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The Mule – A Mula

Ficar “velho” não é mole não. Todos acham bacana quem chega aos 90 ou aos 100 anos de idade, mas quem chega lá não tem apenas motivos para sorrir. Ainda assim, sempre é bacana viver bastante. Afinal, se ganha mais tempo para amar, perdoar, ser amado e ser perdoado. Sobre tudo isso é que esse The Mule trata. Um filme bastante honesto e que nos presenteia com mais um filme dirigido e estrelado pelo grande, pelo mestre Clint Eastwood. A história em si não apresenta grandes achados, mas a interpretação de Eastwood é quase um testamento que ele nos deixam. Um presente, para falar a verdade.

A HISTÓRIA: Uma linda plantação de amarílis. Vemos a diferentes tipos de flores em uma propriedade em Peoria, no Estado de Illinois, em 2005. Dentro de uma estufa, Earl Stone (Clint Eastwood) colhe uma flor. Ele escuta um funcionário chegando, José (Cesar De León), e brinca com ele que, do jeito que ele dirige, ele parece querer ser deportado. Em seguida, Earl chega na convenção anual de produtores de amarílis. Ele presenteia Helen (Jackie Prucha) com uma flor e cumprimenta as pessoas do evento.

Earl será premiado naquela noite, quando prefere passar tempo com os amigos do que ir no casamento da filha, Iris (Alison Eastwood). Depois de 12 anos, Earl tem que deixar a casa, por causa de uma ação de despejo, porque viu o negócio de venda de flores ser derrotado pela internet. Ao comparecer na festa de noivado da neta, Ginny (Taissa Farmiga), Earl conhece um amigo dela, Rico (Victor Rasuk) que lhe convida para continuar dirigindo pelas estradas do país e ganhar uma grana com isso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Mule): Eu não vou mentir para vocês. Eu tenho uma grande, expressiva “quedinha” por Clint Eastwood. Admiro tanto esse diretor e ator que eu não consigo não gostar de algo que ele faça. Assim, claro, eu já tenho uma visão contaminada e otimista sobre The Mule apenas pelo fato dele dirigir e protagonizar este filme.

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Claro que a nota abaixo tem muito a ver com essa minha admiração por ele. Inicialmente, eu daria uma nota um pouco mais baixa, mas aquele final do filme… A forma com que The Mule acaba parecendo um testamento de Clint Eastwood, me fez aumentar a avaliação da produção. Eastwood merece toda a nossa admiração por seguir produzindo, dirigindo e atuando mesmo após tantas décadas de dedicação e de trabalho no cinema.

Para vocês terem uma ideia, o primeiro trabalho de Eastwood como ator foi em 1955. Ou seja, ele tem 64 anos de trabalho nessa área. Como diretor, ele estreou em 1971, ou seja, tem 48 anos de carreira e segue na labuta. Um sujeito admirável e impressionante, sem dúvidas. Mas vamos falar deste último filme dele, The Mule.

A produção em si não é muito surpreendente ou marcante. Grande parte do filme acompanha as “desventuras” do protagonista viajando do Texas para Illinois. O roteiro de Nick Schenk, baseado no artigo The Sinaloa Cartel’s 90-Year Old Drug Mule de Sam Dolnick publicado na New York Times Magazine, procura equilibrar um pouco de drama com uma trama policial e pitadas de comédia aqui e ali.

Como era de se esperar, Clint Eastwood faz um ótimo trabalho na direção e como intérprete. Acreditamos perfeitamente naquele personagem que ele nos apresenta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um senhor de 90 anos de idade que por ter viajado pela maior parte do país vendendo suas mudas de amarílis sem nunca ter recebido uma multa acaba sendo alvo de um dos cartéis de drogas mexicanos. Ele “simplesmente” faz o transporte de mercadorias que lhe pedem e, em troca, ganha uma boa quantidade de dinheiro por cada viagem.

A história nos faz pensar sobre como a vida é complicada e injusta com a maioria – acredito que seja a maioria – dos idosos mundo afora. Geralmente eles não tem uma boa aposentadoria e não tem mais oportunidades de trabalho ou de colocação no mercado. Muitos, a exemplo de Earl, acabaram vendo o seu próprio negócio definhar com o surgimento da internet – e eles não se adaptaram a essa nova era.

Assim, “do nada”, surge uma oportunidade dele seguir fazendo o que ele gostava – viajar pelas estradas do país – e ainda ganhar uma quantidade de dinheiro que ele nunca tinha visto na vida. Ao menos não em tão pouco tempo. No final da vida, despejado de casa e cobrado pela família por nunca ter estado presente, podemos realmente julgar Earl? Veterano da guerra da Coreia, ele percebe que a sociedade atual não dá bola para caras como ele. Então por que não se sentir útil e fazendo o que deseja pela última vez?

Algo que achei interessante nesse filme é a forma com que o roteiro de Schenk humaniza o personagem. Earl é um sujeito “velha guarda” que se adapta muito bem aos novos tempos. Claro que ele nunca se entende muito bem com o celular – e isso é normal e bastante comum entre quem não nasceu com essa tecnologia ao lado -, mas no restante das situações ele se adapta muito bem. Earl não tem problemas com os imigrantes, muito pelo contrário.

Enquanto vemos alguns moradores do interior dos Estados Unidos olhando com desconfiança para mexicanos, Earl se dá muito bem com eles – antes, quando era um produtor de amarílis e empregava mexicanos como funcionários e, depois, quando trabalha com eles no tráfico de drogas. Depois, o protagonista de The Mule lida muito bem com grupos de “sapatas” motoqueiras, quando as encontra no caminho, e com uma família de negros quando para para ajudar-lhes na estrada.

Claro que ele erra no politicamente correto e usa palavras que não são bacanas para se referir a todas essas pessoas. Mas isso não faz dele um sujeito preconceituoso. Esse ponto é interessante porque mais do que prestar atenção no que alguém fala e nas palavras que usa é importante observarmos como ela age. Isso sempre vai se sobrepor.

Mas voltando para The Mule. O filme, no fundo, é um ir e vir nas viagens de Earl e, em paralelo, o movimento que a polícia faz para melhorar os seus índices de combate às drogas. O detetive Colin Bates (Bradley Cooper) lidera, junto com o detetive Treviño (Michael Peña), uma operação para desmantelar os cartéis de drogas mexicanos. Enquanto vemos Earl avançando nas graças do chefe do tráfico mexicano Laton (Andy Garcia), vemos o trabalho de Colin e Treviño, sob a supervisão e comando do agente especial interpretado por Laurence Fishburne, avançar.

A história, contada de forma linear, tem muito espaço para destrinchar a rotina de Earl e a sua relação conflituosa com a família formada pela ex-mulher Mary (Dianne Wiest), pela filha Iris e pela neta Ginny. Earl se sente culpado por não ter dado toda a atenção para a família que ela merecia ao mesmo tempo que sabe que a sua natureza era a de “curtir a vida” e fazer as coisas “à sua maneira”.

Com o dinheiro que ganha como “mula”, Earl prova isso ao ajudar a família ao mesmo tempo que compra uma caminhonete nova, recupera a propriedade perdida por dívidas e curte a vida comendo bem a cada viagem e curtindo com algumas mulheres jovens e bonitas. A parte do filme centrada em Earl e na sua família funciona muito bem, enquanto que a narrativa centrada no México e no cartel parece um tanto “deslocada”.

O personagem de Julio (Ignacio Serricchio) é um exemplo disso. Ele parece bastante “forçado” na narrativa. Se o propósito dele era o de mostrar que o cartel não é mole ao mesmo tempo em que também tem o seu caráter humano, acho que esse propósito ficou um tanto forçado. A narrativa de perseguição “gato e rato” do filme é previsível e tem um desfecho nada surpreendente. A parte mais interessante da produção é justamente o foco no protagonista, mostrando que alguém com 90 anos de idade ainda pode fazer muito – não apenas trabalhar, mas também curtir a vida e fazer as pazes com a própria família.

Da minha parte, como comentei antes, fiquei especialmente comovida com o final. Quando o personagem de Clint Eastwood ressalta a mensagem de que o que importa mesmo é a família e não o trabalho ou a carreira e que alguém pode comprar tudo, menos o bem mais precioso que existe, que é o tempo, não parece que seja Earl que esteja dizendo tudo isso, e sim o próprio Clint. Não tem como não se emocionar com isso.

Por outro lado, algo perto do final do filme me incomodou um pouco. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Em sua última viagem para o cartel, quando ganhou um ultimato para não atrasar e não sair da sua rota, Earl acaba fazendo tudo isso ao optar acompanhar os últimos momentos de Mary. Até aí, tudo bem. Ele desviar da rota e quebrar as regras não é problema. Agora alguém quer me convencer que realmente o cartel entregaria tanta droga para alguém sem colocar um rastreador no carro ou não ter investigado antes onde moravam os familiares dele? Entendo a forçada de barra para os propósitos do roteirista, mas achei isso difícil de acreditar.

Toda vez que um filme ignora o óbvio para justificar a sua narrativa, acho que a produção perde alguns pontos. Honestamente, esse filme não mereceria mais do que uma nota 8 – e isso porque temos Clint Eastwood em cena. Mas aquele final estilo “testamento” do diretor/ator me fez aumentar um pouco a nota da produção. The Mule é um filme mediano, mas para os fãs de Eastwood, sempre valera a pena vê-lo em cena.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Claro que envelhecer e ter a chance de chegar aos 90 ou aos 100 anos de idade é algo muito bacana. Uma benção. Mas nem todos chegam nessa idade bem como Clint Eastwood. Muitos tem vários problemas de saúde e precisam de cuidados permanentes. E mesmo os que envelhecem bem, geralmente, não tem as condições de Eastwood de continuar fazendo o que amam e de continuar trabalhando. Está na hora das nossas sociedades começarem a ver a velhice como um processo positivo e natural e a integrar mais os idosos em todas as atividades da sociedade, sem desprezar as pessoas depois de uma certa altura da vida.

Como não amar Clint Eastwood? Adorei as cenas em que ele se diverte dirigindo, cantando e “sassaricando”. Muito bacana também os momentos em que ele contracena com mexicanos e com a veterana Dianne Wiest. Ainda que ela pareça bastante “apagada” na história se comparamos a sua atuação com a de Clint.

Falando em atuações, achei o trabalho de Clint excelente. Ele está perfeito naquele personagem, vivendo um sujeito um pouco mais velho do que ele atualmente. Os outros atores fazem um bom trabalho, mas ninguém tem um grande destaque nesta produção. Todos parecem, me desculpem o termo, mas um pouco “anestesiados”. Eu não destacaria ninguém, em especial. Mas vou citar alguns nomes que fizeram parte desta produção.

Interessante como além de Clint, temos alguns atores de destaque nesta produção. Pessoas que estão em alta, como Bradley Cooper, ou outros que são reconhecidos por suas carreiras e por terem apresentado ótimos trabalhos em outras produções. Vale comentar o bom trabalho de Alison Eastwood como Iris; de Kinsley Isla Dillon como a jovem Ginny; de Dianne Wiest como Mary; de Taissa Farmiga como Ginny adulta; de Robert LaSardo como Emilio, líder do grupo que entrega as drogas para Earl; Laurence Fishburne como o líder do grupo de combate ao tráfico; Bradley Cooper como Colin; Michael Peña como Treviño; Eugene Cordero como Luis Rocha, o informante do cartel que acaba sendo fundamental para as ações de Colin e Treviño; Andy Garcia como Laton, chefe do cartel no México; Clifton Collins Jr. como Gustavo, funcionário de Laton que acaba lhe dando um golpe; e Ignacio Serricchio como Julio, um dos homens de confiança de Laton.

Além deles, vale citar outros nomes que fazem o trabalho de coadjuvante – quase em pontas no filme: Richard Herd como Tim Kennedy, colega de Earl no cultivo de amarílis; Victor Rasuk como Rico, amigo de Ginny que coloca Earl no negócio do tráfico; Alan Heckner como o policial do Texas que para Earl; Paul Lincoln Alayo como Sal, um dos traficantes que trabalham com Earl; Dylan Kussman como o Sheriff que interpela Earl e os mexicanos que estão com ele; Manny Montana como Axl, um dos homens de Gustavo; Lobo Sebastian como Lobo, outro capanga de Gustavo; e Derek Russo como o grandão que bate na máquina de gelo e que é detido no lugar de Earl no motel que está sendo vigiado por Colin e Treviño.

Da parte técnica do filme, o único item maior de destaque é a direção segura e eficiente de Clint Eastwood – um diretor que entende muito bem da “ciência” por trás das câmeras. O roteiro de Nick Schenk é apenas mediano. Além destes aspectos, vale citar o bom trabalho de Yves Bélanger na direção de fotografia; a trilha sonora bastante pontual e “sentimental” de Arturo Sandoval; a competente edição de Joel Cox; o design de produção de Kevin Ishioka; a direção de arte de Rory Bruen e Julien Pougnier; a decoração de set de Ronald R. Reiss; e os figurinos de Deborah Hopper.

The Mule é dedicado a Pierre Rissient e a Richard Schickel. Fui procurar um pouco mais sobre eles e vi que Pierre Rissient era francês, nascido em Paris em 1936. Ele trabalhou como diretor assistente e morreu em maio de 2018 aos 81 anos. Entre outros trabalhos, ele foi diretor assistente de Jean-Luc Godard no clássico À Bout de Souffle (Acossado, no Brasil). Richard Schickel, natural do Wisconsin, nos Estados Unidos, atuou como produtor, diretor e roteirista. Ele nasceu em 1933 e faleceu em fevereiro de 2017. Ele produziu, dirigiu e escreveu o roteiro de diversos filmes sobre nomes do cinema, inclusive focando no trabalho de Eastwood.

The Mule estreou em dezembro de 2018 em uma première em Los Angeles. Até o momento, o filme não participou de nenhum festival de cinema e não ganhou nenhum prêmio.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. The Mule é inspirado na história de Leo Sharp, um veterano da Segunda Guerra Mundial que e tornou a “mula” de drogas mais antiga e prolífica do mundo para o Cartel de Sinaloa, um dos mais conhecidos do México.

Para o personagem de Earl, o figurinista queria que diversas roupas tivessem o aspecto de desgastadas. Por isso foram resgatados trajes utilizados por Clint Eastwood em outros filmes, como Gran Torino (comentado aqui no blog), True Crime e In the Line of Fire.

Fiquei curiosa para saber sobre a vida “sentimental” de Clint Eastwood. Afinal, o seu personagem fala tanto de família, não é mesmo? 😉 Clint foi casado pela primeira vez com Margaret Neville Johnson, com quem ele esteve junto entre 1953 e 1984. Com ela, Clint teve dois filhos. Em 1996 ele se casou com Dina Eastwood, com quem ele teve uma filha e com quem ele ficou casado até 2014. Eles se divorciaram naquele ano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 122 críticas positivas e 52 negativas para esta produção – o que garante para The Mule uma aprovação de 70% e uma nota média de 6,11. O site Metacritic, por sua vez, apresenta um “metascore” 58 para esta produção, fruto de 19 críticas positivas, 15 medianas e três negativas.

Clint Eastwood ainda chama muita atenção nos cinemas. Isso é o que demonstra o site Box Office Mojo. The Mule, produção que teria custado cerca de US$ 50 milhões, teria faturado pouco mais de US$ 103,8 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e mais US$ 65,1 milhões nos cinemas de outros mercados. No total, o filme faturou cerca de US$ 168,9 milhões. Um belo resultado para um filme interessante, mas que não é excepcional.

The Mule é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog. 😉

CONCLUSÃO: The Mule, em si, não nos apresenta uma história realmente impressionante. Mas o filme nos emociona porque parece que Clint Eastwood está nos deixando o seu testamento. E as maiores mensagens que ele quer nos passar é que a família é o que realmente interessa (ou o amor, em outras palavras) e que você até pode comprar tudo, menos o tempo. Sabendo que no dia 31 de maio o diretor vai completar 89 anos, parece que a fala de seu personagem é a dele próprio. Como não se emocionar com isso? O filme vale por Clint, como tudo que ele faz. Não é uma produção brilhante, mas ela é sensível e tem a sua mensagem. Se você é fã dele, não pode perder.

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Sully – Sully: O Herói do Rio Hudson

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Não é fácil assistir a Sully depois do que aconteceu com o voo da Chapecoense. Talvez outras culturas ou nacionalidades não tenham esse problema, mas para nós, que vivemos tudo de perto, tem outro impacto ver as cenas deste filme. Bem produzido e com uma direção impecável do mestre Clint Eastwood, Sully tem um Tom Hanks em grande forma, mais uma vez vivendo um “homem comum” em uma situação extraordinária. Construído com esmero, Sully faz o espectador se emocionar sem apelar para o sentimentalismo. É um filme honesto.

A HISTÓRIA: Começa com o áudio de uma conversa entre o piloto Sully (Tom Hanks) e os operadores do aeroporto La Guardia. Sully diz que eles estão sem os dois motores e que precisam de um pouso de emergência. Com 155 passageiros e tripulantes, o avião se choca contra prédios de Nova York. Este é um pesadelo. Sully acorda ofegante.

No dia seguinte, ele corre às margens do Rio Hudson e, distraído, quase é atropelado. Depois de tomar um bom banho, ele assiste às notícias sobre o pouso que fez no Rio Hudson. Em seguida, ele vai para uma audiência do NTSB (National Transportation Safety Board) que investiga o que aconteceu com o avião e as razões que fizeram Sully decidir fazer um pouso forçado no rio e não voltar para um dos dois aeroportos que estavam disponíveis.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Sully): Como eu comentei lá no início, não é fácil assistir ao pedido de socorro do comandante do voo 1549 da US Airways e não pensar no desespero do que aconteceu com o voo da Chapecoense. E não apenas isso, mas nos faz pensar também que tudo poderia ter acabado de uma forma totalmente diferente.

Diferente do exemplo de Sully, que tinha 42 anos de experiência e teve um controle impressionante no pouso forçado no Rio Hudson, o piloto da LaMia acabou fazendo escolhas erradas e não encontrou nenhuma rota para salvar a maior parte dos tripulantes e passageiros de seu voo.

Como catarinense, não consegui me desprender totalmente deste fato “fora do filme” quando assisti a Sully. Consegui me colocar mais no lugar dos envolvidos do que se não tivesse passado pela experiência de acompanhar de perto a cobertura sobre o acidente com o time da Chapecoense. Isso semanas depois de tudo ter acontecido. Por isso mesmo foi acertadíssima a decisão da distribuidora de Sully de adiar um pouco a sua estreia – originalmente o filme estrearia na mesma semana em que o acidente da Chapecoense aconteceu.

Uma característica fundamental deste filme é mergulhar no personagem-título. O roteiro de Todd Komarnicki, baseado no livro escrito por Chesley “Sully” Sullenberger e Jeffrey Zaslow, mostra a história sempre sob a perspectiva do protagonista. A produção magistralmente dirigida pelo mestre Clint Eastwood começa com o pós-grande evento, ou seja, com Sully acordando após um de seus vários pesadelos depois dele ter conseguido um pouso praticamente impossível no Rio Hudson.

A partir deste momento, o filme é praticamente todo linear, mostrando as reações e o dia a dia de Sully e do copiloto Jeff Skiles (Aaron Eckhart) durante as investigações sobre o voo feitas pelos especialistas do NTSB (National Transportation Safety Board), uma organização independente nos Estados Unidos responsável pelas investigações sobre acidentes aéreos.

Desde o início o grupo formado por Charles Porter (Mike O’Malley), Ben Edwards (Jamey Sheridan) e Elizabeth Davis (Anna Gunn) questionam as decisões tomadas na cabine de comando do avião. Diferente do que Sully havia afirmado, eles dizem que um dos motores estava funcionando, ainda que em marcha lenta, e que todos os cálculos dos engenheiros aeronáuticos mostravam que Sully e Skiles poderiam ter voado até um dos dois aeroportos disponíveis e que já tinham sido avisados para um pouso de emergência.

Inicialmente você poderia imaginar que um filme sobre uma investigação de um acidente de avião poderia ser chato, maçante, mas não é isso que vemos em Sully. A tensão entre os investigadores e os pilotos é evidente, mas mais que isso, o filme de Clint Eastwood nos mostra todas as informações conflitantes que circundam a vida dos protagonistas.

Enquanto dentro de uma sala eles são questionados pelo grupo do NTSB e parecem cada vez mais equivocados em suas decisões, nas ruas, bares e na casa das pessoas eles são considerados heróis por terem salvado todas as pessoas que estavam naquele avião. A imprensa ajuda nesta construção do heroísmo, mas como sempre acontece, há algumas vozes dissonantes na imprensa também e que começam a questionar as decisões do comandante.

Todos os atores estão perfeitos em seus papéis. De forma inteligente, o roteirista e o diretor sabem explorar bem o dia a dia de Sully, em especial. Vemos os efeitos de angústia, pesadelos e a solidão que surge após o acidente e durante o isolamento pelo qual ele e Skiles passam durante as investigações sobre o acidente. As conversas de Sully com a mulher Lorraine (Laura Linney) ajudam a tornar o personagem humano, mais completo. Ele tinha uma família, contas para pagar e estava preocupado com a iminência de ser culpado por parte do acidente e, com isso, ter a carreira terminada antes do tempo – e sem direito à aposentadoria.

O filme só abandona a narrativa linear nos momentos em que apresenta em pinceladas um pouco a carreira de Sully, há 42 anos atuando como piloto de diferentes tipos de avião, e quando retorna a história em mais de uma dimensão para mostrar os momentos que antecederam o embarque e o curto voo da aeronave da US Airways pilotada por Sully.

A direção de Eastwood especialmente nestes momentos de retrocesso na narrativa é muito precisa, sem sobras, sem desperdícios. Toda a sequência do acidente e do que acontece após o pouso forçado são de tirar o chapéu. Ajuda muito também na narrativa a escolha do elenco, que tem grandes nomes além de Tom Hanks.

Por todo esse conjunto da obra, e muito pelo talento de Hanks, o espectador não tem dificuldade de se colocar no lugar das pessoas. Especialmente de Sully. Hanks consegue, mais uma vez, uma grande empatia no papel do “sujeito comum” que é colocado em uma situação extraordinária.

Algo interessante que Sully levanta é sobre as diferentes versões sobre o mesmo fato e de como uma mesma situação pode levantar diferentes interpretações. Por pouco Sully não foi responsabilizado por uma decisão que parecia equivocada. Isso teria significado o fim de uma carreira de muita dedicação e de talento puro – do contrário, ele não teria conseguido êxito em um pouso tão difícil e raro.

A postura de Sully é um elemento fundamental e que nos dá muitas lições. Para começar, ele não contou com a sorte. Ele tinha 42 anos de experiência e soube ser muito profissional no momento em que passou por uma situação de emergência. Ele se manteve calmo e gastou o tempo necessário para fazer a adequada leitura do cenário que tinha pela frente e tomar a decisão mais acertada para aquela situação. Também teve grande controle e precisão no momento do pouso na água.

Mas mais que a dedicação constante para tornar-se cada vez melhor naquilo que ele fazia, Sully teve uma postura exemplar de humildade. Tanto é verdade que, apesar de ter certeza de que ele tinha feito o que era preciso naquela situação, ele chegou a começar a duvidar de si mesmo conforme o comitê do NTSB apresentavam as suas argumentações.

Depois, quando Sully percebe um elemento fundamental que eles não estavam levando em conta, ele não bate no peito e se vangloria como o herói que grande parte da sociedade está o classificando. Ele diz que conseguiu o êxito em uma situação que pode ser considerada milagrosa por causa do bom desempenho de toda a tripulação e dos passageiros que estavam no voo. Divide o mérito com todos eles. E a verdade é que ele tem razão ao fazer isso. Cada uma das pessoas que estavam naquela avião teve uma parte de responsabilidade para tudo dar tão certo.

Por outro lado, Sully dá a entender que os interesses econômicos podem estar acima dos valores humanitários e do bom senso em diversas ocasiões. Enquanto assistimos ao filme, parece realmente que os interesses da companhia aérea estão forçando a investigação a penalizar Sully – afinal, ao pousar na água, ele destruiu um avião que poderia, em teoria, ter pousado sem danos em um dos dois aeroportos próximos.

Mas após o filme terminar, o espectador pode refletir um pouco mais e pensar que há razões para uma organização independente questionar qualquer acidente aéreo. Só ao avaliar com exatidão cada decisão, cada falha e cada acerto é que eles podem trabalhar para evitar que outros acidentes aconteçam.

A resposta para o drama de Sully parece meio óbvia, mas da forma com que este filme é narrado, demoramos um pouco para perceber o óbvio. Somos levados pelas mãos por Eastwood para duvidar um pouco sobre o que está sendo argumentado, especialmente porque o próprio protagonista chega a duvidar de si mesmo.

Qualquer um de nós está sujeito a uma tomada de decisão difícil em algum momento da vida. Estarmos preparados o melhor que podemos e procurarmos sempre estar cercados das melhores pessoas podem ajudar no processo e, principalmente, em uma resposta mais satisfatória. Sully nos mostra isso e muito mais. Trata também da força da mídia para erguer ou sepultar heróis – ainda que, no caso de Sully, a maioria estava no processo de valorizar o seu feito.

Mais um belo filme de Clint Eastwood, um dos meus diretores preferidos. Mais uma grande interpretação de Tom Hanks, cada vez mais o ator que dá vida para sujeitos comuns que encantam o público pela empatia que eles despertam. Perfeito tecnicamente, Sully também é um filme que surpreende por fazer de uma história relativamente simples uma grande peça de cinema. Bela produção.

Admito que em mais de um momento me emocionei, especialmente por causa da postura de Sully, o seu caráter e o próximo que ele ficou de perder tudo por uma interpretação equivocada e injusta de tudo que aconteceu. Nos faz pensar. E sentir.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos grandes destaques deste filme, sem dúvida alguma, é a interpretação precisa, sem exageros e bastante convincente de Tom Hanks. Ele é um ator que sabe interpretar como ninguém um sujeito comum que vive situações que qualquer um de nós pode entender. Hanks convence em cada olhar de angústia, em cada gesto de determinação e de procura de respostas de seu personagem.

O ator que completou 60 anos de idade em 2016 já ganhou dois Oscar’s. Além das estatuetas douradas por seus papéis em Philadelphia e Forrest Gump, Tom Hanks tem nada menos que 78 prêmios no currículo e outras 125 indicações. É um dos grandes atores de sua geração e pode conseguir, com Sully, mais uma indicação ao Oscar. É possível, ainda que não seja uma “bola cantada”. Muitos especialistas colocam o nome dele como um dos possíveis indicados, mas ele ter ficado fora do Globo de Ouro não ajuda nesta expectativa.

O elenco escolhido por Clint Eastwood é um dos pontos fortes de Sully. Além do ótimo Tom Hanks, vale destacar o bom trabalho de Aaron Eckhart e Laura Linney, em especial. Os dois ajudam a dar uma dimensão mais humana para a história. Também estão bem em seus papéis o trio de “investigadores” do acidente, Mike O’Malley, Jamey Sheridan e Anna Gunn. Também se saem muito bem as atrizes que interpretam as comissárias do voo com pouso heróico: Jane Gabbert como Sheila Dail, Ann Cusack como Donna Dent, e Molly Hagan como Doreen Welsh.

Entre os atores com papéis menores, vale citar o trabalho de Blake Jones como Sully quando ele tinha 16 anos de idade e começou a pilotar; Chris Bauer como Larry Rooney, amigo de Sully; o trio de passageiros que chegaram atrasados e quase não entraram no voo e que representa algumas das dezenas de histórias que estavam dentro daquele avião e que foram interpretados por Max Adler (como Jimmy Stefanik), Sam Huntington (como Jeff Kolodjay) e Christopher Curry (o pai de Jeff, Rob Kolodjay); Patch Darragh como o operador de voo do aeroporto Patrick Harten; e o ótimo Michael Rapaport em uma super ponta como o barman Pete que atende a Sully.

Algo impressionante nesta história não foi apenas o pouso feito por Sully no Rio Hudson, mas também toda a operação de resgate dos passageiros e tripulantes que foi impressionantemente rápida e bem orquestrada. Só mesmo em um país que leva a segurança a sério como os Estados Unidos para que uma operação como aquela acontecesse de forma tão impressionante. Sem dúvida alguma no Brasil e em tantos outros países temos muito a avançar ainda neste sentido. Ainda que, é preciso admitir, tudo também correu também porque estamos falando de Nova York e de um rio importante como o Hudson, bem explorado e com uma excelente infraestrutura atrelada a ele.

Da parte técnica do filme, além da direção exemplar de Clint Eastwood, vale citar a excelente edição de Blu Murray; a competente direção de fotografia de Tom Stern; o design de produção de James J. Murakami; a direção de arte de Ryan Heck e Kevin Ishioka; a decoração de set de Gary Fettis; o impressionante trabalho dos 25 profissionais envolvidos com o Departamento de Arte; o fundamental trabalho dos 29 profissionais envolvidos com o Departamento de Som; o competente trabalho dos oito profissionais dos Efeitos Especiais; e o trabalho fundamental dos 140 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais. Sem o trabalho dedicado de toda esta equipe Sully simplesmente não seria possível de ser feito.

Sully estreou no Festival de Cinema de Telluride em setembro. Depois o filme estreou em diversos países antes de passar por outros três festivais: o de Londres, o de Torino e o Festival de Cinema Americano. Até o momento a produção ganhou quatro prêmios e foi indicada a outros nove.

Entre os prêmios que recebeu estão o de Ator do Ano para Tom Hanks no Hollywood Film Awards e o Icon Award para Tom Hanks no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs. A produção também aparece como um dos 10 filmes do ano no Prêmio AFI (junto com Arrival, Fences, La La Land, Moonlight, Silence, Zootopia, Hacksaw Ridge, Hell or High Water e Manchester by the Sea) e na lista Top Ten Films do National Board of Review (ao lado de Arrival, Hacksaw Ridge, Hell or High Water, La La Land, Moonlight, Silence, Hidden Figures, Patriots Day e Hail, Caesar!).

Sully teria custado cerca de US$ 60 milhões. Certamente grande parte deste orçamento foi gasto nos efeitos visuais, especiais e sonoros. Grande trabalho da equipe técnica envolvida. Apenas nos Estados Unidos o filme fez nas bilheterias até o dia 15 de dezembro quase US$ 124,8 milhões. No restante dos países em que o filme estreou ele fez outros Us$ 94 milhões. Ou seja, perto de US$ 218,8 milhões. Ele já é um sucesso de bilheteria.

Esta produção foi rodada em várias cidades dos Estados Unidos. Além de Nova York, que aparece de forma evidente no filme, Sully teve cenas rodadas em Atlanta e no Gwinnett Technical College, ambos na Georgia; e as cenas de simulação de voos na cidade de Charlotte, na Carolina do Norte.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso ela passa a atender a uma lista de pedidos que foi feita aqui no blog há algum tempo.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. O capitão do barco Vincent Lombardi, que comandava o primeiro ferry boat a chegar no socorro do avião que pousou no Rio Hudson interpreta a si mesmo no filme.

As cenas de resgate foram filmadas no mesmo local do Rio Hudson em que o resgate verdadeiro aconteceu. Sully também teve cenas rodadas no New York Marriot Downtown, local em que o piloto e o copiloto do voo foram levados após o acidente.

O ator Tom Hanks passou metade de um dia com o verdadeiro Sully para compreender ele melhor e, principalmente, pegar as suas característica para logo interpretá-lo melhor.

Sully utiliza o mesmo recurso de Forrest Gump na cena da entrevista feita por David Letterman. Ou seja, a entrevista original é utilizada no filme, apenas trocando os rostos das pessoas pelos atores da produção – com exceção de Letterman, é claro. A jornalista Katie Couric participou da produção reproduzindo a entrevista que ela fez com o Sully original para o 60 Minutes e que foi ao ar no dia 8 de fevereiro de 2009, apenas 24 dias após o acidente ter acontecido.

A canção “A Real Hero” da artista eletrônica francesa College feita em colaboração com a Electronic Youth foi feita em 2010 em homenagem ao Sully real. O líder da Electronic Youth Austin Garrick foi inspirado nos comentários que o avô dele fez sobre Sully, afirmando que ele era um “ser humano real e um verdadeiro herói”.

É bacana ficar até o final dos créditos por causa das cenas das pessoas reais envolvidas naquele voo milagroso. Depois de várias pessoas falarem, inclusive o verdadeiro Sully, a esposa dele, Lorraine, finaliza com uma declaração emocionada. É bacana ver tantas pessoas vivas contrastando com tantas pessoas que já morreram em desastres aéreos.

Impressionante pensar também que tudo durou 208 segundos… Pouco mais de três minutos e meio entre a decolagem, o choque com as aves e o pouso forçado no rio. Incrível.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 227 críticas positivas e 38 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,2. Especialmente a avaliação do público no IMDb é boa, ainda que ela e a avaliação do Rotten Tomatoes demonstrem que este filme não tem o mesmo padrão alto de outras produções que estão buscando uma vaga no Oscar 2017.

Para quem ficou curioso para saber mais sobre a história real de Sully e o seu pouso milagroso, este artigo da Wikipédia traz muita informação, inclusive com links interessantes para reportagens e vídeos. Sem dúvida alguma foi um episódio muito documentado.

CONCLUSÃO: Um filme com esmero técnico e narrativa competente, que sabe valorizar o trabalho do protagonista e que ganha pontos pela escolha à dedo do elenco de apoio. Uma história relativamente simples, que para alguns poderia não ter grande interesse no cinema, mas que ganha contornos interessantes graças à sensibilidade do roteirista Todd Komarnicki e do diretor Clint Eastwood. Mais um filme que nos faz refletir sobre os valores da nossa sociedade e sobre escolhas difíceis que alguns tem que fazer em segundos. Bem construído, tecnicamente perfeito e com grandes interpretações, especialmente de Tom Hanks, Sully merece ser visto.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Achei muito estranho como Sully foi esnobado pelo Globo de Ouro 2017. Claro que todos nós, que acompanhamos as principais premiações do cinema mundial a cada ano, sabemos que Globo de Ouro não significa Oscar e vice-versa. Ainda assim, não deixou de ser estranho o filme não ser lembrado em nenhuma categoria.

Nas bolsas de apostas para o Oscar 2017, contudo, Sully aparece em mais de uma ocasião. Da minha parte, acho sim que o filme tem potencial de chegar a algumas indicações. As mais óbvias seriam a de Melhor Filme, Melhor Ator para Tom Hanks e algumas indicações técnicas. Mas é preciso avaliarmos com um pouco mais de carinho estas chances.

Há muitos filmes ainda para assistir para poder comentar realmente sobre as chances de Sully como Melhor Filme. Desde que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood abriu esta categoria para até 10 indicações, as chances para filmes “não-óbvios” conseguirem uma vaga aumentou. Aparentemente, Sully não está entre os favoritos este ano. Há produções muito mais “fortes” na disputa e o filme de Eastwood estaria correndo “por fora”.

Ainda assim, como é possível até 10 concorrentes na categoria Melhor Filme, acredito que Sully poderá chegar lá. Mas ganhar… daí é algo muito mais difícil. Há outros filmes que levam vantagem neste sentido. Tom Hanks merece uma indicação ao Oscar, não tenho dúvidas. Mas para saber se ele realmente chegará lá será preciso antes assistir a outros fortes concorrentes. Como esta categoria tem apenas cinco vagas, Hanks terá mais trabalho para chegar lá.

No caso do ator conseguir uma vaga, a vida dele será bem difícil para conseguir conquistar a estatueta. Não há dúvidas de que ele merece por tudo que já fez no cinema, mas acaba sendo um tanto improvável ele vencer este ano.

Sobre as indicações em categorias técnicas, sem dúvida Sully tem argumentos para ser indicado a Melhores Efeitos Visuais, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som e até Melhor Edição. O problema é que este ano estamos “recheados” de filmes inspirados em HQs e que dão um “banho” justamente nestes quesitos.

Então Sully pode até emplacar uma indicação em alguma destas categorias, mas não é algo provável. Quanto a ganhar… bem, aí sim a tarefa será ainda mais complicada, porque os filmes de heróis são favoritos. No geral, acredito que o filme tem chances de ser indicado a duas ou mais categorias, mas tenho dúvidas se vencerá algo. De qualquer forma, estou na torcida para ao menos ele chegar lá, porque acho que os envolvidos e o filme em si merecem.

ATUALIZAÇÃO (19/12): Como comentei na crítica de Hell or High Water (que pode ser acessada aqui), nem sempre eu deixo clara as razões que fazem eu dar uma nota e não outra nas minhas críticas. Acho que não deixei muito claro, por exemplo, porque eu dei a nota acima para Sully e não uma nota maior. Muito bem, vou explicar melhor.

Como destaquei em toda a crítica sobre este filme, ele é perfeito, tecnicamente falando, e muito bem construído. O roteirista e o diretor surpreendem por fazer uma história relativamente “simples” de ser contada ter tanto “suspense” e emoção. Os atores estão bem, especialmente Hanks, mas alguns aspectos da produção me incomodaram um pouco e me impediram de dar uma nota maior para o filme.

Para começar, acho que o mesmo roteirista que torna a história interessante erra a mão um pouco em dois aspectos. Primeiro, em algumas cenas em que ele “exagera” um pouco no texto para emocionar – destaco, neste sentido, em especial, o “drama” do pai que procura o filho e não o encontra logo após o acidente, um tanto forçado para o meu gosto.

Outro ponto que me incomodou um pouco é a forma com que o roteirista carrega nas tintas para aparentar uma certa “perseguição” ou “caça às bruxas” dos representantes da NTSB nas investigações sobre os motivos para o acidente. Parece que eles estão tentando culpabilizar o tempo todo Sully, e me parece que a situação era muito mais técnica e menos “persecutória” do que o filme dá a entender. Estes dois pontos do roteiro me incomodaram um pouco e por isso eu dei a nota acima para Sully.

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American Sniper – Sniper Americano

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Dois elementos fazem parte do orgulho do povo dos Estados Unidos: a bandeira do país e as mortes em campos de batalha. Ok, nem todos tem orgulho destes dois elementos. Mas acredito que a maioria, me arriscaria a dizer que a população perto da totalidade, tenha. Sou fã de Clint Eastwood, mas acho que ele perdeu uma boa oportunidade de dedicar o talento dele para outra história que não esta de American Sniper. Ainda assim, admito, dá para entender o porquê do filme estar fazendo tanto sucesso em solo americano. Ele fala de “patriotismo” de um herói do país que virou referência em um passado recente. Tudo que eles adoram, junto com muitas cenas de guerra e de virilidade.

A HISTÓRIA: Um tanque avança. Perto dele, outro veículo blindado e homens fardados, bem armados e atentos. Dando cobertura para o avanço da tropa está o franco-atirador Chris Kyle (Bradley Cooper). Ele reclama que o local sobre o que ele e o colega estão está quente demais. Os soldados vão entrando nas casas dando chute nas portas enquanto Chris acompanha tudo sem piscar. Ele vê um homem em um terraço usando o celular, mas não atira.

Só quando uma mulher sai com um menino de uma casa e passa para ele uma granada russa AKG é que ele deve decidir se atira ou não. Corta. Voltamos no tempo e vemos Chris quando ele era um garoto (interpretado por Cole Konis) e estava aprendendo a atirar com o pai, Wayne (Ben Reed). Naquela época é que ele aprende a nunca largar a arma e que ele deveria ser valente para proteger o irmão – e quem mais precisasse. O filme conta a história dele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a American Sniper): Tem muitos filmes como este que começam promissor e depois… Não sei vocês, mas eu achei o começo de American Sniper muito interessante. Aquele atirador de elite com um menino na mira e tendo que decidir se puxaria o gatilho e não. Era praticamente certo que ele puxaria, e começar o filme assim forte seria interessante.

Mas aí o roteirista Jason Hall decidiu dar uma quebrada na narrativa, e nos explicar mais sobre aquele sujeito que estava com o dedo no gatilho. A ideia de voltar no tempo e fazer isso, vocês sabem, não é nada nova. Aqui, para a nossa sorte, a “contextualização” sobre o protagonista não demora muito para acontecer. Voltamos para a infância, inicialmente, que é quando as pessoas são formadas. Vemos como Chris Kyle foi “treinado”, a exemplo do irmão mais novo, Jeff (interpretado por Luke Sunshine quando criança e por Keir O’Donnell quando adulto), a não ser nem uma ovelha e nem um lobo. Os dois deveriam ser cães pastores.

Essa formação, dada de forma contundente pelo pai dos garotos, Wayne, foi bem aprendida por Chris Kyle. Tanto que o sujeito do interior dos Estados Unidos que gostava da ideia de ser cowboy mudou de ideia quando viu o país dele sendo “atacado” – quando do atentado na embaixada dos Estados Unidos em Nairóbi, no Quênia. Ele fica mexido ao ver aquela notícia na TV e resolve que vai servir ao seu país, defendendo a nação e tudo o que ela representa para ele e para os demais dos inimigos externos.

Saído do Texas, ele vai procurar informações sobre como melhor poderia prestar serviços, e acaba sendo orientado a entrar no “grupo de elite”, os SEALS. Ele faz o duro treinamento, que é mostrado rapidamente – afinal, este não é o foco de Hall ou de Eastwood. Quando termina a preparação, ao comemorar em um bar com os colegas de uniforme, ele encontra Taya (Sienna Miller), com quem ele tem uma troca de diálogos surpreendentemente honesta. Daí que ela contraria a própria regra de namorar um SEAL e os dois acabam se casando.

Em uma bela manhã, destas em que você acorda e nem desconfia que tudo vai mudar por causa de um fato, o casal vê o atentado contra as Torres Gêmeas pela TV. Assim que Chris vai parar no Iraque em sua primeira missão. Bem aquela em que ele deve decidir entre atirar ou não em um menino. A partir daí, meus caros amigos(as), o que se segue são inúmeras missões de combate no Iraque. Como o filme tenta resumir, mas de maneira ligeira e superficial, cada vez que Chris voltou para casa ele não se sentiu totalmente “em casa”.

Como muito bem explorado e de forma mais competente em outras produções, este “herói” de guerra simplesmente não conseguiu desconectar dos tiros e das explosões. Não conseguia encontrar tanta graça na vida familiar, com mulher e dois filhos, quanto no calor da batalha em que ele tinha altas doses de adrenalina todos os dias. E onde ele era considerado “uma lenda”, onde ele era considerado o melhor.

O pequeno problema, pelo menos ao meu ver, nesta filosofia de Chris Kyle, é que ele era o melhor em matar gente. Pessoas que tinham as suas casas e de seus familiares invadidas quando desse na telha dos americanos. Pessoas que viram as suas realidades mudarem brutalmente porque alguns terroristas mataram milhares de americanos em diversos ataques.

Um dos pontos que me deixou mais perplexa na história de Chris é que a forma com que a narrativa é tratada dá a entender que por pouco aquele sujeito não teria sido um baita cowboy, e teria ficado feliz com aquilo. Por acaso ele parou na posição de “sniper” e acabou sendo muito bom naquilo também. Ao invés de montar touros, ele virou o recordista em matar gente – ele é o franco-atirador mais “letal” da história do Exército dos Estados Unidos.

Certo. Enquanto o filme ia avançando, e após aquela primeira cena promissora de impacto sobre a morte do garoto ter esvaziado – a volta atrás na história de Chris acaba tendo este efeito de minimizar a tensão a quase zero -, fiquei o tempo todo esperando que o filme melhorasse. Eu pensava: “ok, em algum momento esta história tem que mostrar a que veio”. Fiquei esperando, acompanhando a narrativa, esperando… e nada.

O filme era aquele mesmo. Uma “cinebiografia” do franco-atirador que mais matou gente na história do Exército americano. Da mesma forma com que o roteiro de The Theory of Everything (comentado aqui) se mostrou raso, este trabalho de Hall também é unidimensional. O protagonista é o herói, e nada pode questionar isso. Nem ninguém. Do início ao fim ele é um “cara comum” do Texas que é “bem criado” a defender os valores do país e cuidar “de seus irmãos” que acaba sendo um ótimo pai de família – depois de vencer a dura tarefa de retornar para a vida comum – e um militar exemplar. Em todas as missões no Iraque ele deu de tudo para proteger os colegas.

Lá pelas tantas, mais na reta final do filme, ele acaba falando para um psicólogo que não se arrepende de nenhuma morte, e sim de não ter protegido mais os seus colegas de Exército. Em American Sniper não existe espaço para dúvida. Nem para refletir se tanta morte nos levou a algum lugar. O mundo está mais seguro hoje? Adiantou Chris ter matado tanta gente no Iraque? Essas são perguntas que passam ao largo deste filme.

Chris é um herói, e o filme mantém e propaga esta ideia. A parte desta limitação do roteiro, Eastwood segue firme na direção. Ele faz um excelente trabalho, especialmente nas cenas de ação. Fora a promissora sequência inicial envolvendo a morte do garoto, gostei muito da sequência final da tempestade de areia. Impossível não ficar tenso ou torcer para o “herói” naquele sprint final. Pura técnica do Sr. Eastwood.

O maior problema mesmo, para mim, é o filme ser tão fiel ao livro de Chris – ele lançou a obra American Sniper em janeiro de 2012. Nela, evidentemente, ele narra não apenas as suas quatro missões, mas também defende aquela visão de mundo de “todas as mortes foram justificadas”. Os Estados Unidos é o melhor país do mundo e vale tudo para defendê-lo. Os outros são os outros.

Complicada essa mensagem, não? Entendo os americanos adorarem o filme. Mas qualquer outra nação ter a mesma leitura é quase impossível. É admirável a autoestima e a valorização dos símbolos e da cultura nacional que os Estados Unidos tem. Mas muitas vezes isso tudo transpassa a barreira do razoável e vira arrogância, soberba, violência não importa contra quem. Estes, para mim, são os problemas deste filme. Não dá para analisar apenas os aspectos técnicos, como ele é bem feito, sem pensar na mensagem. E esta, meus amigos, é muito rasa e incomoda.

Por tudo isso, não consigo enxergar American Sniper como um dos grandes filmes de 2014. Se o meu voto valesse algo, ele não teria sido indicado a Melhor Filme no Oscar. Acredito que a força dos nomes envolvidos no projeto, inclusive os produtores, fez com que ele fosse selecionado. Mas ele está longe de ser o melhor do ano passado ou de ser marcante ao ponto de ser lembrado por muito tempo. Há filmes sobre guerra muito melhores.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além da direção firme de Clint Eastwood, este filme tem pelo menos mais uma qualidade: a entrega de Bradley Cooper. Todas as mulheres, acredito, sempre acharam ele gato. Bem vestido, interessante, sempre com aquele sorriso desconcertante. Mas em American Sniper, pela primeira vez, ele parece ter amadurecido como ator. Esqueça comédias bobocas e filmes em que ele é o galã. Aqui ele tomou corpo – para valer – em todos os sentidos. Ele está mais concentrado, mais focado, e encontrou um papel de adulto, saindo-se muito bem na missão. Para mim, é o papel de amadurecimento do ator. Ainda assim, devo dizer, não acho que era para tanto dele ser indicado ao Oscar. De qualquer forma, como vocês lerão abaixo, acho que ele não tem chances de ganhar.

Por ser um filme com muitas cenas de invasão de casas, tiroteios e ação, claro que diversos aspectos técnicos se destacam. Para começar, um ótimo trabalho o de Tom Stern na direção de fotografia. Depois, destaque para a edição de Joel Cox e Gary Roach; para a maquiagem do grupo de 11 profissionais liderados por Luisa Abel e Patricia DeHaney; para os 33 profissionais envolvidos no departamento de som; para os nove que, coordenados por Brendon O’Dell, responderam pelos efeitos especiais, e para as dezenas de profissionais (cansei de contar a longa lista) responsáveis pelos efeitos visuais.

O destaque do filme é realmente Bradley Cooper. Mas gostei muito, também, da atriz Sienna Miller – ela fica totalmente diferente morena. Nem a reconheci. Mas ela está ótima. Além deles, merecem ser citados, em papéis secundários: Reynaldo Gallegos como Tony; Kevin Lacz como Dauber; Jake McDorman como Biggles; Eric Ladin como Squirrel; Luke Grimes como Mark Lee; Tim Griffin como o coronel Gronski; Luis Jose Lopez como Sanchez; Brian Hallisay como capitão Gillespie; Erik Aude como Thompson – todos desta sequência/listas como colegas de farda de Chris; Sammy Sheik como Mustafa, o franco-atirador do lado inimigo e alvo a ser batido por Chris; Navid Negahban como o sheik Al-Obodi; e Mido Hamada como The Butcher/O Açougueiro.

O roteiro de Jason Hall foi baseado no livro American Sniper escrito por Chris Kyle, Scott McEwen e James Defelice. Neste caso, o roteirista escolheu ficar centrado totalmente no livro, sem adicionar muitas outras informações ou pontos de vista que surgiram após o lançamento da obra.

American Sniper estreou em novembro no AFI Fest. Até o momento esta produção não participou de nenhum festival. Apesar disso, ela tem no currículo seis prêmios e 23 indicações – incluindo seis indicações ao Oscar 2015. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Diretor para Clint Eastwood no National Board of Review, que também colocou American Sniper como um dos 10 melhores filmes de 2014.

Esta produção foi rodada no Marrocos e em diferentes lugares da Califórnia, como Los Angeles, Oceanside (o pier onde Chris anda com Taya na parte inicial do filme) e o O’Malleys Pub, em Seal Beach.

Agora, aquelas curiosidades clássicas sobre o filme. Como dá para suspeitar vendo Bradley Cooper em cena, o ator ganhou 18 quilos para fazer este papel. Para isso, ele chegou a consumir 8.000 calorias por dia. Para ganhar musculatura, ele trabalhou com um treinador quatro horas por dia por diversos meses. A preparação incluiu também aulas duas vezes por dia com um treinador vocal, para que ele falasse parecido com Chris. Para utilizar bem um rifle, ele teve aulas com Kevin Lacz, um Navy SEAL que serviu com Chris e que foi consultor do filme.

Cooper ficou obcecado com parecer fisicamente com o retratado. Tanto que ele passou a levantar peso – aquela cena em que ele trabalha com pesos fortes é real.

Antes de Eastwood ficar com o filme, os diretores David O. Russell e Steven Spielberg foram cogitados para dirigir o projeto.

Durante o filme, tive uma sensação estranha. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Há uma cena em que Chris segura o bebê no colo ao conversar com a mulher e eu pensei: “Essa criança está parecendo demais um boneco? Eles realmente usaram um boneco no filme?”. Pois sim, meus amigos. E isso, aparentemente, rendeu muitos comentários nos Estados Unidos. Os produtores justificaram a cena dizendo que dois bebês tinham sido escalados para aquela gravação, mas um estava doente e o outro não apareceu. Daí eles optaram pelo boneco.

No primeiro final de semana de estreia de American Sniper nos cinemas dos Estados Unidos o filme bateu um recorde para um final de semana de estreia em janeiro, conseguindo US$ 105 milhões. Impressionante.

Bradley Cooper teria falado uma vez com Chris Kyle por telefone antes do ex-militar ser morto. A conversa teria durado dois minutos. Para fazer jus ao “herói” americano, Cooper dedicou oito meses de preparação para o papel.

No melhor estilo “velho oeste”, resgatando a própria tradição de filmes western, Eastwood preparou uma cena de duelo entre os snipers Chris Kyle e Mustafa. Mas ainda editado de maneira que pareça um duelo, na verdade o confronto não teve essa lógica. Afinal, Chris tinha Mustafa na mira, muitos e muitos metros a distância, enquanto o inimigo não tinha a mesma oportunidade/visão.

Clint Eastwood deu uma de Hitchcock em uma breve cena deste filme. Após a cena no bosque, em que Chris ainda criança acerta um veado, o diretor faz uma aparição ao entrar na igreja em que está a família do protagonista. Bonitinho!

O assassino de Chris Kyle justificou o crime porque ele estaria passando por uma grave PTSD (transtorno de estresse postraumático) após ter lutado no Iraque. Mas a viúva de Chris não admite esta justificativa. Segundo este texto do Daily Mail inglês, Eddie Ray Routh, que teria matado Chris em um campo de treino, teria afirmado para a irmã que havia “trocado a sua alma por um caminhão novo”.

American Sniper teria custado US$ 58,8 milhões e faturado, apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 154 milhões. Nos outros países em que já estreou o filme fez mais US$ 26,5 milhões.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 147 críticas positivas e 56 negativas para o filme, o que lhe garante aprovação de 72% e uma nota média de 6,9.

Fiquei curiosa para saber um pouco mais sobre o protagonista deste filme. Encontrei este artigo interessante de Dorrit Harazim sobre Chris Kyle, que teria matado pelo menos 160 iraquianos – colegas dele estimam algo em torno de 255 mortes. Concordo com ele na leitura de que este herói americano não entendeu nada. Também interessante este texto do Men’s Journal sobre o Chris Kyle controverso, que teve vários atos questionáveis – e não apenas exemplares como o filme quer nos fazer acreditar.

Como dá para imaginar, esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso mesmo, ela entra na lista de filmes deste país que aparecem como resposta a uma votação feita aqui no blog. 🙂

CONCLUSÃO: Francamente, eu esperava muito mais de American Sniper. Não apenas porque ele é dirigido pelo veterano Clint Eastwood. Que esse sim entende de cinema. Mas porque acho que desde The Hurt Locker a guerra não deveria mais ser vista da forma tradicional. Aqui, infelizmente, ela é. E isso é frustrante. Para este filme de Clint, existe claramente um lado bom, um lado justo e que faz sentido, enquanto o outro lado não tem voz e nem argumento. Visão simplista, mais uma vez. Uma pena. Minha nota, se fosse outro diretor por trás de American Sniper, seria ainda menor. Mas respeito demais o Clint para dar-lhe menos que 7. De qualquer forma, para mim, este filme está longe de ser um dos melhores de 2014. Bem feito, verdade. Mas tantos outros filmes vazios são bem feitos… Dá para dispensá-lo sem culpa.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Como American Sniper teve fôlego de chegar a ser indicado ao Oscar, eu acreditava que veria algo diferente na telona. Mas não. Antes de assistir ao filme, até achava que ele poderia ter alguma chance aqui e ali. Agora, se ganhar, será muito mais por lobby do que por mérito.

Esta produção está indicada em seis categorias do Oscar: Melhor Filme, Melhor Ator para Bradley Cooper, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som. Sem dúvida alguma que nas três primeiras categorias o filme tem chance alguma. Pelo menos se o Oscar deste ano fizer alguma justiça. Esta não é a melhor produção de 2014, como eu comentei antes. Bradley Cooper também não é páreo para Eddie Redmayne, que acredito ser o favorito, Michael Keaton ou Benedict Cumberbatch, os únicos que podem tirar a estatueta de Redmayne.

Na categoria de Melhor Roteiro Adaptado, sem dúvida The Imitation Game é muito melhor. Mesmo The Theory of Everything, com a sua leitura relativa da história de Stephen Hawking, é um trabalho mais encorpado. Ainda não assisti a Inherent Vice e Whiplash para poder opinar sobre estes dois. As únicas categorias em que American Sniper tem alguma chance seriam nas três técnicas. Mas em Melhor Edição, meu voto ficaria entre Boyhood e The Grand Budapest Hotel. Não é aí que American Sniper ganharia.

Em Melhor Edição de Som, a parada é dura. Não vi a Interstellar, mas imagino que esta deve ser uma qualidade da produção. Das que assisti, acho The Hobbit: The Battle of the Five Armies melhor que American Sniper. E em melhor Mixagem de Som, meu voto iria para Unbroken. Bem, amigos, para os meus critérios, está difícil para o filme de Clint. Para mim, ele é a zebra do ano.

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Invictus

Poucos diretores conseguem extrair o máximo de emoção de uma história aparentemente simples. Clint Eastwood é um dos “mestres” neste sentido. Seu último filme, Invictus, mistura duas grandes paixões da África do Sul: rugby e Nelson Mandela. Titulado inicialmente como The Human Factor, esta nova produção dirigida por Eastwood reflete como a força de uma paixão e de uma causa pode mudar a história de uma pessoa, de uma sociedade e, em determinados momentos históricos, de uma nação. Claro que a mudança na África do Sul não pode ser explicada apenas pelo investimento de Mandela em unir a nação sob a torcida para que seu país vencesse um mundial de rugby, mas o exemplo que o líder político deu neste episódio – e em tantos outros – é o que torna Invictus um filme tão especial. Ainda que o rugby esteja na ponta de mira do roteiro de Invictus, não consegui deixar de fazer um paralelo com o futebol e a força que o esporte tem no Brasil e, claro, não pude deixar de pensar na Copa do Mundo do próximo ano (que será celebrada, justamente, na África do Sul).

A HISTÓRIA: Um grupo de rapazes brancos fortes e bem uniformizados treina rugby de um lado da rua, protegidos por uma cerca bem construída, enquanto do outro lado da avenida um grupo de rapazes negros, magros e mal vestidos joga futebol em um campo precário cercado por uma frágil cerca de arame. Desta forma simbólica, através de duas cenas esportivas, o filme revela parte da realidade da África do Sul em fevereiro de 1990. Os negros que jogam futebol páram sua brincadeira para saudar, animados, a escolta que leva o recém-libertado Nelson Mandela (Morgan Freeman). Do outro lado da rua, os jogadores de rugby assistem a tudo desconfiados e com certo menosprezo. O país, mais dividido do que nunca entre brancos e negros – mesmo com o fim do apartheid – vê Mandela ser consagrado, poucos anos depois, presidente. O líder surge com atitudes que surpreendem a todos, trazendo uma visão única para unir os sul-africanos. Suas idéias passam por conquistas no esporte, mais especificamente por uma campanha surpreendente do presidente para que o South Africa Springboks, liderado pelo capitão François Pienaar (Matt Damon), ganhe a Copa do Mundo de Rugby sediada no país em 1995.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continua a ler esta seção quem já assistiu a Invictus): Curiosa a escolha de Clint Eastwood e sua equipe em contar uma parte decisiva da vida de Nelson Mandela menos conhecida do “grande público”. Todos conhecem a luta de resistência do líder africano em seus quase 30 anos de cárcere. Mas Eastwood e o roteirista Anthony Peckham resolveram se debruçar sobre o início de seu governo de reconciliação entre brancos e negros, mais especificamente na aposta do líder político em valorizar um esporte até então quase que exclusivo dos brancos: o rugby.

Quem busca informações sobre a história da África do Sul ou de Nelson Mandela, em diferentes resumos em enciclopédias, livros ou pela internet, poucas vezes encontra alguma menção sobre a campanha do presidente para engrandecer o Springboks. Mas este gesto, que valorizava e resgatava o “fator humano” em uma mudança social, ganhou protagonismo através do livro de John Carlin, Playing the Enemy – Nelson Mandela and the Game That Made a Nation (que no Brasil recebeu o título de Conquistando o Inimigo – Nelson Mandela e o Jogo que Uniu a África do Sul). Sabendo que ter chegado à presidência era apenas um passo no dificílimo processo de criar uma nação, Mandela viu no esporte – e na paixão que ele pode despertar – o recurso necessário para promover a mudança que tanto sonhava.

Invictus é a história desta aposta de Mandela. O grande destaque do filme, sem dúvida, é a direção de Eastwood (como sempre, aliás). Ele comprova porque é um dos grandes diretores vivos da atualidade. Utilizando diferentes câmeras e lentes, o diretor simula imagens de TV “da época” e orquestra cenas impecáveis de jogos de rugby. Acredito que mesmo as pessoas que não gostam do esporte – ou que nunca assistiram a uma partida inteira, como é o meu caso – ficarão empolgadas com a forma com que o diretor narra esta história. Não é qualquer um que tranformar o rugby em algo interessante de ser visto. 😉 O mérito, claro está, é de Eastwood e de seus editores, Joel Cox e Gary Roach. O uso da câmera e da lente certa para cada momento passou ainda pelo trabalho decisivo do diretor de fotografia Tom Stern.

O filme, inspirado no livro de John Carlin, segue uma narrativa linear tradicional, utilizando alguns dos recursos mais básicos das produções que contam a “grandeza” de um esporte para inspirar/emocionar as pessoas. Há um bocado de política e de “realidade” no filme, como não poderia deixar de ser. Ainda que o foco de Eastwood e equipe seja a crônica da vitória do Springboks e de Mandela neste episódio, há tempo para mostrar os constrastes sociais da África do Sul (com especial atenção para as favelas e seus barracos) e parte da filosofia do líder político ganhador do Nobel da Paz em 1993.

O trabalho envolvendo este filme, seja nas cenas de “reprodução histórica” (leia-se imagens de TV) ou nas complicadas sequências em estádios superlotados, foi dos grandes. Algumas das melhores linhas do roteiro Peckham caíram, como era de se esperar, na boca de Morgan Freeman. Em mais um de seus grandes momentos no cinema, o ator dá o tom exato de sabedoria, clareza de objetivos, obstinação e grandeza do líder Nelson Mandela. Mas o “coração” desta história, ou seja, a parte emocional do filme passa mesmo pelas cenas de rugby. Eastwood mostra que pode transformar este esporte, desinteressante para muitos, em um espetáculo de gladiadores – em algumas cenas que valorizam os atores em closes e sequências lentas, o som dos choques de corpos e gemidos ganha protagonismo e valoriza a “batalha” pela vitória.

Segundo notas de produção de Invictus, seu diretor é fã do esporte. Como outros cineastas fizeram antes com o futebol americano, Eastwood quis dar a sua contribuição para “engrandecer” o rugby ao filmar com inspiração cenas da competição – algumas vezes as sequências que mostram a disputa e a “brutalidade aparente” do rugby lembram coreografias de dança, dando um sentido de arte para o esporte. Clint Eastwood mostra, mais uma vez, que domina a arte do cinema, valorizando a plasticidade de algumas cenas nos momentos adequados, assim como a trilha sonora e, quando necessário, abrindo espaço para os momentos mais “filosóficos” e/ou de discursos dos personagens principais – notavelmente de Mandela.

Mesmo sendo considerada uma “cinebiografia” por muitos, Invictus é um pequeno extrato da trajetória de Nelson Mandela. Ainda assim, apenas com esta produção, é possível ter uma amostra de seu exemplo de superação e de grandeza, ao deixar para trás qualquer sentimento de revolta e de vingança para abraçar a causa de unir uma nação através do perdão dos crimes praticados por uma minoria no passado. O maior exemplo visto em Invictus é o da busca da união de um povo, através da superação dos anseios individuais pela busca do bem de uma maioria.

As intenções do filme são as melhores. E ainda que algumas das sequências mais impressionantes/marcantes tenham sido filmadas em um estádio como o Ellis Park, um dos mais tradicionais e importantes do país, senti falta do filme explorar melhor a história de Mandela. O ponto positivo desta história, e que serve para nós, se considerarmos o futebol, ou para outros países, levando em conta seus esportes de destaque, é o de mostrar a capacidade dos atletas em se superarem e, com sua luta, inspirarem e emocionarem aos demais. Só que o filme acaba cansando um pouco por algumas sequências de rugby longas demais – que, provavelmente, irão agradar completamente apenas aos fãs do esporte. Por buscar este equilíbrio entre o “heroísmo” de um líder político e o ato de bravura dos atletas que souberam refletir a sua busca pela união de um país, Invictus divide suas forças em duas frentes e, infelizmente, se torna menos potente do que poderia se escolhesse apenas um lado da moeda (preferencialmente Mandela).

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme emociona e prende a atenção do espectador, mas a nota acima tem mais a ver com o trabalho de Clint Eastwood do que com o resultado final de Invictus. A produção convence, mas se coloca, em termos de qualidade, abaixo dos filmes anteriores do diretor.

Impossível assistir aos jogos mostrados no filme, com aquela participação belíssima da torcida sul-africana, e não pensar na Copa do Mundo de futebol do próximo ano. Os Bafana Bafana (como são conhecidos os torcedores da seleção da África do Sul) vão fazer muito barulho e sua força pode empurrar os jogadores para a frente de forma decisiva. Não sei se da mesma forma com que os sul-africanos fizeram com a seleção de rugby mostrada em Invictus – afinal, era uma outra época e outro momento político/social -, mas é algo a se considerar.

Encontrei neste link do site da Fifa (muito bom, aliás) algumas informações históricas do Estádio Ellis Park, situado na cidade de Johanessburgo. Na Copa 2010, o Brasil jogará ali na partida contra a Coréia do Sul. Esperamos que os sul-africanos fiquem do nosso lado. 😉

Não sei vocês, mas eu me sinto uma ignorante no quesito “entender sobre futebol americano e/ou rugby”. Honestamente, eu não sabia a diferença entre estes dois esportes até que encontrei esta página da Wikipédia. Mesmo que o artigo, aparentemente, carece de contexto e da  citação de fontes, achei um documento interessante para que os “não-iniciados” nas duas modalidades esportivas tenham uma idéia de suas diferenças.

Falando em futebol americano, para mim foi inevitável ver as cenas de rugby filmadas por Clint Eastwood em Invictus e não lembrar do trabalho do diretor Oliver Stone em Any Given Sunday ou, em uma proporção menor, o de Boaz Yakin com seu Remember the Titans. Lembrando que o filme de Stone completou, em 2009, exatos 10 anos de seu lançamento. Estas duas produções foram homenagens de seus diretores ao futebol americano.

Para os que ficaram interessados em saber um pouco mais sobre a África do Sul, o apartheid e Nelson Mandelo, recomendo a visita a alguns sites que fazem um resumo instrutivo sobre estes temas. Para começar, esta página com vários links sobre a história da África do Sul, mantida pela Embaixada da República da África do Sul no Brasil. Depois, este link da TV Cultura sobre o país, com alguns fatos importantes de sua história – como o apartheid – e ainda esta página com um resumo de um livro biográfico de Mandela. Vale a pena para dar a contextualizada que o filme não proporciona aos espectadores.

Fiquei sabendo, através de um destes links, por exemplo, que as leis de segregação racial na África do Sul eram anteriores a Segunda Guerra Mundial, mas que ganharam mais força com a vitória do Partido Nacional em 1948. Esse partido, conhecido como dos “afrikaners”, trouxe mecanismos de “repressão mais eficientes” para reforçar o apartheid. Ele, basicamente, estabelecia a existência de quatro grupos distintos na sociedade: brancos, negros, mulatos e asiáticos. Cada um deles tinha, pelo apartheid, direito a viver em um local determinado, todos separados entre si, e com lugares muito definidos na sociedade – para a maioria negra lhes restava trabalhos forçados e condições de vida precárias.

Quando era um jovem estudante de direito, Mandela começou a se envolver com a oposição ao regime do apartheid. Ele criou, junto com outros, a Liga Jovem do Congresso Nacional Africano. Partidário da política da não-violência, ele acabou se rendendo às armas depois de um massacre contra negros promovido pelo governo em 1960. Mandela ajudou a fundar o “braço armado” do Congresso Nacional Africano e, com ele, coordenava ações de sabotagem contra alvos militares e do governo. Ele foi preso em 1962 com a ajuda da CIA – mais informações, para os interessados, neste link.

Como comentei rapidamente no início deste texto, Invictus é inspirado no livro Playing the Enemy, de John Carlin. Encontrei dois links que falam um pouco mais sobre o livro: este, bem resumido, e este outro, que é uma crítica de Bill Keller escrita para o The New York Times. Segundo o texto de Keller, o livro de Carlin descreve o “trabalho metódico, a campanha improvável e brilhante de Mandela para reconciliar os negros ressentidos e os brancos temerosos ao redor de um evento esportivo”.

O rugby é descrito como uma espécie de “religião secular dos afrikaners, a tribo de brancos que inventou e reforçou o apartheid” por Keller, que afirma ainda que o esporte era considerado, pelos negros, um exemplo da brutalidade de um povo estranho. Lendo o artigo do jornalista fica realmente clara a jogada de mestre de Mandela, que conseguiu afagar os brancos do país em um momento decisivo – emprestando a sua imagem para atrair a simpatia da maioria negra para apoiar o símbolo esportivo antes rechaçado. Invictus mostra esta façanha, ainda que a produção gaste tempo demais mostrando belas imagens do esporte e contextualize pouco a paixão dos brancos pelo Springboks e, por outro lado, a repulsa dos negros a esse antigo símbolo dos inventores do apartheid.

Achei interessante também que Bill Keller comenta que é um “exagero romântico” de John Carlin acreditar que apenas um jogo decisivo de rugby foi capaz de curar as feridas deixadas por três séculos de divisões raciais. Este mesmo pensamento me acompanhou durante todo o filme – ok, a história é bonita e emocionante, o exemplo de Mandela é revigorante, mas é exagero colocar a sua campanha em favor da união de brancos e negros em torno do campeonato mundial de rugby como a solução para uma nação dividida. Mesmo fazendo a consideração anterior, Keller comenta que o episódio de 1995 foi considerado, por muitos, um lance decisivo para impedir uma guerra civil na África do Sul. Lendo a crítica do jornalista do The New York Times, a impressão que eu tenho é que Invictus foi bastante fiel ao livro de Carlin.

O último filme de Clint Eastwood tem uma “carreira curta” nos cinemas. Ele teve sua premiere no dia 3 de dezembro em Beverly Hills, e entrou no circuito comercial dos Estados Unidos, do Canadá e da África do Sul apenas no dia 11. Em janeiro de 2010 ele chega a outros países, inclusive ao Brasil. Até o dia 25 de dezembro, apenas nos Estados Unidos, o filme tinha arrecadado pouco mais de US$ 23 milhões – pouco, muito pouco, levando em conta os astros, o diretor e o personagem principal desta história.

O poema Invictus, que acabou dando nome ao filme, foi escrito por William Ernest Henley, um poeta britânico, durante o período em que ele ficou internado em um hospital – quando teve um de seus pés amputado. Parte de seu poema é citado por Mandela no filme.

Uma curiosidade da produção: o próprio Nelson Mandela disse que apenas Morgan Freeman poderia interpretá-lo – e, por isso, seu nome foi considerado certo pelos produtores desde o início. Interessante que Freeman e a produtora Lori McCreary tinham interesse de fazer um filme sobre Mandela há muitos anos. Inicialmente, eles queriam filmar a autobiografia do líder político, Long Walk to Freedom mas, como ela se desenvolve durante muitas décadas, o projeto acabou sendo visto como inviável de ser lançado como um único longa-metragem – uma pena, diga-se. Freeman e McCreary viajaram à África do Sul para pedir a benção de Mandela para a produção, e antes mesmo de terminarem de contar sobre o projeto, o líder político sabia que eles iriam comentar sobre o episódio da Copa do Mundo de Rugby.

Morgan Freeman, como sempre, consegue uma interpretação única. Ele mimetiza, com perfeição, o jeito de falar e os gestos típicos de Mandela. Impecável o seu trabalho.

Um dos momentos mais surreais do filme, quando a seleção de rugby da Nova Zelândia, o All Blacks, faz a coreografia de uma dança esquisita para “amedrontar” seus adversários antes de um jogo, imita com perfeição a realidade. Os jogadores de rugby daquele país realmente fazem uma dança como aquela antes de um jogo decisivo. Curioso…

A produção de Invictus foi facilitada com a mágica da computação gráfica. As cenas no Estádio Ellis Park contaram com a participação de 2 mil figurantes que, com a tecnologia da captação de movimentos, depois foram transformados em 62 mil.

Outra curiosidade da produção: a banda preferida de Nelson Mandela, a Soweto String Quartet, foi contratada pelos produtores de Invictus para participar da trilha sonora do filme.

A parte técnica de Invictus funciona muito bem. Merecem destaque o trabalho dos editores, já citados anteriormente, a excelente direção de fotografia de Tom Stern; a trilha sonora de Kyle Eastwood (filho do diretor) e Michael Stevens; o desing de produção de James J. Murakami e a direção de arte de Tom Hannam e Jonathan Hely-Hutchinson.

Até o momento, este filme de Clint Eastwood ganhou três prêmios e foi indicado a mais oito. Os três que recebeu foram dados pela respeitada National Board of Review: melhor diretor, melhor ator para Morgan Freeman e ainda o Prêmio de Liberdade de Expressão.

Público e crítica aprovaram o filme, mas não se renderam a ele como alguns esperavam. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para Invictus, enquanto que os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 125 críticas positivas e 39 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 76%.

Acredito que ninguém questiona o talento de Clint Eastwood, mas nunca é demais relembrar que o ator, produtor, compositor e diretor ostenta, aos 79 anos, 104 prêmios – incluindo quatro Oscar.

CONCLUSÃO: Mais um grande exercício de direção de Clint Eastwood, Invictus resgata um episódio marcante do início do governo de Nelson Mandela na África do Sul. Misturando uma pequena dose de política, uma boa quantidade de idealismo e, principalmente, muitas cenas de rugby, este filme prende a atenção do espectador com um bom ritmo narrativo e, principalmente, uma carga emotiva cuidadosamente manejada pelo “mestre” Easwood. Não chega a ter a força de uma cinebiografia real de Mandela – e nem dos filmes anteriores do diretor -, mas chega perto do público brasileiro se pensarmos no futebol em lugar do rugby. Um exemplo interessante de como o cinema pode captar a emoção e a capacidade de congraçamento do esporte – para unir raças, credos, distintas realidades sociais e, assim, uma nação. Claro que o filme sofre do mesmo “exagero romântico” do livro no qual ele é inspirado – ao acreditar que todas as diferenças e desigualdades históricas puderam ser resolvidas graças a um determinado evento esportivo. Mas o importante é o exemplo que a história pode propiciar – e as cenas magistralmente captadas por Eastwood. Entretenimento com emoção e alguma carga de idealismo – o que nunca faz mal à ninguém, ainda que, francamente, ele poderia ser melhor.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Não vejo, francamente, muita esperança para este filme sair vencedor do próximo Oscar. O primeiro termômetro para isto são as indicações que ele recebeu para o Globo de Ouro: melhor diretor, melhor ator (drama) para Morgan Freeman e melhor ator coadjuvante para Matt Damon. Não chegou a ser indicado nem como melhor filme (drama) e nem como roteiro adaptado. Talvez Invictus chegue a ser indicado no Oscar nas categorias de melhor diretor, melhor ator e alguma outra técnica – como melhor edição de som ou melhor edição. Mas acho difícil que ele chegue a levar algum Oscar para casa – se derem uma estatueta para Clint Eastwood, será mais para corrigir erros do passado do que por seu trabalho com Invictus.