Please Stand By – Tudo que Quero

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Todos merecem o direito de sonhar. De desenvolver os seus talentos, mesmo que todas as pessoas ao redor achem que aquela pessoa não tem “nada demais” para oferecer. Please Stand By foca em uma protagonista diferente, que tem os seus próprios desafios cotidianos para enfrentar mas que, apesar deles, acredita em seu próprio potencial para fazer algo incrível. Uma bela homenagem para as pessoas que “fogem do comum” e para uma das franquias do cinema mais admiradas por quem gosta de ficção científica.

A HISTÓRIA: De olhos fechados, ela escuta algo no fone de ouvido. Em seguida, abre os olhos e começa a imaginar uma história que envolve o espaço. Em seguida, ela imagina Spock em seu último gesto de bravura e de sobrevivência. Wendy (Dakota Fanning) é fascinada por Star Trek e está trabalhando em uma história que envolve esse universo. Scottie (Toni Collette) chega ao trabalho e cumprimenta vários moradores da residência que abriga muitas pessoas com seus desafios particulares. Ela toca um apito e entra no quarto de Wendy, que responde com outro apito. Scottie então comenta que a irmã de Wendy virá para visitá-la, e ela pergunta como ela se sente a respeito. Wendy tem muitos desafios para enfrentar no dia a dia e, em breve, vai passar por uma grande aventura.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Please Stand By): Olá pessoal! Me desculpem a longa ausência. Mas tive Dia das Mães e muito trabalho nesse período. Assisti esse filme há umas duas semanas, então lembro do que eu vi, claro, mas sem toda aquela “vivacidade” que eu teria se tivesse conseguido tempo de escrever sobre Please Stand By antes. Peço desculpas por isso.

Assisti a esse filme sem grandes expectativas. Como vocês sabem, isso é algo importante. Pelo cartaz de Please Stand By, conclui, claro, que a produção fazia uma homenagem ou ao menos fazia uma bela referência para Star Trek. O que eu não sabia era que o filme teria um olhar tão generoso para pessoas “não comuns” da nossa realidade. Dizem que de médico e de louco todo mundo tem um pouco. Mas as pessoas nem sempre pensam sobre isso. Sobre como todos nós somos frágeis e podemos passar por dificuldades físicas ou mentais sem poder prever isso ou evitar que isso aconteça.

E quem define o que é “ser normal”? E quem disse que as pessoas diferentes e “especiais” não fazem a nossa civilização ser especial? Diferente do que alguns ditadores já tentaram defender na nossa História, não acho que ganhemos nada – absolutamente nada, na verdade – eliminando as pessoas que tem algum problema ou dificuldade, seja ela física ou mental. Todos nós podemos um dia passar por isso, e podemos aprender muito com as pessoas diferentes da gente ou que fogem da “normalidade”.

Mas para aprender com elas, é preciso ter um olhar cuidadoso, atento e generoso. Perceber que ninguém é melhor que ninguém e que todos tem o seu valor. Todos podem contribuir e devem ter o direito e sonhar e de buscar a própria superação. Não para ficarem parecidos com alguém ou para servirem de modelo seja para quem for. Mas para sentirem o prazer próprio desse gesto de superação – só alguém que já fez isso sabe do que estou falando.

O que eu achei bacana de Please Stand By é que esse filme trata com respeito e com carinho exatamente esse cenário não comum para muitas pessoas. Cada família tem a sua realidade e cada pessoa a sua trajetória. Talvez você nunca tenha conhecido ou convivido com uma pessoa que tem algum problema mental. Então para você esse filme será uma bela introdução – se assim você desejar, é claro – para esse universo diferenciado. Se você já conviveu ou convive com alguém que seja “diferente”, certamente essa produção fará um sentido todo especial.

O bonito desse filme dirigido por Ben Lewin e com roteiro de Michael Golamco é que ele trata com respeito e com um olhar afetuoso essa realidade sempre desafiadora de alguém que foge da “normalidade”. Wendy é a protagonista, mas conseguimos ver também as pessoas que orbitam ao redor dela. Assim, observamos também como as pessoas “normais” lidam com o que foge da sua compreensão. Alguns são mais generosos e atentos, outros, nem tanto. E isso não acontece apenas nesse filme, mas na vida real. Mas Please Stand By está aí para nos fazer pensar a respeito.

Gostei da sensibilidade e da naturalidade com que essa história é contada. Esse é um ponto forte do filme. No fim das contas, Please Stand By é a história de uma pessoa que busca realizar um sonho apesar de todos os elementos que jogam contra esse desejo e também um road movie. Acompanhamos a protagonista em sua jornada de superação, e esse tipo de história sempre é bacana de ser contada e de ser vista.

Um outro ponto alto desta produção é o belo trabalho dos atores. O destaque, claro, vai para Dakota Fanning como a protagonista. Ela convence no papel em cada detalhe da sua interpretação. Depois, ao lado dela, estão belos trabalhos de Toni Collette e Alice Eve (que vive a irmã mais velha de Wendy).

Além de ser uma produção sobre a jornada particular de uma pessoa diferenciada e que vive os seus próprios “dilemas” e “limitações” – não sou uma grande especialista, mas me parece que a protagonista é autista, certo? -, Please Stand By faz uma bela homenagem para o universo Star Trek. Wendy é apaixonada pelo universo do filme e da série de TV e, evidentemente, se sente “próxima” de Spock, que também deve enfrentar o desafio de lidar com as pessoas (como ela). Spock não entende muito bem os humanos, assim como precisa aprender a sentir. Desafios que parecem muito comuns com a protagonita de Please Stand By.

Alguns filmes, como o interessantíssimo documentário Life, Animated (comentado aqui), mostram como o cinema pode ajudar as pessoas a se encontrarem e a superarem os seus próprios dilemas. No fundo, o cinema nos aproxima – se você estiver disposto(a) a isso, é claro. Nos apresenta histórias, realidades e pontos de vista diferentes. E esse Please Stand By é um exemplo disso.

A história em si não é muuuuito surpreendente. A aventura de Wendy é linear e um bocado previsível, mas isso não importa tanto quanto a mensagem que o filme quer nos passar. De que todas as pessoas, como comentei antes, tem talentos, tem qualidades, limitações e o direito de sonhar e de realizar-se.

Mesmo quem se acha perfeito, certamente, tem algo que pode melhorar, tem algum defeito – ainda que não seja capaz de enxergar isso ao olhar-se no espelho. Então, devemos ser mais cuidadosos uns com os outros, mais generosos e ter mais respeito, especialmente com o que é diferente da gente. Esse tipo de mensagem é sempre bem-vindo, e isso é algo que esse filme faz.

Sobre a previsibilidade da história, como manda o clássico modelo de “trajetória do herói”, claro que Wendy tem que passar por uma série de desafios e de contratempos em sua jornada. Sim, o mundo nem sempre é simples. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Expulsam ela do ônibus porque ela está com um cachorro – porque, afinal, as regras são mais importantes que as pessoas, em muitos lugares – e ela é assaltada. Mas ela consegue terminar a jornada, superando-se. E no final, pouco importa se ela conseguiu ou não ser reconhecida pelo roteiro criado para Star Trek. O mais importante de uma viagem é o caminho e não o destino e/ou a vitória final.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse filme tem uma série de mensagens bacanas. Como que as pessoas diferentes e relativamente distantes podem se aproximar se tiverem uma motivação ou interesse para isso. Vemos isso no caso das irmãs Wendy e Audrey e também entre Scottie e o seu filho, Sam (River Alexander). Audrey percebe que a irmã consegue fazer muito mais do que ela imaginava, e que ela tem talento, enquanto Sam se aproxima da mãe quando ele decide viajar com ela para procurar Wendy. É Sam quem explica para a mãe a “graça” por trás de Star Trek. Bacana.

Como Sam resume com precisão na conversa que tem com a mãe no carro, a grande “graça” de Star Trek são os seus personagens. E, da mesma forma, a parte mais interessante de Please Stand By são também os personagens e os atores que foram escalados para a produção. Golamco acerta ao dar destaque para poucos personagens – assim, conseguimos nos aprofundar melhor neles, nas suas histórias e relações. Não adianta, é isso que dá a graça para uma produção.

Como comentei antes, Please Stand By tem uma série de qualidades. Só não dei uma nota maior para a produção porque ela é, temos que admitir, bastante previsível e não apresenta nenhuma grande “inovação” ou sacada diferenciada. Esse é um filme um pouco no estilo Sessão da Tarde. Não é mega recomendado, mas pode ser visto sem grandes pretensões e, desta forma, representar uma bela surpresa para o espectador. Cheio de boas mensagens e princípios, ele só não é surpreendente ou inovador. Por isso, acredito, merece uma nota boa, mas distante da avaliação máxima – essa nota é apenas para os filmes realmente imperdíveis.

O destaque dessa produção é o trabalho de Dakota Fanning como a protagonista. A atriz, que vem fazendo uma bela carreira desde a infância, demonstra como segue trilhando um belo caminho na profissão. Vejo ela como muito potencial para seguir fazendo ótimos trabalhos no futuro – se fizer as escolhas certas, é claro. Além dela, estão muito bem nos papéis secundários a veterana Toni Collette e Alice Eve.

Além deles, merece ser citado o bom trabalho, como coadjuvantes, de Tony Revolori como Nemo, o colega de Wendy na lanchonete e que tem uma “caidinha” por ela; e do veterano de séries e de pontas Patton Oswalt como o policial Frank, um fã de Star Trek que tem a sensibilidade de falar com Wendy em klingon – ou seja, ele foi a primeira pessoa a falar com ela de uma forma cuidadosa e bacana desde que ela começou a sua viagem para Hollywood. Outra veterana de pontas e de séries, a atriz Robin Weigert também merece ser citada pela ponta como a policial Doyle. Também vale citar o trabalho de Farrah Mackenzie como a jovem Wendy e de Madeleine Murden como a jovem Audrey.

O filme é bacana, cheio de boas intenções, mas me incomodou um pouco a forma com que ele “exagerou” um pouco na falta de sensibilidade das pessoas com Wendy. Ok que vivemos em uma época de muito individualismo e egoísmo, mas ninguém nunca ter se disposto a ajudá-la me pareceu um pouco exagerado – como quando ela não tem dinheiro para pagar um ônibus que a leve para a Paramount Pictures. Segundo esse filme, todos estão muito presos a regras e burocracias. Ainda que isso seja em parte verdade, acho que existe mais margem para o improviso e para a solidariedade no dia a dia do que o filme nos mostra.

Entre os elementos técnicos desse filme, vale destacar a trilha sonora de Heitor Pereira; a direção de fotografia de Geoffrey Simpson; o design de produção de John Collins; a direção de arte de Lindsey Moran; a decoração de set de Tamar Barnoon e os figurinos de Annie Bloom. Ben Lewin faz um bom trabalho na direção, mas não apresenta nada muito diferente da normalidade e do padrão.

Please Stand By estreou em outubro de 2017 no Festival de Cinema de Austin. Depois, o filme passou pelos festivais de Roma e da Virgínia. Nessa trajetória, o filme não foi indicado a nenhum prêmio.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. As falas trocadas entre Kirk e Spock na história criada por Wendy são as mesmas que os dois personagens falam no episódio The Tholian Web, de 1968.

As equipes de Star Trek Deep Space Nine e Star Trek Voyager nunca promoveram um concurso de roteiros. Ainda assim, elas permitiram que alguns fãs das séries escrevessem roteiros. Parte desse material foi, de fato, utilizado nas séries enquanto elas eram transmitidas.

As montanhas que aparecem nos sonhos de Wendy são as Vasquez Rocks localizadas em Agua Dulce, na Califórnia. Esse local foi usado, de fato, em diversos filmes e séries da grife Star Trek, inclusive no episódio Arena, de 1966.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 17 críticas positivas e 11 negativas para Please Stand By – ou seja, o filme tem uma aprovação de 61% e uma nota média de 5,8. No site Metacritic, o filme apresenta um metascore de 49, resultado de quatro críticas positivas, sete medianas e uma negativa. Ou seja, o filme é considerado mediano – o que é o meu parecer também.

Please Stand By é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, esse filme atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog, na qual os leitores podiam filmes desse país. Mais um para a lista, pois. 😉

CONCLUSÃO: Um filme singelo, mas muito bem conduzido e com atuações convincentes. Sempre bato palmas para produções que dão voz e que destacam pessoas especiais mas para quem muita gente não dá a mínima bola. Todos nascem com talentos e com capacidade, basta olharmos com um pouco mais de carinho e de generosidade para aqueles que são diferentes da gente. Please Stand By consegue fazer um cruzamento interessante de histórias ao mesmo tempo que presta uma bela homenagem para o próprio cinema e um clássico da ficção científica. Despretensioso, merece ser visto. Um filme leve e que, ao mesmo tempo, tem uma bela mensagem.

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Logan Lucky – Logan Lucky, Roubo em Família

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O diretor Steven Soderbergh tem uma fixação: filmes sobre roubos. Mais uma vez ele nos apresenta uma história destas em Logan Lucky. Só que, desta vez, ele resolve focar na “América profunda”, em um estilo de produção que estamos acostumados a ver com os irmãos Coen. Mais uma vez, Soderbergh se esforça. Mas já vimos a tantas histórias parecidas… no final, ficamos com aquela sensação de “eu já vi isso antes”. Ainda assim, claro, o roteiro é bacaninha, com alguns diálogos e sacadas bacanas, apesar de ser bem previsível. E os atores são a melhor parte do filme.

A HISTÓRIA: Enquanto conserta o carro, Jimmy Logan (Channing Tatum) fala de forma frenética. Ele conta para a filha, Sadie (Farrah Mackenzie), que o está ajudando na tarefa do conserto, uma história sobre um de seus ídolos, o cantor e compositor John Denver. A menina escuta tudo atentamente e descobre que o pai gosta de músicas “que tenham história”. Sadie diz que a mãe dela pensou em pagar a conta do celular dele, porque volta e meia ele está com a conta atrasada e, consequentemente, não consegue receber chamadas. Jimmy diz que tem o celular apenas para fazer fotos da filha. Em breve, ele vai ficar desempregado e acaba acionando um plano ousado de roubo que envolve os seus dois irmãos e alguns conhecidos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Logan Lucky): A melhor qualidade desta produção, de longe, é o seu elenco. Ótimos atores e desempenhando papéis bem diferentes – no geral – do que estamos acostumados a vê-los. Daniel Craig, em especial, está ótimo. Como um presidiário bem tatuado e com todas as características que esperamos de um presidiário americano, Craig parece tirar sarro de seu papel de James Bond.

Ao menos eu não consegui olhar para ele em Logan Lucky e não pensar nisso, em como o seu papel como Joe Bang é o oposto do personagem clássico do cinema que ele interpreta desde 2006. Então sim, os ótimos atores em cena é o que fazem Logan Lucky ser um pouco interessante. O roteiro de Rebecca Blunt também começa bem. Parece que ela fez várias aulas com os irmãos Joel e Ethan Coen – eles sim especializados em tratar da “América profunda” e de seus “bandidos e mocinhos” caipiras.

Então, rapidamente percebemos que Logan Lucky segue um pouco a linha de filmes dos Coen como Fargo – mas sem tanto refinamento e inteligência, é bom dizer. Logan Lucky logo demonstra que o roteiro de Rebecca Blunt vai desbravar a seara da verborragia do interior dos Estados Unidos, com todos os seus sotaques e “conversa jogada fora” que, volta e meia, algum roteirista/cineasta norte-americano gosta de apresentar. Mas em uma época como esta, em que temos um presidente como Donald Trump no poder, não deixa de ser curioso voltarmos para este tipo de filme.

Afinal, reza a lenda que figuras como o protagonista Jimmy Logan é que teriam eleito Donald Trump. Ou seja, homens brancos, desempregados e desiludidos com a “falta de protagonismo” dos Estados Unidos. Pessoas mais preocupadas em voltar a ter emprego e dinheiro na conta do que em política externa, discutir as armas sendo vendidas livremente no país ou planos de saúde. Bem, o foco deste filme é justamente esse perfil de americanos. Pessoas que vivem as suas vidas da melhor forma possível, muito patriotas, mas nem sempre corretos.

A impressão que Logan Lucky nos dá, conforme a história vai avançando, é que não apenas o brasileiro é chegado em um “jeitinho” para resolver os seus próprios problemas. Mas, claro, nesta versão americana de “jeitinho”, o “herói” da história até tenta ser correto. Procura trabalhar, se esforça em manter as contas em dia, mas o “sistema” não lhe deixa ser um cara correto. Então a lei e a noção do que é certo e correto são facilmente ignorados quando o protagonista desta história fica desempregado e vê a ex-mulher Bobbie Jo Champman (a assustadoramente apagada Katie Holmes) ameaçar levar a filha do casal para um Estado vizinho.

Ex-promessa/astro juvenil do futebol americano, Jimmy Logan procura se sustentar com trabalhos dignos mas que pagam pouco. Ele faz parte de uma família sobre a qual, segundo o irmão de Jimmy, Clyde (o sempre competente Adam Driver), pesa uma maldição. Ao menos esta é a teoria de Clyde, um barman que perdeu parte do braço e a mão em uma de suas incursões no Iraque.

Aliás, o roteiro de Rebecca Blunt poderia ser menos descaradamente americano? Ela pega um ex-jogador de futebol americano que fazia sucesso quando era jovem mas que, hoje, não tem mais o brilho de antigamente, e coloca ele como irmão de um ex-veterano ferido no Iraque. Para completar a família Logan, temos a irmão de Jimmy e de Clyde, a cabeleireira Mellie (a interessante Riley Keough). Ou seja, toda a família é classe média média americana, todos com perfil perfeito para cair nas “graças” dos eleitores de Donald Trump – digo tudo isso generalizando, é claro.

Bem, os personagens até são interessantes. Os atores, em especial, fazem um grande trabalho. Todos os que eu citei até agora – menos Katie Holmes -, incluindo Channing Tatum, estão muito bem em seus papéis. Mas o problema é mesmo o roteiro previsível e cheio de lugares-comum de Rebecca Blunt e a direção preguiçosa de Steven Soderbergh – este é o ano, parece, de bons diretores fazerem trabalhos apenas medianos, vide Darren Aronofsky com o divisor de opiniões do ano Mother! – que eu comentei por aqui.

Ainda que o começo do filme seja interessante e que sempre pode valer a pena assistir a um filme que trata da “América profunda”, conforme a história avança nós vemos a mais um filme de roubo do Sr. Soderbergh. A ação propriamente dita não apresenta nada de novo – ok, o diretor sabe fazer cenas de ação e valorizar os atores, mas não apresenta nada de realmente interessante. E o roteiro vai por caminhos esperados, praticamente sem surpresa alguma – ok, existe uma “reviravolta” na história, que sugere algo inicialmente e depois mostra a “virada”… mas até isso acaba sendo previsível.

Então, e eu acho que ninguém falou isso para o Soderbergh, mas esta fórmula dele está desgastada. Tanto que o roteiro até tira um “sarro” da trajetória do diretor… (SPOILER – não leia se você ainda não viu ao filme). Lá pelas tantas, uma mulher comenta, ao ser entrevistada em um noticiário que aparece no filme, que o roubo do autódromo em que ocorreu uma das provas mais importantes do Nascar está sendo chamado de “Ocean’s Seven Eleven” porque a grana do crime foi deixada em um posto da rede 7-Eleven. Ah, sério? Sério mesmo? Soderbergh precisa encontrar o próprio rumo e deixar de fazer filmes que são mais do mesmo e pura autorreferência para o que ele já fez antes.

Francamente, com tanta obviedade, eu só não dou uma nota menor do que a que eu estou dando aqui porque eu realmente gostei do trabalho dos atores. Especialmente Daniel Craig está ótimo no papel do especialista em abrir cofres Joe Bang. Também gostei muito do trabalho dos “irmãos Logan”, com Channing Tatum e Adam Driver fazendo papéis interessantes e que tiram eles um pouco da “zona de conforto”. Outras atrizes que aparecem bem, como Farrah Mackenzie e Riley Keough completam bem o time principal, e grande parte do elenco de apoio faz um bom trabalho.

Pensando nesta “América profunda” que elegeu Donald Trump, até que achei o filme interessante. A parte que fala sobre estas pessoas, como elas vivem e o que elas pensam. Agora, o enredo do roubo e a ação como ela acontece – incluindo a “rebelião” com referência forçada a Game of Thrones no presídio -, achei de uma obviedade desconcertante. Enfim, mais um filme de Soderbergh repetindo a sua fórmula que um dia já foi sucesso. Até diverte, mas não é nada além de mediano. E ainda sendo boazinha. 😉

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como eu comentei antes, ainda que Logan Lucky seja bastante previsível, ele tem uma grande “virada” em sua história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Inicialmente, o roteiro de Rebecca Blunt nos faz acreditar que, após Jimmy assistir à apresentação da filha Sadie, que abre mão de cantar uma música de Rihanna para cantar a música preferida do pai, que fala do Estado da Virgínia, ele teria se arrependido do crime e decidido abandonar o dinheiro em um posto com uma rede de 7-Eleven. Mas aquilo parece um bocado estranho e apesar dos outros personagens ficarem “indignados” com Jimmy e o abandono do dinheiro ser noticiado por todos os lados, não chega a ser realmente surpreendente quando o dinheiro começa a ser distribuído e percebemos que eles deram o “golpe” no golpe.

Ou seja, como já aconteceu em outros filmes, eles souberam disfarçar o próprio crime. Mas como eles fizeram isso? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). A explicação, um tanto mal realizada em Logan Lucky, é a seguinte: eles roubaram muito mais do que o que “devolveram”. Como o autódromo não tinha uma “conta exata” do quanto tinha sido roubado – uma desculpa volta e meia dada por empresas e instituições que são roubadas, mas um tanto difícil de acreditar, não é mesmo? -, e como eles tinham recebido também o dinheiro do seguro (algo estranho já que, em teoria, o dinheiro do crime foi devolvido), ninguém soube afirmar se realmente todo o dinheiro do roubo tinha sido abandonado no posto.

Com razão os agentes especiais Sarah Grayson (Hilary Swank em uma aparição surpreendente na reta final do filme) e Brad Noonan (Macon Blair) desconfiam um pouco de toda aquela história envolvendo o dinheiro. Afinal, o quanto tinha sido roubado? Tudo tinha sido devolvido? Por que o autódromo tinha também ganho o dinheiro do seguro? Aliás, uma outra pergunta que eu faria, se fosse eles: pelo fato do autódromo ter “ganho” duas vezes, alguém da administração do local não poderia ter orquestrado todo o crime?

No fim das contas, Jimmy Logan, que era o “cérebro” de todo o golpe, conta apenas parte do plano para Joe Bang e seus dois irmãos atrapalhados. Os irmãos de Jimmy fazem um bom teatro para dissimular o “golpe do golpe”. E, assim, eles roubam parte do dinheiro e devolvem ele naquela história do carro abandonado no posto, enquanto uma outra parte considerável do dinheiro é “enterrada” no aterro sanitária e, na hora certa, quando Jimmy não está mais sendo grampeado e investigado, retirada daquele local e distribuída. Mas, claro, eles são muito bobos em deixarem tantos rastros e, depois do dinheiro resgatado, aparecem todos no bar onde Clyde trabalha para “comemorar”. Sinal de que os espertos não são tão espertos assim.

O elenco de Logan Lucky surpreende. Grandes nomes envolvidos em um projeto mediano de Steven Soderbergh. O diretor é bom, e certamente isso atraiu os astros e estrelas a fazerem parte deste novo filme. Entre os nomes estrelados e bem pagos por Hollywood, como eu comentei antes, os destaques para mim foram Daniel Craig ótimo, com um olhar um tanto de psicopata, com o seu Joe Bang; seguido de Channing Tatum bem como um ex-jogador de futebol americano que luta para ser um bom pai, apesar das dificuldades em conseguir um emprego; Adam Driver como Clyde Logan, o irmão mais correto da família e que busca sempre seguir os passos de Jimmy; e Riley Keough como uma grata surpresa nesta produção como a irmã cabeleireira e um ás do volante da dupla Jimmy e Clyde.

Além destes quatro atores, que são o destaque nesta produção, vale comentar o bom trabalho de Farrah Mackenzie como Sadie Logan – como não lembrar de Abigail Breslin e a sua Olive Hoover no genial Little Miss Sunshine?; David Denman como um americano típico boçal e, neste filme, vendedor de carros chamado Moody Champman; Seth MacFarlane como outro boçal, o dono de uma marca de energético, chamado Max Chilblain; Jack Quaid e Brian Gleeson como os irmãos de Joe Bang, respectivamente Fish e Sam; Katherine Waterston perfeita como Sylvia Harrison, uma garota mais nova que Jimmy e que era fascinada por ele no colégio e que volta a encontrá-lo nesta nova fase “decadente”; Lauren Revard em uma ponta como a colega de Sylvia; Jon Eyez como Naaman, o parceiro de Joe Bang nos planos para a fuga e retorno para o presídio; Deneen Tyler como a enfermeira do presídio que atende Joe Bang; e Dwight Yoakam em um papel especialmente engraçado (e cheio de estereótipos) como o diretor do presídio que não admite nenhum problema ou erro.

Outros atores com papéis menores estão ok, preenchem a tela nos momentos devidos. Mas alguém que tem uma certa relevância na história e que não convence em seu papel em momento algum, muito pelo contrário, é a atriz Katie Holmes. Chega a ser um pouco angustiante o desempenho dela. Achei muito fraco, muito distante de outros papéis que ela já fez.

Entre as qualidades técnicas do filme, o principal aplauso vai para a trilha sonora de David Holmes. O que ouvimos na telona é o ponto alto da produção – assim como o elenco. Depois, vale comentar a edição de Steven Soderbergh (que assina como Mary Ann Bernard); o design de produção de Howard Cummings; a direção de fotografia de Soderbergh (que assina como Peter Andrews); a direção de arte de Eric R. Johnson e de Rob Simons; e os figurinos de Ellen Mirojnick.

Logan Lucky estreou em uma première em Tel Aviv no dia 7 de agosto. Depois, no dia 17 de agosto, o filme estreou na Austrália, em Israel e na Nova Zelândia. Nos Estados Unidos ele estreou no dia seguinte e, no Brasil, apenas no dia 6 de outubro no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. Em circuito comercial no Brasil ele entrou em cartaz apenas no dia 12 de outubro.

Esta produção teria custado US$ 29 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 27,7 milhões. Nos outros países em que o filme já estreou ele fez outros US$ 15,1 milhões. Ou seja, somando estes dois mercados, o filme fez cerca de US$ 42,9 milhões. Como sempre calculamos o dobro do custo inicial para verificar o quanto um filme gastou – e aí sim incluindo cópias, distribuição, publicidade, etc. -, dá para perceber que Logan Lucky ainda não conseguiu dar lucro.

Ah, antes eu falei da Virgínia, certo? Estado que é “homenageado” por esta produção. Pois bem, vale dar uma lida nesta matéria do site português Publico. Nele eles comentam como a Virgínia é reduto da extrema-direita americana. Ou seja, nem preciso dizer que o filme toca em alguns pontos interessantes, ainda que de forma suave, certo? Acho que ele poderia ter sido bem mais contundente sobre a imbecilidade de alguns humanos que fazem parte daquele Estado…

Vale comentar, aliás, que Logan Lucky fala da Virginia mas não foi rodado lá. Esta produção foi rodada na Carolina do Norte e na Geórgia, em cidades como Clayton County, Douglasville e Charlotte – esta última sim, citada na produção.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Logan Lucky é o primeiro filme dirigido por Steven Soderbergh desde que ele anunciou a sua “aposentadoria” como diretor. A produção anterior que ele havia dirigido foi Behind the Candelabra. Para o próximo ano é esperado um novo filme dirigido por ele e estrelado por Juno Temple, Claire Foy, Aimee Mullins, entre outros. O filme no estilo “drama/horror” tem o título provisório de Unsane. Esperamos que ele traga alguma ideia nova, para variar…

Falando no filme dar ou não lucro, Soderbergh optou por uma forma diferente de distribuição do que a que Hollywood está acostumada. Para se livrar dos estúdios e ter “liberdade criativa” nesta produção, Soderbergh vendeu diretamente os direitos para distribuição estrangeira de Logan Lucky, assim como os direitos do filme ser exibido por HBO, Netflix e demais serviços do gênero. Com isso, o diretor e produtor garante que reduziu os custos com distribuição e que tornou mais fácil para o filme obter lucro.

Vários pilotos da Nascar aparecem nesta produção. Vale citar a aparição de nomes como Ryan Blaney, Kyle Larson, Carl Edwards, Kyle Busch, Brad Keselowski,Joey Lagano, Jeff Gordon e Darrell Waltrip – comento a lista aqui acaso tenha algum(a) fã de Nascar por aí. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 202 críticas positivas e apenas 15 negativas para o filme, o que garante para Lucky Logan uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,3. Achei as duas notas boas e o nível de aprovação dos críticos especialmente generoso.

Logan Lucky é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso esse filme entra na lista de críticas que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Se você já viu aos filmes anteriores do diretor Steven Soderbergh, especialmente a Ocean’s Eleven, tenha certeza que você não vai ver nada de muito novo neste Logan Lucky. Sim, é verdade que o diretor resolveu fazer uma produção mais “realidade americana” desta vez. Então temos os vários sotaques do interior, aquele orgulho e estupidez inerente de muitos americanos – algo já bem explorado (e inclusive com maior qualidade) pelos irmãos Coen. O filme é engraçadinho e tem no ótimo elenco o seu principal trunfo. Mas o roteiro… infelizmente, é mais do mesmo. Nada de novo sob o sol, muito pelo contrário. Veja apenas se você gosta muito de algum dos atores em cena ou se não tiver nada melhor para fazer.