Victoria and Abdul – Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha

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Algumas posições que certas pessoas ocuparam – ou ocupam ainda hoje – na História são verdadeiramente impraticáveis. Muito poder e tudo o que vem junto com ele para um único indivíduo. A carga disso tudo, o nível de bajulação, de covardia, de interesses e de traição que certas “posições” despertaram (e despertam) não deveria ser carregada por ninguém. Victoria and Abdul nos conta uma história interessante sobre este nível de peso e sobre como as pessoas até podem ser consideradas diferentes por suas “posições” e sociedades, mas que, no fundo, todos nós queremos o mesmo. Quase sempre, ao menos. Filme interessantíssimo. Mais um bom achado na temporada “pré-Oscar”.

A HISTÓRIA: Começa afirmando que o filme é baseado em fatos reais… ou, pelo menos, grande parte dele. A narrativa inicia na cidade de Agra, na Índia, em 1887. Como a introdução explica, a Grã-Bretanha governou a Índia por 29 anos. Naquela cidade, Abdul (Ali Fazal) tem um dia comum, como qualquer outro. Ele faz as orações, logo que acorda, e depois segue apressado pelas ruas apinhadas de gente e de mercadorias. Ele passa por alguns guardas e chega no posto de trabalho, onde registra os dados das pessoas que estão sendo presas. É ali que ele acaba sendo chamado pelo governador.

Abdul Karim foi a pessoa que ajudou a escolher os tapetes que foram enviados para a Rainha Victoria. Como eles gostaram muito dos tapetes, agora a Índia vai oferecer para a rainha um mohur – uma espécie de moeda mongol comemorativa. Por ser o indiano mais alto que o governador conhece, Abdul foi escolhido para entregar o mohur pessoalmente para a rainha em uma cerimônia. E é assim que este indiano comum e sem grandes perspectiva acaba viajando para Londres e conhecendo a rainha e a corte real no Palácio de Buckingham. Esta viagem dele mudará a vida de muitas pessoas de forma inesperada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto a seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Victoria and Abdul): Antes de mais nada, quero dizer que demorei demais para escrever sobre esta produção. Assisti ela há uma semana e só hoje estou terminando de escrever este texto. Terminando é a palavra exata porque, afinal, eu sempre tenho o mesmo “modus operandi”: escrevo o primeiro parágrafo, a conclusão e, muitas vezes, como fiz com esta crítica, a parte sobre “a história” e os “palpites para o Oscar” para, só depois, escrever este miolo.

E é justamente o miolo que eu demorei sete dias para terminar. Admito que isso aconteceu porque, esta semana, tudo que eu queria era ter um dia de folga ao menos de escrever. Como no meu trabalho eu escrevo todos os dias, e muito, nos horários livres que eu tive esta semana eu quis fazer outras coisas que não escrever. E por pouco hoje eu não deixei este texto para lá outra vez. Só não fiz isso por causa de vocês, meus caros leitores. Afinal, ao menos um texto por semana eu tenho que me “obrigar” a escrever, não é mesmo? Então é por vocês que eu escrevo isso aqui hoje.

Bem, como eu disse, há uma semana eu fui no cinema para assistir a Victoria and Abdul. O meu interesse maior pelo filme, é claro, foi o fato dele ser um “leve” concorrente ao Oscar. Algumas bolsas de apostas colocam ele como possível candidato em algumas categorias. Mas, já vou deixando claro, ele corre sempre “por fora”. Ou seja, até tem alguma chance de emplacar, mas não está entre os favoritos. Esta foi uma boa motivação, assim como o elenco e o diretor – gosto muito de Judi Dench e respeito o trabalho de Stephen Frears.

E aí que este filme é mais uma grande produção de época do perfeccionista Stephen Frears. É impressionante e muito marcante a forma com que o diretor e a sua equipe de colaboradores nos transporta para a Agra e para a Londres do final do século 19. A história que vemos em cena tem nada menos que 140 anos, quando inicia, e chama muito a atenção como os realizadores conseguem reproduzir as condições da época com perfeição.

Então o visual deste filme é o seu primeiro grande acerto. O segundo, claro, é a escolha do elenco. Judi Dench rouba a cena sempre que aparece. Mas, ao lado dela, temos um ator com um sorriso cativante e uma simpatia difícil de ignorar. Ali Fazal não se intimida com o personagem e nem com a grande atriz Judi Dench. Muito pelo contrário. Ele faz uma dupla perfeita com a atriz veterana que, muitas vezes, não precisa dizer nem uma palavra para transparecer tudo que a sua personagem está pensando ou sentindo. Ela é divina!

Junto com eles, o elenco de coadjuvantes também faz um grande trabalho. Vou falar deles mais para a frente. Apesar de todos estarem bem, sem dúvidas o grande mérito desta produção, como a história mesmo exige, é dos atores Judi Dench e Ali Fazal. Isso porque, ainda que alguns coadjuvantes tenham relevância na história, em muitos momentos importantes da produção Dench e Fazal estão sozinhos em cena. E se eles não estivessem perfeitos em seus respectivos papéis, eles não nos convenceriam com a intensidade com que fazem neste filme.

E a história? Vocês sabem que, para mim, o roteiro é um elemento mais que fundamental. Ele consagra ou destrói um filme na minha avaliação. Então o roteiro de Lee Hall, baseado no livro de Shrabani Basu, tem muitos acertos. Mais acertos do que erros, sem dúvida alguma. Mas, nem por isso, ele é realmente surpreendente ou perfeito. Vamos falar dos acertos primeiro.

O texto de Hall tem alguns diálogos preciosos e uma dinâmica “clássica”, com narrativa linear e construído de uma forma que é para fazer o público ir se encantando aos poucos até que nos emocionemos no final. Como pedem os bons roteiros, Victoria and Abdul se centra em poucos personagens e tenta se aprofundar neles. Como o título do filme sugere, este mergulho é feito nos últimos anos de vida da rainha Victoria e do seu inusitado “munshi” (professor de uma língua nativa) que vira, o que é ainda mais inusitado, uma espécie de “confidente” da rainha.

Além da reconstituição de época, o que eu achei marcante nesta produção e um grande acerto do roteiro foi nos desvelar, em todos os detalhes, o tipo de “súditos” que uma rainha como Victoria tinha ao seu redor. Impressionante como absolutamente tudo que ela fazia era “facilitado” e/ou acompanhado pelos outros. Do levantar da cama em determinado horário e com a assistência de diversas criadas até todos os quase infindáveis compromissos que a rainha tinha durante o dia. A agenda dela era de arrepiar qualquer mortal.

Acima de tudo isso, Victoria – e tantas outras rainhas e reis – tinha um poder “soberano” que era assustador. O que ela dizia era seguido – pelo menos até que começassem a surgir traições ao seu redor. Mas ela sabia como ser temida, e provavelmente qualquer outra rainha e rei que a precedeu ou que a seguiu também sabiam o poder de alguém ser temido. Então, por trás daquela vida cheia de compromissos, de criados e de bajulação, restava tudo, menos qualquer sombra de liberdade.

Alguém muito “poderoso”, no fim das contas, não é livre. Esta foi uma das maiores constatações que eu tive ao assistir a este filme. Então eu acho que ninguém, por mais brilhante ou capacitado que seja, deveria ter tanto poder e tanta limitação ao mesmo tempo. Chama muito a atenção, neste filme, a corte de interesseiros, puxa-sacos e bajuladores que cerca a rainha. No fim das contas, ninguém está ali porque gosta de Victoria, mas sim porque gosta do “status” de seus cargos e de disputar quem pode ter a maior migalha de atenção e de benesses dadas pela rainha.

É esta corja que não aceita que um estrangeiro, mestiço, que veio da Índia apenas para entregar uma moeda comemorativa, ganhe mais atenção e carinho da rainha do que eles que estão ao lado dela “este tempo todo”. Ah, bem sabemos que estar ao lado por muito tempo não quer dizer nada. Quantas famílias vivem juntas por uma vida inteira e não tem afeto, compreensão e amor suficientes? Ou mesmo que se comparem quando existe um verdadeiro “encontro de almas” em uma relação que até pode durar pouco, no tempo, mas que transcende as limitações desta vida?

Victoria e Abdul nos conta sobre um destes encontros. Quando uma rainha, já idosa e cheia de limitações causadas por sua idade em uma época em que a Medicina não era tão avançada, encontra finalmente alguém que tem a coragem de olhar para dentro dos olhos dela. Abdul é um sujeito que não está afeito à regras ou que realmente se preocupa com a própria vida. Ele quer conhecer tudo e todos que o cercam e tem muito respeito pela vida e por todos os encontros que ela nos permite. Assim, ele olha realmente para a rainha Victoria, com uma admiração e um interesse que há muito ela desconhecia.

Isto é o que justifica as “loucuras” da rainha Victoria ao tornar um indiano desconhecido como alguém tão próximo dela. No fundo, tudo o que a rainha queria – e quem de nós não quer ou precisa? – era ter “alguém com quem conversar, alguém que depois” não usasse o que ela poderia dizer contra ela (para citar uma letra da Legião Urbana). Ela queria ter alguém para falar o que ela realmente pensava e sentia, o mais profundo e verdadeiro que ela poderia dizer, sem que esta pessoa a julgasse ou depois pudesse usar as suas “fraquezas” de forma estratégica e vil contra ela.

Típicos atos que poderíamos esperar do filho dela, o príncipe Bertie (Eddie Izzard) ou de quase toda a corja que a cercava – exceto, talvez, o seu secretário mais próximo, Sir Henry Ponsonby (Tim Pigott-Smith), talvez a pessoa mais fiel à rainha, apesar de seus preconceitos e de sua dificuldade em aceitar Abdul próximo da monarca. Os desabafos da rainha e as falas de Abdul, especialmente quando ele fala sobre o próprio entendimento dele para o “sentido da vida” – que é o de servir – são alguns dos pontos altos do roteiro. Falas realmente interessantes, diretas e bem escritas.

Por outro lado, Victoria e Abdul não é um filme perfeito porque ela acaba sendo um bocado repetitivo e tem parte da sua narrativa um tanto “exagerada” para fazer o público se chocar e/ou emocionar. Depois que Victoria pede para Abdul a acompanhar pela primeira vez no momento das suas deliberações e despacho, boa parte do enredo acaba circulando, ao menos em relação ao elenco de apoio, sobre “maneiras de despachar o indiano insolente”.

Desta forma, o filme acaba sendo um tanto repetitivo sobre a aproximação de Victoria de Abdul e sobre os movimentos da Côrte em fazer Abdul voltar para a Índia. Senti falta, por exemplo, já que a história transcorre por vários anos, de saber sobre algumas decisões tomadas pela rainha naquele período. Afinal, a vida dela não se resumiu às conversas com Abdul, à uma série de jantares para cumprir agenda, à aproximação da monarca aos costumes indianos e nada mais. Certamente ela tomou decisões importantes, e nada disso aparece em cena.

Também senti falta, por exemplo, de saber mais sobre a família de Victoria. Em certo momento, ela mesma comenta que teve nove filhos… mas em cena, nos aparece apenas o pusilânime Bertie. E os outros? Senti falta de conhecer um pouco mais, realmente, sobre a vida de Victoria, quem lhe era próximo, sobre sua família, etc. Também achei um tanto “forçado” a rainha rapidamente começar a aprender um dos idiomas falados na Índia. Certo que ela estava fascinada por Abdul, encantada por ele – a quem achava bonito e interessante.

Mas daí a uma rainha como Victoria começar a dedicar tanto tempo para aprender um idioma… faria sentido se o filme mostrasse como ela era poliglota, que ela falava X idiomas e que era uma ávida “devoradora” de informações de outras nações. Isso não fica claro no filme – falarei sobre este assunto mais abaixo. Então eu senti falta destes pontos na produção e no trabalho de Hall. Ainda assim, Victoria and Abdul é uma produção importante pois nos apresenta uma história que, certamente, muitas pessoas tiveram grande interesse de ocultar ou mesmo de apagar para sempre.

Pensar que a proximidade de Abdul com a rainha Victoria demorou mais de 100 anos para vir à tona. Certamente a parte da realeza britânica não queria que a lembrança de Abdul e o seu ponto de vista aparecesse. Mas passado tanto tempo, pudemos saber um pouco mais sobre os bastidores dos anos finais da rainha Victoria. Um filme fascinante pela sua reconstrução de época, pelo trabalho dos atores e por algumas linhas de roteiro realmente preciosas.

Destaco, em especial, a forma com que o filme desnudou a Côrte e a intimidade de uma rainha tão importante como Victoria, além de nos dar alguns ensinamentos preciosos sobre os muçulmanos e as suas crenças. Hoje, por causa de movimentos terroristas, muitas vezes pensamos que o que está por trás destes absurdos é o Islã e a fé muçulmana. Mas houve uma boa parte da História também em que a Bíblia foi usada para diversas pessoas cometerem absurdos. E, hoje, muitos usam o Alcorão da mesma forma. Infelizmente.

Algo bacana que Victoria and Abdul nos mostra é que esta não é a essência nem do Alcorão e nem da Bíblia. No fundo – e isso alguns tem dificuldade de entender -, todas as religiões pregam a paz, a harmonia entre as pessoas e os povos, o respeito entre as pessoas e, como bem diz Abdul, a compreensão de que todos estamos aqui para servir uns aos outros. Deveria ser assim, ao menos. Quando as pessoas não entendem errado as suas próprias religiões e utilizam os livros sagrados de suas religiões apenas para benefício próprio, de forma totalmente equivocada.

Então Victoria and Abdul, de maneira inesperada, nos faz pensar que todos somos muito mais parecidos do que muitas vezes nos damos conta. Todos precisamos de alguém que nos veja como realmente somos, sem preconceitos, sem julgamentos e sem diversos interesses próprios colocados sobre a capacidade de entendimento do outro. Quando duas pessoas realmente resolvem dialogar, se conhecer e se respeitar, todas as barreiras caem por terra – sejam sociais, sejam de origem ou o que mais pensarmos. Um belo filme por nos fazer pensar em tudo isso.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei antes, uma das características marcantes desta produção é a reconstituição de época. Mérito do design de produção de Alan MacDonald; da direção de arte de Sarah Finlay e de Adam Squires; dos ótimos figurinos de Consolata Boyle; do Departamento de Maquiagem com 22 profissionais; do trabalho dos 29 profissionais do Departamento de Arte; e do trabalho dos 23 profissionais responsáveis pelos Efeitos Visuais.

Além destes profissionais, que nos ajudaram a nos transportar no tempo e no espaço, vale comentar o ótimo trabalho do veterano Thomas Newman na trilha desta produção, assim como a direção de fotografia impecável de Danny Cohen e a edição de Melanie Oliver.

A atriz Judi Dench, mais uma vez, está divina. Impecável. Como eu disse, ela convence em cada gesto, em cada olhar e na mudança grande que ela consegue dar para a personagem conforme as expressões, a “leveza” ou o “peso” de seus humores. Consequentemente, parece que vemos a rainha Victoria interpretada por ela sofrendo com a idade, rejuvenescendo e, na reta final, voltando a envelhecer após algumas decepções e traições. Impressionante como a atriz consegue nos passar tudo isso com o seu talento e interpretação – e a ajuda de maquiagem e da fotografia, claro. Além dela, o grande nome do filme é o de Ali Fazal. Ele faz um belo trabalho, é carismático, mas claro que não tem as nuances de interpretação de Dench.

Alguns atores se destacam nos papéis de coadjuvante – até porque os papéis deles tem relevância para a história. Neste sentido, vale destacar o belo trabalho de Tim Pigott-Smith como Sir Henry Ponsonby, braço direito da rainha; Adeel Akhtar ótimo como Mohammed, o outro indiano que viaja para presentear a rainha Victoria e que é um bom contraponto em relação a Abdul – afinal, não é todo indiano que olhava para a rainha com admiração – alguns, a exemplo de Mohammed, vinham naquela pessoa e no seu cortejo o sinônimo de exploração, algo bem representado por este personagem e bem interpretado pelo ator; Paul Higgins bem como o covarde e um tanto odioso médico Dr. Reid; Michael Gambon em quase uma ponta como Lord Salisbury, primeiro-ministro na época; Olivia Williams como Lady Churchill, uma das pessoas mais próxima da rainha; Fenella Woolgar como Miss Phipps, também próxima da rainha e usada como “bala de canhão” pelos outros covardes que a cercavam; e Eddie Izzard como o odioso e interesseiro Bertie, Príncipe de Wales e herdeiro do trono. Todos estão muito bem.

Victoria and Abdul estreou em setembro no Festival de Cinema de Veneza. Poucos dias depois, o filme participou do Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, até o final de outubro, a produção participou ainda de outros cinco festivais. Nesta trajetória, o filme conquistou dois prêmios: o Truly Moving Picture Award no Heartland Film e o de Compositor do Ano para Thomas Newman conferido pelo Hollywood Film Awards. Teremos uma ideia melhor do potencial desta produção no Oscar quando saírem os indicados ao Globo de Ouro. Pode ser que ele consiga emplacar uma ou mais indicações ou pode ser que ele seja categoricamente esquecido. Veremos.

Esta produção fez, apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 21,9 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou, ele fez outros US$ 40,9 milhões. Não são números desprezíveis, mas tenho minhas dúvidas se ele vai conseguir lucrar.

Victoria and Abdul foi rodada em três países: Inglaterra, Escócia e Índia. O filme teve cenas rodadas em Delhi e Agra, na Índia; em Cairngorms, na Escócia; e na Ilha de Wight, no Castelo de Belvoir, na Universidade de Greenwich, na Ham House, no Museu Nacional Railway, no West Wycombe House, no Castelo de Windsor, entre outros locais nas cidades de Londres, West Wycombe, York, Knebworth, Richmond, Greenwich e Belvoir.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Quando as filmagens de Victoria and Abdul começaram, em setembro de 2016, Judi Dench era um mês mais velha que a rainha Victoria quando ela morreu. Interessante esta semelhança e como hoje conseguimos envelhecer com muito mais qualidade de vida, não é mesmo? Viva aos avanços científicos, pois!

A atriz Judi Dench já havia interpretado a rainha Victoria antes, no filme Her Majesty Mrs Brown, de 1997, dirigido por John Madden. Filme esse que foi indicado a dois Oscar em 1998: Melhor Atriz para Judi Dench e Melhor Maquiagem.

Aliás, senti falta de Victoria and Abdul nos apresentar ao menos um pouco de tudo que Victoria significou para o Reino Unido. Como sempre, me interessei por buscar mais informações sobre os personagens dos filmes. Acho que vale começar por textos como este, do site Brasil Escola, que dão uma resumida simplificada sobre a rainha que, antes da atual rainha da Inglaterra, Elizabeth II, era a monarca que mais tempo ficou no poder. E em uma era muito expansionista para o Reino Unido, como o texto bem explica.

Neste texto é que eu fiquei sabendo, afinal, sobre um dos personagens citados pela rainha de Judi Dench no filme: Albert. Ela se referia ao seu primo, o príncipe Albert, com quem a rainha Victoria se casou em 1840 e com quem teve nove filhos. Neste texto, também descobri que ela era uma “amante das letras” e que falava francês e alemão, além da língua materna.

O marido, Albert, morreu em 1861, ou seja, 40 anos da rainha. Vale também conferir outros dois textos sobre a rainha: este da BBC e este outro do blog da Cultura Inglesa. E o outro personagem citado pela Rainha Victoria neste filme, John Brown? Quis saber mais sobre ele e achei esta interessante matéria do site da Revista Piauí. Vale conferir. Lendo sobre Brown, neste texto, me lembrei de Abdul. Me parece que a rainha realmente precisava de aliados, de pessoas francas e sinceras do seu lado, e encontrou em Albert, em Brown e em Abdul estas pessoas. Interessante.

Esta é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 102 críticas positivas e 54 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 65% e uma nota média de 6.2.

CONCLUSÃO: Faz toda a diferença quando alguém olha para os teus olhos de verdade. Tudo o que as pessoas desejam é que elas sejam notadas e respeitadas pelo que elas são e não pelo “poder” ou pela “posição” que elas possam ter na sociedade. Vitoria and Abdul nos fala de uma forma muito clara sobre isso. Assim como trata também de posições “impossíveis”, como pode ser a de uma rainha que domina 1/4 do mundo, por exemplo. Esta produção, com um roteiro muito bem escrito e atores impecáveis, nos transporta para uma outra época e local.

Mas, infelizmente, boa parte daquela desigualdade e do que vemos em tela segue válido hoje em dia, mais de um século depois. Quem dera que aprendêssemos, em algum momento, que todos somos iguais e que não faz sentido – ou mesmo seja algo justo – tanta desigualdade por todas as partes. Um belo filme. Que nos faz pensar sobre temas importantes, além de ter uma história envolvente. Merece ser visto, sem dúvidas.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Eis um filme interessante para a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Com um roteiro bem escrito, um diretor veterano e admirado no comando e uma atriz que dispensa apresentações, Victoria and Abdul pode chegar longe com o lobby certo. Ou pode nem chegar, dependendo dos humores dos votantes. Predicados este filme tem para emplacar – além dos já comentados, a temática da produção, sobre inclusão e respeito, temas tão em voga em uma Hollywood que está cuidando de seus próprios “pecados”.

Nas bolsas de apostas que começam a pipocar nos Estados Unidos, entre especialistas e literalmente apostadores, Victoria and Abdul têm aparecido com chances em algumas categorias. Mas nunca liderando as principais listas. Da minha parte, como o Oscar contempla até 10 produções na categoria Melhor Filme, eu não ficaria surpresa se o veterano Stephen Frears conseguisse emplacar esta produção na categoria principal do Oscar 2018. Mas, igualmente, não seria surpresa se o filme ficasse fora da lista.

Digo isso porque Victoria and Abdul não é um filme óbvio na disputa. Ou seja, ele pode chegar lá, mas não tem chances de levar o Oscar principal. Mas, pode sim ser indicado em várias categorias – o que, muitas vezes, é o suficiente para os produtores e distribuidores. Acho que esta produção tem chances de ser indicada ainda como Melhor Atriz, em mais uma indicação para a excelente Judi Dench; como Melhor Figurino e como Melhor Direção de Arte. Stephen Frears também poderia ser lembrado na categoria Melhor Diretor, assim como o roteiro como Melhor Roteiro Adaptado.

Mas para o filme receber tantas indicações, realmente parece ser fundamental uma grande campanha dos produtores e da Universal Pictures. Da minha parte, acho que o filme não receberá muitas indicações – talvez mesmo apenas como Melhor Atriz e Melhor Figurino – e, pelo andar da carruagem e das bolsas de apostas, mesmo que ele consiga emplacar alguma indicação, sairá da noite do Oscar de mãos vazias. Mas, como vocês sabem, isso não denota contra o filme. Afinal, poucos saem ganhando, mas muitos chegam – e poderiam chegar lá – cheio de méritos. Ou seja, vale assistir a esta produção. Mesmo que ela não tenha chances de emplacar as suas estatuetas no Oscar.

ATUALIZAÇÃO (11/12): Hoje, dia 11 de dezembro, saiu a lista de indicados para o Globo de Ouro 2018. Victoria & Abdul foi lembrado em uma categoria, a de Melhor Atriz – Musical ou Comédia para Judi Dench. Para muitas pessoas, como eu disse acima, ela pode chegar até a uma indicação ao Oscar. Este ano, a disputa está acirrada nesta categoria – mais do que na de ator. Veremos o que vai acontecer, mas acho que Judi Dench deve se contentar já se for indicada.

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Philomena

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Não existe paralelo ao amor de mãe. Pelo menos este é o caso de quem nasceu para isso, para dar uma nova vida. Philomena trata deste amor materno, e da busca incansável de uma mulher por encontrar o filho que foi retirado dela quando ele era muito criança. Mesmo com uma atuação de qualidade de Judi Dench, este filme é o mais fraco entre os concorrentes ao próximo Oscar. Assista apenas se gostar muito do tema ou se já tiver visto a todos os demais.

A HISTÓRIA: Logo no início avisa que o que veremos é baseado em fatos reais. Em seguida, vemos a Martin Sixsmith (Steve Coogan) ouvindo de seu médico, Dr. Robert (Nicholas Jones), de que todos os exames que ele fez estão ok. Mas no final o médico comenta que a mulher de Martin, Kate (Simone Lahbib) comentou que ele estaria levemente deprimido.

Martin diz que ele tem razões para isso, já que foi demitido e está desempregado, mesmo tendo sido acusado injustamente por dizer algo que não havia dito. O médico recomenda que ele comece a correr, e pergunta no que ele está trabalhando agora. Martin afirma que está querendo escrever um livro sobre a história da Rússia. Mas para a surpresa de Martin, em breve ele vai começar a trabalhar na história de Philomena (Judi Dench).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Philomena): A primeira ideia que passou pela minha cabeça quando comecei a assistir a Philomena: mais um filme baseado em fatos reais? Sério? Este ano, nada menos que seis das 10 produções indicadas na categoria Melhor Filme no Oscar estão inspiradas em fatos que realmente aconteceram.

Passada esta “perplexidade” por este gênero estar predominando na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, me joguei na história de Philomena. E apesar de dois detalhes interessantes e complementários, é justamente o roteiro do filme, escrito pelo ator e produtor Steve Coogan e por Jeff Pope, que trabalharam tendo o livro The Lost Child of Philomena Lee de Martin Sixsmith como base, que enfraquece a produção.

Respeito muito o trabalho do diretor Stephen Frears. Mas em Philomena ele apenas segue o básico do cinema. Tanto o diretor quanto os roteiristas apostam na fórmula básica para a plateia acompanhar a história. Mas o filme carece de profundidade, seja na dinâmica da produção (lhe falta uma boa reviravolta, por exemplo), seja na narrativa (não existe, verdadeiramente, nenhum momento de “fisgada” do espectador, para que ele possa se sentir identificado com os personagens ou realmente emocionado com a história).

Para começar, o protagonista desta produção, o jornalista envolvido com política Martin Sixsmith, não é exatamente um sujeito “adorável”. Esta qualidade, necessária para que a plateia torça por algum personagem, não está presente no trabalho do ator, roteirista e produtor Steve Coogan. Ele é sarcástico, desconfiado, sem fé, como “manda” o estereótipo de qualquer jornalista.

O personagem “adorável” fica com a outra protagonista da história, interpretada por Judi Dench. Mas daí que o filme sofre um pouco com esta protagonista. Primeiro, porque a atriz é fantástica, mas a personagem não ajuda com uma conduta fácil de conseguir aprovação. Vejamos.

Para começar, Philomena não pode ser considerada, exatamente, uma mulher corajosa. Por 50 anos ela escondeu o fato de que teve um filho na adolescência e que ele foi separado dela com a ajuda das freiras do local em que ela vivia. Se ela fosse uma “brava mulher”, não teria ido atrás do filho antes? Depois que ela viveu uma situação que muitas mulheres (e homens também?) podem considerar absurda.

Afinal, ela engravidou de um sujeito que conheceu em uma feira, com quem ela aparentemente nem chegou a namorar, e se submeteu às regras duras da Igreja após ter sido abandonada pela família mesmo sabendo que provavelmente perderia o primeiro filho. Há inúmeras histórias de mulheres que acharam uma alternativa para situações como esta, sem que elas tivessem que se “engolir” a perda de um filho que elas gostariam de criar. Outra situação, evidentemente, é daquelas mulheres que não gostariam de ficar com o primogênito.

Evidentemente que há que se dar um “desconto” para Philomena porque ela era muito jovem quando tudo aconteceu. Não quero, com os comentários até aqui, julgá-la. Afinal, ela foi uma vítima. Mas o que eu quero argumentar é que ela não é uma protagonista que facilmente sensibilize o espectador. E o mesmo acontece com Martin.

O roteiro de Coogan e Pope decidiu apresentar, primeiro, o personagem de Martin. Ex-assessor de imprensa do ministro de Transportes Stephen Byers, ele surge para o espectador em um momento delicado. Aparentemente, ele foi demitido após ser acusado por ter dito o que não disse. Mas o motivo de Martin aparecer logo e da forma com que é apresentado na história é mostrar como ele é um homem sem fé. Como ele mesmo diz, ele não acredita em Deus, e desconfia que Ele sabe disso.

Em seguida, somos apresentados à Philomena. Apesar dela ter bons motivos para “odiar” a Igreja, ela segue acendendo velas, rezando e com a sua fé inabalável. Em pouco tempo, o homem “descrente” e a mulher com fé inquebrantável vão começar a conviver. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Agora, esqueça o mundo de um alterando o do outro. Mesmo com as novas informações que vão surgindo, e que tornam o papel das freiras ainda pior, Philomena segue com fé e seguindo os ensinamentos cristãos, enquanto Martin permanece “indignado” e sem conseguir perdoar aqueles que cometeram os crimes focados nesta produção.

Como jornalista, achei curiosa a ironia de Martin sobre as “histórias de interesse humano”. Para ele, este tipo de história, que tratam da vida de pessoas que passaram por dificuldades e que podem ter esta vivência identificada por outros indivíduos são histórias sobre “pessoas de cabeça fraca, vulneráveis e ignorantes” escritas para serem lidas por pessoas com o mesmo perfil.

Evidentemente que eu não concordo com esta avaliação dele. Histórias de interesse humano são as melhores, aquelas que normalmente valem ser contadas. O restante é o “factual”, como chamamos, ou seja, notícias que registram fatos de relevância momentânea – ou até de interesse histórico, mas que será visto assim com o passar do tempo. Ainda que o “factual” também possa render histórias com uma pegada humanizada… Inicialmente, Martin olha para Philomena com superioridade. E ainda que ele não perca aquela postura, o protagonista acaba aprendendo um bocado com a simplicidade daquela mulher que segue atrás do filho 50 anos depois dele ter nascido.

Fora esta ironia, o filme parece uma história como outra qualquer que você já viu. A Igreja católica teve, aqui e ali, várias ações absurdas? Certamente. E não precisamos voltar para a Idade Média para saber disso. Claro que há gente pouco católica entre freiras e padres – afinal, como uma freira como Hildegarde (Barbara Jefford) pode achar justificável o que ela e suas contemporâneas fizeram?

Um dos ensinamentos básicos de Jesus é o amor e o perdão, então como julgar uma jovem que engravidou sem pensar na responsabilidade deste ato e puni-la daquela forma? Certamente aquelas ações não seguiram o exemplo de Jesus. Mas a Igreja, como todas as outras instituições que já foram criadas pela Humanidade, é feita de pessoas. E elas são falhas. Assim de simples.

Uma religião e uma instituição como a Igreja não pode ser julgada pelas falhas de alguns de seus participantes, por mais que estes erros sejam absurdos e que joguem contra os ensinamentos essenciais que ela prega. Isso é algo que Philomena é capaz de compreender, mas Martin, tão inteligente, sagaz e “respeitável”, não. Uma pena.

De qualquer forma, e para quem ninguém tenha dúvida, a freira Hildegarde deixa claro a sua motivação em ser cruel com aquelas jovens décadas passadas. Se ela se manteve virgem, sacrificando “os prazeres da carne”, por que as demais não foram capazes do mesmo sacrifício?

Esta “inveja” disfarçada de rigidez de princípios resume não apenas os atos daquela freira, mas de tantas outras que repassam as próprias frustrações para frente castigando diferentes perfis de pessoas – de estudantes em colégios de freiras até jovens que buscam pela santidade e convivem com elas.

Para mim, a melhor parte do filme é justamente aquela que mostra a diferença essencial entre os personagens. Enquanto Martin se indigna com Hildegarde – e a indignação é algo importante -, Philomena diz para a freira que a perdoa. E dá uma lição de sabedoria para Martin. Afinal de contas, nós sempre podemos escolher o que fazer com a injustiça e o mal que praticaram contra nós. Podemos alimentar o ódio e o rancor ou optar pelo perdão e pela compaixão. Cada um é responsável por esta escolha. Esta reflexão do filme justifica a nota abaixo.

Assim como a escolha corajosa de Philomena em revelar a própria história – para que outras mulheres, como ela, se sentissem mais acolhidas, e para que outras mulheres passassem a valorizar os próprios filhos e a não abrirem mão deles por nada, nem mesmo por uma forte cobrança de culpa cristã. Agora, querendo ou não, fica nesta história a mensagem de que engravidar e ter um filho deveria ser uma escolha responsável, feita tendo o amor como base, mas levando em conta também as condições dos pais para darem uma vida de oportunidades para o seu herdeiro.

E o que falar do restante da produção? O roteiro segue a linha de ir e vir do presente para o passado de Philomena, incluindo a ótica do filho Anthony/Michael (Sean Mahon) para quebrar a linha tradicional de passagem do tempo. Apesar de algumas belas imagens, mérito do diretor de fotografia Robbie Ryan, Philomena carece de um texto melhor. E fora Judi Dench, que normalmente apresenta um desempenho acima da média, os demais atores apenas cumprem o seu papel, sem nenhum destaque em especial. Um filme fraco, comparado com os outros desta safra de indicados ao Oscar.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Philomena é um filme de dois atores. Judi Dench brilha em uma interpretação coerente com o perfil da protagonista. Mesmo afirmando isso, devo dizer que já vi a atriz em desempenhos melhores do que este. O outro nome forte da produção é o de Steve Coogan. Ele está bem, mas não chega a se destacar.

Além destes atores, vale citar o bom trabalho de Anna Maxwell Martin como Jane, a filha de Philomena que oferece a história da mãe para Martin; e o de Sophie Kennedy Clark como a protagonista quando adolescente. Outros atores tem papéis menores. Vale citar Peter Hermann como Pete Olsson, companheiro de Michael; Charlie Murphy como Kathleen, a melhor amiga de Philomena no período em que ela viveu com as freiras; Mare Winningham como Mary, menina que foi adotada junto com o filho de Philomena; e Michelle Fairley como Sally Mitchell, a editora que acompanha a investigação jornalística de Martin.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma a trilha sonora é o que se destaca. Um ótimo trabalho de Alexandre Desplat – mais um, aliás, para a longa lista de excelentes trabalhos deste compositor. O roteiro ganha alguns pontos com certos diálogos, mas a dinâmica da produção deixa a desejar. Muito eficiente o trabalho da equipe liderada por Jay Price e Rachael Tate na edição de som – há sequências que ganham outro ritmo com o ótimo trabalho feito por eles. O editor Valerio Bonelli também cumpre bem o seu papel.

Funciona muito bem, também, a reconstituição de época (Irlanda nos anos 1950) e a caracterização do “tempo atual”, uma diferenciação necessária para a história e bem realizada pelo design de produção de Alan MacDonald; pela direção de arte de Leslie McDonald, Rod McLean e Sarah Stuart; pela decoração de set de Barbara Herman-Skelding e pelos figurinos de Consolata Boyle.

O diretor Stephen Frears, que entende bem do seu ofício, conseguiu capturar bem os diferentes estilos de imagens necessários para contar esta história. Fica clara a diferença de granulação quando vemos a um filme caseiro de Anthony/Michael ou quando somos transportados para os anos 1950 na Irlanda. O diretor também valoriza o trabalho dos atores, focando nas expressões deles quando há silêncio e “descobertas” do roteiro. Mais um bom trabalho, ainda que ele não seja fora da média.

Indiretamente, Philomena aborda diversos temas “cabeludos”: a diáspora irlandesa (leia-se a forçada imigração de irlandeses para os Estados Unidos e a Grã-Bretanha a partir do século 19, o que causou a resistência de extensas camadas das populações que receberam estas pessoas), a rejeição de gays nas equipes dos republicados nos Estados Unidos; as mortes causadas pela AIDS; a venda de crianças de jovens que não tinham sido orientadas a prevenirem a gravidez pela Igreja; e o empurra-empurra das instituições que “fecharam os olhos” para o comércio ilegal de crianças para apenas citar os temas principais.

Não tenho dúvidas que muitos dos assuntos tratados no parágrafo acima devem cair fundo na memória de algumas pessoas. Especialmente porque não foram poucas as mulheres que foram separadas do seus filhos à revelia. E, infelizmente, parece que este comércio ilegal de pessoas segue acontecendo.

Sobre a diáspora irlandesa, recomendo este texto da História Viva bem didático sobre o assunto.

Philomena estreou no Festival de Veneza em agosto de 2013. Depois de participar daquele evento, o filme passaria por outros 14 festivais. O próximo a figurar na lista será o Festival de Cinema de Belgrado, que começa no próximo dia 8 de março. Nesta trajetória, o filme recebeu 18 prêmios e foi indicado a outros 37, além de aparecer na lista do Oscar em quatro categorias.

Entre os prêmios abocanhados por Philomena, destaque para nove prêmios (!!) no Festival de Veneza, incluindo o de Melhor Roteiro; o de Atriz Britânica do Ano para Judi Dench entregue pelo Prêmio do Círculo de Críticos de Cinema de Londres; e o de Melhor Narrativa pela escolha popular no Festival de Cinema de Virgínia. Daqueles prêmios em Veneza, oito foram para Stephen Frears em eventos paralelos ao festival. Ou seja, até o momento, esta produção não recebeu nenhum dos principais prêmios do cinema.

Não há informações sobre o custo de Philomena, mas o filme conseguiu, até a última sexta-feira, dia 14, quase US$ 29,5 milhões apenas nos Estados Unidos. Nos outros mercados em que a produção já estreou o resultado está em cerca de US$ 46,7 milhões. Boas cifras para um filme que deve ter custado pouco.

Para quem gosta de saber sobre as locações, Philomena teve cenas rodadas em Rostrevor e Killyleagh, na Irlanda do Norte; em Potomac, Poolesville e em Washington, nos Estados Unidos; e em Londres, Oxfordshire e Harefield (cenas do convento), na Inglaterra. Dá até para fazer um roteiro de visitas para os interessados nas culturas inglesas e irlandesa. 🙂

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para a produção. Enquanto isso, os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 155 textos positivos e 13 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média 7,9. Desta vez, e isso é um pouco raro, a minha avaliação foi pior do que a média destes dois sites. De fato, esta produção não me envolveu e nem me tocou. E como cinema é interpretação e sentimento, deu no que deu. Que me perdoem os fãs desta história. 🙂

Philomena é uma coprodução do Reino Unidos, dos Estados Unidos e da França.

Com esta crítica, consigo um feito inédito aqui no blog: assistir a todos os indicados na categoria de Melhor Filme no Oscar antes da festa de premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Levei sorte, assim como todos os brasileiros, por ter todos estes filmes em cartaz ou nas videolocadoras antes do dia 2 de março. E agora, meus bons leitores, vou atacar a lista de documentários. E os convido para acompanhar a cobertura da premiação do Oscar aqui no blog no dia 2.

CONCLUSÃO: Este filme apresenta pelo menos duas histórias. A primeira, a busca da protagonista pelo filho depois de várias décadas de separação. Depois, as diferenças entre dois mundos: daqueles que acreditam em Deus e vivem a vida dentro desta fé e aqueles que não. Existe apenas um momento que faz o filme valer o tempo gasto. Mas cá entre nós, isso é muito pouco. Perto dos outros indicados deste ano ao Oscar, Philomena parece um filme menor.

Ele não surpreende e nem emociona como poderia e/ou gostaríamos. Se não houvesse expectativa a respeito dele, talvez eu tivesse achado ele um pouco melhor. Não é o caso, já que a produção foi indicada a quatro estatuetas. Algumas vezes aparecer no Oscar pode ser prejudicial para uma produção – ainda mais se ela é fraca, como é o caso de Philomena.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Não deixa de ser surpreendente Philomena ter chegado a quatro indicações no Oscar. Outros filmes poderiam ter ocupado, tranquilamente, o lugar desta produção. Para ficar em um exemplo apenas, e digo isso sem ter assistido ao filme ainda, este seria o caso de Inside Llewyn Davis – afirmo isso levando em conta a filmografia dos diretores, os irmãos Ethan e Joel Coen.

Mas ok, aparentemente a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood gosta do produtor, roteirista e ator Steve Coogan. Talvez isso justificaria as quatro indicações de seu filme ao Oscar. Philomena concorre em Melhor Trilha Sonora, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz (Judi Dench) e Melhor Filme.

Não vejo muitas chances de Philomena ganhar qualquer uma destas estatuetas. Vale lembrar que o filme foi indicado em três categorias do Globo de Ouro e não levou nada. Mas vamos tratar de cada uma das quatro categorias em disputa no Oscar.

Em Melhor Trilha Sonora, ele tem fortes concorrentes pela frente. Gostei muito da trilha de Her (comentado aqui) e do trabalho feito em Gravity (com crítica neste link). Não sei como estão as bolsas de apostas, mas acho que Gravity deve levar uma certa vantagem, até porque a trilha do filme é excepcional e fundamental para a história… ainda que eu não tenha conferido os elogiados trabalhos das trilhas de The Book Thief e, com alguma distância de diferença nas preferências, de Saving Mr. Banks. Agora, sem dúvida, a indicação de Philomena nesta categoria me parece a mais justa entre as quatro.

Depois, vejamos Melhor Roteiro Adaptado. Sem dúvida The Wolf of Wall Street (com crítica aqui) e 12 Years a Slave (com comentários neste link) são roteiros mais elaborados, ousados e bem escritos que Philomena. Mesmo Captain Phillips (comentado aqui) eu acho melhor – e ainda há Before Midnight, que muitos elogiaram, mas que eu ainda não assisti.

Na categoria Melhor Atriz, a excelente Judi Dench também corre por fora. Cate Blanchett, segundo as bolsas de apostas, é a franca favorita. Da minha parte, acho que tanto ela quanto Sandra Bullock poderiam, facilmente, ganhar a estatueta. Agora, se a Academia quiser consagrar Amy Adams, não seria totalmente uma surpresa – especialmente se o filme dela, American Hustle (comentado aqui) for abocanhando muitas estatuetas conforme os prêmios são entregues. Meryl Streep, apesar de hors concours, infelizmente concorre tão por fora quanto Dench.

E o que dizer da categoria Melhor Filme? Cada um com o seu gosto, devo ressaltar isso, mas francamente eu achei Philomena o último da lista para ser votado nesta categoria neste ano. Até American Hustle, do qual eu gostei menos que os demais, acho que tem mais detalhes técnicos e mereceria mais a estatueta pelo “conjunto da obra” do que Philomena.

Mas, sem dúvida, prefiro Her, The Wolf of Wall Street, 12 Years a Slave e até Gravity antes que Philomena – se fosse escolher um vencedor. Minhas preferências estão na ordem, com um certo empate técnico entre The Wolf of Wall Street e 12 Years a Slave na segunda posição. Entre os que correm por fora, acho Dallas Buyers Club (com crítica neste link), Nebraska (comentado aqui) e Captain Phillips também melhores. Além do meu gosto, acho impossível a Academia premiar Philomena – seja pela qualidade do filme, seja pelos outros concorrentes e a força maior de lobby deles. Se algo diferente acontecer, será a zebra do ano.

My Week with Marilyn – Sete Dias com Marilyn

Você que, como eu, tem uma paixão contagiante pelo cinema, já se imaginou acompanhando os bastidores de filmagem de uma produção com alguns dos grandes astros de sua época? Agora, imagine ter feito isso na era das grandes estrelas, ter visto e convivido de perto com Marilyn Monroe, por exemplo. My Week with Marilyn torna este sonho realidade. Nos aproxima de uma das maiores estrelas de Hollywood de todos os tempos. Conhecemos um pouco da intimidade da diva, sua fragilidade, talento e carisma. E é de cair o queixo a interpretação de Michelle Williams para o papel. Perfeita, para dizer o mínimo.

A HISTÓRIA: O filme começa nos contando que, em 1956, no auge de sua carreira, Marilyn Monroe (Michelle Williams) viajou para a Inglaterra para fazer um filme com Sir Laurence Olivier (Kenneth Branagh). Chegando lá, ela conheceu um jovem chamado Colin Clark (Eddie Redmayne), que escreveu um diário sobre os bastidores das filmagens. E o filme é a história real sobre o que aconteceu. No breu, ela aparece do lado direito da tela. Quando o holofote acende sobre ela, a diva se vira. E dá um show. Começa aí a história da experiência de Marilyn Monroe na Inglaterra, contada por Clark. Através daquele jovem fascinado pelo cinema, acompanhamos os bastidores da filmagem de The Prince and the Showgirl, e nos aproximamos de alguns dos grandes astros daquela época. Com destaque, é claro, para a complexidade da personalidade de Marilyn e das pessoas que a cercavam.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a My Week with Marilyn): Impressionante. Ficamos fascinados com Michelle Williams como Marilyn Monroe. Da mesma forma com que o personagem de Colin Clark, embasbacado com aquela sequência inicial do filme que está sendo exibida em uma sala de cinema repleta de homens igualmente babões. Ela faz um trabalho impecável e marcante. Algumas vezes, a ponto do espectador ser até capaz de esquecer da Marilyn original, e acreditar que esta assistindo à diva na telona outra vez.

Até assistir a esse filme, eu não sabia que se tratava de uma história real, baseada nos escritos de um admirador que teve a oportunidade de conviver com Marilyn por um período. Interessante a forma com que esta história real foi contada. Bom trabalho do roteirista Adrian Hodges, baseado nos livros My Week with Marilyn e The Prince, the Showgirl and Me, escritos por Clark. Ele acerta em começar com Marilyn na telona do cinema e, a partir daí, abraçar a ótica do narrador desta história. A empatia é criada rapidamente, e isso é fundamental para o espectador continuar interessado no filme.

Além disso, claro, o diretor Simon Curtis acerta ao apostar no trabalho de seus atores. Ele evidencia não apenas Michelle Williams e Kenneth Branagh, mas o “narrador” Eddie Redmayne e todos os demais intérpretes selecionados à dedo para esta produção. E o elenco, aliás, é exemplar. Julia Ormond interpreta à diva Vivien Leigh, mulher de Laurence Olivier; Emma Watson interpreta à Lucy, que trabalha nos estúdios e atrai o protagonista; Dougray Scott interpreta a Arthur Miller, marido de Marilyn; Dominic Cooper a Milton Greene, fotógrafo e amigo pessoal de Marilyn; Judi Dench, fantástica, interpreta a Sybill Thorndike; e Zoë Wanamaker à Paula Strasberg, que não desgruda de Marilyn. Todos estes tem relevância para a história e aparecem muito bem em cena.

Eis um filme de atores. Com grandes interpretações. Como não poderia deixar de ser. Até porque esta é uma produção que conta sobre os bastidores de um filme. Então os acertos, erros, exageros, o talento e, porque não, o ego dos atores está em evidência. Interessante como My Week with Marilyn mostra astros como Monroe e Laurence Olivier de perto, com todas as suas fraquezas e talento.

Diferente de outras produções sobre bastidores do cinema, que tentam “preservar” os astros, esta tem o compromisso com a verdade, porque foi baseada nos livros de Clark. Apesar dele ter se tornado diretor de documentários mais tarde, ele nunca teve o compromisso com a preservação da intimidade das estrelas com que teve o prazer de cruzar o caminho. Por isso assistimos um filme raro, que revela na mesma proporção as qualidades e os defeitos dos astros focados pela produção.

Marilyn aparece como uma atriz que tinha problemas em embarcar em uma personagem. O filme se passa em um momento da carreira da diva em que ela tinha embarcado com tudo no “método” de interpretação visceral de Lee Strasberg. Tanto que ela aparece sempre acompanhada por Paula Strasberg no filme, com quem ele foi casado até 1966, quando ela morreu de câncer.

Interessante, aliás, o “choque” entre duas formas muito diferentes de encarar o trabalho do ator no cinema. Enquanto Marilyn, ao lado de Paula, defendia uma interpretação que partisse do “íntimo” do ator, que exigisse que ele embarcasse no personagem após entendê-lo e “vivenciá-lo”, Sir Laurence Olivier achava tudo isso uma bobeira. Ele sabia, aliás, que The Prince and the Showgirl seria apenas mais um filme “pastelão”, uma história de amor escrachada, com uma boa dose de humor, pensada para faturar bastante e agradar ao público.

Ele estava preocupado em cumprir o horário de filmagens proposto, e fazer o melhor trabalho em mais um produto da indústria. Marilyn não, ela não se encaixava nos horários e não encontrava o tom da personagem. E ainda assim, o próprio Olivier admitiria, ela se saiu muito melhor que ele.

E eis uma das qualidades de My Week with Marilyn: o filme consegue mostrar todo aquele magnetismo e presença de cena da atriz. Não é uma tarefa fácil. Até porque, para muita gente, nunca houve uma atriz como Marilyn. Ainda assim, a atriz Michelle Williams vence o desafio de interpretar mulher tão inigualável com louvores.

Mas o filme não mostra apenas as qualidades da loira platinada mais famosa de Hollywood. Simon Curtis mostra com dedicação, e sem deixar o filme piegas, a fragilidade de Marilyn Monroe. Fica evidente a dependência dela de medicamentos para dormir, por exemplo, e também por elogios das pessoas que a cercavam. Ela tinha uma grande necessidade de sentir-se amada, o filme deixa a entender, assim como de sentir-se segura. Parecia estar sempre pedindo aprovação. Isso acontecendo na vida íntima de Marilyn, ela conseguia esbanjar confiança e sensualidade na frente das câmeras e do públicos que a perseguia por onde ela fosse.

Apesar desta aparente alta carência, Marilyn também sabia muito bem o efeito que tinha no público, especialmente nos homens. Interessante como My Week with Marilyn consegue, ao mesmo tempo, mostrar os bastidores de um filme estrelado por grandes atores e atrizes e explorar tanto a intimidade da protagonista.

Já ficou famosa a cena em que ela, acompanhada de Colin Clark no ex-colégio de seu novo queridinho, pergunta para ele se aquele é o momento de Marilyn – a personagem – entrar em cena. Ela sabia interpretá-la muito bem, entrou no papel com afinco – talvez utilizando o método de Strasberg. E algumas vezes entrava em crise ao confrontar os seus desejos reais com aqueles que deveriam ser da “personagem”.

My Week with Marilyn tem um ótimo ritmo e um roteiro muito bem escrito, que equilibra os bastidores do cinema com os dramas pessoais dos personagens principais desta história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Algumas cenas, claro, são difíceis de acreditar, como aquelas em que Marilyn parece um verdadeiro desastre nas filmagens. Mas são compreensíveis, por exemplo, as sequências dela com Clark, já que ele parecia a única pessoa autêntica e confiável naquele cenário de estrelas muito centradas em si mesmas. Importante lembrar que este filme é baseado em fatos reais e não, necessariamente, um retrato fidedigno do que realmente aconteceu. Um pouco de fantasia deve fazer parte da história – seria compreensível Clark ter aumentado alguns “contos”. 🙂

Apesar de ter um ritmo adequado e a duração exata, My Week with Marilyn só não é perfeito porque deixa um gosto de “quero mais”. Talvez ele pudesse ter um pouco mais de tempo e aprofundar-se naquelas pessoas que circulavam ao redor da diva. Quem não acompanha um pouco os bastidores do cinema pode ficar um pouco perdido e não fazer as ligações necessárias entre Marilyn e Paula Strasberg, por exemplo, ou entre Olivier e Vivien Leigh, entre outros.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O método de interpretação para atores de Lee Strasberg fez história. Ele fundou, em 1947, o famoso e respeitado Actors Studio, para a formação de intérpretes. E foi um nome fundamental para os tempos áureos de nomes como James Dean, Marilyn Monroe, Montgomery Clift, Paul Newman, Al Pacino, Robert De Niro e Marlon Brando, entre outros. Todos seus alunos. Mas o trabalho dele também rendeu polêmica, especialmente pela proximidade da família Strasberg de Marilyn. A atriz deixou grande parte de sua herança para eles.

Norma Jeane Mortenson atuou em 33 filmes, incluindo o incompleto Something’s Got To Give, de 1962, dirigido por George Cukor e que tinha Dean Martin e Cyd Charisse no elenco. O filme nunca foi terminado porque Marilyn morreu no dia 5 de agosto de 1962, quando ele estava sendo filmado. Aliás, este ano completa cinco décadas da morte da atriz. E várias homenagens, como exposições fotográficas, já começaram a ser feitas em memória da diva.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre Lee Strasberg, neste texto da Wikipédia, em inglês, há várias informações interessante sobre o ícone da escola de interpretação. E neste outro, há mais informações sobre o “método” ensinado por ele.

Tudo em My Week with Marilyn funciona bem. Mas merece destaque a deliciosa trilha sonora, assinada por Conrad Pope, fundamental para dar leveza e ritmo para a produção, e a excepcional direção de fotografia de Ben Smithard. Ele consegue reforçar a ideia de “volta ao passado” com uso de lentes que destacam cores terrais, sépia e românticas durante toda a produção. Um belo trabalho. Muito boa também a edição de Adam Recht.

Uma curiosidade interessante desta produção: Kenneth Branagh interpreta a Laurence Olivier, ator que, como Branagh, atuou ou dirigiu três produções baseadas em obras de William Shakespeare. A saber: Othello, Hamlet e Henry V.

Emma Watson me surpreendeu neste filme. Se ela seguir com esta levada, poderá superar a personagem de Hermione Granger dos filmes de Harry Potter com certa facilidade. Ela mostrou talento e carisma na produção. Conseguiu um feito difícil: aparecer quase tão bem nas cenas quanto Michelle Wiliams como Marilyn. Também gostei muito do trabalho de Eddie Redmayne, que já havia feito um trabalho excelente em Savage Grace. Esse garoto vai longe, especialmente se continuar escolhendo bem os seus papéis.

Outra curiosidade da produção: as reconstituições de cenas de The Prince and the Showgirl foram rodadas no mesmo estúdio onde o original foi filmado.

Michelle Williams ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Comédia ou Musical este ano por seu trabalho neste filme. Marilyn Monroe recebeu o mesmo prêmio em 1960 por seu trabalho em Some Like It Hot. Por outro lado, Williams foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz, algo que Monroe nunca conseguiu.

My Week with Marilyn teria custado 6,4 milhões de libras. No Reino Unido, até o dia 5 de fevereiro, a produção havia arrecadado quase 3,1 milhões de libras. Nos Estados Unidos, onde Monroe fez a sua carreira, a produção foi muito melhor, arrecadando quase US$ 10,46 milhões até o dia 8 de janeiro.

Esta produção estreou no Festival de Nova York no dia 9 de outubro de 2011 e, depois, passou por outros seis festivais. Nesta trajetória, ganhou 14 prêmios e foi indicado a outros 31, além de concorrer em duas categorias do Oscar. Doze dos 14 prêmios que o filme recebeu foram para Michelle Williams. Merecidíssimo, devo dizer. Os outros premiados foram o ator Kenneth Branagh, como melhor ator coadjuvante segundo o London Critics Circle Film Awards, e o elenco da produção vencedor do prêmio Capri, de Hollywood.

Buscando ser o mais fiel possível com a realidade retratada na história, My Week with Marilyn foi totalmente rodado no Reino Unido. Entre outras cidades, foram feitas cenas em Londres, Hatfield, Saltwood e Windsor.

Marilyn Monroe estreou nos cinemas emprestando a sua voz para a personagem de uma telefonista no filme The Shocking Miss Pilgrim, quando ela tinha 21 anos. No mesmo ano, em 1947, ela fez a primeira aparição em um filme de Hollywood em uma ponta em Dangerous Years. No ano seguinte, ela faria o primeiro papel de destaque em Ladies of the Chorus. E a partir daí, o resto é história. Em 15 anos de carreira, ela participou de 33 produções – sendo uma delas inacabada.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para o filme. Uma boa avaliação, para os padrões do site. Mas os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 130 críticas positivas e 25 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,2 – esta sim, igual a do IMDb.

My Week with Marilyn foi indicado ao Oscar de Melhor Atriz, para Michelle Williams, e para Melhor Ator Coadjuvante, para Kenneth Branagh. Não levou nenhum dos dois, porque os vencedores deste ano, nestas duas categorias, foram Meryl Streep e Christopher Plummer, respectivamente. Mas ao assistir a My Week with Marilyn e The Help, percebi como a categoria de melhor atriz foi muito concorrida este ano. Mais do que as de ator e de atores coadjuvantes.

Este filme foi co-produzido pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido.

CONCLUSÃO: Simplesmente fantástica. Michelle Williams mergulha de uma maneira na interpretação de Marilyn Monroe que, algumas vezes, não conseguimos distinguir a imagem de uma ou de outra. Uma pena que o Oscar deste ano não pudesse ser entregue para mais de uma atriz. Porque Williams merecia a estatueta tanto quanto Meryl Streep. Ela é a alma de My Week with Marilyn. Mas também impressiona o elenco formidável que aceitou aparecer nesta produção. Não há desempenhos ruins em cena. E o roteiro, narrado sob a ótica de um grande admirador da Sétima Arte que batalha por um espaço nos bastidores de uma grande filmagem, nos aproxima daquela história. Provoca empatia, ao ponto de sermos envolvidos naquele enredo como se nós mesmos estivéssemos na pele do protagonista. O roteiro é inteligente, os atores ótimos, e a direção de Simon Curtis acerta no tom, focando sempre os melhores ângulos de cada cena e valorizando o trabalho dos atores. Um recorte interessante sobre um momento específico da diva, que merecia esta aproximação em um filme sem grandes pretensões. E que, por isso mesmo, se mostra tão interessante.