My Week with Marilyn – Sete Dias com Marilyn


Você que, como eu, tem uma paixão contagiante pelo cinema, já se imaginou acompanhando os bastidores de filmagem de uma produção com alguns dos grandes astros de sua época? Agora, imagine ter feito isso na era das grandes estrelas, ter visto e convivido de perto com Marilyn Monroe, por exemplo. My Week with Marilyn torna este sonho realidade. Nos aproxima de uma das maiores estrelas de Hollywood de todos os tempos. Conhecemos um pouco da intimidade da diva, sua fragilidade, talento e carisma. E é de cair o queixo a interpretação de Michelle Williams para o papel. Perfeita, para dizer o mínimo.

A HISTÓRIA: O filme começa nos contando que, em 1956, no auge de sua carreira, Marilyn Monroe (Michelle Williams) viajou para a Inglaterra para fazer um filme com Sir Laurence Olivier (Kenneth Branagh). Chegando lá, ela conheceu um jovem chamado Colin Clark (Eddie Redmayne), que escreveu um diário sobre os bastidores das filmagens. E o filme é a história real sobre o que aconteceu. No breu, ela aparece do lado direito da tela. Quando o holofote acende sobre ela, a diva se vira. E dá um show. Começa aí a história da experiência de Marilyn Monroe na Inglaterra, contada por Clark. Através daquele jovem fascinado pelo cinema, acompanhamos os bastidores da filmagem de The Prince and the Showgirl, e nos aproximamos de alguns dos grandes astros daquela época. Com destaque, é claro, para a complexidade da personalidade de Marilyn e das pessoas que a cercavam.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a My Week with Marilyn): Impressionante. Ficamos fascinados com Michelle Williams como Marilyn Monroe. Da mesma forma com que o personagem de Colin Clark, embasbacado com aquela sequência inicial do filme que está sendo exibida em uma sala de cinema repleta de homens igualmente babões. Ela faz um trabalho impecável e marcante. Algumas vezes, a ponto do espectador ser até capaz de esquecer da Marilyn original, e acreditar que esta assistindo à diva na telona outra vez.

Até assistir a esse filme, eu não sabia que se tratava de uma história real, baseada nos escritos de um admirador que teve a oportunidade de conviver com Marilyn por um período. Interessante a forma com que esta história real foi contada. Bom trabalho do roteirista Adrian Hodges, baseado nos livros My Week with Marilyn e The Prince, the Showgirl and Me, escritos por Clark. Ele acerta em começar com Marilyn na telona do cinema e, a partir daí, abraçar a ótica do narrador desta história. A empatia é criada rapidamente, e isso é fundamental para o espectador continuar interessado no filme.

Além disso, claro, o diretor Simon Curtis acerta ao apostar no trabalho de seus atores. Ele evidencia não apenas Michelle Williams e Kenneth Branagh, mas o “narrador” Eddie Redmayne e todos os demais intérpretes selecionados à dedo para esta produção. E o elenco, aliás, é exemplar. Julia Ormond interpreta à diva Vivien Leigh, mulher de Laurence Olivier; Emma Watson interpreta à Lucy, que trabalha nos estúdios e atrai o protagonista; Dougray Scott interpreta a Arthur Miller, marido de Marilyn; Dominic Cooper a Milton Greene, fotógrafo e amigo pessoal de Marilyn; Judi Dench, fantástica, interpreta a Sybill Thorndike; e Zoë Wanamaker à Paula Strasberg, que não desgruda de Marilyn. Todos estes tem relevância para a história e aparecem muito bem em cena.

Eis um filme de atores. Com grandes interpretações. Como não poderia deixar de ser. Até porque esta é uma produção que conta sobre os bastidores de um filme. Então os acertos, erros, exageros, o talento e, porque não, o ego dos atores está em evidência. Interessante como My Week with Marilyn mostra astros como Monroe e Laurence Olivier de perto, com todas as suas fraquezas e talento.

Diferente de outras produções sobre bastidores do cinema, que tentam “preservar” os astros, esta tem o compromisso com a verdade, porque foi baseada nos livros de Clark. Apesar dele ter se tornado diretor de documentários mais tarde, ele nunca teve o compromisso com a preservação da intimidade das estrelas com que teve o prazer de cruzar o caminho. Por isso assistimos um filme raro, que revela na mesma proporção as qualidades e os defeitos dos astros focados pela produção.

Marilyn aparece como uma atriz que tinha problemas em embarcar em uma personagem. O filme se passa em um momento da carreira da diva em que ela tinha embarcado com tudo no “método” de interpretação visceral de Lee Strasberg. Tanto que ela aparece sempre acompanhada por Paula Strasberg no filme, com quem ele foi casado até 1966, quando ela morreu de câncer.

Interessante, aliás, o “choque” entre duas formas muito diferentes de encarar o trabalho do ator no cinema. Enquanto Marilyn, ao lado de Paula, defendia uma interpretação que partisse do “íntimo” do ator, que exigisse que ele embarcasse no personagem após entendê-lo e “vivenciá-lo”, Sir Laurence Olivier achava tudo isso uma bobeira. Ele sabia, aliás, que The Prince and the Showgirl seria apenas mais um filme “pastelão”, uma história de amor escrachada, com uma boa dose de humor, pensada para faturar bastante e agradar ao público.

Ele estava preocupado em cumprir o horário de filmagens proposto, e fazer o melhor trabalho em mais um produto da indústria. Marilyn não, ela não se encaixava nos horários e não encontrava o tom da personagem. E ainda assim, o próprio Olivier admitiria, ela se saiu muito melhor que ele.

E eis uma das qualidades de My Week with Marilyn: o filme consegue mostrar todo aquele magnetismo e presença de cena da atriz. Não é uma tarefa fácil. Até porque, para muita gente, nunca houve uma atriz como Marilyn. Ainda assim, a atriz Michelle Williams vence o desafio de interpretar mulher tão inigualável com louvores.

Mas o filme não mostra apenas as qualidades da loira platinada mais famosa de Hollywood. Simon Curtis mostra com dedicação, e sem deixar o filme piegas, a fragilidade de Marilyn Monroe. Fica evidente a dependência dela de medicamentos para dormir, por exemplo, e também por elogios das pessoas que a cercavam. Ela tinha uma grande necessidade de sentir-se amada, o filme deixa a entender, assim como de sentir-se segura. Parecia estar sempre pedindo aprovação. Isso acontecendo na vida íntima de Marilyn, ela conseguia esbanjar confiança e sensualidade na frente das câmeras e do públicos que a perseguia por onde ela fosse.

Apesar desta aparente alta carência, Marilyn também sabia muito bem o efeito que tinha no público, especialmente nos homens. Interessante como My Week with Marilyn consegue, ao mesmo tempo, mostrar os bastidores de um filme estrelado por grandes atores e atrizes e explorar tanto a intimidade da protagonista.

Já ficou famosa a cena em que ela, acompanhada de Colin Clark no ex-colégio de seu novo queridinho, pergunta para ele se aquele é o momento de Marilyn – a personagem – entrar em cena. Ela sabia interpretá-la muito bem, entrou no papel com afinco – talvez utilizando o método de Strasberg. E algumas vezes entrava em crise ao confrontar os seus desejos reais com aqueles que deveriam ser da “personagem”.

My Week with Marilyn tem um ótimo ritmo e um roteiro muito bem escrito, que equilibra os bastidores do cinema com os dramas pessoais dos personagens principais desta história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Algumas cenas, claro, são difíceis de acreditar, como aquelas em que Marilyn parece um verdadeiro desastre nas filmagens. Mas são compreensíveis, por exemplo, as sequências dela com Clark, já que ele parecia a única pessoa autêntica e confiável naquele cenário de estrelas muito centradas em si mesmas. Importante lembrar que este filme é baseado em fatos reais e não, necessariamente, um retrato fidedigno do que realmente aconteceu. Um pouco de fantasia deve fazer parte da história – seria compreensível Clark ter aumentado alguns “contos”. 🙂

Apesar de ter um ritmo adequado e a duração exata, My Week with Marilyn só não é perfeito porque deixa um gosto de “quero mais”. Talvez ele pudesse ter um pouco mais de tempo e aprofundar-se naquelas pessoas que circulavam ao redor da diva. Quem não acompanha um pouco os bastidores do cinema pode ficar um pouco perdido e não fazer as ligações necessárias entre Marilyn e Paula Strasberg, por exemplo, ou entre Olivier e Vivien Leigh, entre outros.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O método de interpretação para atores de Lee Strasberg fez história. Ele fundou, em 1947, o famoso e respeitado Actors Studio, para a formação de intérpretes. E foi um nome fundamental para os tempos áureos de nomes como James Dean, Marilyn Monroe, Montgomery Clift, Paul Newman, Al Pacino, Robert De Niro e Marlon Brando, entre outros. Todos seus alunos. Mas o trabalho dele também rendeu polêmica, especialmente pela proximidade da família Strasberg de Marilyn. A atriz deixou grande parte de sua herança para eles.

Norma Jeane Mortenson atuou em 33 filmes, incluindo o incompleto Something’s Got To Give, de 1962, dirigido por George Cukor e que tinha Dean Martin e Cyd Charisse no elenco. O filme nunca foi terminado porque Marilyn morreu no dia 5 de agosto de 1962, quando ele estava sendo filmado. Aliás, este ano completa cinco décadas da morte da atriz. E várias homenagens, como exposições fotográficas, já começaram a ser feitas em memória da diva.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre Lee Strasberg, neste texto da Wikipédia, em inglês, há várias informações interessante sobre o ícone da escola de interpretação. E neste outro, há mais informações sobre o “método” ensinado por ele.

Tudo em My Week with Marilyn funciona bem. Mas merece destaque a deliciosa trilha sonora, assinada por Conrad Pope, fundamental para dar leveza e ritmo para a produção, e a excepcional direção de fotografia de Ben Smithard. Ele consegue reforçar a ideia de “volta ao passado” com uso de lentes que destacam cores terrais, sépia e românticas durante toda a produção. Um belo trabalho. Muito boa também a edição de Adam Recht.

Uma curiosidade interessante desta produção: Kenneth Branagh interpreta a Laurence Olivier, ator que, como Branagh, atuou ou dirigiu três produções baseadas em obras de William Shakespeare. A saber: Othello, Hamlet e Henry V.

Emma Watson me surpreendeu neste filme. Se ela seguir com esta levada, poderá superar a personagem de Hermione Granger dos filmes de Harry Potter com certa facilidade. Ela mostrou talento e carisma na produção. Conseguiu um feito difícil: aparecer quase tão bem nas cenas quanto Michelle Wiliams como Marilyn. Também gostei muito do trabalho de Eddie Redmayne, que já havia feito um trabalho excelente em Savage Grace. Esse garoto vai longe, especialmente se continuar escolhendo bem os seus papéis.

Outra curiosidade da produção: as reconstituições de cenas de The Prince and the Showgirl foram rodadas no mesmo estúdio onde o original foi filmado.

Michelle Williams ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Comédia ou Musical este ano por seu trabalho neste filme. Marilyn Monroe recebeu o mesmo prêmio em 1960 por seu trabalho em Some Like It Hot. Por outro lado, Williams foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz, algo que Monroe nunca conseguiu.

My Week with Marilyn teria custado 6,4 milhões de libras. No Reino Unido, até o dia 5 de fevereiro, a produção havia arrecadado quase 3,1 milhões de libras. Nos Estados Unidos, onde Monroe fez a sua carreira, a produção foi muito melhor, arrecadando quase US$ 10,46 milhões até o dia 8 de janeiro.

Esta produção estreou no Festival de Nova York no dia 9 de outubro de 2011 e, depois, passou por outros seis festivais. Nesta trajetória, ganhou 14 prêmios e foi indicado a outros 31, além de concorrer em duas categorias do Oscar. Doze dos 14 prêmios que o filme recebeu foram para Michelle Williams. Merecidíssimo, devo dizer. Os outros premiados foram o ator Kenneth Branagh, como melhor ator coadjuvante segundo o London Critics Circle Film Awards, e o elenco da produção vencedor do prêmio Capri, de Hollywood.

Buscando ser o mais fiel possível com a realidade retratada na história, My Week with Marilyn foi totalmente rodado no Reino Unido. Entre outras cidades, foram feitas cenas em Londres, Hatfield, Saltwood e Windsor.

Marilyn Monroe estreou nos cinemas emprestando a sua voz para a personagem de uma telefonista no filme The Shocking Miss Pilgrim, quando ela tinha 21 anos. No mesmo ano, em 1947, ela fez a primeira aparição em um filme de Hollywood em uma ponta em Dangerous Years. No ano seguinte, ela faria o primeiro papel de destaque em Ladies of the Chorus. E a partir daí, o resto é história. Em 15 anos de carreira, ela participou de 33 produções – sendo uma delas inacabada.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para o filme. Uma boa avaliação, para os padrões do site. Mas os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 130 críticas positivas e 25 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,2 – esta sim, igual a do IMDb.

My Week with Marilyn foi indicado ao Oscar de Melhor Atriz, para Michelle Williams, e para Melhor Ator Coadjuvante, para Kenneth Branagh. Não levou nenhum dos dois, porque os vencedores deste ano, nestas duas categorias, foram Meryl Streep e Christopher Plummer, respectivamente. Mas ao assistir a My Week with Marilyn e The Help, percebi como a categoria de melhor atriz foi muito concorrida este ano. Mais do que as de ator e de atores coadjuvantes.

Este filme foi co-produzido pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido.

CONCLUSÃO: Simplesmente fantástica. Michelle Williams mergulha de uma maneira na interpretação de Marilyn Monroe que, algumas vezes, não conseguimos distinguir a imagem de uma ou de outra. Uma pena que o Oscar deste ano não pudesse ser entregue para mais de uma atriz. Porque Williams merecia a estatueta tanto quanto Meryl Streep. Ela é a alma de My Week with Marilyn. Mas também impressiona o elenco formidável que aceitou aparecer nesta produção. Não há desempenhos ruins em cena. E o roteiro, narrado sob a ótica de um grande admirador da Sétima Arte que batalha por um espaço nos bastidores de uma grande filmagem, nos aproxima daquela história. Provoca empatia, ao ponto de sermos envolvidos naquele enredo como se nós mesmos estivéssemos na pele do protagonista. O roteiro é inteligente, os atores ótimos, e a direção de Simon Curtis acerta no tom, focando sempre os melhores ângulos de cada cena e valorizando o trabalho dos atores. Um recorte interessante sobre um momento específico da diva, que merecia esta aproximação em um filme sem grandes pretensões. E que, por isso mesmo, se mostra tão interessante.

2 comentários em “My Week with Marilyn – Sete Dias com Marilyn

  1. Me surpreendeu este filme, não sou fã de Mailyn Monroe ( ou não era, antes desse belo filme), que mostra as neuróses de uma das mais belas atrizes que o cinema já produziu. Depois de ver as fraquezas de uma Deusa, só posso aplaudir a essa, antes de mais nada mulher.

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    1. Oi vanderfilmb!

      Estou contigo. Antes, eu gostava da Marilyn. Mas passei a admirá-la muito mais quando conheci um pouco mais sobre a sua história, lendo a respeito e, principalmente, com este filme.

      Muito bem conduzido, My Week with Marilyn desperta admiração, realmente.

      Obrigada por mais esta visita e comentário. Abraços e inté!

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