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Little Women – Adoráveis Mulheres

Houve um tempo – e não faz tanto tempo assim – em que o melhor destino para uma mulher seria casar. Até hoje, na verdade, há quem pense que uma mulher só pode ser feliz se encontrar um bom partido. Little Women, história já várias vezes adaptada para o cinema, surge em uma nova versão, cheia de estrelas, sob a batuta da diretora e roteirista Greta Gerwig. Quem assistiu a alguma versão anterior da história verá pequenas diferenças na narrativa aqui e ali. Quem nunca assistiu à uma adaptação do romance de Louisa May Alcott poderá se surpreender mais com o que verá em cena.

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Noah 3D – Noé 3D

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Um dos mitos mais fascinantes da Bíblia se tornou o mais novo projeto de um dos meus diretores preferidos. Como não assistir a Noah? Mesmo não querendo saber muito sobre o filme antes de buscá-lo em uma sala 3D, li uma e outra chamada de críticos detonando a performance de Russell Crowe. Mas me arrisquei mesmo assim, porque sempre gostei do trabalho de Darren Aronofsky. E não me enganei. Noah é um filme bem conduzido e que tem momentos verdadeiramente impactantes. É destas experiências gratificantes em uma sala 3D. O que mais você pode querer?

A HISTÓRIA: No início, não havia nada. Mas daí tudo foi criado, até chegarmos a Adão e Eva. Com eles, surgiu o pecado. A partir dos filhos do casal surgiu também o primeiro assassinato, quando Caim matou Abel. Seres iluminados tentaram ajudar os homens, mas por traírem a vontade divina, eles acabaram sendo aprisionados na Terra, ficando conhecidos como os Guardiões. A linhagem de Methuselah (Anthony Hopkins) prossegue até Noah (Dakota Goyo quando criança, Russell Crowe na fase adulta). Após ouvir a história anterior do pai, Noah vê ele ser assassinado. Adulto, tenta passar para os filhos Shem (Douglas Booth), Ham (Logan Lerman) e Japheth (Leo McHugh Carroll) os princípios dos antepassados, especialmente o amor à Deus e à sua criação. Mas tudo muda na vida da família quando Noah começa a ter visões sobre o fim do mundo como eles o conheciam.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Noah): Até prevejo os dois estilos de comentários que este post vai render. O primeiro, de pessoas que sempre estão mais interessadas na experiência que o cinema pode proporcionar, independente da fonte de inspiração para o cineasta e sua equipe. O segundo, de pessoas que estão mais interessadas na origem do filme do que no produto cinema.

Isso aconteceu antes e deve se repetir sempre, e especialmente, quando a fonte da história contada no cinema for a Bíblia. The Book of Eli (com crítica por aqui) é um dos comentários sobre filmes que eu fiz que mais rendeu “marola” no site. E nem tanto porque as pessoas discordavam ou concordavam com a minha análise do filme, mas especialmente porque queriam falar sobre as suas próprias crenças. Então, caro/a leitor/a, se você faz parte do segundo grupo, por favor, tente entender que este é um blog que fala sobre cinema e não sobre religião. Por isso mesmo, não vou discutir por aqui o teu ou o meu credo.

Feito este “preâmbulo” para a crítica, vamos ao que interessa. Noah em sua versão 3D. Sim, porque este filme, a exemplo de Gravity (comentado aqui) e Avatar (com crítica neste link), merece ser visto na versão da tecnologia na qual ele foi planejado desde o princípio. Noah tem cenas verdadeiramente impactantes, uma ótima direção de fotografia de Matthew Libatique e sequências cheias de efeitos especiais que tem uma dinâmica diferente nas salas 3D.

Dito isso, vamos voltar ao que eu comentei lá no início. Ao mesmo tempo que eu achei surpreendente a escolha do diretor Darren Aronofsky em explorar uma história bíblica, devo admitir que a ideia foi um verdadeiro achado. Afinal, a história de Noé nunca tinha sido explorada com toda a tecnologia que o cinema atual propicia. E este mito da Bíblia, além de ser um dos melhores em termos de impacto visual, também revela-se muito forte na mensagem que ele quer passar.

Importante dizer e repetir que a história de Noé é um mito bíblico porque, evidentemente, ela não aconteceu. Pelo menos não da forma literal que muitos insistem em acreditar – mas que a própria Igreja afirma que não foi bem assim. O importante da história de qualquer mito é o que ela quer nos dizer. E neste sentido, Noah, o filme, cumpre bem o seu papel.

Primeiro de tudo, Aronofsky soube, mais uma vez, conduzir bem uma história. Sabendo equilibrar momentos de introspecção e de narrativa mais lenta com aqueles de pura ação e adrenalina. Há um bocado de ação em Noah, mas também várias sequências que fazem as pessoas se emocionarem, exercerem a empatia e pensarem sobre o que está sendo dito/mostrado.

A essência da história é que após um longo período de decepção com a raça humana, Deus decide acabar com o último elo de sua Criação. Após o “pecado original” de Adão e Eva, parte da humanidade teria caído em disputas motivadas pela busca pelo poder e pela cobiça. Apenas os descendentes de Methuselah (na tradução, Matusalém) seguiram o caminho do bem. Mas nem eles são poupados, como o início do filme mostra quando o pai de Noé é morto na frente do filho, que foge.

O principal da criação que Noé passa para os filhos, o mais velho Shem, o segundo Ham e o mais novo, Japheth, é o respeito a cada pedaço da criação de Deus. Assim, ele ensina para Ham que ele não deve arrancar uma flor do chão apenas porque ela é bonita, já que ela tem um propósito na Natureza e não deve ser retirada se não for por necessidade. No momento em que Noé ensina este princípio para o filho, ele tem a primeira visão. Outras virão. Cada uma delas é o ponto alto do filme em termos de uso de efeitos especiais e simbolismo.

O dilúvio vislumbrado por Noé é encarado como a redenção para a Humanidade, que havia se perdido após o pecado original. O primeiro problema desta produção, para o meu gosto, é quando surgem os Guardiões. Bem mal-feitos, eles ficam no meio do caminho entre seres dantescos e o que eles deveriam ser: seres de luz aprisionados em pedras e lama. Em certo momento do filme, no momento de maior ação de Noah, quando se dá o embate pouco antes do caos, pela primeira vez os Guardiões se revelam interessantes – é quando, finalmente, eles se libertam e são salvos.

Mesmo que a imagem dos Guardiões deixe a desejar, a história deles convence e se revela interessante – seres de luz que tentam ajudar a Humanidade e que acabam punidos por Deus por causa disso. Quando sonha com a destruição do mundo, Noé também vê o monte de origem de seu ancestral, Methuselah. E é assim que ele e a família procuram pelo ancião, esbarram com os Guardiões e recebem do velho patriarca a semente que dará início ao oásis que servirá de matéria-prima para a arca gigantesca da qual todos já ouviram falar.

Interessante a saída encontrada por Aronofsky, que escreve o roteiro junto com Ari Handel, para a equação quase impossível de encher uma arca, por maior que ela seja, com um casal de cada bicho vivo sobre a Terra. Noé e família usam uma espécie de sonífero para fazer todos os animais “hibernarem”. Desta forma, todos são acomodados dentro da arca para uma viagem que ninguém sabe quando terá fim. Evidentemente que na prática aquela imagem seria impossível, mas o que importa é a mensagem de Noah.

E qual seria essa mensagem? Desde o pecado original, quando Adão e Eva desobedeceram a Deus e comeram a fruta da árvore proibida (que não apenas simboliza o pecado, porque representa a desobediência a Deus, mas também o desejo do homem e da mulher em possuir tudo, sua ganância, ambição e arrogância), passando pela morte de Abel pelas mãos de seu irmão, Caim – primogênito de Adão e Eva -, a Humanidade apenas caminhou ladeira abaixo.

Após o primeiro assassinato narrado pela Bíblica – o de Abel pelas mãos de Caim -, homens e mulheres teriam criado guerras e surgido diferentes pecados e crimes motivados pela cobiça, pela arrogância e pelo desejo de muitas pessoas em dominar a Terra sobre todas as outras criaturas. Muito bem, a história de Noé surge para mostrar como havia gente ainda fiel à Deus. Não apenas a família do protagonista é devota, mas ela simboliza quem ainda seguia a vontade de Deus e não a sua própria vontade.

Pois bem, quando Deus decide acabar com a Humanidade, por não acreditar mais em uma “salvação” para as pessoas que estavam perdidas em si mesmas, Noé lidera a família nos preparativos para a arca que deveria salvar a todos os animais vivos na Terra. Mas mesmo a família de Noé tinha problemas, como uma certa rivalidade entre os irmãos Ham e Shem. O conflito fica pior quando Ham vê o irmão acompanhado – por Ila (Emma Thompson Watson), adotado por Noé e pela mulher Naameh (Jennifer Connelly) – e percebe que ficará sem companheira para o futuro de um mundo sem outras pessoas.

Noé está seguro sobre a vontade de Deus e entende que a Humanidade deve terminar. Afinal, Ila não poderia ter filhos – até que o avô de Noé interfere nesta realidade -, ele e a esposa também não. Assim, quando o filho mais novo do casal morresse, a Humanidade teria terminado. Naameh quer o melhor para os filhos e buscando a felicidade deles, interfere nesta realidade com a ajuda de Methusalah. E daí surge o questionamento fundamental do filme: Noé acredita que o mal está em todas as pessoas, e que mesmo quem se diz do bem é capaz de matar para defender um filho.

Para o protagonista, é preciso vigiar a própria vontade e ser fiel à Deus. Desta forma, mesmo tendo o bem e o mal dentro de si, a pessoa vai trilhar o caminho do bem porque não cairá na tentação de fazer a própria vontade, mas de seguir o que o Criador deseja. Naameh é temente à Deus e concorda em seguir os passos do marido, mas não quer ver os filhos sofrerem e, por isso, segundo a visão de Noé, afronta a vontade divina.

Mas daí surge um ponderamento importante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Se Deus deu ao homem o poder de escolher entre o bem e o mal, e se nada que ele não deseja acontece, como dizer que a gravidez de Ila não é vontade de Deus? Algumas vezes acreditamos que estamos lendo os sinais de Deus corretamente, mas talvez em muitas situações a nossa compreensão limitada seja falha. Noé sofre com a própria “fraqueza”, acreditando que ao poupar as netas ele estava confrontando Deus. Mas nada aconteceria se o Criador não tivesse concordado com a “mudança de planos”. Ele teve misericórdia com a própria criação e resolveu nos dar uma nova chance.

Esta são algumas das reflexões do filme. Independente da crença de cada um, acho que alguns dos pontos citados acima – capacidade de escolha, cada pessoa abrigar o bem e o mal, possibilidade de ser fiel a um desejo superior ou seguir apenas os próprios desejos – valem para qualquer pessoa refletir sobre si mesma e os demais. Além de que Noah aparece em um momento importante, no qual estamos destruindo um bocado dos recursos naturais do mundo e ponderando sobre o nosso egoísmo como civilização – sem contar o choque que temos cada vez que um ato de crueldade é praticado em histórias ordinárias ao nosso redor.

Não há dúvidas de que esta produção aparece em um momento em que muita gente está questionando não apenas o que estamos fazendo, enquanto coletivo, mas também sobre as escolhas que praticamos cotidianamente como indivíduos. Perceber que não estamos sozinhos no mundo e que os nossos atos afetam aos demais independe de religião. Neste ponto Noah cumpre o seu papel de fazer qualquer pessoa refletir. Sem contar que o filme mostra o seu valor como obra de cinema. Explora bem os recursos narrativos e, principalmente, a tecnologia de ponta disponível para este tipo de arte. Ou seja, um bom programa sob qualquer ótica.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Antes de mais nada, quero pedir desculpas pela ausência aqui no blog. Há duas semanas eu não publico nada, e este foi o tempo que me separa de ter assistido a Noah e de estar publicando este texto. Por esta razão, também não considero a crítica acima das melhores. Afinal, quanto mais demoro para falar de um filme que eu assisti, mais fácil para que eu perca detalhes de impressões que eu tive. Dito isso, acho que comentei a essência sobre o que achei desta produção por aqui – mas algo sempre se perde com este hiato de tempo. Tentarei evitá-lo nas próximas publicações.

Noah, como não poderia deixar de ser, é um filme carregado de valores. E de questionamentos. O primeiro valor explorado pela história e que me chamou a atenção foi o da retidão. Esta qualidade fica evidente na linhagem de Noah. A qualidade seguinte daquela família é o respeito extremo a tudo que é vivo – a tudo que é a criação de Deus. Nada deve ser usado ou destruído sem que isso seja extremamente necessário. Uma grande lição para os tempos atuais, quando as principais nações do mundo não conseguem nem mesmo o básico, que é reduzir o nível de poluição de seus países. Sem contar o restante dos problemas causados pelo consumismo e pelo exagero/desrespeito que as pessoas tem pelo que nos cerca.

Dos elementos técnicos do filme, destaque para a ótima direção de Darren Aronofsky. Não por acaso ele é um dos meus diretores favoritos de sua geração. Aronofsky soube conduzir muito bem a trama, com imagens verdadeiramente impressionantes em um filme que exigia cenas grandiloquentes e uma boa condução de atores. Merece aplausos também a impecável direção de fotografia de Matthew Libatique; a trilha forte e marcante de Clint Mansell e, principalmente, os efeitos especiais fantásticos da equipe liderada por Lindsay Boffoli. Para mim, o excelente trabalho de efeitos especiais se revela em todo o seu esplendor em dois momentos: primeiro, no sonho de Noé com a inundação; depois, com o “ressurgimento do Éden”, quando surge da semente dada por Methuselah a floresta que servirá de base para a arca.

Algo que achei interessante nesta produção é que ninguém no filme é visto acima de qualquer suspeita. Por exemplo: apesar do grande respeito que tem por tudo que foi criado por Deus, Noah não titubeia em matar agressores para proteger a própria família. O “não matarás” que está nos 10 mandamentos é desrespeitado, neste sentido. Em outro momento, o próprio Noah vai filosofar com a esposa de como todos carregam o bem e o mal dentro de si. Ele incluído, evidentemente.

Cada um vai tirar uma mensagem específica deste filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Noah). Da minha parte, como católica, achei ótimo um dos meus diretores preferidos ter recontado um dos mitos mais significativos da Bíblia. Afinal, a história de Noé mostra o quanto vale a pena ser fiel à Deus. E o quanto isso é difícil no dia a dia. Afinal, há muitas tentações, diariamente, e recusar estas tentações, esmagando sempre que possível o orgulho, a soberba e a falsa ideia de que somos mais do que pó é difícil. Mas também recompensador. Além de tudo isso, essa história passa para mim a mensagem que, por mais que ele esteja decepcionado com a Humanidade muitas vezes, Deus é sempre perdão e amor. Isso é o que tiro desta história. Mas cada um vai tirar o que lhe parecer mais interessante.

Inicialmente eu achei os Guardiões toscos demais. Me assustei com o quanto eles foram “mal feitos”. Depois, claro, entendi a razão daquele aspecto tosco. Ainda assim, mesmo que justificados pela história, achei o aspecto daqueles Guardiões descuidado demais.

Interessante e ao mesmo tempo um pouco cômica a caracterização do grande Anthony Hopkins como Methuselah. Em certo momento do filme, quando ele está na floresta, o personagem me fez lembrar a figura do clássico desenho Caverna dos Dragão. 🙂

O elenco principal desta produção foi citado antes. Mas faltou comentar o bom trabalho de Ray Winstone como o vilão da história Tubal-cain. Descendente de Caim, ele resume a linhagem da soberba, da crença que o homem é superior ao Criador e que basta em si mesmo. O ator está bem em cada cena, resumindo bem a tentação de Ham e a presença do Mal. Dos atores principais, gostei do trabalho de Russell Crowe – acho que ele esteve firme no papel-chave, sem exagerar a mão na interpretação ou ser relapso com o papel como em produções recentes. Mas o destaque fica mesmo com Emma Watson. Ela rouba a cena como Ila.

Em certo momento, Noé diz que foi escolhido por Deus para proteger a Sua criação porque Ele sabia que Noé seria fiel e faria tudo o que lhe fosse pedido. De fato, dificilmente alguma outra pessoa conseguiria. Porque Noé não se importava de perder tudo e a todos, de que sua própria família desaparecesse da face da Terra se esta fosse a vontade de Deus. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Nós humanos, em geral, seguimos o nosso instinto da autopreservação. Mas isso não mostra a nossa fidelidade com Deus, apenas a nossa condição humana falha e a nossa fraqueza. Noé é diferente. Não apenas a mulher dele “fraqueja” e pensa na família em primeiro lugar, como também o filho “certinho” de Noé, Shem, acaba atacando o pai em momento decisivo. E, quem diria, é o “sempre tentado” e questionador Ham que impede a tragédia. Mais ensinamentos nestes exemplos. Finalmente, concordo com Ila… no fim das contas, nada daquilo teria acontecido se Deus não quisesse. E sim, a compaixão e o amor sempre vencem no final.

Fiquei curiosa para saber o que teria motivado o diretor Darren Aronofsky a filmar uma história da Bíblia. Encontrei alguns textos que ajudam a tirar esta dúvida. Nesta entrevista para o The Washington Post, Aronofsky explica como sendo um judeu do Brooklyn ele teve contato com a história de Noé muito jovem. Na sétima série, quando teve que escrever um texto sobre a paz, ele escreveu o poema The Dove sobre Noé.

O texto acabou levando ele para uma convenção da ONU e foi então que ele percebeu, pela primeira vez, que tinha o talento para contar histórias. Ou seja, Noé marcou a vida do diretor, que segue comentando que logo após fazer Pi (filme bem interessante e que recomendo para quem não assistiu ainda) ele pensou em Noé, mas que Hollywood não estava interessada em um projeto do tipo “filme bíblico”. Mas agora não, este perfil de filme está “em voga”, segundo o próprio Aronofsky. E foi aí que ele viu a oportunidade de resgatar aquela antiga ideia.

E sobre a essência de Noah, Aronofsky afirma que existe uma complexidade na história dele que não está necessariamente escrita na Bíblia, mas que é insinuada. Por exemplo, no fato de Noé ficar bêbado e se desentender com Ham logo após o dilúvio. Para haver este rompimento, os personagens tinham que ter uma relação conflituosa antes, e essa linha foi o que Aronofsky quis explorar. Para o diretor, o relacionamento de Noah e Ham levou a ideia “de bom e ruim que temos dentro de todos nós, e a luta da justiça que ocorre em cada um de nós para tentar equilibrar justiça e misericórdia em nossas vidas”. Cada personagem do filme, segundo o diretor, lida com essa ideia de maldade e perdão. Outro ponto interessante é quando o diretor diz que o seu grande propósito é entreter as pessoas, procurando fazer filmes excitantes, divertidos, emocionais e com movimento, cheios de ação. Ele consegue.

A entrevista do diretor para o The Washington Post está muito boa. Mas quem quiser saber mais sobre as opiniões do diretor, há esta outra entrevista para o Huffington Post e esta outra para a The Independent.

Agora, uma curiosidade sobre a produção: antes de ser lançado, Noah rendeu um belo embate entre Aronofsky e o estúdio Paramount. Preocupado com a recepção que o filme poderia ter, o estúdio fez testes com audiências católicas com três edições diferentes daquela planejada pelo diretor. Aronofsky resistiu à ideia de ter o trabalho alterado e acabou vencendo no final, já que o corte pensado por ele é que chegou até os cinemas. O efeito, acredito, foi o mesmo que se a produção tivesse chegado com algum dos outros cortes: Noah foi proibido em diversos países (como Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos e Egito) porque ele não seria fiel aos ensinamentos do Islã.

De acordo com os realizadores da produção, grande parte dos recursos dos efeitos especiais foi utilizada para recriar todos os animais vistos no filme. Não teriam sido utilizados bichos reais em nenhum momento da produção.

Noah estreou em première na Cidade do México no dia 10 de março. Três dias depois o filme teve première em Berlim e, no dia 17 de março, em Madrid. No Brasil o filme estreou no dia 3 de abril. Até o momento o filme não ganhou nenhum prêmio.

Por ser uma superprodução, Noah teria custado cerca de US$ 125 milhões. Segundo o site Box Office Mojo, até ontem, dia 23 de abril, Noah teria conseguido pouco menos de US$ 94,7 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 207 milhões nos outros mercados. Na soma, acumulou pouco mais de US$ 301 milhões. Ou seja, está conseguindo pagar as contas e conseguir algum lucro.

Para quem gosta de saber sobre as locações dos filmes, Noah foi rodado em Hollywood, na Islândia, no México, em Nova York e em Washington.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para Noah. Acho que a avaliação poderia ser melhor, mas dá para entender porque o filme levantou muitas controvérsias – como a maioria das produções bíblicas que não são “extremistas”. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 157 críticas positivas e 47 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média de 6,6.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ela entra na lista de filmes da categoria “Votações no blog”, já que os leitores deste espaço escolheram os Estados Unidos para uma série de críticas por aqui.

CONCLUSÃO: Quem leva tudo muito à sério não pode assistir a Noah. Por uma razão muito simples: esta é uma obra artística e não um libelo fundamentalista. Digo isso porque quem está buscando neste filme a história ipsis litteris do mito de Noé que está na Bíblia já começou perdendo a viagem. A produção dirigida por Aronofsky não tem a pretensão de levar a história bíblica a sério demais. Ainda bem. O resultado das escolhas do diretor é que assistimos a um filme potente pela forma e pelo conteúdo. Na forma, ótimos efeitos especiais e um bom trabalho dos atores. No conteúdo, o essencial da mensagem do mito de Noé e várias reflexões para adaptarmos para os dias atuais. Um filme inspirador, como tudo que o diretor apresentou até hoje. Se você não é um fundamentalista, tem grandes chances de apreciar mais esta obra interessante em 3D.

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This Is The End – É o Fim

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Um grupo de atores, amigos, resolve fazer um filme para dar risada uns dos outros. O problema é quando o público não os acompanha. E este é o caso de This Is The End. Provavelmente muitos de vocês que assistiram ou vão assistir ao filme vão achá-lo engraçado em algum momento. Eu não consegui dar uma risada que fosse o filme inteiro. E isso é terrível porque claramente esta produção foi feita para ser engraçada. Curioso ver tantos famosos se esforçando em uma produção tão idiota. Infelizmente uma perda de tempo.

A HISTÓRIA: O ator Seth Rogen está no aeroporto de Los Angeles. Alguém lhe cumprimenta, e ele responde meio sem graça. Ele se anima quando vê o também ator e amigo Jay Baruchel chegando. Faz um ano, mais ou menos, que eles não se encontram. Seth diz que preparou o melhor final de semana para eles se divertirem. Na saída, alguém pergunta para Seth como ele se sente fazendo sempre o mesmo personagem, e pergunta quando ele vai começar a atuar de verdade. Seth agradece e sai de fininho.

Na saída do aeroporto, Seth e Jay tem uma longa conversa sobre comer porcarias ou o primeiro seguir uma “desintoxicação” alimentar. Depois, eles vão para a casa de Seth e passam boa parte do dia fumando maconha e fazendo palhaçadas. À noite, mesmo contrariando Jay, eles seguem para uma festa na casa de James Franco, onde estranhos eventos começam a acontecer, sinalizando para o fim do mundo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a This Is The End): Tenho certeza que tem muita gente que vai chegar aqui e odiar a nota que eu vou dar, logo abaixo, afirmando que eu não entendi o filme. Meus caros, antes de mais nada, quero dizer que entendi a chuva de autorreferências e de autoparódia da produção. E ainda assim, não achei ela engraçada.

O que só comprova uma percepção que eu tenho há muito tempo: definitivamente o meu humor não corresponde com o do público norte-americano médio. Eles acham graça de bobagens que eu simplesmente vejo como recursos primários ou idiotas. Talvez se eu fosse uma adolescente e tivesse assistido a poucas comédias na vida, eu gostaria deste besteirol. Mas quanto mais você avança e consome diferentes tipos de cultura, mais fica difícil achar interessante as paródias, tirações de sarro e comédias que usam recursos batidos para fazer rir.

Antes de assistir a This Is The End, eu sabia que se tratava de um filme feito por um punhado de atores, na casa de um deles, que tinha que lidar com o fim do mundo. Eu esperava um tirando sarro do outro, e até de seus trabalhos. Por isso mesmo, achei que daria boas risadas. Que nada. Ledo engano.

Esta produção é dirigida e escrita pelo protagonista da produção, Seth Rogen, e por seu amigo de infância Evan Goldberg. Logo no início percebemos que This Is The End vai tirar sarro do cotidiano das estrelas de Hollywood. Começando pela ironia que Seth tem que enfrentar no aeroporto, seguindo pela preocupação da dieta que ele tem, sem ao menos conseguir argumentar a favor dela, e chegando nos hábitos que guardam muito de experiências juvenis que estes astros mantêm na vida particular.

Há ainda o deslumbramento destas estrelas – vide a casa de James Franco – e a falta de relações reais. Ok, tudo isso é interessante de ser mostrado. Mas eu preferia um documentário revelando estes aspectos do que esta comédia autorreferencial que parece mais uma desculpa para reunir os amigos, tirar sarro de vários filmes e entregar mais um produto sem importância para o público ávido por risadas superficiais.

Seth e Evan se basearam no curta que eles lançaram em 2007 intitulado Jay and Seth versus the Apocalypse, que teve a colaboração, no roteiro, de Jason Stone. Não vi ao curta, mas imagino que This Is The End seja uma versão ampliada do material original, com o adendo de várias estrelas do cinema e da música aparecendo nesta nova produção. Os diálogos de This Is The End me fizeram lembrar um pouco (mas muito pouco) o estilo de Quentin Tarantino. Pelo menos no início, em sequências como aquela sobre a dieta de desintoxicação. São vários minutos com uma conversa que pretende “plasmar a linguagem usual das ruas” ou, no caso, das estrelas de Hollywood preocupadas com a própria circunferência. Mas esta lembrança ocorre em pouquíssimas ocasiões.

Pena que o roteiro de Seth e Evan não cheguem aos pés do que Tarantino consegue escrever. Fora as conversas muitas vezes sem sentido entre os atores, na maior parte do tempo eles parecem uns idiotas. A reação de Jay quando ele vê “os presentinhos” preparados por Seth para recebê-lo é apenas o início de uma sequência de manifestações idiotas dos atores convidados para esta produção. Segundo This Is The End, o pessoal de Hollywood vive de aparências, se drogando e medindo a própria importância uns com os outros.

Francamente? Não precisamos de um filme como This Is The End para saber disso ou zoar destes estereótipos. Então qual é o propósito deste filme? Fora colocar vários famosos em cena passando por sequências ridículas, acredito que seja fazer o público rir. Torço para que muita gente consiga isso. Da minha parte, foi difícil achar qualquer linha do roteiro engraçada.

Para não dizer que não ri em parte alguma, houve apenas um momento em que dei uma risadinha… Quando a produção tinha passado de uma hora, quando Jay e Craig Robinson vão até a casa do vizinho de James Franco atrás de suprimentos, dei uma pequena risada com a reação de Craig quando Jay grita perguntando se tem alguém em casa. Depois, Jay pergunta se eles devem se separar para “cobrir terreno” mais rapidamente. No que Craig pergunta se ele acha que aquilo é Scooby Doo. 🙂 Nessa eu dei uma pequena risada, até porque me lembrou a todos os filmes de suspense que caem nesta armadilha das pessoas se separarem e também me fez lembrar de The Walking Dead.

Um outro momento interessante, ainda que menos engraçado – pelo menos para mim -, mas que resume um bocado do espírito desta produção, ocorre quando Seth, Jay, James Franco e Craig Robinson estão falando sobre como eles podem salvar as suas respectivas almas, achei engraçada a defesa que James faz do trabalho deles.

Após ele explicar para Seth que Jesus, Deus e o Espírito Santo são uma trindade como o “sorvete napolitano”, ele diz que acredita que todos ali sejam boas pessoas, porque fazem os outros rirem. Jay lembra que eles não fazem isso de graça, pelo contrário, recebendo mais do que a maioria que tem outros trabalhos. No que James contesta que eles se esforçaram para isso. A parte que eu achei engraçada foi quando Craig dá um exemplo sobre este “esforço”. Muito bom! Rara sequência que não foi óbvia e que traz uma boa sacada.

No restante do tempo, não consegui achar nada realmente engraçado. Assistindo a qualquer episódio de Modern Family ou The Big Bang Theory eu consigo me divertir mais. Complicado quando um filme que é para fazer rir tem esse efeito, não? Torço para que muita gente que veja ao filme em outros mercados que não nos Estados Unidos tenha uma impressão diferente.

Agora, algo que funciona neste filme é a trilha sonora. Muitas músicas que fizeram grande sucesso nos anos 2000 aparecem em momentos de catarse dos atores. Estão ali A Joyful Process, do Funkadelic; Disco 2000, de Pulp; Gangnam Style, de Psy; The Next Episode, de Dr. Dre e Snoop Dogg; além de War Pigs e The End of the Beginning, do Black Sabbath; Hole in the Earth, de Deftones; a deslocada I Will Always Love You, de Whitney Houston; e o “grand finale” com Everybody (Backstreet Back) com o Backstreet Boys.

No meio do filme, claro, várias pinceladas com paródias de outras produções. Devo citar a manjada autorreferência a 127 Hours, com o uso da mesma câmera – segundo o filme, James Franco tem um porão cheio de souvenirs de seus filmes – para que os atores de This Is The End gravassem seus próprios depoimentos, incluindo cenas deles tomando a própria urina; e a sequência inspirada em The Exorcist – bastante previsível, aliás.

Todos os atores que aparecem são zoados em algum momento. Uns mais que outros. Entre os que são mais sacaneados estão Michael Cera, que aparece como um aloprado que fica o tempo todo cheirando pó e fazendo besteiras – bem diferente do personagem sempre certinho que ele faz nos filmes; e o próprio Seth Rogen. Danny McBride, que aparece para ser muito engraçado, é um dos principais responsáveis por “sacanear” aos demais – inclusive Channing Tatum em uma ponta.

Francamente? Achei um grande besteirol. Um filme que deveria ter sido feito, mas exibido apenas para aquele grupo de amigos e seus conhecidos. Qual é o interesse de um filme assim, muito engraçado para as pessoas que participaram dele, chegar ao grande público? Talvez porque os responsáveis achem que vivemos um tempo em que qualquer idiotice que um “famoso” faça seja de interesse público. Nesse sentido, eles estão certos. Então esse filme pode agradar a muita gente, as mesmas pessoas que devoram sites, revistas e jornais atrás do “último bafo” do famoso preferido. É, definitivamente este não é o meu estilo. Pois agora tenho certeza que devo passar longe de filmes do gênero. Vivendo e aprendendo.

NOTA: 3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Que ninguém me entenda mal. Primeiro, quero dizer que tenho senso de humor sim. E muito. Várias e várias vezes sou capaz de dizer as maiores besteiras. Mas quando assisto a uma comédia, espero que ela inove, diga algo além do óbvio. Me surpreenda. Não foi o caso deste This Is The End. O que eu acho uma pena. Eu gostaria, realmente, de ter apreciado ao filme.

Também quero esclarecer que não estou alheia aos famosos. Algumas vezes eu leio o que eles fazem da vida, do que gostam, o que pensam. Mas não gasto o meu dinheiro para isso – consumo estas informações gratuitamente. E nem coloco estas informações como as primeiras ou mesmo as segundas que eu busco. Acho importante saber um pouco mais sobre as pessoas que admiramos, mas daí a achar bacana toda e qualquer informação inútil sobre elas existe uma grande diferença.

Não acho Seth Rogen, Johan Hill ou Jay Baruchel muito bons. Vejo eles apenas como atores medianos. Diferente de James Franco, a quem admiro e acho acima da média. Mesmo neste filme, acho que Franco está melhor que os demais, apesar de seu “papel” ser tão idiota quanto o dos demais. Mas Seth, Johan e Jay fazem mais do mesmo. Interpretam um pouco mais da média de seus personagens. Por isso mesmo que eu acho que, na vida real, eles devem ser diferentes. Do contrário, pareceriam muito com os estereótipos que eles costumam fazer.

Para não dizer que esta produção foi totalmente inútil, gostei de ter “reencontrado” dois atores de The Office: Craig Robinson e Mindy Kaling. Eles são muito bons. E fazem aqui, mais uma vez, um belo trabalho. E a série… esta sim, é garantia de riso sempre.

Das outras participações especiais, tem destaque Emma Watson e Rihanna, que parece que estão se divertindo em suas pontas. Com destaque ainda menor aparecem David Krumholtz, Christopher Mintz-Plasse, Martin Starr, Paul Rudd, Kevin Hart, Aziz Ansari e os Backstreet Boys – Nick Carter, Howie Dorough, Brian Littrell, A.J. McLean e Kevin Scott Richardson.

Da parte técnica do filme, além da trilha sonora de Henry Jackman, merece um elogio a edição de Zene Baker e os efeitos especiais coordenados por Kevin Harris.

Os diretores e roteiristas Seth Rogen e Evan Goldberg disseram, em uma entrevista, que tinham planejado uma cena extra, no final dos créditos do filme, na qual James Franco e Danny McBride fumavam maconha com Hitler no Inferno. Mas eles decidiram não incluí-la porque acharam que seria demais. Na minha opinião, seria apenas mais uma de várias sequências dispensáveis.

Agora, uma curiosidade sobre a produção: Goldberg criou um jogo próprio no filme. Segundo a brincadeira, ele deveria acumular o máximo possível de resistências dos autores – e conseguir fazer com que eles rompessem essa resistência. Os únicos atores que não entraram no jogo porque nunca resistiram a nada foram Seth Rogen e James Franco.

Seth disse que ficou surpreso com a quantidade de insultos que os atores foram capazes de dizer uns para os outros. Jonah Hill e James Franco, em especial, se saíram muito bem nos insultos mútuos, a ponto de Seth dizer que algumas vezes teve que interrompê-los para que eles pudessem lembrar que eram amigos.

Outra curiosidade: a maioria das pinturas que aparece no filme, na casa de James Franco, de fato foram pintadas por ele.

O papel desempenhado por Emma Watson em This Is The End foi, originalmente, escrito para a atriz Mila Kunis. O ator Daniel Radcliffe foi convidado para fazer uma participação no filme, mas recusou. Segundo Seth e Evan, a aproximação deles aconteceu na fase inicial do projeto, e eles admitiram que, naquela época, tinham escrito partes que não eram realmente boas. E que nem todas aquelas ideias foram desenvolvidas no filme.

O elenco principal do filme recebeu menos que o normal para ajudar Seth e Evan a viabilizar esta produção. Os diretores gostariam de ter chamado Cameron Diaz, Edward Norton, Mila Kunis e Elizabeth Banks para fazer pontas na festa de James Franco, mas tiveram que abandonar a ideia por causa do conflito de agendas.

Inicialmente, This is The End seria rodado em Los Angeles para facilitar a vida dos atores que participam da produção. Mas os realizadores preferiram gravá-lo em New Orleans para economizar dinheiro. A mudança fez com que Cameron Diaz tivesse que ficar de fora do projeto.

Evan Goldberg pode ser visto no final do filme, dançando com a esposa, quando domina a cena os Backstreet Boys.

This Is The End teria custado US$ 32 milhões. Nas bilheterias dos Estados Unidos, até o dia 29 de setembro, esta produção tinha faturado quase US$ 101,4 milhões. Nos outros mercados pelo mundo, até o dia 22 de setembro, ele faturou mais US$ 120,8 milhões. Ou seja: teve um excelente desempenho e conquistou um belo lucro para a turma responsável pela produção.

O filme teve uma pré-estreia no dia 3 de junho em Los Angeles, nos Estados Unidos. Uma semana depois, teria pré-estréia em Nova York e, a partir do dia 12 de junho, estreou em circuito comercial no Canadá e nos Estados Unidos. Até o momento, o filme foi indicado apenas a um prêmio: o de Trailer de Ouro, como o Mais Original Trailer.

Evan Goldberg é conhecido principalmente pelo trabalho como roteirista e produtor. Ele estreou nos roteiros escrevendo para a série Da Ali G Show, em 2004, e depois ficaria conhecido pelos textos dos filmes Superbad (comentado aqui no blog), Pineapple Express, The Green Hornet, Goon e The Watch. Fora o primeiro, não assisti a nenhum outro. Mas o “estilo” dos filmes me parecem muito similares, todos na linha do besteirol.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para This Is The End. Uma ótima avaliação para os padrões da página. Os críticos do site Rotten Tomatoes dedicaram 169 textos positivos e apenas 33 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,1. Fiquei impressionada. Vejo que este foi um raro exemplo em que detestei um filme e que o resto do mundo gostou dele.

Entre os críticos que gostaram de This Is The End está Anthony Lane, do New Yorker (o texto original pode ser lido aqui), que argumenta que este filme “é mais inteligente do que aparenta, mesmo que a narrativa seja uma loucura”. E entre a minoria que não gostou está Jason Best, do Movie Talk, que escreveu, neste texto, o seguinte: “A estrela de Knocked Up (comentado aqui no blog), Seth Rogen, e um grupo de seus companheiros de Hollywood tentam sobreviver ao Apocalipse nesta rude e estridente comédia” que faz o elenco trabalhar “versões exageradas ao estilo de cartoon de si mesmos”. O crítico afirma que se “a sua tolerância para brincadeiras com drogados e gags pueris sobre sexo é baixa, então a ideia de enfrentar o Armageddon com Rogen e seus companheiros provavelmente vai acertá-lo como o próprio inferno”. Pois é, este é o meu caso.

Esta é uma produção 100% Estados Unidos. Sendo assim, ela entra na lista de filmes daquele país que eu comento por aqui após uma votação que escolheu os EUA para uma série de críticas no blog.

CONCLUSÃO: Mesmo não tendo muitas expectativas para este This Is The End, ele se comprovou um dos piores filmes que eu assisti nos últimos anos. Alguns ótimos atores, outros que considero apenas medianos, se juntam para fazer um filme satírico, cômico e cheio de paródias. Mas o resultado não empolga. Na verdade, o tempo todo eu estava torcendo para algo acontecer para transformar o filme em algo melhor. Mas não.

Tirando a trilha sonora e a oportunidade de ver a bons atores fazendo um papelão, este This Is The End é um grande equívoco. Que me faz pensar que devo parar de assistir a quase todas as estreias dos cinemas para me centrar em filmes com chances maiores de serem bons, no final. Porque este demonstrou ser uma grande bobagem – e sem graça. Definitivamente eu não tenho o estilo de humor do povo dos Estados Unidos. Prefiro comédias de outro tipo, com outra “pegada”. Mas se você é adolescente, ou se gosta de filmes escrachados, talvez esta possa ser uma boa pedida.

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My Week with Marilyn – Sete Dias com Marilyn

Você que, como eu, tem uma paixão contagiante pelo cinema, já se imaginou acompanhando os bastidores de filmagem de uma produção com alguns dos grandes astros de sua época? Agora, imagine ter feito isso na era das grandes estrelas, ter visto e convivido de perto com Marilyn Monroe, por exemplo. My Week with Marilyn torna este sonho realidade. Nos aproxima de uma das maiores estrelas de Hollywood de todos os tempos. Conhecemos um pouco da intimidade da diva, sua fragilidade, talento e carisma. E é de cair o queixo a interpretação de Michelle Williams para o papel. Perfeita, para dizer o mínimo.

A HISTÓRIA: O filme começa nos contando que, em 1956, no auge de sua carreira, Marilyn Monroe (Michelle Williams) viajou para a Inglaterra para fazer um filme com Sir Laurence Olivier (Kenneth Branagh). Chegando lá, ela conheceu um jovem chamado Colin Clark (Eddie Redmayne), que escreveu um diário sobre os bastidores das filmagens. E o filme é a história real sobre o que aconteceu. No breu, ela aparece do lado direito da tela. Quando o holofote acende sobre ela, a diva se vira. E dá um show. Começa aí a história da experiência de Marilyn Monroe na Inglaterra, contada por Clark. Através daquele jovem fascinado pelo cinema, acompanhamos os bastidores da filmagem de The Prince and the Showgirl, e nos aproximamos de alguns dos grandes astros daquela época. Com destaque, é claro, para a complexidade da personalidade de Marilyn e das pessoas que a cercavam.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a My Week with Marilyn): Impressionante. Ficamos fascinados com Michelle Williams como Marilyn Monroe. Da mesma forma com que o personagem de Colin Clark, embasbacado com aquela sequência inicial do filme que está sendo exibida em uma sala de cinema repleta de homens igualmente babões. Ela faz um trabalho impecável e marcante. Algumas vezes, a ponto do espectador ser até capaz de esquecer da Marilyn original, e acreditar que esta assistindo à diva na telona outra vez.

Até assistir a esse filme, eu não sabia que se tratava de uma história real, baseada nos escritos de um admirador que teve a oportunidade de conviver com Marilyn por um período. Interessante a forma com que esta história real foi contada. Bom trabalho do roteirista Adrian Hodges, baseado nos livros My Week with Marilyn e The Prince, the Showgirl and Me, escritos por Clark. Ele acerta em começar com Marilyn na telona do cinema e, a partir daí, abraçar a ótica do narrador desta história. A empatia é criada rapidamente, e isso é fundamental para o espectador continuar interessado no filme.

Além disso, claro, o diretor Simon Curtis acerta ao apostar no trabalho de seus atores. Ele evidencia não apenas Michelle Williams e Kenneth Branagh, mas o “narrador” Eddie Redmayne e todos os demais intérpretes selecionados à dedo para esta produção. E o elenco, aliás, é exemplar. Julia Ormond interpreta à diva Vivien Leigh, mulher de Laurence Olivier; Emma Watson interpreta à Lucy, que trabalha nos estúdios e atrai o protagonista; Dougray Scott interpreta a Arthur Miller, marido de Marilyn; Dominic Cooper a Milton Greene, fotógrafo e amigo pessoal de Marilyn; Judi Dench, fantástica, interpreta a Sybill Thorndike; e Zoë Wanamaker à Paula Strasberg, que não desgruda de Marilyn. Todos estes tem relevância para a história e aparecem muito bem em cena.

Eis um filme de atores. Com grandes interpretações. Como não poderia deixar de ser. Até porque esta é uma produção que conta sobre os bastidores de um filme. Então os acertos, erros, exageros, o talento e, porque não, o ego dos atores está em evidência. Interessante como My Week with Marilyn mostra astros como Monroe e Laurence Olivier de perto, com todas as suas fraquezas e talento.

Diferente de outras produções sobre bastidores do cinema, que tentam “preservar” os astros, esta tem o compromisso com a verdade, porque foi baseada nos livros de Clark. Apesar dele ter se tornado diretor de documentários mais tarde, ele nunca teve o compromisso com a preservação da intimidade das estrelas com que teve o prazer de cruzar o caminho. Por isso assistimos um filme raro, que revela na mesma proporção as qualidades e os defeitos dos astros focados pela produção.

Marilyn aparece como uma atriz que tinha problemas em embarcar em uma personagem. O filme se passa em um momento da carreira da diva em que ela tinha embarcado com tudo no “método” de interpretação visceral de Lee Strasberg. Tanto que ela aparece sempre acompanhada por Paula Strasberg no filme, com quem ele foi casado até 1966, quando ela morreu de câncer.

Interessante, aliás, o “choque” entre duas formas muito diferentes de encarar o trabalho do ator no cinema. Enquanto Marilyn, ao lado de Paula, defendia uma interpretação que partisse do “íntimo” do ator, que exigisse que ele embarcasse no personagem após entendê-lo e “vivenciá-lo”, Sir Laurence Olivier achava tudo isso uma bobeira. Ele sabia, aliás, que The Prince and the Showgirl seria apenas mais um filme “pastelão”, uma história de amor escrachada, com uma boa dose de humor, pensada para faturar bastante e agradar ao público.

Ele estava preocupado em cumprir o horário de filmagens proposto, e fazer o melhor trabalho em mais um produto da indústria. Marilyn não, ela não se encaixava nos horários e não encontrava o tom da personagem. E ainda assim, o próprio Olivier admitiria, ela se saiu muito melhor que ele.

E eis uma das qualidades de My Week with Marilyn: o filme consegue mostrar todo aquele magnetismo e presença de cena da atriz. Não é uma tarefa fácil. Até porque, para muita gente, nunca houve uma atriz como Marilyn. Ainda assim, a atriz Michelle Williams vence o desafio de interpretar mulher tão inigualável com louvores.

Mas o filme não mostra apenas as qualidades da loira platinada mais famosa de Hollywood. Simon Curtis mostra com dedicação, e sem deixar o filme piegas, a fragilidade de Marilyn Monroe. Fica evidente a dependência dela de medicamentos para dormir, por exemplo, e também por elogios das pessoas que a cercavam. Ela tinha uma grande necessidade de sentir-se amada, o filme deixa a entender, assim como de sentir-se segura. Parecia estar sempre pedindo aprovação. Isso acontecendo na vida íntima de Marilyn, ela conseguia esbanjar confiança e sensualidade na frente das câmeras e do públicos que a perseguia por onde ela fosse.

Apesar desta aparente alta carência, Marilyn também sabia muito bem o efeito que tinha no público, especialmente nos homens. Interessante como My Week with Marilyn consegue, ao mesmo tempo, mostrar os bastidores de um filme estrelado por grandes atores e atrizes e explorar tanto a intimidade da protagonista.

Já ficou famosa a cena em que ela, acompanhada de Colin Clark no ex-colégio de seu novo queridinho, pergunta para ele se aquele é o momento de Marilyn – a personagem – entrar em cena. Ela sabia interpretá-la muito bem, entrou no papel com afinco – talvez utilizando o método de Strasberg. E algumas vezes entrava em crise ao confrontar os seus desejos reais com aqueles que deveriam ser da “personagem”.

My Week with Marilyn tem um ótimo ritmo e um roteiro muito bem escrito, que equilibra os bastidores do cinema com os dramas pessoais dos personagens principais desta história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Algumas cenas, claro, são difíceis de acreditar, como aquelas em que Marilyn parece um verdadeiro desastre nas filmagens. Mas são compreensíveis, por exemplo, as sequências dela com Clark, já que ele parecia a única pessoa autêntica e confiável naquele cenário de estrelas muito centradas em si mesmas. Importante lembrar que este filme é baseado em fatos reais e não, necessariamente, um retrato fidedigno do que realmente aconteceu. Um pouco de fantasia deve fazer parte da história – seria compreensível Clark ter aumentado alguns “contos”. 🙂

Apesar de ter um ritmo adequado e a duração exata, My Week with Marilyn só não é perfeito porque deixa um gosto de “quero mais”. Talvez ele pudesse ter um pouco mais de tempo e aprofundar-se naquelas pessoas que circulavam ao redor da diva. Quem não acompanha um pouco os bastidores do cinema pode ficar um pouco perdido e não fazer as ligações necessárias entre Marilyn e Paula Strasberg, por exemplo, ou entre Olivier e Vivien Leigh, entre outros.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O método de interpretação para atores de Lee Strasberg fez história. Ele fundou, em 1947, o famoso e respeitado Actors Studio, para a formação de intérpretes. E foi um nome fundamental para os tempos áureos de nomes como James Dean, Marilyn Monroe, Montgomery Clift, Paul Newman, Al Pacino, Robert De Niro e Marlon Brando, entre outros. Todos seus alunos. Mas o trabalho dele também rendeu polêmica, especialmente pela proximidade da família Strasberg de Marilyn. A atriz deixou grande parte de sua herança para eles.

Norma Jeane Mortenson atuou em 33 filmes, incluindo o incompleto Something’s Got To Give, de 1962, dirigido por George Cukor e que tinha Dean Martin e Cyd Charisse no elenco. O filme nunca foi terminado porque Marilyn morreu no dia 5 de agosto de 1962, quando ele estava sendo filmado. Aliás, este ano completa cinco décadas da morte da atriz. E várias homenagens, como exposições fotográficas, já começaram a ser feitas em memória da diva.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre Lee Strasberg, neste texto da Wikipédia, em inglês, há várias informações interessante sobre o ícone da escola de interpretação. E neste outro, há mais informações sobre o “método” ensinado por ele.

Tudo em My Week with Marilyn funciona bem. Mas merece destaque a deliciosa trilha sonora, assinada por Conrad Pope, fundamental para dar leveza e ritmo para a produção, e a excepcional direção de fotografia de Ben Smithard. Ele consegue reforçar a ideia de “volta ao passado” com uso de lentes que destacam cores terrais, sépia e românticas durante toda a produção. Um belo trabalho. Muito boa também a edição de Adam Recht.

Uma curiosidade interessante desta produção: Kenneth Branagh interpreta a Laurence Olivier, ator que, como Branagh, atuou ou dirigiu três produções baseadas em obras de William Shakespeare. A saber: Othello, Hamlet e Henry V.

Emma Watson me surpreendeu neste filme. Se ela seguir com esta levada, poderá superar a personagem de Hermione Granger dos filmes de Harry Potter com certa facilidade. Ela mostrou talento e carisma na produção. Conseguiu um feito difícil: aparecer quase tão bem nas cenas quanto Michelle Wiliams como Marilyn. Também gostei muito do trabalho de Eddie Redmayne, que já havia feito um trabalho excelente em Savage Grace. Esse garoto vai longe, especialmente se continuar escolhendo bem os seus papéis.

Outra curiosidade da produção: as reconstituições de cenas de The Prince and the Showgirl foram rodadas no mesmo estúdio onde o original foi filmado.

Michelle Williams ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Comédia ou Musical este ano por seu trabalho neste filme. Marilyn Monroe recebeu o mesmo prêmio em 1960 por seu trabalho em Some Like It Hot. Por outro lado, Williams foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz, algo que Monroe nunca conseguiu.

My Week with Marilyn teria custado 6,4 milhões de libras. No Reino Unido, até o dia 5 de fevereiro, a produção havia arrecadado quase 3,1 milhões de libras. Nos Estados Unidos, onde Monroe fez a sua carreira, a produção foi muito melhor, arrecadando quase US$ 10,46 milhões até o dia 8 de janeiro.

Esta produção estreou no Festival de Nova York no dia 9 de outubro de 2011 e, depois, passou por outros seis festivais. Nesta trajetória, ganhou 14 prêmios e foi indicado a outros 31, além de concorrer em duas categorias do Oscar. Doze dos 14 prêmios que o filme recebeu foram para Michelle Williams. Merecidíssimo, devo dizer. Os outros premiados foram o ator Kenneth Branagh, como melhor ator coadjuvante segundo o London Critics Circle Film Awards, e o elenco da produção vencedor do prêmio Capri, de Hollywood.

Buscando ser o mais fiel possível com a realidade retratada na história, My Week with Marilyn foi totalmente rodado no Reino Unido. Entre outras cidades, foram feitas cenas em Londres, Hatfield, Saltwood e Windsor.

Marilyn Monroe estreou nos cinemas emprestando a sua voz para a personagem de uma telefonista no filme The Shocking Miss Pilgrim, quando ela tinha 21 anos. No mesmo ano, em 1947, ela fez a primeira aparição em um filme de Hollywood em uma ponta em Dangerous Years. No ano seguinte, ela faria o primeiro papel de destaque em Ladies of the Chorus. E a partir daí, o resto é história. Em 15 anos de carreira, ela participou de 33 produções – sendo uma delas inacabada.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para o filme. Uma boa avaliação, para os padrões do site. Mas os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 130 críticas positivas e 25 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,2 – esta sim, igual a do IMDb.

My Week with Marilyn foi indicado ao Oscar de Melhor Atriz, para Michelle Williams, e para Melhor Ator Coadjuvante, para Kenneth Branagh. Não levou nenhum dos dois, porque os vencedores deste ano, nestas duas categorias, foram Meryl Streep e Christopher Plummer, respectivamente. Mas ao assistir a My Week with Marilyn e The Help, percebi como a categoria de melhor atriz foi muito concorrida este ano. Mais do que as de ator e de atores coadjuvantes.

Este filme foi co-produzido pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido.

CONCLUSÃO: Simplesmente fantástica. Michelle Williams mergulha de uma maneira na interpretação de Marilyn Monroe que, algumas vezes, não conseguimos distinguir a imagem de uma ou de outra. Uma pena que o Oscar deste ano não pudesse ser entregue para mais de uma atriz. Porque Williams merecia a estatueta tanto quanto Meryl Streep. Ela é a alma de My Week with Marilyn. Mas também impressiona o elenco formidável que aceitou aparecer nesta produção. Não há desempenhos ruins em cena. E o roteiro, narrado sob a ótica de um grande admirador da Sétima Arte que batalha por um espaço nos bastidores de uma grande filmagem, nos aproxima daquela história. Provoca empatia, ao ponto de sermos envolvidos naquele enredo como se nós mesmos estivéssemos na pele do protagonista. O roteiro é inteligente, os atores ótimos, e a direção de Simon Curtis acerta no tom, focando sempre os melhores ângulos de cada cena e valorizando o trabalho dos atores. Um recorte interessante sobre um momento específico da diva, que merecia esta aproximação em um filme sem grandes pretensões. E que, por isso mesmo, se mostra tão interessante.