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Little Men – Melhores Amigos

A diferença marcante entre a vida de quando somos crianças e aquela que temos que assumir na fase adulta. Little Men fala de meninos e de homens, mas poderia, perfeitamente, estar falando de meninas e de mulheres. Claro que há diferenças entre os “papéis” que a sociedade ainda espera que cada um de nós desempenhemos – homens e mulheres -, mas, no geral, as questões apontadas por este filme valem para ambos. Quando a responsabilidade e a noção de sobrevivência entram em jogo, muito do que a gente defendia quando criança pode desaparecer de cena. Infelizmente.

A HISTÓRIA: Em uma sala de aula em que todos estão brincando e jogando papéis, Jake Jardine (Theo Taplitz) é um dos poucos que está sentado e comportado. Ele está fazendo algo que ama: desenhar. Logo aparece em cena o professor Mr. Plummer (John Procaccino) da turma, que perde ordem e que critica o desenho de Jake. Ao sair do colégio, Jake é recepcionado pela empregada da família, Pilar (Ching Valdes-Aran), que recebe um abraço do garoto. Eles vão para casa, e é lá que Jake atende a um telefonema estranho, de alguém que diz ser amigo do avô do garoto. Com esta ligação Jake fica sabendo que o avô morreu, e este fato vai mudar bastante a vida dele e da família.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Little Men): Este é um filme singelo e muito interessante. Justamente por não ter um excesso de texto e por não ter nenhuma grande “surpresa”, Little Men dá o espaço necessário para o espectador refletir sobre o que está assistindo e, talvez, sobre a própria vida enquanto acompanha a história apresentada pelo diretor Ira Sachs – o roteiro é dele e de Mauricio Zacharias.

Certamente muita gente vai se sentir representada nesta produção. Afinal, Little Men trata sobre a “estranheza” da adolescência/pré-adolescência, quando não faltam críticas para os jovens que estão em fase de crescimento e de autodescoberta. De forma inteligente esta produção nos apresenta um garoto mais “deslocado” das pessoas de sua idade e outro que, aparentemente, é mais popular.

E os dois acabam se aproximando e se tornando os “melhores amigos” que vemos no título para o mercado brasileiro – título bem ruim, diga-se, porque este filme trata de um tema muito mais amplo e complexo do que a amizade entre os dois garotos. Aos poucos vamos percebendo que esta é uma produção que discorre sobre como a vida vai cobrando um preço das pessoas conforme ela avança.

A exemplo do filho, Brian Jardine (Greg Kinnear) também era um garoto um tanto “isolado” quando jovem. Conforme a história vai se desenvolvendo e a tensão entre a família Jardine e a inquilina do avô de Jake, a empreendedora Leonor Calvelli (Paulina García) vai aumentando, a amiga do pai de Brian faz questão de ir soltando para ele pequenos dardos de veneno sobre como o pai do ator desaprovava as escolhas do filho.

Desta forma, muito sutil, Ira Sachs vai tratando temas que são bastante comuns nas nossas sociedades modernas. Entre outras questões, ele trata sobre os conflitos familiares, sobre as cobranças sociais dos “papéis” que homem e mulher devem desenvolver dentro de uma casa, sobre amadurecer e deixar crenças e amizades no passado. Porque não gostamos muito de pensar nisso, mas a verdade é que a vida nos faz perder várias pessoas de quem gostávamos muito pelo caminho.

Little Men também tem uma constatação que vamos demorar muito para perceber na nossa vida prática: amizades e boas relações terminam quando o dinheiro (ou a falta dele) entra em cena. E isso não quer dizer que as pessoas são mesquinhas ou “movidas à dinheiro”. Como Little Men bem apresenta, muitas vezes tudo se resume apenas à necessidade e a mais pura sobrevivência. Verdade que às vezes temos outros caminhos, possivelmente mais duros, para escolher. Mas algumas vezes eles não existem.

Especificamente sobre a história contada nesta produção, acho que existe uma reflexão interessante a ser feita sobre um personagem ausente e ao mesmo tempo bem presente na história, o avô de Jake. Ele tinha batalhado muito na vida – pelo que os filhos dele comentam – e tinha, após ter adquirido uma propriedade, a liberdade de cobrar um aluguel muito mais baixo do que o mercado praticava para uma querida amiga – Leonor. Quando ele morre, contudo, a vontade dele é deixada de lado pelo “pragmatismo” de seus filhos, Brian e Audrey (Talia Balsam).

Como Brian mesmo explica para Leonor, tanto ele quanto Audrey tem as suas próprias famílias para sustentar e/ou zelar. O pai dele vivia uma outra condição, mais confortável, digamos assim. Mas aí reside uma questão que acho interessante nesta produção – e na vida real. Não podemos julgar Brian e Audrey, afinal, o argumento deles é válido. Mas será que eles não poderiam também procurar a independência que o pai deles tinha sem levar em conta na equação a herança que ele deixou?

Em outras palavras, se eles encarassem a vida deles como independente do que o pai poderia deixar ou não, eles teriam que se virar sem ter que penalizar Leonor e abrir mão do último desejo do amigo dela. Como o dinheiro acabou falando mais alto, Brian e Audrey abriram mão do último desejo do pai deles e, de quebra, abalaram definitivamente a amizade que Jake tinha com Antônio/Tony (Michael Barbieri).

Desta forma, Little Men reflete sobre os nossos tempos, quando o mais “normal” é “cada um por si”. Não existe mais o apreço pela generosidade e pela preservação de alguns valores importantes, como a palavra que foi dada e/ou a vontade de alguém que morreu. Ora, se o desejo do pai de Brian e Audrey era que a amiga dele, Leonor, ficasse na loja pagando menos que o mercado, mas o quanto ela podia, isso deveria valer algo, ou não? Não julgo Brian e Audrey, mas eles tem filhos e famílias por escolha própria, ninguém lhes obrigou a isso. Então eles não deveriam ser capazes de pagarem as suas próprias contas?

Faço estes comentários porque acho que às vezes buscamos a saída mais “fácil” para os nossos problemas. No caso de Brian e Audrey, claro que o mais fácil era despejar Leonor e cobrar três a quatro vezes mais de aluguel do próximo inquilino. Com isso, cada um teria um dinheiro extra no final do mês. Claro que também Leonor deveria se adequar ao mercado e, se não pode ficar no bairro em que estava, ir para um local mais adequado e/ou mudar a produção que ela tinha.

Tudo isso é verdade, mas sempre é possível se perguntar se não existiria uma saída melhor e mais humana para todos. A grande questão é que sempre temos escolhas na vida. Mas independente delas, Little Men explora muito bem o grande abismo que separa as nossas aspirações e a nossa rotina de quando somos jovens e ainda dependentes dos nossos pais e a realidade de quando temos que lidar com todas as contas e cobranças de uma vida adulta. A diferença é colossal, realmente, e o filme explora muito bem esta questão. A vida real é complicada, e ponto final.

Um filme que conta uma história graciosa, sobre família, amizade e a busca do desenvolvimento dos nossos talentos – esta última questão representada pela busca de Jake pelo desenho e de Tony pela atuação – e que, ainda por cima, nos faz pensar sobre os padrões da sociedade e as escolhas que fazemos, sem dúvida alguma, está bem acima da média. Destaco, em especial, a forma linear e de desenvolvimento “realista” da produção, com um roteiro bastante coerente e que atrai pela franqueza.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos destaques desta produção é o talento do elenco escolhido à dedo pelos realizadores. Todos estão muito bem, mas gostei, em especial, do trabalho dos jovens Theo Taplitz e Michael Barbieri. Os dois fazem um trabalho maravilhoso, bastante coerente com os seus respectivos personagens, e de bastante profundidade. Eles brilham na produção. Pouco a pouco, outros atores também vão ganhando destaque, como Greg Kinnear, Paulina García e Jennifer Ehle (que interpreta Kathy, mãe de Jake). Todos estão muito bem.

O diretor Ira Sachs trabalha muito bem ao valorizar a interpretação dos atores – as relações entre eles é parte fundamental desta produção – e ao buscar uma câmera que está presente, em muitos momentos, enquanto em outros ela está um tanto “ausente” (especialmente nas sequências que envolvem mais adolescentes, como nas escolas dos dois protagonistas). Nestes momentos de “câmera mais ausente” o diretor tenta capturar as interações verdadeiras entre os jovens, o que ajuda no tom “realista” da produção.

A personagem de Leonor é especialmente interessante. Ela sabe jogar muito bem com as pessoas em cena. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com inteligência, ela sabe tratar especialmente com Brian, tentando pegar nos “pontos fracos” do ator que não era respeitado pelo próprio pai. Há uma cena, em especial, intrigante nesta produção. Quando ela mostra diversas fotos dela com o pai de Brian. Nós não vemos as imagens, algo feito de forma proposital por Ira Sachs. Assim, fica apenas sugerido um possível “caso” e/ou romance entre Leonor e o pai de Brian. Da minha parte, acho sim que havia algo além de uma “bela amizade” entre os dois. O que torna o despejo dela ainda mais delicado.

Além dos atores já citados, vale comentar a super ponta de Alfred Molina como Hernan, amigo de Leonor e advogado dela; e Mauricio Bustamante dando um show como o professor de interpretação da classe de Tony e Jake. Da parte técnica do filme, destaque para a direção de fotografia de Óscar Durán; para a edição de Mollie Goldstein e Affonso Gonçalves; para o design de produção de Alexandra Schaller; para a direção de arte de Ramsey Scott; para a decoração de set detalhista de Emily Deason; para os figurinos coerentes de Eden Miller; e para a trilha sonora pontual de Dickon Hinchliffe.

O diretor americano Ira Sachs, que tem 52 anos e é natural da cidade de Menphis, tem 10 títulos no currículo como diretor antes de Little Men. Ele estreou em 1992 com Vaudeville, fez dois curtas (sendo um deles de documentário) e um segmento do filme Underground Zero antes de rodar Little Men. Nesta trajetória ele acumulou sete prêmios e foi indicado a outros 22. Parece um diretor humanista, que trata de temas de relevância tanto para as esferas social quanto pessoal. Não assisti a mais nenhum filme dele além deste que comentei acima.

Little Men teria custado US$ 2 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 702,5 mil. Ou seja, é um filme independente, com orçamento enxuto e com bilheteria magra até o momento. Tem agradado ao público e, especialmente, à crítica, mas ainda sem efeito positivo nas bilheterias. Realmente é uma produção mais de “nicho”.

Este filme foi totalmente rodado em Nova York, em locais como o Sunset Park, a Graham Avenue, o Bay Ridge e o Brooklyn Museum.

Agora, aquelas curiosidades tradicionais sobre cada filme. O ator Michael Barbieri foi aceito na Escola Superior de Música e Arte Fiorello H. LaGuardia depois que as filmagens de Little Men terminaram.

O jovem ator Theo Taplitz participa de curtas desde que estudava na quarta série. Ele recebeu destaque em diversos festivais de cinema que destacam o trabalho de jovens nos Estados Unidos desde então.

Mauricio Bustamante foi o professor de teatro de Michael Barbieri no tradicionalíssimo Lee Strasberg Theatre and Film Institute.

Little Men recebeu um prêmio e foi indicado a outros treze. O único prêmio que recebeu, até o momento, foi o Grande Prêmio Especial para Ira Sachs no Festival de Cinema de Deauville.

Esta é uma coprodução da Grécia, do Brasil e dos Estados Unidos. O capital brasileiro entrou na jogada por causa do roteirista brasileiro Mauricio Zacharias e dos produtores executivos Lourenço Sant’Anna e Rodrigo Teixeira. A lista de produtores, aliás, é bastante grande. Como estão no pacote Brasil e Estados Unidos, este filme entra na lista daqueles que atende a votações feitas aqui no blog há algum tempo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 119 críticas positivas e apenas três negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média 8. Especialmente a ótima avaliação da crítica chama a atenção. Bacana.

CONCLUSÃO: No cômputo geral, Little Men é um filme simples. Ele conta a história sobre a amizade marcante entre dois garotos e como esta amizade é ameaçada pelo conflito de adultos. Apesar desta ser a premissa básica da produção, ela ganha o espectador ao nos fazer refletir sobre questões mais profundas, como nossos valores e sonhos e como vamos mudando eles (ou os perdendo) pelo meio de muitos caminhos. A vida de adulto é muito mais complicada do que gostaríamos, e para muitos isso cobra diversos preços. Este é um filme singelo e interessante sobre o assunto. Recomendo.

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An Education – Educação

O velho dilema sobre o verdadeiro banco de apredizado ser o de uma escola ou o da própria vida embala o delicioso e inspirado An Education. Mesmo com um grupo de atores talentoso e que trabalha bem, seja em conjunto ou individualmente, este filme da dinamarquesa Lone Scherfig tem uma grande estrela: Carey Mulligan. Não é difícil perceber porque a atriz vem ganhando prêmios como a melhor intérprete de 2009 – e nem complicado perceber porque ela é um dos nomes mais fortes na disputa pelo Globo de Ouro e pelo Oscar. Carey Mulligan é o nome do filme. A atriz incorpora toda a leveza, vontade de viver e complexidade de uma adolescente londrina no início dos anos 1960. E nos ensina que a vida pode ser terrível ou maravilhosa – a escolha sobre isto depende apenas da nossa vontade de dar certo.

A HISTÓRIA: Em uma tradicional escola e família londrina de 1961, Jenny (Carey Mulligan) aprende tudo que é preciso para se tornar uma moça respeitável. Na sala de aula, a garota é a mais aplicada e a mais interessada nos ensinamentos da professora de literatura e língua inglesa Miss Stubbs (Olivia Williams). Em casa, ela tenta convencer o pai, Jack (Alfred Molina) sobre a importância de equilibrar seu interesse pelos estudos e pela música. Mas Jack quer que a filha se aplique totalmente aos estudos para que, logo mais, ela consiga entrar na tão sonhada faculdade de Oxford. Depois de um ensaio na orquestra juvenil, Jenny espera em um ponto de ônibus, com seu violoncelo, até que a chuva torrencial diminua. Nesta ocasião passa por ali David (Peter Sarsgaard), um charmoso homem mais velho que oferece uma carona para a estudante. Jenny ganha com David um atalho para a vida adulta que tanto deseja – e deve, logo mais, decidir sobre que tipo de educação ela quer continuar recebendo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a An Education): Um filme acima da média se percebe nos detalhes. An Education, por exemplo, começa a mostrar a sua qualidade logo nos créditos de abertura. Eles são apresentados de maneira criativa, divertida, com uma trilha sonora deliciosa – que, aliás, permanecerá assim até o final da produção – e com um esquema “artístico” de desenhos que lembram o universo da história: o da escola. Primeiro grande acerto dos produtores e da diretora. Mas é preciso lembrar que estes são apenas os créditos iniciais. Junto com os desenhos, começam a surgir cenas do cotidiano da protagonista, Jenny. E, logo mais, para o deleite de quem gosta de uma grande atriz, ela mesma, Carey Mulligan.

A educação rigorosa e formal inglesa aparece em cenas divertidas, como as que mostram as alunas aprendendo a ter postura e charme no caminhar (treinando com um livro sobre a cabeça), perfeição nos passos de dança e conhecimento da boa cozinha. Afinal, o que mais uma garota poderia querer na Londres do início dos anos 1960? Charme, postura, saber dançar e cozinhar, assim como ter um comportamento discreto e com recato em público. Só que no meio de dezenas de alunas “normais”, despontava Jenny, uma garota acima da média em literatura e língua inglesa e que tinha pressa por conhecer o mundo. Fascinada pela cultura francesa e a “liberdade” simbolizada por Paris, Jenny pensava na universidade como uma forma de trampolim para que ela conseguisse a sua tão desejada autonomia. Até que ela encontrou um atalho chamado David.

O encontro dos dois marca a espinha dorsal do filme. Afinal, quando Jenny finalmente começa a vivenciar os prazeres de quem tem uma certa quantidade de dinheiro no bolso e vive na Europa, é que o espectador começa a se perguntar, junto com ela, onde está realmente a base da educação. Em uma sala de aula, aprendendo parte dos conhecimentos científicos e culturais de uma sociedade até determinado momento, ou aprendendo com os prazeres e desilusões da vida mesma?

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Também é no encontro de Jenny com David que a garota vai ao céu e ao inferno rapidamente. Da promessa de amor eterno, apaixonado e de um casamento ela passa rapidamente para a desilusão de ter sido usada, de ter integrado o aparentemente diversificado grupo de jovens enganadas pelo homem casado e pai de família mentiroso. Algumas pessoas, em seu lugar, talvez tivessem sucumbido, aceitado o “destino” de casar com o primeiro pretendente que aparecesse e aceitado a sina de ser infeliz. Afinal, aparentemente, Jenny não teria mais a oportunidade de terminar seus estudos e seguir para Oxford. Mas daí vem o grande ensinamento desta jovem inglesa. Ao invés de encarar a sua experiência como algo ruim, como a lição de uma garota que não soube se manter “pura” e que agora deve aceitar o fato de que a vida é horrível, Jenny preferiu aprender com tudo que viveu e seguir adiante – acreditando que a vida é maravilhosa.

Esses ensinamentos de Jenny e a forma com que ela vai descobrindo os prazeres dos dois tipos de educação – a forma e a da vida – surgem de maneira muito natural neste filme. Eis um dos grandes acertos do roteiro do sempre ótimo Nick Hornby: a suavidade com que ele narra as mais diferentes histórias. Inspirado nas memórias da jornalista inglesa Lynn Barber, Hornby produziu um texto divertido, realista e ao mesmo tempo charmoso. A história de Jenny, suas amigas, familiares e a de David poderia perfeitamente ser contada no século 21. Ainda existe a “briga”, especialmente entre os jovens, para entender que educação é mais válida. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Também continua sendo atual o envolvimento de homens casados com garotas “inocentes” que, na busca pelos prazeres da “vida adulta”, se jogam em aventuras sob a conivência de pais “interesseiros” (ou inocentes/ignorantes mesmo). Mas então por que é tão interessante ambientar esta história na Londres de 1961?

Primeiro, pelo estilo de vida que as pessoas tinham naquele momento. Seria simplesmente impossível, se An Education fosse ambientado nos nossos dias, visualizar cenas tão encantadoras como a do cotidiano de Jenny na escola, suas idas a clubes noturnos ao lado de David e, principalmente, a magia de uma viagem para Paris como a que eles compartilharam. Por mais que a capital francesa continue charmosa, detalhes como a roupa dos personagens, a câmera de fotografia e a vitrola às margens do Rio Sena que aparecem no filme de época é o que fazem este filme ser tão encantador. Ele cairá, certamente, no gosto do público feminino – e pode agradar aos rapazes, especialmente pelo trabalho excepcional de Carey Mulligan.

A adolescência é uma época única para a descoberta de possibilidades, oportunidades e para que as pessoas passem por experiências novas. Mas, ao mesmo tempo, como pode-se ver pela história de Jenny, é uma época em que existe, ainda, a idéia de que o jovem deve escolher a direção que quer dar para sua vida – e, aparentemente, uma escolha elimina todas as demais. Um ganho da fase adulta é que as pessoas percebem que não é preciso seguir apenas um caminho. E uma das grandes lições de An Education é que é possível ter mais de uma educação e experimentar diversos caminhos dos vários possíveis.

Jenny descobrirá, com o tempo, que ela pode ser muitas coisas – e não apenas “mais uma” intelectual com uma vida enfadonha a qual ela tentava evitar, ao espelhar-se na professora Miss Stubbs ou na diretora da escola (Emma Thompson). Descobrirá também que uma “intelectual” não precisa ter uma vida essencialmente chata. É possível – e apenas o tempo nos ensina isso – equilibrar uma vida “séria”, de estudo e aprimoramento, com o colorido e a diversão da boemia, de festas, viagens e uma salutar vida cultural. Para isto, basta ter boa vontade, atenção às oportunidades e ampliar seus próprios horizontes. Algo que An Education esboça para os espectadores – mas que só se aprende vivendo a sua própria vida.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tudo funciona à perfeição em An Education. A diretora Lone Scherfig sabe escolher o ângulo e a dinâmica correta de cada imagem, de cada cena. Seu olhar cuidadoso para os cenários e os atores fica evidente em cada minuto do filme. Para ajudá-la nesta função, está o trabalho também perfeito do diretor de fotografia parisiense John de Borman. Os dois transformam muitas sequências em verdadeiros quadros, fotografias, peças que tem uma dinâmica e uma luz próprias. A edição precisa de Barney Pilling contribui bastante para o resultado final. E a trilha sonora, ah, a trilha sonora! Simplesmente deliciosa – e uma das melhores do ano. Mérito de Paul Englishby.

Aos 50 anos, a diretora Lone Scherfig tem no currículo 12 filmes – feitos para a TV e para o cinema. An Education é o seu primeiro trabalho fora da Dinamarca – e filmado em língua inglesa. Certamente ela ganhará, com esta produção, uma evidência no cenário internacional que não tinha até então. Até o momento, Scherfig tem na bagagem 24 prêmios e outras 15 indicações por sua trajetória.

Carey Mulligan, não me canso de dizer, está arrebatadora em An Education. Mas para conseguir este desempenho, conta muito a favor da atriz o grande elenco que tem ao seu lado para contracenar. Para começar, ela tem Alfred Molina e Cara Seymour (que interpreta a Marjorie) como seus pais. Depois, ela contracena com Dominic Cooper e Rosamund Pike, respectivamente Danny e Helen, amigos de David. Cooper e Pike conseguem interpretações acima da média que ambos tem apresentado ultimamente – eles estão concentrados, inspirados, afinados e convincentes. Peter Sarsgaard também faz um trabalho excepcional, conseguindo o tom exato de fragilidade, ambição, charme e mistério de seu personagem. Vale a pena citar ainda o trabalho de Matthew Beard como Graham, jovem envergonhado fascinado por Jenny; Amanda Fairbank-Hynes e Ellie Kendrick como as amigas de escola da protagonista que acabam sendo as suas confidentes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Também gostei da interpretação, ainda que em uma ponta minúscula (na verdade ela aparece em uma única cena) de Sally Hawkins como Sarah, a esposa de David que agradece por Jenny não estar grávida – como havia ocorrido com outras jovens enganadas pelo marido anteriormente.

An Education estreou no Festival de Sundance em janeiro de 2009. Depois, ele passou por uma extensa participação em festivais pelo mundo – ao total, marcou presença em outros 17 eventos, incluindo os festivais do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Até o momento, o filme ganhou oito prêmios e foi indicado a outros 21 (a maioria deles ainda não entregues). Dos oito que recebeu, cinco foram para a atriz Carey Mulligan – entre outros, ela ganhou os de melhor atriz no British Independent Film Awards e pela National Board of Review. Os outros foram: prêmo do público para uma produção estrangeira e melhor fotografia na categoria “cinema estrangeiro – drama” no Festival de Sundance; além do prêmio do público para uma produção estrangeira no Festival de Cinema de Mill Valley. Mas a maior expectativa para o filme está nas quatro indicações de An Education no prêmio da Broadcast Film Critics Association e na indicação de Carey Mulligan no Globo de Ouro.

Uma curiosidade: no Brasil, An Education será exibido no circuito comercial com o título de Educação. Mas antes, quando de sua participação no festival do Rio de Janeiro, em setembro de 2009, ele foi apresentado sob o título de Sedução.

Produção inglesa, An Education teria custado aproximadamente 4,5 milhões de libras para ser produzido e finalizado. Até o momento, o filme está tendo um desempenho razoável nas bilheterias. Ele teria acumulado, no Reino Unido, pouco mais de 1,3 milhão de libras nas bilheterias e, nos Estados Unidos, aproximadamente US$ 7,8 milhões. Pode se sair melhor – especialmente se começar a receber boa parte dos prêmios para os quais ele está sendo indicado.

Em 2007, a revista Variety escolheu o roteiro de An Education como um dos melhores ainda não-produzidos.

Durante as filmagens, a diretora Lone Scherfig incentivou os atores a improvisar. Muitos diálogos e ações vistas no filme foram criadas pelos protagonistas durante a rodagem da produção.

No Festival de Sundance de 2009 a atriz Carey Mulligan comentou, em uma entrevista, que alguns dos momentos mais prazerosos das filmagens ocorreram quando ela contracenou com atores com os quais ela se encontrou muito pouco. A protagonista destacou as cenas que dividiu com Sally Hawkins e Emma Thompson – Mulligan classificou o trabalho da última como “fantástico” e seu desempenho no papel como “brilhante”.

O ator Orlando Bloom era o intérprete de Danny até uma semana antes das filmagens de An Education começar. Com a saída de Bloom, Dominic Cooper, que havia feito testes para o papel, acabou assumindo o seu lugar.

An Education caiu no gosto do público e, principalmente, da crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para a produção. Por sua vez, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 152 críticas positivas e apenas nove negativas para An Education – o que lhe garante uma aprovação de 94%.

Para o crítico Liam Lacey, do The Globe and Mail, An Education serve como “lição de como se pode misturar entretenimento com idéias provocativas”. Neste texto, o crítico destaca o trabalho luminoso da diretora Lone Scherfig e o talento da “radiante” e jovem atriz Carey Mulligan. Lacey comenta que o filme narra uma história com uma moral ambígua, adaptada com inspiração por Nick Hornby. O roteirista foi inspirado em um texto autobiográfico da jornalista inglesa Lynn Barber publicado na revista literária Granta no verão de 2003. Para o crítico, a personagem de Jenny é um pacote atraente de contradições e o filme, como o título sugere, fala sobre como Jenny explora seus desejos e limitações sem, contudo, apresentar respostas fáceis para as perguntas propostas. “Não existe um livro que descreva a distinção entre o mal e a injustiça, romance e desilusão, ou entre a tentativa de ser sábio e a capacidade de realmente se chegar até lá”, comenta Lacey.

Neste texto, Lisa Kennedy, do Denver Post, destaca a impressionante sintonia entre a diretora Lone Scherfig e a atriz Carey Mulligan. O que é uma coisa boa, segundo a crítica, porque o filme sobre o envolvimento de uma garota de 16 anos com um homem mais velho requer sutileza. Ela destaca ainda a forma saborosa com que os pais de Jenny são seduzidos pelo personagem de David e como, de maneira acertada, o filme se mostra “gentil” com os seus julgamentos. Kennedy resume bem a “moral” do filme ao comentar que crescer/amadurecer significa se decepcionar, aprender com a vida e, no processo, algumas vezes “se quebrar” ou ter as coisas mais claras. “Os prêmios (deste processo) são bons. Mas os arranhões e os machucados são a educação”.

O geralmente ótimo Peter Howell, do The Star, comenta neste texto que An Education é um filme sobre a descoberta, tanto para a sua protagonista quanto para o espectador. No caso da primeira, ela acontece através do difícil aprendizado da experiência. No caso do espectador, pelo prazer de assistir ao novo talento de Carey Mulligan em uma das melhores interpretações do ano, segundo o crítico. Ele destaca que, ainda que pequenos, os papéis de Olivia Williams e Emma Thompson reforçam o trabalho estelar do elenco – os personagens delas são os únicos que, como o espectador, percebem o perigo na relação entre David e Jenny. Gostei especialmente quando Howell destaca o trabalho da diretora e do roteirista em não transformar o personagem de David em um monstro. “O ponto aqui não é julgar os erros do passado pelos padrões modernos, mas salientar o quão fácil os sonhos podem se tornar realidade. O David de Saarsgaard é mais uma figura de piedade do que ameaçadora, e o trabalho hábil do ator em um papel difícil merece consideração em uma temporada de premiações”, opina Howell.

O respeitado crítico Roger Ebert, do Sun Times, destaca neste texto como An Education é “maravilhosamente romântico e divertido”, mesmo tratando de um tema pesado como a sedução de uma garota de 16 anos por um homem de 35 anos. Ele destaca o trabalho excepcional de Carey Mulligan que, segundo ele, vem sendo comparada – de forma bastante justa – com Audrey Hepburn. De forma bastante acertada, Ebert destaca como An Education é um romance na medida em que mostra a paixão de sua protagonista não por um homem mais velho, mas por todas as possibilidades que ela tem, sobre seu futuro e a alegria de estar viva. Bingo! Também vejo estas questões como as centrais do filme.

Achei o texto de Ebert bastante ponderado quando ele mostra como David e Jenny “usaram” um ao outro e, ao mesmo tempo, se divertiram juntos. Realmente, não existe nesta história apenas “uma garota que foi enganada por um homem mais velho”. Ainda que David seja um canalha, ele e Jenny saíram ganhando e perdendo nesta história – e ela teve sorte de não ter se complicado mais no relacionamento. Como a “verdadeira” Jenny comentou em seu texto, ela tem que agradecer a esse homem mais velho que a seduziu por ter-lhe “curado totalmente a ânsia por sofisticação”. Depois de ter se relacionado com Simon – o nome verdadeiro do homem que virou David no filme -, Lynn Barber pôde começar seus estudos em Oxford verdadeiramente interessada nos amáveis, decentes e simples rapazes de sua idade.

An Education é muito sútil ao tratar duas formas de preconceito: o racismo e antisemitismo. (SPOILER – não leia se você não assistiu o filme). David, que é judeu, ganha a vida explorando a antipatia das pessoas contra negros e, em algumas situações, contra o seu próprio povo – algo absurdo de pensar e/ou admitir após o genocídio ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial. Provocando ingleses que não suportam o convívio com os negros, ele faz dinheiro comprando arte e artigos valiosos por preço de banana. E pela resistência do pai da protagonista (e de outras pessoas) aos judeus, David consegue reverter a situação a seu favor quando necessário. Retratos de uma sociedade do pós-guerra e prestes a conhecer a revolução do rock dos The Beatles e da liberação sexual e feminina.

Nos quesitos técnicos, vale destacar o trabalho perfeito dos figurinos de Odile Dicks-Mireaux, a direção de arte de Ben Smith e a decoração de set de Anna Lynch-Robinson.

Os interessados em saber um pouco mais sobre Lynn Barber, a mulher que escreveu suas memórias sob o título de An Education e que teve seu trabalho adaptado neste filme podem encontrar mais informações em vários textos publicados pelo The Guardian e que podem ser acessados neste portal (em inglês).

CONCLUSÃO: Um filme divertido, encantador, charmoso e que evita os julgamentos fáceis. An Education reflete sobre dois bancos de escola: o das instituições de ensino e o da vida. Rouba a cena neste filme magistralmente conduzido pela diretora dinamarquesa Lone Scherfig a jovem atriz Carey Mulligan. Ela é a alma e o coração desta história. Mas ao seu lado o espectador poderá conferir o trabalho preciso de muitos atores conhecidos, como Peter Sarsgaard, Alfred Molina, Olivia Williams e Emma Thompson (em uma super ponta). Com linhas de roteiro cuidadosamente escritas por Nick Hornby, é destes filmes que vão conquistar o público e, de quebra, fazer pensar um pouquinho. Evitando julgamentos moralistas, An Education é um exemplo de como a vida pode ser maravilhosa ou trágica – tudo depende da escolha que fazemos. Se não nos entregarmos à culpa e ao desespero podemos, como a protagonista deste filme, perdoar nossos erros (e aqueles praticados pelas demais pessoas ao nosso redor) e sair para a frente, sabendo que sempre existem novos caminhos a percorrer. Uma ode à vida, às suas descobertas e prazeres. Perfeito para ser assistido com tempo, sem preocupações, apenas para saborear a realidade do Reino Unido e de Paris no início dos anos 1960 e, de quebra, a fase da vida das grandes descobertas – do amor, dos prazeres da vida e das oportunidades.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Será um verdadeiro crime se o nome de Carey Mulligan não estiver entre os das cinco indicadas ao Oscar de Melhor Atriz deste ano. Bem, esta possibilidade é bastante remota. Especialmente se levarmos em conta que a atriz está indicada na categoria de Melhor Atriz – Drama no Globo de Ouro e que, até o momento, ganhou quatro dos 13 prêmios mais importantes da temporada – considerados, por muitos, um termômetro para o Oscar e o próprio Globo de Ouro. Das atuações que assisti até agora, Carey Mulligan seria a minha aposta para ganhar o Oscar. Acho que ela tem mais méritos, junto com Gabourey Sidibe, de Precious (comentado aqui no blog), para levar esta consagração. Me desculpe Meryl Streep, mas o talento das jovens atrizes superou o dela em seu papel em Julie & Julia (com crítica aqui no blog). De qualquer forma, vocês sabem como o Oscar funciona. Nem sempre a Academia premia a melhor no ano. Então Meryl Streep, há muitos anos sendo apenas indicada – mas não ganhando nada, pode levar uma estatueta dourada para casa. Por mérito, seria Carey Mulligan.

Acho que An Education também tem potencial para chegar entre os 10 finalistas ao prêmio de Melhor Filme do ano. Veremos… O texto de Nick Hornby perfeitamente poderia ser indicado na categoria de Melhor Roteiro Adaptado, mas acho difícil ele conseguir uma vaga neste ano, porque há muitos concorrentes de peso na disputa. Nas categorias técnicas, não seria uma surpresa se An Education conseguisse indicações para Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Figurino e Melhor Trilha Sonora Original. De todas estas, acho que ele tem mais chances em ser indicado (e talvez ganhar) em Direção de Arte – nas demais, mais uma vez, a concorrência está muito forte. De qualquer forma, honestamente, espero que An Education receba algumas indicações para o prêmio mais badalado de Hollywood – ele merece.