Please Stand By – Tudo que Quero

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Todos merecem o direito de sonhar. De desenvolver os seus talentos, mesmo que todas as pessoas ao redor achem que aquela pessoa não tem “nada demais” para oferecer. Please Stand By foca em uma protagonista diferente, que tem os seus próprios desafios cotidianos para enfrentar mas que, apesar deles, acredita em seu próprio potencial para fazer algo incrível. Uma bela homenagem para as pessoas que “fogem do comum” e para uma das franquias do cinema mais admiradas por quem gosta de ficção científica.

A HISTÓRIA: De olhos fechados, ela escuta algo no fone de ouvido. Em seguida, abre os olhos e começa a imaginar uma história que envolve o espaço. Em seguida, ela imagina Spock em seu último gesto de bravura e de sobrevivência. Wendy (Dakota Fanning) é fascinada por Star Trek e está trabalhando em uma história que envolve esse universo. Scottie (Toni Collette) chega ao trabalho e cumprimenta vários moradores da residência que abriga muitas pessoas com seus desafios particulares. Ela toca um apito e entra no quarto de Wendy, que responde com outro apito. Scottie então comenta que a irmã de Wendy virá para visitá-la, e ela pergunta como ela se sente a respeito. Wendy tem muitos desafios para enfrentar no dia a dia e, em breve, vai passar por uma grande aventura.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Please Stand By): Olá pessoal! Me desculpem a longa ausência. Mas tive Dia das Mães e muito trabalho nesse período. Assisti esse filme há umas duas semanas, então lembro do que eu vi, claro, mas sem toda aquela “vivacidade” que eu teria se tivesse conseguido tempo de escrever sobre Please Stand By antes. Peço desculpas por isso.

Assisti a esse filme sem grandes expectativas. Como vocês sabem, isso é algo importante. Pelo cartaz de Please Stand By, conclui, claro, que a produção fazia uma homenagem ou ao menos fazia uma bela referência para Star Trek. O que eu não sabia era que o filme teria um olhar tão generoso para pessoas “não comuns” da nossa realidade. Dizem que de médico e de louco todo mundo tem um pouco. Mas as pessoas nem sempre pensam sobre isso. Sobre como todos nós somos frágeis e podemos passar por dificuldades físicas ou mentais sem poder prever isso ou evitar que isso aconteça.

E quem define o que é “ser normal”? E quem disse que as pessoas diferentes e “especiais” não fazem a nossa civilização ser especial? Diferente do que alguns ditadores já tentaram defender na nossa História, não acho que ganhemos nada – absolutamente nada, na verdade – eliminando as pessoas que tem algum problema ou dificuldade, seja ela física ou mental. Todos nós podemos um dia passar por isso, e podemos aprender muito com as pessoas diferentes da gente ou que fogem da “normalidade”.

Mas para aprender com elas, é preciso ter um olhar cuidadoso, atento e generoso. Perceber que ninguém é melhor que ninguém e que todos tem o seu valor. Todos podem contribuir e devem ter o direito e sonhar e de buscar a própria superação. Não para ficarem parecidos com alguém ou para servirem de modelo seja para quem for. Mas para sentirem o prazer próprio desse gesto de superação – só alguém que já fez isso sabe do que estou falando.

O que eu achei bacana de Please Stand By é que esse filme trata com respeito e com carinho exatamente esse cenário não comum para muitas pessoas. Cada família tem a sua realidade e cada pessoa a sua trajetória. Talvez você nunca tenha conhecido ou convivido com uma pessoa que tem algum problema mental. Então para você esse filme será uma bela introdução – se assim você desejar, é claro – para esse universo diferenciado. Se você já conviveu ou convive com alguém que seja “diferente”, certamente essa produção fará um sentido todo especial.

O bonito desse filme dirigido por Ben Lewin e com roteiro de Michael Golamco é que ele trata com respeito e com um olhar afetuoso essa realidade sempre desafiadora de alguém que foge da “normalidade”. Wendy é a protagonista, mas conseguimos ver também as pessoas que orbitam ao redor dela. Assim, observamos também como as pessoas “normais” lidam com o que foge da sua compreensão. Alguns são mais generosos e atentos, outros, nem tanto. E isso não acontece apenas nesse filme, mas na vida real. Mas Please Stand By está aí para nos fazer pensar a respeito.

Gostei da sensibilidade e da naturalidade com que essa história é contada. Esse é um ponto forte do filme. No fim das contas, Please Stand By é a história de uma pessoa que busca realizar um sonho apesar de todos os elementos que jogam contra esse desejo e também um road movie. Acompanhamos a protagonista em sua jornada de superação, e esse tipo de história sempre é bacana de ser contada e de ser vista.

Um outro ponto alto desta produção é o belo trabalho dos atores. O destaque, claro, vai para Dakota Fanning como a protagonista. Ela convence no papel em cada detalhe da sua interpretação. Depois, ao lado dela, estão belos trabalhos de Toni Collette e Alice Eve (que vive a irmã mais velha de Wendy).

Além de ser uma produção sobre a jornada particular de uma pessoa diferenciada e que vive os seus próprios “dilemas” e “limitações” – não sou uma grande especialista, mas me parece que a protagonista é autista, certo? -, Please Stand By faz uma bela homenagem para o universo Star Trek. Wendy é apaixonada pelo universo do filme e da série de TV e, evidentemente, se sente “próxima” de Spock, que também deve enfrentar o desafio de lidar com as pessoas (como ela). Spock não entende muito bem os humanos, assim como precisa aprender a sentir. Desafios que parecem muito comuns com a protagonita de Please Stand By.

Alguns filmes, como o interessantíssimo documentário Life, Animated (comentado aqui), mostram como o cinema pode ajudar as pessoas a se encontrarem e a superarem os seus próprios dilemas. No fundo, o cinema nos aproxima – se você estiver disposto(a) a isso, é claro. Nos apresenta histórias, realidades e pontos de vista diferentes. E esse Please Stand By é um exemplo disso.

A história em si não é muuuuito surpreendente. A aventura de Wendy é linear e um bocado previsível, mas isso não importa tanto quanto a mensagem que o filme quer nos passar. De que todas as pessoas, como comentei antes, tem talentos, tem qualidades, limitações e o direito de sonhar e de realizar-se.

Mesmo quem se acha perfeito, certamente, tem algo que pode melhorar, tem algum defeito – ainda que não seja capaz de enxergar isso ao olhar-se no espelho. Então, devemos ser mais cuidadosos uns com os outros, mais generosos e ter mais respeito, especialmente com o que é diferente da gente. Esse tipo de mensagem é sempre bem-vindo, e isso é algo que esse filme faz.

Sobre a previsibilidade da história, como manda o clássico modelo de “trajetória do herói”, claro que Wendy tem que passar por uma série de desafios e de contratempos em sua jornada. Sim, o mundo nem sempre é simples. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Expulsam ela do ônibus porque ela está com um cachorro – porque, afinal, as regras são mais importantes que as pessoas, em muitos lugares – e ela é assaltada. Mas ela consegue terminar a jornada, superando-se. E no final, pouco importa se ela conseguiu ou não ser reconhecida pelo roteiro criado para Star Trek. O mais importante de uma viagem é o caminho e não o destino e/ou a vitória final.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse filme tem uma série de mensagens bacanas. Como que as pessoas diferentes e relativamente distantes podem se aproximar se tiverem uma motivação ou interesse para isso. Vemos isso no caso das irmãs Wendy e Audrey e também entre Scottie e o seu filho, Sam (River Alexander). Audrey percebe que a irmã consegue fazer muito mais do que ela imaginava, e que ela tem talento, enquanto Sam se aproxima da mãe quando ele decide viajar com ela para procurar Wendy. É Sam quem explica para a mãe a “graça” por trás de Star Trek. Bacana.

Como Sam resume com precisão na conversa que tem com a mãe no carro, a grande “graça” de Star Trek são os seus personagens. E, da mesma forma, a parte mais interessante de Please Stand By são também os personagens e os atores que foram escalados para a produção. Golamco acerta ao dar destaque para poucos personagens – assim, conseguimos nos aprofundar melhor neles, nas suas histórias e relações. Não adianta, é isso que dá a graça para uma produção.

Como comentei antes, Please Stand By tem uma série de qualidades. Só não dei uma nota maior para a produção porque ela é, temos que admitir, bastante previsível e não apresenta nenhuma grande “inovação” ou sacada diferenciada. Esse é um filme um pouco no estilo Sessão da Tarde. Não é mega recomendado, mas pode ser visto sem grandes pretensões e, desta forma, representar uma bela surpresa para o espectador. Cheio de boas mensagens e princípios, ele só não é surpreendente ou inovador. Por isso, acredito, merece uma nota boa, mas distante da avaliação máxima – essa nota é apenas para os filmes realmente imperdíveis.

O destaque dessa produção é o trabalho de Dakota Fanning como a protagonista. A atriz, que vem fazendo uma bela carreira desde a infância, demonstra como segue trilhando um belo caminho na profissão. Vejo ela como muito potencial para seguir fazendo ótimos trabalhos no futuro – se fizer as escolhas certas, é claro. Além dela, estão muito bem nos papéis secundários a veterana Toni Collette e Alice Eve.

Além deles, merece ser citado o bom trabalho, como coadjuvantes, de Tony Revolori como Nemo, o colega de Wendy na lanchonete e que tem uma “caidinha” por ela; e do veterano de séries e de pontas Patton Oswalt como o policial Frank, um fã de Star Trek que tem a sensibilidade de falar com Wendy em klingon – ou seja, ele foi a primeira pessoa a falar com ela de uma forma cuidadosa e bacana desde que ela começou a sua viagem para Hollywood. Outra veterana de pontas e de séries, a atriz Robin Weigert também merece ser citada pela ponta como a policial Doyle. Também vale citar o trabalho de Farrah Mackenzie como a jovem Wendy e de Madeleine Murden como a jovem Audrey.

O filme é bacana, cheio de boas intenções, mas me incomodou um pouco a forma com que ele “exagerou” um pouco na falta de sensibilidade das pessoas com Wendy. Ok que vivemos em uma época de muito individualismo e egoísmo, mas ninguém nunca ter se disposto a ajudá-la me pareceu um pouco exagerado – como quando ela não tem dinheiro para pagar um ônibus que a leve para a Paramount Pictures. Segundo esse filme, todos estão muito presos a regras e burocracias. Ainda que isso seja em parte verdade, acho que existe mais margem para o improviso e para a solidariedade no dia a dia do que o filme nos mostra.

Entre os elementos técnicos desse filme, vale destacar a trilha sonora de Heitor Pereira; a direção de fotografia de Geoffrey Simpson; o design de produção de John Collins; a direção de arte de Lindsey Moran; a decoração de set de Tamar Barnoon e os figurinos de Annie Bloom. Ben Lewin faz um bom trabalho na direção, mas não apresenta nada muito diferente da normalidade e do padrão.

Please Stand By estreou em outubro de 2017 no Festival de Cinema de Austin. Depois, o filme passou pelos festivais de Roma e da Virgínia. Nessa trajetória, o filme não foi indicado a nenhum prêmio.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. As falas trocadas entre Kirk e Spock na história criada por Wendy são as mesmas que os dois personagens falam no episódio The Tholian Web, de 1968.

As equipes de Star Trek Deep Space Nine e Star Trek Voyager nunca promoveram um concurso de roteiros. Ainda assim, elas permitiram que alguns fãs das séries escrevessem roteiros. Parte desse material foi, de fato, utilizado nas séries enquanto elas eram transmitidas.

As montanhas que aparecem nos sonhos de Wendy são as Vasquez Rocks localizadas em Agua Dulce, na Califórnia. Esse local foi usado, de fato, em diversos filmes e séries da grife Star Trek, inclusive no episódio Arena, de 1966.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 17 críticas positivas e 11 negativas para Please Stand By – ou seja, o filme tem uma aprovação de 61% e uma nota média de 5,8. No site Metacritic, o filme apresenta um metascore de 49, resultado de quatro críticas positivas, sete medianas e uma negativa. Ou seja, o filme é considerado mediano – o que é o meu parecer também.

Please Stand By é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, esse filme atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog, na qual os leitores podiam filmes desse país. Mais um para a lista, pois. 😉

CONCLUSÃO: Um filme singelo, mas muito bem conduzido e com atuações convincentes. Sempre bato palmas para produções que dão voz e que destacam pessoas especiais mas para quem muita gente não dá a mínima bola. Todos nascem com talentos e com capacidade, basta olharmos com um pouco mais de carinho e de generosidade para aqueles que são diferentes da gente. Please Stand By consegue fazer um cruzamento interessante de histórias ao mesmo tempo que presta uma bela homenagem para o próprio cinema e um clássico da ficção científica. Despretensioso, merece ser visto. Um filme leve e que, ao mesmo tempo, tem uma bela mensagem.

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The Grand Budapest Hotel – O Grande Hotel Budapeste

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Filmes que misturam a fantasia e a realidade e que buscam inovar sem disfarçar a homenagem ao cinema dos primeiros tempo são fascinantes. Muitas vezes mais pela proposta do que pelo resultado final. The Grand Budapest Hotel é uma destas produções que agrada pelo ritmo e pelas diversas referências. O problema é que este título surge após vários outros que traçaram caminhos parecidos e que utilizaram recursos similares para contar histórias cheias de fantasia. Assim, ele parece um tanto “repetitivo” em certa medida.

A HISTÓRIA: Inicia na fronteira europeia mais oriental, a ex-República de Zubrowka, que já foi trono de um Império. Uma garota entra no “antigo cemitério de Lutz”. Ela caminha sobre a neve, passa por alguns homens, e chega até um busto identificado com a inscrição “em memória do nosso tesouro nacional”. Coloca um chaveiro junto a outros pendurados, enquanto a câmera percorre o nome “Autor” e vemos a imagem de um senhor de bigode e óculos. A garota olha para a capa do livro que segura entre as mãos: O Grande Hotel Budapest. Na contracapa, a imagem do Autor (Tom Wilkinson). Corta. Em seguida, o Autor, em 1985, fala sobre a inspiração de escrever antes de explicar a origem da história de seu famoso livro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue lendo quem já assistiu a The Grand Budapest Hotel): Um grande elenco e um grande diretor sempre despertam uma expectativa considerável. Ouvi falar muito bem deste filme, e tendo assistido a ótimos trabalhos do diretor Wes Anderson, incluindo o último Moonrise Kingdom (comentado aqui), admito que eu estava esperando muito de The Grand Budapest Hotel. Infelizmente encontrei bastante “mais do mesmo”, e não consegui ficar impressionante com o resultado final desta produção.

A primeira sensação que eu tive enquanto os minutos da narrativa passavam é que Anderson havia feito mais um filme bem realizado tecnicamente, com bastante estilo e seguindo a linha de produções feitas por ele anteriormente, sabendo convencer um grande elenco para encarnar seus personagens, mas sem inovar muito na entrega. E não sei vocês, mas tenho um pouco de preguiça em ver um realizador repetindo a própria fórmula – algumas vezes, ao variar com ela, ele apena preserva uma assinatura, um estilo, mas quando até os detalhes são repetidos, o espectador fica com a sensação de déjà vu.

Mesmo tendo uma hora e meia de duração – que cada vez mais eu tenho achado perfeita para qualquer história no cinema -, The Grand Budapest Hotel pareceu mais longo que isso para mim. Talvez pelo design de produção burlesco e carregado do filme, ou porque achei a história escrita por Anderson e por Hugo Guinness um pouco carente de novidade… Mas o fato é que não fiquei tão envolvida com a produção quanto eu gostaria.

Achei o design de produção, a direção de fotografia, a direção de arte e os efeitos visuais dignos de aplausos. Mas tudo isso, a exemplo dos doces servidos por Agatha (Saoirse Ronan), me deram a impressão de muito glacê e pouco recheio. A história, que vamos saber apenas no final, foi inspirada nas obras do escritor Stefan Zweig, mistura humor, romance, algumas cenas inspiradas e uma narrativa que corre apressada em vários momentos de muita ação. A salada mista é valorizada por um ótimo elenco, mas só ganha interesse real quando fazemos um paralelo de tudo que vimos com a história de Zweig.

E esse é o ponto fundamental para a nota abaixo. Mais que a qualidade técnica do filme, o que me fez achar The Grand Budapest Hotel interessante foi refletir sobre o que eu tinha visto fazendo um paralelo com o escritor austríaco que decidiu matar-se no Brasil, onde vivia, após ficar desiludido com os rumos que o mundo estava tomando. Daí sim, pensando nisso, este filme passa a ganhar outras tintas.

Quem olha apenas para a cobertura cheia de glacê de The Grand Budapest Hotel vê somente o apuro visual e as interpretações inspiradas do elenco, com destaque para a dobradinha da dupla Ralph Fiennes (como o concierge original do hotel, o Monsier Gustave, ) e Tony Revolori (como o mensageiro, o “lobby boy”, Zero).

Mas a homenagem nos créditos finais fazem a produção ter um outro sabor, escondido por baixo de tanto glacê. Apesar de divertido em muitos momentos, romântico em alguns lampejos e veloz durante os momentos de ação, The Grand Budapest Hotel é um filme sobre princípios e sobre a poesia que resiste em momentos em que a realidade toda parece dominada pela crueldade.

Para começar, fica ainda mais interessante a “introdução” feita pelo Autor que aparece no filme. De fato, Zweig sempre foi inspirado por histórias reais que ele ouviu de outras pessoas e, especialmente, pelas próprias vivências, paisagens e pessoas que ele encontrou pelos diferentes lugares por onde esteve. Quem vive da arte, seja ela escrita, filmada ou cheia de acordes, sabe o quanto a inspiração surge após grande observação, muita audição, sensibilidade nos tratos e trabalho duro. Com Zweig, como com tantos outros, foi assim.

Depois, não por acaso The Grand Budapest Hotel tem como pano de fundo uma história que remonta a uma cidade fictícia no leste europeu no ano de 1932. A manchete de um jornal mostrado no filme pergunta se haverá guerra e noticia a chegada de tanques na fronteira – isso pouco antes de M. Gustave saber da morte da condessa Madame D. (a ótima Tilda Swinton em uma caracterização perfeita) e decidir ir no velório dela.

Apesar da história se passar entre os momentos históricos da Primeira e da Segunda Guerra Mundiais, fica evidente a alusão do roteiro à elas. Especialmente por Zweig, nascido em Viena em 1881, teve a vida definitivamente marcada por estes conflitos. Antes da Primeira Guerra eclodir, o escritor já era conhecido por suas longas viagens e por seus escritos a partir das experiências vividas nelas. Quando estoura o primeiro conflito mundial, ele é pego de surpresa na Bélgica. Consegue voltar para Viena, mas é recrutado como “voluntário” para trabalhar no arquivo de guerra (como bem conta este resumo sobre a vida do autor).

Durante o período de guerra, ele consegue escapar do serviço “voluntário” e compra uma casa na montanha (daí teria surgido a inspiração para o cenário do Hotel Budapeste?), antes de lançar ideias pacifistas no drama Jeremias, de 1917. Judeu, ele se alia a vários autores que defendem a paz, mas acaba sendo perseguido pelos nazistas muito antes da Segunda Guerra Mundial – em 1933, como afirma aquele resumo citado logo acima, os nazistas fazem uma grande queima de livros em Berlim, incluindo obras de Zweig.

Três anos depois, o escritor faz a sua primeira viagem para o Brasil. Pouco antes do início do segundo conflito mundial, Zweig se muda para a cidade de Bath, no sudoeste da Inglaterra, onde ele se casa com Lotte. Conforme a Segunda Guerra vai evoluindo, Zweig fica pouco a pouco mais deprimido. Em 1941, ele e a mulher se mudam para o Brasil, onde cometeriam suicídio um ano depois. Em The Grand Budapest Hotel o horror com a guerra e a presença angustiando da vilania fica evidente.

Claro que o mal, no roteiro de Anderson, não está simbolizado apenas pelos homens de farda que não perdem nenhuma oportunidade em perseguir o imigrante judeu Zero. A maldade está também na cobiça, representada por Dmitri (Adrien Brody), herdeiro de Madame D. e que não aceita repartir nada da riqueza da mulher com M. Gustave; e também na crueldade do capataz de Dmitri, o impassível Jopling (Willem Dafoe em um grande trabalho).

O contexto de invasão militar vai aparecendo aos poucos no filme, até que ele se consolida com a “ocupação” dos homens que lembram os nazistas no hotel. Mas antes e depois deste ponto, em duas sequências no trem, a mensagem de indignação de Zweig ficam muito evidentes.

Primeiro, nas ações do militar Henckels (Edward Norton), que faz lembrar os nazistas, mas que era, na verdade, da “milícia de Lutz”. Ele não deveria aceitar imigrantes, mas abre uma exceção para Zero por causa da amizade com M. Gustave (e sabemos que a amizade contava muito naqueles tempos). E depois, na truculência de um outro militar, desta vez um homem que tinha traços russos, mas que claramente era do grupo que usava uma identificação parecida com a suástica. Ele ignora a permissão dada por Henckels e acaba com a “ousadia” de M. Gustave.

Para mim, Zweig está representado em três personagens: no Autor, em M. Gustave e em Zero. No primeiro, por uma razão evidente: o Autor fala de seu trabalho e é relembrado gerações após gerações. No segundo, por causa da sensibilidade do personagem, um homem que é pacifista e que defende o direito de qualquer pessoa em ter liberdade e ter oportunidades, sendo valorizada conforme se dedica ao trabalho e a melhorar. E no caso de Zero, por ele ser judeu, perseguido, ávido por novidades e por aprender, e por ter uma história bonita de romance com Agatha – a exemplo de Zweig com Lotte. Mas cada um destes personagens pode ter sido apenas inspirado por Zweig, sem a intenção que nenhum deles representasse o autor.

Seja pelo paralelo com o escritor, seja pela bonita intenção de colocar poesia e sensibilidade mesmo em ambientes tão sórdidos e cheios de perseguição, The Grand Budapest Hotel acaba se revelando uma obra mais interessante quando você pensa nela. Durante a vivência do filme, apenas o espetáculo visual sobressai, junto com o trabalho dos atores. Depois, com o tempo, é que vamos degustando o restante dos sabores da produção.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vários aspectos técnicos do filme se sobressaem. Os principais destaques já foram citados acima, mas agora vale dar o nome dos responsáveis. Impecável o design de produção de Adam Stockhausen; belíssima a direção de arte comandada por Stephan O. Gessler e com a ajuda de Gerald Sullivan e Steve Summersgill; bacana a decoração de set de Anna Pinnock e os figurinos de Milena Canonero. Vale destacar, ainda, o excelente trabalho do departamento de maquiagem composto por 25 profissionais e o departamento de arte com dezenas de outros artistas de talento.

Para ajudar na dinâmica do filme, fundamentais as contribuições do editor Barney Pilling, que tem aqui um trabalho meticuloso, e do diretor de fotografia Robert D. Yeoman. O veterano Alexandre Desplat tem um trabalho exemplar com a trilha sonora, que aparece em momentos pontuais, sempre para ressaltar o humor ou o suspense da história.

Este é mais um bom trabalho do estiloso diretor e roteirista Wes Anderson. Nascido no Texas, ele tem filmes muito interessantes no currículo. Vale ter o trabalho acompanhado. Ainda que, espero, ele venha com um pouco mais de ousadia e inovação de uma próxima vez.

The Grand Budapest Hotel estreou no Festival de Berlim em fevereiro deste ano. Depois, o filme participaria ainda de outros quatro festivais. Nesta trajetória, conquistou três prêmios e foi indicado a outros dois. O mais importante que ele recebeu foi o Urso de Prata de Grande Prêmio do Júri para Wes Anderson no Festival de Berlim. A produção também saiu vencedora como Melhor Figurino do prêmio entregue pelo Sindicato Nacional Italiano de Jornalista de Cinema e no prêmio de Melhores Gráficos em um Comercial de TV no Prêmio Golden Trailer.

Este filme foi totalmente rodado na Alemanha e na Polônia. No primeiro país, houve cenas rodadas em diferentes cidades da Saxônia e em Berlim; e no segundo, na Cracóvia.

E uma curiosidade sobre a produção: o nome da fictícia república de Zubrowka foi inspirado na vodca polonesa Zubrowka.

Wes Anderson rodou o filme em três formatos diferentes (1.37, 1.85 e 2.35:1) para demarcar ainda melhor e de forma visual os três períodos diferentes em que a história é ambientada: 1985, 1968 e 1930.

O elenco deste filme impressiona. É um desfile de nomes conhecidos. E ainda que um deles se destaque, o de Ralph Fiennes como M. Gustave, não deixa de ser marcante a forma com que o desconhecido Tony Revolori se destaca em um elenco tão estelar. O rapaz de 18 anos natural de Anaheim, na Califórnia, e que até este filme tinha estrelado principalmente curtas e episódios de séries televisivas, faz um dueto de rara sintonia com Fiennes. Com isso, ele se destaca.

Mas além dos dois, vale citar o ótimo trabalho de F. Murray Abraham como Mr. Moustafa (o Zero envelhecido); Mathieu Amalric como Serge X., empregado de Madame D. e que acaba tendo grande relevância na história por guardar os segredos da mulher assassinada; Adrien Brody como o vilão Dmitri; Willem Dafoe rouba a cena como o sanguinário Jopling; e Jude Law ganha relevância como o escritor quando jovem. Mesmo em papéis menores, vale citar os bons trabalhos de Jeff Goldblum como o advogado perseguido Kovacs; Harvey Keitel como o presidiário Ludwig; e Bill Murray como M. Ivan, da rede de concierges que ajudam M. Gustave. Fazem pontas também Jason Schwartzman, Léa Seydoux, Owen Wilson, Bob Balaban, entre outros.

De acordo com o site Box Office Mojo, The Grand Budapest Hotel teria faturado pouco menos de US$ 58,8 milhões apenas nos Estados Unidos, e outros US$ 108 milhões nos demais mercados em que o filme estreou até o momento. Mesmo sem informações sobre o custo da produção, estes não me parecem resultados ruins.

Esta produção conseguiu uma nota impressionante no site IMDb. Considerando, claro, o padrão normalmente visto naquele banco de dados sobre cinema: 8,3. Essa é uma excelente avaliação! Além disso, os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 205 textos positivos e apenas 19 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,4.

Ah sim, e antes falei que este filme faz lembrar vários outros… Para começar, basta olhar na própria filmografia de Wes Anderson. E depois, vale conferir clássicos recentes do cinema, como Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain. Mesmo bebendo de várias fontes, é fascinante ver como Anderson utiliza bem a tecnologia moderna e enquadramentos antigos, dos primeiros filmes do cinema, ainda na era preto e branco. Bela homenagem, e com muita propriedade.

Este filme é uma coprodução dos Estados Unidos com a Alemanha. Assim sendo, ele entra na lista de filmes dos Estados Unidos, eleito como um dos países que merecia uma série de críticas aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um indicativo sobre o impacto que um filme teve para mim é a vontade que eu tenho de escrever sobre ele logo após o fim da produção. Quando terminei de ver a The Grand Budapest Hotel, admito que não tive um grande interesse de falar sobre ele por aqui. Sinal de que esta produção não me pareceu tão boa quanto poderia. E essa é a vida. O cinema é feito de percepções, vivência e momentos. Refletindo mais sobre o filme depois, percebi que esta produção é interessante se nos focamos mais na homenagem feita para Stefan Zweig e sua obra. Mas descontada essa reverência, há pouco de novo nesta produção. De qualquer forma, vale dizer que ela é bem acabada, com bons princípios e tem qualidade. Que fica mais evidente quando refletimos no paralelo com Zweig. Vale ser conferido sob esta ótica.