Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Globo de Ouro 2018 Movie Votações no blog

Get Out – Corra!

Um dos filmes mais criativos, interessantes e provocadores que eu assisti nos últimos tempos. Get Out é um suspense/terror com uma boa carga de humor e de crítica. Um filme do gênero como você nunca viu, tenho certeza. Eu tinha visto comentários positivos sobre ele e o cartaz tinha me deixado na dúvida sobre a qualidade da produção, mas realmente Get Out vale o ingresso e a experiência. A relação entre brancos e negros sempre rende um bom debate, até porque continua sendo um tema atual, e com este filme ele recebe uma leitura muito interessante.

A HISTÓRIA: Em uma rua deserta, um jovem negro caminha se queixando que está perdido porque caiu em uma rua com nome parecido com a que em ele deveria estar. Ele se diz deslocado no bairro de ricos. Negro, ele sabe o que acontece com pessoas de sua cor em um bairro como aquele. Quando um carro de luxo parece começar a acompanhá-lo, ele começa a surtar. Muda e caminho, mas acaba sendo rendido pelas costas. Colocado no porta-malas, ele é levado para longe daquele endereço. Corta. Vemos a cenas do interior, local para o qual Chris Washington (Daniel Kaluuya) vai com a namorada Rose Armitage (Allison Williams) conhecer a família dela. Mal sabe ele que está prestes a cair em uma cilada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Get Out): Esta produção é mais um exemplo de como um grande roteiro é metade do caminho para um grande filme. O diretor e roteirista Jordan Peele acerta na mosca ao investir em um filme de suspense com grandes doses de humor e de crítica social para tratar de um tema que parece não perder validade com o tempo: a estranheza e o preconceito envolvendo brancos e negros.

Este filme não se preocupa em ser politicamente correto. Peele busca tratar com naturalidade a desconfiança e o “jeito de ser” diferenciado entre brancos e negros, explorando bem estas questões nos diálogos dos personagens e nas relações de “estranheza” que existem entre eles. Logo no início do filme somos apresentados ao criativo e bem-sucedido protagonista desta produção. Chris é um fotógrafo de sucesso, reconhecido e que vive bem. Mas ele acaba caindo no radar de Rose que, só vamos descobrir depois, é uma grande “caçadora” de negros que serão convertidos em vítimas de uma classe abastada.

Get Out exagera na dose para fazer o público refletir. Afinal, por que ainda existe tanta estranheza e exploração entre brancos e negros, tanto tempo depois do fim da escravidão? O tema racial é muito forte e importante nos Estados Unidos, onde policiais brancos volta e meia aparecem nos noticiários matando negros sem justificativa para uma ação letal. No Brasil, o preconceito e a desigualdade racial estão presentes, mas são menos expostos na mídia e debatidos.

Todo este contexto de conflito racial é explorado com inteligência e humor por Peele que, também de forma muito acertada, trata muito bem da ascensão social e das novas condições dos negros no país – e não apenas nos Estados Unidos. O protagonista de Get Out é muito bem construído. Bem-sucedido, ele aprendeu a se virar sozinho durante a vida – ele ficou órfão ainda na infância – e tem aquele olhar um tanto “crítico” para toda esta questão racial.

Afinal, ele namora uma bela garota branca, Rose, e vive em círculos bastante mesclados. Fotógrafo reconhecido, ele não sofre os preconceitos que outros negros com profissões menso “admiradas” podem sentir. Ele tem amigos negros, com destaque para o divertido e desconfiado segurança de aeroporto Rod Williams (LilRel Howery), mas não parece estar fechado em relações em um grupo social ou racial. Por isso mesmo ele não resiste tanto à experiência de conhecer os pais de Rose, apesar de reclamar com ela que a garota deveria ter “avisado” eles que ele é negro.

A priori, o protagonista de Get Out não resiste ao contato e à interação com a família branca da namorada, mas ele fica com o pé atrás quando sabe que eles não sabem que ele é negro. Eles vão para o interior dos Estados Unidos, onde a segregação racial ainda é bastante presente. Chris está preparado para o que vier, mas ele não poderia sonhar com a cilada sinistra na qual está caindo. O interessante do roteiro de Peele é que ele provoca nos espectadores uma sensação de estranheza e de desconfiança do princípio ao fim. Ou seja, nos faz experimentar aspectos essenciais da própria questão racial.

Vou explicar melhor. Em cada encontro e interação de Chris no cenário em que Rose cresceu, sentimos que algo está “fora da ordem”. Muito expressivo e ator bastante competente, Daniel Kaluuya nos representa naquele contexto, independente se somos brancos, negros, amarelos ou com outra coloração de pele. A estranheza naquele cenário é universal. Ao fazer isso, Peele nos faz experimentar a sensação de estranheza e de que “algo está errado” que todo negro sente ao interagir com brancos preconceituosos. Esta é uma das maiores genialidades de Get Out.

Mas há mais. O filme trabalha a questão racial sim, mas também apresenta um suspense muito interessante e criativo. A história linear vai se desenvolvendo de forma muito natural e crível, fazendo o espectador se sentir “confortável” e bem inserido na produção. Os atores fazem um grande trabalho, com vários momentos de tensão e de conflito muito bem pincelados e construídos. É um filme envolvente e que vai ganhando em tensão e suspense de forma escalada. Segue muito bem o manual do gênero.

O bacana é que além de seguir esse manual, Get Out inova. Afinal, traz a questão racial para um gênero que não está acostumado a explorar este tema. E ao fazer isso, ele eleva para um outro nível a questão da exploração de negros por brancos. Antigamente, a forma de brancos fazerem isso era através da escravidão, forma de exploração que era socialmente e legalmente aceita.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com o fim da escravidão, a família Armitage encontrou uma forma diferente de explorar negros: usando técnicas de lobotomia, eles fazem uma mescla sinistra entre o cérebro da vítima e do “comprador” para transformar negros em “plataformas” para endinheirados brancos utilizarem os seus corpos e talentos. Isso vamos descobrir apenas no final da produção, quando Chris é “apresentado” para a história real da família da namorada e para o que parece ser o seu sinistro fim.

Nesta parte, achei novamente o trabalho de Peele brilhante. Quando Chris questiona o seu novo “dono”, o negociador de arte Jim Hudson (Stephen Root), das razões que levariam os “clientes” dos Armitage em negociarem o uso de negros daquela forma, Hudson explica que as razões são múltiplas. Alguns querem o “vigor físico” das vítimas, enquanto outros querem “ficar na moda”, entre outros motivos. Logo entendemos a origem de Walter (Marcus Henderson) e de Georgina (Betty Gabriel), “comprados” pelos avós de Rose para dar uma “sobrevida” para eles.

Em tese, a técnica desenvolvida pelos Armitage e aperfeiçoada pelo casal Missy (Catherine Keener) e Dean (Bradley Whitford) permitiria uma espécie de “vida eterna” na Terra para os brancos que poderiam migrar de uma vítima para outra. O interessante da argumentação e da crítica de Peele é que ele não apenas aborda um novo tipo de exploração de negros por brancos como também revela de forma irônica o “perigo” de negros estarem na moda. Tudo que cai no gosto do mainstream seria, assim, explorado de forma “canibal”. Genial, não?

Enfim, resumindo, achei tanto o roteiro de Peele quanto o desenvolvimento do filme perfeitos, com um bom equilíbrio entre um “clássico” filme de suspense/terror com a inovação de um roteiro que explora muito bem o conflito racial, “modernizando” o tema. Ajuda, neste sentido, a trilha sonora de Michael Abels, com grandes “sacadas”, e os diálogos e desenvolvimento da produção com a assinatura de Peele.

Este é um filme do gênero competente e com algumas inovações para este estilo de produção bem interessante. Mas para não dizer que Get Out é perfeito – e olha que fiquei bem tentada a dar um 10 para ele -, devo dizer que o final da produção me incomodou um pouco. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Nem tanto pelo comportamento “furioso” do protagonista, que sai matando com certa frieza todo mundo da família Armitage que aparece pela frente – afinal, ele sabia que este era o jeito dele sobreviver e escapar de lá vivo -, mas por alguns detalhes que ficaram um tanto estranhos no contexto da história.

Por exemplo, parece bobo, mas fiquei incomodada com aquela parte em que o estranhíssimo Jeremy Armitage (Caleb Landry Jones) faz de tudo para impedir que Chris saia da casa da família. Em mais de uma cena vemos Chris quase abrir a porta e não conseguir por causa das ações de Jeremy. Até parece que a casa tinha algum “poder” sobrenatural sobre as vítimas da família, mas isso não faz nenhum sentido e parece um tanto deslocado na produção com narrativa um bocado “lógica” até então. Para mim, a sequência final entre Jeremy e Chris me pareceu forçada e deslocada.

Também me incomodou um pouco o “grand finale” entre Chris e Rose. Caramba, depois dela fazer tudo o que fez ele ainda fica vulnerável com um “eu te amo” falso dela? Me pareceu forçado também. Este detalhe, junto com o que comentei envolvendo Jeremy e Chris, mancharam um pouco o roteiro quase perfeito de Peele. Apenas por isso eu não dei a nota máxima para a produção. Mas por todo o restante, inclusive algumas sacadas muito boas do roteiro – como a questão do flash do celular e a teoria maluca e ao mesmo tempo quase certeira de Rod -, Get Out se revela um grande filme. Dos mais bacanas do gênero suspense/terror dos últimos tempos. Foge do óbvio. Agradecemos por isso.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O nova-iorquino Jordan Peele tem 38 anos e uma longa carreira como ator. Ele começou nesta profissão em 2006 e é conhecido por fazer tanto filmes como séries de TV. Get Out marca a estreia dele na direção, mas como roteirista ele já tinha feito outros trabalhos, especialmente escrevendo episódios de séries de TV como Obama e Key and Peele.

Antes de Get Out, Jordan Peele tinha escrito o roteiro da comédia de ação Keanu ao lado de Alex Rubens e sobre a “gag” criada por Jamie Schaecher. Acho que vale ficar de olho nele e ver o que mais ele vai aprontar como diretor/roteirista.

Um grande acerto de Get Out é a escolha do elenco. Daniel Kaluuya é a grande revelação do filme. Ele dá um show de interpretação em um papel onde não seria difícil alguns exageros e derrapadas. Mas não. Kaluuya convence em cada minuto do filme, em interações e com reações muito interessantes e que dão credibilidade para o personagem dele. Mas os outros atores também estão muito bem. A mudança radical que acontece com a personagem de Allison Williams também é perfeita, valorizando o passe da atriz.

O destaque da produção é o trabalho de Daniel Kaluuya. Mas vale destacar outros nomes da produção. Allison Williams está muito bem e faz um dueto de cena perfeito com Kaluuya. Além deles, brilha na produção o divertido LilRel Howery e estão muito bem Catherine Keener e Bradley Whitford em papéis sinistros pouco comuns em suas respectivas carreiras; Marcus Handerson e Betty Gabriel em papéis sinistros e bem explicados no final da produção. Lakeith Stanfield está muito bem como uma das vítimas dos Armitage, Andrew Logan King.

Vale citar também o veterano Stephen Root como Jim Hudson; Caleb Landry Jones em uma interpretação um pouco “forçada” como Jeremy Armitage; Ashley LeConte Campbell como Lisa Deets; John Wilmot como Gordon Greene; Caren L. Larkey como Emily Greene; Julie Ann Doan como April Dray; Rutherford Cravens como Parker Dray; Geraldine Singer como Philomena King; Yasuhiko Oyama como Hiroki Tanaka; Richard Herd como Roman Armitage – todos como integrantes da comunidade “so white” em que Chris cai por causa de Rose; e Zailand Adams como Chris aos 11 anos de idade.

Também vale citar a ponta de três atores que fazem graça e que ajudam a reforça a “comédia do absurdo” de Get Out: Erika Alexander como a detetive Latoya; Jeronimo Spinx como o detetive Drake; e Ian Casselberry como o detetive Garcia. Eles estão na delegacia que Rod procura para fazer a denúncia sobre o desaparecimento de Chris e de Andrew, e a reação deles é um dos pontos certeiros do filme.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaque novamente para a trilha sonora de Michael Abels, que é um diferencial da produção. Além dela, vale comentar a boa direção de fotografia de Toby Oliver; a edição de Gregory Plotkin; o casting de Terri Taylor; o design de produção de Rusty Smith; e os figurinos de Nadine Haders.

Get Out teria custado US$ 5 milhões, um orçamento baixo para os padrões de Hollywood e que demonstra, mais uma vez, como bons filmes podem ser feitos com orçamentos relativamente curtos. Na semana de estreia nos Estados Unidos, o filme conseguiu nas bilheterias do pais nada menos que US$ 33,4 milhões. Lucrando logo na largada. Segundo o site Box Office Mojo, apenas nos Estados Unidos o filme fez quase US$ 174,7 milhões nas bilheterias. Nos outros países em que o filme estreou ele fez mais US$ 40 milhões. Ou seja, um dos maiores lucros dos últimos tempos. O filme virou uma febre. Bacana.

Esta produção, 100% dos Estados Unidos, foi rodada em duas cidades do Alabama: Fairhope e Mobile. Interessante terem sido rodadas por lá, porque o Alabama é, historicamente, um Estado com forte segregação racial e no qual há muitos casos de racismo conhecidos. Curioso que, inicialmente, Peele queria fazer o filme em Los Angeles, mas por causa dos custos ele resolveu mudar o local das filmagens. O que acabou sendo positivo, sem dúvida.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Get Out foi rodado em apenas 28 dias. A inspiração de Jordan Peele para escrever Get Out veio de uma parte de um stand-up feito por Eddie Murphy. Neste trecho do espetáculo, Murphy comentou sobre a ocasião em que foi conhecer a família e uma namorada branca dele.

Sobre o The Sunken Place, onde vive a família Armitage, o diretor Peele fez o seguinte comentário: “The Sunken Place significa como estamos marginalizados. Não importa o quanto nós gritemos, o sistema nos silencia”.

Além de Get Out marcar a estreia de Peele na direção de um longa-metragem, o filme também marca a estreia de Allison Williams neste formato de produção.

Jordan Peele escreveu o roteiro de Get Out durante o primeiro mandato de Barack Obama, quando o clima nos Estados Unidos era de grande otimismo e as pessoas tinham a sensação de que a questão racial havia sido superada. Como isso se mostrou falso com o passar dos anos, Peele achou que era a hora de filmar Get Out – antes não havia “clima” para isso.

Agora uma curiosidade que fica “escondida” na produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Chris “flagra” Georgina arrumando o cabelo em frente ao espelho para evitar que a cicatriz que ela tenha apareça. Esta é a mesma razão que faz com que Walter e Andrew aparecem sempre de chapéu – exceto, no caso de Walter, na sequência final dele na produção. É uma forma de evitar que o “segredo” da produção seja conhecido antes da hora.

Existe uma razão para a sequência em que Chris procura ver o que aconteceu com o cervo atropelado por Rose. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, esta é a sequência que introduz o tema “acerte e corra” na produção. Depois, ela mostra que Chris tem empatia e se compadece com o animal ferido, o que não acontece com Rose – algo que entenderemos completamente na reta final da produção.

Missy controla as pessoas com uma colher de prata – que é sinônimo de ter privilégios. Algo que não apenas faz sentido para o filme, mas também um ponto que aumenta a crítica social da produção. Afinal, muitos privilegiados utilizam justamente esta posição para explorar quem não tem esta condição.

A escolha do sobrenome Armitage não foi por acaso. Ela faz homenagem ao escritor HP Lovecraft, um autor de histórias de horror que tratava de famílias decadentes que tinham ligações com sociedades ocultas ou secretas, abordava a transmigração de almas de um corpo para o outro, estados alterados da realidade e temas similares que são abordados também em Get Out.

Interessante que a questão do celular não é por acaso – nada neste filme, aliás. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). O uso do celular é fundamental para Chris começar a conhecer a verdade sobre a situação estranha que cerca a família Armitage, assim como a maioria das denúncias de violência e abuso policial de brancos contra negros tem sido documentada com o uso de celulares.

Há no filme algumas referências ao tempo da escravidão. (SPOILER). As principais são a sequência do bingo que “rifa” Chris e que lembra os leilões de escravos de antigamente e a forma com que Chris se livra de seu sinistro destino ao tirar o recheio da poltrona de couro e usar ele nos ouvidos. Literalmente, para isso, ele está “colhendo algodão” para se salvar, o que era feito pelo escravos antigamente, forçados a colher algodão para seguirem vivos.

Get Out foi indicado para oito prêmios, mas não recebeu nenhum até o momento.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para Get Out, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 259 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 99% e uma nota média de 8,3. Os dois níveis de aprovação estão bem acima da média para os dois sites, o que mostra que este filme é um sucesso de público e de crítica.

CONCLUSÃO: Um filme de suspense muito divertido e com uma boa carga de crítica social e de comportamentos. Quem diria que uma produção assim poderia existir. E sim, ela existe. Get Out é uma aula de bom roteiro e de atores pouco conhecidos bem escalados e com um belo trabalho. Um filme inteligente, divertido e macabro na mesma medida. Achei uma das melhores surpresas dos últimos tempos. Merece o burburinho que recebeu. Se você não se importa com cenas violentas e uma certa dose macabra, sem dúvida alguma vale o ingresso.

ATUALIZAÇÃO (11/12): Hoje, dia 11 de dezembro, saiu a lista dos filmes indicados ao Globo de Ouro 2018. Acompanhando as bolsas de apostas para o Oscar 2018, eu já tinha visto que vários críticos apontavam Get Out como um possível indicado em mais de uma categoria do Oscar. Francamente, fiquei feliz em ver que o filme foi lembrado no Globo de Ouro em duas categorias: Melhor Filme – Comédia e Melhor Ator – Musical ou Comédia para Daniel Kaluuya. Muito justas estas duas indicações. Realmente este filme foi um dos bons achados do ano. Estou na torcida por ele ser lembrado com indicações no Oscar 2018 também.

Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Filme premiado Globo de Ouro 2016 Movie Oscar 2016 Votações no blog

Trumbo – Lista Negra

trumbo3

Quase todos os países do mundo já viveram épocas tenebrosas em suas histórias. Os Estados Unidos não é diferente. Na verdade, o mundo enquanto conjunto civilizatório já viveu diversas épocas tenebrosas e que valeriam variados filmes críticos. Trumbo trata de uma destas épocas sob uma ótica pouco mostrada pelos filmes de Hollywood: a chamada caça à bruxas dentro dos estúdios de cinema durante a Guerra Fria. Eu já tinha lido um bocado a respeito e sabia sobre a perseguição de vários nomes, mas nunca tinha visto um filme tão direto e focado neste assunto quanto este Trumbo.

A HISTÓRIA: Começa explicando que durante os anos 1930, em resposta à Grande Depressão e ao crescimento do Fascismo, milhares de americanos se filiaram ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Depois que os Estados Unidos se aliaram à União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial, muitos mais se juntaram ao partido. O roteirista Dalton Trumbo, antigo defensor dos direitos trabalhistas, tornou-se membro do partido em 1943. Mas a Guerra Fria lançou uma nova luz de suspeita sobre os comunistas americanos. A história propriamente começa em 1947, na propriedade de Trumbo ao norte de Los Angeles. Vemos o autor trabalhando, o cenário de Hollywood naquela época e o início da caça aos comunistas em Hollywood.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Trumbo): Gosto de filmes que falam de cinema e da relação que esta arte tem com a sociedade e vice-versa. Eles não são muito frequentes, por isso é sempre um deleite quando encontramos uma boa produção que trate desta indústria. Trumbo, para ser ainda melhor, não trata de uma fase qualquer da indústria, e sim quando ela mudou para sempre.

Há diversos acertos e alguns pequenos deslizes neste filme. Primeiro, vou falar de todos os acertos – que, em número, excedem em muito as falhas da produção. Para começar, o roteirista John McNamara, baseado no livro de Bruce Cook, acerta em focar a carreira de Trumbo pouco antes dela começar a ser questionada e desmoronar. Não demora muito, assim, para o filme entrar na questão central, que foi a criação pelo Comitê de Atividades Anti-Americanas, criado em 1938, de um inquérito para investigar a Indústria Cinematográfica de Hollywood em 1947.

Ao mesmo tempo que o roteiro de McNamara acerta em ir direto ao ponto e em se debruçar no que aconteceu durante, imediatamente depois e nos anos seguintes deste processo que ficou conhecido como “caça às bruxas em Hollywood”, o filme perde um pouco de contextualização. Eis um motivo para, apesar de soberbo, brilhante e necessário, este filme não ser perfeito.

Valeria ter gasto alguns minutos a mais para explorar melhor aquelas ameaças de greve que aparecem rapidamente no início de Trumbo. Na verdade, elas foram causadas, mais que por influência dos “comunistas”, como o filme pode ter sugerido, por uma mudança de lógica em Hollywood. Na década de 1940 os grandes estúdios, até então predominantes nas decisões de Hollywood, estavam começando a ruir enquanto catalisadores da indústria. Grandes diretores e atores surgiram com poder criativo e de escolha, ditando regras e não mais repetindo as velhas fórmulas dos estúdios.

Neste cenário, naturalmente diversas categorias começavam a exigir mais. Trumbo mostra os designers de produção fazendo piquetes e greve, mas na história de Hollywood há diversos outros profissionais que fizeram isso. Uma das greves mais conhecidas foi a relativamente recente paralisação dos roteiristas de Hollywood entre o final de 2007 e o início de 2008, em uma paralisação que durou 100 dias e que afetou produções para o cinema e para a televisão – confira aqui uma matéria que fala do final desta greve.

Comentei isso apenas para deixar claro que a greve dos designers de produção e as manifestações de outras categorias na Hollywood da segunda metade dos anos 1940 tinha pouco a ver com os comunistas. Verdade que eles defendiam uma outra organização econômica e social, mas nem todos eram panfletários. E mesmo que fossem, eles não faziam isso através dos filmes e sim em sua vida particular. Trumbo, o filme, mostra isso com propriedade.

Gostei muito do roteiro de McNamara e da direção de Jay Roach. Os dois realmente focam no personagem central, o roteirista Dalton Trumbo, mas nem por isso ignoram o que acontece ao redor dele. Verdade que acho que faltou um pouco mais de contextualização histórica, como eu comentei antes. Afinal, depois da prisão e da soltura de Trumbo, passados alguns anos daquela perseguição descabida, parece um tanto inusitado para quem não acompanhou a história de Hollywood o ator Kirk Douglas (interpretado por Dean O’Gorman) bater à porta do roteirista para pedir que ele refizesse o roteiro de Spartacus.

Afinal, quando Trumbo começa, figuras como Louis B. Mayer (interpretado por Richard Portnow), um dos fundadores do estúdio MGM, é quem dita as regras da indústria. Como, anos depois, Kirk Douglas era o produtor de seu próprio filme e, junto com Stanley Kubrick, foi o grande responsável por Spartacus? Isso tem a ver com o que eu disse antes, com a ascensão de diretores como Alfred Hitchcock e de atores como Huphrey Bogart e Kirk Douglas, que ganharam mais independência, autoridade e autonomia, enquanto os estúdios perderam força.

Essa falta de contextualização atrapalha um pouco Trumbo. Senti falta também de serem citados mais nomes perseguidos naqueles tempos. Afinal, verdade que Trumbo fez parte do “The Hollywood Ten” (Os Dez de Hollywood), primeiro grupo identificado e penalizado por ser comunista e trabalhar em Hollywood, mas em junho de 1950 três ex-agentes de FBI e um produtor de televisão de direita, Vincent Harnett, publicaram o Red Channels.

Esse documento listava nada menos que 151 nomes de roteiristas, diretores e atores que passaram a integrar a lista negra do Comitê de Atividades Anti-Americanas. Conforme as pessoas eram convocadas para falar com o Comitê e preferiam ficar caladas, elas também eram listadas – cerca de 320 pessoas passaram a fazer parte desta lista que as impedia, em teoria, de trabalhar na indústria. Entre os nomes incluídos nesta relação estavam os de Leonard Bernstein, Charlie Chaplin, John Garfield, Dashiell Hammett, Lillian Hellman, Arthur Miller e Orson Welles.

Claro que eu não esperava que Trumbo listasse todos esses nomes, mas poderia ter indicado, aqui e ali, no roteiro de McNamara, alguns destes nomes conhecidos além daqueles 10 iniciais que acabaram presos. Mas esses são os únicos aspectos que me “incomodaram” um pouco neste filme, pensando neles especialmente depois que a produção terminou. Porque enquanto o filme está se desenrolando ele é apenas um grande deleite.

Trumbo acerta ao mostrar os bastidores de Hollywood e, principalmente, em focar os efeitos daquela caça às bruxas na vida dos nomes perseguidos e suas famílias. Para mim, o filme tem dois grandes recortes: o óbvio, sobre a indústria do cinema, e o menos óbvio, dos perigos da histeria coletiva e da política do medo. Especialmente o segundo tema é mais do que atual. Nos Estados Unidos, desde o ataque às Torres Gêmeas, a política do medo vive assombrando a população e a cultura do país, provocando estragos particulares e coletivos dentro e fora do país.

Falemos primeiro do recorte sobre Hollywood que o filme faz. Fiquei impressionada não apenas com a interpretação de Bryan Cranston, que está perfeito, mas também com os atores que interpretam personagens importantes daquela época e daquele círculo como Edward G. Robinson (interpretado por Michael Stuhlbarg), Hedda Hopper (a ótima Helen Mirren), John Wayne (David James Elliott), Arlen Hird (Louis C.K.), Buddy Ross (Roger Bart), Frank King (John Goodman), Hymie King (Stephen Root) e Otto Preminger (Christian Berkel). Ainda ainda o já citado Kirk Douglas e uma ponta de John F. Kennedy (Rick Kelly).

Sempre é um prazer ver tantos personagens importantes da história – especialmente de Hollywood – sendo reinterpretados e trazidos novamente “à vida”. A reconstituição de época e os “bastidores” do cinema que permeiam toda a história são interessantíssimos, especialmente para quem gosta do tema. Interessante ver as relações de poder e o jogo de interesses que permeia os diferentes estúdios e profissionais que atuam naquela área, assim como o governo e formadores de opinião – como a jornalista Hedda Hopper. Na época figuras como ela podiam destruir ou, pelo menos, abalar reputações com bastante facilidade.

Essa narrativa dos bastidores de Hollywood não é muito comum e, por isso mesmo, Trumbo se torna um filme diferenciado. No fim das contas, apesar de toda a pressão e “terrorismo” das pessoas que queriam acabar com os comunistas no país, o talento venceu. Com a ajuda inicial fundamental dos irmãos Frank King e Hymie King, Trumbo conseguiu sobreviver e, pouco a pouco, trabalhar cada vez mais – e até em demasia – para pagar as contas e dar estabilidade para a família.

E daí surge o outro aspecto interessante de Trumbo. Ao focar essencialmente em um personagem importante daquela época, o filme dirigido por Roach se aprofunda na personalidade e no cotidiano do personagem, mostrando não apenas o seu talento, mas também o seu contexto familiar e de amizades. Esta produção acerta, sem dúvida, ao fazer isso, porque daí percebemos os efeitos daninhos de uma perseguição aloprada como aquela da caça às bruxas. Vale lembrar também que aquele tipo de perseguição se espalhou pelo mundo, em diferentes países e realidades – no Brasil ela também existiu e, como diz Trumbo, vitimou não apenas a cultura, mas também tirou vida de várias pessoas.

Bueno, voltando para o filme. Ao se debruçar na história de Trumbo, vemos como aquela paranoia coletiva cobrou um preço alto das famílias, que eram hostilizadas por vizinhos e conhecidos e não podiam admitir o que os perseguidos faziam para viver. As pessoas eram condenadas pelo que elas acreditavam e pensavam e não por seus atos. Como Trumbo afirma na entrevista que o filme reproduz apenas uma parte, o tal Comitê de Atividades Anti-Americanas nunca conseguiu provar nenhuma atividade realmente daninha para o país.

O que aquela perseguição provocou foi a perda de liberdade de centenas de pessoas que, no fim das contas, foram impedidas de trabalhar. E sem trabalho, passaram por diversas agruras – algumas morreram, como diz Trumbo, vítimas dos efeitos desta perseguição. No caso do protagonista deste filme, depois que saiu da prisão Trumbo ficou obcecado por fazer exatamente aquilo que a caça às bruxas queria lhe impedir de fazer: trabalhar.

Obcecado por escrever cada vez mais, mas sem a possibilidade de assinar os próprios roteiros, Trumbo virava as noites, trabalhava praticamente o tempo inteiro e sem ter mais tempo para a família – algo que ele conseguia fazer muito bem antes de ser perseguido. O filme mostra muito bem essa mudança e a forma com que Trumbo acaba envolvendo toda a família naquela nova rotina – até que a esposa dele, Cleo (interpretada pela ótima Diane Lane), resolve dar um basta e chamar a atenção do marido sobre a forma repressora que ele adotou em casa.

Esse filme tem grandes momentos – dois que me tocaram muito foi a conversa de Cleo com o marido e as vezes em que a família dele, em casa, torceram para que ele ganhasse os dois Oscar’s que ele ganhou assinando com outros nomes duas produções premiadas pela Academia.

Todo o contexto cruel que cercou todas aquelas vidas é um verdadeiro absurdo. E é bom falar deste absurdo hoje, em 2016, porque há muitas figuras que querem voltar para aquele tempo de censura e de perseguição. É preciso recordar, lembrar, para impedir que histórias assim se repitam. Trumbo funciona muito bem neste sentido. Grande filme, mais uma das boas descobertas apresentadas pelo Oscar 2016.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vale listar os “The Hollywood Ten”: Herbert Biberman, Lester Cole, Albert Maltz, Adrian Scott, Samuel Ornitz, Dalton Trumbo, Edward Dmytryk, Ring Lardner Jr., John Howard Lawson e Alvah Bessie. Eles foram condenados a períodos que variaram entre seis e doze meses de prisão.

O tema da caça às bruxas feita em Hollywood é fascinante. Vale buscar mais a respeito. Recomendo, para quem quiser iniciar essa pesquisa, este texto bem ilustrativo sobre o Macartismo da Planeta Educação; também este outro texto do blog Ready for My Close Up Now que não apenas traz os nomes e obras dos 10 de Hollywood, mas também os movimentos de solidariedade à eles (algo que Trumbo também ignora); vale dar uma olhada neste texto da revista Época, com outras informações curiosas sobre o período; e, mesmo escapando um pouco do tema, mas complementando ele um bocado, vale a leitura deste texto da História Viva sobre a “colaboração” ou influência direta do Exército americano no cinema até que eles se divorciaram após o Vietnã.

Trumbo não trata do tema, mas o blog Ready for My Close Up Now lembra bem que se existia o MPA (Motion Picture Alliance for the Preservation of American Ideals), que tinha entre um de seus líderes John Wayne, também existia para contrabalancear a balança o Comitê Pela Primeira Emenda que contava com Humphrey Bogart, Lauren Bacall, John Huston, entre outras personalidades que defendiam os 10 de Hollywood. Aliás, falando em MPA, Trumbo não trata disso, mas ela foi fundada por Walt Disney – sim, meus caros! – e tinha como participantes, ainda, Gary Cooper, Barbara Stanwick, Cecil B. DeMille, Ginger Rogers, Ronald Reagan, King Vidor, entre outros.

Uma coisa, e Trumbo aborda bem isso, é alguém “dedurar” um colega para sobreviver, como alegou o ator Edward G. Robinson, interpretado com precisão e brilhantismo por Michael Stuhbarg, outra bem diferente é a delação “por prazer”, praticamente, como aquela feita por Elia Kazan – que era brilhante, mas pisou na bola ao destruir a vida de diversos colegas. Diversos nomes não precisavam ter denunciado os colegas para sobreviver.

O diretor Jay Roach acerta ao apostar no talento de Bryan Cranston e estar sempre próximo do ator, assim como dos outros personagens próximos a ele. Ele faz uma boa e competente direção, mas sem nenhuma grande “invenção”. O que é bom, porque valoriza o trabalho dos atores e o bom roteiro de John McNamara – ainda que ele tenha falhado em alguns pontos que eu já comentei, especialmente na falta de contextualização e da citação de mais nomes daquele contexto histórico.

O elenco de apoio do filme é muito competente – e chama a atenção a quantidade de estrelas. Além de Bryan Cranston, se destacam Helen Mirren, Diane Lane, Michael Stuhlbarg e Louis C.K. Mas além deles e dos outros nomes já citados, vale comentar o bom trabalho dos atores que dão vida para os filhos dos Trumbo: Toby Nichols como Chris Trumbo entre as idades de seis e 10 anos; Madison Wolfe como Niki Trumbo na idade entre oito e 11 anos; Meghan Wolfe como Mitzi Trumbo na idade entre seis e oito anos; Mitchell Zakocs como Chris Trumbo entre os 10 e os 12 anos; Mattie Liptak como Chris Trumbo entre os 13 e os 17 anos; Becca Nicole Preston como Mitzi Trumbo entre os nove e os 12 anos; John Mark Skinner como Chris Trumbo quando ele tem 29 anos; e a sempre competente Elle Fanning como Niki Trumbo na fase universitária/adulta quando ela tem uma troca mais madura com o pai.

Da parte técnica do filme, vale destacar a ótima trilha sonora de Theodore Shapiro; a direção de fotografia de Jim Denault; a edição de Alan Baumgarten; o design de produção de Mark Ricker; a direção de arte de Lisa Marinaccio e Jesse Rosenthal; a decoração de set de Cindy Carr; e os figurinos de Daniel Orlandi. Todos eles, especialmente os últimos, são fundamentais para a ambientação da história.

Achei os irmãos King – que, na verdade, tinham o sobrenome Kozinsky – mais que admiráveis. Eles deram emprego não apenas para Trumbo, mas para vários outros nomes perseguidos pela lista negra. Vale dar uma conferida na história deles neste link da Wikipédia.

Eu nem preciso dizer que Bryan Cranston mais que mereceu a indicação como Melhor Ator no Oscar 2016, né? Grande ator. Espero que ele faça mais filmes excelentes e que logo mais ganhe, por mérito puro, uma estatueta dourada. Este ano não tinha como porque a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood já devia um Oscar há tempos para o Leonardo DiCaprio, mas eu espero, sinceramente, que a hora de Cranston chegue. Agora, falando ainda e Oscar, Helen Mirren bem que podia ter sido indicada como Melhor Atriz Coadjuvante pelo trabalho neste filme, não? Ela está tão bem que não tem como não odiar a personagem que ela está fazendo. 😉

Trumbo estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria, ainda, de outros sete festivais mundo afora. Nesta trajetória, até o momento, o filme recebeu dois prêmios e foi indicado a outros 31. Ele rendeu apenas o terceiro lugar como Melhor Ator para Bryan Cranston no Prêmio dos Críticos de Cinema de Iowa; o Spotlight Award no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs para Bryan Cranston e o prêmio de Melhor Ator para Cranston no Prêmio da Associação de Críticos de Cinema Southeastern.

Algo que este filme aborda e que nunca eu vou entender: por que tantas pessoas tem medo de outras que pensam diferente e preferem combatê-las do que aceitar que elas tem o direito de pensar diferente? Isso já aconteceu muito na história da Humanidade – da Inquisição na Idade Média até a “blacklist” de Hollywood – e volta e meia alguém tenta fazer este tipo de medo e de atitude predominar. Temos que estar alertas e cada vez mais defender que todas as pessoas tenham liberdade de pensar diferente – desde que este pensamento não se materialize em crime e infrinja as leis, evidentemente. Neste segundo caso, a aplicação da lei deve ser feita. E isso é tudo.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme: o diretor Jay Roach disse que muitas cenas de Trumbo em que o protagonista escreve sozinho na mesa ou na banheira foram improvisadas por Bryan Cranston enquanto as câmeras estavam rodando e que ele realmente estava criando frases para os roteiros que o personagem estaria escrevendo.

O ator Steve Martin comentou que quando ele era muito jovem a sua namorada e a família dela lhe apresentaram novas ideias e oportunidades intelectuais – e o pai dela era Dalton Trumbo, de quem Martin nunca tinha ouvido falar até aquele momento.

Gary Oldman foi cogitado para o papel de Trumbo. Francamente, Cranston faz um trabalho tão impressionante como o roteirista que eu não consigo imaginar mais ninguém como protagonista deste filme.

Importante observar duas “incorreções” do filme. Edward G. Robinson, na verdade, nunca delatou nenhum nome para o Comitê, como Trumbo mostra. Ele testemunhou quatro vezes, mas nunca apontou nenhum nome. Outro personagem, Arlen Hird, não existiu com este nome – ele é, na verdade, um amálgama de vários nomes de escritores que fizeram parte da lista negra. Observando a lista dos 10 de Hollywood, da qual ele teria feito parte, realmente já dá para perceber isso. Curioso não terem escolhido um outro personagem real, não é mesmo? Não vi muito a razão para isso. Também não entendi porque colocar Robinson como delator quando ele não foi – e outros sim.

Trumbo fez pouco mais de US$ 7,8 milhões nos Estados Unidos. Somando com o que a produção fez nas outras bilheterias mundo afora, ele chegou a US$ 8,2 milhões. Ainda pouco para o filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 107 críticas positivas e 38 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 74% e uma nota média de 6,7. Fiquei curiosa para ver o documentário sobre Trumbo. Será que é melhor que o filme? Alguém viu e quer comentar? 😉

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Filme extraordinário e que conta um momento muito importante da história não apenas dos Estados Unidos, mas do mundo. Afinal, enquanto artistas eram perseguidos naquele país, tínhamos situação parecida no Brasil quando por aqui tivemos ditadura militar, e em tantos outros países em fases um pouco anteriores ou posteriores. Bem narrado, com um ator de primeiríssima linha como protagonista e um belo elenco de apoio nos outros papéis, Trumbo é um destes filmes inevitáveis para quem gosta de cinema.

Quem dera que mais filmes se debruçassem não apenas nas relações e bastidores da Sétima Arte, mas que também falassem de épocas tenebrosas da nossa história coletiva. O filme acerta no ritmo e na crítica, assim como na imersão na história pessoal e profissional do protagonista. Por pouco ele não é perfeito. Senti falta da produção citar mais nomes importantes de Hollywood que foram perseguidos naquela época, assim como explicar um pouco melhor a mudança do “sistema” da indústria, que deixou naqueles anos de ser dominada por grandes estúdios para passar a ser muito mais autoral.