Little Men – Melhores Amigos

A diferença marcante entre a vida de quando somos crianças e aquela que temos que assumir na fase adulta. Little Men fala de meninos e de homens, mas poderia, perfeitamente, estar falando de meninas e de mulheres. Claro que há diferenças entre os “papéis” que a sociedade ainda espera que cada um de nós desempenhemos – homens e mulheres -, mas, no geral, as questões apontadas por este filme valem para ambos. Quando a responsabilidade e a noção de sobrevivência entram em jogo, muito do que a gente defendia quando criança pode desaparecer de cena. Infelizmente.

A HISTÓRIA: Em uma sala de aula em que todos estão brincando e jogando papéis, Jake Jardine (Theo Taplitz) é um dos poucos que está sentado e comportado. Ele está fazendo algo que ama: desenhar. Logo aparece em cena o professor Mr. Plummer (John Procaccino) da turma, que perde ordem e que critica o desenho de Jake. Ao sair do colégio, Jake é recepcionado pela empregada da família, Pilar (Ching Valdes-Aran), que recebe um abraço do garoto. Eles vão para casa, e é lá que Jake atende a um telefonema estranho, de alguém que diz ser amigo do avô do garoto. Com esta ligação Jake fica sabendo que o avô morreu, e este fato vai mudar bastante a vida dele e da família.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Little Men): Este é um filme singelo e muito interessante. Justamente por não ter um excesso de texto e por não ter nenhuma grande “surpresa”, Little Men dá o espaço necessário para o espectador refletir sobre o que está assistindo e, talvez, sobre a própria vida enquanto acompanha a história apresentada pelo diretor Ira Sachs – o roteiro é dele e de Mauricio Zacharias.

Certamente muita gente vai se sentir representada nesta produção. Afinal, Little Men trata sobre a “estranheza” da adolescência/pré-adolescência, quando não faltam críticas para os jovens que estão em fase de crescimento e de autodescoberta. De forma inteligente esta produção nos apresenta um garoto mais “deslocado” das pessoas de sua idade e outro que, aparentemente, é mais popular.

E os dois acabam se aproximando e se tornando os “melhores amigos” que vemos no título para o mercado brasileiro – título bem ruim, diga-se, porque este filme trata de um tema muito mais amplo e complexo do que a amizade entre os dois garotos. Aos poucos vamos percebendo que esta é uma produção que discorre sobre como a vida vai cobrando um preço das pessoas conforme ela avança.

A exemplo do filho, Brian Jardine (Greg Kinnear) também era um garoto um tanto “isolado” quando jovem. Conforme a história vai se desenvolvendo e a tensão entre a família Jardine e a inquilina do avô de Jake, a empreendedora Leonor Calvelli (Paulina García) vai aumentando, a amiga do pai de Brian faz questão de ir soltando para ele pequenos dardos de veneno sobre como o pai do ator desaprovava as escolhas do filho.

Desta forma, muito sutil, Ira Sachs vai tratando temas que são bastante comuns nas nossas sociedades modernas. Entre outras questões, ele trata sobre os conflitos familiares, sobre as cobranças sociais dos “papéis” que homem e mulher devem desenvolver dentro de uma casa, sobre amadurecer e deixar crenças e amizades no passado. Porque não gostamos muito de pensar nisso, mas a verdade é que a vida nos faz perder várias pessoas de quem gostávamos muito pelo caminho.

Little Men também tem uma constatação que vamos demorar muito para perceber na nossa vida prática: amizades e boas relações terminam quando o dinheiro (ou a falta dele) entra em cena. E isso não quer dizer que as pessoas são mesquinhas ou “movidas à dinheiro”. Como Little Men bem apresenta, muitas vezes tudo se resume apenas à necessidade e a mais pura sobrevivência. Verdade que às vezes temos outros caminhos, possivelmente mais duros, para escolher. Mas algumas vezes eles não existem.

Especificamente sobre a história contada nesta produção, acho que existe uma reflexão interessante a ser feita sobre um personagem ausente e ao mesmo tempo bem presente na história, o avô de Jake. Ele tinha batalhado muito na vida – pelo que os filhos dele comentam – e tinha, após ter adquirido uma propriedade, a liberdade de cobrar um aluguel muito mais baixo do que o mercado praticava para uma querida amiga – Leonor. Quando ele morre, contudo, a vontade dele é deixada de lado pelo “pragmatismo” de seus filhos, Brian e Audrey (Talia Balsam).

Como Brian mesmo explica para Leonor, tanto ele quanto Audrey tem as suas próprias famílias para sustentar e/ou zelar. O pai dele vivia uma outra condição, mais confortável, digamos assim. Mas aí reside uma questão que acho interessante nesta produção – e na vida real. Não podemos julgar Brian e Audrey, afinal, o argumento deles é válido. Mas será que eles não poderiam também procurar a independência que o pai deles tinha sem levar em conta na equação a herança que ele deixou?

Em outras palavras, se eles encarassem a vida deles como independente do que o pai poderia deixar ou não, eles teriam que se virar sem ter que penalizar Leonor e abrir mão do último desejo do amigo dela. Como o dinheiro acabou falando mais alto, Brian e Audrey abriram mão do último desejo do pai deles e, de quebra, abalaram definitivamente a amizade que Jake tinha com Antônio/Tony (Michael Barbieri).

Desta forma, Little Men reflete sobre os nossos tempos, quando o mais “normal” é “cada um por si”. Não existe mais o apreço pela generosidade e pela preservação de alguns valores importantes, como a palavra que foi dada e/ou a vontade de alguém que morreu. Ora, se o desejo do pai de Brian e Audrey era que a amiga dele, Leonor, ficasse na loja pagando menos que o mercado, mas o quanto ela podia, isso deveria valer algo, ou não? Não julgo Brian e Audrey, mas eles tem filhos e famílias por escolha própria, ninguém lhes obrigou a isso. Então eles não deveriam ser capazes de pagarem as suas próprias contas?

Faço estes comentários porque acho que às vezes buscamos a saída mais “fácil” para os nossos problemas. No caso de Brian e Audrey, claro que o mais fácil era despejar Leonor e cobrar três a quatro vezes mais de aluguel do próximo inquilino. Com isso, cada um teria um dinheiro extra no final do mês. Claro que também Leonor deveria se adequar ao mercado e, se não pode ficar no bairro em que estava, ir para um local mais adequado e/ou mudar a produção que ela tinha.

Tudo isso é verdade, mas sempre é possível se perguntar se não existiria uma saída melhor e mais humana para todos. A grande questão é que sempre temos escolhas na vida. Mas independente delas, Little Men explora muito bem o grande abismo que separa as nossas aspirações e a nossa rotina de quando somos jovens e ainda dependentes dos nossos pais e a realidade de quando temos que lidar com todas as contas e cobranças de uma vida adulta. A diferença é colossal, realmente, e o filme explora muito bem esta questão. A vida real é complicada, e ponto final.

Um filme que conta uma história graciosa, sobre família, amizade e a busca do desenvolvimento dos nossos talentos – esta última questão representada pela busca de Jake pelo desenho e de Tony pela atuação – e que, ainda por cima, nos faz pensar sobre os padrões da sociedade e as escolhas que fazemos, sem dúvida alguma, está bem acima da média. Destaco, em especial, a forma linear e de desenvolvimento “realista” da produção, com um roteiro bastante coerente e que atrai pela franqueza.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos destaques desta produção é o talento do elenco escolhido à dedo pelos realizadores. Todos estão muito bem, mas gostei, em especial, do trabalho dos jovens Theo Taplitz e Michael Barbieri. Os dois fazem um trabalho maravilhoso, bastante coerente com os seus respectivos personagens, e de bastante profundidade. Eles brilham na produção. Pouco a pouco, outros atores também vão ganhando destaque, como Greg Kinnear, Paulina García e Jennifer Ehle (que interpreta Kathy, mãe de Jake). Todos estão muito bem.

O diretor Ira Sachs trabalha muito bem ao valorizar a interpretação dos atores – as relações entre eles é parte fundamental desta produção – e ao buscar uma câmera que está presente, em muitos momentos, enquanto em outros ela está um tanto “ausente” (especialmente nas sequências que envolvem mais adolescentes, como nas escolas dos dois protagonistas). Nestes momentos de “câmera mais ausente” o diretor tenta capturar as interações verdadeiras entre os jovens, o que ajuda no tom “realista” da produção.

A personagem de Leonor é especialmente interessante. Ela sabe jogar muito bem com as pessoas em cena. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com inteligência, ela sabe tratar especialmente com Brian, tentando pegar nos “pontos fracos” do ator que não era respeitado pelo próprio pai. Há uma cena, em especial, intrigante nesta produção. Quando ela mostra diversas fotos dela com o pai de Brian. Nós não vemos as imagens, algo feito de forma proposital por Ira Sachs. Assim, fica apenas sugerido um possível “caso” e/ou romance entre Leonor e o pai de Brian. Da minha parte, acho sim que havia algo além de uma “bela amizade” entre os dois. O que torna o despejo dela ainda mais delicado.

Além dos atores já citados, vale comentar a super ponta de Alfred Molina como Hernan, amigo de Leonor e advogado dela; e Mauricio Bustamante dando um show como o professor de interpretação da classe de Tony e Jake. Da parte técnica do filme, destaque para a direção de fotografia de Óscar Durán; para a edição de Mollie Goldstein e Affonso Gonçalves; para o design de produção de Alexandra Schaller; para a direção de arte de Ramsey Scott; para a decoração de set detalhista de Emily Deason; para os figurinos coerentes de Eden Miller; e para a trilha sonora pontual de Dickon Hinchliffe.

O diretor americano Ira Sachs, que tem 52 anos e é natural da cidade de Menphis, tem 10 títulos no currículo como diretor antes de Little Men. Ele estreou em 1992 com Vaudeville, fez dois curtas (sendo um deles de documentário) e um segmento do filme Underground Zero antes de rodar Little Men. Nesta trajetória ele acumulou sete prêmios e foi indicado a outros 22. Parece um diretor humanista, que trata de temas de relevância tanto para as esferas social quanto pessoal. Não assisti a mais nenhum filme dele além deste que comentei acima.

Little Men teria custado US$ 2 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 702,5 mil. Ou seja, é um filme independente, com orçamento enxuto e com bilheteria magra até o momento. Tem agradado ao público e, especialmente, à crítica, mas ainda sem efeito positivo nas bilheterias. Realmente é uma produção mais de “nicho”.

Este filme foi totalmente rodado em Nova York, em locais como o Sunset Park, a Graham Avenue, o Bay Ridge e o Brooklyn Museum.

Agora, aquelas curiosidades tradicionais sobre cada filme. O ator Michael Barbieri foi aceito na Escola Superior de Música e Arte Fiorello H. LaGuardia depois que as filmagens de Little Men terminaram.

O jovem ator Theo Taplitz participa de curtas desde que estudava na quarta série. Ele recebeu destaque em diversos festivais de cinema que destacam o trabalho de jovens nos Estados Unidos desde então.

Mauricio Bustamante foi o professor de teatro de Michael Barbieri no tradicionalíssimo Lee Strasberg Theatre and Film Institute.

Little Men recebeu um prêmio e foi indicado a outros treze. O único prêmio que recebeu, até o momento, foi o Grande Prêmio Especial para Ira Sachs no Festival de Cinema de Deauville.

Esta é uma coprodução da Grécia, do Brasil e dos Estados Unidos. O capital brasileiro entrou na jogada por causa do roteirista brasileiro Mauricio Zacharias e dos produtores executivos Lourenço Sant’Anna e Rodrigo Teixeira. A lista de produtores, aliás, é bastante grande. Como estão no pacote Brasil e Estados Unidos, este filme entra na lista daqueles que atende a votações feitas aqui no blog há algum tempo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 119 críticas positivas e apenas três negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média 8. Especialmente a ótima avaliação da crítica chama a atenção. Bacana.

CONCLUSÃO: No cômputo geral, Little Men é um filme simples. Ele conta a história sobre a amizade marcante entre dois garotos e como esta amizade é ameaçada pelo conflito de adultos. Apesar desta ser a premissa básica da produção, ela ganha o espectador ao nos fazer refletir sobre questões mais profundas, como nossos valores e sonhos e como vamos mudando eles (ou os perdendo) pelo meio de muitos caminhos. A vida de adulto é muito mais complicada do que gostaríamos, e para muitos isso cobra diversos preços. Este é um filme singelo e interessante sobre o assunto. Recomendo.

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Zero Dark Thirty – A Hora Mais Escura

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Tem histórias que precisam ser contadas. Não apenas porque marcaram uma nação, mas porque fecharam um ciclo que definiu uma época. Zero Dark Thirty é uma destas histórias. Mais uma vez a grande diretora Kathryn Bigelow mostra que sabe focar como ninguém o ambiente militar, traduzindo a tensão daquele ecossistema como poucos diretores desta época. Zero Dark Thirty é um filme envolvente, que passa boa parte de seu tempo procurando respostas. Tudo para nos levar a um ponto final que, propositalmente, tem uma pergunta sem resposta.

A HISTÓRIA: Começa dizendo que este filme foi baseado em fatos reais. Gravações de áudios começam a ser reproduzidas, trazendo parte do drama vivido pelas vítimas dos ataques terroristas feitos no dia 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Enquanto os áudios são reproduzidos, estamos no breu. Dois anos depois, um homem é torturado em um local não identificado. Ele faz parte de um grupo saudita. Dan (Jason Clarke) avança em direção a Ammar (Reda Kateb), que está com braços e pernas amarrados, e diz que ele é de sua propriedade. O homem preso está bem machucado, e sabe que irá sofrer muito mais. Ainda assim, ele não colabora. Esta cena e outras que virão são assistidas por Maya (Jessica Chastain), uma agente que está levando um “choque” de realidade. Tanto ela quanto Dan trabalham com a missão de encontrar os líderes responsáveis pelos ataques feitos contra os Estados Unidos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Zero Dark Thirty): Primeiro vieram os filmes sobre os ataques aos Estados Unidos. A maioria deles, como era de se esperar de Hollywood, focando o drama dos civis que foram mortos em 11 de setembro. Depois, surgiram as produções que trataram do ambiente militar após o ataque, alguns deles revelando torturas e práticas condenáveis.

Com o assassinato de Osama bin Laden em maio de 2011, era apenas uma questão de tempo para que a história que levou até a localização e morte dele fosse contada. Ainda há muita desinformação sobre os bastidores daquela ação. Mas Zero Dark Thirty ajuda a explicar uma parte do processo que levou os militares dos Estados Unidos até aquele ponto.

Kathryn Bigelow entende muito bem de seu ofício. Acredito que ela seja uma das melhores diretoras da atualidade. E ela comprova isto a cada minuto desta produção. Começando pelo início, quando acerta ao não mostrar as famosas imagens das Torres Gêmeas sendo acertadas pelos aviões. Estas imagens já estão por demais desgastadas. E se um diretor quer causar impacto, nada melhor do que escolher áudios angustiantes e deixar o espectador “no breu” enquanto os reproduz. Belo começo de filme. E o melhor: este estilo de escolhas certas prossegue até o final.

Claro que parte do mérito para este resultado positivo é do roteirista Mark Boal, um sujeito que, prestes a completar 40 anos – ele fará esta idade redonda no próximo dia 23 -, tem três ótimos trabalhos no currículo: além deste Zero Dark Thirty, ele escreveu The Hurt Locker e a história de In the Valley of Elah. Todos com uma visão crítica ou, pelo menos, um bocado realista do ambiente militar. Jornalista de profissão, Boal traz para o cinema o senso de realidade da profissão. Mesmo na ficção de uma história “baseada” em fatos reais, ele guarda o compromisso de tentar ser o mais verossímel possível. E o efeito disto na telona é devastador.

Zero Dark Thirty criou uma certa polêmica nos Estados Unidos. Primeiro, porque políticos – especialmente os contrários ao reeleito Barack Obama – quiseram saber se informações confidenciais “vazaram” para alimentar a produção. Segundo, porque houve quem considerasse que esta produção apoia e justifica a tortura.

Para mim, tudo isso é uma grande bobagem, e uma forma da oposição nos EUA querer fazer algum barulho. Será que eles não aprenderam nada com Julian Assange? De que não adianta querer esconder todas as informações porque algumas delas, e muitas vezes as mais vexatórias, uma hora vão aparecer? Está cada vez mais difícil manter segredo, mesmo quando há muitos bilhões de dólares envolvidos na área de segurança. Depois que é evidente que Zero Dark Thirty não justifica a tortura.

O que o filme faz, e acho muito correto que seja assim, é tentar narrar os acontecimentos o mais próximo da realidade possível. Todos sabemos, desde os escândalos da Prisão de Guantánamo, que muitos militares dos Estados Unidos perderam totalmente a mão e a cabeça após os atentados terroristas. Então não há novidade alguma que usaram de tortura para conseguir informações.

Para mim, o que mais me chamou a atenção em Zero Dark Thirty é como a obstinação de uma pessoa, neste caso, a protagonista, foi fundamental para o desfecho daquela caçada humana. Se não fosse Maya, e não sei até que ponto de fato esta figura existiu na vida real, provavelmente Osama bin Laden não teria sido encontrado. Ou teria escapado, apesar da desconfiança de que ele estaria naquele esconderijo em Abbottabad.

Além da obstinação de Maya, chama a atenção neste filme o quanto figuras importantes da CIA e do alto escalão do governo e do Exército dos EUA estavam “boiando” sobre a realidade. Em uma das horas mais tensas desta produção, quando Maya confronta o seu superior, ela descarrega em Joseph Bradley (Kyle Chandler) toda a frustração das pessoas “de campo” que não conseguem ter a compreensão adequada de seus “superiores”, tão isolados nos próprios gabinetes que desconhecem os detalhes da realidade que eles deveriam acompanhar de perto.

Quando se junta ao grupo da CIA em Islamabad, no Paquistão, Maya não começa leve. Logo vai impondo a sua opinião, e se aproxima de Jessica (Jennifer Ehle), de Jack (Harold Perrineau) e de Thomas (Jeremy Strong). Especialmente de Jessica. O clima vai ficando mais tenso conforme o tempo passa, novos atentados vão ocorrendo no Ocidente, e aquele grupo – assim como outros envolvidos na busca pelos terroristas – não consegue avançar na captura de figuras-chave do núcleo terrorista.

Zero Dark Thirty conta muito bem esta história. Não apenas foca bem na personagem de Maya – tanto que o filme é praticamente todo narrado sob a sua ótica -, em suas relações e reações, como também mantêm um ritmo interessante de narrativa. O espectador sente o desdobrar dos fatos, o tique-taque do relógio tendo cada vez mais peso, todas as tentativas de buscar informações que levam apenas a becos sem saída, até que Debbie (Jessica Collins) encontra, em uma busca no sistema, uma das ligações com Osama bin Laden mais procuradas por Maya e equipe. Neste ponto, após uma hora de filme, que Zero Dark Thirty dá uma reviravolta importante.

E o que acontece a partir daí, com infindáveis reuniões para discutir o que seria feito com aquela informação, torna o filme interessante novamente. Além das ruas e torturas, entramos mais no cenário dos gabinetes e dos engravatados que tem a caneta e o botão na mão. De forma inteligente, Boal e Bigelow tornam a expectativa e a angústia de Maya na expectativa e na angústia do espectador, que aguarda para que algo seja feito. O que não deixa de ser irônico, porque todos nós sabemos qual será o desfecho. O que apenas demonstra o talento desta dupla – e de Chastain, que transfigura perfeitamente esta missão.

Os bastidores que levam até a ação e, finalmente, o grand finale, com toda a sequência da operação que levou à morte de Osama bin Laden, aumentam o ritmo até a grande pergunta sem resposta no final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Após a grande “catarse” da morte do “vilão” bin Laden, o que virá? Bigelow e Boal merecem que a gente tire o chapéu para eles com aquela sequência em que a “importante” Maya entra no avião e, quando lhe perguntam para onde ela quer ir – e ela pode escolher qualquer parte do mundo – ela apenas chora, um tanto desolada, e olha pra frente sem uma resposta. O que pode vir depois? Não apenas para ela, mas para a sua própria nação e para todos nós, afetados de alguma forma com aquela loucura toda – dos terroristas e da caçada a eles. Pelo virtuosismo da direção, pelo roteiro envolvente e por este questionamento final, Zero Dark Thirty merece ser visto.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como no ótimo The Hurt Locker, filme anterior de Kathryn Bigelow que foi comentado neste blog aqui, Zero Dark Thirty é caracterizado pela excelência técnica. A direção de fotografia de Greig Fraser cuida de cada detalhe e do jogo de luz e sombra que ajuda a narrar cada momento desta história. O trabalho dele na sequência da operação militar, na reta final da produção, é fundamental, assim como a direção precisa de Bigelow. O outro roteiro de Boal, In the Valley of Elah, foi comentado no blog aqui.

Outros elementos também funcionam muito bem. Para começar, a ótima edição de William Goldenberg e Dylan Tichenor que, junto com o roteiro de Boal e da direção de Bigelow, dão o ritmo adequado para a produção. A edição de som, os efeitos especiais e visuais também são fundamentais, especialmente durante a operação militar derradeira. Vale citar, também, a trilha sonora bem planejada e que entra nos momentos mais adequados – o que nem sempre tem sido feito, pelo menos não nos últimos filmes que eu assisti – do trabalhador Alexandre Desplat.

Quem brilha, realmente, nesta produção é a atriz Jessica Chastain. Mas além dela, fazem um bom trabalho Jason Clarke e Jennifer Ehle. Esta última me lembrou muito, em alguns momentos, a Meryl Streep quando era jovem. Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho dos coadjuvantes Mark Strong, como George; e James Gandolfini em uma superponta como o diretor da CIA.

E uma curiosidade sobre o filme: originalmente, Rooney Mara tinha sido convidada para estrelar esta produção. Mas ela resolveu pular fora do projeto, quando então foi substituída por Jessica Chastain. Sorte da segunda.

A expressão “00 dark 30”, no jargão militar, significa um tempo não especificado nas primeiras horas da manhã quando, normalmente, está escuro “lá fora”.

Outra curiosidade sobre esta produção: inicialmente, ela abordaria uma década sobre o trabalho fracassado dos Estados Unidos em buscar Osama bin Laden. Mas com a morte dele em maio de 2011, o roteiro foi totalmente reescrito.

No livro No Easy Day, escrito por um ex-combatente das forças de elite Seal e que narra a operação que levou à morte de bin Laden, a personagem de Maya é identificada apenas como Jen.

O clímax da produção dura 25 minutos – e não dá para perceber que ela leva tanto tempo -, apenas alguns minutos a menos do que a sequência real da operação envolvendo as forças especiais dos EUA.

Segundo o livro No Easy Day, pelo menos três pontos importantes foram deixados de fora deste filme: 1) a discussão se seria melhor bombardear a residência onde poderia estar bin Laden ou fazer uma incursão de forças especiais no local; 2) a construção de uma maquete da residência para que fosse planejado o ataque; 3) os testes feitos com helicópteros para que os militares estivessem preparados para qualquer contratempo quando fosse feita a operação.

Zero Dark Thirty foi filmado em Londres, Washington, Patiala (na Índia), no Manimajra Fort (também na Índia, que reproduziu Abottabad), Amman (Jordânia) e Chandigarh (Paquistão).

Este filme estreou para um público limitado, nos Estados Unidos, no dia 19 de dezembro. Depois, estreou no dia 4 de janeiro na Espanha e, no dia 11, em circuito comercial nos Estados Unidos e em outros três países.

Zero Dark Thirty teria custado cerca de US$ 40 milhões. Após três dias em cartaz nos Estados Unidos em pouco mais de 2,9 mil salas de cinema, ele faturou pouco mais de US$ 24,4 milhões. Uma marca impressionante. Certamente ele vai faturar muito alto.

Até o momento, esta produção ganhou 21 prêmios e foi indicada a outros 33, além de cinco indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Filme do Ano pela AFI Awards; Melhor Atriz – Drama para Jessica Chastain no Globo de Ouro; e Melhor Atriz, Melhor Filme e Melhor Diretora pelo respeitadíssimo National Board of Review.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção. Achei a avaliação baixa, levando em conta as qualidades da produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 173 textos positivos e 13 negativos para Zero Dark Thirty, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,7. Bem melhor.

CONCLUSÃO: A história dos Estados Unidos e do mundo nunca mais foi a mesma após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Todos os que viveram a década posterior aquele momento sabem disso. O mundo mergulhou em uma caçada alimentada pelo medo. Pouco mais de 11 anos se passaram desde aquele dia, e os efeitos dos ataques continuam criando eco. Mas houve um ponto importante na “resposta” aos terroristas: quando uma operação militar matou Osama bin Laden quase 10 anos depois da destruição das torres do World Trade Center. A essência do que aconteceu entre setembro de 2001 e maio de 2011 é contada neste novo filme de Kathryn Bigelow, uma diretora de primeira que sabe contar os bastidores do ambiente militar como poucos. Esta produção é envolvente, muito bem dirigida, com uma história recheada de ação e de bastidores militares e políticos. Bigelow não se preocupa em fazer um filme partidário. Ela segue a linha documental, que pôde ser vista em The Hurt Locker. Nos entrega todos os ingredientes para refletirmos sobre o que aconteceu, e tirarmos as nossas próprias conclusões. Respeita o espectador, e conta muito bem esta história. Para fechar, nos deixa sem resposta, como acontece com a protagonista. Intocável.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Zero Dark Thirty foi indicado para cinco estatuetas. Todas muito justas. Exceto pelo “esquecimento” de Kathryn Bigelow como Melhor Diretora. Ela deveria ter entrado na competição. Ainda não vi ao trabalho de todos os outros, mas certamente a direção dela neste filme é muito melhor que o de Steven Spielberg com Lincoln. Mas o peso do nome dele, aparentemente, contou mais do que o resultado prático da direção deles.

Sem Bigelow como Melhor Diretora, Zero Dark Thirty chega ao Oscar indicado nas categorias Melhor Filme, Melhor Atriz para Jessica Chastain, Melhor Roteiro Original para Mark Boal, Melhor Edição de Som e Melhor Edição. Nenhum dos filmes que assisti até agora e que estão concorrendo ao Oscar me conquistaram totalmente. Mas dos que eu vi, gostei mais de Zero Dark Thirty até o momento. Não seria uma surpresa completa se ele ganhasse o Oscar principal, mas acho que ele corre por fora. Lincoln e Argo, aparentemente, estão na dianteira.

Jessica Chastain ganhou alguns pontos para a corrida a uma estatueta do Oscar ao vencer as concorrentes na categoria de Melhor Atriz – Drama no Globo de Ouro. Não assisti ao desempenho de nenhuma das outras quatro atrizes que estão na disputa ao Oscar, mas apenas ao ver a Chastain em Zero Dark Thirty eu posso dizer que ela merece. Faz um belo trabalho, e no tom certo.

Mark Boal tem uma tarefa bem difícil pela frente, porque concorre com pesos-pesados. Da minha parte, gosto muito do trabalho de Wes Anderson e Roman Coppola em Moonrise Kingdom. Mas eles são a zebra da disputa. Amour e até Django Unchained estão na dianteira. Possivelmente com uma certa vantagem de Amour.

Zero Dark Thirty tem mais chances em Edição de Som e, principalmente, Edição. No cômputo geral, acredito que o filme poderá levar um ou duas estatuetas, nestas categorias técnicas. Mas não seria surpreendente se levasse outra para Chastain e, se o lobby for bom, até como Melhor Filme. Se levasse todos estes, não seria injusto. Porque é um filme muito bem acabado, e que faz pensar. Acima da média deste ano no Oscar, pois.