American Hustle – Trapaça


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Hollywood gosta de um certo tipo de filme. Aquele que retoma as músicas, as roupas e todo o estilo marcante dos anos 1970 e início dos anos 1980. Várias produções recentes focam naquele período, e American Hustle aparece para aumentar esta lista. Quando encarei esta produção, tinha visto como críticos e público dos Estados Unidos tinham se animado com o filme. Também não consegui ignorar as indicações de American Hustle para o Golden Globes e a presença do filme em várias bolsas de aposta para o Oscar. E daí que após assisti-lo, posso dizer: é bom, mas parece muito com tudo que eu já vi antes.

A HISTÓRIA: Uma mensagem avisa que parte do que veremos, de fato, aconteceu. No dia 28 de abril de 1978, no Hotel Plaza, em Nova York, um sujeito com uma boa barriga saliente veste uma camisa, gasta bastante tempo arrumando o cabelo – não é fácil transformar uma careca em cabeleira -, coloca o óculos escuro e se prepara para o que virá em seguida. Na sequência, ele entra em um quarto em que homens monitoram câmeras e gravações que estão registrando tudo o que acontece na suíte próxima.

Quando se vira, este homem, Irving Rosenfeld (Christian Bale) vê a parceira, Sydney Prosser (Amy Adams) entrar no local em um belo vestido. Eles se olham, mas não falam nada. Em seguida, entra no local Richie DiMaso (Bradley Cooper), que confronta Irving. Richie quer saber porque ele anda falando dele “pelas costas”, afirmando que Richie está ameaçando a operação. Irving reclama de como tudo está caminhando. Em seguida, eles se encontram com o prefeito Carmine Polito (Jeremy Renner), que não gosta nada quando Richie lhe repassa uma maleta. Irving acaba tendo que correr atrás de Carmine e tenta, mais uma vez, fazer de tudo para sobreviver.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a American Hustle): Esta é uma destas produções que se revela rapidamente. Não há dúvidas sobre os elementos que vão interessar até o final da história. A caracterização dos personagens, incluindo um figurino de tirar o chapéu (desculpem o trocadilho), e o envolvimento dos atores com a história são artigos preciosos e valorizados desde o primeiro minuto. Em seguida, surge a trilha sonora, que vai revelar-se o ponto mais forte de American Hustle.

Desta vez, vou direto ao ponto nesta crítica: American Hustle começa muito bem. Tem ritmo, tem o encantamento de uma produção feita com esmero e preocupação nos detalhes. Sem contar que interessa pelo grande elenco. Mas depois de 30 minutos de filme, a impressão que eu tive – e que perdurou até o final – foi: “acho que já vi esta história antes”. Não igualzinha, evidentemente. Sempre há novos elementos em roteiros inéditos. Mas a essência da história já era conhecida. E nada pior, em uma “corrida” de expectativas pelo Oscar, do que ver a um filme quase “requentado”.

Por um lado, American Hustle lembra a várias produções recentes que recuperam o visual e a “alma” dos anos 1970/1980. Para ficar apenas em alguns exemplos, Boogie Nights, Lovelace, Almost Famous e Jobs. Depois, que já virou um clássico os filmes sobre golpistas que, nesta produção, ganha um novo “atrativo” com o acréscimo de outro lugar-comum: o último “golpe” que vira uma exigência antes da tão almejada liberdade. Ou, em outras palavras, a pressão para que os criminosos pratiquem um último crime para retomar a vida e não serem condenados e/ou mortos.

No fim das contas, esta é a história de American Hustle. Uma duplas de golpistas – ou de “trapaceiros”, com o título no mercado brasileiro sugere – deve ajudar um agente do FBI para que eles sigam em liberdade. Quem já assistiu a alguns filmes do gênero pode presumir onde isso vai parar, correto? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Normalmente, com este cenário posto, só resta duas alternativas: ou a dupla de bandidos se dá mal e morre (o que é difícil de acontecer aqui porque eles são apenas golpistas e não estão habituados a “matar ou morrer”), ou eles dão a “reviravolta” no golpe. Por saber disso, não foi nada surpreendente o final.

Para quem gosta de filmes sobre golpes, há produções relativamente recentes comentadas aqui no blog e que podem interessar, como Flawless e The Prestige. Mas voltemos a American Hustle. Para mim, o filme teve um grande interesse até o momento em que Richie DiMaso entrega o cheque de US$ 5 mil, a comissão dos golpistas, para Edith Greensley (identidade falsa que Sydney assume ao fazer parceria com Irving). A partir dali, ele só foi perdendo a graça.

Quer dizer, impossível American Hustle perder totalmente a graça com aquele desfile de figurinos maravilhosos e com aquele trilha sonora digna de compra em uma loja virtual. Sem dúvida alguma estes são os pontos fortes do filme que, junto com a atuação do elenco estelar, ajudam a fazer a gente engolir a história, um bocado previsível e que fica arrastada do meio para o final. Porque sem dúvida o roteiro de Eric Singer e do diretor David O. Russell não é o que alimentará os pensamentos do espectador depois que o filme terminar.

American Hustle é destas produções que vai agradar pela roupagem, pelo visual. O estilo do filme, incluída aí a direção competente e firme de Russell, fazem a diferença. E os atores também mostram porque estão entre os mais badalados e interessantes da atualidade. Todos estão muito bem. Christian Bale convence no papel do patético, mas inteligente e confiante Irving; Bradley Cooper transpira autoconfiança e uma certa arrogância como o policial pronto para fazer as prisões de sua carreira; Amy Adams está sensual e frágil na medida certa como a mulher com “pés no chão” que sabe seduzir para sobreviver; e Jennifer Lawrence… ah, Jennifer Lawrence!

Parece incrível dizer isso, tendo os outros três astros em cena, mas sempre que Jennifer Lawrence aparece em American Hustle ela rouba toda e qualquer atenção. Dá um show. Mesmo com Amy Adams sendo competente, não há espaço para lembrarmos dela quando Jennifer Lawrence aparece. E nem me refiro à beleza. Falo de talento mesmo. Fiquei impressionada logo nos primeiros minutos da atriz em cena pela forma com que ela assumiu o personagem da mulher que sabe impor a própria vontade sobre tudo e todos. Ponto forte do filme entre as atuações.

Além do elenco principal, American Hustle se dá ao luxo de ter nomes fortes em papéis “menores”. Para começar, Jeremy Renner em um papel diferente do que estamos habituados em vê-lo. Depois, temos Louis C.K. como Stoddard Thorsen, o chefe imediato de Richie; Michael Peña em quase uma ponta como o agente Paco Hernández/Sheik Abdullah; Alessandro Nivola como o superior de Stoddard, Anthony Amado; e Elisabeth Röhm como Dolly Polito, mulher do prefeito enredado na cilada dos protagonistas. Isso apenas para citar os nomes mais conhecidos.

Mas há espaço para a defesa do filme. Alguém pode dizer que ele se revela interessante porque toca na fragilidade de algumas investigações do FBI e da ânsia de alguns de seus agentes para pegar poderosos – cometendo deslizes éticos no caminho. Há também quem possa ver na história uma interessante narrativa sobre a corrupção que parece assolar todas as esferas públicas de governo. Mas a verdade é que eu não vi grande novidade por estes lados também.

Afinal, em termos de denúncia de corrupções e afins, The Departed e Public Enemies, por exemplo, me parecem ser mais enfáticos e criativos que American Hustle. Ainda que eu ache que o grande objetivo não era nem esse. Me parece que joga um papel mais importante na história os diversos interesses que podem dividir um homem – no caso, o protagonista Irving Rosenfeld. Tudo gira ao redor dele. Há o núcleo da família de Irving, com a genial mulher dele, Rosalyn, e o filho Danny (interpretado pelos gêmeos Danny e Sonny Corbo), representando a típica classe média da época; há a sagaz e sensual Sydney/Edith, uma sobrevivente que se identifica com o jogo de cintura do protagonista e se envolve verdadeiramente com ele; e há todo o restante dos personagens secundários que giram em torno deles – como políticos, empresários e a equipe do FBI.

Irving está dividido entre a forte ligação e o modelo familiar que ele desenvolveu com Rosalyn e a exigência cada vez maior de comprometimento de sua “alma gêmea” Sydney. Tudo vai bem até que os golpistas são pressionados pelo investigador Richie. A partir daí, tanto a vida profissional quanto a particular de Irving são afetadas e ele deve assumir uma posição.

Esta história particular acaba tendo um protagonismo muito maior do que todo o enredo sobre o envolvimento da máfia dos cassinos (e das drogas, jogos e etc) com políticos, a entrada de fortunas nos EUA com a chegada de estrangeiros atrás de favores para facilitar o acesso a um dos países mais prósperos do mundo, ou mesmo a preocupação de algumas figuras do FBI em conseguir uma operação que possa lhes dar fama e espaço nos holofotes. Tudo isso acaba sendo quase secundário frente ao triângulo amoroso de Irving, Rosalyn e Sydney – que ganha um elemento de “competição” (bem entre aspas) com a entrada de Richie na história.

Agora, acho importante comentar sobre alguns pontos que podem parecer confusos. Digo isso porque, para mim, ao menos, eles quase foram motivo de confusão. Afinal, qual era a “trapaça” dos protagonistas? Irving tinha uma rede de lavanderias, mas a principal fonte de recursos dele era a venda de obras de arte roubados ou falsificadas e, principalmente, o golpe com empréstimos falsos.

Ele garantia ter ótimo contatos e que poderia conseguir empréstimos para pessoas que tinham o crédito recusado nos bancos mas, no fim das contas, ele não tinha contato algum e nem conseguia os prometidos empréstimos. Independente de conseguir ou não quantias como US$ 30 mil ou US$ 50 mil para pessoas desesperadas, ele sempre cobrava a “taxa de administração” de US$ 5 mil – recurso não reembolsável, independente do resultado da “intermediação” dele. Na prática, como Sydney vai entender rapidamente, ele nem ao menos tentava ajudar aquelas pessoas – apenas tirava o dinheiro delas.

Richie vê a oportunidade de usar Irving e Edith/Sydney quando percebe que eles são golpistas. Em troca de deixá-los em liberdade, ele pede que eles utilizem a rede de contatos que tem para que ele, através do FBI, possa combater o “crime do colarinho branco”. Em outras palavras, chegar a gente poderosa e desmantelar a lógica do suborno. O prefeito Carmine, que é o típico político cheio de boas intenções e que abre mão de agir dentro da lei para conseguir o que considera bom para a cidade, entra no conto falso de que há um Sheik árabe com muito dinheiro querendo investir pesado na cidade.

Intermediando alguns contatos, que vão desde a máfia até congressistas e um senador, Carmine pensar estar garantindo um investimento que irá reformar Atlantic City. Ele não ganha dinheiro em momento algum. Inclusive fica ofendido quando lhe sugerem o recebimento de uma pasta suspeita. Há muitos políticos como ele, que acreditam que os “fins justificam os meios”. No Brasil mesmo… temos muitos. Vide o Mensalão. Mas no fim das contas, não importa quais são os fins se você se sujar inteiro para conseguir, passando por cima de leis e ajudando pessoas sem escrúpulos no caminho, não é mesmo? Irving tem um olhar de compreensão para Carmine mas, ainda assim, ele segue com os planos.

Essa ideia de trapaça ou golpe pode ser entendida também para a ação do FBI. Afinal, eles engendram todo um esquema mentiroso para pegar os políticos corruptos e desmascarar parte do problema. Mas como Irving mesmo diz, em certo momento, questionando Richie, afinal de contas que “peixe grande” ele pegou neste processo? Muitas vezes são pegos os corruptos, mas o que é feito com os corruptores? Na maioria das vezes – ou sempre -, nada. E isso acontece aqui, porque a história toda era falsa.

E daí que, no fim das contas, você fica fascinado com a trilha sonora, com os figurinos e com os atores, mas não dá grande importância para a história. Para mim, que acho o roteiro um elemento fundamental para um filme ser excelente ou não, ficou faltando qualidade no texto. Isso até não incomodaria tanto se não estivéssemos falando de um dos grandes concorrentes ao Oscar, em uma disputa para escolher o melhor filme lançado nos EUA em 2013. Francamente, comparado a outras produções desta safra e à expectativa que eu tinha com o burburinho a seu respeito, American Hustle deixou a desejar.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei curiosa para saber um pouco mais sobre “a história por trás desta história”. Já que no início do filme ficou sugerido que American Hustle tinha um quê de realidade… E daí que achei este texto elucidativo do The Washington Post. De acordo com o jornalista Richard Leiby, a produção dirigida por David O. Russell é inspirada na megaoperação anticorrupção do FBI chamada Abscam. Ela veio à tona em 1980 e envolvia, de fato, “sheiks árabes falsos, mafiosos reais, políticos locais corruptos, congressistas dos EUA”. E com um detalhe: tudo filmado.

Ainda conforme o texto do The Washington Post, o ex-supervisor do FBI John Boa foi quem supervisionou Abscam entre 1978 e 1980, tempo de duração da operação que terminou com a prisão de seis congressistas e um senador por suborno e conspiração. Na época em que as prisões aconteceram e o caso veio à público, Abscam foi considerado “o maior escândalo de corrupção política na história do FBI”. Isso porque o trabalho teria envolvido mais de 100 agentes.

Além destes agentes do FBI, a operação teria contado com a participação fundamental do vigarista Melvin Weinberg, informante dos agentes federais que recebia US$ 3 mil por mês, além de bônus, para ajudar em Abscam. Achei engraçada a declaração que o verdadeiro Irving Rosenfeld (na realidade, Melvin Weinberg) deu para o escritor Robert W. Greene: “Eu sou um trapaceiro. Há apenas uma diferença entre mim e os congressistas que conheci em Abscam. O povo lhes paga um salário para roubar”. E não é isso o que todos nós fazemos com tantos políticos? 🙂

Achei interessante que além de resgatar informações históricas sobre Abscam, o texto do The Washington Post comenta sobre o quanto de American Hustle se parece com a história real. De acordo com Leiby, “os momentos em American Hustle que possuem maior verossimilhança são aquelas recriações de vídeos de baixa resolução em preto e branco obtidos com câmeras escondidas”. Ou seja, quase nada do filme é fiel com Abscam.

Há vários elementos técnicos que funcionam bem nesta produção – como pede um grande projeto de Hollywood. Ainda que o figuro seja digno de muitos elogios e deslumbre a qualquer espectador, não tenho dúvidas que a trilha sonora é o que mais me marcou. Achei impecável, uma das melhores que eu ouvi em filme nos últimos tempos. Daí que fiquei pensando que ela deveria ser indicada ao Oscar. Mas não.

Vale lembrar que apenas trilhas sonoras originais concorrem a uma estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Em original eles querem dizer produzida exclusivamente e especificamente para um filme. E como American Hustle tem uma seleção impecável de músicas mas, ainda assim, apenas uma seleção e não uma composição específica, o filme não vai ser indicado nesta categoria para o Oscar. Mas garanto para vocês que a trilha merece ser procurada.

Falando nos figurinos do filme, achei este texto interessante do New York Post que fala, especificamente, sobre a dificuldade de trabalhar com o vestuário dos anos 1970 em produções que retratam esta época. Gostei do material de Faran Krentcil especialmente porque ali encontramos um apanhado geral de outras produções que buscaram estas referências. Vale a leitura.

Da parte técnica do filme, destaco, além da trilha sonora de Danny Elfman e do figurino de Michael Wilkinson, o bom trabalho do diretor David O. Russell. Ele é um sujeito que sabe dar estilo e dinâmica para os seus filmes, com algumas sequências arrebatadoras – aquela em que Rosalyn detona o marido para o filho é a melhor da produção para mim – em American Hustle. Muitas vezes, Russell deixa a trilha sonora tomar conta da produção, valorizando os astros que tem em suas mãos, assim como o restante do trabalho da equipe técnica. Decisões inteligentes. Ainda assim, do meio para o final, o filme perde em ritmo e fica um pouco cansativo. Mas esses são problemas do roteiro que, algumas vezes, pela verborragia, lembra o estilo Tarantino – mas sem a qualidade dele.

Outros elementos que valem ser mencionados: a direção de fotografia de Linus Sandgren; a edição do trio Alan Baumgarten, Jay Cassidy e Crispin Struthers; e principalmente o design de produção de Judy Becker; a direção de arte de Jesse Rosenthal e a decoração de set de Heather Loeffler – estes últimos três ajudam a nos ambientar no tempo da história com a mesma eficácia que o figurino e a trilha sonora.

American Hustle teria custado aproximadamente US$ 40 milhões. Uma pequena fortuna, e suficiente para fazer oito Dallas Buyers Club (filme comentado aqui no blog), por exemplo. Segundo o site Box Office Mojo, até hoje, dia 12 de janeiro, American Hustle teria conseguido quase US$ 101,6 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e mais US$ 17 milhões nos outros mercados em que já estreou. Ou seja: vai conseguir se pagar e obter algum lucro.

Esta produção estreou no dia 12 de dezembro na Austrália e, no dia seguinte, de forma limitada, nos Estados Unidos, onde estrou para valer uma semana depois. No dia 14 de dezembro American Hustle participou do único festival no qual marcou presença até agora, o Festival Internacional de Cinema de Dubai.

Até o momento American Hustle ganhou 32 prêmios e foi indicado a outros 76. Entre as indicações, estão sete no Golden Globes. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o AFI Awards como Filme do Ano; para seis prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Jennifer Lawrence, assim como cinco para o grupo de atores como Melhor Elenco. Além de ser indicado a sete Golden Globes, American Hustle foi indicado a nove prêmios BAFTA. ATUALIZAÇÃO (13/01/2013): O Golden Globes acaba de ser entregue. American Hustle ganhou como o Melhor Filme – Comédia ou Musical, além dos prêmios de Melhor Atriz para Amy Adams e Melhor Atriz Coadjuvante para Jennifer Lawrence. A primeira, para mim, foi surpreendente. Lawrence sim, mereceu! Ela arrasa toda vez que aparece. Adams está em mais um bom trabalho, mas nada que saia da curva esperada. Foi muito bem no prêmio.

Agora, uma curiosidade sobre este filme: a cena da briga entre Christian Bale e Jennifer Lawrence no quarto foi improvisada. Ela não estava prevista no roteiro, mas como os atores estavam com um pouco de dificuldade de se conectarem com aquelas falas, o diretor resolveu deixar eles fazerem “do seu jeito”.

E eu ia quase terminando este post sem comentar a ponta mais luxuosa da produção: Robert De Niro faz um mafioso (claro!) chamado Victor Tellegio, que sempre está preocupado em uma rota de fuga e que gosta de parecer um “fantasma”, destes que ninguém vê.

Voltando para as curiosidades sobre a produção… Inicialmente a produção teria o título de American Bullshit. Ela figurava em oitavo lugar na Black List de Hollywood em 2010. Essa lista traz os títulos de roteiros que não conseguem ser produzidos.

Os personagens de Christian Bale, Bradley Cooper, Amy Adams, Jeremy Renner, Jennifer Lawrence, Louis C.K. e Robert De Niro foram escritos por David O. Russell pensando especificamente em cada um destes atores.

No início dos anos 1980 o diretor Louis Malle adaptou a história de Abscam em um roteiro, prevendo ter Dan Aykroyd e John Belushi como um agente do FBI e um vigarista, respectivamente. Mas a morte de Belushi em 1982 fez com que o projeto fosse abandonado.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Teria sido ideia de Amy Adams que Jennifer Lawrence lhe tascasse um beijo no banheiro.

A seleção musical é impressionante. Entre outras, canções de Duke Ellington (especialmente “homenageado” pelo filme), Jack Jones, Frank Sinatra (que tinha que fazer parte de uma produção sobre mafiosos), Ella Fitzgerald, Donna Summer, Tom Jones, Elton John, The Temptations, Santana, The Bee Gees e David Bowie. E para embalar a melhor sequência do filme, Live and Let Die, escrita por Paul McCartney e Linda McCartney e interpreta pelos Wings.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para American Hustle. Achei ela bastante justa. Eu também pensei em dar um 7,8, por aí, mas pelo conjunto da obra deste filme decidi ser um pouco “generosa”. Apesar do roteiro fraquinho. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 215 textos positivos e apenas 17 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,2.

American Hustle é uma produção 100% dos EUA – o que engrossa a lista de filmes comentados por aqui e que satisfaz a uma votação feita no blog.

CONCLUSÃO: Gosto muito de ver a grandes atores em cena. E este filme… bem, uma das principais qualidades de American Hustle é o elenco estelar escalado para a produção. Mas o problema do filme é que ele surge em uma história recente de filmes feitos em Hollywood que resgatam a “alma” das décadas de 1970/80. Isso não seria um problema se a história fosse surpreendente. Mas nem o roteiro, que começa tão bem, consegue segurar o interesse até o final.

E daí que elementos como o elenco, a trilha sonora e o figurino acabam se destacando ainda mais – já que a história, por si só, não se revela tão instigante assim. American Hustle é destes filmes bem produzidos e que sempre será destacado nas premiações, mas que no final das contas não traz nenhuma grande história ou mesmo surpreende o espectador. Pelo contrário. Passatempo interessante, especialmente pela trilha sonora. E só.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Dentro de poucos dias vamos saber com quantas indicações American Hustle vai chegar no Oscar. No dia 16 sai a lista dos filmes com chances de ganhar estatuetas. Acompanhando as bolsas de apostas e os comentários dos especialistas dos Estados Unidos, percebi pouco a pouco como esta produção foi crescendo. Ela pode – e deve – ser indicada em várias categorias. Mas duvido muito que ganhe a maioria delas.

Na aposta dos críticos, o filme pode ter entre 10 e 12 indicações ao Oscar. Incluindo as categorias principais e as de caráter mais técnico. Francamente, acho mesmo que ele pode chegar a esse número – sendo otimista e também um pouco realista, já que a produção tem crescido nos últimos tempos.

Não será difícil para American Hustle ser indicado como Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Design de Produção, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Cabelo. Mas nestas categorias e nas demais em que pode chegar, o filme terá que disputar a quarta ou quinta vaga com outras produções em pé de igualdade – com exceção de Melhor Filme, onde podem ser indicados até 10 títulos.

Em outras categorias, como Melhor Ator e Melhor Atriz, o caminho de American Hustle é mais difícil… mas tudo vai depender do lobby e da força que o filme conquistou nos últimos tempos para colocá-lo em lugares que não eram tão previstos assim. Mas acho que seria uma grande surpresa se o filme conseguisse várias estatuetas. Meu palpite é que ele tem reais chances em Melhor Atriz Coadjuvante, para Jennifer Lawrence, e Melhor Figurino.

Talvez ele possa surpreender em Melhor Ator Coadjuvante, para Bradley Cooper, mas acho complicado – porque ele terá pela frente Michael Fassbender (12 Years a Slave, comentado aqui no blog) e Jared Leto (Dallas Buyers Club), que estão melhores em seus papéis, entre outros concorrentes. E até mesmo Jennifer Lawrence tem uma tarefa inglória, porque ela compete com Lupita Nyong’o (fantástica em 12 Years a Slave) e outros nomes fortes de filmes que eu ainda não assisti. Tarefa complicada para American Hustle ganhar alguma estatueta este ano! Logo veremos…

9 comentários em “American Hustle – Trapaça

  1. Confesso que se não tivessemos nesse filme esse elenco, inclusive os que tiveram pequena participação, e uma reprodução impecável da época, seria apenas um filme bem mais ou menos!
    Gosto dos filmes de Russell, principalmente “Três Reis” e “O Vencedor”, e ano passado concorreu ao Oscar com “O Lado Bom da Vida”, que na minha opinião é apenas um bom filme, não diria que essa sequencia do diretor estariam entre os melhores dos respectivos anos, mas como cinema é diversão, “Trapaça” vale o ingresso.
    Grande abraço!

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  2. Acho que o figurino de American Hustle é muito mais autoral e bem trabalhado pelo figurinista que o do The Great Gatsby {Onde a mulher do diretor fez parceria com a Prada pra assim ganhar rios de publicidade, deixando sua figurinista muito puta da cara!}. Não estou falando que um é melhor que o outro esteticamente, já que uma coisa não tem nada a ver com a outra…

    Ficarei muito feliz se o American Hustle ganhar.

    Sou figurinista e cheguei ao seu blog procurando pelo figurino do American Hustle. Fiz uma análise dele no meu blog e lhe convido a passar por lá conferir!

    Beijo Grande desde Buenos Aires!
    Sucesso!

    Lígia

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