Blade Runner 2049

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Um futuro bastante sombrio. Em todos os sentidos. Um mundo pós-catástrofe em que uma nova geração de replicantes é ainda mais obediente e facilmente “escravizada”. Grande parte da Humanidade não vive mais na Terra, e quem ficou para trás vive buscando manter o status quo e a separação entre humanos e não-humanos. Blade Runner 2049 avança na história do clássico original e faz um grande favor para todos nós, fãs de cinema: avança preservando a essência do original e agregando novas e interessantes informações. É um alívio e ao mesmo tempo um deleite ver uma “continuação” de um clássico que não nos decepciona. Pelo contrário. Baita filme. Gigante mesmo.

A HISTÓRIA: Começa com uma grande introdução. Nela, sabemos que após o colapso mundial de 2020, surgiu uma nova geração de replicantes. Estes novos modelos são muito mais “obedientes” que os anteriores. A corporação Wallace assume a frente da nova tecnologia e consegue, com os novos modelos, colocar fim na fome mundial, entre outras conquistas. Os modelos antigos de replicantes, agora, são caçados pelos novos que, a exemplo dos caçadores da geração anterior, também são chamados de Blade Runner’s. Corta. Um olho ocupa toda a tela. Em seguida, um veículo se desloca no céu sobre campos gigantes. Estamos na Califórnia em 1949. E começamos a assistir a mais uma caçada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Blade Runner 2049): Antes de mais nada, deixa eu dizer: que filme fantástico! Como é bom assistir à sequência de um grande filme que consegue, com toda a dificuldade que esta tarefa significa, manter o grande nível. Isso não é nada fácil, e a história do cinema está aí para nos comprovar. Normalmente um grande filme, quando ganha uma sequência, tem o seu legado jogado por terra. Para a nossa sorte, dos amantes do cinema, não é isso que acontece com Blade Runner.

Devo dizer que é difícil ir no cinema e assistir a Blade Runner 2049 e não ficar arrepiado e/ou emocionado. Não, eu não cheguei a chorar. Mas sim, por dentro, fiquei muito emocionada. Porque, ainda que faz um tempo que eu assistir ao Blade Runner de 1982, algumas das cenas marcantes daquele filme – e a essência da sua história – continuam bem vivas na minha memória. Então eu vi a este novo filme, brilhantemente conduzido por Denis Villeneuve, entendendo todos os paralelos e toda a homenagem que o diretor fez para o original. E, ainda assim, apesar de todas as referências que o diretor faz para a produção de Ridley Scott (outro gênio do cinema), Villeneuve também consegue deixar a sua marca.

Amigos e amigas, isso não é nada fácil. Tão difícil quanto manter o grande nível de um clássico é você homenageá-lo na medida certa e conseguir, também, deixar o seu próprio estilo na nova obra. E isso é o que esse grande diretor Villeneuve consegue com Blade Runner 2049. Bem, como vocês podem ver, realmente eu gostei muito do filme. hahahahahaha. Porque estou primeiro me derretendo em elogios e nas sensações que eu tive ao assistir a este filme antes de falar propriamente do que eu vi na telona de um cinema praticamente lotado.

Então, após rasgar bastante a seda para Blade Runner 2049, vamos falar sobre a produção. Afinal, é para isso que estamos, não é mesmo? 😉 Primeiro de tudo, achei brilhante a introdução e o cartão-de-visitas do filme. Logo percebemos toda a proposta visual do novo Blade Runner – proposta esta que foi fundamental na primeira produção e que é tão importante quanto nesta nova. O futuro que temos pela frente, exatamente 30 anos depois do que se passa no primeiro filme – que é ambientado em 2019 -, é um futuro pós-apocalíptico.

Ou seja, ainda que moderno, com muitas luzes e publicidades “invasivas” nas grandes cidades, este futuro é ainda mais sombrio e desolado que o que vimos anteriormente. E faz sentido, convenhamos. Qualquer história pós-apocalíptica costuma mostrar os lugares que sucumbiram na mesma medida em que apresenta parte de cidades “reconstruídas”/reordenadas. Então a parte visual de Blade Runner 2049, algo fundamental para a história, é apresentada com muita coerência e de forma muito, muito interessante.

O diretor Villeneuve, juntamente com o grande diretor de fotografia Roger Deakins, mostram toda a sua experiência neste grande desafio de apresentar um filme que busque ser tão marcante quanto o original de Ridley Scott. E, volto a dizer, para a nossa sorte, eles conseguem. O visual de Blade Runner 2049 é fantástico. Convence pelos detalhes e evita o exagero. O que vemos em cena é coerente com a história, com o tempo que passou e com os fatos que aconteceram nos 30 anos que separam uma narrativa da outra.

Mas, como vocês sabem, e eu repito isso um bocado por aqui no blog, tão importante quanto as qualidades técnicas de um filme – e, na verdade, mais importante que isso – é o roteiro da produção. Então vamos falar sobre a história de Blade Runner 2049. Os roteiristas Hampton Fancher e Michael Green, que trabalharam sobre uma história de Hampton Fancher, inspirado nos personagens de Philip K. Dick, foram “tradicionalistas”. Ou seja, eles não fugiram do óbvio – e, ainda assim, conseguiram nos apresentar uma produção bastante instigante e cheia de grandes momentos.

Por que eu digo que eles não fugiram do óbvio? Porque esta nova produção segue um bocado a fórmula do Blade Runner de 1982. Novamente nós temos um policial como protagonista. E a investigação que ele empreende é o que vai determinar o ritmo da história. Mas para filmes como este, agradecemos o caminho tradicional. Porque ele funciona muito, muito bem. Então, mais uma vez, nós temos um policial – desta vez o policial K interpretado por Ryan Gosling – que se depara com uma série de informações inesperadas quando ele vai cumprir mais uma missão normal.

Como o filme explica de forma sucinta naquela introdução que eu comentei acima, o policial K, que faz parte da nova geração de replicantes, tem como uma de suas missões “caçar” e eliminar/aposentar os modelos antigos de replicantes, os “revolucionários” (e por isso “falhos”) Nexus 8. O filme começa quando K vai executar uma destas missões. Ele encontra, em uma fazenda de proteínas, o “renegado” Sapper Morton (Dave Bautista), que sobreviveu à guerra travada em Calantha (um outro planeta em que replicantes guerreiam contra replicantes).

Sapper sabe que não vai sobreviver ao confronto com K, mas ele resiste o quanto pode. E, naquele momento, temos a primeira “pílula” de filosofia da produção – como bem manda o figurino de Blade Runner. Sapper comenta que K está matando os seus semelhantes porque ele acredita que só pode fazer aquilo. E ele só acredita no que lhe ordenam porque ele nunca viu a um milagre. Esta é uma ótima introdução. Porque, evidentemente, o que o filme nos propõe é a, justamente, nos falar deste milagre.

Blade Runner 2049, assim, nos apresenta logo de cara a sua essência. Ele é sim uma evolução do clássico Blade Runner. Uma continuação. Os fatos que vemos agora estão totalmente ligados – e são dependentes – do filme anterior. Então, meus caros, nem preciso dizer que é essencial você ter visto o primeiro filme para realmente entender o que se passa neste segundo filme, não é mesmo?

A impressão que eu tive no cinema, onde algumas pessoas saíram antes do fim do filme – seja de forma definitiva, seja volta e meia para comprar pipoca e afins – é que nem todos tiveram o cuidado de saber onde estavam “se metendo”. Ora, você não deveria ir no cinema sem ao menos saber que a produção que você vai assistir é uma continuidade de outra, não é verdade? Quanto desperdício de tempo e de entendimento… Certamente aquelas pessoas poderiam estar se deliciando com o filme tanto quanto eu – mas não. Enfim. Minha recomendação é que você realmente assistia a continuações depois de ter assistido à primeira (ou segunda, ou terceira, etc.) parte e que antecedem o que você está vendo.

Dito isso, voltemos para Blade Runner 2049. Algo que eu achei brilhante no filme é que Villeneuve não cede à ânsia da geração “filmes de HQ” e não acelera com a história. Muito pelo contrário. A exemplo do Blade Runner original, Villeneuve apresenta a sua nova história com um ritmo cadenciado e preciso, sem pressa e sem exageros. Tudo é apresentado com esmero, com cuidado, em uma narrativa que lembra mais os filmes europeus do que a profusão de efeitos especiais da era “Hollywood-HQs”. Francamente? Não poderia ser diferente.

Caso Villeneuve tivesse exagerado na dose dos efeitos especiais e apresentado uma narrativa acelerada, não teríamos algumas das melhores qualidades do Blade Runner original – e da sua “segunda parte”. Então o roteiro de Fancher e de Green e a condução segura de Villeneuve preservam o essencial do primeiro filme, que é focar em uma boa construção de um protagonista carismático e abrir frente para alguns questionamentos filosóficos. Verdade que o Blade Runner original era mais filosófico sobre a essência do que é ser humano e do que é “verdade”, sobre o que foi criado e o que foi gerado, mas neste novo filme temos novamente estas questões pela frente.

Então, a exemplo da produção de 1982, novamente é um policial – um Blade Runner – que nos conduz pela história. No original, Deckard (interpretado por Harrison Ford naquela primeira produção e agora) tem a missão de caçar um grupo de replicantes rebeldes e eliminá-los. Nesta sua busca, ele questiona a separação entre humanos e replicantes – que não são androides, como bem explica este vídeo do Sr. Elegante – e a própria sociedade em que esta divisão é baseada.

Pois bem, em Blade Runner 2049 várias questões similares são apresentadas. Para começar, um tema que me pareceu “gritar” no filme é o perigo de uma grande corporação como a Wallace dominar a sociedade. Assunto fundamental, eu diria, não apenas para o nosso tempo, mas para a possibilidade de futuro que temos. Hoje, cada vez mais grandes corporações se juntam/se compram e viram conglomerados gigantes que ameaçam “dominar o mundo”. E isso é algo muito presente em Blade Runner 2049.

A questão do papel de cada um – humanos e replicantes – também é novamente colocada em cena. Realmente uma civilização pode se sentir feliz e com a “consciência tranquila” sabendo que está novamente escravizando milhões de seres? Em Blade Runner 2049, a exemplo de Blade Runner, aparentemente está “tudo bem” porque os replicantes, no fim das contas, “não são humanos”. Então, como eles foram “criados” e não foram “gerados”, eles podem ser usados e descartados. Mas é isso mesmo?

Interessante que Blade Runner 2049, ao mesmo tempo que preserva a essência do clássico de 1982, também subverte uma questão importante da produção de Scott. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No Blade Ranner de 1982 – na versão final do diretor, atenção! -, descobrimos que Deckard é um replicante apenas no final. Até então, segundo a história, eramos levados a crer que ele era humano – e, por isso, estava “tranquilo” em caçar o que era diferente dele. No final, contudo, temos aquela reviravolta brilhante do roteiro de Hampton Fancher e de David Webb Peoples.

Pois bem, vejam que genial… em Blade Runner 2049 nós temos claro que o protagonista é um replicante desde o início. Não há dúvidas quanto a isso – percebam, ele acaba sendo o “inverso” do Deckard de Blade Runner, quando acreditamos que o protagonista é humano desde o princípio. Conforme Blade Runner 2049 se desenrola, contudo, tudo parece nos levar a crer que o replicante K não foi criado e sim gerado. Mas como ele é filho de dois replicantes – Deckard e Rachael (interpretada, no original, por Sean Young), o que ele ser gerado e não criado o torna?

Brilhante, não? Afinal, o que torna os replicantes diferentes dos humanos, na essência, é que eles são criados. Como aquele vídeo do Sr. Elegante bem nos lembra, os replicantes não são androides e não são clones. Ou seja, eles tem pele, carne, osso e órgãos como um humano. A diferença deles para nós é que eles são incapazes de sentir – ao menos era isso que acreditava e o que o Blade Runner de 1982 questiona – e que eles são criados e não gerados. Mas aí surge o Blade Runner 2049 com o seu “milagre”: um replicante que foi gerado.

Novamente, pois, temos o questionamento sobre uma civilização que é construída sobre a separação de duas espécies e sobre a supremacia de uma sobre a outra. Consequentemente, claro, temos o debate sobre a humanidade querendo fazer o papel de Deus. A partir do momento que avançamos tanto o nosso conhecimento científico ao ponto de podermos criar seres inteligentes e capazes até de sentir, o que fazemos com tudo isso? Viramos um Deus que escraviza e que subjuga ou um Deus que acolhe e que dá oportunidades para todos?

Os questionamentos do Blade Runner de 1982 seguem atuais e ganham novas perspectivas com o filme Blade Runner 2049. A escravidão é um dos fatos mais lamentáveis da história da humanidade. Mas esses filmes futuristas mostram que pouco aprendemos com o passado. Não importa se estamos falando de semelhantes ou de diferentes, já deveríamos ter aprendido que não podemos subjugar ninguém. Sobre estas questões, assim como o que nos faz humanos, é sobre o que os dois Blade Runner tratam.

A exemplo da produção de 1982, o novo filme também trata de uma investigação policial que, no fundo, é uma desculpa para uma jornada de autoconhecimento. O protagonista deste novo filme, muito bem interpretado por Ryan Gosling – que já é um dos grandes nomes de sua geração -, novamente acaba se descobrindo em um processo de saber quem ele é de verdade. E as respostas que ele alcança – incluindo aí uma bela reviravolta na história – são maravilhosas. Afinal, o que é uma lembrança de verdade? Afinal, o que é sentir de verdade? Todas estas questões filosóficas são levantadas pelo filme – e respondidas com esmero.

Todos nós somos “programados” a sentir e a pensar. Podemos ser “programados” a sentir ódio ou amor. Um replicante também, segundo os dois Blade Runner, pode ser programado a sentir estas e outras coisas – como nós, diga-se. Então o que nos diferenciaria, de verdade? Em Blade Runner 2049 uma pergunta fundamental que K faz é se as lembranças que ele tem de infância são reais ou foram criadas. E é assim que ela acaba conhecendo a Dra. Ana Stelline (Carla Juri) – a grande “surpresa” da produção.

Sim, a memória que ele tem da infância é real. (SPOILER – aviso aos navegantes… bem, você já sabe). Nós nos emocionamos quando algo é real. A Dra. Ana se emociona ao ver a memória de K, e ele afirma que sabe que aquilo é real. O que vamos descobrir depois é que aquela memória é real, mas não é dele. Mas na reta final da produção, K se questiona – e ele não precisa verbalizar isso – se era real o que ele sentia por Joi (Ana de Armas) e o que, afinal, é real para ele. Sim, o sentimento dele por Joi era real, assim como é real a neve que ele sente cair sobre o seu corpo no final.

Então, se os replicantes sentem/vivem da mesma forma com que os humanos, que direito esta segunda civilização tem de subjugar a primeira? Estas são questões levantadas pelos dois filmes e que continuam atuais, muito atuais. Também achei importantíssima a forma com que Blade Runner 2049 questiona uma sociedade em que uma grande corporação manda mais do que as autoridades – com bastante facilidade Luv (Sylvia Hoeks) mata quem estiver pela frente, seja humano, seja replicante. Daí nos perguntamos: em que tipo de sociedade com grandes corporações vigiando a quase tudo e todos nós mesmos estamos nos metendo?

Além de tudo isso, este filme sabe valorizar muito bem a construção da narrativa. Sabemos por onde a história vai e, mesmo assim, o roteiro nos reserva algumas surpresas interessantes. Também é importante que Blade Runner 2049 sabe valorizar muito bem o “grande encontro” tão esperado entre K e Deckard. Esse encontro demora para acontecer, e isso é positivo.

Quando finalmente chegamos no “face to face”, é quase impossível não se emocionar. É maravilhoso! Além disso, o filme sabe render muitas homenagens bacanas. Primeiramente, para o próprio Blade Runner de Scott. E, depois, para vários elementos da cultura humana que marcaram época e que são devidamente reverenciados neste filme – como Elvis e Frank Sinatra, entre outros.

Enfim, não importa sob que ótica olhemos para este filme. Se analisamos a sua história e a forma com que ela está ligada de forma umbilical com o Blade Runner de 1982; ou se analisamos a construção visual, a direção detalhista e dinâmica de Villeneuve; a construção dos personagens e da narrativa; o gostinho de “quero mais” e a expectativa que o filme deixa para uma continuação… enfim, qualquer aspecto do filme, tanto técnico quanto narrativo, funciona com perfeição.

Quando eu sai do cinema, fiquei pensando sobre que nota eu daria para a produção – depois de ficar um tanto “perplexa” e “maravilhada” com o que eu tinha visto. Pensei, pensei muito, e me questionei se não seria um “exagero” dar a nota máxima para Blade Runner 2049. Afinal, este filme é uma continuação de um dos grandes clássicos de todos os tempos. Mas daí refleti sobre tudo que eu comentei acima, de como este novo filme faz jus e homenageia de maneira perfeita o anterior… de como ele continua bem a história. Pensei em todas as qualidades citadas e conclui: sim, ele merece a nota abaixo. Com louvor. Dificilmente eu assisti a um filme mais de uma vez. Mas acho que vou colocar Blade Runner 2049 nesta seleta lista. 😉

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse é um filme que, facilmente, rende um texto gigantesco. Como vocês viram acima. 😉 E isso porque eu nem vou esgotar o assunto de Blade Runner 2049 aqui neste texto. Decidi apenas focar nos pontos principais – do contrário, realmente este texto ficaria gigante demais. E, sou franca, tenho me policiado um pouco nisso. Não quero me estender demais…

Esta semana a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou a lista de 92 países que estão concorrendo a uma vaga na disputa pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira da premiação que será entregue em 2018. Ou seja, já comecei a ir atrás destas produções para começar, logo mais, a sequência de críticas aqui no blog com vistas ao Oscar 2018. Mas aí que veio a surpresa de assistir a Blade Runner 2049… e, claro, é ainda cedo para fazer apostas para o próximo Oscar, mas eu desconfio que este filme será lembrado.

Sendo assim, meus caros, começo com este maravilhoso Blade Runner 2049 a seção “Oscar 2018” aqui do blog. 😉 Estamos muito longe ainda da premiação da Academia. Então não dá para saber quais são todos os favoritos e se Blade Runner 2049 terá fôlego de chegar com força até o Oscar. Mas, da minha parte, acho sim que seria uma grande falha da Academia se eles não indicassem este filme em algumas categorias. Para começar, pelas óbvias, técnicas. Acho que Blade Runner 2049 tem boas chances de concorrer como Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Design de Produção, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora, Melhor Diretor e, quem sabe, podendo concorrer até 10 produções, como Melhor Filme. Ou seja, não seria difícil o filme receber a partir de seis ou oito indicações – podendo superar este número.

Tudo vai depender do lobby que será feito para esta produção e sobre a capacidade de Blade Runner 2049 chegar com força no próximo Oscar. Poderiam rolar algumas indicações para elenco? Certamente. A conferir.

Bem, sobre as qualidades técnicas do filme, já dei uma prévia acima ao citar as categorias para as quais esta produção pode se credenciar no Oscar. Para começar, a direção de fotografia de Roger Deakins é algo espetacular. Ele faz um trabalho primoroso, assim como Denis Villeneuve ao valorizar cada elemento que ele tinha em cena. Assisti Blade Runner 2049 em um cinema 3D. Este recurso foi bem usado, ainda que ele apareça mais para ajudar na profundidade das cenas e de forma pontual em alguns detalhes – mas não é algo realmente exuberante. A parte bela fica realmente com a construção visual da produção. Ou seja, precisamos tirar o chapéu para Deakins e para o design de produção de Dennis Gassner. Brilhante o trabalho dos dois.

Desta parte técnica e visual do filme, vale ainda comentar o ótimo trabalho de David Doran, Bence Erdelyi, Lydia Fry, Paul Inglis, Tibor Lázár, Gergely Rieger, Stefan Speth e Zsolt Tarnok na direção de arte; o de Alessandra Querzola com a decoração de set; o de Renée April nos figurinos; o trabalho dos 109 profissionais do departamento de arte; os 38 profissionais envolvidos nos efeitos especiais; e o trabalho excepcional do impressionante número de 381 profissionais responsáveis pelos efeitos visuais da produção.

Um outro aspecto que eu achei maravilhoso no filme é a trilha sonora marcante de Benjamin Wallfisch e de Hans Zimmer. Francamente? Acho que ela também poderia ser indicada ao Oscar. Ainda que eu acho que, por ser mais “experimental” e quase cirúrgica, a trilha sonora de Blade Runner 2049 tenha uma certa “dificuldade” de cair no gosto da Academia ao ponto de ser indicada. Mas não seria surpreendente se o fosse.

Este filme é todo feito com esmero. Dá para perceber isso. Cada aspecto visual foi bem pensado e planejado, assim como cada elemento que compõe a produção – da trilha sonora até a escolha do elenco feita à dedo. Também é muito bacana ver que Hampton Fancher, responsável pelo ousado roteiro da primeira produção, voltou a assumir este papel de liderança neste novo filme. Importante.

Harrison Ford é Harrison Ford. Ele é um dos atores mais carismáticos e com uma trajetória das mais incríveis da história do cinema. Mas, guardadas as devidas proporções, Ryan Gosling consegue ser tão carismático quanto Ford ao protagonizar, como este grande ator, um Blade Runner. Villeneuve, claro, ajuda muito Gosling neste processo – assim como Scott ajudou, na sua época, Ford. Enfim, quem assistiu ao clássico não sofre muito com um novo protagonista. Muito pelo contrário. Gosling consegue com louvor despertar um real interesse pelo seu personagem.

Este filme tem alguns belos atores em seu elenco. Claro que a história orbita totalmente ao redor do personagem de Gosling. Ele é o protagonista e a pessoa que dita a narrativa. Mas outros atores também fazem um belo trabalho sempre que aparecem em cena. Neste sentido, claro, impossível não elogiar o excelente trabalho de Harrison Ford – que aparece menos do que gostaríamos, mas está maravilhoso. Tem uma presença maior e estão muito bem a ótima Robin Wright como a chefe de polícia Joshi; Ana de Armas encantadora como Joi, namorada virtual de K; Sylvia Hoeks como a vilã perfeita como Luv; Jared Leto enigmático como o mega empresário Niander Wallace; e Mackenzie Davis ótima como Mariette, uma garota de programa que se revela mais do que isso no final.

Além destes atores, que tem uma relevância maior na história, vale citar o trabalho dos coadjuvantes Dave Bautista como Sapper Morton; Lennie James (conhecido por The Walking Dead) como Mister Cotton, explorador de crianças no orfanato; Barkhad Abdi como Doc Badger, contrabandista que ajuda o protagonista a identificar a origem do cavalo de madeira; Tómas Lemarquis que recebe K e o ajuda no início da investigação sobre a “replicante que foi mãe”; Edward James Olmos novamente como Gaff; e Hiam Abbass como Freysa.

Honestamente, eu espero que surja uma sequência de Blade Runner 2049 logo. Afinal, esta nova produção terminou com um gostinho de quero mais e levantando uma lebre super interessante de ser explorada em um novo filme. Torço para que a dupla Fancher e Villeneuve voltem a trabalhar juntas… e logo. 😉

Por falar no Villeneuve. Este diretor canadense tem 16 produções no currículo, entre curtas e longas e, para mim, é um dos diretores mais interessantes do mercado atualmente. Eu não assisti a todos os filmes dele, mas gostei de tudo que eu vi até agora. Aqui no blog eu tenho comentados, de Villeneuve, os filmes Prisoners, Enemy e Arrival. Todos acima, bem acima da média. E agora ele nos entrega este brilhante Blade Runner 2049… realmente precisamos ficar de olho em Villeneuve e no que ele nos apresenta.

Vou aproveitar que acabo de falar do diretor para começar a minha lista de curiosidades sobre esta produção com um comentário de Villeneuve. Ele falou sobre a enorme pressão que ele estava sentindo para fazer Blade Runner 2049: “Eu sei que cada fã (do filme original) vai entrar no cinema com bastão de beisebol. Estou ciente disso, e respeito isso. Estou bem com isso porque isso é arte. E a arte é um risco, e eu tenho que correr riscos. Este será o maior risco da minha vida, mas eu estou bem com isso. Para mim, é muito emocionante… é tão inspirador! Estou muito inspirado. Sonho em fazer ficção científica desde os 10 anos de idade e eu disse ‘não’ para muitas sequências (de filmes). Mas eu não podia dizer ‘não’ para Blade Runner 2049. Eu amo demais o filme e então eu disse ‘Tudo bem, vou fazer este filme e dar tudo de mim ao fazê-lo”. Como não admirá-lo?

A primeira escolha de Villeneuve para o personagem de Wallace foi David Bowie. Mas o artista faleceu antes do início das filmagens. Realmente teria sido incrível Bowie como Wallace…

A cena que dá início para a produção, do confronto de K com Sapper Morton, é uma filmagem praticamente exata de uma sequência escrita e com storyboard feito para o Blade Runner original mas que nunca foi rodada.

Inicialmente, Villeneuve resistiu à ideia de fazer uma sequência para Blade Runner porque ele achou que poderia “estragar” a visão que as pessoas tinham do original. Mas quando ele leu o roteiro que, segundo Villeneuve e Harrison Ford, foi um dos melhores que eles já leram, o diretor resolveu embarcar no projeto. Antes mesmo do diretor aceitar o desafio, Harrison Ford já tinha se comprometido com o filme – assim como Ridley Scott, que é um dos produtores executivos da produção.

Existem três curtas planejados para “preencher” a lacuna temporal entre o primeiro Blade Runner e o segundo filme, Blade Runner 2049. O primeiro curta, comentado neste post, é Black Out 2022 – aliás, interessante ver aquele link porque ele traz uma cronologia importante dos fatos entre 2019 e 2049. O segundo curta, 2036: Nexus Dawn, e o terceiro, 2048: Nowhere to Run, completam a trilogia com fatos importantes da história. O primeiro dos curtas é dirigido por Shinichirô Watanabe, e o segundo e o terceiro, por Luke Scott.

O papel do novo Blade Runner, K, foi escrito tendo o ator Ryan Gosling em mente. E ele foi sempre a primeira e única opção do diretor Villeneuve.

Blade Runner teve várias versões. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Apenas na última lançada é que fica claro que Deckard é um replicante. Nas demais, a dúvida sobre ele ser humano ou um replicante fica no ar – e depende de cada espectador chegar a uma resposta. O diretor Denis Villeneuve disse que ele tentou deixar esta questão sobre Deckard no ar também no novo filme. “Eu amo o mistério. Adoro sombras. Adoro dúvidas. Gostaria apenas de dizer para os fãs que cuidamos deste mistério”, comentou o diretor.

Falando nas diferentes versões de Blade Runner, Villeneuve disse que ele sempre foi marcado pela primeira versão – aquela da qual Ridley Scott não gosta – e, depois, ficou impressionado também com o “Final Cut” (a versão final de Scott). Então ele desenvolveu o seu próprio filme se inspirando nestas duas versões de Blade Runner.

Para fazer o papel do cego Niander Wallace, o ator Jared Leto utilizou lentes de contato opacas que, de fato, faziam com que ele não enxergasse nada.

Agora, uma curiosidade pessoal sobre esta produção. Eu fui para o cinema crente que Blade Runner 2049 tinha poucos minutos além de duas horas. Vi mal a duração… e por mais que eu achei a produção um pouco longa, enquanto estava no cinema – não parei para ver a hora em momento algum -, eu não senti que o filme tem realmente as 2h43 que ele tem. Curioso, não? Sim, enquanto estamos assistindo a esta produção, achamos ela um pouco longa… mas, ela acaba passando mais rápida do que o tempo que ela realmente tem.

Faço uma pausa aqui para publicar esta crítica e depois volto para mais curiosidades sobre a produção… 😉

Voltando… 😉 Olhem que curioso… Joi sugere para K, que pode estar descobrindo uma nova origem para si mesmo, o nome de Joe. Joe vem de Joseph. O personagem Josef K é o protagonista de um dos romances de Kafka, onde este protagonista é acusado de um crime. Mas nunca fica claro, exatamente, qual seria este crime que ele teria cometido. Essa pode ser uma metáfora para a própria vida do K de Blade Runner 2049. Afinal, ele tem toda a sua existência questionada e não sabe muito bem como isso acontece.

A data escrita no cavalo, e uma peça importante da história, 6.10.21, marca quatro anos no futuro em relação à data de estreia de Blade Runner 2049 – que teve a estreia mundial em 6 do 10 de 2017. 😉

Ridley Scott pensou em, inicialmente, dirigir Blade Runner 2049. Mas como Alien: Covenant acabou ocupando grande tempo do diretor e simultaneamente, Scott resolveu atuar apenas como produtor executivo e consultor criativo do novo Blade Runner.

Falando sobre uma possível continuação deste filme, achei uma declaração interessante de Ridley Scott. Segundo o diretor do primeiro Blade Runner e produtor deste segundo filme, Harrison Ford vai retomar mais uma vez o personagem de Deckard. “Conversamos por um longo tempo sobre como poderia ser esta continuação, e surgiu uma história de três atos muito forte. Tudo faz sentido em como estas histórias se relacionam com a primeira”, comentou. Ou seja, provavelmente teremos ainda uma terceira parte – e Blade Runner seria, assim, uma trilogia. Estou na expectativa já. 😉

Blade Runner 2049 estreou no dia 4 de outubro no Festival de Cinema de Zurique e em dois países, a França e a Bélgica. No Brasil e em outros países ele estreou no dia 5 de outubro e, nos Estados Unidos, apenas no dia 6.

Esta produção foi rodada em diferentes locais da Hungria e teve algumas cenas rodadas na Espanha e na Islândia – estes dois últimos países foram utilizados apenas para cenas aéreas.

Um dos filmes mais aguardados do ano, Blade Runner 2049 também pode fazer uma bela trajetória de prêmios. Para começar a sua coleção, ele já abocanhou dois: Melhor Teaser no Golden Trailer Awards e “Most Anticipated of 2017” segundo o Indiewire Critic’s Poll.

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos, do Reino Unido e do Canadá.

Blade Runner 2049 recebeu a nota 8,6 dos usuários do site IMDb – uma nota excepcional para os padrões do site, devo dizer – e ganhou 212 críticas positivas e 27 negativas segundo os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes. Esse nível de aprovação acaba sendo de 89% no Rotten Tomatoes, com uma nota média de 8,2.

Não tenho dúvidas que Blade Runner 2049 será uma das maiores bilheterias do ano. Dá para sentirmos isso com o resultado do filme no seu final de semana de estreia: ele entrou em cartaz no dia 6 de outubro nos Estados Unidos e faturou, até o domingo, dia 8, US$ 31,52 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez outros US$ 50,2 milhões. Ou seja, em poucos dias, faturou US$ 81,7 milhões. O custo de Blade Runner foi de US$ 150 milhões. Ou seja, pelo andar da carruagem, facilmente ele vai obter um belo lucro. Sem contar que esta produção tem grandes chances de levar as pessoas para uma segunda vez no cinema – será o meu caso. Então a trajetória dele será de belo lucro por semanas.

CONCLUSÃO: Blade Runner, o original, marcou época, inspirou vários outros filmes e se tornou um dos grandes filmes do gênero. Como outras produções, pensar em um filme que seja a continuidade de algo tão bom sempre dá medo. Mas aí vem o diretor Denis Villeneuve, um dos grandes de sua geração, e nos apresenta algo coerente, interessante, marcante. Claro, não é revolucionário como o original. E, cá entre nós, para este gênero, acho improvável que algo revolucionário ainda surja. Mas um filme não precisa ser revolucionário para ser ótimo. E este é o caso de Blade Runner 2049. Agora, para você saber exatamente tudo que este filme agrega, importante ter visto o primeiro Blade Runner. Esta continuação está à altura do original, mas com alguns elementos que fazem os fãs delirarem. Um grande deleite. Marcante e, para mim, inesquecível.

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The Martian – Perdido em Marte

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Dificuldades e desafios sempre vão aparecer pela frente. Algumas vezes eles são tão grandes e decisivos que ameaçam a nossa vida. Nestes momentos, alguns indivíduos parecem crescer e se tornam maiores. Conseguem superar a dificuldade ou o desafio para sobreviver. The Martian é uma ficção, mas ela nos conta uma destas histórias inspiradoras que trata do espírito da superação e da busca pela sobrevivência a qualquer preço.

A HISTÓRIA: Imagens do planeta vermelho. Uma terra ainda inóspita e desabitada. A parte denominada Acidalia Planitia foi utilizada pela missão Ares III da Nasa como local de pouso. Começamos a acompanhar o dia da missão relacionada ao sol 18. Um dos astronautas, Mark Watney (Matt Damon), comenta com a equipe que o solo está mais fino na seção 29, o que deve facilitar as futuras análises.

Ele está recolhendo diversas amostras do solo de Marte. Outro astronauta, Rick Martinez (Michael Peña), tira sarro da descoberta e Watney pergunta o que de importante ele irá fazer no dia, talvez verificar se a VAM (veículo utilizado pela tripulação) segue no mesmo local. Em breve, uma tempestade fará o grupo de astronautas sair de Marte, exceto por um deles que sofre um acidente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Martian): Os leitores que me acompanham aqui no blog há mais tempo sabem que eu tenho algumas manias. Uma delas é não assistir ao trailer dos filmes antes de assisti-los. Outra é de evitar o máximo possível ler qualquer coisa a respeito deles antes de conferir a produção. Segui estas regras mais uma vez ao ver The Martian.

Sendo assim, a minha primeira surpresa foi me deparar, logo nos minutos iniciais, com um elenco tão bom e que parece ter sido reunido à dedo para The Martian. Ainda que grande parte do filme seja focado no solitário personagem de Matt Damon, o elenco de apoio é um verdadeiro deleite. Sem contar que o próprio Matt Damon está muito bem em seu papel – talvez um dos melhores de sua carreira até agora.

A segunda surpresa ao assistir ao filme foi a qualidade das imagens da produção. O diretor Ridley Scott reuniu uma equipe de primeira linha para conseguir fazer um filme impecável de ficção científica com o que há de melhor atualmente em tecnologia para o cinema. E tudo isso a serviço de uma grande história. Drew Goddard faz um belo trabalho no roteiro desta produção – texto baseado no livro homônimo de Andy Weir.

Vencedor da categoria Melhor Filme – Musical ou Comédia no Golden Globes deste ano, The Martian também me surpreendeu por não ser um filme de comédia. Claro que há humor na produção, mas esse humor é inteligente, não é forçado e nem é o ponto forte do filme. Há bastante ação, aventura e drama além da evidente ficção científica. Definitivamente não acho que The Martian pode ser considerado uma comédia pura e simplesmente.

Feitas estas observações, quero dizer que The Martian foi uma grande surpresa. Tanto pela excelência técnica da produção quanto e principalmente pela qualidade do roteiro e da equipe envolvida no projeto. Gostei demais do texto de Goddard. E a direção de Ridley Scott é impecável em cada detalhe. Não teve nenhum momento em que o filme me deu sono ou “preguiça” de assisti-lo. Pelo contrário. Mesmo tendo duas horas e 24 minutos de duração, The Martian tem um bom ritmo e prende a atenção do espectador do primeiro até o último minuto.

Claro que há muitas cenas que são um pouco “forçadas”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, o protagonista ter sobrevido aos ferimentos causados por aquele pedaço de antena que ficou enfiado em seu corpo. Se o pedaço tivesse atravessado uma perna ou um braço dele, tudo bem. Teria resolvido o que ele fez – inclusive aqueles grampos. Mas a tal antena atravessou a barriga dele, atingindo, não há dúvida, algum órgão interno. Pelo local de entrada do objeto, provavelmente o intestino. Sério mesmo que ele não teria, sem uma operação, uma hemorragia interna e morreria disso em alguns dias?

Mas aí vale aquela regra de quando assistimos filmes de ação ou de ficção científica: não dá para exigir que tudo que vemos seja lógico. Se pedíssemos isso não existiram produções como Mission Impossible. Então vamos combinar de dar diversos descontos para alguns fatos que acontecem em The Martian – além do citado, acho que chama mais a atenção a viabilidade das “coberturas” com plástico que Watney faz para sobreviver na estação em que ele está vivendo em Marte e depois na cápsula que vai levá-lo para fora do planeta vermelho.

Se tivermos boa vontade e dermos descontos para estes “tropeços” da história, podemos nos centrar no que importa mesmo em The Martian. A grande mensagem do filme é a de não desistir nunca. Você foi preparado, é inteligente e tem diversos instrumentos para encontrar soluções para os seus problemas. Então você tenta, acerta e erra, e quando algo dá errado, volta a tentar. Watney encarna o espírito de todo cientista, especialmente aqueles envolvidos em missões espaciais. E este é um diferencial desta produção.

Como você eu já vi a diversos filmes de ficção científica. Mas nunca, antes de The Martian, assisti a um que tratasse tanto do espírito do astronauta. Como Watney deixa bem claro no final, eles sempre estão em situações extremas e em locais nada amigáveis ou propícios para a vida. Muitas vezes eles tem que lutar para sobreviver. Para isso, devem estar muito bem preparados. Sempre que encontram um problema, devem encontrar uma solução para ele. E, desta forma, tentar sobreviver sempre e completar as suas missões.

Os astronautas são a elite dos cientistas – ou parte dela, pelo menos. Não por acaso é tão difícil e competitiva a seleção de astronautas. Não lembro de ter visto a outro filme que tratasse tão bem do perfil deles e dos bastidores da Nasa. Afinal, lá pelas tantas, Watney consegue se comunicar e a trama se divide entre o que acontece em Marte e o que acontece na Terra. Esse é outro ponto interessante deste filme. Não ficamos assistindo a um homem solitário falando com a câmera (no fundo, o público que está assistindo ao filme) o tempo todo, ao estilo de Cast Away. Não.

O que vemos é uma dinâmica muito interessante entre o que acontece em Marte e na Terra e, em certo ponto, inclusive com uma terceira linha narrativa, a da nave com a equipe de astronautas comandada por Melissa Lewis (Jessica Chastain). Em cada realidade destas há problemas acontecendo e exigindo escolhas dos personagens envolvidos.

Em Marte, Watney dá um banho de como ter uma atitude adequada frente a uma situação complicada. Ele encara as situações com humor e com sabedoria, tentando aprender e se superar a cada momento. Na Terra, o diretor da Nasa Teddy Sanders (Jeff Daniels) lidera uma equipe diversificada e tem diversas questões que analisar, inclusive o orçamento e a política. Ao lado dele, destaque para o ético Mitch Henderson (Sean Bean) e para o supercompetente e preocupado com cada etapa dos planos envolvendo Watney, Vincent Kapoor (Chiwetel Ejiofor).

E, finalmente no espaço, na viagem de retorno para a Terra, os colegas de Watney estão no escuro por uma parte da viagem até que ficam sabendo que ele sobreviveu. Em certo momento eles devem decidir se voltam para buscá-lo ou não. Eles próprios tem os seus desafios e o risco de perder o que mais amam.

Envolvente e bem escrito, o roteiro deste filme surpreende e convence – descontados aqueles detalhes. O texto tem algumas tiradas muito boas, especialmente as referências nerds. Matt Damon, como eu disse antes, está ótimo, assim como o estrelado elenco de coadjuvantes. Todos estão muito bem e convencem. A produção também é impecável e cheia de detalhes nos três ambientes.

Ridley Scott dá uma aula de direção. Para diferentes momentos da produção ele utiliza distintas técnicas e elementos de filmagem. Todos se justificam e se explicam. Nas cenas no espaço, o filme não deixa nada a desejar para o elogiado Gravity. Aliás, impossível não lembrar da produção de Alfonso Cuarón que ganhou sete estatuetas do Oscar (e que foi comentada aqui). Pessoalmente, prefiro muito mais The Martian – gosto pessoal, evidentemente. Em termos de qualidade técnica e entrega de elenco, The Martian é tão bom quanto Gravity – ou superior.

Honestamente, gostaria de não dar uma nota tão efusiva quanto a abaixo para esta produção. Pensei muito, mas não vi nenhuma grande falha que pudesse ser apontada. Também levei em conta não apenas as qualidades desta produção, mas o efeito que ela teve em mim. Gostei e me surpreendi com a narrativa, assim como com os outros elementos. E quando eu não consigo achar um defeito em um filme e ele me toca por sua mensagem, dá nisso.

NOTA: 10 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Admito que The Martian não chamou a minha atenção antes dele ser indicado e ganhar em diversas categorias do Globo de Ouro e, principalmente, de ser indicado ao Oscar. Como vocês que me acompanham sabe, todos os anos me esforço para assistir ao máximo de filmes que concorrem ao Oscar. Primeiro porque eu respeito e admiro a premiação. Depois porque eu acho que ela nos ajuda a encontrar alguns filmes realmente bons. Qual a minha surpresa, ao ser “obrigada” a assistir The Martian – especialmente porque ele concorre a Melhor Filme -, que ele era tão bom. Merece estar nas listas dos críticos entre os melhores de 2015, sem dúvida.

Ridley Scott é um grande diretor. Um dos grandes de Hollywood. Mas ao mesmo tempo que ele foi capaz de nos apresentar grandes produções como American Gangster, Hannibal e Gladiator – para falar das mais recentes – e clássicos insuperáveis como Blade Runner e Alien, nos últimos anos tive um pouco de preguiça de assistir a produções dele que não foram nada bem na avaliação de crítica e público como Exodus: Gods and Kings, The Counselor ou Robin Hood. Sou franca em dizer que não assistir a nenhum destes. Scott estava me dando uma certa “preguiça” ultimamente. Mas parece que ele voltou à boa forma com The Martian. Que bom! Esperamos que ele siga nesta maré nas próximas produções.

Falando em voltar à boa forma, Matt Damon também está incrível nesta produção. Ele fará uma boa queda-de-braços com Leonardo DiCaprio no Oscar – ainda que, me parece, o protagonista de The Revenant leva uma boa vantagem na disputa. Mas não seria injusto premiar a Matt Damon. Veremos.

Sobre o elenco de The Martian, vale citar os outros nomes envolvidos no projeto e que são fundamentais para dar qualidade para a produção – eles se saem muito bem em seus papéis, sejam eles pequenos ou quase uma ponta: Kristen Wiig como Annie Montrose, relações públicas da Nasa; Kate Mara como a astronauta Beth Johanssen, especializada em sistemas e a “nerd” da turma; Sebastian Stan como o astronauta Chris Beck, responsável mais pela parte operacional da missão no espaço – ele que sai para fazer manutenções fora da nave, por exemplo; Aksel Hennie fecha o grupo de astronautas da missão de Watney como Alex Vogel; Benedict Wong como Bruce Ng, que lidera o grupo responsável por construir as naves e o módulo que vai levar alimentos para a sobrevivência de Watney; Mackenzie Davis como Mindy Park, a operadora que descobre que Watney está vivo; e Donald Glover como Rich Purnell, o super nerd que faz os cálculos e descobre que a nave que está indo para a Terra pode retornar para Marte e buscar Watney.

Aliás, agora eu vou me dar o direito de fazer um comentário bem nerd. Além de adorar filmes, eu tenho um fraco por séries de TV. Então foi um prazer rever nesta produção quatro atores que eu gostei muito de acompanhar em quatro séries distintas. Jeff Daniels, astro de The Newsroom – série infelizmente cancelada após a terceira temporada; Sean Bean, ator consagrado como o Ned Stark de Game of Thrones; Kate Mara, a Zoe Barnes de House of Cards; e o figuraça Donald Glover, da genial e cancelada Community. Também foi um prazer rever em cena tão bem a ótima Jessica Chastain e o ator Michael Peña.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, The Martian teve cenas na Jordânia, na Hungria e nos Estados Unidos. As cenas de Marte, claro, foram rodadas em Wadi Room, na Jordânia, que tem um deserto de cor vermelha. As cenas da Nasa foram feitas no Johnson Space Center, nos Estados Unidos, e as de interior na Hungria.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O livro que inspirou The Martian tem uma história interessante. Andy Weir publicou a história pela primeira vez, apenas para se divertir, em seu blog. Aos poucos as pessoas pediram para ele colocar a história de alguma forma para download. Até que ele colocou a história para download na Amazon Kindle ao custo de US$ 0,99.

Ridley Scott filmou as cenas individuais com Matt Damon durante cinco semanas seguidas, para que o ator ficasse mais livre após estas filmagens. Desta forma, Damon se encontrou com muitas pessoas do elenco apenas quando o filme foi promovido.

Agora, uma dúvida que eu tive e certamente você teve no final do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu à produção ainda). Matt Damon realmente emagreceu dezenas de quilos para aparecer tão magro na reta final de The Martian? O ator gostaria de ter feito isso, de ter emagrecido para aparecer inclusive nas cenas finais, mas Ridley Scott lhe proibiu. No lugar dele foi utilizado um dublê de corpo na sequência em que ele aparece nu de costas e bem magro.

No livro de Weir, Mark Watney tem dois mestrados, um em botânica e o outro em engenharia mecânica. No filme é citado apenas o PhD dele em botânica – ainda que fique claro, pelos fatos, que ele entende de engenharia, mas isso não fica claro no roteiro como está no livro.

Interessante que durante o filme, quando Watney pensa em plantar batatas, logo de cara eu pensei: “Certo, e a água para isso?”. Na sequência veio a resposta para a minha dúvida – bastante criativa, diga-se. Agora, algo interessante sobre a realidade superando a ficção. Quatro dias antes do filme ser lançado nos cinemas, a Nasa revelou que tinha encontrado provas de que ainda há água salgada em Marte. Ou seja, a questão da água seria ainda mais fácil para um possível Watney no planeta vermelho – bastaria dessalinizá-la para usar em um cultivo ou consumir bebendo.

A missão a Marte mostrada no filme emularia missões reais que a Nasa está planejando para o futuro.

Parece incrível, mas The Martian foi filmado em apenas 72 dias.

Um dia ou “sol” em Marte é cerca de 37 minutos mais longo do que um dia na Terra. O ciclo sono-vigília do ser humano é de 24 horas e 11 minutos, mas experimentados tem mostrado que ciclos que variam entre 23 horas e 30 minutos e 24 horas e 36 minutos não causam problemas de adaptação para as pessoas, por isso um ser humano não teria grandes problemas para se adaptar no “tempo” de Marte.

O abrigo-barraca em que Watney passa a maior parte do tempo é chamado “hab” (abreviação para Mars Lander Habitat). A Nasa já tem protótipos de habs completos para Marte, com oxigenadores, recuperadores de água e sistemas de portas que protegem os astronautas da atmosfera quase sem ar e com frequentes bombardeios de radiação de Marte.

A paisagem e o ambiente de Marte que vemos no filme foram feitos com a combinação de cenas reais do deserto e computação gráfica.

As cenas exteriores em Marte foram rodadas no Korda Studios em Budapeste, na Hungria. Considerado o maior estúdio do mundo, lá o desenhista de produção Arthur Max pode instalar uma tela verde gigantesca, que ocupou quatro paredes. “Era o espaço suficiente para fazer uma paisagem marciana grande”, comentou Max.

De acordo com as notas de produção do filme, há algumas diferenças entre o livro e a produção de Ridley Scott. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Watney teria passado por bem mais dificuldades do que as que vemos no filme, por exemplo, e quem acaba resgatando ele no espaço foi Beck e não Lewis como aparece no filme. No livro também não há aquela sequência final de Watney como professor na Nasa – a obra termina com ele sendo resgatado e eles voltando para a Terra.

The Martian estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois o filme participaria, ainda, dos festivais de Nova York e Bergen. Até o momento o filme recebeu 18 prêmios e foi indicado a outros 124. Entre os que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Filme – Musical ou Comédia e Melhor Ator – Musical ou Comédia para Matt Damon no Globo de Ouro; cinco prêmios como Melhor Roteiro Adaptado; por ter aparecido em quatro listas como um dos melhores filmes de 2015; e, finalmente, pelos prêmios de Melhor Diretor para Ridley Scott, Melhor Ator para Matt Damon e Melhor Roteiro Adaptado pelo National Board of Review.

Antes falei do elenco, mas é preciso falar da parte técnica do filme – uma parte fundamental da produção. Além do ótimo roteiro de Drew Goddard, se destacam em The Martian a direção de fotografia de Dariusz Wolski; o design de produção de Arthur Max; a trilha sonora de Harry Gregson-Williams; a direção de arte com nove profissionais; a decoração de set de Celia Bobak e Zoltán Horváth; os figurinos de Janty Yates; o departamento de arte com 93 profissionais; o departamento de som com 29 profissionais; os efeitos visuais que contaram com uma equipe de 30 pessoas; e os efeitos visuais com uma equipe interminável – parei de contar em 300. Nunca vi uma equipe tão grande de efeitos visuais envolvida em um filme. Realmente impressionante.

The Martian teria custado US$ 108 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 227 milhões. No restante do mundo, nos mercados em que a produção já estreou, ele fez pouco mais de US$ 370,5 milhões. Ou seja, até agora, faturou cerca de US$ 597,6 milhões. Nada mal. Um belo lucro, apesar do custo bastante alto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção – uma bela avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 262 textos positivos e 20 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,9. A avaliação dos críticos, para mim, poderia ter sido melhor – especialmente a nota. Mas gostos são gostos, não é mesmo?

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos com o Reino Unido.

CONCLUSÃO: Um dos melhores filmes de ficção científica que eu já assisti. Verdade que The Martian tem diversos episódios difíceis de acreditar. Mas é como em filmes de ação. Quem pode exigir que tudo seja verossímil? The Martian tem um grande roteiro, é bem contado e tem um ator esforçado em cena. Há humor inteligente, ação e um certo suspense em cena, além de ótimas sequências de pura ficção científica.

Ainda que seja um filme sobre exploração espacial, ele é, principalmente, uma produção sobre a força do espírito humano e o amor pela ciência. Há nesta produção mais testemunhos sobre o que faz homens e mulheres passarem meses ou anos longe de casa e em situações inóspitas e arriscadas do que em qualquer outro filme. Para mim, foi surpreendente o que The Martian me passou. Uma das surpresas desta reta final para o Oscar.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: The Martian é o terceiro filme com o maior número de indicações no prêmio anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele só está atrás de The Revenant (com crítica aqui), indicado em 12 categorias, e de Mad Max: Fury Road (com comentário neste link), indicado em 10.

A produção dirigida por Ridley Scott concorre a Melhor Filme, Melhor Ator (Matt Damon), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Design de Produção, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som e Melhores Efeitos Visuais. Vejamos cada categoria destas. Em Melhor Edição de Som há grandes concorrentes. Vejo que Mad Max: Fury Road e Star Wars: The Force Awakens estão liderando nesta categoria. Ainda que The Martian tenha um grande trabalho aqui. Ainda assim, acho que ele concorre por fora.

Em Melhor Mixagem de Som novamente grandes concorrentes para esta produção. Além de Mad Max: Fury Road e Star Wars: The Force Awakens está na parada Bridge of Spies (com crítica aqui). Ou seja, nesta duas categorias The Martian concorre por fora. Não seria injusto ele ganhar, mas ele teria que derrotar os favoritos. Em Melhor Ator, sem dúvida, Matt Damon tem como grande rival Leonardo DiCaprio – para mim, o favorito. Mas, como sabemos, DiCaprio já mereceu um Oscar antes, mas até agora a Academia o esnobou. Veremos se neste ano ele leva a melhor. De qualquer forma, novamente, não seria injusto Damon levar a estatueta. E falando em esnobada… desta vez quem a Academia esqueceu foi Ridley Scott, que acabou não sendo indicado a Melhor Diretor.

Na categoria Melhor Design de Produção The Martian tem dois grandes rivais: Mad Max: Fury Road e The Revenant. Parada dura. Ainda acho que Mad Max: Fury Road leva vantagem aqui também. Em Melhores Efeitos Visuais, talvez aquela equipe gigantesca que eu cite antes façam The Martian levar a estatueta. Para isso, ele terá que vencer os fortes Mad Max: Fury Road, Star Wars: The Force Awakens e The Revenant. Outra disputa entre gigantes.

Como Melhor Roteiro Adaptado o filme tem alguma chance. De fato o roteiro é um dos pontos fortes de The Martian. Mas o mesmo pode ser dito de Room (comentado neste link) e Carol (com crítica aqui). Francamente, fico em dúvida entre eles, mas acho que meu voto iria para Room. Nesta categoria tudo pode acontecer, há chances para os três – vejo menos possibilidade para The Big Short (com crítica neste link). Brooklyn ainda preciso assistir.

E, finalmente, Melhor Filme. Acho que The Revenant e Spotlight estão na frente de The Martian na disputa. Ainda que não seria injusto o filme levar o caneco. A safra está boa neste ano – talvez a produção mais “fraca” na disputa seja Bridge of Spies. Todos os outros, de fato, são muito bem acabados – ainda que Mad Max: Fury Road não tenha “feito a minha cabeça”, ele é muito bem acabado. Será um Oscar interessante de ser assistido.

ADENDO (18/01): Pensei melhor e achei que dar um 10 para o filme seria um pouco de exagero. Por isso reduzi a nota um bocadinho. 😉 De qualquer forma, é uma bela produção. Uma das melhores sobre exploração do espaço que eu já assisti.