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The Danish Girl – A Garota Dinamarquesa

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Esse filme será difícil de ser assistido por alguns, será uma verdadeira revelação para outros e, para um terceiro grupo, ele pode parecer uma redenção. Tudo vai depender sob que ótica você irá assistir a The Danish Girl. Da minha parte, ele foi difícil de ser visto, ao mesmo tempo que ele foi um eficaz cartão de visitas para uma realidade até agora desconhecida. Com atores de primeiríssima linha, especialmente com mais uma atuação inspirada de Eddie Redmayne, The Danish Girl se revela um filme necessário. Especialmente para ajudar a quebrar preconceitos ainda existentes.

A HISTÓRIA: Um conjunto de belas paisagens. Elas servem de inspiração para Einar Wegener (Eddie Redmayne). Gerda (Alicia Vikander), mulher dele, observa um de seus quadros. Perto dela, Einar é paparicado pela forma com que ele retrata Vejle. Os dois se olham, enquanto o agente dele, Rasmussen (Adrian Schiller) tenta exaltar o talento do artista. Essa história começa em Copenhagen em 1926. No dia seguinte Gerda acorda Einar, que a chama para a cama novamente. O casal de artistas é uma inspiração, ainda que eles tenham apelos muito diferentes. Em breve, contudo, Einar deixará aflorar a verdade sobre si mesmo, o que vai mudar a vida do casal.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Danish Girl): Este filme não é fácil de ser visto. Pelo menos pela maioria das pessoas, eu aposto. Para mim não foi fácil. Primeiro porque é sempre duro ver o sofrimento alheio. E em The Danish Girl há bastante sofrimento. Mas ele não é tudo nesta história, é claro. Neste filme também há muito amor e a busca pela própria verdade. Ainda que esta verdade seja dura de aceitar, algumas vezes.

Serei franca em dizer que este filme mexeu com os meus preconceitos – ou com a minha dificuldade de entender o que é diferente de mim. (SPOILER – não leia se você não tiver assistido ao filme). Assistindo a The Danish Girl percebi que é muito mais simples entender um homem que se apaixona por um homem e uma mulher que se apaixona por uma mulher do que me colocar no lugar de quem não aceita o próprio corpo e faz cirurgias arriscadas para ter o outro sexo – que, evidentemente, é o que ele entende como sendo o seu.

Em outras palavras, para mim foi muito mais simples me identificar com Gerda do que com Einar/Lili. E neste ponto reside uma das belezas desta produção com roteiro de Lucinda Coxon baseado no livro de David Ebershoff. Ela provoca quem não compartilha com a visão de mundo e de realidade de Lili a conhecer mais de perto a intimidade dos transexuais/transgêneros.

Agora, o contato não é delicado. Pelo contrário. Não estamos do lado de fora, conhecendo a mudança de Einar para Lili como simples espectadores. Estamos dentro do quarto do casal Gerda e Einar. “Estamos” presentes no estúdio em que Gerda está trabalhando no retrato da amiga do casal, Ulla (Amber Heard), quando a modelo se atrasa e ela pede para o marido vestir as meias e a sapatilha para se passar pela amiga, momento em que Einar sente a sua verdadeira identidade começar a aflorar.

O filme não demora para mostra esta ruptura na vida do casal e a evolução deste quadro. Ainda assim, temos tempo de conhecer um Einar antes da mudança. Ele era um artista talentoso e sensível, se vestia bem e não tinha, aparentemente, nenhuma atração por homens ou vontade de se passar por mulher. Pelo menos até aceitar a provocação de Gerda e se vestir como mulher para acompanhá-la em mais um dos eventos chatos com artista que ele odiava.

Inicialmente eles pareciam estar apenas brincando e “jogando”. Afinal, no início, Einar continuava atraído pela esposa. Mas conforme ele foi dando espaço para Lili, tudo começou a mudar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De forma maravilhosa o grande ator Eddie Redmayne foi deixando claro que Einar se sentia muito mais vivo e “inteiro” sendo Lili. Não demorou muito para que ele só quisesse dar espaço para ela – e para que Einar praticamente desaparecesse.

A beleza de The Danish Girl é nos mostrar essa autodescoberta de Einar como Lili com muita franqueza. Mas a honestidade não torna tudo mais simples. De qualquer forma, para quem nunca tinha realmente se interessado ou tido a oportunidade de se colocar na ótica de um transgênero, este filme é um verdadeiro achado. Em The Danish Girl fica muito evidente o que se passa com um homem que passou uma parte considerável da vida escondendo o que realmente sentia sobre si mesmo e que, em determinado momento, resolve ser verdadeiro consigo mesmo.

A descoberta e a transição são dolorosas. Ainda assim, em diversos momentos, dá para perceber a liberdade e a alegria que Einar sente ao caminhar naquela direção de se assumir. Isso tudo é verdade e um desafio para quem não é transgênero. Me colocando no lugar deles, também entendo que este filme seja uma verdadeira redenção e uma inspiração. Mas serei franca em dizer que me coloquei demais no lugar de Gerda. Impossível não ficar assustada, como ela, com a primeira noite em que Lili saiu de casa e com o que viria depois.

A interpretação de Alicia Vikander é perfeita neste sentido. Ela fica assustada com as mudanças pelas quais passa Einar. Até porque ela não demora muito para perceber que, finalmente, ela está conhecendo de verdade a pessoa com quem ela se casou. Na medida em que a verdade não consegue mais ser escondida, o casal passa por um doloroso processo de aceitação e de mudança. Não tem como não sentir a dor de Gerda ao ver que ela está perdendo o seu marido.

Daí também, serei franca, um pouco da minha dificuldade também de entender Einar/Lili. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como até ele experimentar as roupas e se sentir uma mulher ele tinha tanta atração e parecia apaixonado por Gerda? Entendo quem faça isso para “acobertar” a própria identidade enquanto tem uma vida dupla, por pressão social, mas alguém que parece realmente eliminar parte fundamental da própria identidade e viver uma outra persona por tanto tempo me parece algo incrível. Sei que os psicólogos podem explicar e que o fato da história se passar nos anos 1920 ajuda nesta explicação, mas ainda assim me parece incrível.

Por causa disso Gerda acredita que se casou com uma certa pessoa e que a conhecia, mas não. E o processo de descoberta de Einar e de Gerda é complicado. Primeiro ele mesmo parece não entender pelo que está passando. Muito menos ela. No início, me incomodou também o fato dele não ter coragem de falar a verdade para Gerda e sair escondido para se encontrar com Henrik (Ben Whishaw). Sempre sou à favor das pessoas jogarem aberto. A verdade deveria prevalecer. Bueno, isso acaba acontecendo mas, até lá, é duro ver o que acontece com Einar/Lili e Gerda.

Também não é nada fácil ver todas as soluções malucas e absurdas que diferentes médicos e “especialistas” dão para o caso de Lili. É de cortar o coração. Ninguém, por mais que a maioria não entenda pelo que está passando, dever ser sujeito àquelas dores e torturas. Mas todos sabemos como a sociedade lidava com este e com outros “problemas” há diversas décadas atrás.

Nestas horas – e em outras também – percebemos como sim, evoluímos com o passar do tempo. Mas algo que parece ainda não ter evoluído muito, e aí está a importância de The Danish Girl, é a aceitação e entendimento dos transgêneros pela maioria da sociedade. Ainda falta mais falarmos do assunto e conhecermos histórias como a de Lili. Talvez, com o tempo, elas se tornem tão naturais quanto as histórias de amor entre homossexuais.

Por falar em amor, uma das grandes mensagens de The Danish Girl é o imenso amor que existe entre Gerda e Einar/Lili. Enquanto Lili luta por sobreviver e por ser cada vez mais coerente consigo mesma, Gerda segura as pontas e enfrenta toda a dor de perder o marido para que Lili possa ganhar a vida. Impressionante a entrega de Gerda e o amor verdadeiro que ela sentia por Einar/Lili. Francamente, não sei se eu conseguiria fazer o mesmo. Provavelmente não. Mas Gerda nos ensina isso, que o mais bonito amor é aquele que quer que a outra pessoa seja feliz, que se sinta inteira e viva. Não há amor aonde o outro tem que mentir para si mesmo.

Claro que junto com esse amor gigante de Gerda por Einar/Lili está o amor de Lili pela própria verdade. A busca incessante de Einar para dar lugar para a sua verdadeira identidade é comovente e, certamente, inspirador para quem passa pelo menos. The Danish Girl consegue demonstrar isso mesmo para quem não faz parte deste grupo. Este, sem dúvida, é um grande mérito da produção. Conquista dos ótimos atores envolvidos no projeto, especialmente Eddie Redmayne e Alicia Vikander, e também da ótima direção de Tom Hooper.

O roteiro de Coxon e a direção de Hooper não embelezam a pílula. Pelo contrário. E isso é mais um ato corajoso dos realizadores deste filme. Francamente, gostei muito do resultado. Mas acho que o filme peca um pouco por não nos contextualizar mais na história de Einar. Talvez algum flashback do passado ou ele contando mais para Gerda sobre a sua trajetória, sentimentos e dificuldades poderia tornar o filme mais completo. De qualquer forma, é uma bela produção. E muito necessária, já que pouco ainda se fala, e de forma tão franca e humana, dos transgêneros no cinema. Sem contar que este é um trabalho exemplar dos atores principais. Maravilhosos, os dois.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eddie Redmayne realmente é um ator diferenciado. Ele consegue dar vida para Lili de uma forma genuína e que convence – quantos atores que você acompanha conseguiriam fazer o mesmo? Quantos não pareceriam forçados? Sei que ele tem Leonardo DiCaprio no papel da vida dele para enfrentar no Oscar, mas não dá para ignorar o excelente trabalho de Redmayne neste filme. Se ele seguir inspirado como agora, não tenho dúvida que outros prêmios virão.

Muito importante para The Danish Girl que o filme tenha, além de um Redmayne inspirado, uma Alicia Vikander igualmente em ótima forma. A atriz interpreta com maestria Gerda, fazendo muitas pessoas se sensibilizarem pelo que ela está passando na história. Francamente, o papel dela é muito diferente do de Rooney Mara em Carol, quando a interpretação é muito mais contida e nos detalhes – como na troca de olhares. No caso de Vikander a interpretação é muito mais direta, franca e entregue porque a personagem dela pede isso. Mara, por outro lado, faz uma entrega perfeita também, mas de outra forma.

Complicado escolher entre as duas. Assim como é complicado escolher entre Redmayne e DiCaprio. Para mim, todos estão perfeitos. A diferença talvez seja na classificação de “interpretação da vida” dos atores. DiCaprio realmente faz o melhor papel da carreira. Não conheço muito da trajetória de Vikander para dizer o mesmo dela, mas me parece que ela ganhou outro status a partir deste filme. Então, se formos olhar por esta ótica, talvez Vikander tenha uma vantagem sobre Mara. Agora, é preciso ainda ver a Kate Winslet em Steve Jobs – falo mais do Oscar logo abaixo.

Eu gosto muito do que Redmayne faz, mas tenho que confessar algo: me irrita um pouco o cacoete dele de piscar os olhos como se o personagem de Lili/Einar tivesse uma certa timidez que algumas vezes deve ser administrada através daquela piscada. Não sei, isso me faz lembrar de outros papéis dele. Acho que ele poderia utilizar outros recursos para variar um pouco.

A direção de Tom Hooper me pareceu soberba. Ele acerta ao estar atento a cada detalhe da interpretação dos atores na mesma medida em que ele valoriza a beleza dos lugares – afinal, este filme, ao ter dois protagonistas que são pintores, exige um apreço pelo visual diferenciado. Neste sentido, contribui para o bom trabalho visto no filme o diretor de fotografia Danny Cohen. Belo trabalho o dos dois.

Falando nas qualidades técnicas do filme, é preciso ressaltar o bom trabalho de Alexandre Desplat na trilha sonora; a edição competente de Melanie Oliver; o design de produção requintado e certeiro de Eve Stewart; a direção de arte de Grant Armstrong e Tom Weaving; a decoração de set de Michael Standish; os figurinos perfeitos e muito bem pesquisados/criados por Paco Delgado; e o excelente trabalho de maquiagem dos 10 profissionais liderados por Caroline Case, Annette Field e Pari Khadem. Exemplar também o trabalho do departamento de arte que conta com 32 profissionais talentosos.

Este filme é capitaneado e tem na interpretação de Redmayne e Vikander uma de suas fortalezas. Mas é preciso enaltecer também o bom trabalho dos coadjuvantes. Destaque para Adrian Schiller como Rasmussen, que representa Einar e, rapidamente, entende o novo talento que aflora em Gerda a partir dos quadros inspirados em Lili; Amber Heard linda e com interpretação convincente como Ulla; Ben Whishaw ótimo como Henrik; Pip Torrens um tanto assustador como o Dr. Hexler, o primeiro a “tratar” Einar; Matthias Schoenaerts perfeito e maravilhoso como Hans Axgil, amigo de infância de Einar e grande parceiro de Gerda e Lili; e o grande Sebastian Koch muito bem como o médico Warnekros, o primeiro a entender os transexuais e fazer cirurgias de readequação genital.

Para quem ficou interessado pelo tema, assim como eu, recomendo a leitura de algumas perguntas e respostas sobre transgêneros e transexuais disponíveis aqui no site iGay.

The Danish Girl estreou em setembro de 2015 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participaria ainda de outros cinco festivais de cinema. Em sua trajetória, até agora, o filme recebeu 18 prêmios e foi indicado a outros 63, incluindo quatro indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para 10 premiações para Alicia Vikander como Melhor Atriz Coadjuvante, como “Performance Arrebatadora” de uma Atriz ou Atriz do Ano (prêmio que ela normalmente recebeu junto com a interpretação em outros filmes); e para um prêmio para Eddie Redmayne como Melhor Ator e outro para Tom Hooper como Melhor Diretor – além de um Queer Lion para ele no Festival de Cinema de Veneza.

Esta produção teria custado US$ 25 milhões e faturado, até ontem, dia 20 de janeiro, pouco mais de US$ 9,1 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 13 milhões. No total, quase US$ 22,2 milhões. Ou seja, ele está longe ainda de se pagar – levando em conta que qualquer estúdio gasta muito mais do que apenas os recursos para a produção do filme. É preciso adicionar ainda os gastos com distribuição e publicidade. The Danish Girl precisa melhorar o desempenho para conseguir pagar o investido.

The Danish Girl foi filmado em Copenhagem, na Dinamarca; em Bruxelas, na Bélgica; em Londres e Hertfordshire, no Reino Unido; em Vigra Island e em Mount Mannen, na Noruega; e em Berlim, na Alemanha. Diversos lugares, não? Sem dúvida uma boa parte do orçamento foi nestes deslocamentos da equipe e elenco.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. The Danish Girl é baseado no livro homônimo de David Ebershoff que, na verdade, recria de forma ficcional a vida de Einar Wegener/Lili Elbe. Ou seja, não se trata de uma biografia real. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Relatos históricos apontam que Gerda Wegener era lésbica e que preferia a feminilidade de Lili do que a masculinidade de Einar. Além disso, eles teriam um relacionamento aberto e, quando o casamento deles terminou, cada um foi para um lado. Ou seja, uma história beeeeem diferente do filme. E, cá entre nós, que faz mais sentido. É bacana pensar em um amor de entrega tão grande quanto o que vemos de Gerda no filme, mas me parece que a história real é mais plausível.

Uma fonte mais fidedigna do que aconteceu com Einar/Lili está no livro Man into Woman, assinado por Niels Hoyer. Esse nome, Niels Hoyer, na verdade é o pseudônimo para Ernst Ludwig Hathorn Jacobson, editor de Lili que reuniu as cartas e o que ela escreveu em seu diário para que este material fosse transformado no livro autobiográfico. Este sim deve ser interessante de ler.

A verdadeira origem de Gerda Wegener não é americana e sim dinamarquesa. Gerda Gottlieb Wegener Porta nasceu no dia 15 de março de 1886 e faleceu no dia 28 de julho de 1940. Ela foi “tranformada” por Ebershoff em americana para agradar aos leitores dos Estados Unidos. A história real aponta para que Gerda era lésbica e tinha um relacionamento aberto com Einar/Lili. Na verdade, o relacionamento delas tinha mais a ver com o de irmãs do que de amantes ou cônjuges. No livro/filme Gerda aparece como uma esposa fiel que nunca deixou Lili. Bem, a história real não foi bem essa. Mais uma razão para eu deixar a nota do filme aonde ela está.

No início, Nicole Kidman queria estrelar e produzir o filme, com ela interpretando Einar/Lili. Para o papel de Gerda foram escaladas e depois pularam fora do projeto Charlize Theron, Gwyneth Paltrow, Uma Thurman, Marion Cotillard e Rachel Weisz. Tenho certeza que um projeto envolvendo Kidman e qualquer uma destas atrizes teria sido interessante mas, francamente, eu acho que foi muito mais justo com a história e interessante termos um homem passando pela experiência de Einar/Lili. Me parece muito mais lógico.

Einar/Lili não foi a primeira pessoa a se submeter à cirurgia de redefinição de sexo, mas esteve entre as primeiras. Carla van Crist, Toni Ebel e Dorchen Ritcher tinham feito a cirurgia antes de Lili. Magnus Hirschfeld fundou em Berlim em 1919 o Instituto Sexual de Berlim, nos mesmos moldes do Instituto Kinsey. Os nazistas destruíram os arquivos do instituto em 1933, por isso não é possível saber exatamente quem foi a primeira pessoa a fazer a cirurgia de redefinição de sexo.

Os personagens de Hans Axgil e Henrik não existiram na vida real. Eles foram inventados pelo autor do romance (e, consequentemente, aparecem no filme). (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O namorado de Lili quando ela morreu era um negociar de arte chamado Claude Lejeune, com quem ela esperava casar e ter um filho. Gerda também não estava perto de Lili quando ela morreu e sim estava casada com um oficial italiano chamado Fernando Porta. Ela se casou com ele em 1931 e os dois foram morar juntos na Itália. Dez anos depois, no Marrocos, Gerda soube da morte de Lili. Fernando Porta acabou com as economias da artista que, em 1936, resolveu se divorciar dele. Ela não teve filhos e não se casou novamente. Voltando para a Dinamarca, Gerda começou a beber muito e morreu pobre em 1940.

O casamento de Einar e Gerda durou 26 anos, entre os anos 1904 e 1930. Ele tinha 22 anos e ela 18 quando se casaram. Lili tinha 47 anos quando fez a cirurgia para redefinir o seu sexo e morreu aos 48 anos graças à rejeição de órgãos após fazer um transplante de útero. Gerda tinha 44 anos durante os eventos retratados no filme e morreu aos 54 anos vítima de um ataque cardíaco.

The Danish Girl inspirou mais pesquisas sobre o período retratado, assim como uma exposição das obras de Gerda que retratam Lili que será feita em Copenhage.

Dois atores transgêneros fazem duas super pontas neste filme. A atriz Rebecca Root interpreta a uma das enfermeiras de Lili e Jake Graf, um homem transgênero, faz uma ponta ao lado de Matthias Schoenaerts na galeria de arte em que estão sendo expostas as obras de Gerda.

No dia 23 de novembro a Casa Branca promoveu o evento Champions of Change em que foram homenageadas as pessoas por trás de The Danish Girl, Tangerine e da série Transparent.

Os quadros mostrados no filme são uma adaptação da obra de Gerda feitas pelo designer de produção Eve Stewart e pela artista britânica Susannah Brough. Não foram utilizada réplicas do trabalho de Gerda porque eles quiseram fazer quadros que parecessem com Redmayne e com Amber Heard.

Muitos estranharam (como eu) que Alicia Vikander foi nomeada como Melhor Atriz Coadjuvante. Isso porque ela acaba aparecendo mais até que Eddie Redmayne no filme. Mas há uma razão para isso: os produtores de The Danish Girl quiseram que ela fosse indicada a Melhor Atriz Coadjuvante porque acharam que ela teria mais chances de ganhar o Oscar. A atriz acabou não comentando esta polêmica.

O nome pós-transição adotado por Einar foi o de Ilse Elvenes. Quem deu o nome de Lili Elbe para ele foi a jornalista de Copenhagen Louise Lassen. Esta é uma de várias imprecisões da história de Einar.

No livro e na primeira versão do roteiro deste filme a personagem de Amber Heard era uma cantora de ópera chamada Anna Fonsmark. Mas no final, para o filme, a personagem passou a ser a bailarina Ulla Paulson. O personagem é inspirado em duas amigas de Einar: a atriz dinamarquesa Anna Larssen Bjorner e a bailarina do mesmo país Ulla Poulsen Skou.

Outra fantasia que não tem a ver com a história real. Lili e Gerda se mudaram para Paris em 1912 – detalhe que o filme começa em 1926. Paris foi uma cidade bastante liberal nos anos 1910 e 1920 e, justamente por isso, as duas se mudaram para lá. Na capital francesa Gerda vivia abertamente como lésbica. Por isso mesmo a cena em que Einar é espancado por dois homens em Paris não teria acontecido realmente.

Um fato interessante que foi deixado fora do roteiro do filme – assim como o transplante de útero que matou Lili e que foi a quinta cirurgia dela: o terceiro médico que ela consultou a diagnosticou como intersexual e afirmou que ela teria órgãos sexuais femininos rudimentares. As análises hormonais feitas pouco antes da primeira cirurgia dela indicaram que ela tinha mais hormônios femininos que masculinos no corpo – o que sugere que ela tivesse o cromossomo XXY, da Síndrome de Klinefelter, algo que seria reconhecido pela Medicina apenas a partir de 1942.

Esta é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos, a Bélgica, a Dinamarca e a Alemanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção. Provavelmente uma das menores notas entre os filmes indicados ao Oscar 2016. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 118 críticas positivas e 47 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 72% e uma nota média de 6,6. Também uma das avaliações mais baixas entre os filmes bem cotados nesta sequência de premiações em Hollywood.

CONCLUSÃO: Uma grande, imensa história de amor, e um filme que fala sobre a coragem de alguém que resolve assumir a sua própria identidade, mesmo que ela afronte o que a sociedade considere natural. The Danish Girl é um filme corajoso e duro, mas importante. Ele questiona a nossa própria capacidade de entender o que é diferente. Não é exatamente fácil assisti-lo. Mas isso pouco importa. Com grandes atuações e uma direção sensível e cuidadosa, é um belo filme na aparência e na mensagem.  E as premiações que deram destaque para ele até agora, como o Oscar, estão de parabéns por colocar um título tão diferente em evidência. Importante.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: The Danish Girl está concorrendo em quatro categorias da premiação máxima da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: Melhor Ator (Eddie Redmayne), Melhor Atriz Coadjuvante (Alicia Vikander), Melhor Design de Produção e Melhor Figurino.

A melhor chance do filme, me parece, está na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. Alicia Vikander enfrenta Kate Winslet, que já foi premiada por Steve Jobs, e Rooney Mara, que está espetacular também em Carol (comentado aqui). Francamente, se eu votasse no Oscar, eu ficaria em dúvida entre Vikander e Mara. São interpretações com tonalidades muito diferentes, mas acha que as duas estão impecáveis. Não assisti ainda a Winslet. Preciso ver Steve Jobs para opinar definitivamente sobre esta categoria.

O ator Eddie Redmayne está ótimo, mais uma vez, nesta produção, mas ele tem um páreo duríssimo ao concorrer com Leonardo DiCaprio. O favorito é o protagonista de The Revenant (com crítica neste link). Redmayne só leva a estatueta para casa se a Academia demonstrar, mais uma vez, que tem bronca com DiCaprio.

Agora, as duas indicações técnicas do filme. Na categoria Melhor Figurino The Danish Girl tem uma parada dura. Para mim, o favorito nesta categoria é Mad Max: Fury Road (comentado aqui), seguido de Cinderella e de Carol. Como não assisti a Cinderella, pessoalmente o meu voto iria para Carol, mas acho que Mad Max: Fury Road pode faturar. The Danish Girl corre um pouco por fora.

A categoria Melhor Design de Produção também está bem concorrida. The Danish Girl e Bridge of Spies concorrem por fora, com a decisão nesta categoria tendo Mad Max: Fury Road, The Revenant e The Martian (com crítica aqui) como as produções que estão se digladiando pela estatueta. Pessoalmente, eu ficaria dividida entre Mad Max e The Martian. Ou seja, The Danish Girl tem sérias chances de não levar nenhuma estatueta para casa. As melhores chances, se for levar algo, estão nas categorias dos atores. Veremos.

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The Theory of Everything – A Teoria de Tudo

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Toda vez que um filme tenta contar a história de alguém que de fato existiu e faz isso de maneira extremamente correta, me incomodo. Isso porque ninguém tem uma vida assim. Não acredito em trajetórias floridas, edificantes, sem alguns descontroles aqui e ali – sejam eles da natureza que for. Por isso mesmo, admito, me decepcionei um pouco com The Theory of Everything, o filme baseado em parte da vida do físico mundialmente conhecido Stephen Hawking. Esta produção tem uma grande qualidade, mas vários outros defeitos.

A HISTÓRIA: Cenas um tanto borradas dentro de um palácio. Stephen Hawking (Eddie Redmayne) faz círculos sobre um lindo tapete em sua cadeira de rodas. A imagem faz lembrar um relógio no sentido anti-horário. O tempo volta, e o mesmo círculo vemos na roda de uma bicicleta em Cambridge, na Inglaterra, em 1963. Hawking está em uma bicicleta e o amigo Brian (Harry Lloyd) em outra. Os dois competem para ver quem chega mais rápido em uma festa. É lá que Hawking vê pela primeira vez Jane (Felicity Jones), com quem ele começa a namorar tempos depois. Esta é a história dos dois e de como Hawking surpreendeu o mundo por suas teorias e por seu exemplo de vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Theory of Everything): O nome deste filme é Eddie Redmayne. Ele dá um banho de interpretação em um papel difícil de ser vivenciado. Entra para a lista de grandes atores que já fizeram isso antes – lembro, assim, de pronto de Mathieu Amalric em Le Scaphandre et le Papillon, de Javier Bardem em Mar Adentro e de Marion Cotillard em De Rouille et d’Os, só para citar algumas interpretações marcantes.

Redmayne estudou certamente em detalhes as aparições de Hawking e tentou emular ao máximo o jeito do físico para repassar para o público da melhor forma possível a evolução dele desde a fase de estudante até a de personalidade inglesa recebida pela rainha da Inglaterra. Ele é o melhor do filme, não há dúvida. Outros pontos dignos de elogios são a direção de fotografia de Benoît Delhomme e a trilha sonora de Jóhann Jóhansson. A edição de Jinx Godfrey também é bastante correta, assim como os figurinos de Steven Noble.

Propositalmente eu quis destacar os pontos positivos antes de falar dos negativos. Até porque acho os segundos mais abundantes. Stephen Hawking é um homem extraordinário, que mudou para sempre a forma com que as pessoas veem a física e a ciência. Com a obra Uma Breve História do Tempo, ele tornou estes dois assuntos foco de um bestseller. Quem diria!

E qualquer pessoa que sabe disso, sabe também que ele escreveu a sua obra-prima em uma cadeira de rodas, praticamente imobilizado. Da minha parte, meu conhecimento dele ia um pouco além disso. Eu sabia também que ele é conhecido pelo bom humor e que havia feito algumas aparições na série The Big Bang Theory – uma de diversas que eu acompanho. Pronto, isso era tudo.

Por isso mesmo quando me mostraram o trailer de The Theory of Everything, fiquei fascinada pela premissa do filme. Segundo aquela pílula da história – que, vocês sabem, costumo evitar -, veríamos nesta produção como o amor foi fundamental para Hawking e, consequentemente, para a ciência. Fiquei interessada em conferir este trabalho não apenas por este viés romântico, mas também por conhecer um pouco mais sobre a doença que fez Hawking deixar de ter uma vida normal e também para saber as circunstância que cercaram o seu trabalho científico.

Imaginem que, por tudo isso, eu tinha um bocado de expectativas sobre esta produção. Daí que começo a assistir a The Theory of Everything, e o que me salta aos olhos é o excelente trabalho de Eddie Redmayne. Conforme a história vai se desenvolvendo, espero também que o roteiro de Anthony McCarten faça jus a Hawking. Ledo engano.

Sem dúvida o principal problema deste filme é o roteiro fraco de McCarten. Enquanto assistia à produção e descontando o trabalho de Redmayne, senti falta de um pouco mais de verossimilhança na história. Afinal, sempre me pergunto, se alguém se deu ao trabalho de fazer um filme inspirado em uma história real, o que custa ser o mais fiel possível à essa história? E não precisei de muito para desconfiar do que eu vi em The Theory of Everything.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A primeira estranheza é que, mesmo considerando que “os tempos eram outros”, parece um pouco forçada a forma com que Jane decide se casar com Stephen mesmo sabendo que ele possivelmente teria apenas dois anos de vida. Certo que ela estava apaixonada por ele, inclusive dizia que o amava, mas me pareceu que a história, pelo menos da forma com que McCarten escreveu, pulou alguns episódios e/ou capítulos. Acho que mais cenas dirigidas por James Marsh deveriam ter mostrado a relação dos dois antes dela tomar uma decisão tão contundente e definitiva.

Depois, é verdade, o prognóstico médico se mostra errôneo, e Hawking não morre após dois anos. Pelo contrário, ele vai piorando pouco a pouco e vive até hoje – no último dia 8 de janeiro, aliás, ele completou 73 anos de vida. Então é louvável a dedicação de Jane para com o marido, mas vai ficando cada vez mais claro que o amor não basta para eles seguirem juntos.

Ela parece ter dificuldade de entender o humor dele, muitas vezes – como na cena em que ele brinca com os filhos -, e certamente eles são filhos de mundos muito diferentes: ele, da ciência, ela, religiosa. Aliás, neste quesito, este filme me fez lembrar a Creation, uma produção bem acabada e que revela um pouco da vida íntima de Charles Darwin – você pode conferir a crítica aqui. Curiosamente, enquanto Darwin também era um homem da ciência, a mulher dele se revelava muito religiosa – e tinha, a exeplo de Jane, dificuldade de entender como o marido não acreditava em Deus. Os dois filmes, por coincidência, tem suas qualidades, mas diversas falhas também.

Mas voltando para The Theory of Everything… Segundo esta produção, é louvável a dedicação de Jane para com o marido. Incentivado por ele, ela acaba entrando no coral comandado por Jonathan Hellyer Jones (o competente Charlie Cox). Logo no início fica evidente uma certa tensão sexual entre os dois, e quando ele passa a frequentar a casa da família, aparentemente sob a anuência de Hawking, esse interesse entre Jane e Jonathan vai ficando mais evidente. Esse é o ponto crucial em que eu desconfiei da história.

Para mim, ficou difícil de acreditar que Hawking decidiu “dar bola” para a enfermeira Elaine Mason (Maxine Peake) como uma forma de terminar com o casamento com Jane para vê-la feliz partindo para uma nova vida com Jonathan. Sério mesmo que depois de Jane trair o marido na noite em que ele foi parar no hospital com pneumonia e os médicos sugerirem que o melhor poderia ser deixar ele morrer que ela iria lutar pela vida de Hawking e imediatamente se distanciar de Jones?

Sim, esse é o conto típico de Hollywood. Ou do cinemão comercial que quer nos contar uma história perfeita, como a dos contos de fada, em que os maus sempre são punidos e nos quais as princesas sempre ficam com os príncipes. A vida real é muito mais complexa que isso. Desta forma, desconfiei do conto de The Theory of Everything. Segundo ele, Jane foi fiel sempre, só pulou a cerca porque foi incentivada por Hawking e, ele sim, tinha uma natureza um tanto “safada” não apenas por não acreditar em Deus, mas porque vivia de risinhos com a enfermeira e porque gostava de revistas de sacanagem.

Oras, meus caros, é preciso ser muito inocente para acreditar nesta fórmula perfeita e de conto de fadas. Desconfiei, não gostei da quase santificação de Jane e nem da história “toda bela” de Hawking. Sempre há algo pode, em algum momento, no reino da Dinamarca. Pois bem, só depois de ver ao filme, que eu resolvi tirar algumas dúvidas a respeito. Foi aí que percebi que The Theory of Everything é baseado no livro Travelling to Infinity: My Life with Stephen escrito por Jane Hawking. Ah sim, daí tudo faz mais sentido.

Se este filme foi baseado no ponto de vista de Jane Hawking, claro que ela deveria parecer uma santa na história, não é mesmo? Evidente. Eu tinha uma vaga lembrança de que o próprio Stephen Hawking havia escrito um livro autobiográfico, e eu fui atrás. Encontrei a obra Minha Breve História (ou My Brief History, do original), lançada em 2013. E lá, meus caros, está o outro lado da moeda.

Hawking dedica um capítulo para os casamentos – porque além de ficar casado grande parte da vida com Jane, ele também se casou com uma de suas enfermeiras, Elaine Mason, no período de 1995 até 2007, quando eles se divorciaram. Desde então, Hawking conta no livro, ele mora sozinho com uma governanta. Pois bem, lá pelas tnatas, ele fala sobre o relacionamento de Jane com Jonathan, e fica sugerido de forma bem clara que os dois tiveram um caso por bastante tempo, com o amante da esposa morando inclusive na casa de Hawking, o que o teria deixado desconfortável lá pelas tantas. Uma versão bem diferente daquela da “santa Jane” que vemos no filme.

Além disso, senti falta de conhecer um Hawking mais brincalhão e menos “abobado”. Sempre soube da ironia refinada dele, mas isso fica bastante à margem da produção. Há falhas graves na história, assim como uma escolha bastante evidente por fazer o “feijão com arroz”, entregar uma história bem filmada, bonitinha, mas sem grandes altos e baixos como a vida de verdade se apresenta. Faltou realidade para um filme que pretende ser autobiográfico. E isso não é nada bom.

ADENDO: Senti, após escrever a crítica do filme e correr para publicá-la ainda no domingo, que faltou falar algo essencial: a história de Stephen Hawking é fantástica. Digna de tirarmos os nossos chapéus e que serve, de fato, como inspiração para muita gente. Em algo The Theory of Everything acerta: em mostrar como esse homem sempre amou a vida e quis/quer vivê-la o máximo possível. Ele, parece, enxerga potencial em todas as pessoas e nos ensina que as nossas dificuldades são fichinhas, na quase totalidade das vezes.

Apesar de vivenciar tantas dificuldades e limitações, ele nunca se sentiu limitado, e sempre guardo um bom sorriso e um olhar generoso. Tudo isso é fantástico e inspirador. O filme mostra um pouco isso, mas senti falta de ser mais legítimo com a história deste gênio. Este desperdício de potencial para fazer um filme verdadeiramente capaz de vencer gerações e continuar sendo importante, como é o caso do homem que inspirou esta produção, é o que acho mais lamentável. Mas a história de Hawking, em si, é digna de aplausos. Só queria acrescentar isso para não ser mal interpretada – não julguei mal o trabalho ou o exemplo de Hawking, mas o filme fraco que fizeram a respeito dele.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: As qualidades técnicas desta produção eu já destaquei acima. Talvez vale acrescentar ainda o bom trabalho de John Paul Kelly no design de produção; e de Claire Nia Richards na decoração de set. Por outro lado, me incomodou um pouco o trabalho dos nove profissionais da equipe de maquiagem. Senti falta dos personagens, especialmente os protagonistas, envelhecerem mais durante o filme – afinal, muitos anos se passaram entre os primeiros e os últimos fatos, incluindo o miolo da história. Faltou vermos isso visualmente no rosto dos atores.

Dos atores em papéis secundários, sem dúvida alguma Harry Lloyd é o que tem o maior destaque como Brian, grande amigo de Stephen Hawking segundo o filme. Também vale destacar o trabalho de Simon McBurney como Frank Hawking, pai de Stephen; Lucy Chappell em micro-pontas como Mary Hawking, mãe do físico; Adam Godley em uma aparição como o médico que dá o diagnóstico catastrófico, lembrando outra aparições no melhor estilo da finada série Lost; e o sempre ótimo David Thewlis como Dennis Sciama, professor e mentor de Stephen Hawking.

Além dos atores já citados, vale comentar as pontas de Tom Prior como Robert Hawking quando o filho do físico tinha 17 anos; de Sophie Perry quando Lucy Hawking tinha 14 anos; e de Finlay Wright-Stephens quando Timothy Hawking tinha oito anos. Eles aparecem brincando no parque quando Hawking recebe as honras da realeza britânica – e quando ele fala uma das frases mais legais da produção, referindo-se ao maior feitos dos dois, que foi ter gerado e criado aqueles três filhos. Este é um dos momentos importantes da produção, assim como o discurso final de Hawking em que ele ressalta que todo o ser tem um propósito e a sua beleza. Esse ponto, assim como o trabalho de Eddie Redmayne, valem a experiência.

The Theory of Everything estreou em setembro no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria ainda de outros cinco festivais. Nesta trajetória, a produção recebeu 12 prêmios e foi indicada a outros 62, incluindo quatro Globos de Ouro. Até o momento – a premiação do Globo de Ouro ainda não chegou na parte boa – o filme recebeu apenas prêmios de menor relevância. Mas ele está indicado aos Globos de Ouro de Melhor Filme – Drama, Melhor Ator – Drama para Eddie Redmayne, Melhor Atriz – Drama para Felicity Jones e Melhor Trilha Sonora. Acredito que apenas Redmayne tem já uma mão na estatueta… veremos se isso se confirma.

De acordo com o site Box Office Mojo, esta produção teria custado cerca de US$ 15 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 25,9 milhões até hoje, dia 11 de janeiro. No restante dos países em que o filme já estreou ele conseguiu outros US$ 20,3 milhões. Ou seja, está conseguindo se pagar.

Este filme foi totalmente rodado no Reino Unido, incluindo Cambridge – outro erro histórico, já que Hawking morou um tempo importante nos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco menos eufóricos, dedicando 157 críticas positivas e 42 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 79% e uma nota média de 7,3 – ainda assim, um bom patamar se levarmos em conta a exigência dos críticos dos site.

Estou correndo para escrever a crítica deste filme e publicá-la antes do final de domingo. Mas prometo que em breve vou acrescentar mais algumas informações por aqui, como curiosidades da produção e o resultado do Globo de Ouro nas categorias em que esta produção está concorrendo.

Esta é uma produção 100% do Reino Unido.

CONCLUSÃO: Algumas histórias verdadeiras são impressionantes. Poucas tanto quanto a de Stephen Hawking. Por isso mesmo, é um tanto frustrante encontrar um filme que não apenas perde a oportunidade de ser legítimo com a história real mas, principalmente, nem consegue ser melhor que os fatos nos quais deveria se basear. The Theory of Everything é uma produção muito “politicamente correta”. Ela tem um grande ator liderando o trabalho e fazendo a experiência valer a pena, mas é só. O roteiro é fraco e a condução do filme um tanto preguiçosa. Faltou tempero por aqui, algo que Hawking sempre conseguiu colocar em seus escritos e participações na cultura pop das últimas décadas. Perderam a oportunidade de fazer um filme melhor sobre ele.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: The Theory of Everything, como eu disse acima, recebeu quatro indicações ao Globo de Ouro. O prêmio será entregue neste domingo, nos Estados Unidos. Mas independente se o filme vai receber ou não algum Globo de Ouro, o que nos interessa aqui é o Oscar. As indicações do filme ao prêmio máximo da Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood, contudo, pode nos dar uma prévia do que virá aí no próximo dia 15, quando serão conhecidos os indicados ao Oscar.

Para mim, é inevitável a indicação de Eddie Redmayne como Melhor Ator no Oscar 2015. Ele é o que há de melhor nesta produção e, de fato, faz um trabalho memorável, para ser guardado entre os grandes de todos os tempos. Ele será o nome a ser batido este ano – tenho sérias dúvidas se alguém conseguirá fazer isso. Além dele, outras indicações são incertas.

Não me surpreenderia que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood colocasse The Theory of Everything entre os 10 indicados a Melhor Filme do ano. Não acho que o filme mereça, mas sem dúvida é uma forma interessante de reconhecer a figura de Stephen Hawking e, de quebra, agradar aos milhões de fãs dele – incluindo aqueles que seguem a série The Big Bang Theory onde, volta e meia, ele é citado ou faz uma participação. Não seria também surpreendente o filme ser indicado em categorias como Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora.

Para o meu gosto, o único prêmio que esta produção pode merecer é o de Melhor Ator. O restante, seria forçar a barra. Especialmente porque há outros filmes muito melhor acabados e com um desenvolvimento muito mais interessante que este para serem premiados este ano.

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Les Misérables – Os Miseráveis

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Me perdoem, mas vou começar este texto dizendo algo óbvio. Os clássicos são chamados clássicos por uma boa razão. E esta boa razão se chama qualidade extrema. Na escola, eu lembro, crianças e jovens têm preguiça de ler os clássicos. Muitas vezes, de fato, porque eles são difíceis. Por isso mesmo, é sempre um prazer quando alguém como o diretor Tom Hooper resolve resgatar um clássico e jogá-lo nos cinemas, utilizando uma linguagem muito mais acessível. Les Misérables é uma produção intocável. E que me surpreendeu. Admito que, no início, eu estava com um pouco de “preguiça” de assistir a um musical adaptado da obra de Victor Hugo. Achei que poderia ficar pedante demais. Mas que fantástico presente! Quebre qualquer preconceito que você puder ter com musicais. Vai valer a pena.

A HISTÓRIA: Uma bandeira tremula na água. O ano é 1815, exatamente 26 anos após o início da Revolução Francesa. Novamente a França tem um rei ocupando o seu trono. Um navio de guerra retorna para o porto e é puxado por dezenas de homens com grossas cordas. Eles são prisioneiros. Entre eles, Jean Valjean (Hugh Jackman). O grupo canta a sua pobreza, com ódio na voz, e são observados pelo policial Javert (Russell Crowe). Depois de ajudar a puxar o navio, Valjean é convocado por Javert a pegar o mastro com a bandeira francesa. E recebe a notícia que está saindo em condicional. Mas que terá que carregar uma carta que lhe apresenta como um homem perigoso. Uma condenação para o resto da vida. Livre, contudo, Valjean recebe uma única oportunidade de recomeçar a vida, e acaba escolhendo este caminho, que significa ignorar o próprio nome, para tentar trilhar um caminho distinto do que aquela carta de condicional lhe determinava.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Les Miseràbles): Para gostar deste filme, em primeiro lugar, é preciso aceitar algo que nem sempre as pessoas parecem estar dispostas a aceitar: de que todos nós somos falhos. É estranho ouvir Russell Crowe em um musical? Certamente. Ele parece sofrer para cantar? Um pouco. Mas nem esta primeira constatação, logo no início do filme, e nem a mesma constatação feita com outros atores que, diferente de Hugh Jackman e Anne Hathaway são menos afeitos a cantar, diminuem a força dramática desta história e as suas várias qualidades.

Logo que terminei de assistir a Les Misérables, eu sabia que deveria dar uma nota muito alta para ele. Talvez, até, a máxima. De verdade, fiquei emocionada com a entrega da equipe envolvida e, evidentemente, com o respeito deles com a obra máxima de Victor Hugo. E que obra! Há muito tempo eu não chegava perto deste clássico e de toda a sua profundidade. E esta leitura, com levada muito popular, rejuvenesceu a tão examinada história de Jean Valjean.

Sou da opinião, e a cada dia mais, que as pessoas devem abandonar os preciosismos. Deixar para lá um pouco da “erudição” e do apego ao original, como se ele fosse imutável – quando toda obra carrega, em sua própria essência, a capacidade de ser mutável -, para “abrir a mente” para as releituras. Claro que não defendo as adaptações que violentam o original. Mas este não é o caso deste Les Misérables. A essência do original está toda aqui. Mas vestida de uma roupagem para este século 21 que se parece, em muito, com a parte final do século anterior.

Sendo assim, e voltando um parágrafo, comento que eu sabia, logo depois de terminar de ver a este filme, que lhe daria uma nota muito boa. Primeiro, porque Les Misérables tem um cuidado com os aspectos técnicos irretocável. É um filme que investe nos detalhes, desde o trabalho do ator, os figurinos, direção de fotografia, até os efeitos visuais e especiais. Depois, porque o roteiro respeita a essência do original. E finalmente, porque ele inova ao investir na dramaticidade da música para supervalorizar o lado afetivo do original sem torná-lo piegas.

Ainda que eu tivesse uma nota em mente, resolvi dar uma olhada nas avaliações dos usuários dos sites IMDb e Rotten Tomatoes. Como vocês, meus caros leitores, sabem que eu sempre faço. E como em qualquer outra crítica, não tive a minha nota modificada por estas análises. Mas admito que fiquei surpresa ao ver que, desta vez, mais que em outras, minhas impressões não acompanhavam a da maioria.

Observei muitas críticas pesadas para este filme. E daí notei o seguinte: Les Misérables é, provavelmente, a produção mais “ame ou odeie” que está concorrendo ao Oscar deste ano. Basta olhar as críticas espalhadas por aí. Muita gente não gostou desta produção porque um ou outro ator não sabe cantar. Ou porque eles não cantam tão bem assim. Ah, convenhamos. De fato isto é o mais importante?

Sim, como eu disse antes, Russell Crowe não parece totalmente à vontade cantando. Por isso mesmo, desde a primeira vez que ele aparece em cena, ele parece “comedido”. Melhor para ele. Se você não tem potência vocal e/ou não se sente tão confiante cantando, se comparado com outros colegas, melhor fazer a sua parte dentro de certas limitações.

Da minha parte, como alguém sem preconceitos, acho que vale se lançar para assistir a um filme sem a postura primária de que musicais são chatos, de que alguém vai cantar mal, e de que clássicos estão vencidos. Até porque sempre busco o mais importante de um filme: ele convence? Ele me emocionou? Ele pareceu legítimo em sua proposta?

Pois eu acho que Les Misérables consegue, sim, emocionar. Ele convence com a história de Jean Valjean e de uma França que se decepcionou com a Revolução Francesa. Esta produção, além disto, também parece legítima em sua proposta de revisitar um clássico e vestí-lo com nova roupagem. Para o meu gosto, tudo funcionou bem nesta produção. Com uma pequena ressalva: o estereótipo irritante do casal Thénardier, interpretado pela dupla Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter.

Certo, é evidente que os Thénardier são os personagens com maior levada estereotipada de Les Misérables. Que eles são mesmo caricatos, e tudo o mais. Na primeira aparição de Cohen e Carter, não me irritei com a caricatura deles. Mas depois… Tom Hooper teria nos poupado de uma certa e restrita chatice da história se tivesse diminuído a participação dos dois atores na trama. Para mim, Cohen não consegue deixar para traz Borat, e Carter lembra sempre uma personagem qualquer de Tim Burton. Eles são a parte frágil do filme, e me impedem de dar a nota máxima para esta produção.

Porque, para o meu gosto, Les Misérables funciona muito bem, exceto pelos excessos de Cohen e Carter. Além das qualidades já comentadas, achei impressionante a entrega dos atores. Eles emocionam, assim como a história. E agora, voltemos ao início desta crítica. Les Misérables trata de algo fundamental: a compreensão de que todos nós somos falhos. O grande embate entre Valjean e Javert está de que o segundo se acha totalmente cheio de moral. Em certo momento, ele fala que veio da mesma origem de Valjean… não completa a sua linha de pensamento, mas fica evidente que ele se acha superior.

Afinal, apesar de vir da mesma origem ordinária e carente, Javert seguiu “o caminho da lei”, venceu os desafios da vida e trilhou “o caminho certo”, enquanto Valjean roubou alguns pães para dar para a irmã e o filho dela que estavam com fome. Este pensamento de Javert é o mesmo de 99% das pessoas, talvez. Essa massa de gente que, muitas vezes, quando há uma matéria de polícia, argumenta que “bandido bom é bandido morto”, e que esta história de direitos humanos é uma grande bobagem, já que os “bandidos” não tem esta mesma postura ao fazer as suas vítimas.

Quanta dureza de princípios, não? Eis, para mim, o último grau de desumanização. Para estas pessoas que defendem a pena capital, não importa o ser humano e suas histórias. O importante são os números. X bandidos mortos é o que interessa. Quantos mais, melhor. Mas será mesmo que cada um de nós estamos isentos de dúvida? Quanto tempo você já gastou para refletir como seria a sua vida se você não tivesse nascido no local em que você nasceu? No berço da família da qual vieste? E se você tivesse nascido em outra parte, com uma família muito diferente?

Não quero relativizar tudo e dizer que todos os “bandidos” tem as suas justificativas e que são todos “tadinhos”. Mas peço calma em qualquer andor. Les Misérables é uma história tão incrível porque nos fala sobre estas coisas… de como a sociedade pode excluir as pessoas, tirarem as suas oportunidades de desenvolverem os seus próprios potenciais. De como o coletivo pode estigmatizar e interromper vidas que poderiam ser produtivas e maravilhosas.

Vide Valjean. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De fato, e muitos devem ter tido uma reação impressionante quando, na primeira oportunidade, ele sai roubando ao Bispo (Colm Wilkinson) que lhe ajudou, ele erra feio ao seguir bandido logo que tem a chance de escolher que caminho seguir. Mas daí, e eu também fiquei indignada a princípio, vem a história para nos dar o primeiro tapa na cara.

Quanto do que fazemos e do que tantas pessoas fazem é por automatismo? Valjean, até aquele momento, estava acostumado a que? Depois de 19 anos preso, penando como um diabo, ele sai da detenção e é tratado como um cachorro. Em seu íntimo, tudo que ele tinha era raiva e revolta. De forma automática, ele segue sendo um marginal – à margem da sociedade. Até que, para surpresa geral – especialmente dele -, ele recebe um segundo gesto seguido de ajuda. É perdoado e incentivado a recomeçar a vida. E este gesto solene de generosidade chega fundo ao coração endurecido de Valjean.

Quantos de nós não sentimos o coração sendo endurecido com o passar do tempo, depois de ter recebido tantos golpes? Um certo Renato Russo, certo, dia, cantou: “… não vou me deixar embrutecer/ eu acredito nos meus ideais/ Podem até maltratar o meu coração/ que o meu espírito ninguém vai conseguir quebrar”. Certo, mas quantas pessoas se mantém fortes apesar dos golpes? Conseguem manter a suavidade, apesar de tantos golpes para que se tornem brutas?

Valjean aprende com o gesto do Bispo e muda a sua vida para sempre. Ganha uma oportunidade de recomeçar que 99% dos presos libertos do nosso país não recebem. Com apenas um candelabro de prata – perto da morte percebemos que ele ainda preserva o outro -, ele multiplica os recursos, vira um homem de negócios, dá oportunidade de emprega para muitas pessoas e se torna um homem respeitado pela sociedade.

Até que Javert volta a lhe assombrar. E ele estará perseguindo o personagem até o final. Porque os dois são a mesma pessoa, apesar da sociedade vê-los de forma tão diferente. E eis uma das forças deste clássico de Victor Hugo. Nos mostrar que papéis contrários da mesma sociedade podem ser, mais que nada, duas faces da mesma moeda. Javert não suporta “ficar devendo” nada para o homem que ele abomina porque, no fim das contas, é incapaz de perceber que eles são tão parecidos. Por ter sido um homem “da lei” a vida toda, Javert não era melhor que Valjean. Pelo contrário. Já que Valjean foi capaz de se arriscar mais de uma vez pela vida de outra pessoa. Foi capaz de amar e de se doar sem esperar nada em troca. Enquanto Javert apenas “cumpria o seu dever”. E quem tem mais mérito: aquele que faz algo por obrigação, porque assim lhe cobra o “dever”, ou aquele que se doa por livre e expontânea vontade?

Um filme que trata de todas estas coisas já é algo fora do comum. E por isso mesmo, merece ser visto. Porque faz pensar, porque emociona. Mas além disso, Les Misérables trata sobre o espírito da mudança. Aborda a força inspirada de uma França que nunca desistiu de lutar por liberdade, igualdade e fraternidade. Mesmo que estes ideiais não tenham sido vitoriosos após a Revolução Francesa, eles perduram. No tempo. Passam gerações, vencem fronteiras. Seguem inspirando.

Mas nem por isso, deixa de valer a crítica de que os anos seguintes à Revolução não trouxeram melhora para o povo. Que seguiu cada vez mais miserável. E que um certo levante não chegou a ser popular, mas apenas serviu de tema para registros históricos de uma covardia que aconteceu e se repete em diferentes sociedades até hoje. Mesmo que transfigurada com outras roupagens.

Enquanto Les Misérables trata destes e de outros temas tão magnifícos e raros, há quem se apegue apenas a uma falta de musicalidade de um ou outro ator. Que pena. Mas a história está lá. Nos mostrando como uma pessoa nunca é apenas um determinado personagem. Um ladrão não precisa ser, sempre, um ladrão. Um homem da lei, idem. Cada pessoa é responsável por suas próprias escolhas, e elas nos determinam. O mágico da vida é que esta reinvenção é constante. Só não muda quem não quer – ou acha que não precisa.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Les Misérables teve a sua premiere no dia 5 de dezembro, em Londres. Depois desta data, pouco a pouco, ele foi sendo lançado nos mercados de diferentes países. Até o momento, a produção está confirmada para participar de apenas um festival, o de Belgrado, no dia 23 de fevereiro.

Como comentei antes, este filme é todo bem acabado. Além do ótimo trabalho dos atores – um melhores que outros -, vale destacar alguns aspectos técnicos da produção. Começando pela ótima direção de Tom Hooper. O diretor inglês consegue, ao mesmo tempo, explorar belos cenários da França do século 19, os detalhes dramáticos das interpretações de seus principais atores, e a convulsão social/divisão de classes tão explorada pela obra de Victor Hugo. Hooper se utiliza de um jogo de câmeras importante, dando ritmo visual para a produção, em sintonia com a música. Tudo deve fluir nesta produção, e ele consegue fazer com que isso aconteça na prática.

Para ajudar Hooper neste processo, é fundamental o trabalho do diretor de fotografia Danny Cohen. Ele faz um trabalho impecável, tanto nas cenas abertas, com muitos figurantes ou com ajuda de efeitos especiais, quanto e, principalmente, nos planos mais dramáticos com os atores principais em interpretações solitárias. Muito bom o trabalho da dupla de editores Chris Dickens e Melanie Oliver. Eles são peças-chave para que o diretor consiga dar o ritmo adequado para as cenas.

E depois, vem a turma responsável pela linguagem visual desta produção. Merecem ser elogiados os trabalhos da designer de produção Eve Stewart; a direção de arte da equipe Hannah Moseley, Grant Armstrong, Gary Jopling e Su Whitaker; os figurinos de Paco Delgado, bárbaros; a decoração de set de uma equipe de nove profissionais; o departamento de arte, que faz um trabalho impressionante; os efeitos especiais da equipe de James Davis III; os efeitos visuais da equipe de Sandra Chocholska, Edson Williams e Thomas Nittmann; e a ótima maquiagem da equipe comandada por Audrey Doyle, Nikita Rae e Malwina Suwinska.

Como qualquer musical exige, a trilha sonora e todos os demais aspectos sonoros desta produção são impecáveis. Claro, alguns atores como Russell Crowe, Eddie Redmayne e até Amanda Seyfried não se saem tão bem cantando quanto outros nomes da produção, mas isso não impede que o filme funcione bem na parte musical. Vale, portanto, elogiar o departamento de som desta produção, assim como o departamento musical comandado por Claude-Michel Schönberg, com direção musical de Stephen Brooker.

Les Misérables tem roteiro de William Nicholson, Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg, já que é uma adaptação do musical homônomo baseado na obra original de Victor Hugo. Segundo os próprios produtores deste filme, ele segue o musical que já foi assistido por mais de 60 milhões de pessoas em teatros de 42 países e adaptado para 21 idiomas. Há 27 anos o musical está em cartaz perigrinando por diferentes nações. Segundo os produtores, Les Misérables é o musical há mais tempo em cartaz no mundo.

Tiro o meu chapéu para Hugh Jackman. Ele faz, em Les Misérables, um de seus grandes papéis até hoje. Grande interpretação, digna de prêmios. Os demais atores são coadjuvantes. Ainda assim, impressiona a interpretação de Anne Hathaway, que rouba a cena como Fantine. Amanda Seyfried está bem como Cosette, assim como Isabelle Allen, que interpreta a personagem quando criança. Pena que Seyfried, por mais carismática que ela seja, não consiga se destacar tanto quanto Hathaway e nem cantar como ela. O mesmo se pode dizer de Eddie Redmayne, que perde na comparação com Jackman tanto na interpretação quanto ao cantar.

Dos atores secundários, vale destacar o trabalho de Samantha Barks como Éponine, a jovem apaixonada por Marius e que, mesmo assim, tem uma postura correta e não canalha com Cosette; o jovem Daniel Huttlestone como Gavroche, o menino emblemático da história; e Aaron Tveit como Enjolras, o líder dos revolucionários.

Les Misérables teria custado cerca de US$ 61 milhões. Até o momento, o filme faturou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 137,5 milhões. Nada mal para um musical – ainda mais baseado em um clássico.

Esta produção foi totalmente rodada no Inglaterra, em cidades como Winchester, Kettering, Kent e Londres.

Uma curiosidade sobre esta produção: Paul Bettany havia sido considerado para o papel de Javert antes de Russell Crowe. Talvez ele tivesse se saído melhor. Para o papel de Fantine, foram consideradas as atrizes Amy Adams, Jessica Biel, Marion Cotillard, Katie Winslet e Rebecca Hall. Geoffrey Rush, que interpretou a Javert na versão de Les Misérables para o teatro, foi considerado para o papel de Monsier Thenardier.

Inicialmente, Les Misérables teria quatro horas de duração. Ainda bem que fizeram uma versão bem mais curta.

Até o momento, Les Misérables recebeu 31 prêmios e foi indicado para outros 79, além de ter recebido oito indicações para o Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para dois como o Filme do Ano no AFI Awards; para os Globos de Ouro de Melhor Filme – Musical ou Comédia, Melhor Ator – Musical ou Comédia para Hugh Jackman, e Melhor Música para Suddenly; Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway no Screen Actors Guild; além de figurar no Top Films da National Board of Review.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para Les Misérables. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 150 textos positivos e 65 negativos para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 70% e uma nota média 7. A pior nota entre os filmes indicados na categoria principal do Oscar deste ano.

CONCLUSÃO: Uma história emocionante, adaptada de um clássico. E que da forma com que foi adaptada, faz refletir sobre vários valores e posturas que seguem válidas e, me arrisco a dizer, seguirão válidas enquanto existir a humanidade. Les Misérables provavelmente não vai agradar a todos. Primeiro, porque não é qualquer um que tem paciência para os musicais. Assim como nem todos tem paciência com os clássicos. Junte ambos, musical e clássico, e terás muitos insatisfeitos. Mas com a ousadia de adaptar o texto de Victor Hugo para o formato musical, o drama dos personagens deste clássico são colocados em negrito e sublinhado. Les Misérables nos fala, com estes tons dramáticos ressaltados pela música, da fantástica capacidade humana da reinvenção. E de como o amor pode ter um papel fundamental neste processo. Com uma produção impecável, um trabalho apaixonado do diretor e de seus comandados, Les Misérables é um dos belos filmes desta safra. Desde que você ignore seus pequenos pecados.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Les Misérables recebeu o mesmo número de indicadores que o recentemente comentado por aqui, Silver Linings Playbook. Mas diferente do filme de David O. Russell, de fato eu acho que a produção de Tom Hooper mereceu cada uma de suas indicações.

Curioso que Les Misérables concorre, basicamente, em categorias técnicas, mas foi ignorado em Melhor Roteiro Adaptado. Não que uma produção que, como ele, concorre como Melhor Filme do ano precise estar, obrigatoriamente, indicada como roteiro. Mas é estranho ele não estar ali. Assim como Hooper ter ficado de fora da lista de Melhor Diretor.

Então o que sobrou para Les Misérables? O filme está concorrendo nas categorias Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Canção Original para Suddenly, Melhor Design de Produção, Melhor Mixagem de Som e, finalmente, Melhor Filme, Melhor Ator para Hugh Jackman e Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway.

Mesmo não tendo assistido a todos os filmes que estão concorrendo com Les Misérables, não seria uma surpresa ver ele ganhando em algumas destas categorias. Principalmente nas de Melhor Canção Original, Melhor Design de Produção, Melhor Figurino, Melhor Mixagem de Som e, quem sabe, até como Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway. De fato, ela merece. Se o filme ganhar nestas categorias – Melhor Ator parece ser uma barbada para Daniel Day-Lewis -, ele terá conseguido quatro ou cinco Oscar’s. E deve estar satisfeito com isso.

Francamente, apesar de saber que Day-Lewis é o favorito e que, de fato, ele ganhando não será uma injustiça, mas eu prefiro a Hugh Jackman. Acho que ele, como Anne Hathaway, tiveram uma entrega muito maior para os seus papéis.

Independente das expectativas, claro que acidentes de percurso sempre acontecem. E Les Misérables pode sair de mãos vazias. Pode ocorrer. Mas acredito que não. Até porque seria uma boa injustiça.

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My Week with Marilyn – Sete Dias com Marilyn

Você que, como eu, tem uma paixão contagiante pelo cinema, já se imaginou acompanhando os bastidores de filmagem de uma produção com alguns dos grandes astros de sua época? Agora, imagine ter feito isso na era das grandes estrelas, ter visto e convivido de perto com Marilyn Monroe, por exemplo. My Week with Marilyn torna este sonho realidade. Nos aproxima de uma das maiores estrelas de Hollywood de todos os tempos. Conhecemos um pouco da intimidade da diva, sua fragilidade, talento e carisma. E é de cair o queixo a interpretação de Michelle Williams para o papel. Perfeita, para dizer o mínimo.

A HISTÓRIA: O filme começa nos contando que, em 1956, no auge de sua carreira, Marilyn Monroe (Michelle Williams) viajou para a Inglaterra para fazer um filme com Sir Laurence Olivier (Kenneth Branagh). Chegando lá, ela conheceu um jovem chamado Colin Clark (Eddie Redmayne), que escreveu um diário sobre os bastidores das filmagens. E o filme é a história real sobre o que aconteceu. No breu, ela aparece do lado direito da tela. Quando o holofote acende sobre ela, a diva se vira. E dá um show. Começa aí a história da experiência de Marilyn Monroe na Inglaterra, contada por Clark. Através daquele jovem fascinado pelo cinema, acompanhamos os bastidores da filmagem de The Prince and the Showgirl, e nos aproximamos de alguns dos grandes astros daquela época. Com destaque, é claro, para a complexidade da personalidade de Marilyn e das pessoas que a cercavam.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a My Week with Marilyn): Impressionante. Ficamos fascinados com Michelle Williams como Marilyn Monroe. Da mesma forma com que o personagem de Colin Clark, embasbacado com aquela sequência inicial do filme que está sendo exibida em uma sala de cinema repleta de homens igualmente babões. Ela faz um trabalho impecável e marcante. Algumas vezes, a ponto do espectador ser até capaz de esquecer da Marilyn original, e acreditar que esta assistindo à diva na telona outra vez.

Até assistir a esse filme, eu não sabia que se tratava de uma história real, baseada nos escritos de um admirador que teve a oportunidade de conviver com Marilyn por um período. Interessante a forma com que esta história real foi contada. Bom trabalho do roteirista Adrian Hodges, baseado nos livros My Week with Marilyn e The Prince, the Showgirl and Me, escritos por Clark. Ele acerta em começar com Marilyn na telona do cinema e, a partir daí, abraçar a ótica do narrador desta história. A empatia é criada rapidamente, e isso é fundamental para o espectador continuar interessado no filme.

Além disso, claro, o diretor Simon Curtis acerta ao apostar no trabalho de seus atores. Ele evidencia não apenas Michelle Williams e Kenneth Branagh, mas o “narrador” Eddie Redmayne e todos os demais intérpretes selecionados à dedo para esta produção. E o elenco, aliás, é exemplar. Julia Ormond interpreta à diva Vivien Leigh, mulher de Laurence Olivier; Emma Watson interpreta à Lucy, que trabalha nos estúdios e atrai o protagonista; Dougray Scott interpreta a Arthur Miller, marido de Marilyn; Dominic Cooper a Milton Greene, fotógrafo e amigo pessoal de Marilyn; Judi Dench, fantástica, interpreta a Sybill Thorndike; e Zoë Wanamaker à Paula Strasberg, que não desgruda de Marilyn. Todos estes tem relevância para a história e aparecem muito bem em cena.

Eis um filme de atores. Com grandes interpretações. Como não poderia deixar de ser. Até porque esta é uma produção que conta sobre os bastidores de um filme. Então os acertos, erros, exageros, o talento e, porque não, o ego dos atores está em evidência. Interessante como My Week with Marilyn mostra astros como Monroe e Laurence Olivier de perto, com todas as suas fraquezas e talento.

Diferente de outras produções sobre bastidores do cinema, que tentam “preservar” os astros, esta tem o compromisso com a verdade, porque foi baseada nos livros de Clark. Apesar dele ter se tornado diretor de documentários mais tarde, ele nunca teve o compromisso com a preservação da intimidade das estrelas com que teve o prazer de cruzar o caminho. Por isso assistimos um filme raro, que revela na mesma proporção as qualidades e os defeitos dos astros focados pela produção.

Marilyn aparece como uma atriz que tinha problemas em embarcar em uma personagem. O filme se passa em um momento da carreira da diva em que ela tinha embarcado com tudo no “método” de interpretação visceral de Lee Strasberg. Tanto que ela aparece sempre acompanhada por Paula Strasberg no filme, com quem ele foi casado até 1966, quando ela morreu de câncer.

Interessante, aliás, o “choque” entre duas formas muito diferentes de encarar o trabalho do ator no cinema. Enquanto Marilyn, ao lado de Paula, defendia uma interpretação que partisse do “íntimo” do ator, que exigisse que ele embarcasse no personagem após entendê-lo e “vivenciá-lo”, Sir Laurence Olivier achava tudo isso uma bobeira. Ele sabia, aliás, que The Prince and the Showgirl seria apenas mais um filme “pastelão”, uma história de amor escrachada, com uma boa dose de humor, pensada para faturar bastante e agradar ao público.

Ele estava preocupado em cumprir o horário de filmagens proposto, e fazer o melhor trabalho em mais um produto da indústria. Marilyn não, ela não se encaixava nos horários e não encontrava o tom da personagem. E ainda assim, o próprio Olivier admitiria, ela se saiu muito melhor que ele.

E eis uma das qualidades de My Week with Marilyn: o filme consegue mostrar todo aquele magnetismo e presença de cena da atriz. Não é uma tarefa fácil. Até porque, para muita gente, nunca houve uma atriz como Marilyn. Ainda assim, a atriz Michelle Williams vence o desafio de interpretar mulher tão inigualável com louvores.

Mas o filme não mostra apenas as qualidades da loira platinada mais famosa de Hollywood. Simon Curtis mostra com dedicação, e sem deixar o filme piegas, a fragilidade de Marilyn Monroe. Fica evidente a dependência dela de medicamentos para dormir, por exemplo, e também por elogios das pessoas que a cercavam. Ela tinha uma grande necessidade de sentir-se amada, o filme deixa a entender, assim como de sentir-se segura. Parecia estar sempre pedindo aprovação. Isso acontecendo na vida íntima de Marilyn, ela conseguia esbanjar confiança e sensualidade na frente das câmeras e do públicos que a perseguia por onde ela fosse.

Apesar desta aparente alta carência, Marilyn também sabia muito bem o efeito que tinha no público, especialmente nos homens. Interessante como My Week with Marilyn consegue, ao mesmo tempo, mostrar os bastidores de um filme estrelado por grandes atores e atrizes e explorar tanto a intimidade da protagonista.

Já ficou famosa a cena em que ela, acompanhada de Colin Clark no ex-colégio de seu novo queridinho, pergunta para ele se aquele é o momento de Marilyn – a personagem – entrar em cena. Ela sabia interpretá-la muito bem, entrou no papel com afinco – talvez utilizando o método de Strasberg. E algumas vezes entrava em crise ao confrontar os seus desejos reais com aqueles que deveriam ser da “personagem”.

My Week with Marilyn tem um ótimo ritmo e um roteiro muito bem escrito, que equilibra os bastidores do cinema com os dramas pessoais dos personagens principais desta história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Algumas cenas, claro, são difíceis de acreditar, como aquelas em que Marilyn parece um verdadeiro desastre nas filmagens. Mas são compreensíveis, por exemplo, as sequências dela com Clark, já que ele parecia a única pessoa autêntica e confiável naquele cenário de estrelas muito centradas em si mesmas. Importante lembrar que este filme é baseado em fatos reais e não, necessariamente, um retrato fidedigno do que realmente aconteceu. Um pouco de fantasia deve fazer parte da história – seria compreensível Clark ter aumentado alguns “contos”. 🙂

Apesar de ter um ritmo adequado e a duração exata, My Week with Marilyn só não é perfeito porque deixa um gosto de “quero mais”. Talvez ele pudesse ter um pouco mais de tempo e aprofundar-se naquelas pessoas que circulavam ao redor da diva. Quem não acompanha um pouco os bastidores do cinema pode ficar um pouco perdido e não fazer as ligações necessárias entre Marilyn e Paula Strasberg, por exemplo, ou entre Olivier e Vivien Leigh, entre outros.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O método de interpretação para atores de Lee Strasberg fez história. Ele fundou, em 1947, o famoso e respeitado Actors Studio, para a formação de intérpretes. E foi um nome fundamental para os tempos áureos de nomes como James Dean, Marilyn Monroe, Montgomery Clift, Paul Newman, Al Pacino, Robert De Niro e Marlon Brando, entre outros. Todos seus alunos. Mas o trabalho dele também rendeu polêmica, especialmente pela proximidade da família Strasberg de Marilyn. A atriz deixou grande parte de sua herança para eles.

Norma Jeane Mortenson atuou em 33 filmes, incluindo o incompleto Something’s Got To Give, de 1962, dirigido por George Cukor e que tinha Dean Martin e Cyd Charisse no elenco. O filme nunca foi terminado porque Marilyn morreu no dia 5 de agosto de 1962, quando ele estava sendo filmado. Aliás, este ano completa cinco décadas da morte da atriz. E várias homenagens, como exposições fotográficas, já começaram a ser feitas em memória da diva.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre Lee Strasberg, neste texto da Wikipédia, em inglês, há várias informações interessante sobre o ícone da escola de interpretação. E neste outro, há mais informações sobre o “método” ensinado por ele.

Tudo em My Week with Marilyn funciona bem. Mas merece destaque a deliciosa trilha sonora, assinada por Conrad Pope, fundamental para dar leveza e ritmo para a produção, e a excepcional direção de fotografia de Ben Smithard. Ele consegue reforçar a ideia de “volta ao passado” com uso de lentes que destacam cores terrais, sépia e românticas durante toda a produção. Um belo trabalho. Muito boa também a edição de Adam Recht.

Uma curiosidade interessante desta produção: Kenneth Branagh interpreta a Laurence Olivier, ator que, como Branagh, atuou ou dirigiu três produções baseadas em obras de William Shakespeare. A saber: Othello, Hamlet e Henry V.

Emma Watson me surpreendeu neste filme. Se ela seguir com esta levada, poderá superar a personagem de Hermione Granger dos filmes de Harry Potter com certa facilidade. Ela mostrou talento e carisma na produção. Conseguiu um feito difícil: aparecer quase tão bem nas cenas quanto Michelle Wiliams como Marilyn. Também gostei muito do trabalho de Eddie Redmayne, que já havia feito um trabalho excelente em Savage Grace. Esse garoto vai longe, especialmente se continuar escolhendo bem os seus papéis.

Outra curiosidade da produção: as reconstituições de cenas de The Prince and the Showgirl foram rodadas no mesmo estúdio onde o original foi filmado.

Michelle Williams ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Comédia ou Musical este ano por seu trabalho neste filme. Marilyn Monroe recebeu o mesmo prêmio em 1960 por seu trabalho em Some Like It Hot. Por outro lado, Williams foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz, algo que Monroe nunca conseguiu.

My Week with Marilyn teria custado 6,4 milhões de libras. No Reino Unido, até o dia 5 de fevereiro, a produção havia arrecadado quase 3,1 milhões de libras. Nos Estados Unidos, onde Monroe fez a sua carreira, a produção foi muito melhor, arrecadando quase US$ 10,46 milhões até o dia 8 de janeiro.

Esta produção estreou no Festival de Nova York no dia 9 de outubro de 2011 e, depois, passou por outros seis festivais. Nesta trajetória, ganhou 14 prêmios e foi indicado a outros 31, além de concorrer em duas categorias do Oscar. Doze dos 14 prêmios que o filme recebeu foram para Michelle Williams. Merecidíssimo, devo dizer. Os outros premiados foram o ator Kenneth Branagh, como melhor ator coadjuvante segundo o London Critics Circle Film Awards, e o elenco da produção vencedor do prêmio Capri, de Hollywood.

Buscando ser o mais fiel possível com a realidade retratada na história, My Week with Marilyn foi totalmente rodado no Reino Unido. Entre outras cidades, foram feitas cenas em Londres, Hatfield, Saltwood e Windsor.

Marilyn Monroe estreou nos cinemas emprestando a sua voz para a personagem de uma telefonista no filme The Shocking Miss Pilgrim, quando ela tinha 21 anos. No mesmo ano, em 1947, ela fez a primeira aparição em um filme de Hollywood em uma ponta em Dangerous Years. No ano seguinte, ela faria o primeiro papel de destaque em Ladies of the Chorus. E a partir daí, o resto é história. Em 15 anos de carreira, ela participou de 33 produções – sendo uma delas inacabada.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para o filme. Uma boa avaliação, para os padrões do site. Mas os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 130 críticas positivas e 25 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,2 – esta sim, igual a do IMDb.

My Week with Marilyn foi indicado ao Oscar de Melhor Atriz, para Michelle Williams, e para Melhor Ator Coadjuvante, para Kenneth Branagh. Não levou nenhum dos dois, porque os vencedores deste ano, nestas duas categorias, foram Meryl Streep e Christopher Plummer, respectivamente. Mas ao assistir a My Week with Marilyn e The Help, percebi como a categoria de melhor atriz foi muito concorrida este ano. Mais do que as de ator e de atores coadjuvantes.

Este filme foi co-produzido pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido.

CONCLUSÃO: Simplesmente fantástica. Michelle Williams mergulha de uma maneira na interpretação de Marilyn Monroe que, algumas vezes, não conseguimos distinguir a imagem de uma ou de outra. Uma pena que o Oscar deste ano não pudesse ser entregue para mais de uma atriz. Porque Williams merecia a estatueta tanto quanto Meryl Streep. Ela é a alma de My Week with Marilyn. Mas também impressiona o elenco formidável que aceitou aparecer nesta produção. Não há desempenhos ruins em cena. E o roteiro, narrado sob a ótica de um grande admirador da Sétima Arte que batalha por um espaço nos bastidores de uma grande filmagem, nos aproxima daquela história. Provoca empatia, ao ponto de sermos envolvidos naquele enredo como se nós mesmos estivéssemos na pele do protagonista. O roteiro é inteligente, os atores ótimos, e a direção de Simon Curtis acerta no tom, focando sempre os melhores ângulos de cada cena e valorizando o trabalho dos atores. Um recorte interessante sobre um momento específico da diva, que merecia esta aproximação em um filme sem grandes pretensões. E que, por isso mesmo, se mostra tão interessante.