Atomic Blonde – Atômica

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Jogos e intrigas de espionagem e contraespionagem. Já vimos um bocado disso no cinema. Mas da forma com que isso é apresentado em Atomic Blonde… nunca! Este é um filme com uma pegada intensa, com muitas cenas de violência e de pancadaria e um arcabouço interessante de qualidades. Para começar, uma ótima direção. Depois, uma trilha sonora das melhores que eu já escutei em um filme e um elenco bastante interessante. Destaque, evidentemente, para a estrela Charlize Theron. Com Atomic Blonde ela se credenciou para seguir em uma trajetória de filmes de ação e de mulheres no comando, sem dúvidas. Belo filme.

A HISTÓRIA: Em uma gravação, o presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan afirma que o Oriente e o Ocidente desconfiam um do outro. Na sequência, ele pede para que o Muro de Berlim seja derrubado. De fato, o Muro cairia em novembro de 1989. Mas este filme conta uma outra história. Relacionada sim com a guerra fria e com a disputa entre Estados Unidos, Inglaterra e Rússia, mas que corre por trás da “Cortina de Ferro”. Um homem corre desesperado por ruas e vielas. Quando ele acha que está livre, ele é violentamente atropelado. Mais de uma vez. James Gasciogne (Sam Hargrave) encara o inimigo, o russo Yuri Bakhtin (Jóhannes Haukur Jóhannesson), antes de levar o tiro fatal. O relógio que o russo pega do espião inglês passa a mover as ações que esta narrativa nos conta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Atomic Blonde): Como é bom, de tempos em tempos, assistir a um filme com “pegada”, não é mesmo? Atomic Blonde tem muito disso. Começando pela direção de David Leitch. Esse dublê, que entende muito bem sobre as técnicas da pancadaria, e que tem um trabalho um pouco mais longo – 19 títulos – como ator, realmente está estreando na direção com este filme.

Antes, Leitch havia ajudado na direção de John Wick, mas sem que o seu nome fosse creditado, e dirigido o curta Deadpool: No Good Deed. E isso foi tudo. A direção para valer de um longa veio com este Atomic Blonde. Para mim, Leitch está mais que credenciado como diretor, especialmente de filmes de ação. Ele sabe tirar o melhor de cada cena e, principalmente, valorizar e apresentar algo fresco nas intermináveis e viscerais cenas de luta.

Diversas sequências deste tipo impressionam neste filme. Mas destaco, em especial, a sequência em que a protagonista Lorraine Broughton (Charlize Theron) encara um bando de policiais no apartamento que era de James Gasciogne, e as cenas em que ela enfrenta um bando de russos em uma missão quase suicida para proteger Spyglass (Eddie Marsan). Nós já vimos a muitas cenas de pancadaria e de luta no cinema, mas como estas sequências… é coisa rara. O experiente dublê David Leitch, agora na direção, consegue nos apresentar sequências realmente inesquecíveis. E isso não é algo simples ou fácil de se ver.

Esta é uma das grandes qualidades do filme. A direção de David Leitch e as sequências de ação que ele nos apresenta. Realmente são cenas estonteantes e que impressionam. A segunda grande qualidade de Atomic Blonde é a atriz Charlize Theron. Maravilhosa, ela está conseguindo se reinventar a cada papel, praticamente. E aqui, novamente, ela mostra porque é um dos grandes nomes da sua geração. Charlize Theron tem um desempenho impecável e irretocável. Ela apanha bastante, mas também consegue ser a “loira fatal” que um filme como este se propõe a apresentar.

Não importa se ela está em uma cena quente, falando francamente em um interrogatório ou sozinha em uma banheira cheia de gelo. Cada vez que ela aparece em cena ela nos convence de seu personagem e de seu papel. Ela está estonteante, mesmo cheia de hematomas. Enfim, mais um grande desempenho desta atriz – que, se o Oscar não fosse ainda tão careta, mereceria uma indicação por causa de Atomic Blonde. Também ajuda muito na valorização da personagem como a “femme fatale” clássica dos filmes de espionagem a direção de Leitch e os figurinos maravilhosos de Cindy Evans.

Uma outra qualidade marcante desta produção e que arrebatou o meu coração foi a trilha sonora cheia de rock e de intensidade. A trilha sonora desta produção, pipocada aqui e ali, é de Tyler Bates. Mas o que realmente aquece a alma de alguém que gosta de rock como eu é a seleção musical que contempla, entre outros, New Order, David Bowie, Public Enemy, George Michael, After the Fire, The Clash, Siouxsie and the Banshees, Depeche Mode, Queen e David Bowie, entre outros – a lista completa da trilha sonora vocês podem encontrar por aqui.

Outra qualidade importante do filme é que ele tem um bom ritmo e uma ótima pegada. Em poucos momentos temos uma “baixa” na adrenalina. Ainda assim, devo comentar, esta produção acaba sendo um tanto “repetitiva”. Afinal, nós temos uma premissa que fica clara logo no início: um espião russo conseguiu, matando um espião inglês, um relógio em que estão listados todos os espiões ingleses e americanos na ativa. Essas informações sigilosas, se caírem nas mãos erradas, colocam em risco toda a espionagem destas grandes potências.

Conhecida por suas habilidades apuradas, a espiã inglesa Lorraine Broughton é convocada para recuperar esta lista e, se possível, identificar o agente duplo que está criando muitas dores de cabeça para os ingleses ao trabalhar na surdina para os russos. O roteiro de Kurt Johnstad, baseado nos quadrinhos The Coldest City da dupla Antony Johnston e Sam Hart, é envolvente, mas acaba não conseguindo evitar um certo desenvolvimento previsível para a história. Verdade que a direção visceral e atenta aos detalhes de David Leitch consegue dar um ritmo veloz para a produção de tal maneira que quase não conseguimos parar para pensar nisso, em como a história vai por caminhos previsíveis.

Ainda que boa parte do roteiro já é esperado – como aquele velho jogo de “gato e rato” entre Lorraine, o espião inglês David Percival (James McAvoy) e os russos -, as reviravoltas que a história dá, especialmente na reta final, é o que torna o filme realmente interessante. Digamos que o final, que muitas vezes atrapalha algumas produções, no caso de Atomic Blonde, redime o filme de suas partes mais “previsíveis”. (SPOILER – não leia os próximos parágrafos se você ainda não assistiu ao filme).

Sim, é verdade que era um bocado previsível aquela permanente desconfiança entre os diferentes espiões que aparecem em cena. Os russos, claro, eram sempre os “inimigos” em comum. Depois, tínhamos três espiões que ficavam, aparentemente, o tempo todo se “medindo” e desconfiados uns com os outros: Lorraine, David e a francesa Delphine Lasalle (Sofia Boutella). Mas, especialmente para o que interessava nesta história, que era descobrir o “agente duplo”, era um tanto óbvio que esta descoberta estaria entre Lorraine ou David – ou, para não ir muito longe, e ainda ser plausível, alguns dos “figurões” da espionagem inglesa ou americana, como era o caso de Emmett Kurzfeld (John Goodman), Eric Gray (Toby Jones), os dois que interrogam Lorraine sobre o que aconteceu em Berlim, e o Chefe C (James Faulkner), que acompanha tudo por perto.

O interessante do roteiro é que a desconfiança sobre se Lorraine e David eram o agente duplo, permanece quase até o final. Ficamos com a “pulga atrás da orelha” também porque, segundo o que o roteiro de Johnstad sugere, grande parte do filme é narrado por Lorraine. Como ela está sendo interrogada após os fatos de Berlim e ficamos sabendo do que aconteceu lá a partir do depoimento dela, parte do que vemos poderia ser mentira, certo? Mas não. O filme não chega a este requinte.

Ainda assim, é interessante o “twist” final. Aparentemente Lorraine mente para Emmett, Eric e C dizendo que o agente duplo era David quando, na verdade, ela era esse agente duplo. Bem na reta final, quando ela se encontra com o chefão russo, Aleksander Bremovych (Roland Moller), parece que temos a confirmação de tudo isso. Mas aí ele decide matá-la, e descobrimos que David encontrou no tal relógio a informação que Lorraine não era uma agente dupla, mas tripla. 😉 Assumindo uma identidade inglesa, ela fornecia (e colhia) informações estratégicas para os russos mas, no fim das contas, trabalhava mesmo para os americanos. Essa reviravolta final foi especialmente bacana.

Por um bom tempo eu fiquei tentada a dar uma nota 10 para este filme. Mas aí fiquei analisando um pouco melhor, e achei alguns pequenos defeitos na produção – nada que lhe tire os méritos, mas algo que talvez me impeça de dar um 10 para ela. Além do filme ficar um pouco arrastado e previsível naquele jogo de gato-e-rato de Lorraine com David, achei que o roteiro perdeu a chance de tornar o mistério mais interessante ao focar em poucos personagens. Também não vi muito sentido em ter ficado em Berlim apenas um espião do lado ocidental importante – David. Não parece muito lógico isso – especialmente porque a cidade estava apinhada de russos ainda.

Além disso, acho que a personagem de Delphine foi um tanto desnecessária naquele contexto. Verdade que a atriz é boa e ela dá uma “apimentada” na estadia de Lorraine em Berlim, mas para a história ela pouco serve de ponto de intriga ou de dúvida sobre “quem é o agente duplo”. Lembrando que o agente duplo era inglês – e ela, francesa. Então sim, acho que faltou incluir mais um ou dois espiões franceses e/ou americanos na história para que o roteiro ficasse melhor e para que tivéssemos mais dúvidas do que iria acontecer.

Mas fora isso, este filme é perfeito em seu estilo e na forma com que a história se desenrola. As cenas de ação, de luta e de perseguição são impecáveis, uma verdadeira aula de direção, de interpretação e de edição. Um filme envolvente, com uma trilha sonora magnífica e com bastante pegada e adrenalina. Apenas para o roteiro faltou pouco para ser perfeito. Mas nada que estrague a experiência e o prazer de ver uma Charlize Theron arrasadora.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Charlize Theron combina, definitivamente, com o papel de estrela de filmes de ação. A atriz tem talento, já demonstrado em filme com diversos perfis, mas tem fibra, carisma e entrega suficiente para estrelar, especificamente, filmes como Atomic Blonde. Gostei muito do papel dela e acredito que, pelo estilo do filme, poderemos ter alguma continuação no futuro. Seria interessante.

Ainda que eu tenha um ou dois poréns com o roteiro deste filme – como já comentei antes -, acho que a história acerta ao se ambientar nos bastidores de um acontecimento histórico importante, como foi a Queda do Muro do Berlim. Apesar de bem documentado, aquele fato realmente dá margem para alguns filmes como este, que tem um certo tom de “teoria da conspiração”. 😉

Atomic Blonde estreou em março de 2017 no Festival de Cinema South by Southwest. Depois, o filme participou do Festival Internacional de Cinema Fantasia, no Canadá, em julho; e no Festival de Cinema de Locarno, na Suíça, em agosto.

Em sua trajetória, o filme ganhou três prêmios e foi indicado a outros quatro. Os prêmios que ele recebeu foram todos entregues pelo Golden Trailer Awards: Best Summer 2017 Blockbuster, Best Motion/Title Graphics e Melhor Edição de Som.

Atomic Blonde teria custado US$ 30 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 51 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 43 milhões. Ou seja, no total, pouco mais de US$ 94 milhões – está no lucro, pois. Merecido!

Agora, aquelas curiosidades bacanas sobre o filme. Durante as filmagens de Atomic Blonde a atriz Charlize Theron rachou dois dentes. Para fazer o papel da protagonista, Theron contou com oito treinadores que a ajudaram a dar conta do recado de um papel tão vigoroso e com desempenho físico tão intenso.

Antes das filmagens desta produção começarem, o ator James McAvoy quebrou a mão no set de Split (comentado por aqui). Daí que ele teve que aguentar todas as cenas de ação de Atomic Blonde com a mão ferida.

Ainda que a cena de luta no apartamento de Gasciogne parece ter sido toda rodada na sequência, sem interrupção – a cena inteira dura 10 minutos -, na verdade aquela sequência é fruto de uma edição perfeita de quase 40 filmagens que foram feitas separadamente. A maior parte do trabalho, e não apenas nesta sequência, teve que contar com o apoio de efeitos especiais para “preencher” pequenos furos nas sequências.

Interessante que a atriz Charlize Theron, além de estrela desta produção, é uma das produtoras do filme. Segundo as notas sobre a produção, a atriz passou mais de cinco anos trabalhando para fazer este projeto sair do papel. Bacana!

Entre os atores desta produção, o destaque é realmente Charlize Theron. Ela está perfeita em um papel difícil – tanto pelo vigor físico e pelas ótimas cenas de ação quanto por todas a sequências em que os detalhes do gestual e da sua expressão são determinantes. Além dela, vale destacar o bom trabalho de alguns coadjuvantes, como Eddie Marsan como Spyglass; John Goodman como Emmett Kurzfeld; Toby Jones como Eric Gray; Roland Moller como Aleksander Bremovych; Bill Skarsgard como Merkel, alemão que ajuda a protagonista em momentos decisivos; e Til Schweiger em uma ponta interessante como o relojoeiro onde fatos cruciais aconteceram.

Outro nome importante da produção, James McAvoy está bem, mas nada além do já esperado do ator. Também valem ser citados, por fazerem um bom trabalho, mas nada perto de ser um grande destaque, os atores James Faulkner como C; Sofia Boutella como Delphine Lasalle; Sam Hargrave em uma micro ponta como James Gasciogne; e Jóhannes Haukur Jóhannesson também em uma micro ponta como Yuri Bakhtin.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma os elogios principais vão para a direção de David Leitch. Ele fez um trabalho excelente, especialmente nas cenas de ação – em outras partes, ele não se mostra tão original mas, ainda assim, sabe “beber” das melhores fontes. Então ele está de parabéns. Além dele, vale destacar a ótima direção de fotografia de Jonathan Sela; a maravilhosa e marcante trilha sonora de Tyler Bates; a edição muito difícil, cuidadosa e exemplar de Elísabet Ronaldsdóttir; o trabalho excelente do departamento de maquiagem com 11 profissionais; o competente efeitos especiais com 14 profissionais; e os efeitos visuais fundamentais que movimentaram 74 profissionais.

Além de tudo isso, vale citar o design de produção de David Scheunemann; a direção de arte de Zsuzsa Kismarty-Lechner, de Tibor Lázár e de Wolfgang Metschan; a decoração de set de Zsuzsa Mihalek e de Mark Rosinski; e os figurinos maravilhosos e já citados antes de Cindy Evans.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, Atomic Blonde teve cenas gravadas na cidade de Budapeste, na Hungria; em Berlim, na Alemanha; em Londres, no Reino Unido; e no Studio Babelsberg, na cidade de Potsdam, na Alemanha. Entre os pontos turísticos de Berlim que aparecem na produção estão o Gedächtniskirche e a Breitscheidplatz.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 180 críticas positivas e 61 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média de 6,4. Bem, como vocês viram, eu gostei mais do filme do que esta maioria. 😉

Este filme é uma coprodução da Alemanha, da Suécia e dos Estados Unidos. Como algumas votações feitas aqui no blog há tempos pediram filmes da Alemanha e dos Estados Unidos, esta crítica acaba fazendo parte da lista de filmes que atendem a pedidos aqui no blog. Fica o registro, pois.

CONCLUSÃO: Honestamente? Achei este um dos melhores filmes de espionagem de todos os tempos. Pode parecer exagero, mas eu colocaria ele no Top 10 do gênero. Com uma direção muito bem feita, com uma protagonista com desempenho impecável, recheado de muita ação, violência e uma boa carga de humor, embalado por uma trilha sonora impecável e maravilhosa, Atomic Blonde é um filme envolvente e interessante. Só não é perfeito por um ou dois detalhes do roteiro. A história também acaba “cansando” um pouco por ser um tanto “repetitiva” e rasa, mas as reviravoltas do roteiro compensam um pouco estas pequenas falhas. Se você gosta de filmes de espionagem e não se importa (ou até gosta) de pancaria, este é o seu filme.

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Kubo and the Two Strings – Kubo e as Cordas Mágicas

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Contar histórias com maestria é um verdadeiro dom. E quando estas histórias, bem contadas, ainda tem algumas mensagens importantes costuradas de forma discreta em sua trama aqui e ali, tanto melhor. Kubo and Two Strings é uma animação que enche os olhos pela beleza de sua arte e que massageia a alma pela beleza de sua história. Um lindo, lindo filme, que eu só descobri porque ele está cotadíssimo para o Oscar. E merece chegar lá, não há dúvidas.

A HISTÓRIA: Começa em uma tempestade e com o narrador recomendando que ninguém pisque, que continuem olhando mesmo que alguns acontecimentos pareçam estranhos. Quando uma onda gigantesca aparece à frente de uma mulher que está surfando com uma guitarra, ela dá uma nota no instrumento e a onda se abre.

Mas, na sequência, outra onda se forma às costas da mulher e ela submerge, batendo a cabeça em uma pedra. Em terra firme, a mulher acorda com o choro de um bebê. O narrador diz que o herói se chama Kubo (voz de Art Parkinson), e esta é a história dele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Kubo and Two Strings): Este é um filme que me surpreendeu. E não foi pouco. Pelo cartaz da produção – como vocês sabem, evito ao máximo de assistir a trailers de filmes ou de ler a respeito da história antes – eu achei que se tratava de um filme de ação, quem sabe com algo de lutas marciais, e bem ao estilo de “produção para meninos”. Eu não poderia estar mais enganada.

Diferente dos filmes da Disney que eu assisti para esta temporada pré-Oscar, Kubo and the Two Strings tem uma forte marca artística. Não apenas pelo estilo e pela técnica utilizada no desenho, que é um stop-motion de tirar o chapéu, mas também pela temática e pela proposta da história propriamente dita.

Kubo and the Two Strings é um filme de animação que segue o estilo aventura e ação, mas ele, diferente de Zootopia (comentado por aqui), tem na tradição de uma cultura, a japonesa, um elemento fundamental. Além disso, o filme rende uma grande, imensa homenagem para os contadores de histórias. O próprio protagonista é um deles. E ele segue uma tradição familiar, já que a mãe dele também era fera em contar histórias.

Uma das mensagens importantes deste filme é justamente esta, da valorização das tradições e da história familiar. Kubo empreende uma aventura de sobrevivência que é, acima de tudo, uma viagem de autodescoberta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Logo nos primeiros minutos do filme vemos como Kubo sobreviveu a uma fuga desesperada da mãe dele. Conforme o garoto cresce, parece que a sua mãe (voz de Charlize Theron) vai ficando cada vez mais distante, com lapsos importantes de memória.

Como a cultura japonesa preconiza, Kubo tem que seguir uma série de regras para ficar “seguro”. Mas um dia, com a esperança de falar com o pai morto, o samurai Hanzo, seguindo uma tradição do vilarejo em que ele mora próximo com a mãe, Kubo quebra uma destas regras. Ele fica até depois do anoitecer “na rua” e acaba sendo encontrado pelas irmãs malévolas (voz de Rooney Mara) de sua mãe – ele estaria sempre sendo perseguido pelo avô, o Rei Lua (voz de Ralph Fiennes).

Para salvar o filho, a mãe de Kubo se sacrifica para mandá-lo para longe e enfrentando as irmãs. Quando acorda, Kubo está sob a guarda de uma macaca (voz de Charlize Theron) – o amuleto que a mãe dele sempre disse para ele manter por perto. A partir daí, os dois empreendem uma cruzada atrás da armadura e da espada que serão os únicos recursos possíveis para tentar proteger o nosso herói de seu algoz.

Os diferentes lugares pelos quais Kubo, a macaca e, depois, um ex-samurai convertido em besouro (voz de Matthew McConaughey) passam são fascinantes. O visual dos cenários, assim como a técnica de animação mais “artesanal” e o roteiro muito bem escrito por Marc Haimes e por Chris Butler baseados na história criada por Haimes e por Shannon Tindle são o ponto forte da produção.

Algo que me encantou e surpreendeu também neste filme é a forma com que os roteiristas não tratam o público potencial de Kubo and the Two Strings de forma infantil. Crianças podem assistir a este filme sem problemas, é claro, mas elas vão perceber que nem todos os personagens tratam o herói com delicadeza. A macaca, em especial, lhe dá algumas duras muito boas – algo típico de adultos preocupados em ensinar e não apenas em adular os seus filhos.

Como pede um bom filme de ação que é protagonizado por uma criança e que tem um certo senso de realidade, Kubo and the Two String mostra um herói que deve estar preparado para ser perseguido e agredido. Este não é um filme politicamente correto. Apesar de ser, essencialmente, uma fantasia, ele mostra que crianças podem passar por momentos muito difíceis, por solidão, dor e perdas importantes.

Ainda muito jovem Kubo fica órfão e deve ainda lutar por sobreviver. Ele acaba amadurecendo rápido por causa disso, mas ainda assim não perde a leveza de suas criações ou abre mão dos valores que aprendeu da mãe. Desta forma, além de valorizar as tradições e as histórias bem contadas, Kubo and the Two Strings também presta uma bela homenagem para as famílias, para os mortos e seus legados e para a humanidade e toda a sua imperfeição.

Ao contrastar o Rei Lua, que seria sinônimo de retidão e de “perfeição”, com Hanzo e sua pequena família que prefere viver no meio das pessoas e sua realidade imperfeita, Kubo and the Two Strings mostra claramente como é preciso fazer uma escolha entre estes dois mundos. O herói da história não tem dúvidas sobre preferir e defender a humanidade, o amor, a imperfeição, a compaixão e o perdão que são característicos deste contexto – e não de um mundo perfeito.

Com uma trilha sonora fantástica e um roteiro que dá o espaço adequado para os momentos de silêncio e para os diálogos inteligentes, com um texto muitas vezes irônico e uma narrativa envolvente, Kubo and the Two Strings é uma grande surpresa. Um filme muito interessante sobre a força de uma boa história e a valorização de uma cultura.

Depois de assistir a este filme, eu acho que ele pode ser entendido de duas formas diferentes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Exatamente da forma com que ele é apresentado, ou seja, com uma alta dose de fantasia, ou como uma alegoria de uma realidade difícil.

Se observarmos com atenção, na parte inicial do filme, quando Kubo está contando a sua história no festival cultural do vilarejo, na rua, o senhor idoso que aparece no final como sendo o avô dele está na plateia. Ele não parece se envolver na história como os demais – no final da produção, após o embate do Rei Lua com Kubo, o homem aparece “fora da fantasia”, normal, e parece sofrer de Alzheimer.

Ora, se este filme é uma grande alegoria, podemos entender que Kubo e a mãe dele viviam isolados por causa de algum problema familiar e que, após a morte dos pais do garoto, ele volta a tentar resgatar o avô de seu próprio esquecimento, se aproximando do patriarca da família que parecia ter feito muito bem para aquela comunidade mas que depois se perdeu em sua “própria escuridão”.

Olhando sob este prisma, Kubo tem um gesto muito bonito ao tentar “resgatar” o avô e trazê-lo para o contato com a realidade do vilarejo novamente. Ao mesmo tempo, a alegoria da história nos mostraria um menino fantasiando com os pais como animais – macaca e besouro – e vivendo com eles uma grande aventura como forma de conhecê-los melhor e de conviver um pouco mais com eles.

Nos últimos minutos do filme, Kubo and the Two Strings nos deixa mais uma bela mensagem. De que ninguém que morre e “nos deixa” parte de verdade. Como o roteiro de Haimes e Butler bem argumentam, as pessoas continuam vivas enquanto alguém lembrar delas e contar as suas histórias. Além disso, sempre estaremos conectados com as pessoas que partiram. Familiares e amigos que continuam vivos nas nossas memórias, corações, e que estão conectados com a gente em espírito. Belas mensagens. Lindo filme. Desta temporada, a melhor animação que eu vi.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei a direção de Travis Knight de uma delicadeza impressionante. Atento aos detalhes, mas também acertando em dar o ritmo certo para cada sequência, o diretor leva bem para a telona o ótimo roteiro da dupla Marc Haimes e Chris Butler. Além de envolvente, o roteiro acerta ao apostar em um número reduzido de personagens, o que permite que a relação entre eles seja valorizada, e também em equilibrar bem aventura, drama e comédia (com uma boa pitada de ironia).

Este filme marca a estreia do americano Travis Knight, de 43 anos, na direção. No currículo dele havia, até então, oito trabalhos como animador, com ele sempre compondo departamentos de animação. Ele estreou nesta função no ano 2000, no filme feito para a TV Boyer Brothers. Nos últimos anos ele participou de produções como Coraline, ParaNorman e The Boxtrolls. Por este último trabalho ele foi indicado ao Oscar, mas acabou perdendo a estatueta dourada para Big Hero 6.

Interessante como este filme tem alguns astros por trás das vozes dos personagens principais. Destaque para os ótimos desempenhos de Charlize Theron (mãe de Kubo/macaca), Matthew McConaughey (besouro), Ralph Fiennes (Rei Lua) e, claro, o ótimo Art Parkinson (Kubo). Além deles, vale citar o bom trabalho de Brenda Vaccaro, como Kameyo, a senhora idosa que é amiga de Kubo e fala com ele antes de cada apresentação; e de Rooney Mara como as tias de Kubo, ainda que ela tenha poucos diálogos comparado com outros atores. Os atores George Takei e Cary-Hiroyuki Tagawa interpretam a pessoas do vilarejo, sem grande destaque.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma um dos grandes destaques é a trilha sonora de Dario Marianelli. Perfeita e muito inspirada. Também achei excelente o trabalho do diretor de fotografia Frank Passingham; do editor Christopher Murrie; e, claro, do excepcional departamento de arte da produção com 34 profissionais e da equipe super talentosa de 90 profissionais do departamento de animação.

Vale citar também o trabalho competente de Daniel R. Casey e Nelson Lowry com o design de produção; de Deborah Cook com os figurinos; dos 10 profissionais envolvidos com os efeitos especiais e dos 50 profissionais envolvidos com os efeitos visuais. Cada um deles com uma contribuição fundamental para o excelente resultado deste filme.

Kubo and the Two Strings estreou no Festival Internacional de Cinema de Melbourne em agosto de 2016. Depois, o filme participou de outros dois festivais, o de Norwegian e o de Deauville. Até o momento a produção recebeu 15 prêmios e foi indicada a outros 34, incluindo a indicação ao Globo de Ouro 2017 (que será entregue neste próximo domingo, aliás).

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os 12 de Melhor Animação entregues pelas associações de críticos de cinema de Atlanta, Austin, Boston, Chicago, Flórida, Indiana, Las Vegas, Nova York, Phoenix, San Diego, Utah e de Washington. O filme também foi reconhecido como a Melhor Animação no Village Voice Film Poll, pela associação de críticos de cinema online e, um dos prêmios mais importantes da temporada, como Melhor Animação pelo National Board of Review.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. O Demônio Skeleton, que é inspirado no Gashadokuro do folclore japonês, é o maior boneco de stop-motion já construído para um filme. Ele tinha 16 pés – cerca de 5 metros – de altura. Aliás, vale continuar assistindo ao filme mesmo depois que a história termina, porque após os créditos principais aparecem algumas ilustrações e também a equipe montando o Demônio Skeleton e começando a utilizá-lo em algumas cenas.

Com 1 hora e 41 minutos de duração, Kubo and the Two Strings é o filme de stop-motion mais longo da história. Ele acabou batendo Coraline por um minuto.

Para vocês terem uma ideia da dificuldade de fazer uma produção como esta, apenas a sequência do barco levou 19 meses para ser filmada. O personagem de Kubo rendeu 23.187 protótipos de rostos para satisfazer a todas as necessidades do personagem. Destes rostos, foram mapeadas 48 milhões de possíveis expressões faciais para o personagem.

Esta produção foi possível com a utilização de pelo menos 145 mil fotografias que, depois, foram transformadas em sequências de stop-motion.

Como eu comentei antes, este filme marca a estreia de Travis Knight na direção. Ele é o CEO do estúdio Laika Entertainment, responsável pelo filme. Antes de Kubo and the Two Strings, o estúdio Laika tinha sido responsável por Corpse Bride, pelo curta Moongirl, por vários episódios de Slacker Cats, por Caroline, ParaNorman, The Boxtrolls e por Junior Surveyor/Matchmover.

Kubo and the Two Strings teria custado cerca de US$ 60 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 48 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros Us$ 21,9 milhões. No total, pouco mais de US$ 69,9 milhões. Ou seja, até o momento, ele ainda não pagou os custos da produção e da distribuição. Mais uma razão para o filme ser finalista ou até mesmo ganhar o Oscar. Talvez assim ele pudesse ter um “empurrãozinho” para buscar algum lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,0 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 176 críticas positivas e apenas seis negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,4. Especialmente as notas dos dois sites chamam a atenção por estarem bem acima da média normal de ambos. Sinal que o filme caiu no gosto da crítica. E eu consigo entender o porquê. 😉

Kubo and the Two Strings é um filme com recursos 100% dos Estados Unidos. Por isso esta produção entra para a lista de filmes que atende a uma votação feita aqui no blog há um bocado de tempo.

CONCLUSÃO: Um filme belíssimo por sua arte e pelas mensagens que vai deixando pelo caminho. O visual da produção é incrível, assim como a maneira com que Kubo and the Two Strings respeita e resgata a tradição oriental. Utilizando muita fantasia, criatividade e arte, este filme nos conta uma trajetória de autodescoberta e de valorização da família e do legado que as pessoas que já partiram desta vida nos deixaram. Para mim, a grande surpresa da animação deste ano. Merece ser descoberto.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Kubo and the Two Strings é um dos 27 filmes de animação habilitados para concorrer a uma estatueta dourada no Oscar. Mas observando as bolsas de apostas da premiação as chances da produção avançar na disputa ficam ainda mais evidentes.

De acordo com as pessoas que estão apostando dinheiro nos possíveis vencedores do prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, Kubo and the Two Strings está concorrendo diretamente com Zootopia. Pois sim. Estes dois filmes seriam os favoritos para levar para casa a estatueta dourada de Melhor Animação.

Francamente, do que eu assisti até agora, Kubo and the Two Strings e Zootopia realmente são os melhores filmes da temporada. Da minha parte, e acho que deixei isso claro com a minha nota, ainda prefiro Kubo. Mas não será também uma grande injustiça se Zootopia levar. Afinal, apesar do primeiro ser muito mais trabalhoso e artístico, preciso admitir que o segundo é um filme muito bem feito e divertido – além de ter o 3D como diferencial em uma disputa com Kubo.

Acho que seria uma grande zebra se Kubo and the Two Strings (assim como Zootopia) ficar de fora do Oscar 2017. Quanto a ganhar a estatueta… ainda que eu torça por ele, acho que será difícil ele vencer da gigante Disney. Veremos quem terá mais bala na agulha. Da minha parte, torço para o “mais fraco” e artístico Kubo and the Two Strings.

Mad Max: Fury Road 3D – Mad Max: Estrada da Fúria 3D

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A expectativa sobre um filme, um relacionamento ou um emprego é sempre algo ruim. Devemos viver sem ilusões, procurando conhecer como as coisas são sem fantasiar antes, durante ou depois. Dito isso, admito que eu tinha grandes expectativas para Mad Max: Fury Road e, possivelmente por esta razão, me frustrei com o resultado.

Fora os minutos iniciais de muita adrenalina e a construção visual do filme, sobra pouco para passar o tempo. Tanto que acabei cochilando em alguns trechos e, tudo indica, não perdi nada. História e roteiro contam pouco aqui. Adrenalina, infinitas cenas de ação e uma ótima fotografia são as protagonistas. Se você gosta disso, se jogue. Se não, procure um filme melhor e que tenha roteiro.

A HISTÓRIA: Ronco de carro. Uma voz se apresenta como Max (Tom Hardy), e afirma que o seu mundo é feito de fogo e sangue. Em seguida, o áudio de notícias explica como o mundo ficou caótico: primeiro com as guerras pelo petróleo, depois, pela água. O protagonista comenta que, um dia, ele foi um policial, mas que depois o mundo e a humanidade foi desmoronando, até que, agora, ele apenas sobrevive assombrado por vivos e mortos. Max aparece, apenas para, em seguida, ser perseguido por um bando em busca de sangue. Ele é levado para o reino de Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), aonde acompanha a rebelião liderada por Imperator Furiosa (Charlize Theron).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Mad Max: Fury Road): Antes de mais nada, meus bons leitores, quero pedir desculpas pela ausência. Tive meses de muito trabalho duplo – no jornal em que eu trabalho e também em casa, terminando uma novela particular nos estudos. Agora, finalmente, consigo começar a retomar o blog.

Importante comentar que eu comecei este texto ainda em maio, quando o filme estava em cartaz. Então, serei franca, que não lembro de todos os detalhes da produção, mas vou comentar os pontos principais. Para começar, devo dizer que filmes e personagens que marcaram época não deveriam ser revisitados, exceto se for para apresentar algo melhor. Fui ver este filme com o Mad Max original, de 1979, na cabeça.

Imaginem comigo que nada menos que 36 anos separam aquela produção dirigida por George Miller desta nova versão também dirigida por ele. O que aconteceu com o mundo, com a compreensão da humanidade sobre os recursos naturais e com o próprio cinema neste tempo todo? As mudanças não caberiam neste blog. O cinema, em especial, evoluiu muito tecnicamente, inclusive com direito ao cada vez mais presente 3D. Inclusive fui conferir este filme nesta versão.

Essa mudanças todas fizeram este Mad Max versão 2015 ficar melhor que o original? Em termos de história, com certeza não. O Mad Max de 1979 explorava muito mais a loucura das pessoas e as relações (des)humanas. Já naquele ano o olhar louco que marcaria Gibson começava a se revelar, e o ator mostrava a capacidade de demonstrar diversas nuances de seu personagem. Diferente de Tom Hardy, que apesar de ter aquele perfil durão e implacável, carece de habilidade para mostrar as nuances necessárias do personagem.

Se o protagonista e a história de 1979 eram melhores – ainda que com bem menos ação, é verdade – , outros aspectos técnicos da versão 2015 conseguem ganhar um certo protagonismo. O destaque principal vai, sem dúvida, para a direção de fotografia de John Seale. Esse é o ponto forte da produção, sem sombra de dúvida. Assim como os primeiros minutos do filme, que são de pura adrenalina. Primeiro, Miller aposta em uma clássica perseguição de carros. Depois, em uma tentativa de fuga de Max e uma consequente perseguição humana.

Se Hardy não tem expressividade, a protagonista feminina da história faz diferente. Logo após a segunda captura de Max, aparece em cena Charlize Theron. Ela sim, consegue imprimir emoção em sua destemida e também hardcore personagem. Ela brilha mais que o ator que faz Max, o que não deixa de ser um sinal dos tempos para esta grife de filmes. Nos primeiros minutos da produção também fica claro o tom rock’n roll de Mad Max: Fury Road.

Passado os minutos iniciais, o problema é o que vem na sequência. Não demora muito para percebermos que Imperator Furiosa se rebelou e que, com essa fuga, ela passou a ser o alvo do exército de Immortan Joe. E para onde ela e as outras mulheres que ela está levando junto com ela estão indo? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para um lugar que é para ser o Paraíso, aonde elas possam viver bem e em paz, longe da escravidão de Immortan Joe. E aí que o filme inteiro é a tentativa delas de encontrar este lugar e, depois de verem que o Paraíso não existe, retornar para o ponto de partida.

Claro que tudo isso é uma desculpa para inúmeras cenas de perseguição, porrada e violência. Mas inevitável perguntar: ok, tudo isso para mostrar um grupo de mulheres apoiada por poucos homens tentando a libertação e descobrindo que o “lugar prometido” não existe? Durante o filme, me pareceu evidente uma pegada feminista no roteiro de Miller, Brendan McCarthy e Nick Lathouris. Afinal, são as mulheres que se rebelam, que carregam a ação nas costas e que acabam sendo a esperança do povo esfomeado em busca de migalhas de pão e de um pouco de água.

Com um pouco de criatividade, é possível imaginar que os roteiristas quiseram passar uma mensagem de rebeldia da figura materna, por muitos plasmada na Mãe Terra, diante de tanta cobiça e dominação dos homens – simbolizados por Immortan Joe. O próprio nome deste personagem poderia brincar com a ideia equivocada dos homens – enquanto Humanidade – de busca pela imortalidade sem saber que, neste tentativa, eles estão acabando com os recursos naturais e com a própria vida.

Claro que é preciso imaginação para pensar em tudo isso. Mas essa criatividade ajuda a deixar a história repetitiva e arrastada, apesar da ação constante – mas sem novidade – um pouco mais interessante. No mais, o filme poderia ser bem mais curto – quem sabe, até um curta. Comparado a outros filmes 3D, achei que esse recurso foi pouco utilizado na produção. A direção de fotografia continuou sendo o mais interessante, assim como inúmeras cenas com efeitos especiais de explosões e perseguições. Pena que apenas isso não torne o filme além de mediano.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para explicar esse novo Mad Max, é importante observar quem está à frente da produção: George Miller. Esse diretor australiano de 70 anos tem 16 filmes, curtas e séries no currículo. Depois de dirigir dois curtas em 1971, ele estreou nos longas justamente com o Mad Max de 1979.

Depois daquele primeiro filme estrelado por Mel Gibson, Miller fez outros dois filmes da grife até enveredar por outro caminho com filmes bem diferentes como The Witches of Eastwick, que marcou os anos 1980; o sentimental Lorenzo’s Oil; e os bonitinhos Babe: Pig in the City e Happy Feet.

Nenhum deles, contudo, com o impacto de Mad Max. Não por acaso o diretor voltou à sua grife de sucesso agora. Depois do filme de 2015, o diretor já está planejando a sequência, atualmente chamada de Mad Max: The Wasteland. Sem data ainda para estrear, o filme seria novamente estrelado por Tom Hardy e Charlize Theron.

Agora, algumas curiosidades sobre o Mad Max original e esta repaginada com outra configuração e levada de 2015. Os roteiristas da versão original foram outros: James McCausland e Byron Kennedy, junto com Miller. Além do diretor, um outro nome envolvido nos dois projetos foi o ator Hugh Keays-Byrne, que em 1979 interpretou ao vilão Toecutter e, agora, ao vilão Immortan Joe. No filme original ele teve bem mais trabalho na interpretação do que nesta última produção. O ator indiano de 68 anos tem 46 trabalhos no currículo e apenas um prêmio pelo trabalho em Rush, de 1974.

A direção de fotografia deste novo Mad Max é tão expressiva que conseguiu inspirar diversos artistas gráficos que não apenas criaram utilizando o estilo do filme, como inspirou fotógrafos e diversas empresas para fazer produtos com o novo estilo do filme.

Vale saber um pouco mais sobre o diretor de fotografia John Seale. Australiano que vai completar 73 anos de idade no dia 5 de outubro, Seale tem 42 produções no currículo e um Oscar, além de outros 20 prêmios. O Oscar ele recebeu pela direção de fotografia de The English Patient. Para o prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ele foi indicado outras três vezes: por Witness, em 1985; Rain Man, em 1988; e Cold Mountain, em 2003. Uma de tantas referências na área e que merece os nossos aplausos.

Além da direção de fotografia e das ótimas cenas de ação, especialmente da sequência inicial do filme, Mad Max: Fury Road tem como uma de suas grandes qualidades a trilha sonora de Junkie XL, nome artístico do holandês Tom Holkenborg; a maquiagem importantíssima com 46 profissionais envolvidos; para a edição de Margaret Sixel; e para o design de produção de Colin Gibson. Há quem tenha gostado dos figurinos do filme, por isso vale citar quem assina esse trabalho: Jenny Beavan.

O elenco deste filme é muito, mas muito fraquinho. Charlize Theron salva a lavoura. Além dela e dos atores já citados, o filme é composto por meia dúzia de belas atrizes, do estilo modelo e com pouca variação interpretativa, e alguns atores que fazem caras de loucos e de maus antes de morrerem. Vale citar, do elenco, por terem mais destaque na trama, Nicholas Hoult como Nux (que vira-a-casaca lá pelas tantas, deixando de seguir o guru imortal para defender a mulherada desprotegida); Josh Helman como Slit; Nathan Jones como Rictus Erectus; Zoë Kravitz como Toast the Knowing; Rosie Huntington-Whiteley como The Splendid Angharad; Riley Keough como Capable; Abbey Lee como The Dag; e Courtney Eaton como Cheedo the Fragile.

Mad Max: Fury Road teve première na Califórnia no dia 7 de maio. No dia 13, a première foi em Sydney – no mesmo dia a produção estreou na Bélgica e na Jamaica. Nos dois dias seguintes o filme estreou massivamente em dezenas de países, inclusive no Brasil.

Esta foi uma produção milionária, de fato. Mad Max versão 2015 teria custado cerca de US$ 150 milhões. Nas bilheterias dos Estados Unidos o filme faturou US$ 151,15 milhões e, nos outros mercados, mais US$ 216 milhões. Ou seja, no total, cerca de US$ 367,15 milhões. Conseguiu se pagar e obter um pouco de lucro – já que não deve ter saído barata a divulgação mundial massiva como ele teve. Para comparar, o Mad Max original conseguiu US$ 8,75 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos – em um tempo em que este valor era bem significativo.

Para quem se interessa sobre as locações dos filmes, Mad Max: Fury Roda foi rodado principalmente no Deserto da Namíbia, mas teve cenas rodadas também em estúdios na África do Sul e na Austrália.

Esta é uma produção da Austrália e dos Estados Unidos.

Antes que alguém me interprete mal e venha aqui dizer: “Ah, mas você não gostou do filme porque você não gosta de filmes de ação e/ou pós-apocalípticos”, deixa eu tornar a questão mais clara. Meu problema com este novo filme não é apenas porque tenho uma lembrança melhor do Mad Max original – que, apesar de ser um pouco enrolado no desenvolvimento, valoriza muito mais a relação entre os personagens e a loucura que começa a tomar conta das pessoas -, mas porque eu não gosto de filmes sem história e que são pretensiosos.

Vou dar um exemplo: gostei mais de The Expendables 3 (comentado aqui) do que deste Mad Max: Fury Road. Os dois filmes são, declaradamente, de ação. Existem para isso, para um desfile de cenas de perseguições e afins. A diferença é que The Expendables 3 deixa claro que existe só para isso e o roteiro tira sarro do próprio gênero. Há “penso” e despretensão no filme. Mad Max: Fury Road se leva muito a sério e tenta ser icônico. Nada mais chato, para o meu gosto.

Além disso, assistindo a produtos como The Walking Dead (HQ e série de TV), que se passam em um ambiente pós-apocalíptico mas que vão muito além de uma história de zumbis versus humanos, explorando bem os sentimentos humanos e a desumanização das pessoas conforme a rotina vai se tornando cada vez mais cruel e sem esperança, Mad Max: Fury Road parece um retrocesso por não ter nenhum aprofundamento deste gênero.

Como em outros casos, a minha opinião parece não acompanhar a da maioria. Prova disso é que os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para este filme, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 273 textos positivos e apenas cinco negativos para esta produção – o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média 8,8. Nota essa, diga-se, bem acima da média para o site.

Antes que eu me esqueça: algo importante que fez eu não gostar tanto deste Mad Max é porque eu fui para o cinema com grandes expectativas. Amigos meus tinham visto a produção antes e achado ela incrível, fazendo bastante propaganda… fui seca, achando que eu veria algo inesquecível, mas rapidamente vi que não seria nada disso. Daí o cansaço bateu, e eu pesquei durante a exibição – algo que não é nada comum. Por isso, meus caros, tentem não ter expectativas antes de ver um filme. Agora, da minha parte, vou tentar manter esse blog mais atualizado. Mudando de foco da próxima vez. 😉

CONCLUSÃO: Um filme que dá voltas ao redor do próprio rabo e que não se cansa disso. Ou, em outras palavras, uma história que poderia ser contada em meia hora. Mad Max: Fury Road tem um ótimo começo e um final edificante mas o recheio deixa a desejar. Como comentei na introdução desta crítica, apenas a fotografia, algumas cenas de ação e, para quem gosta de rock, a trilha sonora valem o esforço. Mas se tens pouco tempo para ver um filme, recomendo procurar uma produção melhor. Para quem lembra do Mad Max original, que marcou a carreira de Mel Gibson, não há dúvidas: aquela história foi muito melhor.

E o Oscar 2014 foi para… (cobertura online e todos os premiados)

86th Oscars®, Governors Ball Preview

Boa noite minha gente!

Pelo sétimo sexto ano consecutivo vou acompanhar a entrega das estatuetas douradas do Oscar com vocês.

A expectativa é boa para este ano porque a disputa está bem acirrada em diversas categorias da maior premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Tenho certeza que em algumas categorias o prêmio será decidido por poucos votos.

O canal E! Entertainment começou a transmissão do tapete vermelho ao vivo às 19h30min, no horário de Brasília, mas o clima começou a esquentar agora, perto das 21h. Uma das figuras interessantes da noite e que acaba de chegar é o ator Jared Leto, todo de branco, com uma gravata borboleta vermelha e os cabelos longos soltos. Para o repórter ele comentou que gosta de roupas antigas. Leto é o favorito da noite na categoria Melhor Ator Coadjuvante por seu trabalho em Dallas Buyers Club.

Das pessoas que já chegaram, outra que chamou a atenção pela roupa foi a atriz Lupita Nyong’o, indicada como Melhor Atriz Coadjuvante por seu trabalho em 12 Years a Slave. Ela surgiu com um vestido azul claro Prada interessantíssimo e foi bem comentada. O canal TNT também está transmitindo direto do tapete vermelho.

O ótimo ator inglês Benedict Cumberbatch, que não foi indicado a nada este ano mas que participa de quatro produções indicadas (a saber: 12 Years a Slave, August: Osage County, The Hobbit: A Desolation of Smaug e Star Trek Into Darkness), destacou o trabalho de equipe feita em 12 Years. A produção é uma das favoritas na categoria Melhor Filme. Logo veremos se ela terá força de desbancar The Wolf of Wall Street, Gravity e American Hustle.

A favorita da noite segundo muitas bolsas de apostas na categoria Melhor Atriz, Cate Blanchett, aparece belíssima. Ela comenta que achou fascinante interpretar a personagem trágica e complexa de Blue Jasmine. Linda. Vestida para brilhar com uma roupa de Giorgio Armani – sob medida para ganhar a estatueta. Acredito que apenas Sandra Bullock e Amy Adams poderiam surpreender e tirar o prêmio dela – mas meu voto, na verdade, iria para Meryl Streep.

Segundo a votação feita aqui no blog, quase 40% dos leitores aqui do blog acreditam que Gravity saíra da noite de hoje com o maior número de estatuetas da premiação. Em seguida aparecem 12 Years a Slave (com 17,5% dos votos) e Her (com 15% dos votos). Concordo com a maioria. Gravity deve sair com vários prêmios técnicos e ganhar dos demais concorrentes no número de estatuetas. Mas acho que os prêmios principais (Melhor Filme, Diretor, Atriz e Ator) serão partilhados por três ou até quatro filmes.

Outro vestido totalmente de branco a aparecer foi Matthew McConaughey. Mas a gravata borboleta dele é preta, diferente do parceiro de cena, Jared Leto, com gravata do mesmo tipo vermelha. Ele apareceu lindo ao lado da esposa, a brasileira Camila Alves, e da mãe dele. Em seguida, mostraram Jennifer Lawrence de vestido vermelho fazendo o que? Caindo, é claro. hehehehehe. Acho que esta é a atriz mais atrapalhada de Hollywood – e uma das mais talentosas de sua geração.

lupitaarrival1Na revisão feita pelos comentaristas do E! Entertainment destacaram muito Charlize Theron com um vestido preto que valorizou um belíssimo colar. De fato, a atriz é uma diva, uma das mais bonitas da noite. Elogiaram também Amy Adams em um Gucci azul – mas eu, francamente, não achei que o vestido caiu tão bem nela, ainda mais se comparada com Charlize Theron. Mas não há dúvidas, até o momento, que Lupita Nyong’o é o destaque da noite.

Comparado com outros anos, estou achando esse tapete vermelho um tanto morno. Os atores estão bem treinados. Exemplo: Chiwetel Ejiofor aparece entrevista após entrevista comentando que conhecia o autor Solomon Northup, que narrou a própria história no livro 12 Years a Slave, e que só se entregou ao projeto depois de refletir muito sobre ele. Também tenho a impressão que não há muita novidade no visual dos astros e estrelas. Veremos se a premiação consegue nos surpreender um pouco mais.

Voltando para os comentários de moda, destacaram bastante o vestido vermelho de Jennifer Lawrence, mesmo dizendo que ela foi ousada em investir nesta cor (que daria azar para quem quer ser premiado) e também o vestido preto de Julia Roberts. Anne Hathaway, que normalmente é um dos destaques nas premiações, escolheu um belíssimo Gucci para o Oscar 2014. Muito interessante o vestido preto e prateado que ela escolheu.

Faltando menos de meia hora para a premiação começar, Jonah Hill e Bradley Cooper emocionadíssimos no tapete vermelho. Os dois tem razões para comemorar, já que conseguiram ser indicados na categoria Melhor Ator Coadjuvante. No TNT, Lupita Nyong’o comenta que fez aniversário na véspera e que foi ótimo ver 12 Years a Slave ser bem premiado no Spirit Awards.

Ana Maria Bahiana, a quem admiro e sempre acompanho, comentando no Twitter que o Matthew McConaughey pulou o cordão de segurança e foi cumprimentar o público, apertando a mão de vários fãs. Mais uma razão para ele ganhar a estatueta hoje à noite. Outras mais? Além da humildade e simpatia, o ótimo trabalho em Dallas Buyers Club e a ótima fase na carreira.

Sandra Bullock está linda em um vestido azul. A atriz destacou que Gravity mudou a sua vida, tornado ela um pouco menos complexa. Na revisão das 24 horas que antecederam a festa do Oscar, o canal TNT mostrou como havia chovido horrores em Los Angeles e destacou o trabalho de centenas de pessoas na preparação do Oscar – achei curiosa, em especial, a determinação de cada assento no Dolby Theater, com cada astro e estrela identificado com um cartaz com suas respectivas fotos. Só faltava um “Wanted” no material. 🙂

Faltando menos de cinco minutos para a cerimônia começar, Kevin Spacey fala do sucesso da série House of Cards. A segunda temporada veio arrasadora. Para quem ainda não assistiu, eu recomendo. Em poucos minutos vamos saber como vai se sair a anfitrião do prêmio Ellen DeGeneres e qual será a característica do Oscar deste ano – se ele vai seguir a maioria das apostas ou trará muitas surpresas para os fãs de cinema.

Pontualmente as 22h30min no horário de Brasília começou a cerimônia do Oscar. Ellen DeGeneres foi bem aplaudida e começou brincando que os últimos dias foram muito difíceis porque estava chovendo. 🙂 Ela comenta que retornou para a premiação depois de sete anos, e que muitas coisas mudaram no período… Cate Blanchett, Meryl Streep, Leonardo DiCaprio e Martin Scorsese haviam sido indicados anteriormente. 🙂 Mas ela também destaca as estreantes da noite, como June Squibb, Lupita Nyong’o e Barkhad Abdi. Começou muito bem.

DeGeneres também destacou a presença dos verdadeiros Capitão Phillips e Philomena, e brincou com a Liza Minnelli dizendo que estava presente um de seus melhores imitadores. Nada como ter uma apresentação como um ótimo texto! Isso faz toda a diferença. O Oscar acertou este ano. Mas ela não escapou da tradicional piada com Meryl Streep que foi indicada 18 vezes ao Oscar.

Em seguida, ela foi rápida tirando sarro de Jennifer Lawrence, brincando que não iria lembrar sobre o que aconteceu no ano passado… que ela caiu quando foi receber o Oscar. Comentou que não iria mostrar o vídeo relembrando a cena, mas que ela poderia relembrar isso ao pensar na queda que teve ao sair do carro na noite de hoje. hehehehe.

dallasbuyersclub5Na primeira entrega da noite, Anne Hathaway foi ao palco para apresentar os candidatos na categoria Melhor Ator Coadjuvante. O favorito, sem dúvida, é Jared Leto. Após o clipe de cada trabalho, muitas palmas da plateia. Os mais aplaudidos, me pareceu, foram Barkhad Abdi, Jonah Hill e Jared Leto. E o Oscar foi para… Jared Leto de Dallas Buyers Club!! Uhuuulll. Bacana ver este ator, que mudou tanto desde que estrelou um dos meus filmes favoritos de todos os tempos, Requiem for a Dream, receber esta honraria.

No microfone, ele comentou sobre uma adolescente que foi mãe solteira e que deixou de estudar para educar bem os filhos. Ele estava homenageando a própria mãe. Um fofo! E seguiu dizendo que os sonhadores do mundo, inclusive os da Ucrânia e da Venezuela, que eles estão sendo observados e lembrados pelas pessoas naquele local. Discurso emocionado e também político. Para finalizar, dedicou o prêmio para todas as pessoas que morreram de Aids e que algum dia se sentiram injustiçadas pelo que são ou fazem. Palmas!

Na sequência, surge Jim Carrey. Ele brinca sobre como deve ser difícil a tarefa de ser sempre indicado, e comenta que está feliz porque um de seus heróis, Bruce Dern, foi lembrado no Oscar deste ano. Na plateia, Bono Vox e o U2, banda que vai se apresentar na noite. Carrey estava ali para apresentar um vídeo com os heróis de filmes de animação.

Kerry Washington apareceu em seguida, gravidíssima, para chamar o rapper Pharrell Williams para apresentar a canção Happy, presente no filme Despicable Me 2. Essa foi a primeira apresentação musical da noite, e ela foi aplaudida por boa parte da plateia de pé. Agora, cá entre nós, achei a participação de Jim Carrey um tanto que dispensável. Seria o primeiro “enche linguiça” da noite?

thegreatgatsby7A bela Naomi Watts surge após os comerciais ao lado de Samuel L. Jackson para apresentar os indicados na categoria Melhor Figurino. E o Oscar foi para… Catherine Martin por The Great Gatsby. Ela homenageou o marido, Baz Luhrmann por ele ser um visiónario. Em seguida, os atores apresentaram apresentaram os indicados em Melhor Maquiagem e Penteado. E a estatueta foi para… Dallas Buyers Club. Matthew McConaughey e a esposa bateram palmas de pé. As premiadas agradeceram McCounaughey e Leto por eles terem deixado elas modificarem eles e fazerem o trabalho dos sonhos, além de dedicar a estatueta para as vítimas da Aids.

Na sequência, Harrison Ford apresentou três dos indicados a Melhor Filme da noite. Na sequência: American Hustle, Dallas Buyers Club e The Wolf of Wall Street. Destes três, gostei mais dos últimos dois. Até o momento, quem se saiu bem foi Dallas Buyers Club.

O ator Channing Tatum veio em seguida para apresentar os universitários que ganharam o concurso de curtas promovido pela Academia. Bacana eles darem esse espaço para os novos realizadores – afinal, eles são o futuro do cinema dos Estados Unidos.

Após a propaganda, Kim Novak e Matthew McConaughey aparecem para apresentar os candidatos na categoria Melhor Curta de Animação. E o Oscar foi para… Mr. Hublot. Bacana. Vi imagens da produção e achei elas muito interessantes. Acho que vale ir atrás. Laurent Witz e Alexandre Espigares subiram ao palco para agradecer pela estatueta que, segundo um deles, é um sonho americano. Ele estavam muito, muito nervosos. Bacana ver gente que luta tanto ser premiada. Cool.

Na sequência, McCounaguey e Kovak apresentaram os candidatos a Melhor Animação. E o Oscar foi para… Frozen. Bacana ver uma diretora subir ao palco: Jennifer Lee, que fez este filme da Disney junto com Chris Buck. Discurso rápido e bacaninha.

A duplamente premiada com estatuetas do Oscar Sally Field surgiu após uma rápida brincadeira de Ellen DeGeneres para apresentar um vídeo sobre os heróis do “dia-a-dia”. No vídeo, entre outros, filmes como Milk, Erin Brockovich, Captain Phillips, Ali, Schindler’s List, Argo, Norma Rae, Philadelphia, Ben-Hur, 12 Years a Slave, Dallas Buyers Club e Lawrence of Arabia.

Emma Watson surge com Joseph Gordon-Levitt para apresentar a categoria Melhores Efeitos Visuais. E o Oscar foi para… Gravity. Prêmio esperadíssimo e muito cantado. O trabalho feito nesta produção é impecável, de fato. Um dos pontos fortes do filme – se não o maior, junto com edição de som.

No palco, surge o galã Zac Efron para apresentar a próxima atração musical da noite: Karen O canta The Moon Song, do belíssimo filme Her. Esta produção, sem dúvida, a minha favorita deste ano – mas, como ocorreu em outros anos, a minha escolha não tem chances reais na categoria principal. Bela e sensível apresentação de Karen O.

Depois dos comerciais, Kate Hudson e Jason Sudeikis apresentam Melhor Curta de Ficção. E o Oscar foi para… Helium. Bacana ver gente apaixonada falar de cinema. Depois, entregaram o Oscar de Melhor Curta Documentário, que foi para… The Lady in Number 6: Music Saved My Life. O curta conta a história de uma sobrevivente do Holocausto que, infelizmente, faleceu uma semana antes do Oscar ser entregue com 110 anos. Os realizadores disseram que a personagem real que os inspirou lhes ajudou a terem mais esperança. Bacana.

20feetfromstardom1Depois de uma piada um tanto sem grança sobre fome e pedir uma pizza de Ellen DeGeneres, subiu ao palco o ator Bradley Cooper. Ele apresentou os indicados na categoria Melhor Documentário. Ele disse que os concorrentes deste ano talvez fossem dos melhores dos últimos anos. Concordo com ele. Este ano está ótimo. E o Oscar foi para… 20 Feet from Stardom. Uau! Ele era um dos mais cotados nas bolsas de apostas. Belo filme, um resgate interessante sobre a história das backing vocals. Mas cá entre nós, acho outras produções melhores… Dirty Wars e The Square merecem ser vistas. Nos agradecimentos, Darlene Love, uma das cantoras destacadas no filme, deu um pequeno show e foi bem aplaudida depois.

Kevin Spacey surgiu na sequência brincando que estava feliz por estar ali, ao invés de em Washington – por causa de House of Cards. Ele comentou os prêmios especiais e honorários deste ano e apresentou um vídeo sobre eles: Steve Martin, Angela Lansbury, Piero Tosi e Angelina Jolie. Grandes nomes, que contribuíram de diferentes formas para o cinema e a sociedade. Legal.

lagrandebelezza2Depois do intervalo, Ewan McGregor e Viola Davis apresentaram os indicados na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Ela me surpreendeu pela magreza. Este ano, alguns filmes muito bons. E o Oscar foi para… La Grande Bellezza. Era o favorito segundo a bolsa de apostas. Torcia por ele, ainda que eu estivesse dividida entre este filme, Jagten e The Broken Circle Breakdown. Para quem não assistiu a todos eles, recomendo fortemente assisti-los. O diretor Paolo Sorrentino agradeceu a seus ídolos. Entre outros, Diego Maradona.

Na sequência, o diretor e roteirista Tyler Perry apresenta outros três indicados a Melhor Filme deste ano: Gravity, Her e Nebraska. Brad Pitt surge para chamar a terceira apresentação musical da noite: U2 com a música Ordinary Love do filme Mandela: Long Walk to Freedom. Apresentação gostosa, como tdas que Bono e Cia. costumam fazer. A banda foi bem aplaudida pela plateia, com Jared Leto e quase todos os outros aplaudindo eles de pé.

Na volta dos comerciais, Ellen DeGeneres com nova roupa, desta vez toda de branco, em uma das melhores tiradas da noite: ela chama Meryl Streep e mais uma pancada de atores para bater um “selfie coletivo” e bater recorde de retweets. Na sequência, subiram ao palco Michael B. Jordan e Kristen Bell para homenagear os premiados nas categorias científica e técnica – que fazem parte do Oscar, mas que sempre são vistas em uma lembrança de resumo de vídeo.

Charlize Theron e Chris Hemsworth, sem dúvida o casal mais bonito de apresentadores até então, vieram em seguida para apresentar os indicados na categoria Melhor Mixagem de Som. E o Oscar foi para… Gravity. Esperadíssimo. Um dos prêmios mais cantados da noite. Na sequência, os indicados em Melhor Edição de Som. E o Oscar foi para… Gravity. Merecido, ainda que o trabalho feito em All Is Lost também merecia uma estatueta – seria interessante um raríssimo empate, neste caso.

E agora, a reta final da premiação com as principais categorias se acumulando. Christoph Waltz apresentou as cinco indicadas desta noite na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. E o Oscar foi para… Lupita Nyong’o de 12 Years a Slave. Que bacana! Premio merecidíssimo, porque ela está absurdamente perfeita em 12 Years a Slave. O nome mais falado da noite no quesito moda também se firma como vencedora da premiação.

E a primeira palavra dela: Yes! Em seguida, ela agradece a Academia, mas lembra que tanta felicidade na vida dela significa infelicidade na vida de tantas outras pessoas – mais um discurso consciente. Ela agradeceu ainda o diretor Steve McQueen e os colegas de cena, Chiwetel Ejiofor e Michael Fassbender. O discurso dela, o ponto alto da noite até agora, emocionando muita gente da plateia – de Brad Pitt até Kevin Spacey. Senti cheiro de Melhor Filme indo para 12 Years a Slave…

Na volta do intervalo, a sequência da piada sobre o povo que passa fome durante a apresentação do Oscar. Ellen DeGeneres recebe um entregador de pizza que distribuiu pedaços para vários astros e estrelas – de Meryl Streep e Julia Roberts até Harrison Ford e Jared Leto. Baita sacada, destas para entrar na história da premiação.

GRAVITYNa sequência, a presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs, apresentou o projeto do Museu do Cinema que eles pretendem inaugurar até o final de 2017. Projeto de sonho. Amy Adams e Bill Murray surgiram, então, para apresentar os concorrentes na categoria Melhor Fotografia. E o Oscar foi para… Gravity. Mais um prêmio técnico que esta produção leva, como era previsto. Ainda que nesta categoria ele poderia ter perdido para outros títulos, especialmente Nebraska e The Grandmaster. Emmanuel Lubezki agradeu ao mestre Alfonso Cuarón, para a equipe e, em especial, para Sandra Bullock.

Depois, vieram os indicados em Melhor Edição. E o Oscar foi para… Gravity. Sem dúvida um excelente trabalho de Mark Sanger e Alfonso Cuarón, ainda que esta categoria estava bem disputada este ano. Algo me diz que Cuarón vai receber, ainda, outro Oscar nesta noite, desta vez como Melhor Diretor. Logo saberemos… Em edição outros fortes concorrentes eram American Hustle e Captain Phillips.

Na sequência, Whoopi Goldberg faz uma homenagem para The Wizard of Oz, filme de 1939. No palco, Pink canta enquanto cenas projetam momentos marcantes da produção. Bela lembrança e muito bem executada pela cantora que estava em um vestido vermelho decotado e cintilante – bem ao gosto dos sapatinhos de Judy Garland. Ela também foi aplaudida de pé – a plateia está animada hoje.

Na volta do intervalo, Ellen DeGeneres vestida de fada madrinha. Jennifer Garner e Benedict Cumberbatch apresentam a categoria Melhor Design de Produção. E o Oscar foi para… The Great Gatsby. Catherine Martin e Karen Murphy subiram ao palco para receber o prêmio. Depois, Chris Evans surgiu para apresentar um vídeo que relembrou grandes personagens do cinema.

Outro comercial e, na sequência, a homenagem aos falecidos no último ano. Para começar, James Gandolfino, seguido de vários nomes, entre outros Carmen Zapata, Hal Needham, Richard Shepherd, Jim Kelly, Les Blank, Paul Walker, Elmore Leonard, Eduardo Coutinho, Peter O’Toole, Richard Griffiths, Roger Ebert, Shirley Temple Clark, Joan Fontaine, Juanita Moore, Harold Ramis, Eleanor Parker, Ray Dolby, Julie Harris, Maximilian Schell, Gilbert Taylor, Esther Williams, chegando até Philip Seymour Hoffman.

Grandes perdas. E bacana, muito bacana terem incluído o grande Eduardo Coutinho entre os lembrados. Bette Midler fechou a homenagem cantando. E muito, aos 69 anos, com voz e aparência de tirar o chapéu. A plateia bateu palmas de pé, mais uma vez. Justo, muito justo.

Na volta do intervalo, Ellen DeGeneres novamente de preto. Ela brinca que eles estão batendo recorde no Twitter – e Meryl Streep se emociona com a cena. Goldie Hawn apresenta os últimos três indicados a Melhor Filme: Philomena, Captain Phillips e 12 Years a Slave. Destes, sem dúvida o único com chances reais é o filme de Steve McQueen.

John Travolta surge com a música de Pulp Fiction – antes, Harrison Ford apareceu com a trilha de Indiana Jones – para apresentar a última música concorrente da noite: Let It Go, do filme Frozen, apresentada por Idina Menzel. Ainda que bem vestida, para mim foi a atração mais entediante do Oscar. Alguém tem que baixar a adrenalina, não é mesmo? 🙂 Ela me pareceu um tanto alterada… fiquei com medo dela ter um troço no final, mas a plateia levantou novamente. Ai, ai…

Na sequência, Jamie Foxx e Jessica Biel apresentaram os concorrentes da categoria Trilha Sonora Original. Antes, Foxx fez várias gracinhas. E o Oscar foi para… Steven Price por Gravity. Esta categoria estava recheada de excelentes trabalhos. Mais uma vez eu teria ficado em dúvida se daria o Oscar para Gravity ou Her. E daí veio a estatueta para Melhor Canção Original. E ele foi para… Let It Go, de Frozen. Aaaaahhhh, que pena que o U2 não levou essa!

Na volta do intervalo, Ellen DeGeneres passa o chapéu entre os astros para pagar a pizza. A apresentadora embolsa o dinheiro dado por Kevin Spacey e o bastão labial de Lupita. Depois surgem Penélope Cruz e Robert De Niro para apresentarem os indicados na categoria Melhor Roteiro Adaptado. E o Oscar foi para… John Ridley, de 12 Years a Slave. Muito bacana! Mais um sinal de que o filme tem grandes chances de ganhar como Melhor Filme.

her7Depois, o esperado Melhor Roteiro Original. Minha torcida total para Her. E o Oscar foi para… Spike Jonze por Her. Yeesssss. Ufa! Salvou a noite para mim. 🙂 Baita texto o dele. E Jonze foi aplaudido de pé. Ele brinca que tem 42 segundos para falar, por isso ele corre para agradecer aos amigos e familiares. Grande figura e muito merecido!

Depois de mais um intervalo – perdi a conta de quantos tivemos! -, sobem ao palco Angelina Jolie e Sidney Poitier. Os dois, aplaudidíssimos. Jolie começou a fala dela agradecendo ao grande Poitier – antes, ela andou muito devagar para acompanhá-lo. Ele respirou fundo para conseguir seguir com a fala. Os dois apresentaram os indicados na categoria Melhor Diretor.

Emocionante ouvir o Poitier pedindo para os realizadores seguirem com o ótimo trabalho. E o Oscar foi para… Alfonso Cuarón, de Gravity. Grande diretor, e que fez um trabalho exemplar em Gravity. Ainda assim, admito que eu estava torcendo também por Scorsese. Cuarón repete as palavras de Sandra Bullock e diz que o filme foi uma experiência transformadora. Ele dividiu o prêmio com o filho e co-roteirista e com Sandra Bullock. Citou também George Clooney e várias outras pessoas que ajudaram o filme a sair – bacana ele citar Guillermo del Toro.

Na volta seguinte, DeGeneres brinca com Matthew McConaughey sobre ele ter perdido tudo dançando. E sobe ao palco Daniel Day-Lewis para apresentar as indicadas na categoria Melhor Atriz. E o Oscar foi para… Cate Blanchett, de Blue Jasmine. Estatueta cantadíssima, mas ainda assim tinha gente – inclusive eu – esperando por uma possível zebra. Ela subiu ao palco e foi aplaudida de pé. Diz que foi uma honra especial receber o prêmio da mão de Day-Lewis. Generosa, ela cita todas as demais candidatas. Agora, mais que antes, admito que ela mereceu o prêmio – especialmente pela postura que ela teve e tem. E o mais bacana de tudo, ela citar no final a Companhia de Teatro de Sydney. Muito legal!

Caminhando mais firme desta vez, Jennifer Lawrence aparece no palco para apresentar os cinco indicados na categoria Melhor Ator. E o Oscar foi para… Matthew McConaughey, de Dallas Buyers Club. Uau! Que maravilha! Esse ator está na melhor fase da vida. Era o momento de ganhar a estatueta. Foi bem aplaudido e começou agradecendo os votantes da Academia. Em seguida, agradeceu o diretor de Dallas Buyers Club, Jared Leto e Jennifer Garner.

Ele disse que precisa de três coisas todos os dias. Agradeceu a Deus, que dá todas as oportunidades da vida dele, e que a gratidão é recíproca. Depois, falou da família, que é quem ele busca sempre, e citou especialmente a mãe e a esposa. E finalmente ele fala do herói dele, que ele busca sempre, e este herói é ele no futuro. Comentou que ele vai semrpe buscar este herói, ainda que ele nunca se torne um. Discurso interessante e corajoso. Sem ser McConaughey, acho que o Leonardo DiCaprio merecia o prêmio.

DF-02238.CR2Finalizando a noite, Will Smith relembrou os nove indicados deste ano como Melhor Filme. E o Oscar foi para… 12 Years a Slave. Dei o favorito. Sem zebras este ano. Muita celebração na plateia. Brad Pitt foi o primeiro a falar, como produtor do filme. Ele iniciou dizendo que foi um privilégio ter trabalhado no filme, e chamou Steve McQueen para discursar. O diretor agradeceu a Academia e seguiu uma lista de nomes, muitos que foram fundamentais para o filme ser concretizado. Ao agradecer a mãe, mostraram ela no fundo da sala – apesar de estar lá, ela teve a chance de ver o filme levando a estatueta e pulando muito no palco.

E assim se foi mais um Oscar. Neste ano, sem surpresas. Todos os favoritos levaram a sua estatueta. E algumas produções bem indicadas, como American Hustle e The Wolf of Wall Street, saíram de mãos vazias. Francamente? Gostei do resultado final. Claro que gostaria de ver The Wolf com algum Oscar, mas também não dá para dizer que foram feitas injustiças.

Grande vencedor da noite: Gravity com sete estatuetas. Tiveram destaque também 12 Years a Slave, com três estatuetas, e Dallas Buyers Club com três Oscar’s. Para quem não assistiu a premiação, a TNT reexibe a entrega do Oscar nesta segunda-feira, dia 3 de março, pouco depois das 11h. E agora é esperar pela premiação do próximo ano, com a garantia de que ele nos trará muitos filmes bons, a exemplo deste ano. Abraços e até lá!

ADENDO (04/03): Pessoal, para quem não leu o post com as apostas, quando foram divulgados todos os indicados deste ano no Oscar, facilito aqui o link. Mais que ver o que eu acertei ou errei – até porque, na época, faltava ver muitos filmes ainda, o que fui fazendo aos poucos -, acho interessante dar uma olhada por lá porque ali as críticas de todos os filmes que eu assisti até agora estão facilitadas com links nos respectivos nomes. Boa leitura!