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The Mule – A Mula

Ficar “velho” não é mole não. Todos acham bacana quem chega aos 90 ou aos 100 anos de idade, mas quem chega lá não tem apenas motivos para sorrir. Ainda assim, sempre é bacana viver bastante. Afinal, se ganha mais tempo para amar, perdoar, ser amado e ser perdoado. Sobre tudo isso é que esse The Mule trata. Um filme bastante honesto e que nos presenteia com mais um filme dirigido e estrelado pelo grande, pelo mestre Clint Eastwood. A história em si não apresenta grandes achados, mas a interpretação de Eastwood é quase um testamento que ele nos deixam. Um presente, para falar a verdade.

A HISTÓRIA: Uma linda plantação de amarílis. Vemos a diferentes tipos de flores em uma propriedade em Peoria, no Estado de Illinois, em 2005. Dentro de uma estufa, Earl Stone (Clint Eastwood) colhe uma flor. Ele escuta um funcionário chegando, José (Cesar De León), e brinca com ele que, do jeito que ele dirige, ele parece querer ser deportado. Em seguida, Earl chega na convenção anual de produtores de amarílis. Ele presenteia Helen (Jackie Prucha) com uma flor e cumprimenta as pessoas do evento.

Earl será premiado naquela noite, quando prefere passar tempo com os amigos do que ir no casamento da filha, Iris (Alison Eastwood). Depois de 12 anos, Earl tem que deixar a casa, por causa de uma ação de despejo, porque viu o negócio de venda de flores ser derrotado pela internet. Ao comparecer na festa de noivado da neta, Ginny (Taissa Farmiga), Earl conhece um amigo dela, Rico (Victor Rasuk) que lhe convida para continuar dirigindo pelas estradas do país e ganhar uma grana com isso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Mule): Eu não vou mentir para vocês. Eu tenho uma grande, expressiva “quedinha” por Clint Eastwood. Admiro tanto esse diretor e ator que eu não consigo não gostar de algo que ele faça. Assim, claro, eu já tenho uma visão contaminada e otimista sobre The Mule apenas pelo fato dele dirigir e protagonizar este filme.

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Claro que a nota abaixo tem muito a ver com essa minha admiração por ele. Inicialmente, eu daria uma nota um pouco mais baixa, mas aquele final do filme… A forma com que The Mule acaba parecendo um testamento de Clint Eastwood, me fez aumentar a avaliação da produção. Eastwood merece toda a nossa admiração por seguir produzindo, dirigindo e atuando mesmo após tantas décadas de dedicação e de trabalho no cinema.

Para vocês terem uma ideia, o primeiro trabalho de Eastwood como ator foi em 1955. Ou seja, ele tem 64 anos de trabalho nessa área. Como diretor, ele estreou em 1971, ou seja, tem 48 anos de carreira e segue na labuta. Um sujeito admirável e impressionante, sem dúvidas. Mas vamos falar deste último filme dele, The Mule.

A produção em si não é muito surpreendente ou marcante. Grande parte do filme acompanha as “desventuras” do protagonista viajando do Texas para Illinois. O roteiro de Nick Schenk, baseado no artigo The Sinaloa Cartel’s 90-Year Old Drug Mule de Sam Dolnick publicado na New York Times Magazine, procura equilibrar um pouco de drama com uma trama policial e pitadas de comédia aqui e ali.

Como era de se esperar, Clint Eastwood faz um ótimo trabalho na direção e como intérprete. Acreditamos perfeitamente naquele personagem que ele nos apresenta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um senhor de 90 anos de idade que por ter viajado pela maior parte do país vendendo suas mudas de amarílis sem nunca ter recebido uma multa acaba sendo alvo de um dos cartéis de drogas mexicanos. Ele “simplesmente” faz o transporte de mercadorias que lhe pedem e, em troca, ganha uma boa quantidade de dinheiro por cada viagem.

A história nos faz pensar sobre como a vida é complicada e injusta com a maioria – acredito que seja a maioria – dos idosos mundo afora. Geralmente eles não tem uma boa aposentadoria e não tem mais oportunidades de trabalho ou de colocação no mercado. Muitos, a exemplo de Earl, acabaram vendo o seu próprio negócio definhar com o surgimento da internet – e eles não se adaptaram a essa nova era.

Assim, “do nada”, surge uma oportunidade dele seguir fazendo o que ele gostava – viajar pelas estradas do país – e ainda ganhar uma quantidade de dinheiro que ele nunca tinha visto na vida. Ao menos não em tão pouco tempo. No final da vida, despejado de casa e cobrado pela família por nunca ter estado presente, podemos realmente julgar Earl? Veterano da guerra da Coreia, ele percebe que a sociedade atual não dá bola para caras como ele. Então por que não se sentir útil e fazendo o que deseja pela última vez?

Algo que achei interessante nesse filme é a forma com que o roteiro de Schenk humaniza o personagem. Earl é um sujeito “velha guarda” que se adapta muito bem aos novos tempos. Claro que ele nunca se entende muito bem com o celular – e isso é normal e bastante comum entre quem não nasceu com essa tecnologia ao lado -, mas no restante das situações ele se adapta muito bem. Earl não tem problemas com os imigrantes, muito pelo contrário.

Enquanto vemos alguns moradores do interior dos Estados Unidos olhando com desconfiança para mexicanos, Earl se dá muito bem com eles – antes, quando era um produtor de amarílis e empregava mexicanos como funcionários e, depois, quando trabalha com eles no tráfico de drogas. Depois, o protagonista de The Mule lida muito bem com grupos de “sapatas” motoqueiras, quando as encontra no caminho, e com uma família de negros quando para para ajudar-lhes na estrada.

Claro que ele erra no politicamente correto e usa palavras que não são bacanas para se referir a todas essas pessoas. Mas isso não faz dele um sujeito preconceituoso. Esse ponto é interessante porque mais do que prestar atenção no que alguém fala e nas palavras que usa é importante observarmos como ela age. Isso sempre vai se sobrepor.

Mas voltando para The Mule. O filme, no fundo, é um ir e vir nas viagens de Earl e, em paralelo, o movimento que a polícia faz para melhorar os seus índices de combate às drogas. O detetive Colin Bates (Bradley Cooper) lidera, junto com o detetive Treviño (Michael Peña), uma operação para desmantelar os cartéis de drogas mexicanos. Enquanto vemos Earl avançando nas graças do chefe do tráfico mexicano Laton (Andy Garcia), vemos o trabalho de Colin e Treviño, sob a supervisão e comando do agente especial interpretado por Laurence Fishburne, avançar.

A história, contada de forma linear, tem muito espaço para destrinchar a rotina de Earl e a sua relação conflituosa com a família formada pela ex-mulher Mary (Dianne Wiest), pela filha Iris e pela neta Ginny. Earl se sente culpado por não ter dado toda a atenção para a família que ela merecia ao mesmo tempo que sabe que a sua natureza era a de “curtir a vida” e fazer as coisas “à sua maneira”.

Com o dinheiro que ganha como “mula”, Earl prova isso ao ajudar a família ao mesmo tempo que compra uma caminhonete nova, recupera a propriedade perdida por dívidas e curte a vida comendo bem a cada viagem e curtindo com algumas mulheres jovens e bonitas. A parte do filme centrada em Earl e na sua família funciona muito bem, enquanto que a narrativa centrada no México e no cartel parece um tanto “deslocada”.

O personagem de Julio (Ignacio Serricchio) é um exemplo disso. Ele parece bastante “forçado” na narrativa. Se o propósito dele era o de mostrar que o cartel não é mole ao mesmo tempo em que também tem o seu caráter humano, acho que esse propósito ficou um tanto forçado. A narrativa de perseguição “gato e rato” do filme é previsível e tem um desfecho nada surpreendente. A parte mais interessante da produção é justamente o foco no protagonista, mostrando que alguém com 90 anos de idade ainda pode fazer muito – não apenas trabalhar, mas também curtir a vida e fazer as pazes com a própria família.

Da minha parte, como comentei antes, fiquei especialmente comovida com o final. Quando o personagem de Clint Eastwood ressalta a mensagem de que o que importa mesmo é a família e não o trabalho ou a carreira e que alguém pode comprar tudo, menos o bem mais precioso que existe, que é o tempo, não parece que seja Earl que esteja dizendo tudo isso, e sim o próprio Clint. Não tem como não se emocionar com isso.

Por outro lado, algo perto do final do filme me incomodou um pouco. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Em sua última viagem para o cartel, quando ganhou um ultimato para não atrasar e não sair da sua rota, Earl acaba fazendo tudo isso ao optar acompanhar os últimos momentos de Mary. Até aí, tudo bem. Ele desviar da rota e quebrar as regras não é problema. Agora alguém quer me convencer que realmente o cartel entregaria tanta droga para alguém sem colocar um rastreador no carro ou não ter investigado antes onde moravam os familiares dele? Entendo a forçada de barra para os propósitos do roteirista, mas achei isso difícil de acreditar.

Toda vez que um filme ignora o óbvio para justificar a sua narrativa, acho que a produção perde alguns pontos. Honestamente, esse filme não mereceria mais do que uma nota 8 – e isso porque temos Clint Eastwood em cena. Mas aquele final estilo “testamento” do diretor/ator me fez aumentar um pouco a nota da produção. The Mule é um filme mediano, mas para os fãs de Eastwood, sempre valera a pena vê-lo em cena.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Claro que envelhecer e ter a chance de chegar aos 90 ou aos 100 anos de idade é algo muito bacana. Uma benção. Mas nem todos chegam nessa idade bem como Clint Eastwood. Muitos tem vários problemas de saúde e precisam de cuidados permanentes. E mesmo os que envelhecem bem, geralmente, não tem as condições de Eastwood de continuar fazendo o que amam e de continuar trabalhando. Está na hora das nossas sociedades começarem a ver a velhice como um processo positivo e natural e a integrar mais os idosos em todas as atividades da sociedade, sem desprezar as pessoas depois de uma certa altura da vida.

Como não amar Clint Eastwood? Adorei as cenas em que ele se diverte dirigindo, cantando e “sassaricando”. Muito bacana também os momentos em que ele contracena com mexicanos e com a veterana Dianne Wiest. Ainda que ela pareça bastante “apagada” na história se comparamos a sua atuação com a de Clint.

Falando em atuações, achei o trabalho de Clint excelente. Ele está perfeito naquele personagem, vivendo um sujeito um pouco mais velho do que ele atualmente. Os outros atores fazem um bom trabalho, mas ninguém tem um grande destaque nesta produção. Todos parecem, me desculpem o termo, mas um pouco “anestesiados”. Eu não destacaria ninguém, em especial. Mas vou citar alguns nomes que fizeram parte desta produção.

Interessante como além de Clint, temos alguns atores de destaque nesta produção. Pessoas que estão em alta, como Bradley Cooper, ou outros que são reconhecidos por suas carreiras e por terem apresentado ótimos trabalhos em outras produções. Vale comentar o bom trabalho de Alison Eastwood como Iris; de Kinsley Isla Dillon como a jovem Ginny; de Dianne Wiest como Mary; de Taissa Farmiga como Ginny adulta; de Robert LaSardo como Emilio, líder do grupo que entrega as drogas para Earl; Laurence Fishburne como o líder do grupo de combate ao tráfico; Bradley Cooper como Colin; Michael Peña como Treviño; Eugene Cordero como Luis Rocha, o informante do cartel que acaba sendo fundamental para as ações de Colin e Treviño; Andy Garcia como Laton, chefe do cartel no México; Clifton Collins Jr. como Gustavo, funcionário de Laton que acaba lhe dando um golpe; e Ignacio Serricchio como Julio, um dos homens de confiança de Laton.

Além deles, vale citar outros nomes que fazem o trabalho de coadjuvante – quase em pontas no filme: Richard Herd como Tim Kennedy, colega de Earl no cultivo de amarílis; Victor Rasuk como Rico, amigo de Ginny que coloca Earl no negócio do tráfico; Alan Heckner como o policial do Texas que para Earl; Paul Lincoln Alayo como Sal, um dos traficantes que trabalham com Earl; Dylan Kussman como o Sheriff que interpela Earl e os mexicanos que estão com ele; Manny Montana como Axl, um dos homens de Gustavo; Lobo Sebastian como Lobo, outro capanga de Gustavo; e Derek Russo como o grandão que bate na máquina de gelo e que é detido no lugar de Earl no motel que está sendo vigiado por Colin e Treviño.

Da parte técnica do filme, o único item maior de destaque é a direção segura e eficiente de Clint Eastwood – um diretor que entende muito bem da “ciência” por trás das câmeras. O roteiro de Nick Schenk é apenas mediano. Além destes aspectos, vale citar o bom trabalho de Yves Bélanger na direção de fotografia; a trilha sonora bastante pontual e “sentimental” de Arturo Sandoval; a competente edição de Joel Cox; o design de produção de Kevin Ishioka; a direção de arte de Rory Bruen e Julien Pougnier; a decoração de set de Ronald R. Reiss; e os figurinos de Deborah Hopper.

The Mule é dedicado a Pierre Rissient e a Richard Schickel. Fui procurar um pouco mais sobre eles e vi que Pierre Rissient era francês, nascido em Paris em 1936. Ele trabalhou como diretor assistente e morreu em maio de 2018 aos 81 anos. Entre outros trabalhos, ele foi diretor assistente de Jean-Luc Godard no clássico À Bout de Souffle (Acossado, no Brasil). Richard Schickel, natural do Wisconsin, nos Estados Unidos, atuou como produtor, diretor e roteirista. Ele nasceu em 1933 e faleceu em fevereiro de 2017. Ele produziu, dirigiu e escreveu o roteiro de diversos filmes sobre nomes do cinema, inclusive focando no trabalho de Eastwood.

The Mule estreou em dezembro de 2018 em uma première em Los Angeles. Até o momento, o filme não participou de nenhum festival de cinema e não ganhou nenhum prêmio.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. The Mule é inspirado na história de Leo Sharp, um veterano da Segunda Guerra Mundial que e tornou a “mula” de drogas mais antiga e prolífica do mundo para o Cartel de Sinaloa, um dos mais conhecidos do México.

Para o personagem de Earl, o figurinista queria que diversas roupas tivessem o aspecto de desgastadas. Por isso foram resgatados trajes utilizados por Clint Eastwood em outros filmes, como Gran Torino (comentado aqui no blog), True Crime e In the Line of Fire.

Fiquei curiosa para saber sobre a vida “sentimental” de Clint Eastwood. Afinal, o seu personagem fala tanto de família, não é mesmo? 😉 Clint foi casado pela primeira vez com Margaret Neville Johnson, com quem ele esteve junto entre 1953 e 1984. Com ela, Clint teve dois filhos. Em 1996 ele se casou com Dina Eastwood, com quem ele teve uma filha e com quem ele ficou casado até 2014. Eles se divorciaram naquele ano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 122 críticas positivas e 52 negativas para esta produção – o que garante para The Mule uma aprovação de 70% e uma nota média de 6,11. O site Metacritic, por sua vez, apresenta um “metascore” 58 para esta produção, fruto de 19 críticas positivas, 15 medianas e três negativas.

Clint Eastwood ainda chama muita atenção nos cinemas. Isso é o que demonstra o site Box Office Mojo. The Mule, produção que teria custado cerca de US$ 50 milhões, teria faturado pouco mais de US$ 103,8 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e mais US$ 65,1 milhões nos cinemas de outros mercados. No total, o filme faturou cerca de US$ 168,9 milhões. Um belo resultado para um filme interessante, mas que não é excepcional.

The Mule é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog. 😉

CONCLUSÃO: The Mule, em si, não nos apresenta uma história realmente impressionante. Mas o filme nos emociona porque parece que Clint Eastwood está nos deixando o seu testamento. E as maiores mensagens que ele quer nos passar é que a família é o que realmente interessa (ou o amor, em outras palavras) e que você até pode comprar tudo, menos o tempo. Sabendo que no dia 31 de maio o diretor vai completar 89 anos, parece que a fala de seu personagem é a dele próprio. Como não se emocionar com isso? O filme vale por Clint, como tudo que ele faz. Não é uma produção brilhante, mas ela é sensível e tem a sua mensagem. Se você é fã dele, não pode perder.

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Get Out – Corra!

Um dos filmes mais criativos, interessantes e provocadores que eu assisti nos últimos tempos. Get Out é um suspense/terror com uma boa carga de humor e de crítica. Um filme do gênero como você nunca viu, tenho certeza. Eu tinha visto comentários positivos sobre ele e o cartaz tinha me deixado na dúvida sobre a qualidade da produção, mas realmente Get Out vale o ingresso e a experiência. A relação entre brancos e negros sempre rende um bom debate, até porque continua sendo um tema atual, e com este filme ele recebe uma leitura muito interessante.

A HISTÓRIA: Em uma rua deserta, um jovem negro caminha se queixando que está perdido porque caiu em uma rua com nome parecido com a que em ele deveria estar. Ele se diz deslocado no bairro de ricos. Negro, ele sabe o que acontece com pessoas de sua cor em um bairro como aquele. Quando um carro de luxo parece começar a acompanhá-lo, ele começa a surtar. Muda e caminho, mas acaba sendo rendido pelas costas. Colocado no porta-malas, ele é levado para longe daquele endereço. Corta. Vemos a cenas do interior, local para o qual Chris Washington (Daniel Kaluuya) vai com a namorada Rose Armitage (Allison Williams) conhecer a família dela. Mal sabe ele que está prestes a cair em uma cilada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Get Out): Esta produção é mais um exemplo de como um grande roteiro é metade do caminho para um grande filme. O diretor e roteirista Jordan Peele acerta na mosca ao investir em um filme de suspense com grandes doses de humor e de crítica social para tratar de um tema que parece não perder validade com o tempo: a estranheza e o preconceito envolvendo brancos e negros.

Este filme não se preocupa em ser politicamente correto. Peele busca tratar com naturalidade a desconfiança e o “jeito de ser” diferenciado entre brancos e negros, explorando bem estas questões nos diálogos dos personagens e nas relações de “estranheza” que existem entre eles. Logo no início do filme somos apresentados ao criativo e bem-sucedido protagonista desta produção. Chris é um fotógrafo de sucesso, reconhecido e que vive bem. Mas ele acaba caindo no radar de Rose que, só vamos descobrir depois, é uma grande “caçadora” de negros que serão convertidos em vítimas de uma classe abastada.

Get Out exagera na dose para fazer o público refletir. Afinal, por que ainda existe tanta estranheza e exploração entre brancos e negros, tanto tempo depois do fim da escravidão? O tema racial é muito forte e importante nos Estados Unidos, onde policiais brancos volta e meia aparecem nos noticiários matando negros sem justificativa para uma ação letal. No Brasil, o preconceito e a desigualdade racial estão presentes, mas são menos expostos na mídia e debatidos.

Todo este contexto de conflito racial é explorado com inteligência e humor por Peele que, também de forma muito acertada, trata muito bem da ascensão social e das novas condições dos negros no país – e não apenas nos Estados Unidos. O protagonista de Get Out é muito bem construído. Bem-sucedido, ele aprendeu a se virar sozinho durante a vida – ele ficou órfão ainda na infância – e tem aquele olhar um tanto “crítico” para toda esta questão racial.

Afinal, ele namora uma bela garota branca, Rose, e vive em círculos bastante mesclados. Fotógrafo reconhecido, ele não sofre os preconceitos que outros negros com profissões menso “admiradas” podem sentir. Ele tem amigos negros, com destaque para o divertido e desconfiado segurança de aeroporto Rod Williams (LilRel Howery), mas não parece estar fechado em relações em um grupo social ou racial. Por isso mesmo ele não resiste tanto à experiência de conhecer os pais de Rose, apesar de reclamar com ela que a garota deveria ter “avisado” eles que ele é negro.

A priori, o protagonista de Get Out não resiste ao contato e à interação com a família branca da namorada, mas ele fica com o pé atrás quando sabe que eles não sabem que ele é negro. Eles vão para o interior dos Estados Unidos, onde a segregação racial ainda é bastante presente. Chris está preparado para o que vier, mas ele não poderia sonhar com a cilada sinistra na qual está caindo. O interessante do roteiro de Peele é que ele provoca nos espectadores uma sensação de estranheza e de desconfiança do princípio ao fim. Ou seja, nos faz experimentar aspectos essenciais da própria questão racial.

Vou explicar melhor. Em cada encontro e interação de Chris no cenário em que Rose cresceu, sentimos que algo está “fora da ordem”. Muito expressivo e ator bastante competente, Daniel Kaluuya nos representa naquele contexto, independente se somos brancos, negros, amarelos ou com outra coloração de pele. A estranheza naquele cenário é universal. Ao fazer isso, Peele nos faz experimentar a sensação de estranheza e de que “algo está errado” que todo negro sente ao interagir com brancos preconceituosos. Esta é uma das maiores genialidades de Get Out.

Mas há mais. O filme trabalha a questão racial sim, mas também apresenta um suspense muito interessante e criativo. A história linear vai se desenvolvendo de forma muito natural e crível, fazendo o espectador se sentir “confortável” e bem inserido na produção. Os atores fazem um grande trabalho, com vários momentos de tensão e de conflito muito bem pincelados e construídos. É um filme envolvente e que vai ganhando em tensão e suspense de forma escalada. Segue muito bem o manual do gênero.

O bacana é que além de seguir esse manual, Get Out inova. Afinal, traz a questão racial para um gênero que não está acostumado a explorar este tema. E ao fazer isso, ele eleva para um outro nível a questão da exploração de negros por brancos. Antigamente, a forma de brancos fazerem isso era através da escravidão, forma de exploração que era socialmente e legalmente aceita.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com o fim da escravidão, a família Armitage encontrou uma forma diferente de explorar negros: usando técnicas de lobotomia, eles fazem uma mescla sinistra entre o cérebro da vítima e do “comprador” para transformar negros em “plataformas” para endinheirados brancos utilizarem os seus corpos e talentos. Isso vamos descobrir apenas no final da produção, quando Chris é “apresentado” para a história real da família da namorada e para o que parece ser o seu sinistro fim.

Nesta parte, achei novamente o trabalho de Peele brilhante. Quando Chris questiona o seu novo “dono”, o negociador de arte Jim Hudson (Stephen Root), das razões que levariam os “clientes” dos Armitage em negociarem o uso de negros daquela forma, Hudson explica que as razões são múltiplas. Alguns querem o “vigor físico” das vítimas, enquanto outros querem “ficar na moda”, entre outros motivos. Logo entendemos a origem de Walter (Marcus Henderson) e de Georgina (Betty Gabriel), “comprados” pelos avós de Rose para dar uma “sobrevida” para eles.

Em tese, a técnica desenvolvida pelos Armitage e aperfeiçoada pelo casal Missy (Catherine Keener) e Dean (Bradley Whitford) permitiria uma espécie de “vida eterna” na Terra para os brancos que poderiam migrar de uma vítima para outra. O interessante da argumentação e da crítica de Peele é que ele não apenas aborda um novo tipo de exploração de negros por brancos como também revela de forma irônica o “perigo” de negros estarem na moda. Tudo que cai no gosto do mainstream seria, assim, explorado de forma “canibal”. Genial, não?

Enfim, resumindo, achei tanto o roteiro de Peele quanto o desenvolvimento do filme perfeitos, com um bom equilíbrio entre um “clássico” filme de suspense/terror com a inovação de um roteiro que explora muito bem o conflito racial, “modernizando” o tema. Ajuda, neste sentido, a trilha sonora de Michael Abels, com grandes “sacadas”, e os diálogos e desenvolvimento da produção com a assinatura de Peele.

Este é um filme do gênero competente e com algumas inovações para este estilo de produção bem interessante. Mas para não dizer que Get Out é perfeito – e olha que fiquei bem tentada a dar um 10 para ele -, devo dizer que o final da produção me incomodou um pouco. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Nem tanto pelo comportamento “furioso” do protagonista, que sai matando com certa frieza todo mundo da família Armitage que aparece pela frente – afinal, ele sabia que este era o jeito dele sobreviver e escapar de lá vivo -, mas por alguns detalhes que ficaram um tanto estranhos no contexto da história.

Por exemplo, parece bobo, mas fiquei incomodada com aquela parte em que o estranhíssimo Jeremy Armitage (Caleb Landry Jones) faz de tudo para impedir que Chris saia da casa da família. Em mais de uma cena vemos Chris quase abrir a porta e não conseguir por causa das ações de Jeremy. Até parece que a casa tinha algum “poder” sobrenatural sobre as vítimas da família, mas isso não faz nenhum sentido e parece um tanto deslocado na produção com narrativa um bocado “lógica” até então. Para mim, a sequência final entre Jeremy e Chris me pareceu forçada e deslocada.

Também me incomodou um pouco o “grand finale” entre Chris e Rose. Caramba, depois dela fazer tudo o que fez ele ainda fica vulnerável com um “eu te amo” falso dela? Me pareceu forçado também. Este detalhe, junto com o que comentei envolvendo Jeremy e Chris, mancharam um pouco o roteiro quase perfeito de Peele. Apenas por isso eu não dei a nota máxima para a produção. Mas por todo o restante, inclusive algumas sacadas muito boas do roteiro – como a questão do flash do celular e a teoria maluca e ao mesmo tempo quase certeira de Rod -, Get Out se revela um grande filme. Dos mais bacanas do gênero suspense/terror dos últimos tempos. Foge do óbvio. Agradecemos por isso.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O nova-iorquino Jordan Peele tem 38 anos e uma longa carreira como ator. Ele começou nesta profissão em 2006 e é conhecido por fazer tanto filmes como séries de TV. Get Out marca a estreia dele na direção, mas como roteirista ele já tinha feito outros trabalhos, especialmente escrevendo episódios de séries de TV como Obama e Key and Peele.

Antes de Get Out, Jordan Peele tinha escrito o roteiro da comédia de ação Keanu ao lado de Alex Rubens e sobre a “gag” criada por Jamie Schaecher. Acho que vale ficar de olho nele e ver o que mais ele vai aprontar como diretor/roteirista.

Um grande acerto de Get Out é a escolha do elenco. Daniel Kaluuya é a grande revelação do filme. Ele dá um show de interpretação em um papel onde não seria difícil alguns exageros e derrapadas. Mas não. Kaluuya convence em cada minuto do filme, em interações e com reações muito interessantes e que dão credibilidade para o personagem dele. Mas os outros atores também estão muito bem. A mudança radical que acontece com a personagem de Allison Williams também é perfeita, valorizando o passe da atriz.

O destaque da produção é o trabalho de Daniel Kaluuya. Mas vale destacar outros nomes da produção. Allison Williams está muito bem e faz um dueto de cena perfeito com Kaluuya. Além deles, brilha na produção o divertido LilRel Howery e estão muito bem Catherine Keener e Bradley Whitford em papéis sinistros pouco comuns em suas respectivas carreiras; Marcus Handerson e Betty Gabriel em papéis sinistros e bem explicados no final da produção. Lakeith Stanfield está muito bem como uma das vítimas dos Armitage, Andrew Logan King.

Vale citar também o veterano Stephen Root como Jim Hudson; Caleb Landry Jones em uma interpretação um pouco “forçada” como Jeremy Armitage; Ashley LeConte Campbell como Lisa Deets; John Wilmot como Gordon Greene; Caren L. Larkey como Emily Greene; Julie Ann Doan como April Dray; Rutherford Cravens como Parker Dray; Geraldine Singer como Philomena King; Yasuhiko Oyama como Hiroki Tanaka; Richard Herd como Roman Armitage – todos como integrantes da comunidade “so white” em que Chris cai por causa de Rose; e Zailand Adams como Chris aos 11 anos de idade.

Também vale citar a ponta de três atores que fazem graça e que ajudam a reforça a “comédia do absurdo” de Get Out: Erika Alexander como a detetive Latoya; Jeronimo Spinx como o detetive Drake; e Ian Casselberry como o detetive Garcia. Eles estão na delegacia que Rod procura para fazer a denúncia sobre o desaparecimento de Chris e de Andrew, e a reação deles é um dos pontos certeiros do filme.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaque novamente para a trilha sonora de Michael Abels, que é um diferencial da produção. Além dela, vale comentar a boa direção de fotografia de Toby Oliver; a edição de Gregory Plotkin; o casting de Terri Taylor; o design de produção de Rusty Smith; e os figurinos de Nadine Haders.

Get Out teria custado US$ 5 milhões, um orçamento baixo para os padrões de Hollywood e que demonstra, mais uma vez, como bons filmes podem ser feitos com orçamentos relativamente curtos. Na semana de estreia nos Estados Unidos, o filme conseguiu nas bilheterias do pais nada menos que US$ 33,4 milhões. Lucrando logo na largada. Segundo o site Box Office Mojo, apenas nos Estados Unidos o filme fez quase US$ 174,7 milhões nas bilheterias. Nos outros países em que o filme estreou ele fez mais US$ 40 milhões. Ou seja, um dos maiores lucros dos últimos tempos. O filme virou uma febre. Bacana.

Esta produção, 100% dos Estados Unidos, foi rodada em duas cidades do Alabama: Fairhope e Mobile. Interessante terem sido rodadas por lá, porque o Alabama é, historicamente, um Estado com forte segregação racial e no qual há muitos casos de racismo conhecidos. Curioso que, inicialmente, Peele queria fazer o filme em Los Angeles, mas por causa dos custos ele resolveu mudar o local das filmagens. O que acabou sendo positivo, sem dúvida.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Get Out foi rodado em apenas 28 dias. A inspiração de Jordan Peele para escrever Get Out veio de uma parte de um stand-up feito por Eddie Murphy. Neste trecho do espetáculo, Murphy comentou sobre a ocasião em que foi conhecer a família e uma namorada branca dele.

Sobre o The Sunken Place, onde vive a família Armitage, o diretor Peele fez o seguinte comentário: “The Sunken Place significa como estamos marginalizados. Não importa o quanto nós gritemos, o sistema nos silencia”.

Além de Get Out marcar a estreia de Peele na direção de um longa-metragem, o filme também marca a estreia de Allison Williams neste formato de produção.

Jordan Peele escreveu o roteiro de Get Out durante o primeiro mandato de Barack Obama, quando o clima nos Estados Unidos era de grande otimismo e as pessoas tinham a sensação de que a questão racial havia sido superada. Como isso se mostrou falso com o passar dos anos, Peele achou que era a hora de filmar Get Out – antes não havia “clima” para isso.

Agora uma curiosidade que fica “escondida” na produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Chris “flagra” Georgina arrumando o cabelo em frente ao espelho para evitar que a cicatriz que ela tenha apareça. Esta é a mesma razão que faz com que Walter e Andrew aparecem sempre de chapéu – exceto, no caso de Walter, na sequência final dele na produção. É uma forma de evitar que o “segredo” da produção seja conhecido antes da hora.

Existe uma razão para a sequência em que Chris procura ver o que aconteceu com o cervo atropelado por Rose. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, esta é a sequência que introduz o tema “acerte e corra” na produção. Depois, ela mostra que Chris tem empatia e se compadece com o animal ferido, o que não acontece com Rose – algo que entenderemos completamente na reta final da produção.

Missy controla as pessoas com uma colher de prata – que é sinônimo de ter privilégios. Algo que não apenas faz sentido para o filme, mas também um ponto que aumenta a crítica social da produção. Afinal, muitos privilegiados utilizam justamente esta posição para explorar quem não tem esta condição.

A escolha do sobrenome Armitage não foi por acaso. Ela faz homenagem ao escritor HP Lovecraft, um autor de histórias de horror que tratava de famílias decadentes que tinham ligações com sociedades ocultas ou secretas, abordava a transmigração de almas de um corpo para o outro, estados alterados da realidade e temas similares que são abordados também em Get Out.

Interessante que a questão do celular não é por acaso – nada neste filme, aliás. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). O uso do celular é fundamental para Chris começar a conhecer a verdade sobre a situação estranha que cerca a família Armitage, assim como a maioria das denúncias de violência e abuso policial de brancos contra negros tem sido documentada com o uso de celulares.

Há no filme algumas referências ao tempo da escravidão. (SPOILER). As principais são a sequência do bingo que “rifa” Chris e que lembra os leilões de escravos de antigamente e a forma com que Chris se livra de seu sinistro destino ao tirar o recheio da poltrona de couro e usar ele nos ouvidos. Literalmente, para isso, ele está “colhendo algodão” para se salvar, o que era feito pelo escravos antigamente, forçados a colher algodão para seguirem vivos.

Get Out foi indicado para oito prêmios, mas não recebeu nenhum até o momento.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para Get Out, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 259 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 99% e uma nota média de 8,3. Os dois níveis de aprovação estão bem acima da média para os dois sites, o que mostra que este filme é um sucesso de público e de crítica.

CONCLUSÃO: Um filme de suspense muito divertido e com uma boa carga de crítica social e de comportamentos. Quem diria que uma produção assim poderia existir. E sim, ela existe. Get Out é uma aula de bom roteiro e de atores pouco conhecidos bem escalados e com um belo trabalho. Um filme inteligente, divertido e macabro na mesma medida. Achei uma das melhores surpresas dos últimos tempos. Merece o burburinho que recebeu. Se você não se importa com cenas violentas e uma certa dose macabra, sem dúvida alguma vale o ingresso.

ATUALIZAÇÃO (11/12): Hoje, dia 11 de dezembro, saiu a lista dos filmes indicados ao Globo de Ouro 2018. Acompanhando as bolsas de apostas para o Oscar 2018, eu já tinha visto que vários críticos apontavam Get Out como um possível indicado em mais de uma categoria do Oscar. Francamente, fiquei feliz em ver que o filme foi lembrado no Globo de Ouro em duas categorias: Melhor Filme – Comédia e Melhor Ator – Musical ou Comédia para Daniel Kaluuya. Muito justas estas duas indicações. Realmente este filme foi um dos bons achados do ano. Estou na torcida por ele ser lembrado com indicações no Oscar 2018 também.