Ant-Man and the Wasp – Homem-Formiga e a Vespa

 

ant-man-and-the-wasp

O filme mais família do Universo Marvel. Pelo menos, analisando as produções deste universo que eu já vi. Ant-Man and the Wasp é um filme divertidinho, com belas cenas de ação e efeitos especiais e uma narrativa que valoriza a família. Do início ao fim. Alguma surpresa? Se você já assistiu a pelo menos um filme do gênero, nenhuma. O roteiro é um bocado previsível e tem alguns “repetecos” narrativos, mas também apresenta alguns bons momentos. O mais fraco entre os filmes recentes da Marvel, mas se você é fã dos personagens ou desse gêmero, isso pouco vai importar.

A HISTÓRIA: Começa com uma narrativa feita pelo Dr. Hank Pym (Michael Douglas). Ele comenta que, às vezes, pensa na noite em que ele e a esposa, Janet Van Dyne (Michelle Pfeiffer) tiveram que deixar a filha. Hope Van Dyne (Evangeline Lilly) era uma criança, e viu os pais saírem mais uma vez para uma “viagem de negócios inesperada”. Hank e Janet tem pena de deixar a filha, mas eles tem uma missão a cumprir como Ant-Man e Wasp. Desta vez, eles agem para desarmar um míssil que pode ser mortífero para centenas de pessoas.

O problema é que o casal, mesmo em tamanho diminuto, não consegue chegar no local correto para desarmar o míssil. A única saída é que um deles utilize o regulador para diminuir até o nível subatômico e, desta forma, acessar o núcleo do míssil. Janet é mais rápida que Hank e entra no “mundo subatômico”, de onde ela não conseguirá sair mais. Mas quando Scott Lang (Paul Rudd) conseguiu ir e voltar desse mundo subatômico, Dr. Hank Pym volta a acreditar que pode ser possível resgatar a mulher desse local. Para isso, ele vai construir um túnel subquântico que atrairá o interesse de muitas outras pessoas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ant-Man and the Wasp): Eis um filme sobre o qual eu não tenho muito o que falar. Ou, melhor dizendo, eis um filme sobre o qual não precisamos falar muito. Lembro bem de ler as HQs dos Vingadores e dos Heróis Marvel. Em meio a tantos heróis interessantes, o Homem-Formiga e a Vespa apareciam sempre como uma espécie de “personagens de apoio”.

Eles nunca me chamaram muito a atenção, para ser franca. E, novamente, nesse filme dedicado a eles, eu tive a mesma impressão. Ok, eles são graciosos, bonitinhos e tem uma história de fundo focada na família e no valor dos laços familiares bacaninha, mas é só isso. Em um ano em que vimos Black Panther, fica difícil a comparação. Claro, o personagem do Pantera Negra, especialmente pela forma com que ele foi desenvolvido no cinema, se apresenta muito mais completo em termos de temas subjacentes do que Ant-Man and the Wasp.

Importante observar isso antes de assistir a essa produção. Porque Black Panther – e, antes, Logan – elevaram tanto o nível dos roteiros dos filmes da Marvel, que é preciso reajustar as expectativas para assistir a esse Ant-Man and the Wasp. Admito que eu fui para o cinema assistir a esse filme sem grandes expectativas. Fui “desarmada” e para receber bem o que viesse. Achei, assim, o filme bacaninha, com um roteiro previsível e com algumas sequências interessantes. Os atores estão bem, mas a história em si é bastante fraquinha.

Vejamos. Tudo se resume à busca do Dr. Hank e de sua filha, Hope, pela figura materna desaparecida décadas antes. Contra essa busca deles estão os interesses de um mercenário, Sonny Burch (Walton Goggins), e do FBI e da polícia – que tem o Dr. Hank e Hope como foragidos. Para ajudar pai e filha a encontrarem a esposa/mãe desaparecida, entra em cena Scott Lang/Homem-Formiga. Antigo “discípulo” do Dr. Hank, Scott se sente em dívida com eles.

Esse é o filme. Junto com essa narrativa, com dinâmica previsível, temos o lado “fofinho” da história que é a relação de Scott com a filha Cassie (Abby Ryder Fortson). A relação entre pai e filha, no núcleo do Homem-Formiga, e de pais e filha, no núcleo da Vespa, fazem desta produção algo tão família. Ah sim, e outra ameaça importante para os “heróis” vem de uma menina que sofre justamente com o que? Com a falta da família! Estou me referindo a Ava (chamada também de Ghost/Fantasma), interpretada por Hannah John-Kamen.

O roteiro de Chris McKenna, Erik Sommers, Paul Rudd, Andrew Barrer e Gabriel Ferrari busca, desta forma, equilibrar os elementos conhecidos das HQs para agradar a todas as faixas etárias de público. Mas vejo Ant-Man and the Wasp agradando, em especial, aos mais jovens, já que este filme abre mão das cenas mais violentas e da “complexidade” dos personagens e narrativa de Black Panther e Logan para centrar-se mais na parte “divertida” e familiar dos personagens.

O roteiro feito a 10 mãos segue uma narrativa linear e com um contínuo “rouba” e “recupera” do laboratório do Dr. Hank e da peça que faltava para o invento dele e de Hope funcionar. No fim das contas, como previsto, eles conseguem terminar com o experimento e a história tem um final feliz.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Todos conseguem se sair bem, até Scott em sua incansável quebra-de-braços com o FBI e a polícia. Mas é importante assistir ao filme até depois dos créditos, para assistir a uma cena final que nos remete a Avengers: Infinity War. A família Van Dyne desaparece após a vitória de Thanos, e aí fica a pergunta de quem irá resgatar Ant-Man do “mundo subatômico”.

Entre as qualidades de Ant-Man and the Wasp está o bom trabalho dos atores principais, os efeitos especiais e algumas sequências realmente engraçadas – ainda que estas últimas possam ser contatas nos dedos. Por incrível que pareça, a melhor sequência do filme não conta nem com Paul Rudd e nem com Evangeline Lilly em cena. Para mim, o grande momento de Ant-Man and the Wasp é quando o amigo de Scott, Luis (Michael Peña) é obrigado a toma uma injeção da verdade e acaba contando a história da amizade dele com Scott.

Luis não para de falar e volta para o momento em que os dois se conheceram. Ele conta tudo rápido até chegar ao “esconderijo” atual do amigo. Achei essa sequência genial e o ponto forte da produção. Apesar de todos do elenco estarem bem, achei que faltou um pouco de “química” entre Rudd e Lilly. Não vi neles toda aquela sintonia que esperamos de personagens que vão trabalhar como casal.

A grande surpresa da produção foi mesmo ver nomes do quilate de Michael Douglas e Michelle Pfeiffer em um filme baseado em HQ. Uma grata surpresa. No mais, nada de novo. Você verá tudo que já viu – e algumas vezes melhor – em outras produções do gênero. Mas vale assistir, é claro. Assim como valia assistir a muitos filmes da Sessão da Tarde. 😉

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ant-Man and the Wasp é um filme “divertidinho” da Marvel. Ele não tem o humor ácido de Deadpool e nem a profundidade dos personagens de Logan, Black Panther e alguns filmes do X-Men, mas ele tem a pegada de humor e de ação que marcam os filmes da grife. Como eu disse, nada que você já não tenha visto antes. Mas até por isso vale conferi-lo.

Afinal, quem é fã das HQs e de seus personagens, sabe que nem sempre todos os personagens são relevantes. Alguns nasceram para ser protagonista, como Homem de Ferro e Wolverine, enquanto outros nasceram para ser coadjuvantes – a exemplo do Homem-Formiga e da Vespa. Mas todos, mesmo os coadjuvantes, merecem ter as suas histórias contadas, e é isso que esse Ant-Man and the Wasp nos demonstra.

Essa produção é uma bela deixa para vermos ótimos atores em cena. Tiro o meu chapéu, em especial, para Michael Douglas e Michelle Pfeiffer – ainda que ela faça quase uma ponta nesta produção. Douglas rouba a cena cada vez que aparece. Paul Rudd manda bem. Ele tem carisma e humaniza muito bem o personagem. Evangeline Lilly… tenho um problema ao vê-la em cena porque sempre me lembro de Lost – quando a atriz viveu a sua grande fase. Ela está bem em Ant-Man and the Wasp, mas acho, sinceramente, que ela não tem toda aquela química desejada com Rudd. Mas faz parte. De qualquer forma, foi bom vê-la novamente em cena.

Além desses atores, que sempre valem serem acompanhados, um coadjuvante que rouba a cena é Michael Peña. Para mim, ele tem algumas da principais cenas e falas da produção – como disse antes, o momento alto do filme é quando ele está em cena, e sem contracenar com nenhum dos protagonistas. Ele está muito bem.

Entre os coadjuvantes, vale citar também o bom trabalho de Walton Goggins como Sonny Burch, um dos “vilões” da produção; de Bobby Cannavale como Paxton, novo marido da ex-mulher de Scott; Judy Greer como Maggie, a ex-mulher de Scott, mulher interessante que não perde a oportunidade para marcar posição; T.I. como Dave, um dos funcionários de Luis e Scott; David Dastmalchian como Kurt, outro funcionário da dupla; Hannah John-Kamen como Ava/Ghost, a garota que busca desesperadamente para uma solução para a sua morte iminente; Abby Ryder Fortson ótima como Cassie, filha de Scott; Divian Ladwa como Uzman, o homem do “soro da verdade” e funcionário de Sonny; Laurence Fishburne como Dr. Bill Foster, ex-colega de Dr. Hank Pym e protetor de Ava; e Randall Park como Jimmy Woo, o sujeito do FBI que tenta flagrar Scott em suas “estripulias”, mas que nunca consegue pegá-lo no flagra.

Como sempre, um detalhe muito interessante é vermos Stan Lee em uma das cenas da produção – no melhor estilo das aparições Alfred Hitchcock. Desta vez, ele aparece como um motorista que acaba tendo o seu carro miniaturizado. A fala dele é divertida, brincando com os “velhos tempos”. Eu babo e tiro o meu chapéu para Stan Lee. Grande sujeito!

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma o destaque vai para os efeitos especiais e visuais da produção, assim como a maquiagem. Essa é a velha magia dos filmes da Marvel – e volta a funcionar em Ant-Man and the Wasp. Além disso, vale citar a direção de fotografia de Dante Spinotti e a edição de Dan Lebental e Craig Wood; assim como a trilha sonora de Christophe Beck; o design de produção de Shepherd Frankel; a direção de arte de Rachel Block, Michael E. Goldman, Kiel Gookin, Calla Klessig, Jay Pelissier, Domenic Silvestri e Clint Wallace; a decoração de set de Gene Serdena e Christopher J. Wood; e os figurinos de Louise Frogley.

Ant-Man and the Wasp estreou no dia 25 de junho de 2018 em uma première em Los Angeles. Depois, no dia 4 de julho, o filme estreou em 12 países, incluindo Dinamarca e Espanha. No Brasil o filme estreou no dia seguinte, dia 5 de julho.

Esse é nada menos que o vigésimo filme da Marvel dentro do “Marvel Cinematic Universe”. Uau! Para uma fã antiga de quadrinhos, eu jamais poderia imaginar que a Marvel chegaria tão longe. Acho bacana, especialmente pelo incentivo que isso dá para as HQs continuarem em evidência. Leiam quadrinhos! Garanto que é algo maravilhoso! 😉

E pensando aqui, que já são 20 filmes “made in” Marvel, certamente tenho que concluir que uma boa parte deles eu não assisti. Então não posso me considerar uma “especialista” da grife – ao menos nos cinemas. Um dos filmes que eu percebi agora que eu perdi foi o Ant-Man que lançou os personagens no cinema. Puff!!

Agora, uma curiosidade sobre essa produção. Nos quadrinhos, Ghost nunca lutou contra Ant-Man. Ou seja, eis uma “licença poética” desta produção.

Esse filme é dirigido por Peyton Reed. Nem lembrei de citar o nome dele antes porque, francamente, acho que ele faz um trabalho mediano e dentro do esperado – nada além disso.

Para quem é super fã do universo Marvel e tem certinho na mente a evolução dos personagens, vale citar: Ant-Man and the Wasp é ambientado no “capítulo oito da fase três do Universo Cinematográfico Marvel”.

Esse é o segundo filme da grife Marvel que estreia em 2018 tendo o ator protagonista como um dos roteiristas. O anterior foi Deadpool 2, onde Ryan Reynolds aparece nesses créditos – como Paul Rudd em Ant-Man and the Wasp.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para Ant-Man and the Wasp, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 224 críticas positivas e 34 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 6,9. Por sua vez, o site Metacritic apresenta um “metascore” 70 para o filme, fruto de 38 avaliações positivas e 13 medianas. Ou seja, o filme caiu no gosto de público e de crítica.

De acordo com o site IMDB, Ant-Man and the Wasp teria custado cerca de US$ 162 milhões – uma pequena fortuna, não? E conforme o site Box Office Mojo, o filme faturou US$ 164,6 milhões apenas nos Estados Unidos e outros US$ 188,9 milhões nos outros mercados em que o filme já estreou. Ou seja, no total, até o dia 22 de julho, o filme teria faturado cerca de US$ 353,5 milhões. Está no caminho de começar a dar lucro. E deve seguir nessa levada.

Ant-Man and the Wasp é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme bem “Sessão da Tarde”. Ant-Man and the Wasp nos entrega o básico do que é previsto para um filme de super-heróis. Ou seja, equilíbrio entre ação, drama, romance e comédia, diversas sequências ótimas de conflito e efeitos especiais, um bom grupo de atores e nada mais. A diferença desta produção para outras recentes da Marvel é que este filme foca na família e nas amizades, deixando para lá outros assuntos mais complexos – tratados em filmes como Black Panther e Avengers: Infinity War. Se você assiste a todos os filmes da Marvel, esse será apenas mais um no seu currículo. Se você está começando a ver a esse tipo de filmes, comece com algum outro – como Black Panther. Há filmes melhores do gênero. Mas para completar uma figurinha do álbum, esse filme é ok.

Anúncios

The Martian – Perdido em Marte

themartian1

Dificuldades e desafios sempre vão aparecer pela frente. Algumas vezes eles são tão grandes e decisivos que ameaçam a nossa vida. Nestes momentos, alguns indivíduos parecem crescer e se tornam maiores. Conseguem superar a dificuldade ou o desafio para sobreviver. The Martian é uma ficção, mas ela nos conta uma destas histórias inspiradoras que trata do espírito da superação e da busca pela sobrevivência a qualquer preço.

A HISTÓRIA: Imagens do planeta vermelho. Uma terra ainda inóspita e desabitada. A parte denominada Acidalia Planitia foi utilizada pela missão Ares III da Nasa como local de pouso. Começamos a acompanhar o dia da missão relacionada ao sol 18. Um dos astronautas, Mark Watney (Matt Damon), comenta com a equipe que o solo está mais fino na seção 29, o que deve facilitar as futuras análises.

Ele está recolhendo diversas amostras do solo de Marte. Outro astronauta, Rick Martinez (Michael Peña), tira sarro da descoberta e Watney pergunta o que de importante ele irá fazer no dia, talvez verificar se a VAM (veículo utilizado pela tripulação) segue no mesmo local. Em breve, uma tempestade fará o grupo de astronautas sair de Marte, exceto por um deles que sofre um acidente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Martian): Os leitores que me acompanham aqui no blog há mais tempo sabem que eu tenho algumas manias. Uma delas é não assistir ao trailer dos filmes antes de assisti-los. Outra é de evitar o máximo possível ler qualquer coisa a respeito deles antes de conferir a produção. Segui estas regras mais uma vez ao ver The Martian.

Sendo assim, a minha primeira surpresa foi me deparar, logo nos minutos iniciais, com um elenco tão bom e que parece ter sido reunido à dedo para The Martian. Ainda que grande parte do filme seja focado no solitário personagem de Matt Damon, o elenco de apoio é um verdadeiro deleite. Sem contar que o próprio Matt Damon está muito bem em seu papel – talvez um dos melhores de sua carreira até agora.

A segunda surpresa ao assistir ao filme foi a qualidade das imagens da produção. O diretor Ridley Scott reuniu uma equipe de primeira linha para conseguir fazer um filme impecável de ficção científica com o que há de melhor atualmente em tecnologia para o cinema. E tudo isso a serviço de uma grande história. Drew Goddard faz um belo trabalho no roteiro desta produção – texto baseado no livro homônimo de Andy Weir.

Vencedor da categoria Melhor Filme – Musical ou Comédia no Golden Globes deste ano, The Martian também me surpreendeu por não ser um filme de comédia. Claro que há humor na produção, mas esse humor é inteligente, não é forçado e nem é o ponto forte do filme. Há bastante ação, aventura e drama além da evidente ficção científica. Definitivamente não acho que The Martian pode ser considerado uma comédia pura e simplesmente.

Feitas estas observações, quero dizer que The Martian foi uma grande surpresa. Tanto pela excelência técnica da produção quanto e principalmente pela qualidade do roteiro e da equipe envolvida no projeto. Gostei demais do texto de Goddard. E a direção de Ridley Scott é impecável em cada detalhe. Não teve nenhum momento em que o filme me deu sono ou “preguiça” de assisti-lo. Pelo contrário. Mesmo tendo duas horas e 24 minutos de duração, The Martian tem um bom ritmo e prende a atenção do espectador do primeiro até o último minuto.

Claro que há muitas cenas que são um pouco “forçadas”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, o protagonista ter sobrevido aos ferimentos causados por aquele pedaço de antena que ficou enfiado em seu corpo. Se o pedaço tivesse atravessado uma perna ou um braço dele, tudo bem. Teria resolvido o que ele fez – inclusive aqueles grampos. Mas a tal antena atravessou a barriga dele, atingindo, não há dúvida, algum órgão interno. Pelo local de entrada do objeto, provavelmente o intestino. Sério mesmo que ele não teria, sem uma operação, uma hemorragia interna e morreria disso em alguns dias?

Mas aí vale aquela regra de quando assistimos filmes de ação ou de ficção científica: não dá para exigir que tudo que vemos seja lógico. Se pedíssemos isso não existiram produções como Mission Impossible. Então vamos combinar de dar diversos descontos para alguns fatos que acontecem em The Martian – além do citado, acho que chama mais a atenção a viabilidade das “coberturas” com plástico que Watney faz para sobreviver na estação em que ele está vivendo em Marte e depois na cápsula que vai levá-lo para fora do planeta vermelho.

Se tivermos boa vontade e dermos descontos para estes “tropeços” da história, podemos nos centrar no que importa mesmo em The Martian. A grande mensagem do filme é a de não desistir nunca. Você foi preparado, é inteligente e tem diversos instrumentos para encontrar soluções para os seus problemas. Então você tenta, acerta e erra, e quando algo dá errado, volta a tentar. Watney encarna o espírito de todo cientista, especialmente aqueles envolvidos em missões espaciais. E este é um diferencial desta produção.

Como você eu já vi a diversos filmes de ficção científica. Mas nunca, antes de The Martian, assisti a um que tratasse tanto do espírito do astronauta. Como Watney deixa bem claro no final, eles sempre estão em situações extremas e em locais nada amigáveis ou propícios para a vida. Muitas vezes eles tem que lutar para sobreviver. Para isso, devem estar muito bem preparados. Sempre que encontram um problema, devem encontrar uma solução para ele. E, desta forma, tentar sobreviver sempre e completar as suas missões.

Os astronautas são a elite dos cientistas – ou parte dela, pelo menos. Não por acaso é tão difícil e competitiva a seleção de astronautas. Não lembro de ter visto a outro filme que tratasse tão bem do perfil deles e dos bastidores da Nasa. Afinal, lá pelas tantas, Watney consegue se comunicar e a trama se divide entre o que acontece em Marte e o que acontece na Terra. Esse é outro ponto interessante deste filme. Não ficamos assistindo a um homem solitário falando com a câmera (no fundo, o público que está assistindo ao filme) o tempo todo, ao estilo de Cast Away. Não.

O que vemos é uma dinâmica muito interessante entre o que acontece em Marte e na Terra e, em certo ponto, inclusive com uma terceira linha narrativa, a da nave com a equipe de astronautas comandada por Melissa Lewis (Jessica Chastain). Em cada realidade destas há problemas acontecendo e exigindo escolhas dos personagens envolvidos.

Em Marte, Watney dá um banho de como ter uma atitude adequada frente a uma situação complicada. Ele encara as situações com humor e com sabedoria, tentando aprender e se superar a cada momento. Na Terra, o diretor da Nasa Teddy Sanders (Jeff Daniels) lidera uma equipe diversificada e tem diversas questões que analisar, inclusive o orçamento e a política. Ao lado dele, destaque para o ético Mitch Henderson (Sean Bean) e para o supercompetente e preocupado com cada etapa dos planos envolvendo Watney, Vincent Kapoor (Chiwetel Ejiofor).

E, finalmente no espaço, na viagem de retorno para a Terra, os colegas de Watney estão no escuro por uma parte da viagem até que ficam sabendo que ele sobreviveu. Em certo momento eles devem decidir se voltam para buscá-lo ou não. Eles próprios tem os seus desafios e o risco de perder o que mais amam.

Envolvente e bem escrito, o roteiro deste filme surpreende e convence – descontados aqueles detalhes. O texto tem algumas tiradas muito boas, especialmente as referências nerds. Matt Damon, como eu disse antes, está ótimo, assim como o estrelado elenco de coadjuvantes. Todos estão muito bem e convencem. A produção também é impecável e cheia de detalhes nos três ambientes.

Ridley Scott dá uma aula de direção. Para diferentes momentos da produção ele utiliza distintas técnicas e elementos de filmagem. Todos se justificam e se explicam. Nas cenas no espaço, o filme não deixa nada a desejar para o elogiado Gravity. Aliás, impossível não lembrar da produção de Alfonso Cuarón que ganhou sete estatuetas do Oscar (e que foi comentada aqui). Pessoalmente, prefiro muito mais The Martian – gosto pessoal, evidentemente. Em termos de qualidade técnica e entrega de elenco, The Martian é tão bom quanto Gravity – ou superior.

Honestamente, gostaria de não dar uma nota tão efusiva quanto a abaixo para esta produção. Pensei muito, mas não vi nenhuma grande falha que pudesse ser apontada. Também levei em conta não apenas as qualidades desta produção, mas o efeito que ela teve em mim. Gostei e me surpreendi com a narrativa, assim como com os outros elementos. E quando eu não consigo achar um defeito em um filme e ele me toca por sua mensagem, dá nisso.

NOTA: 10 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Admito que The Martian não chamou a minha atenção antes dele ser indicado e ganhar em diversas categorias do Globo de Ouro e, principalmente, de ser indicado ao Oscar. Como vocês que me acompanham sabe, todos os anos me esforço para assistir ao máximo de filmes que concorrem ao Oscar. Primeiro porque eu respeito e admiro a premiação. Depois porque eu acho que ela nos ajuda a encontrar alguns filmes realmente bons. Qual a minha surpresa, ao ser “obrigada” a assistir The Martian – especialmente porque ele concorre a Melhor Filme -, que ele era tão bom. Merece estar nas listas dos críticos entre os melhores de 2015, sem dúvida.

Ridley Scott é um grande diretor. Um dos grandes de Hollywood. Mas ao mesmo tempo que ele foi capaz de nos apresentar grandes produções como American Gangster, Hannibal e Gladiator – para falar das mais recentes – e clássicos insuperáveis como Blade Runner e Alien, nos últimos anos tive um pouco de preguiça de assistir a produções dele que não foram nada bem na avaliação de crítica e público como Exodus: Gods and Kings, The Counselor ou Robin Hood. Sou franca em dizer que não assistir a nenhum destes. Scott estava me dando uma certa “preguiça” ultimamente. Mas parece que ele voltou à boa forma com The Martian. Que bom! Esperamos que ele siga nesta maré nas próximas produções.

Falando em voltar à boa forma, Matt Damon também está incrível nesta produção. Ele fará uma boa queda-de-braços com Leonardo DiCaprio no Oscar – ainda que, me parece, o protagonista de The Revenant leva uma boa vantagem na disputa. Mas não seria injusto premiar a Matt Damon. Veremos.

Sobre o elenco de The Martian, vale citar os outros nomes envolvidos no projeto e que são fundamentais para dar qualidade para a produção – eles se saem muito bem em seus papéis, sejam eles pequenos ou quase uma ponta: Kristen Wiig como Annie Montrose, relações públicas da Nasa; Kate Mara como a astronauta Beth Johanssen, especializada em sistemas e a “nerd” da turma; Sebastian Stan como o astronauta Chris Beck, responsável mais pela parte operacional da missão no espaço – ele que sai para fazer manutenções fora da nave, por exemplo; Aksel Hennie fecha o grupo de astronautas da missão de Watney como Alex Vogel; Benedict Wong como Bruce Ng, que lidera o grupo responsável por construir as naves e o módulo que vai levar alimentos para a sobrevivência de Watney; Mackenzie Davis como Mindy Park, a operadora que descobre que Watney está vivo; e Donald Glover como Rich Purnell, o super nerd que faz os cálculos e descobre que a nave que está indo para a Terra pode retornar para Marte e buscar Watney.

Aliás, agora eu vou me dar o direito de fazer um comentário bem nerd. Além de adorar filmes, eu tenho um fraco por séries de TV. Então foi um prazer rever nesta produção quatro atores que eu gostei muito de acompanhar em quatro séries distintas. Jeff Daniels, astro de The Newsroom – série infelizmente cancelada após a terceira temporada; Sean Bean, ator consagrado como o Ned Stark de Game of Thrones; Kate Mara, a Zoe Barnes de House of Cards; e o figuraça Donald Glover, da genial e cancelada Community. Também foi um prazer rever em cena tão bem a ótima Jessica Chastain e o ator Michael Peña.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, The Martian teve cenas na Jordânia, na Hungria e nos Estados Unidos. As cenas de Marte, claro, foram rodadas em Wadi Room, na Jordânia, que tem um deserto de cor vermelha. As cenas da Nasa foram feitas no Johnson Space Center, nos Estados Unidos, e as de interior na Hungria.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O livro que inspirou The Martian tem uma história interessante. Andy Weir publicou a história pela primeira vez, apenas para se divertir, em seu blog. Aos poucos as pessoas pediram para ele colocar a história de alguma forma para download. Até que ele colocou a história para download na Amazon Kindle ao custo de US$ 0,99.

Ridley Scott filmou as cenas individuais com Matt Damon durante cinco semanas seguidas, para que o ator ficasse mais livre após estas filmagens. Desta forma, Damon se encontrou com muitas pessoas do elenco apenas quando o filme foi promovido.

Agora, uma dúvida que eu tive e certamente você teve no final do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu à produção ainda). Matt Damon realmente emagreceu dezenas de quilos para aparecer tão magro na reta final de The Martian? O ator gostaria de ter feito isso, de ter emagrecido para aparecer inclusive nas cenas finais, mas Ridley Scott lhe proibiu. No lugar dele foi utilizado um dublê de corpo na sequência em que ele aparece nu de costas e bem magro.

No livro de Weir, Mark Watney tem dois mestrados, um em botânica e o outro em engenharia mecânica. No filme é citado apenas o PhD dele em botânica – ainda que fique claro, pelos fatos, que ele entende de engenharia, mas isso não fica claro no roteiro como está no livro.

Interessante que durante o filme, quando Watney pensa em plantar batatas, logo de cara eu pensei: “Certo, e a água para isso?”. Na sequência veio a resposta para a minha dúvida – bastante criativa, diga-se. Agora, algo interessante sobre a realidade superando a ficção. Quatro dias antes do filme ser lançado nos cinemas, a Nasa revelou que tinha encontrado provas de que ainda há água salgada em Marte. Ou seja, a questão da água seria ainda mais fácil para um possível Watney no planeta vermelho – bastaria dessalinizá-la para usar em um cultivo ou consumir bebendo.

A missão a Marte mostrada no filme emularia missões reais que a Nasa está planejando para o futuro.

Parece incrível, mas The Martian foi filmado em apenas 72 dias.

Um dia ou “sol” em Marte é cerca de 37 minutos mais longo do que um dia na Terra. O ciclo sono-vigília do ser humano é de 24 horas e 11 minutos, mas experimentados tem mostrado que ciclos que variam entre 23 horas e 30 minutos e 24 horas e 36 minutos não causam problemas de adaptação para as pessoas, por isso um ser humano não teria grandes problemas para se adaptar no “tempo” de Marte.

O abrigo-barraca em que Watney passa a maior parte do tempo é chamado “hab” (abreviação para Mars Lander Habitat). A Nasa já tem protótipos de habs completos para Marte, com oxigenadores, recuperadores de água e sistemas de portas que protegem os astronautas da atmosfera quase sem ar e com frequentes bombardeios de radiação de Marte.

A paisagem e o ambiente de Marte que vemos no filme foram feitos com a combinação de cenas reais do deserto e computação gráfica.

As cenas exteriores em Marte foram rodadas no Korda Studios em Budapeste, na Hungria. Considerado o maior estúdio do mundo, lá o desenhista de produção Arthur Max pode instalar uma tela verde gigantesca, que ocupou quatro paredes. “Era o espaço suficiente para fazer uma paisagem marciana grande”, comentou Max.

De acordo com as notas de produção do filme, há algumas diferenças entre o livro e a produção de Ridley Scott. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Watney teria passado por bem mais dificuldades do que as que vemos no filme, por exemplo, e quem acaba resgatando ele no espaço foi Beck e não Lewis como aparece no filme. No livro também não há aquela sequência final de Watney como professor na Nasa – a obra termina com ele sendo resgatado e eles voltando para a Terra.

The Martian estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois o filme participaria, ainda, dos festivais de Nova York e Bergen. Até o momento o filme recebeu 18 prêmios e foi indicado a outros 124. Entre os que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Filme – Musical ou Comédia e Melhor Ator – Musical ou Comédia para Matt Damon no Globo de Ouro; cinco prêmios como Melhor Roteiro Adaptado; por ter aparecido em quatro listas como um dos melhores filmes de 2015; e, finalmente, pelos prêmios de Melhor Diretor para Ridley Scott, Melhor Ator para Matt Damon e Melhor Roteiro Adaptado pelo National Board of Review.

Antes falei do elenco, mas é preciso falar da parte técnica do filme – uma parte fundamental da produção. Além do ótimo roteiro de Drew Goddard, se destacam em The Martian a direção de fotografia de Dariusz Wolski; o design de produção de Arthur Max; a trilha sonora de Harry Gregson-Williams; a direção de arte com nove profissionais; a decoração de set de Celia Bobak e Zoltán Horváth; os figurinos de Janty Yates; o departamento de arte com 93 profissionais; o departamento de som com 29 profissionais; os efeitos visuais que contaram com uma equipe de 30 pessoas; e os efeitos visuais com uma equipe interminável – parei de contar em 300. Nunca vi uma equipe tão grande de efeitos visuais envolvida em um filme. Realmente impressionante.

The Martian teria custado US$ 108 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 227 milhões. No restante do mundo, nos mercados em que a produção já estreou, ele fez pouco mais de US$ 370,5 milhões. Ou seja, até agora, faturou cerca de US$ 597,6 milhões. Nada mal. Um belo lucro, apesar do custo bastante alto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção – uma bela avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 262 textos positivos e 20 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,9. A avaliação dos críticos, para mim, poderia ter sido melhor – especialmente a nota. Mas gostos são gostos, não é mesmo?

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos com o Reino Unido.

CONCLUSÃO: Um dos melhores filmes de ficção científica que eu já assisti. Verdade que The Martian tem diversos episódios difíceis de acreditar. Mas é como em filmes de ação. Quem pode exigir que tudo seja verossímil? The Martian tem um grande roteiro, é bem contado e tem um ator esforçado em cena. Há humor inteligente, ação e um certo suspense em cena, além de ótimas sequências de pura ficção científica.

Ainda que seja um filme sobre exploração espacial, ele é, principalmente, uma produção sobre a força do espírito humano e o amor pela ciência. Há nesta produção mais testemunhos sobre o que faz homens e mulheres passarem meses ou anos longe de casa e em situações inóspitas e arriscadas do que em qualquer outro filme. Para mim, foi surpreendente o que The Martian me passou. Uma das surpresas desta reta final para o Oscar.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: The Martian é o terceiro filme com o maior número de indicações no prêmio anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele só está atrás de The Revenant (com crítica aqui), indicado em 12 categorias, e de Mad Max: Fury Road (com comentário neste link), indicado em 10.

A produção dirigida por Ridley Scott concorre a Melhor Filme, Melhor Ator (Matt Damon), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Design de Produção, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som e Melhores Efeitos Visuais. Vejamos cada categoria destas. Em Melhor Edição de Som há grandes concorrentes. Vejo que Mad Max: Fury Road e Star Wars: The Force Awakens estão liderando nesta categoria. Ainda que The Martian tenha um grande trabalho aqui. Ainda assim, acho que ele concorre por fora.

Em Melhor Mixagem de Som novamente grandes concorrentes para esta produção. Além de Mad Max: Fury Road e Star Wars: The Force Awakens está na parada Bridge of Spies (com crítica aqui). Ou seja, nesta duas categorias The Martian concorre por fora. Não seria injusto ele ganhar, mas ele teria que derrotar os favoritos. Em Melhor Ator, sem dúvida, Matt Damon tem como grande rival Leonardo DiCaprio – para mim, o favorito. Mas, como sabemos, DiCaprio já mereceu um Oscar antes, mas até agora a Academia o esnobou. Veremos se neste ano ele leva a melhor. De qualquer forma, novamente, não seria injusto Damon levar a estatueta. E falando em esnobada… desta vez quem a Academia esqueceu foi Ridley Scott, que acabou não sendo indicado a Melhor Diretor.

Na categoria Melhor Design de Produção The Martian tem dois grandes rivais: Mad Max: Fury Road e The Revenant. Parada dura. Ainda acho que Mad Max: Fury Road leva vantagem aqui também. Em Melhores Efeitos Visuais, talvez aquela equipe gigantesca que eu cite antes façam The Martian levar a estatueta. Para isso, ele terá que vencer os fortes Mad Max: Fury Road, Star Wars: The Force Awakens e The Revenant. Outra disputa entre gigantes.

Como Melhor Roteiro Adaptado o filme tem alguma chance. De fato o roteiro é um dos pontos fortes de The Martian. Mas o mesmo pode ser dito de Room (comentado neste link) e Carol (com crítica aqui). Francamente, fico em dúvida entre eles, mas acho que meu voto iria para Room. Nesta categoria tudo pode acontecer, há chances para os três – vejo menos possibilidade para The Big Short (com crítica neste link). Brooklyn ainda preciso assistir.

E, finalmente, Melhor Filme. Acho que The Revenant e Spotlight estão na frente de The Martian na disputa. Ainda que não seria injusto o filme levar o caneco. A safra está boa neste ano – talvez a produção mais “fraca” na disputa seja Bridge of Spies. Todos os outros, de fato, são muito bem acabados – ainda que Mad Max: Fury Road não tenha “feito a minha cabeça”, ele é muito bem acabado. Será um Oscar interessante de ser assistido.

ADENDO (18/01): Pensei melhor e achei que dar um 10 para o filme seria um pouco de exagero. Por isso reduzi a nota um bocadinho. 😉 De qualquer forma, é uma bela produção. Uma das melhores sobre exploração do espaço que eu já assisti.

American Hustle – Trapaça

americanhustle1

Hollywood gosta de um certo tipo de filme. Aquele que retoma as músicas, as roupas e todo o estilo marcante dos anos 1970 e início dos anos 1980. Várias produções recentes focam naquele período, e American Hustle aparece para aumentar esta lista. Quando encarei esta produção, tinha visto como críticos e público dos Estados Unidos tinham se animado com o filme. Também não consegui ignorar as indicações de American Hustle para o Golden Globes e a presença do filme em várias bolsas de aposta para o Oscar. E daí que após assisti-lo, posso dizer: é bom, mas parece muito com tudo que eu já vi antes.

A HISTÓRIA: Uma mensagem avisa que parte do que veremos, de fato, aconteceu. No dia 28 de abril de 1978, no Hotel Plaza, em Nova York, um sujeito com uma boa barriga saliente veste uma camisa, gasta bastante tempo arrumando o cabelo – não é fácil transformar uma careca em cabeleira -, coloca o óculos escuro e se prepara para o que virá em seguida. Na sequência, ele entra em um quarto em que homens monitoram câmeras e gravações que estão registrando tudo o que acontece na suíte próxima.

Quando se vira, este homem, Irving Rosenfeld (Christian Bale) vê a parceira, Sydney Prosser (Amy Adams) entrar no local em um belo vestido. Eles se olham, mas não falam nada. Em seguida, entra no local Richie DiMaso (Bradley Cooper), que confronta Irving. Richie quer saber porque ele anda falando dele “pelas costas”, afirmando que Richie está ameaçando a operação. Irving reclama de como tudo está caminhando. Em seguida, eles se encontram com o prefeito Carmine Polito (Jeremy Renner), que não gosta nada quando Richie lhe repassa uma maleta. Irving acaba tendo que correr atrás de Carmine e tenta, mais uma vez, fazer de tudo para sobreviver.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a American Hustle): Esta é uma destas produções que se revela rapidamente. Não há dúvidas sobre os elementos que vão interessar até o final da história. A caracterização dos personagens, incluindo um figurino de tirar o chapéu (desculpem o trocadilho), e o envolvimento dos atores com a história são artigos preciosos e valorizados desde o primeiro minuto. Em seguida, surge a trilha sonora, que vai revelar-se o ponto mais forte de American Hustle.

Desta vez, vou direto ao ponto nesta crítica: American Hustle começa muito bem. Tem ritmo, tem o encantamento de uma produção feita com esmero e preocupação nos detalhes. Sem contar que interessa pelo grande elenco. Mas depois de 30 minutos de filme, a impressão que eu tive – e que perdurou até o final – foi: “acho que já vi esta história antes”. Não igualzinha, evidentemente. Sempre há novos elementos em roteiros inéditos. Mas a essência da história já era conhecida. E nada pior, em uma “corrida” de expectativas pelo Oscar, do que ver a um filme quase “requentado”.

Por um lado, American Hustle lembra a várias produções recentes que recuperam o visual e a “alma” dos anos 1970/1980. Para ficar apenas em alguns exemplos, Boogie Nights, Lovelace, Almost Famous e Jobs. Depois, que já virou um clássico os filmes sobre golpistas que, nesta produção, ganha um novo “atrativo” com o acréscimo de outro lugar-comum: o último “golpe” que vira uma exigência antes da tão almejada liberdade. Ou, em outras palavras, a pressão para que os criminosos pratiquem um último crime para retomar a vida e não serem condenados e/ou mortos.

No fim das contas, esta é a história de American Hustle. Uma duplas de golpistas – ou de “trapaceiros”, com o título no mercado brasileiro sugere – deve ajudar um agente do FBI para que eles sigam em liberdade. Quem já assistiu a alguns filmes do gênero pode presumir onde isso vai parar, correto? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Normalmente, com este cenário posto, só resta duas alternativas: ou a dupla de bandidos se dá mal e morre (o que é difícil de acontecer aqui porque eles são apenas golpistas e não estão habituados a “matar ou morrer”), ou eles dão a “reviravolta” no golpe. Por saber disso, não foi nada surpreendente o final.

Para quem gosta de filmes sobre golpes, há produções relativamente recentes comentadas aqui no blog e que podem interessar, como Flawless e The Prestige. Mas voltemos a American Hustle. Para mim, o filme teve um grande interesse até o momento em que Richie DiMaso entrega o cheque de US$ 5 mil, a comissão dos golpistas, para Edith Greensley (identidade falsa que Sydney assume ao fazer parceria com Irving). A partir dali, ele só foi perdendo a graça.

Quer dizer, impossível American Hustle perder totalmente a graça com aquele desfile de figurinos maravilhosos e com aquele trilha sonora digna de compra em uma loja virtual. Sem dúvida alguma estes são os pontos fortes do filme que, junto com a atuação do elenco estelar, ajudam a fazer a gente engolir a história, um bocado previsível e que fica arrastada do meio para o final. Porque sem dúvida o roteiro de Eric Singer e do diretor David O. Russell não é o que alimentará os pensamentos do espectador depois que o filme terminar.

American Hustle é destas produções que vai agradar pela roupagem, pelo visual. O estilo do filme, incluída aí a direção competente e firme de Russell, fazem a diferença. E os atores também mostram porque estão entre os mais badalados e interessantes da atualidade. Todos estão muito bem. Christian Bale convence no papel do patético, mas inteligente e confiante Irving; Bradley Cooper transpira autoconfiança e uma certa arrogância como o policial pronto para fazer as prisões de sua carreira; Amy Adams está sensual e frágil na medida certa como a mulher com “pés no chão” que sabe seduzir para sobreviver; e Jennifer Lawrence… ah, Jennifer Lawrence!

Parece incrível dizer isso, tendo os outros três astros em cena, mas sempre que Jennifer Lawrence aparece em American Hustle ela rouba toda e qualquer atenção. Dá um show. Mesmo com Amy Adams sendo competente, não há espaço para lembrarmos dela quando Jennifer Lawrence aparece. E nem me refiro à beleza. Falo de talento mesmo. Fiquei impressionada logo nos primeiros minutos da atriz em cena pela forma com que ela assumiu o personagem da mulher que sabe impor a própria vontade sobre tudo e todos. Ponto forte do filme entre as atuações.

Além do elenco principal, American Hustle se dá ao luxo de ter nomes fortes em papéis “menores”. Para começar, Jeremy Renner em um papel diferente do que estamos habituados em vê-lo. Depois, temos Louis C.K. como Stoddard Thorsen, o chefe imediato de Richie; Michael Peña em quase uma ponta como o agente Paco Hernández/Sheik Abdullah; Alessandro Nivola como o superior de Stoddard, Anthony Amado; e Elisabeth Röhm como Dolly Polito, mulher do prefeito enredado na cilada dos protagonistas. Isso apenas para citar os nomes mais conhecidos.

Mas há espaço para a defesa do filme. Alguém pode dizer que ele se revela interessante porque toca na fragilidade de algumas investigações do FBI e da ânsia de alguns de seus agentes para pegar poderosos – cometendo deslizes éticos no caminho. Há também quem possa ver na história uma interessante narrativa sobre a corrupção que parece assolar todas as esferas públicas de governo. Mas a verdade é que eu não vi grande novidade por estes lados também.

Afinal, em termos de denúncia de corrupções e afins, The Departed e Public Enemies, por exemplo, me parecem ser mais enfáticos e criativos que American Hustle. Ainda que eu ache que o grande objetivo não era nem esse. Me parece que joga um papel mais importante na história os diversos interesses que podem dividir um homem – no caso, o protagonista Irving Rosenfeld. Tudo gira ao redor dele. Há o núcleo da família de Irving, com a genial mulher dele, Rosalyn, e o filho Danny (interpretado pelos gêmeos Danny e Sonny Corbo), representando a típica classe média da época; há a sagaz e sensual Sydney/Edith, uma sobrevivente que se identifica com o jogo de cintura do protagonista e se envolve verdadeiramente com ele; e há todo o restante dos personagens secundários que giram em torno deles – como políticos, empresários e a equipe do FBI.

Irving está dividido entre a forte ligação e o modelo familiar que ele desenvolveu com Rosalyn e a exigência cada vez maior de comprometimento de sua “alma gêmea” Sydney. Tudo vai bem até que os golpistas são pressionados pelo investigador Richie. A partir daí, tanto a vida profissional quanto a particular de Irving são afetadas e ele deve assumir uma posição.

Esta história particular acaba tendo um protagonismo muito maior do que todo o enredo sobre o envolvimento da máfia dos cassinos (e das drogas, jogos e etc) com políticos, a entrada de fortunas nos EUA com a chegada de estrangeiros atrás de favores para facilitar o acesso a um dos países mais prósperos do mundo, ou mesmo a preocupação de algumas figuras do FBI em conseguir uma operação que possa lhes dar fama e espaço nos holofotes. Tudo isso acaba sendo quase secundário frente ao triângulo amoroso de Irving, Rosalyn e Sydney – que ganha um elemento de “competição” (bem entre aspas) com a entrada de Richie na história.

Agora, acho importante comentar sobre alguns pontos que podem parecer confusos. Digo isso porque, para mim, ao menos, eles quase foram motivo de confusão. Afinal, qual era a “trapaça” dos protagonistas? Irving tinha uma rede de lavanderias, mas a principal fonte de recursos dele era a venda de obras de arte roubados ou falsificadas e, principalmente, o golpe com empréstimos falsos.

Ele garantia ter ótimo contatos e que poderia conseguir empréstimos para pessoas que tinham o crédito recusado nos bancos mas, no fim das contas, ele não tinha contato algum e nem conseguia os prometidos empréstimos. Independente de conseguir ou não quantias como US$ 30 mil ou US$ 50 mil para pessoas desesperadas, ele sempre cobrava a “taxa de administração” de US$ 5 mil – recurso não reembolsável, independente do resultado da “intermediação” dele. Na prática, como Sydney vai entender rapidamente, ele nem ao menos tentava ajudar aquelas pessoas – apenas tirava o dinheiro delas.

Richie vê a oportunidade de usar Irving e Edith/Sydney quando percebe que eles são golpistas. Em troca de deixá-los em liberdade, ele pede que eles utilizem a rede de contatos que tem para que ele, através do FBI, possa combater o “crime do colarinho branco”. Em outras palavras, chegar a gente poderosa e desmantelar a lógica do suborno. O prefeito Carmine, que é o típico político cheio de boas intenções e que abre mão de agir dentro da lei para conseguir o que considera bom para a cidade, entra no conto falso de que há um Sheik árabe com muito dinheiro querendo investir pesado na cidade.

Intermediando alguns contatos, que vão desde a máfia até congressistas e um senador, Carmine pensar estar garantindo um investimento que irá reformar Atlantic City. Ele não ganha dinheiro em momento algum. Inclusive fica ofendido quando lhe sugerem o recebimento de uma pasta suspeita. Há muitos políticos como ele, que acreditam que os “fins justificam os meios”. No Brasil mesmo… temos muitos. Vide o Mensalão. Mas no fim das contas, não importa quais são os fins se você se sujar inteiro para conseguir, passando por cima de leis e ajudando pessoas sem escrúpulos no caminho, não é mesmo? Irving tem um olhar de compreensão para Carmine mas, ainda assim, ele segue com os planos.

Essa ideia de trapaça ou golpe pode ser entendida também para a ação do FBI. Afinal, eles engendram todo um esquema mentiroso para pegar os políticos corruptos e desmascarar parte do problema. Mas como Irving mesmo diz, em certo momento, questionando Richie, afinal de contas que “peixe grande” ele pegou neste processo? Muitas vezes são pegos os corruptos, mas o que é feito com os corruptores? Na maioria das vezes – ou sempre -, nada. E isso acontece aqui, porque a história toda era falsa.

E daí que, no fim das contas, você fica fascinado com a trilha sonora, com os figurinos e com os atores, mas não dá grande importância para a história. Para mim, que acho o roteiro um elemento fundamental para um filme ser excelente ou não, ficou faltando qualidade no texto. Isso até não incomodaria tanto se não estivéssemos falando de um dos grandes concorrentes ao Oscar, em uma disputa para escolher o melhor filme lançado nos EUA em 2013. Francamente, comparado a outras produções desta safra e à expectativa que eu tinha com o burburinho a seu respeito, American Hustle deixou a desejar.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei curiosa para saber um pouco mais sobre “a história por trás desta história”. Já que no início do filme ficou sugerido que American Hustle tinha um quê de realidade… E daí que achei este texto elucidativo do The Washington Post. De acordo com o jornalista Richard Leiby, a produção dirigida por David O. Russell é inspirada na megaoperação anticorrupção do FBI chamada Abscam. Ela veio à tona em 1980 e envolvia, de fato, “sheiks árabes falsos, mafiosos reais, políticos locais corruptos, congressistas dos EUA”. E com um detalhe: tudo filmado.

Ainda conforme o texto do The Washington Post, o ex-supervisor do FBI John Boa foi quem supervisionou Abscam entre 1978 e 1980, tempo de duração da operação que terminou com a prisão de seis congressistas e um senador por suborno e conspiração. Na época em que as prisões aconteceram e o caso veio à público, Abscam foi considerado “o maior escândalo de corrupção política na história do FBI”. Isso porque o trabalho teria envolvido mais de 100 agentes.

Além destes agentes do FBI, a operação teria contado com a participação fundamental do vigarista Melvin Weinberg, informante dos agentes federais que recebia US$ 3 mil por mês, além de bônus, para ajudar em Abscam. Achei engraçada a declaração que o verdadeiro Irving Rosenfeld (na realidade, Melvin Weinberg) deu para o escritor Robert W. Greene: “Eu sou um trapaceiro. Há apenas uma diferença entre mim e os congressistas que conheci em Abscam. O povo lhes paga um salário para roubar”. E não é isso o que todos nós fazemos com tantos políticos? 🙂

Achei interessante que além de resgatar informações históricas sobre Abscam, o texto do The Washington Post comenta sobre o quanto de American Hustle se parece com a história real. De acordo com Leiby, “os momentos em American Hustle que possuem maior verossimilhança são aquelas recriações de vídeos de baixa resolução em preto e branco obtidos com câmeras escondidas”. Ou seja, quase nada do filme é fiel com Abscam.

Há vários elementos técnicos que funcionam bem nesta produção – como pede um grande projeto de Hollywood. Ainda que o figuro seja digno de muitos elogios e deslumbre a qualquer espectador, não tenho dúvidas que a trilha sonora é o que mais me marcou. Achei impecável, uma das melhores que eu ouvi em filme nos últimos tempos. Daí que fiquei pensando que ela deveria ser indicada ao Oscar. Mas não.

Vale lembrar que apenas trilhas sonoras originais concorrem a uma estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Em original eles querem dizer produzida exclusivamente e especificamente para um filme. E como American Hustle tem uma seleção impecável de músicas mas, ainda assim, apenas uma seleção e não uma composição específica, o filme não vai ser indicado nesta categoria para o Oscar. Mas garanto para vocês que a trilha merece ser procurada.

Falando nos figurinos do filme, achei este texto interessante do New York Post que fala, especificamente, sobre a dificuldade de trabalhar com o vestuário dos anos 1970 em produções que retratam esta época. Gostei do material de Faran Krentcil especialmente porque ali encontramos um apanhado geral de outras produções que buscaram estas referências. Vale a leitura.

Da parte técnica do filme, destaco, além da trilha sonora de Danny Elfman e do figurino de Michael Wilkinson, o bom trabalho do diretor David O. Russell. Ele é um sujeito que sabe dar estilo e dinâmica para os seus filmes, com algumas sequências arrebatadoras – aquela em que Rosalyn detona o marido para o filho é a melhor da produção para mim – em American Hustle. Muitas vezes, Russell deixa a trilha sonora tomar conta da produção, valorizando os astros que tem em suas mãos, assim como o restante do trabalho da equipe técnica. Decisões inteligentes. Ainda assim, do meio para o final, o filme perde em ritmo e fica um pouco cansativo. Mas esses são problemas do roteiro que, algumas vezes, pela verborragia, lembra o estilo Tarantino – mas sem a qualidade dele.

Outros elementos que valem ser mencionados: a direção de fotografia de Linus Sandgren; a edição do trio Alan Baumgarten, Jay Cassidy e Crispin Struthers; e principalmente o design de produção de Judy Becker; a direção de arte de Jesse Rosenthal e a decoração de set de Heather Loeffler – estes últimos três ajudam a nos ambientar no tempo da história com a mesma eficácia que o figurino e a trilha sonora.

American Hustle teria custado aproximadamente US$ 40 milhões. Uma pequena fortuna, e suficiente para fazer oito Dallas Buyers Club (filme comentado aqui no blog), por exemplo. Segundo o site Box Office Mojo, até hoje, dia 12 de janeiro, American Hustle teria conseguido quase US$ 101,6 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e mais US$ 17 milhões nos outros mercados em que já estreou. Ou seja: vai conseguir se pagar e obter algum lucro.

Esta produção estreou no dia 12 de dezembro na Austrália e, no dia seguinte, de forma limitada, nos Estados Unidos, onde estrou para valer uma semana depois. No dia 14 de dezembro American Hustle participou do único festival no qual marcou presença até agora, o Festival Internacional de Cinema de Dubai.

Até o momento American Hustle ganhou 32 prêmios e foi indicado a outros 76. Entre as indicações, estão sete no Golden Globes. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o AFI Awards como Filme do Ano; para seis prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Jennifer Lawrence, assim como cinco para o grupo de atores como Melhor Elenco. Além de ser indicado a sete Golden Globes, American Hustle foi indicado a nove prêmios BAFTA. ATUALIZAÇÃO (13/01/2013): O Golden Globes acaba de ser entregue. American Hustle ganhou como o Melhor Filme – Comédia ou Musical, além dos prêmios de Melhor Atriz para Amy Adams e Melhor Atriz Coadjuvante para Jennifer Lawrence. A primeira, para mim, foi surpreendente. Lawrence sim, mereceu! Ela arrasa toda vez que aparece. Adams está em mais um bom trabalho, mas nada que saia da curva esperada. Foi muito bem no prêmio.

Agora, uma curiosidade sobre este filme: a cena da briga entre Christian Bale e Jennifer Lawrence no quarto foi improvisada. Ela não estava prevista no roteiro, mas como os atores estavam com um pouco de dificuldade de se conectarem com aquelas falas, o diretor resolveu deixar eles fazerem “do seu jeito”.

E eu ia quase terminando este post sem comentar a ponta mais luxuosa da produção: Robert De Niro faz um mafioso (claro!) chamado Victor Tellegio, que sempre está preocupado em uma rota de fuga e que gosta de parecer um “fantasma”, destes que ninguém vê.

Voltando para as curiosidades sobre a produção… Inicialmente a produção teria o título de American Bullshit. Ela figurava em oitavo lugar na Black List de Hollywood em 2010. Essa lista traz os títulos de roteiros que não conseguem ser produzidos.

Os personagens de Christian Bale, Bradley Cooper, Amy Adams, Jeremy Renner, Jennifer Lawrence, Louis C.K. e Robert De Niro foram escritos por David O. Russell pensando especificamente em cada um destes atores.

No início dos anos 1980 o diretor Louis Malle adaptou a história de Abscam em um roteiro, prevendo ter Dan Aykroyd e John Belushi como um agente do FBI e um vigarista, respectivamente. Mas a morte de Belushi em 1982 fez com que o projeto fosse abandonado.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Teria sido ideia de Amy Adams que Jennifer Lawrence lhe tascasse um beijo no banheiro.

A seleção musical é impressionante. Entre outras, canções de Duke Ellington (especialmente “homenageado” pelo filme), Jack Jones, Frank Sinatra (que tinha que fazer parte de uma produção sobre mafiosos), Ella Fitzgerald, Donna Summer, Tom Jones, Elton John, The Temptations, Santana, The Bee Gees e David Bowie. E para embalar a melhor sequência do filme, Live and Let Die, escrita por Paul McCartney e Linda McCartney e interpreta pelos Wings.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para American Hustle. Achei ela bastante justa. Eu também pensei em dar um 7,8, por aí, mas pelo conjunto da obra deste filme decidi ser um pouco “generosa”. Apesar do roteiro fraquinho. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 215 textos positivos e apenas 17 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,2.

American Hustle é uma produção 100% dos EUA – o que engrossa a lista de filmes comentados por aqui e que satisfaz a uma votação feita no blog.

CONCLUSÃO: Gosto muito de ver a grandes atores em cena. E este filme… bem, uma das principais qualidades de American Hustle é o elenco estelar escalado para a produção. Mas o problema do filme é que ele surge em uma história recente de filmes feitos em Hollywood que resgatam a “alma” das décadas de 1970/80. Isso não seria um problema se a história fosse surpreendente. Mas nem o roteiro, que começa tão bem, consegue segurar o interesse até o final.

E daí que elementos como o elenco, a trilha sonora e o figurino acabam se destacando ainda mais – já que a história, por si só, não se revela tão instigante assim. American Hustle é destes filmes bem produzidos e que sempre será destacado nas premiações, mas que no final das contas não traz nenhuma grande história ou mesmo surpreende o espectador. Pelo contrário. Passatempo interessante, especialmente pela trilha sonora. E só.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Dentro de poucos dias vamos saber com quantas indicações American Hustle vai chegar no Oscar. No dia 16 sai a lista dos filmes com chances de ganhar estatuetas. Acompanhando as bolsas de apostas e os comentários dos especialistas dos Estados Unidos, percebi pouco a pouco como esta produção foi crescendo. Ela pode – e deve – ser indicada em várias categorias. Mas duvido muito que ganhe a maioria delas.

Na aposta dos críticos, o filme pode ter entre 10 e 12 indicações ao Oscar. Incluindo as categorias principais e as de caráter mais técnico. Francamente, acho mesmo que ele pode chegar a esse número – sendo otimista e também um pouco realista, já que a produção tem crescido nos últimos tempos.

Não será difícil para American Hustle ser indicado como Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Design de Produção, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Cabelo. Mas nestas categorias e nas demais em que pode chegar, o filme terá que disputar a quarta ou quinta vaga com outras produções em pé de igualdade – com exceção de Melhor Filme, onde podem ser indicados até 10 títulos.

Em outras categorias, como Melhor Ator e Melhor Atriz, o caminho de American Hustle é mais difícil… mas tudo vai depender do lobby e da força que o filme conquistou nos últimos tempos para colocá-lo em lugares que não eram tão previstos assim. Mas acho que seria uma grande surpresa se o filme conseguisse várias estatuetas. Meu palpite é que ele tem reais chances em Melhor Atriz Coadjuvante, para Jennifer Lawrence, e Melhor Figurino.

Talvez ele possa surpreender em Melhor Ator Coadjuvante, para Bradley Cooper, mas acho complicado – porque ele terá pela frente Michael Fassbender (12 Years a Slave, comentado aqui no blog) e Jared Leto (Dallas Buyers Club), que estão melhores em seus papéis, entre outros concorrentes. E até mesmo Jennifer Lawrence tem uma tarefa inglória, porque ela compete com Lupita Nyong’o (fantástica em 12 Years a Slave) e outros nomes fortes de filmes que eu ainda não assisti. Tarefa complicada para American Hustle ganhar alguma estatueta este ano! Logo veremos…