Little Men – Melhores Amigos

A diferença marcante entre a vida de quando somos crianças e aquela que temos que assumir na fase adulta. Little Men fala de meninos e de homens, mas poderia, perfeitamente, estar falando de meninas e de mulheres. Claro que há diferenças entre os “papéis” que a sociedade ainda espera que cada um de nós desempenhemos – homens e mulheres -, mas, no geral, as questões apontadas por este filme valem para ambos. Quando a responsabilidade e a noção de sobrevivência entram em jogo, muito do que a gente defendia quando criança pode desaparecer de cena. Infelizmente.

A HISTÓRIA: Em uma sala de aula em que todos estão brincando e jogando papéis, Jake Jardine (Theo Taplitz) é um dos poucos que está sentado e comportado. Ele está fazendo algo que ama: desenhar. Logo aparece em cena o professor Mr. Plummer (John Procaccino) da turma, que perde ordem e que critica o desenho de Jake. Ao sair do colégio, Jake é recepcionado pela empregada da família, Pilar (Ching Valdes-Aran), que recebe um abraço do garoto. Eles vão para casa, e é lá que Jake atende a um telefonema estranho, de alguém que diz ser amigo do avô do garoto. Com esta ligação Jake fica sabendo que o avô morreu, e este fato vai mudar bastante a vida dele e da família.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Little Men): Este é um filme singelo e muito interessante. Justamente por não ter um excesso de texto e por não ter nenhuma grande “surpresa”, Little Men dá o espaço necessário para o espectador refletir sobre o que está assistindo e, talvez, sobre a própria vida enquanto acompanha a história apresentada pelo diretor Ira Sachs – o roteiro é dele e de Mauricio Zacharias.

Certamente muita gente vai se sentir representada nesta produção. Afinal, Little Men trata sobre a “estranheza” da adolescência/pré-adolescência, quando não faltam críticas para os jovens que estão em fase de crescimento e de autodescoberta. De forma inteligente esta produção nos apresenta um garoto mais “deslocado” das pessoas de sua idade e outro que, aparentemente, é mais popular.

E os dois acabam se aproximando e se tornando os “melhores amigos” que vemos no título para o mercado brasileiro – título bem ruim, diga-se, porque este filme trata de um tema muito mais amplo e complexo do que a amizade entre os dois garotos. Aos poucos vamos percebendo que esta é uma produção que discorre sobre como a vida vai cobrando um preço das pessoas conforme ela avança.

A exemplo do filho, Brian Jardine (Greg Kinnear) também era um garoto um tanto “isolado” quando jovem. Conforme a história vai se desenvolvendo e a tensão entre a família Jardine e a inquilina do avô de Jake, a empreendedora Leonor Calvelli (Paulina García) vai aumentando, a amiga do pai de Brian faz questão de ir soltando para ele pequenos dardos de veneno sobre como o pai do ator desaprovava as escolhas do filho.

Desta forma, muito sutil, Ira Sachs vai tratando temas que são bastante comuns nas nossas sociedades modernas. Entre outras questões, ele trata sobre os conflitos familiares, sobre as cobranças sociais dos “papéis” que homem e mulher devem desenvolver dentro de uma casa, sobre amadurecer e deixar crenças e amizades no passado. Porque não gostamos muito de pensar nisso, mas a verdade é que a vida nos faz perder várias pessoas de quem gostávamos muito pelo caminho.

Little Men também tem uma constatação que vamos demorar muito para perceber na nossa vida prática: amizades e boas relações terminam quando o dinheiro (ou a falta dele) entra em cena. E isso não quer dizer que as pessoas são mesquinhas ou “movidas à dinheiro”. Como Little Men bem apresenta, muitas vezes tudo se resume apenas à necessidade e a mais pura sobrevivência. Verdade que às vezes temos outros caminhos, possivelmente mais duros, para escolher. Mas algumas vezes eles não existem.

Especificamente sobre a história contada nesta produção, acho que existe uma reflexão interessante a ser feita sobre um personagem ausente e ao mesmo tempo bem presente na história, o avô de Jake. Ele tinha batalhado muito na vida – pelo que os filhos dele comentam – e tinha, após ter adquirido uma propriedade, a liberdade de cobrar um aluguel muito mais baixo do que o mercado praticava para uma querida amiga – Leonor. Quando ele morre, contudo, a vontade dele é deixada de lado pelo “pragmatismo” de seus filhos, Brian e Audrey (Talia Balsam).

Como Brian mesmo explica para Leonor, tanto ele quanto Audrey tem as suas próprias famílias para sustentar e/ou zelar. O pai dele vivia uma outra condição, mais confortável, digamos assim. Mas aí reside uma questão que acho interessante nesta produção – e na vida real. Não podemos julgar Brian e Audrey, afinal, o argumento deles é válido. Mas será que eles não poderiam também procurar a independência que o pai deles tinha sem levar em conta na equação a herança que ele deixou?

Em outras palavras, se eles encarassem a vida deles como independente do que o pai poderia deixar ou não, eles teriam que se virar sem ter que penalizar Leonor e abrir mão do último desejo do amigo dela. Como o dinheiro acabou falando mais alto, Brian e Audrey abriram mão do último desejo do pai deles e, de quebra, abalaram definitivamente a amizade que Jake tinha com Antônio/Tony (Michael Barbieri).

Desta forma, Little Men reflete sobre os nossos tempos, quando o mais “normal” é “cada um por si”. Não existe mais o apreço pela generosidade e pela preservação de alguns valores importantes, como a palavra que foi dada e/ou a vontade de alguém que morreu. Ora, se o desejo do pai de Brian e Audrey era que a amiga dele, Leonor, ficasse na loja pagando menos que o mercado, mas o quanto ela podia, isso deveria valer algo, ou não? Não julgo Brian e Audrey, mas eles tem filhos e famílias por escolha própria, ninguém lhes obrigou a isso. Então eles não deveriam ser capazes de pagarem as suas próprias contas?

Faço estes comentários porque acho que às vezes buscamos a saída mais “fácil” para os nossos problemas. No caso de Brian e Audrey, claro que o mais fácil era despejar Leonor e cobrar três a quatro vezes mais de aluguel do próximo inquilino. Com isso, cada um teria um dinheiro extra no final do mês. Claro que também Leonor deveria se adequar ao mercado e, se não pode ficar no bairro em que estava, ir para um local mais adequado e/ou mudar a produção que ela tinha.

Tudo isso é verdade, mas sempre é possível se perguntar se não existiria uma saída melhor e mais humana para todos. A grande questão é que sempre temos escolhas na vida. Mas independente delas, Little Men explora muito bem o grande abismo que separa as nossas aspirações e a nossa rotina de quando somos jovens e ainda dependentes dos nossos pais e a realidade de quando temos que lidar com todas as contas e cobranças de uma vida adulta. A diferença é colossal, realmente, e o filme explora muito bem esta questão. A vida real é complicada, e ponto final.

Um filme que conta uma história graciosa, sobre família, amizade e a busca do desenvolvimento dos nossos talentos – esta última questão representada pela busca de Jake pelo desenho e de Tony pela atuação – e que, ainda por cima, nos faz pensar sobre os padrões da sociedade e as escolhas que fazemos, sem dúvida alguma, está bem acima da média. Destaco, em especial, a forma linear e de desenvolvimento “realista” da produção, com um roteiro bastante coerente e que atrai pela franqueza.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos destaques desta produção é o talento do elenco escolhido à dedo pelos realizadores. Todos estão muito bem, mas gostei, em especial, do trabalho dos jovens Theo Taplitz e Michael Barbieri. Os dois fazem um trabalho maravilhoso, bastante coerente com os seus respectivos personagens, e de bastante profundidade. Eles brilham na produção. Pouco a pouco, outros atores também vão ganhando destaque, como Greg Kinnear, Paulina García e Jennifer Ehle (que interpreta Kathy, mãe de Jake). Todos estão muito bem.

O diretor Ira Sachs trabalha muito bem ao valorizar a interpretação dos atores – as relações entre eles é parte fundamental desta produção – e ao buscar uma câmera que está presente, em muitos momentos, enquanto em outros ela está um tanto “ausente” (especialmente nas sequências que envolvem mais adolescentes, como nas escolas dos dois protagonistas). Nestes momentos de “câmera mais ausente” o diretor tenta capturar as interações verdadeiras entre os jovens, o que ajuda no tom “realista” da produção.

A personagem de Leonor é especialmente interessante. Ela sabe jogar muito bem com as pessoas em cena. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com inteligência, ela sabe tratar especialmente com Brian, tentando pegar nos “pontos fracos” do ator que não era respeitado pelo próprio pai. Há uma cena, em especial, intrigante nesta produção. Quando ela mostra diversas fotos dela com o pai de Brian. Nós não vemos as imagens, algo feito de forma proposital por Ira Sachs. Assim, fica apenas sugerido um possível “caso” e/ou romance entre Leonor e o pai de Brian. Da minha parte, acho sim que havia algo além de uma “bela amizade” entre os dois. O que torna o despejo dela ainda mais delicado.

Além dos atores já citados, vale comentar a super ponta de Alfred Molina como Hernan, amigo de Leonor e advogado dela; e Mauricio Bustamante dando um show como o professor de interpretação da classe de Tony e Jake. Da parte técnica do filme, destaque para a direção de fotografia de Óscar Durán; para a edição de Mollie Goldstein e Affonso Gonçalves; para o design de produção de Alexandra Schaller; para a direção de arte de Ramsey Scott; para a decoração de set detalhista de Emily Deason; para os figurinos coerentes de Eden Miller; e para a trilha sonora pontual de Dickon Hinchliffe.

O diretor americano Ira Sachs, que tem 52 anos e é natural da cidade de Menphis, tem 10 títulos no currículo como diretor antes de Little Men. Ele estreou em 1992 com Vaudeville, fez dois curtas (sendo um deles de documentário) e um segmento do filme Underground Zero antes de rodar Little Men. Nesta trajetória ele acumulou sete prêmios e foi indicado a outros 22. Parece um diretor humanista, que trata de temas de relevância tanto para as esferas social quanto pessoal. Não assisti a mais nenhum filme dele além deste que comentei acima.

Little Men teria custado US$ 2 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 702,5 mil. Ou seja, é um filme independente, com orçamento enxuto e com bilheteria magra até o momento. Tem agradado ao público e, especialmente, à crítica, mas ainda sem efeito positivo nas bilheterias. Realmente é uma produção mais de “nicho”.

Este filme foi totalmente rodado em Nova York, em locais como o Sunset Park, a Graham Avenue, o Bay Ridge e o Brooklyn Museum.

Agora, aquelas curiosidades tradicionais sobre cada filme. O ator Michael Barbieri foi aceito na Escola Superior de Música e Arte Fiorello H. LaGuardia depois que as filmagens de Little Men terminaram.

O jovem ator Theo Taplitz participa de curtas desde que estudava na quarta série. Ele recebeu destaque em diversos festivais de cinema que destacam o trabalho de jovens nos Estados Unidos desde então.

Mauricio Bustamante foi o professor de teatro de Michael Barbieri no tradicionalíssimo Lee Strasberg Theatre and Film Institute.

Little Men recebeu um prêmio e foi indicado a outros treze. O único prêmio que recebeu, até o momento, foi o Grande Prêmio Especial para Ira Sachs no Festival de Cinema de Deauville.

Esta é uma coprodução da Grécia, do Brasil e dos Estados Unidos. O capital brasileiro entrou na jogada por causa do roteirista brasileiro Mauricio Zacharias e dos produtores executivos Lourenço Sant’Anna e Rodrigo Teixeira. A lista de produtores, aliás, é bastante grande. Como estão no pacote Brasil e Estados Unidos, este filme entra na lista daqueles que atende a votações feitas aqui no blog há algum tempo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 119 críticas positivas e apenas três negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média 8. Especialmente a ótima avaliação da crítica chama a atenção. Bacana.

CONCLUSÃO: No cômputo geral, Little Men é um filme simples. Ele conta a história sobre a amizade marcante entre dois garotos e como esta amizade é ameaçada pelo conflito de adultos. Apesar desta ser a premissa básica da produção, ela ganha o espectador ao nos fazer refletir sobre questões mais profundas, como nossos valores e sonhos e como vamos mudando eles (ou os perdendo) pelo meio de muitos caminhos. A vida de adulto é muito mais complicada do que gostaríamos, e para muitos isso cobra diversos preços. Este é um filme singelo e interessante sobre o assunto. Recomendo.

Gloria

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Algumas buscas são, verdadeiramente, complicadas. Se você não é mais jovem, está sozinha e gosta de se divertir, é preciso ter muita coragem para procurar o que se deseja. Gloria é um filme que fala sobre uma mulher que não se cansa de buscar. Quer dizer, em certo momento, ela até se cansa. Mas depois, volta a mexer o esqueleto. Porque não dá para parar. Especialmente uma mulher como Gloria.

A HISTÓRIA: Toca uma música destas da era disco. Em um salão, muitos homens e mulheres de meia e “melhor” idade estão se divertindo dançando. A câmera vai se aproximando do bar, onde vemos a uma mulher de vestido preto, óculos e batom vermelho tomando um drink. Depois, esta mulher caminha entre as pessoas até encontrar com Joaquín. Então ela se apresenta: Gloria Cumplido (Paulina García). Ele a reconhece, mesmo que faz muito tempo que os dois não se encontram.

Ela calcula 10 ou 12 anos, desde que ela se separou do marido. Eles brindam e dançam, mas ela vai embora sozinha. Chegando em casa, ela retira um gato do vizinho do apartamento e tem dificuldade de dormir com os barulhos que o vizinho descontrolado faz. No dia seguinte, Gloria vai cantando de carro até o trabalho, de onde liga para os filhos. Em breve, em outra noite de dança no clube, ela vai conhecer a Rodolfo (Sergio Hernández), com quem vai começar uma nova relação.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Gloria): O grande trunfo deste filme, e disto eu não tenho nenhuma dúvida, é o roteiro escrito pelo diretor Sebastián Lelio junto com Gonzalo Maza. Que maravilha de texto! Nem tanto por causa dos diálogos, ainda que todos eles sejam bastante coerentes. Mas principalmente pela dinâmica da história e pela construção da personagem que dá título para o filme.

Gloria é uma mulher independente, que vive sozinha após ter se separado do marido e criado os dois filhos. Ela trabalha, para as próprias contas e sai em busca da felicidade sempre que tem uma chance. Assim, ela não se importa de ir sozinha até o baile, onde flerta com o homem que achar interessante. Sempre que é convidada, ela vai a encontros de amigos, onde ouve música, conversa e toma alguns drinks.

Em sua busca, Gloria também experimenta o yôga, faz dinâmica de teatro e canta no carro músicas conhecidas. É uma mulher fascinante, dona de si e do próprio nariz. Mas vive os dilemas da vida comum. Por exemplo, a “invasão” diária do próprio apartamento pelo gato do vizinho e pelos rompantes de descontrole de seu dono. Mesmo tendo amado os filhos e, aparentemente, ter ensinado a eles o valor da família e de serem independentes, Gloria tem que sempre tomar a dianteira e ligar para saber como eles estão.

Mesmo aparentemente sendo feliz com a própria independência, a protagonista desta história sente falta de um companheiro. Ou, ao menos, de ter sexo com frequência. Por isso, ela não se cansa de sair para conhecer novas pessoas. Sim, porque quando ela sai para dançar, não está saindo apenas para soltar o corpo e se divertir. Ela também flerta. E normalmente é Gloria que toma a atitude.

Por tudo isso, achei este filme tão interessante. Porque ele é realista. E conta a história comum de tantas mulheres de meia idade que casaram, criaram os filhos e, agora que eles são adultos e elas não tem mais um marido em casa para “cuidar”, buscam formas diferentes de se divertirem. E neste caminho, vão passando por distintos momentos de autodescoberta.

O roteiro, desta forma, é o ponto forte do filme. Junto com a convincente e encantadora interpretação da protagonista, a ótima Paulina García. Dito isso, só achei que o filme tem o azar de estar no meio de uma safra muito boa de produções de diversas partes do mundo que estão pré-cotadas para o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Sim, porque apesar de ser uma crônica interessante sobre este perfil de mulher adulta independente bem típico do nosso tempo, Gloria não tem a inventividade narrativa ou a força de estilo de outras produções desta safra.

Ainda assim, e falarei disso logo abaixo, ele está sempre cotado entre os favoritos para chegar na lista final do Oscar. Seria algo importante para o cinema chileno. E para valorizar o trabalho do diretor e roteirista Sebastián Lelio. Agora, voltando para a história de Gloria… achei interessante o choque de realidades entre a personagem principal deste filme e o personagem de Rodolfo, com quem ela engata um novo romance.

Gloria me parece ser o novo perfil de mulher chilena – perfil esse repetido em quase todas as partes do mundo: independente, dona de si, que não tem medo de tomar a iniciativa em uma festa para tentar conquistar um homem que lhe chamou a atenção. Mas Rodolfo é o modelo “antigo” (mas ainda muito presente, ao que tudo indica) de homem: aquele que assume integralmente a postura de provedor da casa, do qual a família deve depender. De quebra, e isso vamos percebendo com o desenrolar da história, ele me parece um sujeito bastante carente.

Para mim, é o modelo clássico do homem adulto: ele teve que assumir muitas responsabilidades ainda jovem e, aparentemente, não teve tempo de amadurecer emocionalmente. Não por acaso, após deixar a Marinha, Rodolfo abriu um parque onde as pessoas podem “brincar de fazer guerra” com o paintball. Separado da mulher há cerca de um ano, ele não consegue se desvencilhar da família – socorrendo a ex-mulher e as duas filhas sempre que possível. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aliás, uma dúvida que fica nesta história é até que ponto ele realmente se separou da ex-mulher. Ainda que ele estava morando sozinho, será que realmente não continuava tendo uma relação afetiva e amorosa com a ex?

Eu não me surpreenderia se a resposta para a última pergunta fosse “sim”. Mas isso, na verdade, pouco importa. Porque ele tem atitudes realmente desprezíveis com Gloria. Atitudes estas, especialmente a que ele toma no aniversário do filho dela, Pedro (Diego Fontecilla), que apenas reforçam a minha leitura de que ele era um homem bastante inseguro. Afinal, quem mais deixaria aquela casa daquele jeito e com aquela justificativa se não tivesse uma necessidade extrema de ser visto e valorizado? Certo que ele pode ter saído também por outras razões… mas há outros indicativos da insegurança.

No discurso e em algumas atitudes, Rodolfo deixa claro que quer iniciar uma nova vida. Ele insiste com Gloria que eles podem fazer isso juntos. Rodolfo explica, por exemplo, como procurou ser um “novo homem” ao buscar uma cirurgia de redução de estômago. Mas ele comprova que para mudar não basta alterar o próprio aspecto físico. Mais importante que isso é a mudança das atitudes.

Apesar de toda a insistência que ele tem com Gloria, sempre que ele é acionado por uma das filhas, Rodolfo cede. E a segunda vez que ele “abandona” Gloria… foi muito cruel. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ela, por sua parte, tem atitudes surpreendentes. Acredito que aquele foi o principal momento de surpresa da produção, juntamente com o momento em que ela resolve, sozinha, experimentar maconha em casa. Depois de ser abandonada no restaurante por Rodolfo, Gloria embarca em uma noite de exageros, regada por muita bebida e uma ficada divertida. Suas atitudes são de uma garota muito mais jovem. Sem dúvida, Gloria sabe aproveitar a vida.

A questão que fica deste filme, tenho certeza, é que grande parte da audiência vai se perguntar “até quando?”. Existe limite para alguém viver desfrutando a vida sem barreiras como Gloria parece estar fazendo? Uma mãe que tem os filhos crescidos e que será avó pela segunda vez pode ter aquelas atitudes? Tenho certeza que Lelio construiu este filme para levantar estas questões.

Da minha parte, não acho que Gloria esteja fazendo nada demais. Admiro mulheres que são responsáveis, cumpriram o seu papel e que não se cansam de buscar a felicidade. Como elas buscam isso é um problema delas, na minha opinião, desde que elas não estejam ferindo, machucando ou fazendo mal a ninguém. E, para mim, este é o caso de Gloria.

Ela continua sendo uma mãe amorosa e atenciosa. É independente porque trabalha, paga as próprias contas, mora sozinha e dirige para onde quiser. Ainda assim, ela sofre com os problemas da vida moderna – distância dos filhos, família desfeita, dificuldade em encontrar um novo parceiro, vizinho problemático. Mas sabe levar tudo com bastante suavidade. Olha de frente para as pessoas, conhecendo os artifícios que elas usam e, mesmo assim, buscando acreditar sempre outra vez que o amor é possível. Mesmo após uma desilusão, ela encontra forças e ânimo para se jogar em uma pista de dança. Grande mulher, e que sabe se divertir!

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Curioso o efeito deste filme. Logo depois que o assisti, achei que ele não era “nada demais”. Tinha até pensado em uma nota 9 para Gloria. Mas aí as horas foram passando e hoje, ao pensar na história escrita por Lelio e Maza, achei o filme mais interessante do que em uma primeira reflexão. A verdade é que, conforme eu fui me lembrando da história, ela me pareceu cada vez mais interessante e bem acabada. Por isso fui aumentando a nota até a avaliação acima.

Antes falei do essencial do filme, mas deixei de fora aquele trecho em que há uma troca de diálogo sobre o Chile atual. Infelizmente, o que para mim é uma vergonha, ainda não conheço o Chile pessoalmente. Mas tenho um bom amigo de lá e conheço outras pessoas deste país que é o meu fornecedor de vinhos preferido na América. 🙂 Conhecendo as pessoas que eu conheço de lá, a minha leitura do Chile é que este é um país de gente educada e engajada. Que se preocupam com a política e com os temas contemporâneos.

Pois bem, por tudo isso, achei bem interessante o diálogo entre Gloria, Rodolfo e os amigos dele, um sociólogo e a dona de uma loja. Eles falam de um Chile que não existe mais, que é uma cópia imperfeita do que já foi e, agora, contaminada pela cobiça. Rodolfo critica a falta de líderes, enquanto Gloria reclama dos preços altos. O sociólogo faz as declarações mais interessantes e elaboradas, inclusive sobre a “revolução mais espirital” da multidão que forma as redes sociais. Interessante.

A direção de Sebastián Lelio é firme e mostra convicção na tarefa de acompanhar de perto os detalhes da vida da protagonista desta história. Assim, a câmera dele está sempre próxima dela, focada em cada uma de suas manifestações e expressões. Um trabalho atento e dedicado, que mostra a clareza do diretor na busca pelo produto de seu roteiro.

Sem dúvida Paulina García é o grande nome deste Gloria. Mas mesmo que o filme seja dela, vale comentar que o ator que divide boa parte dos cenas com Paulina, Sergio Hernández, também faz um grande trabalho. Ele seduz, no mesmo passo que sua parceira de cena, com a mesma naturalidade e fragilidade. Muito interessante o que os dois atores conseguem desenvolver em cena.

Procurei alguma entrevista com o diretor de Gloria para saber o que ele pensava sobre este filme. Encontrei esta, em espanhol, na qual ele fala sobre a ótima recepção que o filme teve no Festival de Berlim. E ele comenta também a razão de ter escolhido o Dia das Mães para que Gloria estreasse no Chile: “Porque Gloria explora o arquétipo de uma mãe. E nos puxa pela mão para enfrentarmos aspectos deste arquétipo que, como sociedade, temos a tendência de tratar de forma evasiva ou com muito eufemismo: a mãe nua ou a mãe amante. Mas também aborda a ideia da mulher que se aproxima dos 60 anos com otimismo e com a cabeça erguida. Gloria é uma mulher que reivindica o direito de sua geração de seguir vivendo, amando e sentindo e isso (porque todos nós vamos chegar lá) é algo divino de ser visto”. Bacana.

Da parte técnica do filme, vale citar a direção de fotografia com tons sempre “cálidos” e meio envelhecidos de Benjamín Echazarreta e a edição cuidadosa de Lelio com Soledad Salfate. Gostei também da trilha sonora e das escolhas bem estudadas de cada música que faz parte deste filme, mas não encontrei o nome do responsável por este trabalho meticuloso e importante para a narrativa. Pena.

Este é o décimo filme no currículo de Sebastián Lelio. O diretor de 39 anos nascido em Santiago, a capital do Chile, começou a carreira com o curta 4, de 1995. Cinco anos depois, ele estrearia em longas com Smog. Dos 10 filmes que ele dirigiu até agora, cinco são longas e cinco são curtas. Destes, ele foi responsável por todos os roteiros, exceto por El Año del Tigre, de 2011.

Gloria estreou no Festival de Berlim em fevereiro deste ano. Depois, ele passou por outros 19 festivais – um número bem significativo. Nesta trajetória, ele recebeu seis prêmios e foi indicado a outros cinco. No Festival de Berlim, Gloria recebeu os prêmios de Melhor Atriz para Paulina García, o Prize of the Guild of German Art House Cinemas e o Prêmio do Júri Ecumênico. Este último foi dado pelo “apelo refrescante e contagiante (de Gloria) de que a vida é uma festa para a qual todos nós somos convidados, independentemente da idade ou condição social, e que sua complexidade só aumenta o desafio de vivê-la integralmente”. Outro prêmio relevante recebido pelo filme foi o entregue pelo National Board of Review, que colocou Gloria no Top 5 dos Filmes em Língua Estrangeira – ao lado de Jagten (comentado aqui), Dupa Dealuri, Yi Dai Zong Shi (comentado aqui) e Kapringen.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Gloria teve cenas rodadas em Santiago e em Viña del Mar, distante 123 quilômetros da capital chilena.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Gloria. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram ainda mais generosos, dedicando 24 textos positivos e apenas um negativo para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,1.

Gloria é uma coprodução do Chile e da Espanha.

CONCLUSÃO: Um filme bastante humano e atento a um tipo de personagem pouco mostrado pelo cinema. Gloria valoriza a mulher de meia idade – ou que já passou um pouco da meia idade – e que continua procurando o amor e aquilo que ela tem prazer de fazer. Não é por acaso que a atriz que protagoniza este filme ganhou alguns prêmios. Ela está perfeita, sem parecer artificial em nenhum momento. Por isso, esta produção parece tão legítima.

Certamente conhecemos alguém com o perfil de Gloria. E isso faz com que a história se aproxime das pessoas. Bem dirigido, com um roteiro que vai crescendo com o tempo e que guarda algumas pequenas surpresas no caminho, Gloria mostra que o cinema chileno tem valor e futuro. Para arrematar, em certo momento, o filme trata da própria sociedade daquele país, em um dos diálogos mais consistentes da produção. Vale a pena assistir, especialmente pelo roteiro tratar a personagem central com tanto respeito. Ainda assim, este não é o melhor filme em língua estrangeira da temporada.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Gloria chamou a minha atenção logo que comecei a pesquisar sobre a opinião dos especialistas em cinema e que acompanham as bolsas de apostas para o Oscar. Tanto na lista da crítica Anne Thompson quanto na de Peter Knegt, entre outros, o filme chileno aparece entre os favoritos para uma estatueta de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Como eu já havia assistido a outros dos principais concorrentes, tinha grande expectativa para ver ao filme de Sebastián Lelio e, assim, fechar a “coroa” dos favoritos. Pois bem, como eu já disse por aqui e repito, cinema é uma experiência muito, muito pessoal. Por isso mesmo, devo comentar que concordo com os críticos que Gloria é um belo filme, bastante interessante, diferente, e que merece ser visto.

Mas entre os filmes que eu assisti até agora, vejo Gloria correndo por fora na disputa pela estatueta dourada. Sem dúvida prefiro Jagten, The Broken Circle Breakdown, Wadjda e La Grande Bellezza antes de Gloria. Sendo assim, se eu acho que os filmes citados merecem estar na lista de cinco, Gloria não poderia figurar na última vaga? Até pode, mas daí acho que ele concorre de “igual para igual”, praticamente, com O Som ao Redor e Le Passé.

Pelo menos em temática da história e em profundidade dos enredos. Agora, se formos analisar o apuro técnico, Yi Dai Zong Shi levaria vantagem. Isso só para falar de alguns dos filmes mais citados pelos críticos. Ainda falta assistir a outros que estão concorrendo a uma vaga para que eu possa realmente bater o martelo. Mas agora, com o que eu vi, acho que Gloria até pode figurar entre os cinco indicados ao Oscar, mas vejo como muito, muito difícil este filme levar a estatueta.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Gloria ficou de fora da lista. Seguem na disputa os seguintes filmes: The Broken Circle Breakdown (Bélgica), An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina). Além de Gloria, outro filme que aparecia na lista dos especialistas como um dos favoritos, Le Passé, também ficou de fora. Interessante.