Call Me By Your Name – Me Chame pelo Seu Nome

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Quando somos jovens, o amor flui mais naturalmente. Com o passar do tempo, pensamos um pouco demais, sentimos um pouco menos. Colocamos cada vez mais dúvidas no que deveríamos fazer ou sentir. Mas quando somos jovens, não nos importamos tanto em nos equivocarmos. Sobre isso tudo é que Call Me By Your Name trata. E não apenas sobre isso. Essa produção conta uma bela história de amor. E não qualquer amor, mas o primeiro realmente grande para um jovem – e possivelmente para o seu par também. Um filme sensível, interessante, como há algum tempo a gente não via.

A HISTÓRIA: Verão de 1983. Elio (Timothée Chalamet) joga algumas roupas suas na cama em que está a amiga Marzia (Esther Garrel) quando ele escuta um carro chegando. Elio fala que está chegando “o usurpador”. A história se passa “em algum lugar ao Norte da Itália”. Quando o carro estaciona, os pais de Elio, Mr. Perlman (Michael Stuhlbarg) e Annella (Amira Casar), recepcionam o novo hóspede da família, Oliver (Armie Hammer). Mr. Perlman e Oliver já tinham trabalhado juntos, mas essa é a primeira vez que Oliver encontra a esposa e o filho do professor.

Elio tira as roupas e o violão da cama, e Oliver logo se joga para dormir. Ele está exausto. Enquanto Oliver ocupa o quarto de Elio, o jovem fica no quarto ao lado, com eles dividindo o banheiro. A relação deles vai se tornando cada vez mais próxima com o passar do tempo, em uma visível admiração que um sente pelo outro desde o princípio.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Call Me By Your Name): Depois de Moonlight (comentado aqui) ter vencido em três categorias do Oscar no ano passado, incluindo a de Melhor Filme, é bacana ver um outro filme tratando sobre a descoberta do amor e como ele pode transformar as pessoas. E, evidentemente, é bom que essas histórias de amor foquem um casal de homens, para variar um pouco.

Afinal, já estamos acostumados a muitas histórias de amor entre homens e mulheres. O cinema está recheado destas histórias. Mas é bem menos frequente vermos belas histórias de amor de casais de homens ou de mulheres. Homossexuais com belas histórias de amor sempre existiram na História, mas nem sempre as sociedades estiveram preparadas para falar abertamente sobre isso. Que bom que vivemos novos tempos, em que cada vez mais sociedades aprendem a observar estas histórias de amor como tão belas quanto as clássicas histórias de amor entre homens e mulheres.

Dito isso, no Globo de Ouro desse ano, vi o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira, um dos responsáveis por Call Me By Your Name, comentar sobre isso, de como é importante, depois de Moonlight, um filme tratar de forma bela e sensível uma bela história de amor entre dois homens. Afinal, Moonlight mostra a transformação de um garoto que passou por diversas situações difíceis, até que encontrou o amor e uma forma de redenção.

Em Call Me By Your Name temos outra pegada. Um filme sobre o primeiro amor que não segue a cartilha de uma garota e um garoto que se apaixonam pela primeira vez. Ou então de uma mulher mais velha que ensina tudo o que sabe para um garoto inexperiente. Não. Dessa vez, temos um jovem com grande vocação artística que, aos 17 anos, descobre o amor para valer na relação com um universitário sete anos mais velho que ele que está concluindo o seu doutorado.

Essas histórias acontecem, não apenas na década de 1980, mas atualmente, na década de 2010. E antes disso, e seguirão existindo depois. Bacana ver uma história dessas ser contada com tanta naturalidade e com tanta paixão pelas pessoas envolvidas. E se você não “concorda” com nada disso, acha que as relações homossexuais são “erradas” e não deveriam ser retratadas com a mesma beleza que uma relação heterossexual, deixa eu te dizer uma coisa. Essas relações e essas formas de amar vão continuar existindo, independente da sua opinião. E quanto antes você perceber que as coisas no mundo não precisam da sua opinião ou da sua concordância para existir, melhor para você.

Dito isso, vamos ao que interessa. Falar sobre Call Me By Your Name. Essa produção segue um pouco a cartilha de um romance clássico. Ou seja, primeiro temos a aproximação entre os futuros amantes, nesse caso, Elio e Oliver. Especialmente o filho do casal de anfitriões observa cada gesto do hóspede da família. Mas ele também é observado – mesmo que não perceba. O cortejo entre os dois é cheio de provocações, de aproximações e de disfarces, como acontece (ou aconteceu) com qualquer um de nós em algum momento da vida.

Você e eu, provavelmente, já passamos por isso. Pelos “jogos” do amor. Por provocações, dissimulações, uma aproximação seguida de um disfarce. Tudo isso faz parte do cortejo, do encantamento, de tudo aquilo que é prometido mas ainda não realizado. Por grande parte de Call Me By Your Name, vemos a esse cortejo em cena. E, claro, como nem tudo acontece como Elio ou Oliver deseja, temos pequenos “desvios no caminho”, como quando Elio avança o sinal na amizade com Marzia e eles acabam transando para o jovem colocar para fora todo o tesão que, na verdade, tem por Oliver.

Claramente Oliver e Elio, e especialmente o primeiro, tem um grande apreço pelas belas feições humanas, tão bem plasmadas pela arte clássica e/ou greco-romana, que é a especialidade de Mr. Perlman. O hedonismo, aliás, está presente nesse filme desde as imagens de abertura e até o último minuto. A busca pelo prazer e a vivência dele acabam sendo um elemento vital nessa produção. Algo que toda a família de Elio entende muito bem – e isso é algo realmente raro. Mas vamos falar sobre a família dele na sequência.

Antes, falando sobre a dinâmica do roteiro de James Ivory, que teve contribuição do diretor Luca Guadagnino e que foi baseado no romance de André Aciman, vale ressaltar que Call Me By Your Name segue essa narrativa romântica tradicional. Depois dos “jogos” de aproximação e afastamento que Elio e Oliver fazem, o que apenas alimenta a expectativa dos espectadores para o momento em que eles realmente coloquem em prática todo o desejo que sentem um pelo outro, temos finalmente o grande encontro amoroso dos personagens.

Até lá, a história explora o amadurecimento da atração que Elio vai sentindo em relação a Oliver, a ponto de sentir o cheiro de suas roupas e de buscar sempre por onde anda o ser amado. Mais maduro, com 24 anos de idade, Oliver sabe bem alimentar esse desejo do jovem “pupilo”, ficando ausente o suficiente para que Elio se sinta incomodado e para que manifeste o seu desejo de maneira mais clara. Finalmente, os dois se encontram e vivem o seu romance, depois de terem “perdido” um bom tempo naquele tradicional jogo de “gato e rato”.

Interessante como os pais de Elio são sensíveis e inteligentes. Mesmo não deixando claro, eles estão cientes de tudo que está passando com Elio e em sua casa de veraneio. Não tenho dúvidas que a mãe dele, ao sugerir que Elio acompanhe Oliver em sua última estadia na Itália antes de voltar para casa, nos Estados Unidos, sabia exatamente o que estava fazendo. Diferente de outros pais, que tolhem as experiências dos filhos porque querem evitar que eles sofram com a decepção do fim do romance depois, Annella quer que Elio vivencie o amor o máximo possível.

Que a decepção, a tristeza e a dor venham depois, isso não deve impedir Elio de viver o que deseja. Isso tudo fica subentendido nos gestos de Annella e é declarado com quase todas as letras no diálogo que Mr. Perlman tem com o filho quando ele retorna da viagem com Oliver. Aliás, para mim, essa é uma das melhores partes de Call Me By Your Name. Até então, tínhamos visto a uma narrativa praticamente clássica de um romance. Mas é na análise sobre tudo o que aconteceu e na espécie de “mea-culpa” que Mr. Perlman faz que o filme ganha uma outra dimensão.

Na verdade, para ser justa, existem dois grandes momentos no roteiro do experiente James Ivory. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O primeiro ocorre quando a produção praticamente chega à sua metade, quando Elio e Oliver vão até a cidade e, em um monumento em homenagem aos que morreram na 2ª Guerra Mundial, ocorre um dos melhores diálogos da produção. Oliver elogia como Elio sabe de tudo, ao passo que o jovem diz que Oliver nem sonha como ele não sabe de nada do que realmente interessa. O outro grande momento da produção é a conversa entre Mr. Perlman e o filho após o jovem voltar da sua viagem amorosa.

Mr. Perlman faz questão de dizer para Elio que ele deve ter a dimensão sobre o que ele viveu. Que foi algo muito especial, único, e que ele deve aproveitar isso enquanto é jovem, porque depois dos 30 anos parece que nos esvaziamos um pouco por termos dado tanto de nós antes. E nessa conversa ele fala grandes verdades. Admite, também, que teve algumas oportunidades na vida para vivenciar o que o filho viveu com Oliver, mas que acabou não se entregando para esse amor e que a oportunidade passou.

Nesse momento, de reflexão sobre o romance “clássico” que vimos, é que Call Me By Your Name consegue ser diferenciado. De fato, como eu disse no início desse texto, quando somos mais jovens, até os 20 e tantos anos, vivemos tudo mais intensamente. Nos soltamos mais e temos mais coragem em experimentar, em vivenciar o que queremos e desejamos. Depois dos 30 anos e após várias experiências amorosas, pensamos mais, analisamos, e abrimos mão de experiências que podem nos trazer dor e sofrimento. Com isso, consequentemente, deixamos de viver tudo que poderíamos.

No fim das contas, é sobre isso que se trata Call Me By Your Name. Sobre a nossa capacidade de vivenciar o amor de forma livre, solta, sem amarras ou julgamentos, e sobre a nossa capacidade de deixar de vivenciar isso depois de uma certa idade. Como eu acredito que tudo na vida é uma questão de decisão, de vontade e de escolha, acho sim que podemos vivenciar diversas fases e “vidas” dentro de uma mesma vida.

Assim, podemos ter as fases de amor platônico, de amor livre e de amor pleno, assim como as fases de tentar fugir das decepções amorosas e de seus joguinhos. Tudo é válido, desde que não percamos nunca a capacidade de amar. Porque existem diversas formas de amor e maneiras de manifestá-lo. Mesmo que abramos mão do amor apaixonado por um tempo, podemos canalizar o nosso amor para outras manifestações amorosas. E como Call Me By Your Name nos demonstra, o importante mesmo é que nunca nos deixemos embrutecer, não importa quantas desilusões amorosas vivenciemos.

O que é dito e o que é comunicado apenas pelos olhares nesse filme são elementos preciosos. Vale assistir Call Me By Your Name com tempo, com atenção e sabendo que esta produção bebe muito mais das fontes do cinema europeu do que do cinema clássico americano. Um filme com estilo, com cadência própria e com tempo para valorizar os sentimentos e expectativas de seus personagens – especialmente do protagonista, de quem a câmera de Luca Guadagnino está sempre próxima.

Afinal, a descoberta do primeiro grande amor nunca é algo banal. E esse filme sabe valorizar isso muito bem. Uma produção de romance clássica mas com a coragem de mostrar um casal de homossexuais no centro da narrativa. Muito bacana. Espero que mais pessoas passem a respeitar todas as formas de amor após assistirem a esse filme.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Na transmissão do Globo de Ouro, o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira comentou sobre como é bom ver um filme sobre um romance homossexual com “final feliz”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E aí temos algo interessante nesse Call Me By Your Name: o filme realmente tem um final feliz? Isso vai depender tudo do que o espectador entende por final feliz. Admito que eu esperei que Elio e Oliver ficassem juntos. Ou seja, que Oliver iria aparecer novamente na propriedade italiana dos Perlman e assumir o seu romance com o jovem promissor. Isso não acontece mas, ainda assim, o filme deixa de ter um final feliz?

Para mim, não. E isso eu só percebi como o final do filme mesmo. Foi então que eu percebi que um “final feliz” não precisa, necessariamente, das pessoas ficando juntas “para sempre”. Até porque esse entendimento é relativo. Acredito sim que um “final feliz” acontece quando as pessoas se entregam totalmente ao que sentem e se elas foram honestas consigo mesmas, em primeiro lugar, e com o seu par, em segundo lugar. Se isso aconteceu, se o amor foi vivido intensamente, aí já temos um “final feliz”. O amor romântico geralmente provoca dor e termina.

Como já nos disse o sábio Vinicius de Moraes, que o “amor seja eterno enquanto dure”. Temos um “final feliz” quando vivemos essa eternidade e, quando o romance propriamente dito termina, saboreamos o que vivemos para o resto da nossa vida. Porque os laços continuam, e o amor também, mesmo que o contato físico não exista mais. Como bem disse Oliver perto do final, ele lembrava de tudo. E o quanto isso é imenso! Lembrar de tudo, ter apenas as lembranças boas do que passou, isso é amor e isso é ter um laço permanente com o ser amado, mesmo que nunca mais o vejamos na vida. Para mim, esse é um “final feliz” de uma história de amor. E temos isso em Call Me By Your Name.

Falando no nome do filme e do que ele representa. (SPOILER – não leia… bem você já sabe). Admito que, quando Oliver fala para Elio chamá-lo pelo seu nome e vice-versa, achei aquilo um pouco estranho. Me coloquei no lugar deles. Mas depois, conforme a história avança, é que tive a dimensão exata do que aquilo representava. Primeiro, que um chamar o outro pelo seu nome era algo que só eles sabiam, era algo que tinha um significado especial apenas para eles. Depois que, convenhamos, ninguém nos conhece – ou isso deveria ser sempre assim – melhor do que nós mesmos. Então você viver uma relação com alguém ao ponto de chamar essa outra pessoa pelo teu nome, porque você a conhece com toda essa profundidade, com toda essa intimidade… realmente é algo único. Interessante. E dá realmente a dimensão exata do que o romance que é retratado representa.

Quem acompanha esse blog há mais tempo pode estar estranhando as últimas notas que eu dei para os filmes. Mas, como comentei por aqui, na crítica de Lady Bird, resolvi ser um pouco mais “dura” e criteriosa com as notas que eu dou para as produções que eu assisto. Então, segundo o histórico do blog, pode parecer que a nota 9 não é muito boa. Mas convenhamos, lembrando da nossa época de colégio e tudo o mais, um 9 é uma nota ótima, não é mesmo? Estudávamos muito para tirar um 9 no colégio.

Então é isso. Call Me By Your Name é um filme bem feito, interessante, corajoso ao contar um romance clássico sob a ótica de um jovem que descobre que gosta de um doutorando mais velho. O primeiro amor, com toda a sua base narrativa que já conhecemos, ganha nova abordagem nesse filme. Por tudo isso, pelo belo trabalho dos atores e por dois grandes momentos dessa produção, acho que ela merece sim esse 9. Notas maiores que essa, só para filmes realmente mais marcantes e muito, muito bons, caminhando para excepcionais e excelentes. O que cada vez será mais raro por aqui.

Eu gostei das escolhas narrativas do diretor Luca Guadagnino. Ele pincela, aqui e ali na história, os seus momentos de pura arte – como em algumas sequências em que Elio está “maturando” o seu primeiro amor e na expectativa de realizar o encontro da “primeira vez” com Oliver. Nesses momentos, além da direção de fotografia de Sayombhu Mukdeeprom, é valorizada a trilha sonora que contou com Gerry Gershman como músico consultor, Lindsey Taylor como coordenadora musical e Robin Urdang como músico supervisor. Muito bons estes dois elementos na produção. Tanto a direção de fotografia quanto a música. Elementos importantes para a história e para os personagens.

Além desses aspectos técnicos que se destacam nesta produção, vale comentar o bom trabalho de edição de Walter Fasano; o design de produção de Samuel Deshors; a direção de arte de Roberta Federico; a decoração de set de Muriel Chinal, Sandro Piccarozzi e de Violante Visconti di Modrone; os figurinos de Giulia Piersanti; a maquiagem de Fernanda Perez; e os efeitos visuais que envolveram 16 profissionais.

O elenco é outro ponto a destacar nessa produção. Os atores centrais da história, Timothée Chalamet e Armie Hammer, estão realmente ótimos. Eles não forçam em suas interpretações e não parecem caricaturas de pessoas reais. Não. Ambos estão muito bem e convencem nas particularidades de seus personagens. Claro que é impossível não destacar, ainda assim, o trabalho de Chalamet. Afinal, ele está sendo focado pelas lentes de Luca Guadagnino praticamente o tempo inteiro do filme, e ele convence em cada momento. Sem dúvida, merece aplausos e o holofote que ele tem recebido. Hammer também está muito bem, carismático e provocativo na dose certa. Eles são o destaque da produção.

Além deles, é preciso comentar o bom trabalho dos coadjuvantes, com destaque, nesse sentido, para Michael Stuhlbarg e para Amira Casar. Os dois tem uma presença muito marcante no filme, nem tanto pelos diálogos – descontada a sequência da conversa de Mr. Perlman com o filho -, mas, principalmente, pela interpretação detalhista, com forte presença de olhares que dizem tudo. Especialmente Casar se destaca nesse sentido. Observem como ela percebe tudo sem dizer nada a respeito… muito interessante. E Stuhlbarg também segue essa linha, além de ter um diálogo decisivo na história. Outros coadjuvantes que merecem ser citados pelo bom trabalho são Esther Garrel como Marzia, amiga “colorida” de Elio; Victoire Du Bois como Chiara, garota “local” que fica fascinada por Oliver; Vanda Capriolo como Mafalda, empregada da família; e Antonio Rimoldi como Anchiese, outro funcionário da propriedade italiana dos Perlman.

Call Me By Your Name estreou em janeiro de 2017 no Festival de Cinema de Sundance. Ou seja, o filme já está completando um ano de trajetória em festivais pelo mundo. Ele participou, até o momento, além do Festival de Sundance, de 46 festivais – sendo o mais recente dele, iniciado no dia 12 de janeiro de 2018, o Festival Internacional de Cinema de Palm Springs. Realmente impressionante a maratona de festivais em que o filme participou. Algo muito bacana para os nomes envolvidos no projeto, inclusive o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira.

Aliás, vale comentar um pouco sobre a trajetória de Teixeira. Como produtor, ele tem 35 projetos no currículo. Começou em 2004 com o curta Desequilíbrio. Dois anos depois, ele produziria o seu primeiro longa, o brasileiro O Cheiro do Ralo. A primeira incursão internacional de destaque de Teixeira foi o elogiado e premiado Frances Ha – uma falha no meu currículo, eu admito -, lançado em 2012. Desde então, ele seguiu produzindo filmes brasileiros e internacionais. Entre outros títulos, vale citar The VVitch: A New-England Folktale, Love e Mistress America.

Nessa trajetória imensa de festivais pelo mundo, Call Me By Your Name recebeu 42 prêmios e foi indicado a outros 118 – incluindo indicações em três categorias do Globo de Ouro 2018: Melhor Filme – Drama, Melhor Ator – Drama para Timothée Chalamet e Melhor Ator Coadjuvante para Armie Hammer. Entre os prêmios que recebeu, destaque para 8 prêmios de Melhor Ator para Timothée Chalamet; para 9 prêmios de Melhor Roteiro Adaptado para James Ivory; para 5 prêmios de Melhor Filme; para 5 prêmios de Interpretação Arrebatadora para Timothée Chalamet; para 1 prêmio de Melhor Diretor para Luca Guadagnino e para 1 prêmio de Melhor Filme Internacional no St. Louis International Film Festival. Uma bela coleção de prêmios, sem dúvida.

Tem alguns detalhes da história de Call Me By Your Name que eu só descobri lendo a sinopse da produção – durante o filme estes pontos não ficaram claros para mim. Vale citar alguns deles. A história se passa em uma vila no Norte da Itália do século 17, onde a família Perlman passa as férias sempre recebendo um estudante como convidado(a). O protagonista Elio tem 17 anos e passa as férias lendo, tocando e estudando música clássica, nadando nos rios e lagos e flertando com a amiga Marzia. O pai de Elio é um eminente professor especializado na cultura greco-romana. A mãe do garoto é uma tradutora, que aprecia a natureza e a cultura tanto quanto o marido. Oliver é o “estudante” hóspede dessa temporada, que chega na propriedade para ajudar Perlman em seu trabalho. Ele tem 24 anos e está trabalhando em sua tese de doutorado quando vai visitar o professor Perlman e família.

Na estreia de Call Me By Your Name no Festival de Cinema de Nova York, o filme foi aplaudido por 10 minutos – a maior ovação que um filme recebeu no evento até hoje.

Agora, outras curiosidades sobre essa produção. Segundo a história do filme, Elio tinha 17 anos e Oliver 24 anos quando os dois se encontram. Os atores Timothée Chalamet tinha 20 anos e Armie Hammer 29 anos quando a produção foi rodada. Na Itália, a idade para uma relação sexual ser considerada legal e feita de forma consentida é de 14 anos.

O ator Timothée Chalamet aprendeu a falar italiano e a tocar violão para poder interpretar melhor Elio.

O filme tem várias cenas sensuais, mas a sequência que mais deixou o ator Armie Hammer sem graça foi aquela em que ele dança em uma pista comandada por um DJ.

Antes das filmagens começarem, os atores tiveram apenas um ensaio. Timothée e Armie chegaram para gravar uma cena, justamente a que os dois tem o primeiro contato amoroso após estarem deitados na grama. Eles encararam a cena e o diretor Luca Guadagnino pediu para eles demonstrarem mais paixão na cena. Então eles embarcaram nos personagens até que perceberam, após algum tempo, que o diretor já tinha se afastado. Esse foi o único ensaio – ou seja, praticamente todo o filme foi rodado pela primeira vez, com os atores sem praticar cada cena antes.

Call Me By Your Name é dedicado ao ator Bill Paxton, que morreu em fevereiro de 2017. Brian Swardson, marido de um dos produtores do filme, Peter Spears, era o melhor amigo e o agente de Bill Paxton. Ele também é o agente de Timothée Chalamet. Bill Paxton visitou o set em que o filme foi rodado, na Itália, e se tornou amigo de Luca Guadagnino antes de morrer.

O diretor Luca Guadagnino já comentou que pensa em fazer uma sequência para Call Me By Your Name. No romance original, de André Aciman, os personagens Elio e Oliver se reencontram 15 anos depois do que vemos nessa primeira produção. Realmente pode ser interessante mostrar o que acontece com os dois passado tanto tempo.

De acordo com o site Box Office Mojo, Call Me By Your Name faturou pouco mais de US$ 7,2 milhões nos cinemas dos Estados Unidos. Não é uma bilheteria ruim, mas está longe de ser um graaaande sucesso comercial. Especialmente porque a produção teria custado cerca de US$ 4 milhões – ou seja, precisa crescer ainda para começar a dar lucro. Veremos se o filme consegue decolar mais após as suas várias indicações e premiações.

Call Me By Your Name é uma coprodução da Itália, da França, do Brasil e dos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 214 críticas positivas e nove negativas para esta produção, o que garante para o filme um nível de aprovação de 96% e uma nota média de 8,8. Especialmente as notas dos dois sites chamam a atenção. Estão bem acima da média dada pelo público e pelos críticos nas duas páginas.

CONCLUSÃO: O amor é sempre válido, mesmo quando ele nos machuca no final. Call Me By Your Name nos conta uma história de amor que, como tantas outras, surgiu por acaso, com o encontro de duas almas e a coragem delas de encarar o que sentiam. Um filme contado com a suavidade de uma produção europeia mas com algumas pitadas do bom cinema americano. Um tanto lento no início, Call Me By Your Name sabe alimentar a expectativa do público na cadência certa, até que na reta final o filme cresce. Nos faz pensar sobre o amor, nossas escolhas e tudo aquilo que deixamos de encarar por pensar demais. Uma bela produção, de uma safra do Oscar bastante diversa e interessante.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Esse filme tem tudo para emplacar diversas indicações no prêmio deste ano da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Pelos prêmios que o filme já recebeu e pelos quais ele já foi indicado, dá para nos arriscarmos a dizer que ele pode ser indicado no Oscar 2018 nas seguintes categorias: Melhor Filme; Melhor Ator, para Timothée Chalamet; Melhor Ator Coadjuvante, para Armie Hammer; Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Canção Original (podendo concorrer tanto com “The Mystery of Love” quanto com “Visions of Gideon”).

O filme ainda tem chances, se conseguir fazer um bom lobby, de emplacar indicações nas categorias de Melhor Diretor, para Luca Guadagnino; e Melhor Direção de Fotografia. Ou seja, acredito que Call Me By Your Name tem chances de emplacar entre 5 e 7 indicações para o Oscar. Um belo desempenho, sem dúvidas.

Mas em que categorias o filme tem reais chances de vencer? Pelo andar da carruagem das bolsas de apostas – mais do que das premiações, porque muitas das principais de Hollywood ainda estão para acontecer -, acredito que ele tenha chances mesmo só em Melhor Roteiro Adaptado. Nas demais categorias o filme corre um pouco “por fora”, tendo sempre um ou dois candidatos muito fortes para derrubar antes de chegar na estatueta dourada.

Ainda assim, se o filme emplacar cinco ou mais indicações, ele já terá bastante visibilidade e conseguirá ser visto por ainda mais pessoas. E isso é tudo que um filme e os seus realizadores desejam. Veremos as próximas premiações para fazer um prognóstico ainda mais ajustado.

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Lady Bird – Lady Bird: É Hora de Voar

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O final da adolescência é uma fase de autodescobertas e de muitas escolhas. É quando começamos a perceber melhor o que nos faz sentido, o que não faz, porque somos como somos e para onde queremos ir. Lady Bird trata dessa fase, das descobertas, de uma certa revolta e da aceitação pela qual passa uma adolescente. É um bom filme, mas sou franca em dizer que eu esperava mais. Primeiro, porque muitos apontam esse filme como um candidato sério a algumas indicações do Oscar e, inclusive, como possível vencedor em uma ou mais categoria. E, depois, pelas indicações que ele recebeu no Globo de Ouro e por ter sido premiado nesse domingo. A verdade é que a expectativa, que era considerável, não se realizou totalmente.

A HISTÓRIA: Começa com uma frase de Joan Didion: “Qualquer um que fale sobre o hedonismo da Califórnia nunca passou um Natal em Sacramento”. Em uma cama, Marion McPherson (Laurie Metcalf) está deitada ao lado da filha, Christine “Lady Bird” (Saoirse Ronan). Elas estão deixando uma cama de hotel, mas Marion faz questão de fazer a cama. A filha diz que ela não precisa fazer aquilo, mas Marion diz que é sempre bom fazer as coisas bem feitas. A mãe pergunta se a filha está pronta para voltar para casa, e Lady Bird diz que sim. Na volta para casa, de carro, mãe e filha ouvem o final de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. Mas a paz entre mãe e filha logo vai terminar, quando uma simples discussão sobre ligar o rádio termina com um desfecho surpreendente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lady Bird): Algumas pessoas não estão satisfeitas com o lugar de onde elas vieram. E nem com a vida que elas tem. Elas sonham em viver em um lugar distante, onde podem “voltar a ser feliz”. A grande questão é que, geralmente, esta idealização de um local diferente não passa disso mesmo, de uma idealização. Com pouco fundo prático ou ligado à realidade.

Lady Bird nos fala um pouco sobre isso. Sobre a vida que uma pessoa leva, sobre as suas expectativas e desejos, assim como trata da autodescoberta e das relações familiares e com a rede de amigos que nos cerca. Essa produção é bastante honesta e “moderniza” alguns filmes sobre adolescentes que já vimos antes, mas realmente Lady Bird é um filme brilhante?

Eu vi muita gente falando sobre esta produção. Muitos citando ela como uma forte candidata ao Oscar. Como sempre, evitei de ler críticas sobre o filme antes de assisti-lo, mas foi impossível ignorar a ótima aprovação da crítica sobre Lady Bird e como o filme está bem nas “bolsas de apostas” do Oscar. Por isso, devo admitir, assisti ao segundo filme dirigido pela atriz Greta Gerwig com muita expectativa.

Estava esperando uma interpretação irretocável de Saoirse Ronan e um roteiro igualmente inesquecível. E ainda que a atriz esteja muito bem, eu não acho que ela teve um desempenho para ganhar muitos prêmios – especialmente se pensarmos na safra deste ano e em outros desempenhos de atrizes protagonistas. Mas ok, resolveram fazer de Lady Bird o “filme da vez”, e isso acontece de tempos em tempos em Hollywood. Alguns críticos e formadores de opinião resolveram amar esta produção e ela virou um fenômeno.

Sim, Lady Bird tem os seus méritos. Para começar, como eu disse antes, ele ajuda a explicar a juventude do início dos anos 2000 que está na fase de se formar no ensino médio e que tem várias dúvidas sobre o que fazer da vida na faculdade. A busca pela própria identidade, que passa pelas relações familiares, de amigos, os encontros e desencontros da escola e a expectativa da “primeira vez” fazem parte deste contexto e são abordados nesse filme.

Como pano de fundo, vemos a questão social de uma cidade comum americana no início dos anos 2000, quando o pai de uma família perde o emprego e a esposa dele deve dobrar o turno de trabalho para conseguir sustentar a família. Lady Bird tem muitas críticas para fazer contra a mãe, que realmente tem dificuldades de demonstrar carinho e de expressar para a filha o que sente, mas ela também não percebe o quanto a mãe se esforça para manter todos unidos, a casa funcionando e, apesar das dificuldades, ainda ajudar as pessoas.

Desta forma, o roteiro escrito por Gerwig pode fazer muitos adolescentes pensarem de forma um pouco mais ampla – e menos egoísta. Sim, é verdade que Marion muitas vezes é dura demais com Lady Bird. Mas, no fim das contas, o que Marion quer é dar responsabilidade e ensinar valores que ela considera importante para a filha. É verdade que, às vezes, no processo, ela pode fazer mais mal do que bem para Lady Bird – especialmente quando diz para a garota que ela não vai conseguir passar nas faculdades que ela quer ir.

Olhando de forma ligeira para isso, podemos pensar que Marion tem a necessidade de sempre estar “diminuindo” a filha. Como uma forma de compensar as próprias frustrações. Mas uma outra forma de olhar para isso é observar como Marion não quer, no fundo, que a filha vá para longe dela. Apesar de não saber demonstrar os seus sentimentos e de não ser carinhosa, Marion ama a filha da mesma forma com que ama Miguel (Jordan Rodrigues), o filho mais velho.

Algo interessante desse filme é que ele mostra com bastante franqueza a realidade dos jovens americanos de 15 anos atrás. A protagonista, que alimenta o sonho de sair da cidade natal, da qual ela não gosta, para lançar-se em uma cidade maior, passa por experiências marcantes do último ano do ensino médio do qual os americanos gostam tanto de falar.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim, ela acaba se lançando em uma aula de teatro, onde se apaixona pelo jovem Danny O’Neill (Lucas Hedges). Ela vai se frustrar com ele ao descobrir que o garoto é gay. Na sequência, ela se lança na direção de outro jovem, o “artístico” e “descolado” Kyle Scheible (Timothée Chalamet). Como aconteceu antes com Danny, que frustrou as expectativas da jovem, Kyle também a decepciona. E tudo passa – percebemos isso realmente com a passagem do tempo – pelas expectativas que ela nutria sobre uma “primeira vez especial” e sobre romances perfeitos.

Lady Bird mostra, desta forma, os primeiros contatos da protagonista com a frustração e com a realização de um grande desejo – materializado no fato dela conseguir passar em uma universidade que ela queria e, especialmente, sair da cidade natal. Mas quando ela finalmente atinge este “plano ideal”, ela percebe que sair de casa não era realmente o problema. O que ela precisava era começar a olhar para a vida de forma mais franca, sem filtros e distorções. Reconhecer melhor de onde ela vinha e o que formava a sua própria identidade.

Esse é sempre um processo interessante. Lady Bird trata de forma interessante estas questões, ainda que grande parte da história gire em torno das “estripulias” de uma adolescente meio revoltada, meio sonhadora. Sim, os personagens são bem desenvolvidos e há uma ou outra sequência interessante no filme. Mas, no geral, achei ele bastante previsível, um tanto cheio de lugares-comum e de ideias requentadas. Verdade que eu estava esperando um grande filme pela frente, e talvez por causa da minha grande expectativa eu tenha achado ele um tanto frustrante.

Não quero colocar a culpa em outras fontes, mas talvez por ter visto a filmes tão bons nessa safra pré-Oscar – especialmente as produções habilitadas para concorrer na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira -, eu tenha esperado mais de uma produção considerada forte concorrente no ano. Para o meu gosto, produções de outros países que eu citei recentemente aqui no blog, como First They Killed My Father, The Divine Order, Loveless e On Body and Soul tiveram um impacto maior e um frescor de novidade muito maior do que Lady Bird.

Enfim, gosto é gosto. Por isso vou respeitar a todas as pessoas que discordarem de mim. Mas para os meus critérios de avaliação, Lady Bird é um filme com pouca criatividade e inovação. Fora a cena do carro, que está na parte inicial da produção, o restante desse filme não tem realmente um grande impacto ou surpresa. Sim, um filme não precisa ter isso para ser bom. Mas mesmo a parte “filosófica” e que faz pensar em Lady Bird me parece um tanto rasa.

Enfim, por tudo isso, achei esse filme abaixo das minhas expectativas. E só dou a nota abaixo para ele porque eu admito que ele faz um bom trabalho em dialogar com pais e filhos de uma geração mais nova – exatamente essa que nasceu nos anos 2000. Para eles, possivelmente, esse filme terá um efeito maior – até porque a maioria desses pais e filhos não assistiu a tantos filmes até o momento para perceber o quanto Lady Bird repete fórmulas. A contribuição desse filme para essa nova geração, a mensagem positiva da produção para o entendimento entre as pessoas diferentes de uma família, a aceitação de um indivíduo sobre as suas origens e as belas atuações que vemos em Lady Bird é o que me fazem dar a nota abaixo.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Alguém mais observador e que aparece com frequência aqui no blog deve ter notado que eu dei notas mais baixas do que o meu “normal” aqui nas últimas duas críticas. A verdade é que o comentário de um leitor aqui no blog, feito há pouco tempo, me fez repensar nas notas que eu ando conferindo para os filmes. E ainda que cada um tenha o seu critério de avaliação e de “pontuação”, e que esse critério deve ser respeitado, admito que o comentário me fez pensar que eu talvez andasse “muito generosa”.

Comentado isso, afirmo que a partir de agora eu tentarei ser mais “dura” e criteriosa com as notas altas. Realmente darei a nota máxima ou uma nota bastante alta para os filmes que me arrebatarem, que eu achar que são “imperdíveis”. Para os demais, tentarei ser um pouco mais justa na avaliação – especialmente na pontuação.

Sob esta ótica, provavelmente 50% das notas do blog deveriam ser rebaixadas. Mas vou pedir perdão para vocês porque eu não farei isso. Por pura falta de tempo. Se eu não tenho tido tempo nem de responder aos recados de vocês, quanto mais para rever com justiça todas as minhas avaliações aqui no blog. Conto com a generosidade dos leitores para entenderem notas possivelmente mais altas que eu dei anteriormente para filmes que não mereciam avaliação tão boa. A partir de agora, prometo, tentarei ser mais justa e criteriosa. 😉

Voltando a falar sobre Lady Bird, pois. Acho que um dos fatores que me fez não gostar taaanto assim desta produção – ao menos gostei menos do que a maioria dos críticos – foi o fato de que o nome dela me remeteu a outro filme. E, este sim, que eu achei muito mais potente e interessante. Me refiro a Lady Macbeth, produção que eu considero uma das melhores que eu vi em 2017. Enquanto, para o meu gosto, Lady Macbeth se mostra um filme potente e surpreendente, como eu comentei antes por aqui Lady Bird me pareceu um tanto requentado demais, com pouca novidade para mostrar.

Sem dúvida alguma o nome forte desta produção é o de Saoirse Ronan. A atriz soube encarnar muito bem o papel da protagonista. Realmente acreditamos que ela é uma adolescente cheia de questionamentos e com uma certa “crise de identidade”. A atriz não se parece em nada com outros papéis que já desempenhou. Além dela, os destaques desta produção são Laurie Metcalf, que interpreta a mãe da protagonista, Marion; Tracy Letts em uma interpretação sensível como Larry, pai de Lady Bird; Lucas Hedges mais uma vez fazendo um belo trabalho, desta vez como Danny; e Beanie Feldstein como Julie Steffans, melhor amiga da protagonista. Estas são as pessoas que realmente brilham em cena e convencem.

Além deles, outros atores também fazem um bom trabalho, ainda que com menos destaque. Vale citar, neste grupo, Timothée Chalamet como Kyle, segundo “affair” de Lady Bird; Lois Smith como a Irmã Sarah Joan, que é bastante compreensiva com as suas alunas na escola católica; Stephen Henderson como o Padre Leviatch, coordenador do teatro e que sofre com uma certa “crise” na vida; Odeya Rush como Jenna Walton, a garota popular do colégio de quem Lady Bird se aproxima lá pelas tantas; Jordan Rodrigues como Miguel, irmão mais velho da protagonista; Marielle Scott como Shelly Yuhan, namorada de Miguel e que acaba sendo “adotada”/abrigada pelos McPherson; Jake McDorman como Mr. Bruno, um dos professores “gatos” da escola; e Daniel Zovatto como Jonah Ruiz, namorado de Jenna.

Gostei da direção segura de Greta Gerwig. Ela faz um trabalho sempre próximo dos atores e parece, por ser uma atriz bastante experiente, deixá-los bastante à vontade para que eles consigam exprimir tudo que ela deseja para os personagens que criou. O roteiro dela é bom, mas poderia ser melhor. Ela opta por uma narrativa linear, por uma cena na parte inicial de impacto, para “chocar” um pouco o espectador, mas depois acaba se rendendo a uma narrativa um tanto previsível. Desenvolve bem os personagens centrais, ainda que o filme sendo totalmente contado sob a ótica de Lady Bird acaba limitando um pouco a narrativa. Neste sentido, gostei mais, por exemplo, da narrativa fragmenta e com múltiplos olhares de Wonder.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale comentar a direção de fotografia “naturalista” de Sam Levy; a edição precisa de Nick Houy; os figurinos de April Napier; o design de produção de Chris Jones; a decoração de set de Traci Spadorcia; e a trilha sonora praticamente ausente de Jon Brion.

Lady Bird estreou no dia 1º de setembro no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme participou de uma maratona de 17 festivais, um na sequência do outro. Nessa trajetória, o filme ganhou 55 prêmios e foi indicado a outros 126. Realmente são números impressionantes. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Filme – Musical ou Comédia e para Melhor Atriz em Musical e Comédia para Saoirse Ronan.

O filme também apareceu na lista dos 10 melhores filmes do ano segundo o Prêmio AFI; a atriz Laurie Metcalf ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante 20 vezes; a atriz Saoirse Ronan venceu como Melhor Atriz oito vezes – sem contar o Globo de Ouro; Greta Gerwig recebeu três prêmios como Melhor Diretora; o filme ganhou cinco vezes o prêmio de Melhor Roteiro; e a produção foi reconhecida como Melhor Filme em quatro ocasiões  (descontado, novamente, o Globo de Ouro). Uma bela coleção de prêmios, não é mesmo?

Eu gosto muito de Greta Gerwig como atriz. Mas pelo burburinho que ela está provocando com Lady Bird, desconfio que ela vai “se jogar” mais na função de diretora e roteirista. Importante ponderar, contudo, que Lady Bird não é a sua estreia na direção. Ela debutou em 2008 com o filme Nights and Weekends, escrito e estrelado por ela. Mas sim, Lady Bird é apenas o seu segundo filme como realizadora. Agora sim, provocando efeito.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. As atrizes Saoirse Ronan e Greta Gerwig se conheceram no Festival de Cinema de Toronto de 2015, quando Saoirse estava promovendo Brooklyn e Greta estava divulgando Maggie’s Plan. Saoirse leu o roteiro de Lady Bird e imediatamente se sentiu conectada com a protagonista. As duas então discutiram o roteiro no quarto de hotel de Saoirse, quando Greta disse que tinha achado a sua “Lady Bird”.

De acordo com Gerwig, a primeira versão do roteiro desse filme tinha 350 páginas. Se o filme tivesse sido rodado a partir desse original, ele teria seis horas de duração.

Lady Bird quebrou o recorde de críticas positivas de Toy Story 2. A animação registrou 163 comentários positivos no site Rotten Tomatoes antes de registrar a primeira crítica negativa. Lady Bird registrou 196 críticas positivas antes de aparecer o primeiro comentário negativo. Mesmo não tendo mais 100% de críticas positivas, ele registra esse percentual de aprovação entre os “melhores críticos” do site. Algo impressionante e que ajuda a explicar o “burburinho” pro trás desse filme.

Interessante como a diretora e roteirista faz algumas “homenagens” com esse filme. Christine, o nome de batismo de Lady Bird, era o nome da mãe de Greta Gerwig. Além disso, a mãe da protagonista da história, trabalha como enfermeira, mesma profissão da mãe da diretora.

Este foi o último filme feito pela atriz Lois Smith.

A história ocorre entre os anos de 2002 e 2003.

Como a história desse filme sugere, Lady Bird foi realmente rodado nas cidades de Sacramento, na Califórnia; South Pasadena e Los Angeles, no mesmo Estado; e em Nova York – onde a protagonista começa a amadurecer.

De acordo com o site Box Office Mojo, Lady Bird fez US$ 34,1 milhões apenas nas bilheterias dos Estados Unidos. Um resultado muito bom para um filme com “tintas” de independente.

Assistindo a esse filme, não tive como não lembrar da canção clássica da Legião Urbana. “(…) você me diz que seus pais não te entendem/ mas você não entende seus pais/ você culpa seus pais por isso, isso é absurdo/ são crianças como você/ o que você vai ser quando você crescer?”. Sim, mesmo os “revoltados” sempre percebem, mais cedo ou mais tarde, que tudo que eles gostariam eram do amor, do afeto e da “aceitação” dos seus pais. Mas todos nós somos falhos, e cada um tenta dar o melhor de sim. O quanto antes percebemos isso, melhor.

Lady Bird é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 214 críticas positivas e apenas uma negativa para o filme – o que lhe garante a impressionante aprovação de 99% e a nota média tão impressionante quanto, para os padrões do site, de 8,8.

CONCLUSÃO: Um filme sobre o processo de amadurecimento e de autodescoberta sobre o qual todos passam. Lady Bird é focado na protagonista que se autodenominou desta forma. Um filme com uma boa pegada humana, sensível, sobre as origens de uma pessoa e a aceitação dela sobre as suas origens, assim como os seus desejos de mudar. Mas, francamente? Apesar de ter uma boa pegada e belas interpretações, especialmente de Saoirse Ronan, Lady Bird não nos apresenta nenhuma ideia nova.

Quem já assistiu a um bocado de filmes viu, antes, outras produções com essa mesma proposta. Se você for sem expectativa alguma ver a essa produção, talvez ache ela melhor. Como eu esperava algo muito bom, achei Lady Bird apenas mediano. Sim, há bons diálogos e personagens bem desenvolvidas, mas não vi nada assim de tão fantástico nessa produção. Para mim, a experiência foi um tanto frustrante. Mas espero que para você que me lê, sinceramente, ela seja melhor.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Então, minha gente, esse filme realmente caiu no gosto da crítica. Só não sei até que ponto ele caiu no gosto dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Mas, pelo andar da carruagem e avaliando não apenas os prêmios que o filme já recebeu mas as bolsas de apostas para o Oscar 2018, tudo indica que Lady Bird será bem indicado na premiação deste ano.

Não será uma surpresa se essa produção concorrer nas categoria de Melhor Filme, Melhor Diretora (Greta Gerwig), Melhor Atriz (Saoirse Ronan), Melhor Atriz Coadjuvante (Laurie Metcalf) e Melhor Roteiro Original. Ou seja, tudo indica que Lady Bird será indicado a cinco estatueta. Quantas ele deve ganhar? As chances maiores, me parece, são para Laurie Metcalf como Melhor Atriz Coadjuvante. O filme também será páreo duro e tem boas chances em Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz para Saoirse Ronan. Isso, ao menos, avaliando a opinião dos críticos e bolsas de apostas.

Da minha parte, pelo meu gosto pessoal, eu não daria o prêmio de Melhor Roteiro Original. Eu preciso ver a outros filmes que estão forte na disputa pelos prêmios, como The Shape of Water; The Post; Three Billboards Outside Ebbing, Missouri; Call Me By Your Name; The Florida Project; Darkest Hour; All the Money in the World e I, Tonya, mas desde já eu acredito que eu não votaria em Saoirse ou Laurie para ganhar as suas respectivas estatuetas. Mas, como eu não voto no Oscar, 😉 vejamos o que virá por aí.