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Django Unchained – Django Livre

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É difícil para um diretor que fez filmes incríveis seguir com a mesma batida a cada nova produção. E mesmo que muita gente diga que Quentin Tarantino não consegue mais reprisar a força de Reservoir Dogs e Pulp Fiction, por exemplo, é inevitável tirar o chapéu para Django Unchained. Claro que ele não faz o filme definitivo de faroeste. E nem chega a resgatar o gênero – que já passou por um resgate fundamental com Unforgiven – e todos os filmes que viriam depois deste clássico de Clint Eastwood. Mas ele consegue nos conquistar logo no início com um roteiro incrível e algumas sacadas que só ele é capaz de ter. Pena que ele perde um pouco a mão na duração do filme, que poderia ter meia hora a menos, pelo menos. Mas ele segue sendo bom, muito acima da média.

A HISTÓRIA: Cenário desértico. A câmara abaixa, e vemos uma fileira de homens negros com machucados graves de chicotadas nas costas. Tempos depois, em uma noite escura, eles estão andando com cobertas nas costas porque o cenário está gelado. Esta história está ambientada em 1858, dois anos antes da Guerra Civil dos Estados Unidos. O grupo está sendo guiado pelos comerciantes de escravos chamados de irmãos Speck (James Remar e James Russo) por algum lugar no Texas, até que Dicky Speck para o grupo ao avistar uma carroça se aproximando. Nela está o Dr. King Schultz (Christoph Waltz) e seu cavalo Fritz. Ele procura pelos Speck e pelos escravos que eles compraram em Greenville. Entre eles está um escravo que trabalhou nas plantações Carrucan. Ele está sendo procurado porque poderá ajudar Shultz em uma missão. E este homem é Django (Jamie Foxx). A partir daquele momento, Schulz e Django desenvolvem uma parceria que vai levá-los longe, em um caminho de justiceiros.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Django Unchained): Os primeiros 50 minutos deste filme é o que ele tem de melhor. Tarantino consegue ganhar a plateia logo no início, com aquela agilidade de roteiro e de sacadas que lhe tornou famoso. Os diálogos, a trilha sonora e a preocupação dele com o tempo e o ângulo da câmera fazem toda a diferença na parte inicial da produção. Mas depois o diretor gasta tempo demais na Candyland.

O filme não chega a ficar arrastado, ou chato. Até porque Tarantino sabe muito bem fazer o seu ofício. Tanto como diretor, como como roteirista. E ele sabe, na mesma medida, escolher os seus atores. E a dupla Jamie Foxx e Christoph Waltz segura todas as pontas, fazendo um dueto ajustado e que funciona com precisão. O mesmo não pode ser dito dos atores Leonardo DiCaprio e Samuel L. Jackson.

O primeiro interpreta ao rico fazendeiro Calvin Candie. Na primeira parte de sua aparição, especialmente na cena do escravo com os cães, ele está bem. Um pouco over, mas ainda bem. Agora, quando se encontra com Samuel L. Jackson, que interpreta ao escravo Stephen, um tanto “mandão” e over demais, DiCaprio acompanha ao ritmo e também fica um pouco acima da nota adequada. Sem dúvida, tirando um pouco de lenga-lenga daquela apresentação de Django, Schulz e Candie, e também da enrolação da proximidade um tanto forçada entre Candie e Stephen, o filme ganharia.

Achei uma ótima sacada de Tarantino, logo após o sucesso de Inglorious Basterds, não apenas recuperar a ótima fase do ator Christoph Waltz mas, e principalmente, colocá-lo na pele de um alemão. Que, como era de se esperar, não entendia aquela infâmia chamada escravidão nos Estados Unidos. E a exemplo do filme anterior, Tarantino fez questão de não se ater a uma história real. Ou a amarrar a história a fatos muito concretos. Apesar disso, e por ser um grande interessado pela Segunda Guerra Mundial e pelo tema da escravidão, ele pode escrever dois roteiros cheios de realismo. Aquele realismo fantástico que o caracteriza.

E é assim que assistimos à perplexididade das pessoas, sejam brancos ou negros, com a relação entre Schultz e Django. O fantástico Christoph Waltz leva com muita propriedade o seu personagem do início até o fim. Ele não entende a escravidão, por isso trata Django como um sujeito igual a ele, oferecendo uma parceria desde o princípio. Correto, como todo alemão, ele logo coloca sobre as mesas as cartas que possui e que está disposto a oferecer. E Django embarca em sua proposta por causa disso. Pelo respeito e pela consideração que ele nunca tinha recebido. E que merecia receber, é claro.

E os dois fazem uma parceria incrível como caçadores de recompensas. Que outra mente além de Tarantino poderia colocar nesta posição um ex-dentista e um escravo alforriado? Grande sacada. O melhor do filme está nesta parceria entre os dois e na trilha que eles percorrem até a casa de Calvin Candie. A partir dali, apenas a cena do encontro de Schultz com Broomhilda von Schaft (Kerry Washington) vale a nossa atenção completa.

Há algumas outras pérolas jogadas até o final, claro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como o grand finale de Candie e a aparição de Tarantino como um dos empregados da temida The LeQuint Dickey Mining Company. E, claro, aquele “eterno retorno” de Kill Bill com a cena derradeira na casa grande. Uma vingança que se preze tem que ter uma sequência ciranda como aquela, segundo Tarantino. A marca dele está ali, assim como em todas as outras partes deste filme que trata sobre amor, fidelidade, respeito e uma época em que absurdos aconteciam sob a proteção da lei. Não é o filme definitivo sobre western mas, sem dúvida, é um exemplar interessante do gênero. Como tudo em que Tarantino se mete. A verdade é que o diretor e roteirista não consegue fazer um filme ruim. Ele até pode agradar mais aqui do que ali, mas nunca nos decepciona.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Totalmente uma obviedade dizer isso, mas a trilha sonora de Django Unchained é maravilhosa. Mais um trabalho excepcional de Tarantino que tem como uma de suas marcas registradas fazer uma trilha digna de ser comprada. Entre as ótimas escolhas, o mestre Ennio Morricone; várias músicas de Luis Bacalov; a ótima Freedom de Elayna Boynton, Kelvin Wooten e Anthony Hamilton; RZA e o grande Johnny Cash. Só para citar alguns.

Muito interessante, ainda falando da trilha sonora, de como Tarantino resgatou músicas de vários outros filmes. Como, por exemplo, várias músicas do filme I Crudeli, de 1967, dirigido por Sergio Corbucci; e outras canções de Two Mules for Sister Sara, de 1970, dirigido por Don Siegel; de I Giorni Dell’Ira, de 1967, do diretor Tonino Valerii; de Batoru Rowaiaru, de 2000, dirigido por Kinji Fukasaku; Lo Chiamavano King, de 1971, do diretor Giancarlo Romitelli; e de Città Violenta, de 1970, dirigido por Sergio Sollima. Esta é uma das formas de Tarantino de sugerir ótimos filmes para as pessoas fascinadas não apenas pelo cinema que ele faz mas, especialmente, pelo próprio cinema.

O ator Franco Nero merece um crédito especial no início do filme. E não é por menos. Ele é um veterano e um ícone dos filmes de faroeste. E aparece, em Django Unchained em uma superponta, como Amerigo Vessepi, o italino que aposta contra Calvin Candie em uma luta na noite em que os protagonistas chegam ao local.

Django Unchained custou a barbaridade de US$ 100 milhões. Digo barbaridade porque acabo de assistir a Beasts of the Southern Wild, comentado aqui no blog, que teria custado cerca de US$ 1,8 milhão e que, igualmente, chegou a ser indicado como Melhor Filme no Oscar deste ano. Brincando brincando, o dinheiro gasto com Django poderia ter garantido a produção de 55 filmes como Beasts of the Southern Wild. Claro, vocês vão dizer, os padrões são muito diferentes. Mas mesmo assim… muitos faroestes foram feitos com baixo orçamento. E, francamente, Django não precisava gastar US$ 100 milhões. Certamente custou tudo isso porque os atores pesaram no orçamento. 🙂

Até o momento, apenas nos Estados Unidos, Django faturou pouco mais de US$ 150,9 milhões. Obviamente ele se pagou. Ainda assim, tem um potencial muito menor de lucro do que um filme de baixo orçamento.

Django Unchained estreou no Canadá em dezembro de 2012. Depois, ele foi entrando nos outros circuitos comerciais e, até o momento, não participou de nenhum festival de cinema. Mesmo sem concorrer nestes locais, ele já faturou 19 prêmios e foi indicado a outros 38, além de ser indicado a cinco Oscar’s. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Filme do Ano no Prêmio da AFI; o Melhor Ator Coadjuvante para Leonardo DiCaprio e um Top Films do National Board of Review; e os Globos de Ouro de Melhor Roteiro e de Melhor Ator Coadjuvante para Christoph Waltz.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,6 para esta produção. Uma avaliação muito boa, levando em conta o padrão exigente do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 201 críticas positivas e 26 negativas para Django Unchained, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média 8.

Vocês notaram que demorei para assistir a este filme, não é? Admito que eu perdi a estreia dele no Brasil. E que, depois, preferi me jogar em outras “novidades” destacadas pelo Oscar antes de ver a este filme. Afinal, sempre me desmotiva um pouco quando “todos” já assistiram a algo. Mas o bom é que, apesar de tanta gente ter dito que tinha gostado de Django Unchained, isso não me impediu de assistí-lo sem estar contaminada. E agora, só falta um para fechar a lista dos nove indicados ao Oscar principal. Bóra lá!

CONCLUSÃO: Tarantino adora histórias de vingança. Destas que fazem a plateia torcer pelo mocinho que foi sacaneado. Django Unchained muda apenas o gênero de filme, e a paisagem, mas segue a mesma linha de outras produções recentes do diretor. Desta vez, ele faz a mistura inusitada entre faroeste e escravidão, e o resultado, como não poderia deixar de ser, é pop. Para quem não gosta de sangue, esta não é uma boa pedida. Porque não há tiro jogado fora neste filme. Todos acertam algum alvo e, a cada acerto, o sangue jorra. Tarantino parece cada vez mais propenso a fazer isto acontecer. Ele chegou perto de tornar o recurso over, mas o roteiro, especialmente os diálogos, tão bem escritos, ainda fazem a balança pender para o bom gosto. Django Unchained poderia ser mais curto, sem prejuízo para a história. Mas graças ao roteiro e aos atores principais, não sofremos com a vontade de Tarantino em utilizar o tempo que ele acha adequado para nos levar pela mão em mais um conto de vingança. Com aquela trilha sonora impecável. Ele segue bem. E mereceu estar no Oscar.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Django Unchained foi indicado a cinco Oscar’s. Conseguiu emplacar as indicações de Melhor Filme, Melhor Fotografia, Melhor Edição de Som, Melhor Ator Coadjuvante para Christoph Waltz e Melhor Roteiro Original.

Francamente, pela ousadia que Tarantino segue tendo ao trilhar seu próprio caminho e filmografia autoral, Django merece ter sido indicado como Melhor Filme. Até como incentivo para que outros autores sigam fazendo isso, independente se o tema ou a condução do filme segue a cartilha do politicamente correto ou do que Hollywood quer pregar no momento.

Apesar de merecer estar entre os nove melhores filmes do ano, segundo o Oscar, Django não tem chances de ganhar dos favoritos Lincoln, Argo ou, correndo por fora, até de Zero Dark Thirty. Mas em outras categorias ele tem chances reais de levar a estatueta.

Não assisti ao trabalho de Philip Seymour Hoffman em The Master, mas conferi o trabalho dos demais concorrentes nesta categoria. E acho que Christoph Waltz está melhor que Alan Arkin, Robert De Niro (muito caricato e repetitivo) e Tommy Lee Jones em seus respectivos filmes. Claro que o Oscar pode premiar Arkin ou Jones para consagrar ainda mais a Argo ou Lincoln, respectivamente. Mas seria muito justo Waltz levar esta estatueta.

Django pode faturar também Melhor Edição de Som, ainda que ele tenha em Zero Dark Thirty um concorrente fortíssimo. Em Melhor Fotografia, fica difícil de opinar porque só assisti a Lincoln, do restante da lista, mas acredito que Life of Pi seja o grande concorrente desta categoria.

Em Melhor Roteiro Original a parada volta a ser duríssima. Sou suspeita para falar… gosto demais do roteiro de Moonrise Kingdom. Mas Zero Dark Thirty também ganharia, fácil, o meu voto, assim como Amour. Eita categoria difícil! E Django Unchained ainda se junta a eles. Dificile. Todos os roteiros muito bons. Mas eu acho que ficaria entre Zero Dark Thirty e Django. Para resumir, qualquer um que vencer terá sido por méritos.

Resumo da ópera: Django Unchained pode sair de mãos vazias deste Oscar, ou levar uma ou duas estatuetas. Entre as que tem mais chance, estão a de Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Original e Melhor Edição de Som. Especialmente o de ator.

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Carnage – Deus da Carnificina

Todos são muito civilizados. Até que cada um começa a ser contratariado. Esta não é a história apenas dos personagens principais do ótimo Carnage. Mas de cada um de nós. Como lidamos com o contrário, com o diverso, com a quebra de nossas certezas, diz muito sobre quem somos. Este filme de atores, que ganha força pelo ótimo roteiro e pelo trabalho dos protagonistas, expõe as fragilidades, contradições e a violência domada pela sociedade que, volta e meia, vem à tona quando as pessoas perdem o controle e as barreiras da civilização. Altamente recomendado se você não tem problemas com um filme rodado, totalmente, em um ambiente, e que abre mão das cenas de ação para apostar em uma outra forma de cinema.

A HISTÓRIA: Um grupo de crianças conversa e brinca em um parque. Enquanto alguns meninos jogam bola uns para os outros, outros começam a caminhar, até que um garoto parece desagradar aos demais. Ele é empurrado, e também empurra. O garoto parece levar um galho antigo em uma das mãos, e o utiliza para bater em um desafeto, no rosto. Na saída, ele responde a outros garotos e derruba uma bicicleta. Corta. Uma mulher escreve, no computador, uma declaração sobre o que aconteceu. Ela é Penelope Longstreet (Jodie Foster), mãe do garoto que foi golpeado, e chamou os pais do agressor, Nancy (Kate Winslet) e Alan Cowan (Christoph Waltz) para uma espécie de “acordo amigável”. O que começa bem vai se transformando conforme Penelope e o marido, Michael (John C. Reilly) vão interagindo com Nancy e Alan.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta partes importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Carnage): Eis um filme fascinante, que mostra como grandes atores interpretando um roteiro impecável podem entreter tanto ou mais que milhões investidos em efeitos especiais. Uma ode a ótimos intérpretes que retratam a ironia da nossa civilização, que gasta tanta energia para educar-se e ascender socialmente, mas que segue rastejando em sentimentos e reações de cólera e que nos lembram aos animais mais irracionais.

O diretor e roteirista Roman Polanski faz mais um grande trabalho aqui. Talvez, um dos melhores de sua carreira. Produção universal, e que não deverá perder valor com o tempo. Carnage é um roteiro do diretor, que contou com o trabalho do tradutor Michael Katims para reproduzir todas as peculariedades da peça Le Dieu du Carnage, escrita por Yasmina Reza. Imagino que no teatro, com grandes atores, este texto também provoque um grande impacto.

Muito bom ver Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly, grandes atores que já demonstraram, em mais de uma ocasião, os seus respectivos talentos, reunidos em um mesmo jogo de cena. A mudança que ocorre dentro daquelas quatro paredes da casa dos Longstreet, inicialmente “tão corretos”, “tão civilizados” e, especialmente, a alteração das expressões e dos comportamentos do casal vivido por Foster e Reilly é de arrepiar. E lembra a transformação que tantas outras pessoas passam em diferentes situações.

Há quem se transforme quando está em grupo – como na abertura do filme, quando vários garotos enfrentam um outro, que está sozinho, mas “armado”. Há quem mude quando sobe de posto, ganha poder e dinheiro. E há também os que se transformam na intimidade de seus lares, assumindo uma postura dominante e repressiva na família enquanto na rua esta pessoa utiliza a máscar do “bom/boa cidadão/ã”.

Mas as situações mais frequentes, talvez, sejam aquelas que envolvem a alteração da personalidade quando a pessoa é contrariada. Como diria um certo sábio, infelizmente há muitas certezas para poucas dúvidas neste mundo. E quanto mais as pessoas guardam as suas convicções e não dão espaço para a contrariedade, mais elas deixam aberta a porta para o confronto, a discórdia, a cólera e a violência.

Eis apenas algumas das reflexões que Carnage nos propicia. Mas há muitas outras, que podem ser retiradas desta história saborosa. Como as relações de poder entre homens e mulheres. A facilidade com que eles se unem contra elas, enquanto as mulheres parecem mais propensas a assumir suas brigas individualmente. O filme também demonstra como alta erudição – no caso de Penelope – ou alta posição social – especialmente no caso de Alan – não significam, necessariamente, boas maneiras, generosidade, altruísmo ou senso comum.

O mais irônico – e interessante – é a forma como o filme sugere que, no final, somos todos bárbaros. Uma fina crítica de Polanski para esse esforço medíocre da sociedade em ser civilizada e dar as costas para o “Deus da Carnificina” que parece acompanhar-nos desde as cavernas. Interessante que a perda de tempo com este “Deus”, que significa a ânsia de devorar o outro, essencialmente, e pela destruição, no fim das contas, segue nos cercando. Em ambientes corporativos, nas redações, nas universidades, nas escolas, em diversos ambientes em que há gente que prefere “rezar” e fazer promessas para este “Deus” do que para o outro, mais conhecido, que representa justamente o contrário – amor, doação, comprometimento, etc.

Interessante a sutileza do texto e do jogo de cena. Desde as leves ironias da “supercivilizada” Penelope, desde o início, e seu desejo de aparentar alguém comprometido com a casa e os visitantes – ao comprar, por exemplo, um buquê de tulipas importadas que custa US$ 20 – até o desejo incontido de Alan em dizer que tudo aquilo era uma grande besteira, porque as crianças não tem a noção de civilização e todos os compromissos que surgem daí como os adultos. No que, francamente, em parte, ele está certo. Quem não se lembra de quando era criança ou pré-adolescente de como não enxergava todas as sutilezas das relações de poder e as demais como agora, já adulto? O que não justifica, nunca, claro, atos de violência. Mas é de se pensar.

E falando em pensar… outra questão bem levantada por Carnage é que tipo de ensinamentos os pais estão repassando para os filhos atualmente. Que tipo de lógica torta ou de valores corretos estão sendo transmitidos? Preocupante o ambiente das duas famílias retratadas e que refletem muitas outras mundo afora. Interessante também como cada linha de diálogo e expressão dos atores demonstra pré-julgamentos que uns tens dos outros e suas reprovações contidas. Um belo retrato desta necessidade que muitos tem – a maioria mas, acredito, não a totalidade – de estar sempre julgando e hierarquizando aos demais.

E impressionante a forma com que um casal fica medindo o outro, tentando ver quem está mais “ferrado” para, desta forma, sentir-se melhor com os próprios problemas. O descontrole vai crescendo, até que todos lavam as suas próprias roupas sujas. Uma catarse que pode ser lida, quase, como terapia. E no final, a cereja no bolo: a sugestão que os jovens problemáticos resolveram seus problemas de forma muito mais simples do que os seus pais.

Mas para não dizer que tudo é perfeito em Carnage, há algumas situações um bocado irreais que acabam atrapalhando todo aquele “excesso de realidade”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como, por exemplo, os pais do garoto agressor, que estavam loucos para sair dali o mais rápido possível, terem aceitado tomar café e água e, depois, terem comido bolo e se enredado, cada vez mais, em um embate verborrágico com o outro casal.

Então alguém pode dizer: “Mas se fosse assim, tudo tão lógico e racional, não teríamos um filme, porque o casal não voltaria para o apartamento do outro tantas vezes”. De fato, não teríamos filme. O que seria péssimo, claro. Mas talvez a forma com que o “convencimento” foi feito poderia ter sido outra do que o oferecimento de uma simples xícara de expresso. Além do mais, uma vez, tudo bem. Mas duas? Se bem que, da segunda vez, o reticente Alan já estava querendo embarcar em uma sessão de desmascarar aquela Penelope tão perfeita… As razões para os retornos eu ahcei o único porém desta produção.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Meus bons leitores, minhas desculpas por ficar tanto tempo sem escrever. Eu assisti a Carnage há quatro ou três semanas mas, só agora, consegui sentar para escrever estas linhas. A verdade é que entrei, mais uma vez, naquela fase de muito trabalho… mas prometo tentar, a partir de agora, atualizar o blog pelo menos uma vez por semana.

Outra leve ironia de Polanski foi colocar um de seus filhos, Elvis Polanski, no “papel” de Zachary Cowan, o garoto agressor da história. O próprio Polanski tem uma história bastante controversa. Nascido na França, ele fugiu dos guetos de um campo de concentração, foi para os Estados Unidos, perdeu a mulher Sharon Tate, que estava grávida, assassinada por Charles Manson e “família” e, mais tarde, foi acusado e condenado por ter estuprado uma garota de 13 anos. Para não ser preso, ele fugiu dos Estados Unidos e voltou a morar na França, até que, em 2009, foi preso em Zurique.

Polanski ficou em prisão domiciliar, na Suíça, até que uma decisão da Justiça optou para que ele não fosse extraditado para os Estados Unidos.

E uma curiosidade sobre esta produção: a exemplo de Rope, de Alfred Hitchcock, Carnage também foi totalmente rodado em tempo real, de forma contínua e sem cortes. Diferente do clássico do mestre do suspense, Carnage só tem algumas cenas, as iniciais e finais, que transcorrem fora de um único ambiente – o apartamento e o corredor de acesso a ele.

Agora, uma curiosidade difícil de perceber: Polanski, a exemplo de Hitchcock, faz uma “ponta” no filme como o vizinho que olha pela porta entreaberta para ver o que está acontecendo no corredor, já que os atores estão falando alto. Curioso, no mínimo. O que reforça, também, como Carnage é uma homenagem de Polanski a Hitchcock.

A trilha sonora de Carnage está presente no início e no final. E mesmo que pouco presente, nela é possível ver o trabalho dinâmico e dramático do ótimo Alexandre Desplat.

Além da trilha sonora, importante destacar o belo trabalho do diretor de fotografia Pawel Edelman, que deu o tom exato para cada momento do filme – no parque e na casa – e a decoração de set de Franckie Diago. Precisos.

Carnage foi totalmente rodado na França, em dois estúdios, e na cidade de Paris – as cenas externas.

Este filme estreou no Festival de Veneza em setembro de 2011. Depois, ele participou de outros três festivais. No Festival de Veneza, ele recebeu o Pequeno Leão de Ouro. Foi indicado, ainda, aos Globos de Ouro de Melhor Performance de Atriz em um Filme de Comédia ou Musical para Jodie Foster e Kate Winslet. Além daquele prêmio de Veneza, ele recebeu outros três: Melhor Elenco pela avaliação do prêmio da Boston Society of Film Critics; Melhor Roteiro Adaptado no prêmio do Cinema Writers Circle, da Espanha; e Melhor Roteiro Adaptado no prêmio César, da França.

Uma pena, mas este filme mal conseguiu pagar-se. Carnage teria custado cerca de US$ 25 milhões e arrecadado, segundo o site Box Office Mojo, pouco mais que isso nas bilheterias globais. Nos Estados Unidos, ele foi mal: conseguiu pouco mais de US$ 2,5 milhões. No restante dos países, mais US$ 25 milhões. No total, cerca de US$ 27,6 milhões, até o momento. Pouco. Mas dá para entender, pelo estilo de fime – não é o grande público que busca algo deste gênero. Infelizmente.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para o filme. É uma boa nota, para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram na mesma linha, dedicando 188 críticas positivas e 46 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 72% e uma nota média de 6,8.

Carnage é uma co-produção da França, Alemanha, Polônia e Espanha.

CONCLUSÃO: Este não é o primeiro filme que se passa em um único ambiente. Mas, sem dúvida, é um dos melhores. Diferente do clássico de Hitchcock, que aposta na tensão criada por um crime, Carnage investe na tensão do embate de argumentos e psicológico entre pessoas com olhares muito diferentes sobre boas maneiras. A própria civilização está em jogo naquela casa de pessoas, aparentemente, tão equilibradas e “compreensivas”. Pouco a pouco os quatro personagens vão mostrando as suas armas, ironias, hipocrisias. Quem descuidar e começar a preocupar-se mais em avaliar a pessoa próxima do que a si mesma, vai cair no embate. Na crítica, no confronto, na violência controlada por muitos anos de educação. Há muitas camadas de leitura deste filme. Só isso já o torna um artigo raro. Mais um excelente trabalho de Roman Polanski. E uma oportunidade única de ver ótimas interpretações de quatro grandes atores.

SUGESTÕES DE LEITORES: Demorei tanto para escrever sobre Carnage que o Mangabeira, um dos mais estimados leitores deste blog, foi mais rápido. 🙂 Mangabeira, tenho que citar a tua indicação, é claro. Tinha assistido ao filme antes de comentares, mas como não escrevi… está valendo a tua sugestão. O que é bacana, porque reforça ainda mais, para quem não assistiu, de que não sou a única que aprovou a produção. Muito obrigada, por mais esta dica. Como podes ver, eu também tinha adorado ao filme. Inteligente, irônico, com ótimas atuações e roteiro inspirador. Abraços e obrigada por sempre voltar aqui!