly será que Eilis poderia ter escolhido outro destino? Pode ser que sim, pode ser que não. Nunca saberemos. Ela estava dividida entre obrigações – com a mãe, com Tony – e entre futuros possíveis na Irlanda ou nos Estados Unidos. Mas como não podemos abraçar o mundo, mais cedo ou mais tarde ela teria que tomar uma decisão. A intrometida Miss Kelly apenas apressou uma solução para o problema. Ainda que Eilis já parecia estar propensa a esta decisão.

Desta forma Brooklyn se revela um filme interessante não apenas por tratar de imigração ou por ser uma história de romance clássico. Ele chama a atenção por tratar dos sentimentos de pertencimento a um lugar que todos nós vivenciamos e sobre as escolhas que fazemos na nossa vida e o que elas podem acarretar para o nosso futuro.

Quando saímos de um lugar e caminhamos para a frente, nunca mais podemos olhar a paisagem da mesma forma. A ótica do lugar novo é diferente, para o bem e para o mal. Neste contexto, devemos nos contentar em sentir sempre saudade de algo, mas ter coragem para abraçar as escolhas que fizemos e, assim, vivenciar a felicidade. Sabendo que nunca mais pertenceremos a um lugar totalmente, e que são as pessoas que fazem os lugares e cada um de nós nos sentir em casa ou não. Brooklyn é um filme sobre o desabrochar de uma mulher e sobre a descoberta de uma sociedade mais livre. Vale o ingresso

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este filme tem uma escolha interessante de atores. Apesar de estar centrado no trabalho de Saoirse Ronan, sem dúvida alguma a protagonista feita para brilhar nesta produção, Brooklyn tem um elenco de apoio de peso. Entre os nomes interessantes estão os do já citados Jim Broadbent como o padre Flood; Jane Brennan como Mary Lacey; Fiona Glascott como Rose; Eileen O’Higgins como Nancy; Emory Cohen como Tony e Domhall Gleeson (que parece estar em todas) como Jim Farrell.

Mas além deles, que já foram citados, vale comentar o bom trabalho de Eva Birthistle em uma super ponta como Georgina, a mulher que divide a cabine no navio com Eilis na viagem de ida para os Estados Unidos; Peter Campion como George Sheridan, que se casa com Nancy; Julie Walters quase irreconhecível como Mrs. Keogh, dona da pensão aonde Eilis fica hospedada; Emily Bett Rickards como a deslumbrada Patty, que faz dupla junto com a atriz Nora-Jane Noone, que interpreta Sheila, como as fofoqueiras e engraçadinhas da pensão; e Jessica Paré, que me faz sempre lembrar de Mad Men, como Miss Fortiri, a chefe direta de Eilis na loja de departamento em que ela trabalha no Brooklyn.

Como esta produção se passa nos anos 1950, acaba sendo fundamental para a história diversos aspectos técnicos que ajudam Brooklyn a ser um filme de época. Neste sentido destaco, em especial, o design de produção de François Séguin; a direção de arte de Irene O’Brien e Robert Parle; a decoração de set de Suzanne Cloutier, Jenny Oman e Louise Tremblay; e os figurinos acertados de Odile Dicks-Mireaux.

Algo admirável neste filme é como o diretor John Crowley conduz a narrativa. Ele está sempre atento às expressões da protagonista e dos demais atores em cena. Além disso, claro, ele não ignora os belos cenários e a contextualização das duas sociedades retratadas. Neste sentido, merece ser mencionado também o trabalho do competente diretor de fotografia Yves Bélanger. Outro item importante para o filme é a trilha sonora de Michael Brook, bastante emotiva na maior parte do tempo.

Brooklyn teve uma história longa até chegar ao Oscar. O filme estreou em janeiro de 2015 no Festival de Cinema de Sundance. Depois ele passaria por outros 21 festivais mundo afora. Nesta trajetória a produção colecionou 21 prêmios e foi indicada a outros 105, incluindo três indicações ao Oscar 2016. Entre os prêmios que recebeu, destaque para sete prêmios como Melhor Atriz para Saoirse Ronan; para quatro prêmios conferidos pelo público como Melhor Filme; para um prêmio como Melhor Roteiro Adaptado; e para dois prêmios como Melhor Design de Produção.

Esta produção teve cenas rodadas em Enniscorthy, na Irlanda; em Montreal, no Canadá; e em Coney Island e no Brooklyn, nos Estados Unidos.

Brooklyn teve uma bilheteria bastante singela, até agora, nos Estados Unidos. O filme conseguiu fazer, até ontem, dia 18 de janeiro, pouco mais de US$ 25,1 milhões. Não encontrei informações sobre o custo da produção.

Este filme, aliás, é uma coprodução da Irlanda, do Reino Unido e do Canadá. Uma exceção entre os filmes que estão concorrendo ao Oscar de Melhor Filme – o único que não tem os Estados Unidos como produtor ou coprodutor.

Agora, algumas curiosidades sobre Brooklyn. O diretor John Crowley dividiu o filme em três movimentos visuais diferentes. O primeiro é aquele que acompanha a protagonista antes dela sair da Irlanda e viajar pela primeira vez para os Estados Unidos e se caracteriza por enquadramentos apertados e cheios de tons de verde. O segundo movimento começa quando Eilis chega no Brooklyn e as imagens passam a ser mais amplas e abertas, com cores mais vivas e alegres para marcar a América de 1952 que vivia o auge da cultura pop. O terceiro movimento está na segunda viagem dela para os Estados Unidos, quando as imagens ficam mais brilhantes, com mais glamour e “sutilmente mais colorido” do que no primeiro movimento. O objetivo do diretor era mostrar a mudança pela qual Eilis passou e, no final, ressaltar como ela estava mais sonhadora do que no início. Interessante.

A atriz Saoirse Ronan nasceu no Bronx, em Nova York, mas foi criada na Irlanda por seus pais, que eram irlandeses. Por isso mesmo ela considera Brooklyn como um de seus filmes mais pessoais. Além disso, essa é a primeira vez que ela utiliza o seu sotaque irlandês em uma produção.

Saoirse Ronan estava em uma manicure em Dublin quando recebeu uma ligação dizendo que ela estava concorrendo ao Globo de Ouro pelo seu papel como Eilis. Ela ficou tão contente que mandou comprar champanhe para todos que estavam no salão. Gracioso! 😉

O vestido amarelo que Eilis utilizada em uma cena é o preferido da figurinista Odile Dicks-Mireaux. Ele foi comprado em uma loja em Montreal.

A ideia para o romance do escritor irlandês Colm Tóibín surgiu de uma memória de infância dele. O autor lembrou de uma mulher que havia comentado sobre a viagem de sua filha de Enniscorthy, na Irlanda, para o Brooklyn. No ano 2000 Tóibín escreveu uma história curta a partir desta lembrança, mas decidiu ampliá-la depois que ele mesmo morou nos Estados Unidos por algum tempo. O autor também revelou que foi inspirado pela obra de Jane Austen – faz todo o sentido pelo “espírito” que este filme tem.

O Brooklyn que aparece no filme foi ambientado na canadense Montreal por uma questão orçamentária. Sairia muito caro mudar o Brooklyn do tempo atual para o estilo que o bairro tinha nos anos 1950.

Outra curiosidade técnica importante do filme: nas cenas de close-up da atriz Saoirse Ronan o diretor de fotografia Yves Bélanger utilizou lanternas individuais para os olhos da atriz com o objetivo de adicionar mais brilho para as suas expressões. Bélanger também utilizou uma câmera de mão Alexa e uma combinação de luzes de estúdio e de iluminação natural para capturar uma representação mais real e pessoal dos anos 1950.

Michael Brook decidiu usar o violino como o instrumento da personagem de Eilis. Quem executa o violino nas cenas com a atriz é a mulher de Brook, Julie Rogers.

Entre os filmes irlandeses, Brooklyn foi o que teve a melhor estreia em 19 anos. Naquele país o filme teve a maior presença em cinemas da história, superando o filme Michael Collins, de 1996.

Brooklyn foi aplaudido de pé quando estreou no Festival de Cinema de Sundance.

Não li o livro de Tóibín, mas segundo as notas de produção de Brooklyn, o filme tem um final diferente do livro. Quem tiver lido a obra original, por favor, pode comentar aqui qual é a grande diferença do final? Desde já eu agradeço. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, uma boa avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 182 críticas positivas e quatro negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média de 8,6. Bela avaliação, aliás.

CONCLUSÃO: Diferentes paixões movem quem sai de seu lugar de origem e passa a viver em outra parte. Brooklyn conta a história de uma garota que empreende esta jornada sozinha, a exemplo de tantas outras pessoas. Bem conduzido e com uma interpretação muito sensível de Saoirse Ronan, Brooklyn reforça a boa safra do cinema nesta temporada do Oscar.

Além de enfocar um assunto tão em voga quanto a imigração, ele trata de outros temas importantes na formação da Irlanda e dos Estados Unidos, como a religião, os costumes e a busca por autonomia das mulheres. Com roteiro bem construído, Brooklyn dá espaço para Saoirse Ronan brilhar. Além da imigração e da contextualização de época, este filme é um grande romance. Bem ao gosto dos ingleses, coprodutores do filme. Vale especialmente pelo contexto histórico, pelo conjunto da obra e por Ronan.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Brooklyn foi indicado em três categorias da premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Além de concorrer a Melhor Filme e Melhor Atriz (Saioirse Ronan), a produção concorre também como Melhor Roteiro Adaptado. Francamente, vejo poucas chances dele ganhar qualquer um destes prêmios.

Melhor Filme está fora de cogitação. Melhor Atriz parece estar definido para Brie Larson, de Room (comentado aqui no blog). Outro páreo duro para Ronan, caso Larson perca, seria Cate Blanchett por Carol (com crítica neste link), outro filme de época. Fechando a lista de possibilidades, Brooklyn concorre com The Big Short, Carol, The Martian e Room como Melhor Roteiro Adaptado.

The Big Short parece levar uma certa vantagem, ainda que a minha torcida vá para Room. The Martian e Carol também são grandes adaptações. Não vejo muitas chances para Brooklyn. Ou seja, no fim das contas, o filme deve sair de mãos abanando no Oscar. Não porque não tenha qualidades, mas porque os concorrentes são melhores.

The Grand Budapest Hotel – O Grande Hotel Budapeste

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Filmes que misturam a fantasia e a realidade e que buscam inovar sem disfarçar a homenagem ao cinema dos primeiros tempo são fascinantes. Muitas vezes mais pela proposta do que pelo resultado final. The Grand Budapest Hotel é uma destas produções que agrada pelo ritmo e pelas diversas referências. O problema é que este título surge após vários outros que traçaram caminhos parecidos e que utilizaram recursos similares para contar histórias cheias de fantasia. Assim, ele parece um tanto “repetitivo” em certa medida.

A HISTÓRIA: Inicia na fronteira europeia mais oriental, a ex-República de Zubrowka, que já foi trono de um Império. Uma garota entra no “antigo cemitério de Lutz”. Ela caminha sobre a neve, passa por alguns homens, e chega até um busto identificado com a inscrição “em memória do nosso tesouro nacional”. Coloca um chaveiro junto a outros pendurados, enquanto a câmera percorre o nome “Autor” e vemos a imagem de um senhor de bigode e óculos. A garota olha para a capa do livro que segura entre as mãos: O Grande Hotel Budapest. Na contracapa, a imagem do Autor (Tom Wilkinson). Corta. Em seguida, o Autor, em 1985, fala sobre a inspiração de escrever antes de explicar a origem da história de seu famoso livro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue lendo quem já assistiu a The Grand Budapest Hotel): Um grande elenco e um grande diretor sempre despertam uma expectativa considerável. Ouvi falar muito bem deste filme, e tendo assistido a ótimos trabalhos do diretor Wes Anderson, incluindo o último Moonrise Kingdom (comentado aqui), admito que eu estava esperando muito de The Grand Budapest Hotel. Infelizmente encontrei bastante “mais do mesmo”, e não consegui ficar impressionante com o resultado final desta produção.

A primeira sensação que eu tive enquanto os minutos da narrativa passavam é que Anderson havia feito mais um filme bem realizado tecnicamente, com bastante estilo e seguindo a linha de produções feitas por ele anteriormente, sabendo convencer um grande elenco para encarnar seus personagens, mas sem inovar muito na entrega. E não sei vocês, mas tenho um pouco de preguiça em ver um realizador repetindo a própria fórmula – algumas vezes, ao variar com ela, ele apena preserva uma assinatura, um estilo, mas quando até os detalhes são repetidos, o espectador fica com a sensação de déjà vu.

Mesmo tendo uma hora e meia de duração – que cada vez mais eu tenho achado perfeita para qualquer história no cinema -, The Grand Budapest Hotel pareceu mais longo que isso para mim. Talvez pelo design de produção burlesco e carregado do filme, ou porque achei a história escrita por Anderson e por Hugo Guinness um pouco carente de novidade… Mas o fato é que não fiquei tão envolvida com a produção quanto eu gostaria.

Achei o design de produção, a direção de fotografia, a direção de arte e os efeitos visuais dignos de aplausos. Mas tudo isso, a exemplo dos doces servidos por Agatha (Saoirse Ronan), me deram a impressão de muito glacê e pouco recheio. A história, que vamos saber apenas no final, foi inspirada nas obras do escritor Stefan Zweig, mistura humor, romance, algumas cenas inspiradas e uma narrativa que corre apressada em vários momentos de muita ação. A salada mista é valorizada por um ótimo elenco, mas só ganha interesse real quando fazemos um paralelo de tudo que vimos com a história de Zweig.

E esse é o ponto fundamental para a nota abaixo. Mais que a qualidade técnica do filme, o que me fez achar The Grand Budapest Hotel interessante foi refletir sobre o que eu tinha visto fazendo um paralelo com o escritor austríaco que decidiu matar-se no Brasil, onde vivia, após ficar desiludido com os rumos que o mundo estava tomando. Daí sim, pensando nisso, este filme passa a ganhar outras tintas.

Quem olha apenas para a cobertura cheia de glacê de The Grand Budapest Hotel vê somente o apuro visual e as interpretações inspiradas do elenco, com destaque para a dobradinha da dupla Ralph Fiennes (como o concierge original do hotel, o Monsier Gustave, ) e Tony Revolori (como o mensageiro, o “lobby boy”, Zero).

Mas a homenagem nos créditos finais fazem a produção ter um outro sabor, escondido por baixo de tanto glacê. Apesar de divertido em muitos momentos, romântico em alguns lampejos e veloz durante os momentos de ação, The Grand Budapest Hotel é um filme sobre princípios e sobre a poesia que resiste em momentos em que a realidade toda parece dominada pela crueldade.

Para começar, fica ainda mais interessante a “introdução” feita pelo Autor que aparece no filme. De fato, Zweig sempre foi inspirado por histórias reais que ele ouviu de outras pessoas e, especialmente, pelas próprias vivências, paisagens e pessoas que ele encontrou pelos diferentes lugares por onde esteve. Quem vive da arte, seja ela escrita, filmada ou cheia de acordes, sabe o quanto a inspiração surge após grande observação, muita audição, sensibilidade nos tratos e trabalho duro. Com Zweig, como com tantos outros, foi assim.

Depois, não por acaso The Grand Budapest Hotel tem como pano de fundo uma história que remonta a uma cidade fictícia no leste europeu no ano de 1932. A manchete de um jornal mostrado no filme pergunta se haverá guerra e noticia a chegada de tanques na fronteira – isso pouco antes de M. Gustave saber da morte da condessa Madame D. (a ótima Tilda Swinton em uma caracterização perfeita) e decidir ir no velório dela.

Apesar da história se passar entre os momentos históricos da Primeira e da Segunda Guerra Mundiais, fica evidente a alusão do roteiro à elas. Especialmente por Zweig, nascido em Viena em 1881, teve a vida definitivamente marcada por estes conflitos. Antes da Primeira Guerra eclodir, o escritor já era conhecido por suas longas viagens e por seus escritos a partir das experiências vividas nelas. Quando estoura o primeiro conflito mundial, ele é pego de surpresa na Bélgica. Consegue voltar para Viena, mas é recrutado como “voluntário” para trabalhar no arquivo de guerra (como bem conta este resumo sobre a vida do autor).

Durante o período de guerra, ele consegue escapar do serviço “voluntário” e compra uma casa na montanha (daí teria surgido a inspiração para o cenário do Hotel Budapeste?), antes de lançar ideias pacifistas no drama Jeremias, de 1917. Judeu, ele se alia a vários autores que defendem a paz, mas acaba sendo perseguido pelos nazistas muito antes da Segunda Guerra Mundial – em 1933, como afirma aquele resumo citado logo acima, os nazistas fazem uma grande queima de livros em Berlim, incluindo obras de Zweig.

Três anos depois, o escritor faz a sua primeira viagem para o Brasil. Pouco antes do início do segundo conflito mundial, Zweig se muda para a cidade de Bath, no sudoeste da Inglaterra, onde ele se casa com Lotte. Conforme a Segunda Guerra vai evoluindo, Zweig fica pouco a pouco mais deprimido. Em 1941, ele e a mulher se mudam para o Brasil, onde cometeriam suicídio um ano depois. Em The Grand Budapest Hotel o horror com a guerra e a presença angustiando da vilania fica evidente.

Claro que o mal, no roteiro de Anderson, não está simbolizado apenas pelos homens de farda que não perdem nenhuma oportunidade em perseguir o imigrante judeu Zero. A maldade está também na cobiça, representada por Dmitri (Adrien Brody), herdeiro de Madame D. e que não aceita repartir nada da riqueza da mulher com M. Gustave; e também na crueldade do capataz de Dmitri, o impassível Jopling (Willem Dafoe em um grande trabalho).

O contexto de invasão militar vai aparecendo aos poucos no filme, até que ele se consolida com a “ocupação” dos homens que lembram os nazistas no hotel. Mas antes e depois deste ponto, em duas sequências no trem, a mensagem de indignação de Zweig ficam muito evidentes.

Primeiro, nas ações do militar Henckels (Edward Norton), que faz lembrar os nazistas, mas que era, na verdade, da “milícia de Lutz”. Ele não deveria aceitar imigrantes, mas abre uma exceção para Zero por causa da amizade com M. Gustave (e sabemos que a amizade contava muito naqueles tempos). E depois, na truculência de um outro militar, desta vez um homem que tinha traços russos, mas que claramente era do grupo que usava uma identificação parecida com a suástica. Ele ignora a permissão dada por Henckels e acaba com a “ousadia” de M. Gustave.

Para mim, Zweig está representado em três personagens: no Autor, em M. Gustave e em Zero. No primeiro, por uma razão evidente: o Autor fala de seu trabalho e é relembrado gerações após gerações. No segundo, por causa da sensibilidade do personagem, um homem que é pacifista e que defende o direito de qualquer pessoa em ter liberdade e ter oportunidades, sendo valorizada conforme se dedica ao trabalho e a melhorar. E no caso de Zero, por ele ser judeu, perseguido, ávido por novidades e por aprender, e por ter uma história bonita de romance com Agatha – a exemplo de Zweig com Lotte. Mas cada um destes personagens pode ter sido apenas inspirado por Zweig, sem a intenção que nenhum deles representasse o autor.

Seja pelo paralelo com o escritor, seja pela bonita intenção de colocar poesia e sensibilidade mesmo em ambientes tão sórdidos e cheios de perseguição, The Grand Budapest Hotel acaba se revelando uma obra mais interessante quando você pensa nela. Durante a vivência do filme, apenas o espetáculo visual sobressai, junto com o trabalho dos atores. Depois, com o tempo, é que vamos degustando o restante dos sabores da produção.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vários aspectos técnicos do filme se sobressaem. Os principais destaques já foram citados acima, mas agora vale dar o nome dos responsáveis. Impecável o design de produção de Adam Stockhausen; belíssima a direção de arte comandada por Stephan O. Gessler e com a ajuda de Gerald Sullivan e Steve Summersgill; bacana a decoração de set de Anna Pinnock e os figurinos de Milena Canonero. Vale destacar, ainda, o excelente trabalho do departamento de maquiagem composto por 25 profissionais e o departamento de arte com dezenas de outros artistas de talento.

Para ajudar na dinâmica do filme, fundamentais as contribuições do editor Barney Pilling, que tem aqui um trabalho meticuloso, e do diretor de fotografia Robert D. Yeoman. O veterano Alexandre Desplat tem um trabalho exemplar com a trilha sonora, que aparece em momentos pontuais, sempre para ressaltar o humor ou o suspense da história.

Este é mais um bom trabalho do estiloso diretor e roteirista Wes Anderson. Nascido no Texas, ele tem filmes muito interessantes no currículo. Vale ter o trabalho acompanhado. Ainda que, espero, ele venha com um pouco mais de ousadia e inovação de uma próxima vez.

The Grand Budapest Hotel estreou no Festival de Berlim em fevereiro deste ano. Depois, o filme participaria ainda de outros quatro festivais. Nesta trajetória, conquistou três prêmios e foi indicado a outros dois. O mais importante que ele recebeu foi o Urso de Prata de Grande Prêmio do Júri para Wes Anderson no Festival de Berlim. A produção também saiu vencedora como Melhor Figurino do prêmio entregue pelo Sindicato Nacional Italiano de Jornalista de Cinema e no prêmio de Melhores Gráficos em um Comercial de TV no Prêmio Golden Trailer.

Este filme foi totalmente rodado na Alemanha e na Polônia. No primeiro país, houve cenas rodadas em diferentes cidades da Saxônia e em Berlim; e no segundo, na Cracóvia.

E uma curiosidade sobre a produção: o nome da fictícia república de Zubrowka foi inspirado na vodca polonesa Zubrowka.

Wes Anderson rodou o filme em três formatos diferentes (1.37, 1.85 e 2.35:1) para demarcar ainda melhor e de forma visual os três períodos diferentes em que a história é ambientada: 1985, 1968 e 1930.

O elenco deste filme impressiona. É um desfile de nomes conhecidos. E ainda que um deles se destaque, o de Ralph Fiennes como M. Gustave, não deixa de ser marcante a forma com que o desconhecido Tony Revolori se destaca em um elenco tão estelar. O rapaz de 18 anos natural de Anaheim, na Califórnia, e que até este filme tinha estrelado principalmente curtas e episódios de séries televisivas, faz um dueto de rara sintonia com Fiennes. Com isso, ele se destaca.

Mas além dos dois, vale citar o ótimo trabalho de F. Murray Abraham como Mr. Moustafa (o Zero envelhecido); Mathieu Amalric como Serge X., empregado de Madame D. e que acaba tendo grande relevância na história por guardar os segredos da mulher assassinada; Adrien Brody como o vilão Dmitri; Willem Dafoe rouba a cena como o sanguinário Jopling; e Jude Law ganha relevância como o escritor quando jovem. Mesmo em papéis menores, vale citar os bons trabalhos de Jeff Goldblum como o advogado perseguido Kovacs; Harvey Keitel como o presidiário Ludwig; e Bill Murray como M. Ivan, da rede de concierges que ajudam M. Gustave. Fazem pontas também Jason Schwartzman, Léa Seydoux, Owen Wilson, Bob Balaban, entre outros.

De acordo com o site Box Office Mojo, The Grand Budapest Hotel teria faturado pouco menos de US$ 58,8 milhões apenas nos Estados Unidos, e outros US$ 108 milhões nos demais mercados em que o filme estreou até o momento. Mesmo sem informações sobre o custo da produção, estes não me parecem resultados ruins.

Esta produção conseguiu uma nota impressionante no site IMDb. Considerando, claro, o padrão normalmente visto naquele banco de dados sobre cinema: 8,3. Essa é uma excelente avaliação! Além disso, os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 205 textos positivos e apenas 19 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,4.

Ah sim, e antes falei que este filme faz lembrar vários outros… Para começar, basta olhar na própria filmografia de Wes Anderson. E depois, vale conferir clássicos recentes do cinema, como Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain. Mesmo bebendo de várias fontes, é fascinante ver como Anderson utiliza bem a tecnologia moderna e enquadramentos antigos, dos primeiros filmes do cinema, ainda na era preto e branco. Bela homenagem, e com muita propriedade.

Este filme é uma coprodução dos Estados Unidos com a Alemanha. Assim sendo, ele entra na lista de filmes dos Estados Unidos, eleito como um dos países que merecia uma série de críticas aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um indicativo sobre o impacto que um filme teve para mim é a vontade que eu tenho de escrever sobre ele logo após o fim da produção. Quando terminei de ver a The Grand Budapest Hotel, admito que não tive um grande interesse de falar sobre ele por aqui. Sinal de que esta produção não me pareceu tão boa quanto poderia. E essa é a vida. O cinema é feito de percepções, vivência e momentos. Refletindo mais sobre o filme depois, percebi que esta produção é interessante se nos focamos mais na homenagem feita para Stefan Zweig e sua obra. Mas descontada essa reverência, há pouco de novo nesta produção. De qualquer forma, vale dizer que ela é bem acabada, com bons princípios e tem qualidade. Que fica mais evidente quando refletimos no paralelo com Zweig. Vale ser conferido sob esta ótica.